Emilie Richards



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CAPÍTULO XXXIV
De pé ao lado de Night Ranger, Christian segurava frouxamente suas rédeas. No chão, a seus pés, os cães continuavam procurando uma nova pista, apesar de exaustos da perseguição colina acima.

— Era um lince — contou Peter. — Escondeu-se naquela caverna ali, quando eu estava subindo. Os cães fingem estar atrás dele, mas claro que não são bobos. De qualquer forma, estou surpreso com essa falta de disciplina.

Peter expressava-se como o benfeitor que Christian sempre conhecera. Não havia diferença alguma, com exceção do revólver apontado para seu peito.

Christian permanecia calado.

Peter o fitou e franziu o cenho.

— Eu lhe disse para esquecer o assunto, Christian. Eu lhe disse para não meter o nariz ainda mais nesta história. Consegui libertar você. Era só o que interessava.

— Mas eu precisava saber a verdade.

— Como adivinhou?

— Lapso de lealdade. Peter não parecia surpreso.

— Sempre teve todas as peças, não é mesmo? Mas não conseguia encaixá-las. Você o amava demais.

— Nem todas as peças. Não sabia que Fidelity tinha brincado demais com Robby, até que Júlia mencionou que os dois haviam ficado muito juntos naquele verão. Nunca me ocorreu que ele tivesse motivo para matá-la.

— Fidelity não brincou com ele, apenas. Ela o fodeu, pura e simplesmente.

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O termo destoava na boca de um homem vestido formalmente para a caça à raposa. Dava uma ideia do desgosto de Peter.



Christian expôs sua teoria:

— Acho que Fidelity terminou tudo naquela manhã, quando saiu a cavalo com Robby. Júlia tinha lhe pedido que parasse de provocá-lo, e ela deve ter posto a mão na consciência. Provavelmente, o rompimento causou mágoa. Logo em seguida, ela foi se aconselhar com Bard Warwick.

— Era um homem de paixões, o meu filho. Quando amava, era profunda e eternamente. Ele pensou que ela sentisse o mesmo por ele. Coitado.

— Então, ele a matou em um acesso de raiva.

— Ele não planejou nada. Procurou-a para implorar que voltassem, e a encontrou se aprontando para sair com outro, escolhendo jóias de sua coleção. Foi só passar a lâmina. Em seguida, pegou as jóias, para que parecesse roubo. Enterrou-as a caminho de casa.

— E usou o canivete dele mesmo, não é? Você tinha dado um a ele no Natal, também. Acho que não teve coragem de pegá-lo, depois que a matou. De volta a Claymore Park, deve ter encontrado o meu em um parapeito de janela no celeiro, ou em uma baia.

— Não, eu encontrei seu canivete e o mandei dizer que era dele. Assim, todas as pessoas a quem eu dera o mimo de presente tinham álibi, menos você, flagrado com a arma do crime na mão. Encontraram impressões digitais de outros nas lâminas, mas Robby não tinha ficha criminal nem era suspeito. Além disso, a promotoria explicou o detalhe facilmente. Você costumava emprestar seu canivete a qualquer um que pedisse. Sempre partilhava tudo.

— Robby não partilhou meu tempo na prisão.

— Não. Mas recebeu sentença de morte, não é mesmo? Arremessou o carro contra aquela árvore de propósito. Deixou um bilhete para mim antes de sair naquela noite. Não suportava mais a tortura do que tinha feito e saber que você estava pagando no lugar dele. Ainda o amava, você sabe. Amou até o último suspiro.

Christian sentia a raiva fervendo no peito.

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— Por que ele não se apresentou para me libertar? Por que não confessou o crime, se se sentia culpado o bastante para se suicidar?



— Porque eu não permitiria. Ele estava dividido entre amor por nós dois.

— Você não suportaria a desonra.

— Você me conhece bem.

— Por isso, desonrou-se.

— Considerei falha menor. Sempre acreditei que conseguiríamos libertar você, e ninguém teria de saber o que Robby fez. Contratei o melhor advogado. Havia poucas evidências, não existia nem um bom motivo, mas o fato de ser flagrado com a arma do crime na mão dificultou demais.

— Podia ter-se manifestado nessa hora.

— Tinha certeza de que conseguiríamos sua soltura na apelação.

— Como entra Zandoff nesta história?

— O que você acha?

Christian recordou sua conversa com Bard.

— Nunca teve nada a ver.

— Com o passar dos anos, convencido de que você iacumprir toda a pena, concluí que precisava de uma confissão. Entrei em contato com o advogado de Zandoff. Quem melhor para confessar do que um homem já condenado à morte? Expliquei a Zandoff o que declarar. Em troca, prometi cuidar da família dele após a execução. O sujeito é sentimental no que se refere à família. Eu sabia que ninguém encontraria registros de uma passagem dele pela Virgínia, mas a probabilidade de surgirem registros da estadia dele em qualquer outro lugar naquela época era quase nula. Tratava-se de um errante. Eu tinha certeza de que o plano daria certo.

— Agora, tudo se encaixa perfeitamente. Hoje cedo, telefonei a um amigo meu que trabalha na repartição do xerife, e ele me disse que você e Robby tinham álibis irrefutáveis,

um garantindo o outro.

— Robby me procurou logo em seguida, muito abalado. Eu o mandei ser homem, pois daríamos um jeito nisso, também.

Christian arrepiou-se.

— Também?

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Peter não esclareceu. Christian avançou com cautela:

— Na última conversa com Júlia, Robby disse que tinha feito duas coisas na vida que manteriam você ocupado pelo resto da sua.

— Ele se ressentia de mim. Tentei torná-lo forte. Queria que ele continuasse as tradições da família.

— Na minha opinião, fracassou miseravelmente.

— Você tem coragem, para um homem com uma arma apontada para o peito.

— Já fez o pior. Arrancou tudo o que eu amava. Você e Robby.

— Temo que ele tenha arrancado mais do que imagina. De repente, Christian soube de que mais seu amigo de infância fizera.

— Meu pai?

— Ele mesmo.

— Por quê?

— Porque Robby amava você. Gabe o espancou, lembra-se? Você contou a Robby, mas o fez prometer não contar a mais ninguém. Você defendia seu pai, afirmando que ele não sabia o que fazia quando bêbado. Mas Robby não suportava a ideia de você continuar sofrendo. Sentiu ódio de Gabe pelo que lhe fez.

— Bastou botar fogo na selaria assim que meu pai perdeu a consciência, na noite seguinte.

— Fiz tudo ao meu alcance para compensar. Passei a tratá-lo como um segundo filho...

— Deus...

— Robby era apaixonado e impulsivo. Maldita combinação.

— Ele era doente. Uma bomba-relógio. Você podia ter tomado alguma providência na época. Buscado tratamento. Mas preferiu passar a mão na cabeça dele, para que cometesse outro crime!

Peter não se defendeu.

— Somos os Claymore. Estamos aqui há séculos. No final, após toda a tragédia, defender nosso nome era tudo o que me restava.

— E agora? Tem uma arma apontada para mim. Vai

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terminar o que a exaltada família Claymore começou quando Robby matou meu pai? É melhor puxar logo o gatilho, antes que chegue alguém e o flagre no ato. Quer que eu me ajoelhe, para poder dizer que me acertou por engano ao tentar espantar o lince? Sei que é bom em apagar rastros, O que vai ser?

— Você nunca teve o prazer de caçar raposas na Inglaterra, não é? É diferente lá. Eles matam as presas. Têm demais. Se não as caçarem, os fazendeiros montam armadilhas, envenenam, uma morte muito pior. Christian percebeu que não tinha muita chance, mas apostava em que Peter não o alvejaria ali mesmo, tão perto de Night Ranger, com os cães de caça aos pés. Peter amava seus animais quase tanto quanto o nome Claymore. Se ele o mandasse ir para outro lugar, teria a oportunidade de tentar agarrar a arma...

— O que você acha? — indagou Peter. — As pessoas vão acreditar em mim?

- Bom, eu acreditei em tudo o que me disse todos estes anos.

— Na Inglaterra, eles não deixam os cães estraçalhar a raposa. Quando ela se enfia no buraco, obrigam-na a sair

e a alvejam. Só um tiro certeiro. Bons esportistas, os britânicos. Só então a entregam aos cães.

- Pretende dispor de mim com um tiro certeiro? Como uma raposa encurralada?

- Christian, é um rapaz inteligente, mas ainda não entendeu. Desta vez, você é o caçador, e eu, a caça. — Peter recuou, afastando-se de Jack’s Knife e dos cães.

Christian percebeu o que ele ia fazer.

— Não precisa ser assim, Peter. Não faça isso. Peter sorriu triste.

— Filho, desta vez, não toque na arma. Seja sensato.

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CAPÍTULO XXXV
Júlia estava sozinha quando ouviu o automóvel de Bard estacionar na frente de casa. Maisy decidira passar a tarde fora. Era seu jeito de lhe conceder a dádiva do silêncio.

Queria saber como Christian se saíra na caçada inaugural, mas ele não telefonara. Sabia que teria sido bem-recebida no almoço em Claymore Park, mas enumerara motivos demais para não aparecer, incluindo o homem que ora batia na porta.

Levantou-se e encontrou o caminho pelo tato. Atendeu.

— Olá, Bard.

— Como sabia que era eu?

— Conheço o som do seu carro. Tem mais alguém com você?

— Não. Posso entrar?

Ela se pôs de lado para dar passagem.

— Maisy e Jack estão? — Bard dava a entender que esperava que não.

— Maisy foi fazer compras. Jack levou Callie e Tiffany para a cabana de Lilith nas montanhas, vão passar o dia lá. — Júlia conseguiu chegar à sala trombando só uma vez, com o ombro. Bard não tentou ajudá-la, pelo que se sentiu grata. — Posso lhe oferecer um chá, ou algo mais forte, mas imagino que tenha acabado de almoçar.

— Na verdade, não, mas não vou querer nada.

— Quer dizer que não ficou para o almoço? — Ela encontrou a poltrona grande no canto e se sentou.

— Não houve almoço.

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Júlia franziu o cenho.

— Como? Será que ouvi bem? Peter contratou um bufe para servir debaixo dos toldos...

— Júlia, pode me deixar falar?

— O que está acontecendo, Bard?

— Não vai ser fácil. Lamento ser eu a lhe contar...

— Oh, Deus... — Júlia imaginou Christian ferido. Levou as mãos ao rosto, esforçando-se para respirar. — O que...

— Peter está morto.

Ela reagiu perplexa. Ao mesmo tempo, alegrava-se por não ser Christian.

— A perseguição tomou o rumo da colina de Little SarIgeant. A matilha se dividiu. Eu estava encarregado dos hilltoppers, que não chegaram muito longe. A mata é densa, e o terreno, acidentado demais. Devíamos ter desistido antes de entrar na área e ido atrás de outra raposa. Mas quem estava no comando era Christian. Que equívoco lamentável.

— O que aconteceu?

A matilha se dividiu, como eu disse. Christian foi atrás de um par de cães novos. Acho que não se pode culpá-lo por isso. Estavam tumultuando, e era preciso trazê-los de volta. Infelizmente, lançaram-se colina acima, desafiando o pior terreno possível. Peter foi atrás de Christian.

Júlia sabia o quanto a atitude era incomum. O organizador de caçadas se encarregava dos cães, e o mestre, dos cavaleiros.

— O que aconteceu? Ele caiu?

— Não. Levou um tiro na cabeça. Júlia nem soube o que dizer.

— Dois cavaleiros foram procurá-los, pois demoravam a retornar. Ouviram o tiro antes de alcançar a clareira. Peter estava no chão, Christian de pé ao lado dele. — Bard fez pausa. — A arma estava na mão de Peter, Júlia.

Júlia temeu que sua cabeça explodisse com tantas dúvidas,

— Arma de quem?

— De Peter. Christian não portava nenhuma.

Júlia não conseguia imaginar a cena descrita. Peter morto, com sua própria arma na mão. Christian de pé ao lado do corpo, vendo o sangue de Peter se empoçar no solo rochoso.

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— Como pode ser? A cena se repetia.

— Levaram Christian para a repartição do xerife — informou Bard.

Ela se levantou, em pânico.

— Está preso?

— Acho que não. Os investigadores apenas pediram a ele que os acompanhasse para prestar depoimento. Com bastante educação, pelo que me disseram. O próprio Christian os chamou, pelo rádio. Demoraram um tempão para chegar lá, pode imaginar. Tiveram que percorrer a velha estrada das toras e depois subir a colina uns quinhentos ou seiscentos metros. Levaram-no. Alguém se encarregou do cavalo, dois sócios recolheram os cães. Um investigador permaneceu no local.

— Peter era como um pai para Christian. Não pode tê-lo matado.

— Vem dizer isso a mim? Júlia sentou-se de novo.

— Acha que Christian matou Peter?

— Eu, dentre todas as pessoas? Não, Peter se suicidou. Foi por culpa dele que Christian acabou condenado, há tantos anos. Foi Robby quem matou Fidelity, e Peter encobriu tudo, ao mesmo tempo que tentava livrar Christian da prisão. — Bard riu áspero. — Isso é que é vida dupla!

Júlia sentiu tontura e náusea, como se seu corpo rejeitasse mais aquela tragédia.

— Como sabe disso tudo? Christian lhe contou?

Bard não respondeu de imediato. Quando falou, foi com irritação, que ela tanto suportara enquanto estiveram casados.

— Se ele tivesse dito, seria lei, não? Da boca dele, poderia sair qualquer coisa, e você acreditaria.

— É verdade.

— Mas não da minha.

— Está certo.

Bard levantou-se e começou a andar em círculos, agitado, ansioso para completar a narrativa.

— Na manhã em que morreu, Fidelity me procurou. Estava tendo um caso com Robby...

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— Um caso?



— Sim, Júlia, tinham dormido juntos todo o verão. Mas nenhum dos dois lhe contou isso, não é?

— Pensei que ela estivesse só flertando...

— Pois ela confiava em mim. Tinha poucos amigos a quem podia contar certas coisas, imagino.

Mas podia se abrir com Bard. Ele não pertencia a seu círculo mais íntimo, que criticaria seu comportamento, nem ao grupo de consumidores de drogas, que passara a evitar. Tratava-se de alguém à margem de seu mundo, disposto a ouvir, assim como ouvira Júlia, quando ela precisara.

— Ela queria fortalecer a confiança dele — rememorou, a voz pouco mais do que um sussurro. — Foi o que me disse quando lhe pedi que o deixasse em paz. Receava que Robby levasse a sério a aproximação dela. Não sabia que tinham ido tão longe.

— Estava certa. Ele levou a sério. Dormiram juntos e, quando ela rompeu, ele desmoronou.

— Então, a culpa foi minha! Eu pedi a ela que o deixasse em paz...

— Robby Claymore tinha o autocontrole e os recursos emocionais de um mosquito. Ele a amava. Ela não o amava. Ele a matou. Ponto final.

Certa época, Júlia se sentira grata àquele homem por lhe dizer o que fazer. Agora, experimentava nova onda de gratidão. Desta vez, a estreita visão de mundo de Bard estava correta. Ninguém tivera culpa, exceto o torturado rapaz que fora seu amigo.

— Que desgraça — concluiu Bard.

— Disse que Fidelity o procurou. Para dizer o quê? — Júlia fez pausa ao vislumbrar uma verdade negra. — E por que nunca revelou a ninguém?

Ele suspirou. Não impaciente, como de hábito, mas em prenúncio a uma revelação estarrecedora.

— Ela disse que tinha saído para passear a cavalo com Robby naquela manhã, quando aproveitou para romper, e que ele reagira violentamente. Parece que ficou fora de si e a ameaçou. Assustada, voltou sozinha para o estábulo, pegou a caminhonete e foi me procurar.

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— E o que disse a ela?

Bard pigarreou. Não costumava sofrer de culpa, mas a sentia agora.

— Disse que qualquer homem que ela abandonasse reagiria feito louco. Afaguei seu ego, para que se sentisse melhor. Afirmei que ele se recuperaria-

— E como se sentiu ao saber que ela estava morta?

— O que acha?

— Não culpado o bastante para revelar a conversa que tinham tido. Guardou silêncio. Deixou que Christian fosse condenado, sabendo que era Robby o assassino.

— Eu não sabia. Não com certeza. Não havia provas contra ele. Christian foi flagrado na cena do crime, com o canivete na mão.

— Mas sabia quem a tinha matado!

— Desconfiava, está bem? Mas não tinha prova alguma. Apenas havia conversado com Fidelity, sobre um homem que estava apaixonado por ela. Robby tinha um álibi. Peter afirmou que haviam passado a tarde toda juntos. Ninguém declarou ter visto Robby em Southerland na hora em que ela foi assassinada. Achei que Robby, se fosse mesmo o culpado, iria se apresentar para salvar Christian da prisão perpétua.

— Não acredito em você.

— E como eu ficaria se tentasse incriminar Robby e desse tudo errado? Os Claymore eram meus vizinhos. Peter era Mestre dos Cães. Eu me veria expulso da sociedade em um piscar de olhos.

— Era seu dever. Não para com o clube, mas para com a decência. Guardou silêncio porque queria que Christian apodrecesse na cadeia.

— Não sei mais. Nunca imaginei que acabaria assim. Achei que, se Robby fosse o culpado, a verdade acabaria aparecendo. Nesse ínterim, eu começava a me entender com você. Quando Christian foi condenado, achei que conseguiriam a soltura dele na apelação...

— E continuou calado!

— É, droga! Continuei calado.

— Quero o divórcio, Bard.

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— Achei que ia querer.



— E bem rápido. Entre com o pedido em Nevada. Ou no Caribe. Apenas certifique-se de que tenha validade na Virgínia.

— Temos muito a discutir. Propriedades, por exemplo...

— Fique com sua maldita propriedade! Não quero nada que tenha seu nome relacionado. Pode simular um acordo financeiro, se quiser, para não ficar mal diante das pessoas a quem precisa impressionar, mas não quero seu dinheiro. Apenas acabe com este casamento. Já.

— Temos uma filha a considerar...

— O quê? E desde quando se interessa pelo bem-estar de Callie?

— Está sendo injusta.

Júlia esforçou-se para controlar a fúria, com relativo sucesso.

— O que é que você quer? Passar um ou outro fim de semana com ela, para parecer um pai de verdade?

— É claro que não amo Callie como você, mas sou o único pai que ela conhece. Não pode acreditar que seria bom para ela se eu simplesmente desaparecesse de sua vida.

Júlia fechou os olhos.

— Pode me dizer a verdade pelo menos uma vez? Por que se importa?

— Porque, no papel, ela é minha filha, e ela pensa que sou o pai dela. Não sou um pai maravilhoso, não tenho isso em mim. Mas vou sentir a falta dela, e ela vai sentir a minha. Não é o que importa? Ela quer que eu sinta orgulho dela. Talvez eu encontre uma maneira de lhe dizer que sinto. Ao menos, até que não precise mais de mim. Ela quis esganá-lo, e chorar. Ele estava coberto de razão.

— Vamos entrar em um acordo? — pediu Bard.

— Pelo bem de Callie. — Júlia hesitou. — E com a permissão de Christian.

— Christian?

— O homem que você condenou a prisão perpétua.

— Duvido.

Ela sabia que Bard já assumira toda a responsabilidade de que era capaz.

— Há mais uma coisa que pode fazer por mim.

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— Diga.

— Levar-me à repartição do xerife. Vou contar a ele o que acaba de me revelar. Não permitirei que Christian passe mais uma noite sequer atrás das grades.

— Poupe a saliva. Não vão lhe dar ouvidos. Além disso, é óbvio que Peter se suicidou. Christian não será acusado...

— Vai me levar, ou terei de ir sozinha? Porque irei, nem que seja a pé. Vou por essa trilha até a estrada principal, esperar que algum motorista se compadeça e me dê uma carona.

— Eu levo você.

— Vou buscar o casaco.

— Júlia?

— O quê?


— Gostaria que tudo tivesse sido diferente.

Ela sabia que aquilo era o mais próximo de um pedido de desculpas que jamais ouviria dele.

— Eu também. Muito, muito diferente.

— Eu te amei de verdade.

— Bard, se aquilo era amor, nunca mais vou querer. E espero que você também não queira.

Christian lembrava-se de sua primeira visita àquela específica saleta de três por quatro metros na repartição do xerife. Estremecia incontrolavelmente, atormentado pela imagem do corpo rasgado e ensangüentado de Fidelity. Mais do que tudo, desejara recuar no tempo, acordar de novo pela manhã e alterar pessoalmente o que o destino reservara a ela. Inocente demais, crente em que o mundo funcionava como deveria, não percebera que o perigo estava em si mesmo.

Enxergava o fato claramente agora.

A porta se abriu e os dois investigadores que já o haviam interrogado puxaram de novo suas cadeiras à mesa. Tinham vindo e ido, vindo e ido, ao longo de horas, sempre os mesmos, pois, infelizmente, aquele era o dia de folga de Pinky. Já anoitecera. Desde que acordara, comera apenas uma barra de chocolate comprada de uma máquina automática. Alguém do clube lhe levara roupas, calça jeans, camisa e suéter, e pudera vesti-las. Sentia-se grato, porém não se deixava

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lograr. Era péssimo para a reputação do Mosby Hunt ter seu organizador de caçadas vestido a caráter confinado em uma saleta de interrogatórios.



Estou pronto para assinar a declaração. Já contei tudo que aconteceu.

— Seu advogado está a caminho. Temos instruções para não interrogar você, nem deixá-lo dizer mais nada.

— Mel Powers?

— Não foi esse que chamou?

Não havia ninguém na casa de Mel quando telefonara. Deixara recado imaginando que teria notícias do advogado somente no dia seguinte.

— Quanto tempo isto ainda vai demorar?

— Não muito.

— Podíamos jogar cartas.

Era o mais velho que falava. O mais novo mal dissera palavra.

— Você está calmo demais.

— Sou inocente demais.

— Pensei que Claymore fosse seu amigo, Carver. Não se abala nem um pouco quando um amigo estoura os miolos na sua frente?

Christian estava abalado. Durante todos aqueles anos na prisão, Peter fora sua única ligação com o mundo, a única pessoa a quem dera acesso em sua vida.

A única pessoa a quem confiara sua vida.

Encarou os dois estranhos que jamais o entenderiam. Mesmo assim, tentou explicar:

— Peter fez o que tinha de fazer. Não poderia seguir em frente. Sabia que não sobreviveria ao vexame da degradação. O orgulho era tudo para ele. Era como o ar que enche um balão. Acabado o orgulho, não lhe restava nada.

— Ele era um pilar da comunidade.

— Até os pilares mais sólidos se quebram. Houve movimentação no corredor, e Mel entrou.

— Isto aqui parece um zoológico. Só faltou examinarem meus dentes e me borrifarem produtos contra piolhos e pulgas... — Foi direto ao encontro de Christian. — Disse alguma

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coisa?

— Muitas.

— Precisa repassar aquela aula: ”Como Evitar se Foder”?

— Não disse nada que pudesse me incriminar. Nem há nove anos, nem agora. As circunstâncias são o meu problema.

— É o princípio da coisa. — Mel voltou-se para o investigador mais velho. — Gostaria de conferenciar com meu cliente. A sós.

— Aceita um café? Outra barra de chocolate? — indagou o investigador a Christian, levantando-se.

— Não, obrigado.

Os dois retiraram-se.

— Bom sinal — opinou Mel. — Isso de lhe oferecerem café e chocolate. Mas podem também estar se fazendo de bonzinhos só para ver se você confessa. Deixe para lá. — Sentou-se de frente para o cliente. — Está a salvo, Chris. Não precisa se preocupar com nada desta vez. Já falei com o xerife.

— E?


— Foi suicídio. Ninguém duvida.

Christian fechou os olhos, mas logo os arregalou, porque a imagem continuava lá. Não conseguiria descansar placidamente por um bom tempo.

— Então, posso ir embora?

— Ainda não. Querem uma declaração sua acerca do assassinato da moça Sutherland. Por escrito. Concorda em fazer?

— Por quê? Alguma coisa que eu digo importa aqui? Todos que podiam confessar o crime ou a farsa estão mortos. Talvez o xerife encontrasse alguma prova da história de Peter, se investigasse, mas ele não vai se dar o trabalho.

— Não será preciso. — Mel cruzou os dedos. — Tenho uma confirmação por escrito. Uma carta de Peter, datada de quatro anos atrás. Tenho também o bilhete que Robby deixou antes de se suicidar. Nele, ele confessa e lhe pede perdão. Acho que ele esperava que o pai pusesse a mão na consciência e entregasse o documento ao xerife.

Christian sentia a exaustão tragá-lo em ondas. Já quase não conseguia raciocinar.

— Como a carta e o bilhete chegaram a suas mãos?

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— Peter deixou-me um envelope, a ser aberto somente após sua morte. Só hoje tomei conhecimento do conteúdo.



Imaginava que fossem cautelas de ações nominais a você, ou algo assim. Mas era algo muito melhor. Ele contou toda a história, Chris. Assinou, selou e enviou para que eu guardasse. O bilhete de suicídio do filho encerra o caso com o maior estrondo. Vai querer ler.

Christian estava sem fala. Mesmo que em condições, não saberia o que dizer.

— Nunca mais se questionará quem matou Fidelity Sutherland — afirmou Mel. — Até seu pior inimigo lamentará ter duvidado de você.

— Então, acabou-se.

— Acabou-se. — Mel fez pausa. — Tem uma moça bonita esperando na recepção que também vai ficar feliz em saber que o pesadelo terminou.

— Júlia?


— Está tão bonita quanto há nove anos. Há horas, tentam convencê-la a ir para casa. O xerife disse que ela ameaçou telefonar aos jornais e acusá-lo de querer atirar uma cega na rua.

Christian meneou a cabeça. Quase sorriu, mas voltou a ficar sério.

— Nem sei para onde ir daqui. Não tenho mais casa. Acho que nunca tive.

O advogado pousou a mão sobre a dele.

— Você teve um dia e tanto. Estou com medo de lhe contar o resto e vê-lo ainda mais abalado. Mas aí vai: você tem casa.

— O quê? Do que está falando? Mel recolheu a mão.

— É o seguinte, Chris. Não tenho o testamento de Peter,deve estar com o advogado particular dele. Mas, na carta que deixou a meus cuidados, ele afirma estar deixando Claymore Park para você, com tudo o que há na fazenda. Pede-lhe que aceite como ínfima compensação pelos anos que passou na prisão.

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