Emilie Richards



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CAPÍTULO XXXVI
Júlia ouviu um coro de vozes no corredor e reconheceu a de Christian, solo e forte. Levantou-se, porém temia se mover, pois não sabia o que tinha na frente. Passara horas sentada naquela cadeira. Pelo telefone celular, deixara um recado para Maisy, mas não revelara onde se encontrava. Com exceção de breves altercações com o xerife, não falara com ninguém. Até a chegada de Mel Powers.

O advogado lhe assegurara que Christian sairia livre dali, mas Peter também lhe afirmara o mesmo ao longo de meses, até a condenação de Christian. Aquela altura, estava com os nervos em frangalhos.

— Christian?

Não houve resposta de imediato. Então, sentiu um abraço familiar.

— Jules, soube que andou incomodando o pessoal daqui. Ela se agarrou a ele, o coração acelerado.

— Você está bem?

— Não. Mas estou livre. De vez.

Júlia sentiu um beijo nos cabelos, e lágrimas encheram seus olhos. Estreitou Christian com mais força.

— Vamos embora deste lugar. — Desta vez, teve certeza de que ele a beijou nos cabelos.

— Faço questão de levá-los aonde quiserem — prontificou-se Mel.

Júlia sentia a hesitação de Christian.

— Quer ir para Ashbourne? Sabe que é bem-vindo.

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— Não. Pode nos deixar em Claymore Park? — pediu ele ao advogado.



— Tem certeza? — questionou ela. — Não precisa voltar lá esta noite.

— Preciso ver se Night Ranger e os cães estão bem. — Christian a abraçava convulsivamente. — Devo ter herdado esse zelo de Peter, não?

Júlia engoliu as lágrimas.

— Soube o que ele fez.

— É, no final, isso o matou. — Christian lhe tomou o rosto. — Pode relaxar um pouco agora. Não vou a parte alguma.

Relutante, ela o soltou.

— Quem poderia culpá-lo, se fosse?

— Esqueceu que tenho uma filha em Ridge’s Race? Júlia conseguiu sorrir, apesar dos lábios trémulos.

— Não.

— Esperem na frente do prédio — instruiu Mel. — Vou buscar o carro.



O xerife aproximou-se.

— No seu lugar, eu estaria louco da vida. Ninguém aqui se sente bem sabendo que jogou um inocente na cadeia.

— O inocente não se sente bem, tampouco — replicou Christian.

— Um pedido de desculpas não me parece adequado. Gostaria que tivesse sido tudo diferente.

— Nisso estamos de acordo.

— Procure-me, se precisar de qualquer coisa.

— Obrigado — finalizou Christian, empedernido. Enlaçando Júlia pela cintura, conduziu-a à saída.

Ela não encontrava dificuldade em acompanhá-lo, embora ele parecesse apressado para ir embora dali. Ao mesmo tempo que lhe dava espaço para se mover, ele habilmente a guiava pela escuridão, dando-lhe a sensação de flutuar, em vez de chafurdar em lama. Quando o vento frio os envolveu, ele a apertou contra o peito para aquecê-la.

— Quando fez sua última refeição?

— Há horas. Nem sei que horas são.

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— Umas oito. Pedirei a Mel que compre qualquer coisa no caminho.



— Ele pode me deixar em Ashbourne, também.

— Não. Vamos lá para casa.

— Christian... Não quero atrapalhar. Eu só tinha que me certificar de que você estava bem. Não podia deixar que o prendessem de novo.

— Mas você quer vir comigo?

Júlia reconheceu o momento decisivo. Era agora ou nunca

— Quero.


— Então, vamos para Claymore Park.

Ela apertou o braço dele em resposta. A tensão de não saber o destino dele transformava-se sutilmente em outra coisa, mais prazerosa, porém igualmente incerta.

Christian a acomodou na poltrona ao lado de Mel e se instalou no banco traseiro do automóvel. Pararam para comprar hambúrgueres e refrigerantes, mas a viagem até Claymore Park transcorreu em silêncio na maior parte. Até Mel, que provavelmente morreria falando, tinha pouco a dizer.

— Tem certeza de que é o que quer? — questionou o advogado, ao tomar o caminho que levava à casa e celeiros do haras.

— Lembro-me da primeira vez que vi este lugar. — Christian inclinou-se para a frente, e seu hálito quente fez Júlia se arrepiar. — Tinha dez anos. Parecia totalmente fora do alcance. Não tinha a menor chance de morar aqui.

— Talvez estivesse melhor se não tivesse ficado — ponderou Mel.

Christian tocou no ombro de Júlia.

— Quem pode saber?

— Bom, agora, é tudo seu — reafirmou o advogado. Júlia voltou-se, como se pudesse ver o rosto de Christian.

— O quê? Christian aborreceu-se.

— Gostaria de ter revelado de outro modo, Mel.

— Desculpe-me.

— O que ele quis dizer? — indagou Júlia.

— Parece que Peter deixou Claymore Park para mim. Ela ficou sem fôlego.

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— É claro que deixou. Quem melhor?



— Você acha? Ele disse que esperava pagar por meus anos na prisão.

— Típico de Peter, não? Ninguém conhece ou entende Imelhor o trabalho que ele realizava aqui, nem tinha tanto apego emocional. Esta terra jamais será entregue a empreendedores, nem que a lei mude, e durante muitos anos, ainda, os cavalos de Claymore Park ganharão corridas, e os cães de caça do Mosby aqui terão seu lar. Você há de transmitir o legado.

Mel executou uma curva.

— Júlia tem razão. O filho da mãe era ardiloso.

— Aposto como no testamento há uma cláusula que o impede de mudar o nome do haras — declarou Júlia.

— Eu não mudaria, de qualquer forma.

— Por que não? — quis saber Mel. — Depois do que os Claymore fizeram com você.

— Eles morreram por conta disso. Mel riu irónico.

— Você é muito melhor do que os dois juntos. — Diminuiua marcha e perguntou onde queriam que estacionasse. Christian indicou o celeiro onde ficava Night Ranger. Parou ocarro e confirmou: — Tem certeza?

— Sim, ficaremos bem. Obrigado. Por tudo.

— Não esqueçam os hambúrgueres.

Júlia ouviu a porta traseira e, então, a sua se abrindo. Destravou o cinto de segurança e fincou os pés no chão.

— Obrigada por cuidar de Christian, Mel.

— Eu teria feito um trabalho melhor se alguém tivesse me dito a verdade há muito.

Júlia saiu do veículo e Christian fechou a porta. Esperaram Mel desaparecer na estrada. Só então ela percebeu como estava frio. Um vento gelado atravessava o agasalho que lhe parecera adequado à tarde. Instintivamente, cruzou os braços sobre o abdome. O inverno se aproximava.

— Vamos entrar. Logo estará aquecida. — Christian lhe tomou o braço.

Ela o deixou conduzi-la até a porta. O interior do celeiro era aconchegante, com cheiro de feno, estrume e cavalo.

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Foram saudados por relinchos, batidas de cascos e rangidos de dobradiças metálicas. Um eqüino resfolegou impaciente.

— Night Ranger — identificou Christian. — Esperando ser notado.

— Sabia que ele estava bem.

— Sabia, mas é um velho amigo. Jamais me abandonaria. Devo retribuir.

— Em seguida, irá ao canil ver como estão seus cachorros.

— Não tão já. Primeiro, vou ver se ele está mesmo bem. Depois, vamos saborear o lanche.

Enquanto Christian cuidava do cavalo, Júlia foi ao banheiro e se refrescou o melhor que pôde. Imaginou a própria aparência e como devia estar diferente da garota que ele amara. Quanto mudara desde que perdera a visão? Estaria mais velha? Mais triste? Escovou os cabelos, desejando poder se avaliar e juntar coragem. Quando saiu do cubículo, ele a aguardava.

— Night Ranger está bem? — indagou, como se não estivesse uma pilha de nervos.

— Fechei o portão da baia dele, para que fique aquecido. Ossos velhos, sabe como é.

— Não tão velhos. Ele ainda vai durar muito.

— Peter o deu a mim. — Christian fez pausa. — Parece irrelevante, agora. Se Mel estiver certo, todos estes cavalos são meus agora... não consigo nem imaginar o que isso significa.

— Não há ninguém melhor. — Júlia aguardou. Não sabia exatamente onde estavam, mas não tinha medo. Christian garantiria sua segurança. Com a perda da visão, aprendera a cuidar de si mesma, bem como a confiar nas pessoas que amava.

— Sabe, este é o único celeiro que ainda tem o mezanino aberto.

— É mesmo?

— Nos outros, o depósito foi fechado, e o feno é distribuído nas baias através de calhas. Muito eficaz. Mas este é o celeiro do Mosby, onde abrigamos os cavalos de caça e a selaria. É tão pequeno que Peter nunca se animou a reformá-lo. Tinha mais o que fazer, imagino.

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Ela sabia a que ele se referia.

— Vamos nos aquecer mais no feno.

— Só subindo a escada. Estou bem atrás de você. Acha que consegue?

— Só me diga quantos degraus são.

— Vou pegar uns cobertores.

Christian posicionou-se bem atrás de Júlia, para seu corpo servir de apoio, se ela precisasse de um.

— Está quase no topo. No próximo degrau, incline-se para a frente e estenda a mão direita. Então, vá engatinhando. Estou bem aqui.

Ela deixou a escada e passou ao mezanino de joelhos, saindo para o lado para dar espaço a Christian.

— Não tente se levantar — alertou ele. — O teto é alto, mas você pode bater a cabeça em uma viga.

— Quanto mais tenho de me deslocar?

— Não muito. Segure a minha mão e se incline. Pararam alguns metros adiante, e Christian lhe soltou a mão.

— Vamos construir um pequeno ninho aqui para você. Júlia percebeu que ele espalhava feno e estendia os cobertores.

— É bem mais quente aqui em cima. É tão aconchegante quanto parece?

— Pode apostar. — Ele a puxou pela mão. — Venha ver.

Ela se abaixou ao chão de madeira cheirosa. O feno também exalava sua fragrância e, se não era macio, ao menos forrava.

— Viemos aqui uma vez, há muito tempo, lembra-se?

— Lembro-me. Eu, você e Robby.

— Queríamos pregar uma peça em Fidelity. Pular em cima dela, gritar, ou fazer barulho, feito débeis mentais. — Júlia recusava-se a chorar, apesar da dor.

— Ainda chegará o dia em que as boas lembranças não nos machucarão mais.

— Não creio.

— O que nos resta, então?

Ela o alcançou e puxou de encontro a si, embora ele pesasse uns cinqüenta por cento mais.

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— São tantos dias e anos pela frente. Temos Callie. E você herdou Claymore Park. Sei que será duro no começo, mas é seu destino permanecer aqui. Terá o apoio da maioria das pessoas de Ridge’s Race. Elas se mostram meio arrogantes, às vezes, mas são justas.



Christian lhe tomou o rosto nas mãos.

— Que me resta? Francamente, não suportaria mais um pingo de desonestidade. Estou cheio.

— Você tem a mim. Caso queira.

— Após tantos anos. Como pode saber?

— Porque nunca deixei de te amar.

Christian a beijou então, e ela o enlaçou pelo pescoço. Foi um beijo surpreendentemente gentil, como se ele temesse ousar. Ela sentiu como se retrocedesse a um longínquo verão em que a decisão mais difícil da turma estava entre sair para comer pizza ou atacar a cozinha de Maisy em busca de sobras. Christian continuava gostoso, seus lábios, quentes e firmes.

Deitou-se sobre o feno, puxando-o consigo. Ele a cobriu com seu corpo, meio inclinado para o lado, para não esmagá-la.

O desejo se inflamou dentro dela, mas não teve que ir muito longe. Agora, sabia que desejara isto desde o instante em que ouvira a voz de Christian no jardim de Maisy. Desejara-o desde a última vez que fizeram amor.

— Jules... — Ele lhe traçou a sobrancelha com um dedo. Ela estremeceu.

— Pode me ver?

— Não muito bem.

— Mas melhor do que eu. Não imagina o quanto sinto falta disso, o quanto gostaria de abrir os olhos e ver seu rosto.

— Continuo eu mesmo, só que mais velho.

Júlia estendeu os braços e encontrou os ombros dele. Correu os dedos por sua clavícula, por dentro do colarinho aberto da camisa, subindo o pescoço, onde seu pulso se acelerava como os cascos de um cavalo em uma pista de corrida. Finalmente, alcançou a face.

Aninhou o rosto dele nas mãos, assim como ele tomara

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o seu. Sentia as próprias mãos trêmulas, seu corpo inteiro ressoando em uma vibração audível.

— Quis fazer isto desde o instante em que ouvi sua voz novamente. — Ela continuava bloqueando as lágrimas. — Para mim, é o mais próximo a enxergar, agora.

Ele não disse nada. Retesava o queixo, lutando para se conter. Devagar, ela estudou as feições amadas. Ele não se barbeava desde a manhã. As bochechas ásperas continuavam rijas, como antes, como se a carne maleável houvesse se endurecido para o retrato final do homem. Descobriu uma marca que não existia antes, uma cicatriz de uns dois centímetros e meio ao longo do malar.

— O que foi isto?

— Entrei na frente de alguém com um garfo no armazém.

— Que horror!

— Valeu a pena. Aprendi a me abaixar.

— É uma habilidade necessária, lá, não?

A pele abaixo dos olhos dele era mais macia e se dobrava só um pouco. Sempre achou que ele continuaria bonito depois de velho, porque tinha ossos fortes que denunciavam seu caráter. Ele amadurecera, assim como ela, mas seu rosto ainda parecia atemporal.

— Seus cabelos continuam claros como antes?

— Não sei.

— Ficaram castanhos?

— Nunca me olho no espelho para avaliar.

Júlia sorriu e tateou sua ampla fronte, sentindo o roçar dos cabelos nas costas das mãos. Ele conservava o discreto topete, o qual puxava para trás em momentos de ansiedade, meio sem perceber.

Por fim, com um suspiro, cruzou os dedos junto à nuca dele.

— Exatamente como eu imaginava. A não ser pela cicatriz.

— Terminou?

— Terminei.

— Já me conhece de novo?

— Sempre o conheci.

— Faz ideia do quanto a desejo?

— Tanto quanto eu.

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— Proteção era a última coisa em minha mente quando parti para a caçada hoje cedo.



Júlia o puxou para mais perto.

— Estou tomando pílula. Estamos seguros, até quando não quisermos mais estar.

— Jules...

— Não lhe contei que fiquei boa em fazer coisas só pelo prazer?

— Felizmente, não. Eu já estava ficando louco sem saber disso.

— Vou tirar seu suéter. Estique os braços para cima e admire minha proeza.

Júlia introduziu as mãos sob a barra da peça e, com um movimento destro, puxou-a por sobre a cabeça dele. Sentiu os músculos firmes do peito viril sob o algodão fino. Tirou a camisa para fora da calça e colocou as mãos por baixo. O ambiente estava frio, mas a pele de Christian, não. Sentiu os nervos dele se retesando, e os mamilos se enrijecendo. Ele grunhiu.

Ela rolou para o lado, e ele foi junto, até ficar de costas no chão com ela por cima.

— Também sou muito boa em desabotoar calças.

— Mas não rápida o bastante.

— E estamos com pressa?

— Certas coisas nunca mudam. Júlia sorriu.

— Como sua impaciência?

— Como sua capacidade de me fazer romper as costuras.

— Calma, vai destruir só a camisa, por enquanto.

— Com sorte, será só ela. Ela abriu o último botão.

— Acho que estamos ambos com sorte.

Assim que Júlia espalmou as mãos em seu peito, Christian a puxou sobre si e beijou com ímpeto. Afastou-a um pouco.

— Eu te amo.

Ela sentiu lágrimas nos olhos.

— Sou tão grata... depois de tudo, que você ainda me ame. Que ainda consiga.

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Desta vez, não saberiam dizer quem iniciou o beijo, que foi tudo, menos reprimido ou gentil. Júlia podia ter treinado para fazer as coisas pelo tato, mas os instintos de Christian dispensavam qualquer habilidade que lhe faltasse.

— Quero que brinque à vontade — sussurrou ele, do fundo do peito. — E que vá bem devagar. Mas preciso de você agora.

— É para já! — Júlia despiu o agasalho e o lançou longe. Livraram-se do resto das roupas como se cada peça fosse um inimigo jurado. A camisa dele, a blusa de gola olímpica e o sutiã rendado que impediam a fusão dos seios com opeito másculo. As calças jeans e as botas deram mais trabalho, mas nada era difícil demais agora. Não quando se rencontravam, enfim, após tantos anos separados. Júlia jamais se esquecera da sensação da pele quente de Christian junto à sua, do peso dele lhe pressionando o corpo, de suas formas esguias e sinuosas sobre as dele. Christian correu os lábios por sua pele, provocando e explorando, até que ela os recapturou, e iniciaram uma batalha de línguas. Debaixo dele outra vez, ergueu os quadris de encontro aos dele, mas ele virou de lado, puxando-a consigo.

— Gostaria que durasse para sempre e, ao mesmo tempo, que não durasse nem mais um minuto — desabafou Christian, febril.

— Não precisa se conter. Teremos todo o tempo do mundo de agora em diante. Teremos tudo de que precisarmos.

Com isso, Júlia o prendeu com uma perna e escorregou para cima dele, até estarem o mais próximo possível, mas ainda não unidos. Sentia o membro viril em chamas, rígido, prestes a explodir. Era prova de enorme autocontrole que ele se contivesse até aquele momento. Ela se abaixou e o tomou dentro de si.

Ele grunhiu selvagemente e a virou de costas no chão, contendo-se o bastante para retribuir o prazer que ela lhe concedera.

Embrulhados nos cobertores, comeram os hambúrgueres frios, mas Christian achou que nunca saboreara lanche tão gostoso. Enquanto faziam amor, vira-se assaltado pelo temor

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de que Júlia estivesse só com pena dele, oferecendo-lhe seu corpo como consolo, talvez. Agora, ante o mesmo sorriso triunfante que Eva dedicara a Adão, soube que ela não se entregara por pena, tampouco em nome dos velhos tempos. A mãe de sua filha o amava.



— Estou de volta a Ashbourne — comunicou Júlia, lambendo os dedos, na falta de guardanapo. — Seremos vizinhos novamente. Vai escapulir para me visitar, como antes?

— Por que escapulir? Vou lá a cavalo, em plena luz do dia.

— Serei a divorciada infame, e Bard, o marido injuriado. Vai suportar o escândalo?

— Escândalo é meu nome do meio.

— Nesse caso, serei perfeita para você.

Christian sabia que teriam de ir devagar. Ainda não haviam conversado a respeito, mas era importante fazerem tudo certo desta vez. Tinham que pensar em Callie. Iria se satisfazer contemplando um futuro que agora lhe parecia bem definido. Entretanto, neste momento, tinha de ser franco.

— Foi Bard que me fez enxergar Robby. Disse que eu era tão cego quanto você está agora. Queria que eu adivinhasse. — Resumiu a conversa que tivera com o ex-marido dela e como as palavras de Bard lhe haviam aberto os olhos, finalmente.

— É bom saber que ele foi capaz de tanta honestidade, mas isso não muda nada — afirmou Júlia.

— Vou renunciar ao cargo de organizador de caçadas. Não terei mais tempo para isso.

— Lamento, porque nunca poderei ver você caçar com os cachorros. — Ela diminuiu o sorriso. — Mas sinto alívio por não ter ido lá ontem.

— Eu também.

— Tudo aconteceu tão rápido. Coisas maravilhosas... — Ela estendeu a mão, e ele a tomou. — Outras tão terríveis. Vai mesmo conseguir morar aqui?

— Tive uma idéia. Quer ouvir?

— Claro.


— Em Ludwell, vi a diferença que o programa Cães e Prisioneiros Juntos faz na vida dos escolhidos para trabalhar

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nele. A reverenda Petersen tenta ajudar os que saem em liberdade condicional, mas não é fácil arranjar emprego para ex-condenados. Pensei em montar um programa de extensão aqui. Coisa simples, de início. Apenas um lugar ao qual pudessem vir logo ao sair do presídio, os bons sujeitos, aqueles com potencial.

Christian pensava em Javier e Timbo. Com o mínimo de ajuda, ambos teriam uma chance de mudar de vida.

— Mas o que faria por eles?

— Daria emprego, alojamento e um treinamento, para recomeçarem a vida. Na fase seguinte, talvez conseguíssemos implantar uma continuação do programa Cães e Prisioneiros Juntos. Como estávamos presos, não podíamos acompanhar os cães-guia até seu novo lar, ajudar o novo dono a treiná-los. Poderíamos fazer isso aqui.

— É um projeto ambicioso. A ideia surgiu do nada?

— Não. Comecei a pensar a respeito depois que Bertha me visitou. Precisava abordar Peter, ver como ele reagia. Agora, não será preciso.

— Imagina a polêmica na cidade, não é? Christian sorriu.

— Imagino.

— Adorei a ideia.

— Já existem ex-condenados trabalhando no mundo dos cavalos. Com a implantação deste projeto, veremos quem são, para variar.

— Não deixe Maisy se empolgar. Ela é capaz de transferir o programa para Ashbourne. No mínimo, faria biscoitos para eles, aconselharia as esposas quanto a controle de natalidade e conferiria as carteiras de vacinação de todos os filhos deles.

— Já está contratada.

— Sabe, não é má ideia. Christian já pensava em outra coisa.

— Tem feno nos cabelos.

— Essa é a desvantagem de ser cega. Não posso responder à altura. — Júlia ficou sóbria. — Christian, nada garante que eu um dia volte a enxergar. Sabe disso, não? É melhor levar isso em consideração quando...

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— Quando?

— Quando escapulir para me visitar.

— Eu a quero do jeito que for, Jules.

Ela deu aquele sorriso de Eva outra vez, e deixou o cobertor escorregar dos ombros.

— É uma promessa, ou só está me provocando?

— Sempre cumpro minhas promessas.

— Há pouco, disse que poderíamos brincar um pouco, na hora certa.

— Eu me lembro.

— Talvez consigamos aprender a brincar de novo. Aprender a ser jovens de novo. Começando já.

Christian atirou a embalagem do hambúrguer em um canto. E tratou de cumprir a promessa.

Christian deu um beijo de boa-noite em Júlia na frente da casa silenciosa. A luz da varanda estava acesa, mas nenhum som escapava da moradia. Ela esperou o som dos cascos de Night Ranger desaparecer e só então entrou.

— Esperava que fosse você.

Júlia fechou a porta sem fazer barulho antes de encarar a mãe. Tivera certeza de que Maisy estaria a sua espera.

— Por favor, não bronqueie porque não telefonei.

— Sei o que aconteceu. Vários sócios do Mosby telefonaram e deixaram recado, e Bard ligou avisando que você estava na repartição do xerife. E Christian?

— Está livre, e vai ficar bem. Do que está sabendo?

— De mais do que posso absorver. Não posso acreditar que Robby matou Fidelity. Vou levar algum tempo para me conformar.

— Aposto como não sabe que Peter deixou Claymore Park para Christian.

Maisy não respondeu, em choque.

— Callie já chegou? — indagou Júlia.

— A cerca de uma hora. Estava exausta.

— Maisy, podemos continuar aqui por mais algum tempo, Callie e eu? Pelo menos até encontrarmos um lugar só para nós. Disse a Bard que quero o divórcio, rápido e definitivo.

— Esta casa é de vocês. Ashbourne é sua herança.

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— Um dia, já contei com o futuro, mas agora estou escaldada.

Quando estiverem prontos, você e Christian vão encontrar seu final feliz. Acredito nisso, do fundo do meu coração. Sou romântica. Acho que nunca deixei de acreditar.

— Jura? Quero acreditar, mais do que tudo. Após tanta tristeza.

— Eu acredito.

Ficaram algum tempo frente a frente. Júlia estendeu a mão, e Maisy a tomou.

— Chegamos ao final do seu livro, não?

Maisy não estranhou a mudança de assunto. Então, deu-se conta de que o assunto continuava o mesmo.

— É o último capítulo.

— Estou pronta para ouvir.

— Tem certeza? Foi um dos dias mais difíceis de sua vida, querida. A história pode esperar.

— Gostaria de conhecer o final ainda hoje. Por favor.

— Diante da lareira, então. Já estão todos dormindo lá em cima. — Maisy pousou o braço nos ombros da filha. — Por que não veste a camisola enquanto faço chá?

Júlia concordou.

— Vou tomar um banho rápido.

— Estou esperando.

Júlia encontrou a bochecha da mãe e a beijou.

— Acho que já esperou muito tempo.

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CAPÍTULO XXXVII
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Implorei a Ian que não fizesse Alice montar em Duchess naquele dia. Uma olhada no pónei, e a menina correra de volta ao quarto. Eu esperara que nossas confissões na noite anterior o tivessem abrandado, mas, naturalmente, haviam operado o contrário. Ele estava ainda mais zangado, furioso por ter baixado a guarda, por ter revelado a mim sua parte mais vulnerável.




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