Emilie Richards



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Ele mal me olhava enquanto eu suplicava que reconsiderasse.

— Vá buscá-la agora, ou eu irei. Quanto antes ela se convencer de que não há nada a temer, melhor.

— Ian, por favor. Deixe Alice se acostumar com Duchess aos poucos...

— Vou buscá-la.

Eu não sabia para onde me voltar. Os empregados do estábulo haviam desaparecido discretamente ao primeiro som de vozes alteradas. Corri atrás de meu marido e o segurei pela manga.

— Ian, quer que sua filha o odeie? É isso o que quer? Que nós duas o odiemos?

Ele se voltou, o olhar gélido.

— Sou o homem desta casa, Louisa. Sei o que é melhor para Alice.

— Não tem de provar nada a ela, nem a mim, nem a ninguém. Ela é só uma garotinha. Só quer amar você...

— Sei o que está tentando fazer comigo.

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— Não sei do que está falando. Ele desvencilhou o braço.



— Quer que eu seja menos do que um homem. É o que todas as mulheres querem. Pois não conseguirá. Estou no comando aqui. É bom ter isso em mente de agora em diante. Porque não vou admitir...

Os olhos dele tornavam-se vítreos, como eu já testemunhara tantas vezes. Era mais um acesso de dor de cabeça, provocado pela ira. Corri para a casa, decidida a levar Alice para Sweetwater e mantê-la lá até Ian se acalmar. Ele ainda a obrigaria a montar em Duchess, mas eu tinha esperança de retardá-lo, para quando tivesse menos a provar.

Ian nos aguardava diante de casa, pálido e trémulo, mas ainda capaz de cumprir uma determinação.

— Entregue-me nossa filha.

— Por favor, por que não espera até se sentir mais forte? Vamos juntas ao estábulo visitar Duchess. Alice poderá lhe dar uma maçã...

Ian estendeu os braços. Eu poderia lhe entregar Alice, como se aprovasse, ou continuar resistindo, assustando-a ainda mais. Ele resolveu meu problema tomando-a de mim.

— Entre. Você só vai dificultar tudo.

— Mas não precisa ser difícil. Por favor...

Ele tomou o rumo do curral em que Duchess aguardava já selada. Alice começou a chorar, mas ele a ignorou. Não lhe dirigiu a palavra, nem tentou acalmá-la de forma alguma. Quando ela esperneou, sacudiu-a com violência. Ela gritou, e ele a sacudiu de novo.

— Pare, Ian! Vai machucá-la!

Ele parou, mas só para me empurrar. Caí no chão e, enquanto me levantava, ele entrou no curral.

— Não entre aqui! — advertiu ele. — Não me responsabilizo pelas conseqüências se você teimar.

Paralisei-me ante o gelo na voz dele. Fizera tudo errado. Se não tivesse interferido... Se não tivesse discutido...

Se não tivesse me casado com ele.

Mas lá estava meu marido, com nossa filha nos braços. Sua única filha. Seu legado.

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Ele ergueu Alice sobre o lombo do pónei e a ajeitou na sela. Pálida como nuvem de verão, a criança soluçava.

— Por que chora? — vociferou ele. — Responda!

— Vou cair...

— E daí? Cair do cavalo não mata, Alice. É só esse o seu problema?

A menina o fitava com olhos arregalados e aterrorizados.

— Vou cair... — Estendeu os bracinhos para o pai. Meu coração quase parou quando ele a tirou da sela. Ele não a abraçou, nem reconfortou. Simplesmente, deixou-a cair no chão. Ela se viu sentada aos pés dele.

— Está vendo? Cair não é nada. Cair não machuca ninguém. A menina soluçava convulsivamente agora. Tentou fugir, mas o pai a pegou de novo, ergueu mais alto e a deixou cair no chão outra vez.

— Ian, pare! Pare, ou mandarei os cavalariços o deterem! Ele deu uma gargalhada.

— Alegando o quê? Que não aprova meu jeito de ensinar minha filha a montar? Sou o melhor cavaleiro do condado. — Inclinando-se, pegou Alice, que agora berrava, e desta vez a arremessou contra o chão.

Entrei no curral, determinada a detê-lo. O solo estava macio após uma chuva rápida, mas Alice era pequena e delicada. Eu sabia que ela se machucaria. Pior, sabia que, mesmo que não se ferisse fisicamente, ela jamais se esqueceria dessa terrível provação. Segurei o braço de meu marido quando ele a pegou do chão novamente, mas ele me esbofeteou, com tanta força que fui parar longe. Então, ele colocou a menina sobre o pónei e, antes que eu o alcançasse, empurrou-a da sela para a terra outra vez.

Eu já gritava pedindo ajuda àquela altura, mas ninguém atendia. Afinal, eu era mulher, criatura notoriamente histérica.

— Iremos embora daqui, Ian! Pare, ou iremos embora daqui!

— Jamais passarão da porteira. E, se de algum modo conseguirem, eu as encontrarei. Tenho dinheiro e poder suficientes para tanto, não se esqueça disso.

— Não nos encontrará!

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Ele fincou em mim um olhar diabólico.



— Se não sair deste curral, não me responsabilizo pelo que acontecer com ela. Está ouvindo?

— Por favor... Por favor, pare!

Ele me golpeou novamente quando tentei pegar minha filha. Alice estendia os braços para mim, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Indiferente a minha luta, ele ergueu a menina e a atirou no chão de novo. A uma distância maior e com mais força. Foi quando entendi que, se não deixasse o curral, ele a mataria.

Ian mataria a filha para provar que era tão homem quanto seu pai fora.

Recuei horrorizada.

— Assim está melhor, Louisa — aprovou ele, pegando Alice do chão. — Mas ainda não estou satisfeito.

Saí correndo do cercado e fechei o portão.

— Vá para casa, Louisa.

Ouvindo os gritos de minha filha, corri para casa, rezando para que Ian cessasse a violência. Quando cheguei à varanda, não havia mais gritos.

Mas, só quando ele me devolveu Alice toda machucada e soluçante, descobri se ela parara de gritar porque o pai cessara o flagelo ou porque a matara.

Ian insistiu em que saíssemos a cavalo naquela tarde, apesar do vento gelado que soprava do norte, ele montado em Shadow Dancer, eu em Crossfire, Alice em Duchess. Era sua pretensão que esquecêssemos o desagradável incidente matinal, provando o quanto eu estava errada. Alice não dissera palavra desde que ele a levara de volta para casa. Quando a informei de que sairíamos a cavalo, ela apenas me olhou nos olhos. Eu sabia que não adiantava discutir com meu marido. Se resistisse, poderia provocar outra cena horripilante.

Tentei tranqüilizar minha filha enquanto a aprontava para o passeio.

— Não vamos longe. E Duchess é um amor de pónei, querida. Estarei bem a seu lado.

Ela me fitou com uma expressão que eu jamais vira antes

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em seu rostinho. Então, desviou o rosto. Não queria meu conforto.



Alice manteve-se surpreendentemente quieta quando Ian a colocou no lombo do pónei.

— Viu? — Ele recuou e deu um sorriso que me arrepiou até a medula.

— Você só provou que é maior e mais forte do que ela. Nada além disso.

— É bom que ela tenha isso em mente.

— Como não teria? Você jamais nos deixará esquecer. Eu já não temia ser estapeada, mas ele apenas deu de ombros e me ajudou a montar em Crossfire. Em um segundo, ajeitava-se na sela de Shadow Dancer.

Ele foi na frente a galope, voltando ou parando sempre que necessário para o alcançarmos. Devido ao clima, não podíamos nos afastar muito da casa. Dirigimo-nos ao rio, a uma área da fazenda em que se dera nossa última caçada. O vento uivava, mas o passeio transcorria relativamente tranqüilo, e rezei para que terminasse logo.

Shadow Dancer não se exercitara naquela manhã, e o adjetivo fogoso mal correspondia a seu comportamento. Perto do rio, Ian executou vários saltos, indo e voltando, a fim de gastar a considerável energia da montaria. O cavalo parecia se assustar com o vento, de orelhas em pé e narinas abertas. Ian o controlava com alguma dificuldade.

Concentrei-me em minha amada filha, incentivando-a e ajudando-a quando podia. Eu sabia, por sua atitude, que passara do medo para algo muito pior. Annie me contara que deparara com um coelho preso em uma armadilha quando criança. Imaginei o terror do animalzinho antes que Paul Symington o libertasse.

— Vamos dar passeios como este com mais freqüência — decidiu Ian, retornando mais uma vez, enquanto nos aproximávamos do rio. — Uma família perfeita. — A ironia transparecia em cada palavra. — Alice, endireite o corpo!

A menina empertigou-se, os olhos arregalados.

— Deixe-a em paz. — Avancei com o cavalo, deixando Alice atrás de mim. — Já não a torturou o bastante para

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um dia? Ela está aqui. Montada em Duchess. O que mais você quer?

— Quero um filho. Como isso é impossível, quero uma filha que não choramingue.

— Ela já é boa demais para ser sua filha!

A expressão dele fechou-se em fúria. Certas palavras atingem direto a medula, deixam cicatrizes tão profundas que não podem mais ser ignoradas.

Eu as encontrara.

Ian ergueu o chicote. Eu sabia que ele o estalaria em meus ombros. Mas, antes que realizasse o intento, ele deixou escapar um grunhido, paralisou o corpo e olhou fixamente à frente.

Shadow Dancer sentiu a mudança no dono e começou a pular. O vento já o perturbara ao extremo, e a súbita perda de controle de Ian o colocava fora de si.

Após um segundo de hesitação, vendo meu marido lutar com o cavalo, desmontei. Shadow Dancer recuou quando me aproximei. Tentei acalmá-lo, mas ele continuou se esquivando, até que lhe tomei as rédeas em um pulo. O couro escorregava entre minhas luvas, mas segurei firme.

Ian deixou o chicote cair no chão, e soltou as rédeas também. Apertou as mãos em torno da cabeça, cônscio do que acontecia, apesar da agonia. Shadow Dancer recuou mais, empinando-se nas patas traseiras, ao que Ian, consciente ou talvez instintivamente, agarrou-se a sua crina.

Alice gritou atrás de mim. Era um som que eu já ouvira muitas vezes. A súplica de minha filha aterrorizada. Mas não conseguia tirar o olhar de Ian, segurando Shadow Dancer, que empinou mais uma vez. Quando ele desceu, bem perto de meus pés, peguei o chicote de Ian no chão.

Soltei as rédeas e, diante de meu marido impotente, açoitei com força o flanco esquerdo de Shadow Dancer. O cavalo disparou pela mata em pânico. Enquanto eu assistia ao que fizera, Shadow Dancer saltou por sobre a cerca de quatro vigas à margem do rio Fox. Ian aterrissou encolhido na beira da água, enquanto a montaria galopava para longe. A julgar pela posição, gosto de pensar

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que ele morreu rápido, quando seu pescoço se partiu, sem saber o que lhe acontecera.

Mas lembro-me da expressão no rosto de meu marido ao se dar conta do que eu pretendia fazer. Cogito, às vezes, se imaginei o fugaz brilho de alívio em seus olhos. A consciência de que a luta dentro dele cessara, enfim.

Jamais saberei. A exemplo de muitas mulheres, talvez veja coisas que não estão lá. Talvez, desde o início, tenha visto em Ian Sebastian coisas que nunca existiram. Mas podem ter existido, afinal.

Coloquei Alice em minha sela e mandei Duchess para casa pelo bosque. Viajamos devagar, pois que não tinha certeza de que Ian estava morto. Aos empregados da fazenda, eu diria que meu marido decidira ir mais longe sozinho e deveria chegar por volta da hora do jantar. Não queria uma equipe de busca procurando por ele antes do anoitecer. Queria dar a meu marido tempo suficiente para morrer.

Alice não falou durante semanas, nem no funeral de Ian, quando foi enaltecido por todos que o conheciam. Nem depois, quando vendi Duchess e os cavalos de Ian, até não restar nenhum, nem mesmo Crossfire, que dei de presente a Etta Carrolton.

Quando Alice voltou a falar, nunca se referiu ao pai. Era como se Ian jamais tivesse existido para ela. Quanto a mim, eliminei todos os sinais possíveis da existência de Ian Sebastian. Fechei Rio Fox e proibi que se caçasse lá novamente. Então, fiz uma longa viagem a Chicago com Alice, para rever minha querida Annie, que finalmente se recuperava.

Não contei a minha prima tudo o que fizera, mas creio que ela adivinhou. Convidou-me para morar em Chicago, abandonando a fazenda Rio Fox a seus fantasmas e tristezas.

Contudo, estranhamente, eu não podia.

Agora, em certas manhãs de outono, acordo ouvindo os cães de caça a distância. Ao fitar o teto, quase sinto o ar gelado, a excitação da caçada, os momentos de voo no lombo de um grande cavalo branco.

Vejo o Mestre da Caçada em um orgulhoso garanhão

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negro, pronto para me arrebatar em seus braços e iniciar nossa vida de conto de fadas.



Levanto-me e vou ao quarto ao lado para ver se os latidos despertaram a filha do mestre. Ela está sempre acordada, sentada na cama, esperando que eu a tranqüilize.

Estarei lá por Alice, como não pude estar por seu pai.

Sempre.

Júlia fitava as chamas sem vê-las.



— Meu pai era um homem grande. — Fez pausa, como se contivesse lágrimas. — Tinha me esquecido, mas agora me lembro da sensação quando ele me carregava. Embora segura, não me atrevia a olhar para o chão, que parecia muito, muito distante. Se chorava, ele me apertava com mais força. Odiava que eu sentisse medo.

Maisy tremia. Agora que terminara a leitura, respirava ofegante.

— Ele tentou me ensinar a montar — recordou Júlia. — E me atirou no chão quando chorei. — Apoiou a cabeça nas mãos.

Maisy preparou-se para o que viria em seguida.

— Em que ponto percebeu que era a nossa história?

— Não sei. Não de início. Foi aos poucos. Acontecia tanta coisa paralelamente. E acho... acho que não queria saber.

— Você enterrou isso bem fundo dentro de si. Não queria se lembrar.

— Ele era um monstro!

— Seu pai podia ser cruel. Mas era também engraçado, gentil, charmoso. Eu ficava indecisa.

— Por que não me contou simplesmente? Por que teve de transformar todo o drama sórdido em um romance? Quanto do que escreveu é verdade e quanto é ficção?

— Boa parte é verdade. Eu o amava. Casei-me com ele. Havia um demónio dentro dele que poucas pessoas conheciam, mas que eu enfrentava com muita freqüência. Não preciso contar os detalhes.

— Não se casou na virada do século vinte, como Louisa. Não era uma estranha sem amigos. Era uma moça moderna, de Baltimore. Podia ter fugido.

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— Falar é fácil. Mas eu não era tão diferente de Louisa, e estava sozinha. Meus pais morreram quando eu era criança. A tia que me criou faleceu logo depois que me casei. Era pateticamente jovem e inocente, e amava Harry com uma intensidade incrível. Quando me dei conta do que fizera a mim mesma, a arapuca se fechou.



— Podia tê-lo abandonado.

— Eu não havia me formado, não tinha recursos financeiros. Aos poucos, ele convenceu a mim e todos que me conheciam de que eu era inútil. A boba da Maisy, a tonta da Maisy. Era terrível, uma coisa inacreditável, mas acontece com mais freqüência do que se imagina. Aconteceu comigo. Acreditei quando ele disse que eu jamais sobreviveria sozinha, Júlia, e ele me ameaçava. Tinha uma inestimável coleção de armas. Ordenava que eu me sentasse na frente dele enquanto limpava qualquer uma delas, mirava em mim e fingia puxar o gatilho. Não tinha para onde fugir nem onde me esconder.

— Mas por que venerar a memória dele? Por que me contar a verdade sobre ele desse jeito? E agora?

— Enquanto você crescia, não vi motivo. Por que lhe contar que seu pai a tratara com brutalidade? Você não se lembrava. Por que fazer você odiá-lo? Então, comecei a bloquear, também. Perguntava a mim mesma se tudo acontecera de fato. Todos dizem que sou tola, avoada. Posso ter imaginado as piores partes. Talvez haja outras explicações. Não podia acreditar que não tivera nada de bom no meu casamento, só medo e aversão.

— E agora?

— Eram segredos e mentiras demais. Veja o que lhe fizeram. Eu analisava seu casamento com Bard e via que, de certa forma, você tinha escolhido um homem semelhante a seu pai. Às vezes, optamos pelo que é familiar, mesmo que não seja bom ou seguro. Bard tentava controlar você, não da mesma forma, mas variando sobre o mesmo tema. Finalmente, encarei o fato de que havia participado de uma conspiração, deixado você repetir os mesmos padrões, simplesmente por desconhecer os fatos.

Maisy levantou-se e se acomodou junto da filha.

— Sempre quis lhe contar. Só não sabia como.

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— Então, escreveu um romance.



— Júlia, Yvonne sabe de tudo. Ela recomendou que eu fosse com calma. Concordamos em que você deveria conhecer a verdade aos poucos.

— E o final?

Maisy torcia as mãos, mãos inúteis cobertas de anéis brilhantes. Mãos que não conseguiram proteger sua amada filha, por mais que se esforçasse.

— Aconteceu realmente. Açoitei o cavalo de Harry para aquele último salto.

Júlia meneou a cabeça.

— Lembro-me de um grito.

— Do meu. — Maisy estendeu a mão, mas não tocou em Júlia. — Seu pai morreu na hora, creio.

— E ele se alegrou por aquietar os demónios, enfim? Ou inventou isso?

— Não sei. Tratava-se de uma alma atormentada. Não acredito que ele quisesse ser como era.

Júlia estendeu a mão, e Maisy a tomou.

— Não espero que me perdoe — conformou-se a mãe. Júlia apertou a mão dela com força.

— Você se perdoou?

— Levei quase a vida toda.

— Eu tinha tanto medo de cavalos, de aprender a montar. Não obstante, amava-os.

— O amor lhe chegou naturalmente. O medo, no colo de seu pai. Você tem todas as qualidades de Harry, e nenhum dos defeitos. Superou o medo com tenacidade. Você a usa para o bem.

Júlia levou a mão da mãe ao rosto.

— Preciso ficar só. — Levantou-se e atravessou a sala. Voltou-se. — Maisy, Jack sabe?

— Não. Nunca contei a ninguém, exceto Yvonne.

— Vai mostrar a ele sua... ficção?

— Pretendo atirar o calhamaço no fogo.

— Boa ideia. — Júlia hesitou. — Mas devia escrever outra história. — Vacilou de novo. — Vai contar a Jake?

— Vou. Esta noite. Está esperando há quase tanto tempo quanto você para saber a verdade. Acho que a paciência dele se esgota.

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— Disse que não esperava que eu a perdoasse.



— E não espero.

— É legado de meu pai, também? Maisy não sabia responder.

— Sempre esteve lá por mim, Maisy. Sempre. Mas, até agora, nunca tinha percebido quanto.

Maisy observou a filha encontrar o caminho para fora da sala, a única filha de Harry Ashbourne. Queria acreditar que o Harry pelo qual se apaixonara, o homem no fundo da besta furiosa, se orgulharia da mulher que gerara.

De qualquer forma, orgulhava-se por ambos.

Meia hora depois, continuava sentada na poltrona, assistindo ao fogo morrer na lareira. No dia seguinte, recolheria as cinzas e as lançaria no córrego de Jeb Stuart. Harry o apelidara de rio Fox, por causa dos inúmeros esconderijos de raposa perto das margens.

— Rio Fox. O lugar onde sempre começa a caçada... Começou a chorar.

— Maisy?


Era Jack. Abriu os olhos e o viu ajoelhado a seu lado.

— Maisy, você está bem?

— Vou ficar. Juro que vou... Ele lhe tomou a mão.

— Vamos para a cama.

— Preciso lhe contar uma história.

— Agora?


— É. Quer ouvir?

Ele a tocou no queixo e fez erguer o rosto. Tinha os olhos mais ternos. Na primeira vez que os fitou, acalentou a esperança de ter encontrado um homem capaz de amá-la, finalmente.

Agora, aqueles olhos enchiam-se de preocupação.

— Sempre quis ouvir. Mas posso esperar o tempo que for necessário.

— Já esperou demais.

Ele se levantou e estendeu a mão. Ela a pegou e apertou contra o rosto, assim como Júlia fizera com a sua.

Em algum momento da noite insone, a porta do quarto de Júlia se abriu e pequenos pés descalços percorreram o chão.

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— Não consigo dormir. Posso ficar aqui com você? Nenhum pedido teria sido mais bem-vindo. Júlia foi para a beirada do colchão e abriu os braços para a filha.

— Claro, meu anjo. Mas qual é o problema?

— Maisy e Jake estão conversando.

— É?


— Bem baixinho. É esquisito.

— Eu sei. — Júlia estreitou Callie e lhe beijou os cabelos. Pensou em Christian e a acarinhou. — Divertiram-se na cabana?

— Demais! — A menina já estava sonolenta. — Eu te amo, mamãe.

— Também te amo. Durma bem.

Júlia não sabia que horas eram nem tinha esperança de conciliar o sono. Já chorara todo o estoque de lágrimas, mas as lembranças ainda ricocheteavam em sua mente. Não podia mais se dar o luxo de abrir os olhos para espantar as más recordações. A escuridão era sua companheira, à qual se juntava o passado, agora.

O calor do corpo de Callie começou a se infiltrar no seu. Pensou em Maisy, que se arriscara tanto, sofrera tanto. E em Callie, cujos desafios assomavam adiante. Pensou no pai que conhecera tão brevemente e no impacto terrível que ele causara em sua vida.

Presenciara a morte de Harry Ashbourne, porém não recordava nada além do grito de Maisy. A pequena ”Alice” se calara por meses, e temia que essa parte não fosse ficção, tampouco.

Na infância, ficara muda, e agora estava cega. Seu corpo expurgava os dramas trancados em sua cabeça. Não obstante, apesar de todos os seus defeitos e tormentos, era amada. Por Jake. Por Maisy. Por Callie.

Por Christian.

Por fim, adormeceu e sonhou estar a cavalo no bosque bem ao fundo do chalé de pedra, a contragosto rumo ao córrego de Jeb Stuart. Um gigante também montado a sua frente voltou-se e gritou algo que a fez estremecer na sela. De repente, o gigante saltou do lombo da montaria e ganhou os ares, batendo as asas como um grande abutre negro, até bloquear o sol com sua imensidão.



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