Emilie Richards



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CAPÍTULO XXXII
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Ian permaneceu cinco dias imóvel feito cadáver depois que voltamos. No sexto dia, abriu os olhos e viu a mesma enfermeira que me assistira no parto de Alice.

— Que diabo... que faz aqui?

A mulher recuou e me deixou tomar seu lugar. Inclinei-me sobre a cama.

— Você sofreu um acidente. Não sabíamos se recuperaria a consciência.

Ele lambeu os lábios quando mandei a enfermeira encher um copo com água. Continuou a me fitar, tentando juntar novamente as peças de sua vida. O dr. Carnes me alertara quanto a uma possível memória falha ou mesmo inexistente, logo após uma pancada assim violenta na cabeça.

Dei água de colher a Ian até esvaziar o copo. Ele fechou os olhos e dormiu.

Passou dois dias indo e voltando, sempre confuso, porém dócil. No terceiro dia, quis se levantar, e o ajudamos a se recostar em travesseiros. Devorou a sopa de tomate fria de Lettie, e a seguir uma tigela de pudim de arroz.

— Caía uma tempestade — comentou ele, recordando. Considerei bom o fato de ele recobrar a memória, embora

esperasse que ele não se lembrasse nunca de outros fatos-

— Você saiu mesmo assim. Achamos que uma árvore caiu e espantou Equator. — Prossegui, como se a revelação

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seguinte não significasse nada. — Alice e eu estávamos a caminho de Nova York. Mamãe tinha piorado e tentamos chegar a tempo para nos despedirmos dela.

Ele franziu o cenho.

— Sua mãe?

— Sim. Ela morreu. George disse que foi em paz.

— Há quanto tempo.

— Faz quase dez dias desde a tempestade.

— E Equator?

— Está bem.

— Nunca... nenhum cavalo... me derrubou. — Ian tentou sorrir, e por um segundo vislumbrei o homem que desposara. — Eu... quebrei alguma coisa?

— A clavícula. Talvez o tornozelo. Um pulso, com certeza. Está com duas talas e uma tipóia, caso não tenha reparado. Mas o mais grave foi a pancada na cabeça. Talvez fique confuso por algum tempo, sinta dificuldade para recordar eventos. Mas não se preocupe. O dr. Carnes disse que a memória acaba voltando. Tem de ter paciência.

Ele franziu o cenho, como se recordasse a própria impaciência.

— E Alice?

— Está bem. Posso trazê-la mais tarde, se quiser.

— Não havia... um pónei? Prendi a respiração.

— Sim, Patches. Mandei-o para Sweetwater, para os meninos montarem nele. Precisa se exercitar.

— Alice... deixou?

— Deixou.

Ian acreditou e fechou os olhos. Imaginei em quanto tempo ele se lembraria de tudo e mandaria trazerem Patches de volta.

Ele foi se fortalecendo. Uma semana depois, plenamente consciente, chegou sozinho ao estábulo e providenciou para que Equator fosse vendido em leilão na sexta-feira seguinte.

Vi meu destino por um fio naqueles primeiros meses. Com Ian se recuperando de maneira tão espetacular, eu não conseguia nem começar a visualizar meu futuro. Ele Voltava a se mostrar irritadiço, porém continuava fraco demais para me bater e esgotado demais para retomar as

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lições de equitação com Alice. Recusava-se a falar dos ferimentos, mas às vezes retraía-se, como se sentisse dor. Patches permanecia em Sweetwater, e ele pareceu se esquecer da existência do pónei. Vinha a meu quarto regularmente e dormia em minha cama quase todas as noites. Ajudava no canil e no estábulo. A trégua forçada era precária, porém bem-vinda.



Certo dia, em visita a Sweetwater, agora oficialmente propriedade da família Carrolton, comentei com Etta o medo que Alice tinha dos eqüinos. Mulher corpulenta, franca e sensata, Etta era excelente mãe. Eu apreciava sua companhia, mesmo sabendo que, em uma disputa, ela e o marido ficariam do lado de Ian. Relações de boa vizinhança eram a única garantia dos moradores do campo.

— Tenho jeito para ensinar crianças a montar — gabou-se Etta. — Dick também tinha medo, quase levou Bob à loucura. Agora, não consigo tirá-lo da sela. Às vezes, lamento ter tido tanto sucesso.

— Etta, será que consegue tirar o medo de Alice? — Era uma solução que não me ocorrera. Se Alice superasse o temor antes que Ian retomasse as aulas com ela, talvez evitássemos o desastre. — Sei que estou pedindo muito...

— Ian não pode ensinar? Quando estiver melhor, quero dizer.

Hesitei, e então optei pela verdade. Sabia que a vizinha não poderia me ajudar durante uma crise, mas queria que alguém soubesse como era meu casamento verdadeiramente. Se o pior acontecesse e Ian me matasse em um acesso de fúria, suspeitariam dele, comunicariam às autoridades e, talvez, salvassem minha filha.

Etta reagiu incrédula.

— Louisa...

— Não conte a mais ninguém. Se ele descobrir que revelei a você, não sei o que poderá fazer.

— É claro que vou ensinar Alice. Com prazer. — Era o mínimo que podia fazer, e queria ajudar.

O forte de Etta como professora era a infinita paciência. Alice levou uma semana só para concordar em visitar os estábulos de Sweetwater. Mais duas semanas para se sentar

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em uma sela outra vez. Mas Etta encarava cada pequeno avanço como um triunfo. Eu tinha muita confiança em que minha filha se esquivaria à fúria paterna.



Tão logo se viu capaz de montar, Ian insistiu em reassumir seus deveres como Mestre dos Cães. Para comemorar, convidamos os diretores do clube para um piquenique no domingo. Organizei o evento apreensiva, porque Ian ainda não parecia ele mesmo. Apresentava falhas de memória e se cansava facilmente. Sob tensão moderada, ele se enrijecia e olhava fixamente o horizonte. Naqueles momentos, era impossível falar-lhe, e depois ele ficava sempre colérico.

Eu fazia tudo para facilitar a vida de Ian e mantê-lo calmo. Imaginava quantas mulheres na história não haviam garantido sua segurança dessa maneira, no convívio com o homem que deveria amá-las e cuidar delas.

No dia do piquenique, Ian estava idêntico ao homem que sempre fora. Vibrante e atencioso, era o anfitrião perfeito. Sentamo-nos às compridas mesas debaixo dos carvalhos ancestrais de Rio Fox, e Lettie começou a trazer os pratos com a ajuda de uma filha. Seth servia aguardente de milho da destilaria de um vizinho. Até então, a festa era um sucesso.

— Ian, estávamos preocupados com você — comentou uma senhora. — É tão bom vê-lo de pé e trabalhando. Agora tenho certeza de que está pronto para a temporada.

— Mas que cavalo vai usar na caçada inaugural, se vendeu Equator? — questionou o marido. — Vai confiscar Crossfire de sua senhora?

Crossfire e eu havíamos nos entendido anos antes, mas agora meu cavalo parecia a solução razoável para Ian. Era um animal grande e vistoso, que se amansara ao amadurecer, e Ian conseguiria controlá-lo até se recuperar completamente. Mas meu marido não gostou da idéia.

— Crossfire? De jeito nenhum. Estou de olho no cinzento de Bill Jackson.

— Shadow Dancer? — O outro diretor parecia chocado. — Ainda nem está totalmente domado, não é? E, considerando a linhagem, vai escoicear como o demónio. — Olhou os demais à mesa. — Perdão, senhoras.

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- Que história é essa de um novo cavalo? — perguntei a meu marido.



— Mais uns acertos, e ele será meu no final da semana. Precisamos de um novo garanhão, e Shadow Dancer é o melhor cavalo para colocarmos em Rio Fox.

Não me passava pela cabeça questionar a sensatez da decisão. Só esperava que, até a hora de sair com os cachorros, Ian mudasse de idéia.

Depois que os convidados se foram, Ian informou que pretendia oferecer Patches a Bill Jackson como parte da negociação. Bill tinha um filho pequeno, e o pónei seria perfeito para ele. Aliviei-me, mas só até a revelação seguinte.

— Ele não era adequado a Alice. Percebo agora. Vamos esperar um pouco e comprar outro pónei, quando ela estiver pronta para montar, um animal com que possa ficar por mais tempo.

— Isso pode demorar — adverti. As lições de equitação secretas iam bem, mas eu temia que Alice voltasse a sentir medo quando Ian começasse a pressionar.

Ele me olhou, através de mim, na verdade, como se se deparasse com um inimigo invisível. Rígido, começou a transpirar na testa.

— Ian, sente-se. — Puxei-o e, aliviada, consegui conduzi-lo a uma cadeira. Abanei-o. Ele continuou olhando sem foco por um minuto, e então pareceu retornar. Por fim, encarou-me.

— Ian, você está bem?

Ele desferiu um golpe contra mim, furioso. Não me acertou, mas só porque eu estava preparada e pulei para fora de seu alcance.

— Por favor, acalme-se. Ainda não está recuperado...

— Não me diga como estou! — Inesperadamente, ele se levantou em um pulo e me agarrou pelos ombros, sacudindo-me até eu gritar. Então, esbofeteou-me com força.

Enquanto eu cambaleava para trás, ele se jogou na cadeira e apoiou a cabeça nas mãos. Permaneci calada, e distante, observando-o.

— Isso já aconteceu antes — reconheceu ele. — Você sabia?

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Ian falava como se não tivesse acabado de me espancar. Tentei respirar, mas demorei a encontrar as palavras.

— Ando preocupada, mas o dr. Carnes acha...

— O que é que ele sabe? — O volume da própria voz pareceu atormentá-lo, e ele fez careta.

— Ele é médico.

— É um charlatão.

— Ele disse que pancadas na cabeça podem causar transtornos graves. Em certos casos, a recuperação demora muito.

— Será que ele imagina que tenho dores de cabeça tão fortes que penso que vou morrer? Que, quando elas começam, tudo fica preto? Quando estou cavalgando...

— Ian, o que acontece quando está a cavalo?

— Já disse que aconteceu antes!

— Por que insiste, então? Como espera controlar um cavalo difícil como Shadow Dancer se sente dores tão terríveis? Tem de contar ao médico.

— Não vai contar a ninguém, ouviu? Nem ao dr. Carnes, muito menos aos diretores do clube. Vão dizer que não estou em condições e me destituir como mestre. Você nunca entendeu. Para você, a caça à raposa é só um passatempo. Para mim, é tudo.

Ele falava em tom agudo, e tremia. Quando saudável, já ameaçava muito. Mas agora, presa de uma dor que não podia subjugar, era aterrorizante. O pouco autocontrole que praticara antes do acidente podia desaparecer para sempre.

Mesmo assim, tentei ajudar.

— Por que não descansa um pouco? Está frio aqui no terraço. Vou lhe trazer uma bebida e, quando estiver de volta a seu eu...

— Este sou eu! Pelo amor de Deus, será que não entende? Sou este homem com demónios no crânio. Se soubesse como é grave, o dr. Carnes me internaria.

— Claro que ele não faria isso. Ele se endireitou, o olhar estreito.

— Você o impediria? Quer que me internem. É minha pior inimiga.

Para mim, bastava.

— Não suportarei mais abusos porque você não consegue

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se controlar. Se continuar assim e não buscar ajuda, eu o deixarei.

Ele riu forçado.

— E para onde iria?

— A algum lugar onde jamais me encontrará.

— Eu a mantenho sob vigia, Louisa. Pensa que não sei que tinha me abandonado no dia em que sofri o acidente?

Imaginei onde me refugiaria. Minha mãe estava morta. Meu irmão acreditava que eu devia resolver meus problemas na Virgínia. Annie, após uma gravidez complicada, dera à luz uma menina saudável, porém ficara com a saúde frágil. Eu não poderia sobrecarregar minha melhor amiga ou os pais dela com meus problemas, sabendo que já tinham tantos. Não tinha a quem recorrer em busca de ajuda.

Agora, Ian revelava que me mantinha sob vigilância. Cogitei quais criados cumpriam essa terrível ordem. Se uma fuga sempre me parecera difícil, agora seria quase impossível. Se tentasse e fracassasse, meu marido me mataria em retaliação.

— Essas dores de cabeça vão acabar — afirmou ele. — Garantirei isso. Depois, vamos resolver nossas pequenas diferenças, de uma vez por todas.

— Vou subir — informei. — Seth virá atendê-lo daqui a pouco.

Retirei-me o mais rápido que pude. Sabia que não teria chance, se permanecesse ali e Ian conjugasse novas forças.

Christian foi acordado pelo telefone mais uma vez, minutos antes de o despertador disparar. Considerou arrancar o cabo da tomada na parede.

— Oi — cumprimentou Júlia.

Ele se acalmou na hora. Sentando-se, ajeitou os cabelos com os dedos e cogitou se havia algo mais excitante do que acordar ao som da voz suave de Júlia.

— Algum problema?

— Nenhum. Sei que é muito cedo, mas tinha certeza de que já estava se aprontando para a caçada inaugural. Só queria desejar boa sorte. Daria tudo para poder ver você lá com os cães.

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Robby dizia que o pai ficava mais feliz no comando. Esse era um dos motivos pelos quais não se davam bem

HJ..Júlia fez pausa antes de comentar:

— Que estranho, sabe que essa foi uma das últimas coisas que Robby me disse, mas fazia anos que não me lembrava. Como sabe, já não nos víamos com freqüência. Ele inventava uma desculpa sempre que eu o convidava para sairmos. Não foi nem ao batizado de Callie. Mas topei com ele na cidade, uma ou duas semanas antes do acidente que o matou, e disse que sentia muito a falta dele. Foi quando ele comentou que Peter controlava sua vida.

— Bem, disse que Robby andava deprimido. Se conheço Peter, ele tentava justamente fazê-lo reagir.

— Talvez, mas, naquele dia, Robby parecia quase filosófico.

— Como assim?

— Disse que finalmente tinha se tornado o filho perfeito. — Júlia fez nova pausa, recordando. — Depois ele disse algo que achei sem sentido. Que pela primeira vez na vida tinha feito duas coisas sozinho, mas que, por conta delas, Peter teria o que fazer pelo resto de seus dias.

Christian não entendeu, tampouco.

— Ele não explicou?

— Não. Eu perguntei, mas ele mudou de assunto, indagando se eu sentia a sua falta e de Fidelity. Quando confirmei, ele comentou que talvez não tivesse sido mau o fato de Fidelity ter morrido naquela hora.

— Espero que isso ele tenha explicado.

— Disse que Fidelity tinha morrido no auge do poder. Christian tentou juntar as partes da conversa.

Júlia ponderou:

— É o tipo de coisa que as pessoas dizem ao tentar racionalizar a morte de entes queridos, não? Fidelity e Robby passaram muito tempo juntos naquele verão, lembra-se? Até achei que ela estava indo longe demais com o flerte, e pedi que fosse mais devagar. Depois, ao perder vocês dois ao mesmo tempo, acho que ele ficou meio abalado. Durante muito tempo, pensei...

— O quê?

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— Que talvez não tenha sido acidente a morte dele.

— Suicídio?

— Pode ser. Mas, se Robby estivesse tão perturbado, Peter com certeza teria percebido e tomado providências.

— Em certos aspectos, somos todos cegos no que se refere às pessoas que mais amamos. — Tão logo pronunciou essas palavras, Christian percebeu que já ouvira enunciado semelhante. De Bard Warwick.

Eu sempre soube quem matou Fidelity, e não foi Karl Zandoff. Você nunca percebeu porque estava tão cego quanto minha mulher está agora.

Sentiu-se febril ao interpretar as palavras de Bard.

Júlia falava ainda mais suave:

— Parece o tipo de coisa que minha terapeuta diria. Christian tinha a mente em turbilhão.

— Desculpe-me. Não foi uma analogia feliz, dadas as circunstâncias.

— Mas está correta. Promete tomar cuidado? Bard deve estar fulo da vida.

— Talvez não.

— O que quer dizer?

— Talvez ele não seja tão filho da mãe quanto eu imaginava.

— Christian?

Ele nadava parado, sem saber a qual praia se dirigir.

— Preciso desligar. Há muito a fazer antes de sairmos.

— Tome cuidado.

— Tomarei.

— Adorei a noite passada. Obrigada pelo passeio. Christian pensou em todas as mudanças de sua vida, na facilidade com que lhe haviam arrancado os prazeres mais simples, em sua total impotência diante do que acontecia. Pensou em todas as coisas que nunca dissera àqueles que já não estavam vivos para ouvi-lo.

— Júlia?


— Humm?

— Eu não sonhava só que estava cavalgando. Preso naquela cela, eu sonhava com você, também. Toda noite, até que comecei a ter medo de dormir. Toda noite, durante longos nove anos.

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Desligou com delicadeza e ficou olhando a parede, tentando reordenar as peças de sua vida.



A seguir, deu o último telefonema a Pinky Stewart.

Júlia fez o café antes que o resto da família acordasse. Callie e Tiffany passariam o dia com a família de uma colega, na cabana deles, no condado de Shenandoah, sendo que Samantha deixaria a filha em Ashbourne a caminho de Claymore Park para a caçada inaugural. Jake levaria as meninas para as montanhas logo após o desjejum.

A casa ficava silenciosa sem o tagarelar alegre de Callie, mas, para variar, Júlia aguardava ansiosamente a quietude. Sabia que aquele seria um grande dia para Christian, e duvidava de que conseguiria pensar em qualquer outra coisa.

— Acordou cedo.

Júlia voltou-se ao ouvir a voz da mãe.

— Você também. Que milagre.

— Não consegui dormir.

— Bem-vinda ao clube. Já liguei a cafeteira. Fica pronto em minutos.

— Ninguém adivinharia que está cega. Dominou completamente isto aqui.

— Já que vou ficar aqui vinte e quatro horas por dia, devo ser útil.

— Está frustrada.

— Estou me resignando. Sente-se e deixe-me preparar seu desjejum.

— Adoro ser servida. — Maisy puxou uma cadeira. Júlia abriu o armário e localizou os pães.

— Branco ou integral?

— Como vai distinguir um do outro?

— O integral é fechado com aquele arame torcidinho, e o branco vem com aquele lacre... Você sabe.

— Muito bem! Vou querer o integral, e sem manteiga, Estou de dieta.

As dietas de Maisy já viravam lenda.

— Qual é a dieta da hora? — quis saber Júlia. — Só proteína, pouca proteína, nenhuma proteína?

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II— Apenas reeducação alimentar, após ter decidido não me esconder mais debaixo destes quilos extras.

Júlia parou de destorcer o arame do saco de pão.

— Por quê, Maisy?

— Lembra-se de quando parou de me chamar de mamãe? Júlia não se lembrava de alguma vez ter usado o termo.

— Não. Não a chamei sempre de Maisy?

— Não! Você parou quando seu pai morreu. Desse dia em diante, só me chamou de Maisy.

— Você nunca reclamou.

— Tinha tanto em que pensar...

Júlia retomou a tarefa de abrir o saco de pão.

— Imagino.

— Será?

Júlia parou novamente.



— Temo estar começando. A mãe não replicou.

— Terminou o romance, Maisy?

— Terminei.

— Gostaria de ouvir o resto.

— Eu sei. Que bom.

— Lê para mim depois que Jake sair para levar as meninas às montanhas?

— Leio.

Júlia voltou-se para a mãe, esquecida da tarefa de produzir torradas.



— Jake já leu seu livro?

— Ele sabe que escrevi. Mas é paciente, seu padrasto. Esperou muito tempo até que eu finalmente me encontrasse.

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CAPÍTULO XXXIII
;Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Várias semanas apôs o piquenique, peguei um atalho para Sweetwater, onde Alice tomava suas aulas de equitação. Como de hábito agora, um cavalariço me acompanhava. Não me passava pela cabeça dispensá-lo. Os empregados cumpriam ordens, e Ian saberia se eu criasse qualquer contratempo. Sentia-me grata por meu marido ainda não haver questionado por que nossa filha passava tanto tempo com os Carrolton. Eu não comentara nada. Quanto menos falássemos sobre Alice, melhor. Quando cheguei, Etta chamou-me ao curral.

— Temos uma surpresa para você, Alice e eu. Procurei por minha filha e a vi saindo do estábulo no lombo do pónei Shetland de Dick.

Minha Alice, montando, finalmente.

Senti lágrimas nos olhos. Apesar de tudo, Alice superara o medo. Bati palmas suavemente.

— Etta, operou um milagre!

— Não, debaixo desses cachos lindos, Alice é muito valente. Quando se sentiu pronta, montou. É filha de Ian mais do que ele imagina.

Ou jamais imaginaria, pensei. Porque Ian jamais veria Alice como era de fato. Tratava-se, afinal de contas e antes de tudo o mais, de uma mulher.

— Como posso lhe agradecer?

— Tomando conta dela. — Etta encarou-me. — Mantendo-a

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segura. Se houver perigo, mande-a para cá. Ensinaremos a ela o caminho.



Esperei que Alice se sentisse mais segura na sela antes de mostrar a Ian sua realização. Ela se sentia bastante à vontade montada no Cricket de Dick, mas ainda se recusava a experimentar um cavalo ou mesmo seguir na frente de Crossfíre. Etta explicou que crianças pequenas tinham medo de cair, o que era compreensível, pois para elas o lombo de um cavalo parecia tão alto quanto um sótão de celeiro. O medo passava com o tempo.

O tempo sempre curava tudo.

Finalmente, certa noite em que Ian parecia mais afável, visitamos Sweetwater e Alice montou para o pai ver.

Etta, cujo entusiasmo por meu marido se resfriara perceptivelmente, assistiu conosco à exibição de Alice no curral em cima do pónei.

— Como disse Esopo, devagar e sempre.

— Que bom que não está choramingando. — Ian observava a menina com olhar experiente. — Suponho que teremos de lhe comprar outro pónei agora.

Etta olhou para mim.

— Por que não levam Cricket emprestado até encontrarem uma montaria adequada? Não temos utilidade para ela. Assim, poderá escolher com calma, Ian.

Percebi a manobra da amiga. Alice poderia ficar bastante tempo com Cricket. Ian deu de ombros.

— É muita gentileza sua.

Agradeci a Etta por tudo. A caminho de casa, Ian disse a Alice que se orgulhava dela. Foi a única vez que ela ouviu tal declaração.

Dali a um mês, seria aberta a temporada de caça, e Ian tinha que decidir em qual cavalo montaria na caçada inaugural. Ele comprara o esplêndido cinzento Shadow Dancer para ser o reprodutor em Rio Fox, contudo, antes de lhe oferecer as melhores éguas, precisava vê-lo em ação, na companhia de outros cavaleiros. Linhagens não bastavam. O desempenho era fundamental.

Mesmo no auge da saúde, teria sido um desafio para Ian

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treinar Shadow Dancer, e ele se achava enfraquecido. O garanhão cinzento era uma calamidade em potencial, com seus cascos letais, a força sobrenatural, o gênio fortíssimo.

Mesmo assim, Ian cavalgou brilhantemente na caçada inaugural, impressionando a todos com a extraordinária capacidade de Shadow Dancer de voar por sobre os obstáculos. Foi uma das melhores caçadas que já tivemos, em que a raposa foi ao chão a tempo de saborearmos o almoço preparado e servido por Lettie e suas filhas. Eu preparara os arranjos de flores com antecedência, rosas vermelhas com folhagens verdes, e as mesas se cobriam com toalhas de linho branco com debruns verde-escuro. Nem Ian encontraria defeito.

No fim da tarde, porém, Ian já estava exausto. Ele continuou assim pelo resto da semana, quando, a julgar por sua conduta e temperamento, já sofria várias dores de cabeça ao dia. Na terceira caçada da temporada, teve um desses acessos em pleno campo. Acabávamos de transpor o limite entre Sweetwater e Rio Fox, e aguardávamos o sinal do organizador. Nossos companheiros conversavam amistosamente quando o vi se enrijecer, como se o golpeassem. Ele tivera sorte, até então, por não sofrer uma crise durante nenhuma atividade coletiva. Com o coração aos pulos, desmontei e fui para junto dele.

— Querido! — exclamei, para que vários cavaleiros ouvissem. — Parece que Crossfire está com uma pedra na ferradura. Pode ver para mim?

Ele conseguiu desmontar. Permanecemos juntos, Ian recostado em Shadow Dancer, enquanto eu segurava as rédeas do cavalo. Ele melhorou um pouco e me acompanhou para o lado de Crossfire, fingindo, por longos minutos, examinar a pedra inexistente.

— Não era nada, não é? — Meneei a cabeça. — Desculpe-me.

— Precisou inventar isso... para esticar as pernas, Louisa? Ele me ajudou a montar de novo, quando senti seus braços trémulos. Imaginei se conseguiria subir nà sela de Shadow Dancer e liderar a caçada quando esta recomeçasse. Ele executou ambas as façanhas, mas a perseguição foi sem graça e sua liderança, confusa.

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Ian não se achava na melhor forma, e eu sabia que os demais percebiam isso, também.

O pior do dia aconteceu na hora de um salto particularmente difícil, um que eu jamais tentara, nem mesmo com Crossfire. Ian podia ter excluído aquele obstáculo do roteiro, considerando que ficava em nossa propriedade, mas tratava-se do maior desafio, o mais discutido, a cada temporada. Os melhores cavaleiros insistiam em mantê-lo, pois constituía uma espécie de ritual de passagem conseguir transpô-lo.

O cavalo tinha de voar por sobre uma cerca de quatro toras de castanheiros e aterrissar na escorregadia margem do rio Fox, bastante íngreme naquele ponto. O equilíbrio era precário após o salto incrivelmente alto. Cometiam-se muitos erros. As vezes, a montaria vencia o obstáculo, mas o cavaleiro, não. Já houvera acidentes graves e até uma quase morte no local.

Por sorte, só um punhado de cavaleiros sentia-se equipado para tentar. Os demais sócios do clube tomaram o caminho pela floresta, que exigia apenas um saltinho por sobre um braço modesto do rio Fox. Nem Ian, o severo mestre, jamais insistira em que eu tentasse, embora ele mesmo sempre transpusesse o difícil obstáculo sem a menor dificuldade.

Acreditei que Ian se mostraria cauteloso naquele dia, optando pelo salto mais seguro, talvez enaltecendo os sacrifícios que fazia pelos companheiros. Mas ele prosseguia na cruzada, fingindo que estava tudo bem. Foi direto para o obstáculo, enquanto eu sentia meu coração na garganta. Shadow Dancer encontrava-se em seu elemento. Aquele salto não o preocupava mais do que espantar moscas de sua cauda. Voou por sobre a cerca com perfeição, mas meu marido exausto e atormentado parecia um amador, pulando na sela e se inclinando para trás quando o garanhão se impulsionou para a frente. Se o grande cavalo não tivesse tanta alma, Ian teria causado um grave acidente com seu manejo lamentável.

Não só eu presenciei a cena.

Ian dormiu durante a maior parte do dia seguinte e, ao se levantar para jantar, negou que houvesse algo errado.

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Quando o papariquei, reagiu furioso e, se Lettie e Seth não estivessem no quarto, ele teria me dado um safanão.

Minha posição tornava-se mais e mais precária. Entendia, como não havia no início de nosso casamento, que a vida emocional de Ian compunha-se de uma série de contradições. Tratava-se de um homem em guerra contra si mesmo, que se batia com um outro, em que seu pai o tornara. Naquele mundo patético, eu servia de árbitro. E, a exemplo de qualquer um tão próximo do conflito, estava sempre em perigo.

Mas nunca tanto quanto agora.

A temporada avançava, e Ian sofria ataques de dor de cabeça com mais e mais freqüência durante as caçadas. Como tantos homens antes dele, descarregava a mágoa na pessoa menos capaz de resistir ao abuso.

Alice continuava montando em Cricket, cada vez mais confiante. Entretanto, ainda não perdera o medo de animais maiores, incluindo um pónei fêmea, Duchess of York, que Ian pensava em lhe comprar. Era linda, de pelagem dourada e crina branca, porém grande e arisca demais para Alice. Assim como fizera tantas vezes comigo, Ian pretendia colocar nossa filha em uma situação de fracasso certo. Quando não via alvo para a raiva em seu peito, ele criava um.

Eu chegara a acreditar, tolamente, que podia evitar a fúria de meu marido. Tinha certeza de que havia uma chave, e bastava encontrá-la. Agora, tristemente, convencia-me de que tal chave jamais existira. Na melhor das hipóteses, conseguiria retardá-lo e, mais uma vez, foi o que tentei fazer.

Estávamos juntos na cama. Após encontrar satisfação rápida em nosso ato de amor, meu marido estava quase adormecido. Massageei-lhe as costas, tal qual esposa amorosa, mas meu objetivo era a sobrevivência.

— Ian, Etta falou de um pónei fêmea que seria perfeito para Alice. Acho que devíamos dar uma olhada nela, antes de tomar qualquer decisão.

Senti os músculos dele se retesando sob minhas mãos.

— Já encontrei um pónei adequado para Alice. Quem disse que Etta Carrolton entende disso?

— É claro que ela não sabe nem metade do que você,

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querido, mas é que o pónei está à venda. É bem mais esperto do que o velho Cricket, e só recebe elogios de todos. Ela até considerou comprá-lo para Dick...

— Que Dick o tenha, então.

O pónei era pequeno demais para Dick, mas perfeito para Alice. Obviamente, eu não revelaria tal fato, para não sabotar meu objetivo.

— Só que os Carrolton estão com o estábulo lotado. Tiveram que declinar. Foi quando ela se lembrou de nós.

Ian virou-se e sentou-se.

— O que está tentando fazer?

— Apenas lhe falando de um outro pónei, que talvez agrade a Alice mais do que Duchess. — Percebi que escolhera mal as palavras, mas era tarde demais.

— Está insinuando que Etta conhece nossa filha melhor do que o pai dela?

— Não foi o que eu disse.

— Mas passou bem perto.

— Eu só considerava outra opção. E pensei que gostaria de me ver tão interessada em compra e venda de eqüinos.

— Duchess chega amanhã de manhã. E Alice vai montar nela, quer queira, quer não.

Visualizei outra cena terrível, idêntica àquela que me despachara para Nova York feito louca. Enquanto Alice crescia, quantas delas eu teria de testemunhar? Quantas vezes temeria pela saúde de minha filha, e até por sua vida?

Devo ter deixado transparecer meu horror.

— Não me olhe assim! — rosnou Ian. — A maldita Francês também me olhava desse jeito!

— Francês e eu temos mais em comum do que jamais imaginei!

— O que quer dizer?

— Francês o abandonou porque você a espancava, não é? Assim como me espanca. Bateu nela até quando estava grávida? Foi por isso que seu filho morreu?

Ele me fitou extremamente pálido.

— Como se atreve?

Levantou a mão para me esbofetear, mas nem me mexi-

— Fique sabendo que revelei a Etta que você me espanca,

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Ian. Caso eu morra, ela irá direto ao xerife providenciar que Alice seja retirada desta casa. É capaz de ela tomar providências já na próxima caçada, se me vir coberta de hematomas. Por quanto tempo acha que poderá continuar com isto sem que ninguém interfira? Pelo bem da caça à raposa, se não pelo meu?



— Você é dispensável!

— Posso procurar a diretoria do clube, você sabe. Contar toda a verdade.

— Você não vai me desafiar em minha própria casa. Caminha sobre gelo fino, Louisa. Cuidado com onde pisa.

— Você é mais pesado do que eu e corre muito mais risco de afundar na água! E, se cair, quem se dará ao trabalho de salvá-lo?

Ele se calou. Gostaria de poder ler sua mente, mesmo certa de que odiaria o que descobrisse.

Surpreendentemente, ele caiu de novo na cama e fitou o teto.

— Deus, no que me transformei?

Estupefata, concluía que a agonia dele não era fingida. Ninguém representava tão bem. Como responder? Ele ficara igual ao pai, minando os casamentos, destruindo as esposas, ano a ano, pedaço a pedaço. Tinha um monstro dentro de si.

Mas dentro dele havia também um menino chorando pela mãe.

— Bati em Francês — confessou Ian. — Mas não sabia que ela estava grávida. Juro que não. Ela escondeu a gravidez de mim. Planejava fugir para a casa da mãe. Certa noite, brigamos e ela anunciou que partiria. Quando a estapeei, ela se chocou contra o guarda-roupa e bateu a cabeça. Carreguei-a para a cama e a despi. Foi quando descobri que esperava um filho. Tudo correra bem até a briga. Depois, deu tudo errado. Ela estava convencida de que tudo acabaria bem, desde que se afastasse de mim. No fim, conseguiu. Ambos morreram.

Comecei a chorar. Ele me puxou contra o peito e afagou meus cabelos. Não creio que ele tivesse se desculpado de novo. Faltava dizer o quê, que ainda não fora dito? Ele não

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fez nenhuma promessa, não inventou nenhuma mentira. Foi o melhor momento de nosso casamento, o mais franco

— Eu podia ter amado você — declarei, por fim. — No início, sentia-me tão próxima, Ian. A um fio de cabelo de distância.

— Eu te amo de verdade. — A voz dele tremia. — Mas, é claro que não acredita.

— Acredito, sim. Tudo teria sido mais fácil, se você não me amasse. Não teria se esforçado tanto para me afastar.

— Apaixonei-me por você naquele primeiro dia, você com os cabelos desgrenhados e a roupa toda rasgada. Imaginei-a enfrentando a ursa e disse a mim mesmo: ”Talvez ela me enfrente também. Talvez seja esta a mulher a me libertar...”

Chorei mais ainda, e ele também se entregou à emoção. Adormecemos desse jeito, abraçados, sem ilusões nem barreiras.

Acordei na manhã seguinte ouvindo barulho. Havia agitação no pátio do estábulo. Da janela, vi Duchess entrando no curral e Ian dando instruções a um cavalariço.

Com a ajuda de Fish, Christian encaminhou os cães selecionados para a caçada inaugural para embarque em um caminhão. A distância ao ponto de encontro era curta, mas Peter decidira levá-los. Cada animal era provido de coleira com rastreador, com o número relacionado a seu nome em uma listagem. Se Christian não conseguisse encontrar um desgarrado, Fish poderia localizá-lo através do aparelho.

Enquanto Gorda alimentava e consolava os cães remanescentes, Christian e Fish chamavam os escolhidos. Da carroceria do caminhão, Chipper latia sem parar de excitação.

O dia estava frio, exatamente como Peter esperara. Nuvens tão cinzentas quanto o peltre de Williamsburg pairavam baixas, e a aurora furava grossas camadas de névoa para clarear o céu. Christian sentia-se aquecido sob sua capa de oleado, mas Fish queixava-se amargamente enquanto trabalhava.

No celeiro, Samantha já selara os cavalos e provavelmente os carregava agora. Embora fosse excelente amazona, jamais caçara. Naquele dia, iria acompanhá-los para ver o

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que tanto os entusiasmava. Peter esperava transformá-la em uma batedora de primeira classe.

Terminaram os preparativos e partiram do canil rumo à colina. Sinalizando com gestos, Samantha encostou um trailer de ré atrás do caminhão com os cachorros, e a pequena caravana seguiu para o ponto de partida.

Christian chegou quando os inevitáveis retardatários ainda descarregavam seus cavalos de ré por rampas e procuravam as luvas, os alfinetes de gravata e os chicotes. Para caçar com o Mosby, era preciso observar regras rígidas de vestuário e etiqueta sempre, mas nunca tanto quanto na caçada inaugural. Tudo o que era branco não podia estar mais alvejado. Tudo o que era metal fora lustrado de modo a reluzir. A quantidade de botões nos casacos indicava a condição do participante: sócios usavam três, o mestre, quatro, os encarregados da caçada, cinco. E estes prendiam o alfinete da gravata na vertical, diferenciando-se dos demais, que usavam o acessório na horizontal. Viam-se aqui e ali peles de doninha escarlate e fraques pretos usados com cartolas, algumas peças herança de gerações de caçadores do Mosby.

Alguns cavaleiros ostentavam o azul-royal do Mosby no colarinho, mas havia também convidados de clubes vizinhos, usando suas próprias cores. O número de participantes era maior naquele dia do que se veria novamente em breve. Havia cavaleiros sem prática, ou fora de forma, ou iniciantes. A maioria era estreante, de modo que Peter, o líder, teria muito trabalho. Chegava gente a pé, também, às dezenas, vestida informalmente. Christian imaginou se toda a população de Ridge’s Race comparecera ao evento, mas notou a ausência de pelo menos uma pessoa. Júlia.

Não tinha tempo para pensar nela agora. Os Sutherland haviam garantido que ele fosse bem-recebido como organizador. Todos saudaram-no com respeito, e Night Ranger foi admirado por conta da pelagem cintilante e crina e cauda caprichosamente trançadas. Após pesar os prós e contras de usar o cavalo companheiro, concluiu que não poderia deixá-lo de fora da caçada inaugural. Conhecia o valor da amizade.

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— Ele parece ótimo. — Samantha examinou o cavalo com olhar crítico antes de lhe entregar as rédeas.

Ela também estava bonita, de calça caqui e casaco preto emprestado por uma sócia que nunca mais vestiria aquele manequim.

— Obrigado pela ajuda hoje cedo.

— Parece que é a única coisa que posso fazer por você hoje em dia. — Com um sorriso, deixou claro que não se magoava, pelo que ele se sentiu grato.

Christian avistou Peter montado em Jack’s Knife, conversando com um grupo de diretores, incluindo Bard e Frank Sutherland. Peter tocou no chapéu com a ponta do açoite, em cumprimento, e Christian retribuiu, antes de se voltar para descarregar os cachorros. Reparara no queixo duro de Bard e recordou a advertência de Júlia.

Os cães pareciam sentir a importância do momento e foram saindo na mais perfeita ordem. Aqueles que estreariam nesta temporada observavam os mais experientes quanto ao protocolo, assim como os caçadores novatos atentavam aos mais antigos. Ambos os grupos respeitavam a lei do mais forte e, àquela altura, Christian já se convencia de que os cães do Mosby eram quase tão inteligentes quanto os cavaleiros.

— Christian?

Ele levantou o rosto e viu Peter, ainda montado, ao lado do caminhão.

— Bom dia, Mestre.

— Pedi a Bard Warwick que se encarregue dos hilhoppers.

Christian alegrou-se. Com sorte, ele e Bard não se chocariam, considerando que os iniciantes, idosos e fora de forma seguiam na retaguarda. Peter devia ter tomado a atitude visando mesmo à harmonia, pois Bard normalmente atuava como batedor.

— Obrigado.

Peter nomeou outros dois sócios, ambos experientes e confiáveis, como batedores. Os homens reuniram-se para ouvir as instruções e então assumiram suas posições, franqueando a matilha a fim de manter os cães sob um certo controle. Sua tarefa era manter os animais juntos, fora das

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trilhas e fora de perigo. Christian colocou-se na frente da coluna, aguardou o sinal de Peter e partiu rumo ao milharal onde planejavam se juntar antes de soltar os cachorros. A procissão avançava alegre e solene ao mesmo tempo, o entusiasmo latente sob a superfície elegante. Christian ergueu a mão quando Peter o chamou.

— Parados — instruiu aos animais, que obedeceram, bemtreinados que eram.

Peter aguardou todos chegarem e se aquietarem.

— Gostaria de fazer uma observação antes de iniciarmos. Estamos aqui para participar de um esporte muito mais antigo do que nosso país. Quando o primeiro homem das cavernas saiu em perseguição a uma raposa que atacou seu viveiro de pterodáctilos, nasceu a caça à raposa.

Os cavaleiros deram gargalhadas, e Peter sorriu. Estava particularmente atraente naquele dia, de fraque grená, com o colete branco que herdara do pai e reluzente cartola. A roupa formal, que ficaria ridícula em homens de menos presença, caía-lhe com perfeição.

— Honra é uma palavra rara hoje em dia. Lamento constatar que desapareceu dos corredores de Washington. Em um passeio pela Beltway, verão que desapareceu também entre os motoristas da Virgínia e de Maryland.

Aguardou a nova onda de risos amainar.

— Só que a honra não desapareceu entre os caçadores de raposas. Portanto, comportemo-nos como homens e mulheres honrados hoje. Vamos zelar um pelo outro e tomar a atitude correta em cada oportunidade.

Era evidente, por sua expressão, que Peter acreditava no que dizia. Christian reteve o fôlego quando se viu alvo de seu olhar.

— Temos um novo organizador de caçadas hoje, um rapaz que, de hoje em diante, merece só o melhor que esta comunidade tem a oferecer. Obedeçam a ele, perdoem seus erros, aplaudam seus sucessos. Sei, sem sombra de dúvida, que ele ainda será o melhor organizador de caçadas que a Virgínia já teve.

Peter fez pausa e então convocou:

— Christian.

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Mandava a tradição que, somente nesse instante, Christian colocasse na cabeça o boné com as fitas que denunciavam sua posição.



— Prontos? — indagou aos cães.

Eles ficaram atentos, de pescoço esticado, focinho erguido, vinte pares dos cães mais perfeitos da Virgínia. Apesar da mente ocupada com outros assuntos, Christian sentiu uma pontada de orgulho. Voltou-se e tomou o caminho de terra ao longo do milharal. Os cães o seguiram alegremente.

Ultrapassaram as plantações, atravessaram o pequeno bosque repleto de nogueiras, carvalhos e alfarrobeiras pretas e chegaram a uma campina em que vacas pastavam na ponta oeste. Além da elevação que acompanhava o limite norte, achava-se o córrego estreito que era afluente do Jeb Stuart.

Christian passara a manhã toda pensando praticamente só nos telefonemas, mas agora tinha de se concentrar na tarefa. Era responsável pela segurança da matilha e pelo sucesso da caçada. Conhecia seus cães, mas não bem o bastante. Deveria ficar de olhos neles, incentivá-los e deixá-los atuar usando seus pontos fortes individuais. Os batedores espalharam-se pela campina e subindo os morros. Peter decidira soltar os cachorros ali, onde os arbustos densos escondiam muitas raposas e os braços estreitos do córrego propiciavam bons saltos, quando as margens não estavam enlameadas.

Um dos batedores trotou até o portão e desmontou para abri-lo, abrindo caminho para o organizador. Christian incitou os cães à frente, impedindo que parassem ou vagassem perto do gado. Eram treinados para ignorar outras presas e desempenhavam sua função agora, seguindo à ”cova”, ou o ponto de onde seriam lançados.

Os cavaleiros do Mosby eram bem-treinados, também. O primeiro pelotão mantinha-se bem atrás de Peter, que guardava distância, para que os cães pudessem trabalhar. Os hilltoppers seguiam Bard, e os participantes a pé, na retaguarda. Estes, provavelmente, iriam se posicionar no topo da colina para assistir ao espetáculo de um ponto vantajoso.

Christian e a matilha alcançaram o topo da elevação e

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desceram rumo ao córrego. A vegetação à frente era densa, e devia ter cuidado para não perder nenhum cachorro, principalmente algum dos estreantes, que podiam se confundir e estabelecer sua própria linha de investigação. O vento soprava do oeste e, com sorte, traria cheiro de raposa para os cães. Os batedores afastaram-se, dando aos animais espaço de ação.

Lá embaixo, na orla da mata, Christian disse aos cães:

— Meus amigos, ela está lá. — Ergueu a corneta do organizador, usada por gerações antes dele, e tocou algumas notas, empurrando a matilha para que se embrenhasse na vegetação.

Foi um alívio ouvir as notas sonoras e límpidas. Um ex-organizador do Mosby, Samuel Fincastle, ensinara a Robby e Christian a soprar aqueles sinais. Robby logo perdera o interesse, mas Christian treinara para valer.

Os cães invadiram a mata, focinhos colados no chão. Nem todos se mantinham visíveis. Christian podia desmontar para contá-los, mas não havia necessidade disso ainda. A maioria estava à vista, e os que não estavam eram seus elementos mais confiáveis. Como não podia fazer mais nada, esperou pelo sucesso ou fracasso.

Os sócios do clube o seguiam em silêncio. Após alguns minutos, animou os cães:

— Encontrem-na, meus amigos, continuem tentando. Vão em frente, façam seu trabalho.

A maioria dos cachorros aproximava-se do córrego. Os demais se espalhavam, como se houvessem combinado a formação tarde da noite no canil. Mas Christian não tinha motivo para desejar que se mantivessem em fila. Empenhavam-se tão silenciosos quanto os cavaleiros, os focinhos quase enterrados no solo, procurando algo com que iniciar a perseguição.

De repente, Darth, o cão batizado por Robby, emitiu uma ária de barítono. Christian hesitou, cônscio de que aquele elemento costumava se precipitar e não podia ser levado a sério, mas uma companheira de ninhada, Daisy, juntou-se a ele na canção. Durante alguns segundos, os dois formaram uma dupla espetacular.

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— Vá, Darth! — ordenou Christian. — Encontre a raposa, encontre a raposa, encontre a raposa...

A matilha toda começou a cantar em coro, e Christian, entusiasmado, levou a corneta à boca e tocou uma série de notas.

— Avante! — incitou à matilha. — Avante, amigos! Vamos encontrar a raposa!

— Ei!


Christian voltou-se para a direita e viu um batedor no flanco esquerdo apontando o chapéu na direção do córrego. Uma raposa saíra correndo do esconderijo rumo à água. Christian anunciou o fato através da corneta e partiu a trote para a margem do curso de água, atrás da matilha em polvorosa.

Os cães atiraram-se no córrego raso espalhando água como chuveiros de brilhantes. Night Ranger impulsionou seu corpo poderoso e transpôs o obstáculo sem a menor dificuldade.

Christian avistou a raposa. Era uma cinzenta das grandes, adiantada o bastante para proporcionar uma boa perseguição, mas não tanto que pudessem perdê-la. Subiu uma colina cujos arbustos se dobravam ao vento, e os cães, sempre farejando o chão, o acompanharam, saltando sobre toras e pedras. Escalando a margem íngreme no outro lado, tiveram de vencer taquaras de amoras-pretas e mato alto.

O terreno era mais acidentado ali. Os cachorros atiraram-se em uma depressão ladeada por magnólias altas e eretas como mastros de escuna. Alguns latiam de entusiasmo enquanto corriam, certos de que seguiam a pista certa. Outros se calavam até recapturar o cheiro da presa, só então se juntando novamente ao coro.

Night Ranger não cabia em si de euforia, tampouco. Haviam participado de boas perseguições na temporada de caça às raposinhas, mas nenhuma fora tão excitante quanto esta. Retesando o corpanzil, o cavalo empenhava-se como se completasse a última volta na Corrida da Primavera de Middleburg. Christian olhou por sobre o ombro e viu Peter mais perto do primeiro pelotão, a uma distância que permitia aos cães trabalhar. O resto dos participantes atrasava-se,

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detido pelo córrego e pelos arbustos de amora-preta. Se a perseguição se prolongasse demais por terreno difícil, alguns desistiriam ou, pior, ficariam para trás comendo pó.

Surgiu no perímetro uma mureta de pedra, construída séculos antes. Christian perdera de vista a raposa, mas seus cães não haviam perdido o rastro. Avançavam em passo seguro rumo ao obstáculo, sobre o qual saltaram, quando Christian aproveitou para lhes contar as caudas. Estavam todos ali, graças à eficiência dos batedores, que haviam incentivado alguns dos cães mais jovens. Na hora de saltar sobre a mureta, Night Ranger alçou voo tal qual grande pássaro cinzento.

A perseguição, digna de um retrato de tão espetacular, prosseguiu por mais de trinta minutos, sobre relva e leitos de córrego secos, entre mata e um trecho de floresta esparsa. A exemplo da maioria das raposas, esta retrocedia e desenhava o número oito, confundindo a matilha, mas só por alguns segundos. Christian concentrava-se de tal maneira em vigiar os cachorros que levou preciosos segundos para perceber que diminuíam a marcha, finalmente. Puxou as rédeas quando os animais pararam, e ergueu a mão para que Peter detivesse os demais cavaleiros.

A pausa deu a todos, cavalos, cães e cavaleiros, a oportunidade de recobrar o fôlego. A rápida captura do rastro, logo após a qual se avistara a raposa, fora o início ideal de uma caçada inaugural.

Christian deixou os cachorros abrirem distância sem acompanhá-los. Não queria cruzar a linha do rastro, o que dificultaria aos animais recapturar a essência. Voltaria a reuni-los, se necessário, mas, por ora, permitiria que trabalhassem.

Olhou por sobre o ombro ao ouvir cascos e viu Peter se achegando. Ele falou em tom baixo, para não perturbar os cães em ação.

— Já aconteceu isto aqui antes. O que acha que está havendo?

— Acho que a raposa se desviou junto àquele tronco caído. — Christian apontou com o chicote. — Escalou o que resta daquela mureta de pedra e pulou no córrego. O que acha?

— Acho que foi isso mesmo. É das cinzentas, e deve

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escalar. Pode até ter subido naquele ramo baixo ali e nem subido na mureta.

— Duvido de que tenha descido ao chão. — Como muitos caçadores, Christian acreditava que a raposa americana se divertia com a perseguição e só procurava abrigo ou esconderijo quando ficava entediada ou cansada demais para continuar. O simples fato de se dar a caçada parecia prova de que a raposa gostava de ser perseguida.

— Está realizando um trabalho excelente, filho. Christian encarou o patrão.

— Seu filho está morto, senhor. Peter reagiu surpreso.

— Desculpe-me, Christian. Não tinha percebido que ser chamado assim o incomodava.

— Houve época em que considerei a maior honra. Mas hoje cedo percebi que, com a sua ajuda, seu filho roubou quase nove anos de minha vida.

Peter não respondeu. Os dois homens fitaram-se nos olhos até que um dos cães, Chipper, começou a latir.

— Ele encontrou alguma coisa! — avisou Peter, voltando a montaria para os demais cavaleiros.

— Sei como ele se sente.

— Depois nos falamos. — Peter incitou Jack’s Knife a um trote.

Com a mente disparando em um milhão de direções diferentes, Christian alcançou os cães, mas não se aproximou demais. Com o focinho enterrado em folhas mortas, Chipper disparava rumo ao córrego. Em um segundo, Lizzie juntouse a ele, uivando para o céu, que se clareava à medida que as nuvens se dispersavam. As condições que haviam mantido forte o cheiro da raposa alteravam-se. A essência se elevaria e dissiparia à medida que o solo se aquecesse.

O resto da matilha achegou-se para ver se os companheiros sabiam do que falavam. Dali a segundos, iniciavam a perseguição, atirando-se nesta parte mais larga do córrego com Christian e os batedores logo atrás.

Christian ouvia os demais cavaleiros em sua cola ao pular sobre a água com Night Ranger. Enquanto contornava a matilha, viu o primeiro pelotão, com Peter na liderança,

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passando o córrego também. Peter venceu o obstáculo facilmente, mas uma das senhoras desequilibrou-se quando sua montaria aterrissou na margem oposta. Ilesa, levantou-se sozinha e saiu rápido do caminho. Peter, que estava mais próximo, correu atrás do cavalo solto. Christian perdeu ambos de vista, e os cães saltaram por outra mureta de pedra, invadindo um pasto de gado Angus.

O odor das vacas confundira os cachorros, que se agruparam além da mureta como se indagassem: ”E agora, rapazes?” No lado de cá da mureta, Christian permaneceu calado, andando em círculos com Night Ranger, facilitando a aproximação, para quando precisassem. A matilha dividiu-se, porém se manteve afastada do gado. Uns foram para leste, outros para oeste, farejando intensamente na tentativa de recapturar o familiar cheiro vil da raposa. Um salgueiro chorão gracioso adornava o pasto, e a matilha reuniu-se novamente pouco além dele, focinhos colados no chão.

Christian saltou por sobre a mureta e, de soslaio, viu os batedores fazendo o mesmo, para franquear a matilha a distância. As vacas mugiam em protesto, mas os touros estavam em um pasto separado, próximo à sede da fazenda, por cortesia do proprietário.

Embora permanecessem unidos, era evidente que os cães continuavam confusos, indo para lá e para cá, só para voltar sem nada.

— Parabéns, Charley — murmurou Christian. Charley era um farejador que não crescera muito, porém apresentava astúcia e confiança suficientes para lograr as melhores matilhas de cães de caça da Virgínia.

Christian aproximou-se, chamando os animais para lhesrestituir o ânimo. Sentia a frustração deles. Conhecia essa premonição de que ainda havia algo a ser descoberto, uma pista a seguir, uma conclusão a tirar. A exemplo deles, ressentia-se de toda interferência.

Além do pasto, havia um trecho de floresta densa subindo devagar a escarpada colina de Little Sargeant. Uma velha estrada para transporte de toras permitia acesso difícil, mas poucos a usavam, a não ser a cavalo. Christian esperara evitar essa eventualidade, negativa neste contexto específico,

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mas, não obstante, preparara-se para a mesma. Até os melhores cavaleiros podiam se perder ou cair da montaria naquelas bandas, e a melhor matilha podia se dividir. A floresta jamais fora totalmente desmatada. Algumas árvores eram tão velhas quanto a Virgínia, com copas imensas ainda folhosas. Rodeavam-nas arbustos, bem como alfarrobeiras e cornisos jovens. A raposa estava escondida em algum lugar ali, rindo dos cães.

Um dos cachorros também sabia disso. Darth, que já apresentara bom desempenho naquela manhã, abriu a garganta e cantou como um anjo. Mais focinhos colaram-se ao chão, um grupo juntou-se, e a pista foi redescoberta. A matilha partiu em disparada rumo à floresta, cantando em coro. Christian tocou a corneta e os cavaleiros partiram atrás.

Night Ranger saltou por sobre uma gaiola colocada na beira do pasto para esse momento. Christian ouvia os cascos que o seguiam; contudo, concentrado em não perder os cães de vista, não olhava para trás nem de relance.

Iniciaram a subida. Os cães tomaram o caminho mais reto através da mata. Christian fez Night Ranger pular sobre um fosso e contornar uma árvore caída. Alguns dos cachorros divergiam à direita, como se tivessem perdido a pista, outros prosseguiam determinados por entre as moitas. Os demais cavaleiros procediam a uma escalada estável. Aquela altura, os hilltoppers menos persistentes já haviam retornado a Claymore Park a fim de saborear o almoço. Alguns talvez aguardassem no limite do pasto, para o caso de a subida se revelar infrutífera e os cães se reagruparem na terra plana.

Christian tocou a corneta, incentivando a matilha. De esguelha, viu Lizzie e uma irmã de ninhada, Lego, destacarem-se do grupo, investigando a beirada de uma ribanceira. Considerava chamá-las de volta quando Lizzie deu o alarme, ganhando o reforço de Lego imediatamente. Haviam encontrado uma raposa, mas qual raposa? Os outros cães pareciam irritados com o estardalhaço de Lizzie, pois seguiam sua própria pista. Antes que Christian avaliasse qual dos grupos prometia mais, Lizzie e Lego embrenharam-se na mata colina acima.

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Apenas um batedor se juntara a ele. O outro se ocupava dos desgarrados. Christian viu os cães se dispersando em leque. Se não trouxesse Lizzie e Lego de volta, poderiam levar horas para recuperar toda a matilha. As coleiras com rastreador pouco ajudariam, uma vez que Fish se encontrava muito longe, na estrada pavimentada, lá embaixo.

Tomou a decisão quando mais três pares de cães correram para junto das cadelas irmãs. Com um sinal ao batedor,partiu atrás delas chamando-as pelo nome e estalando o chicote em advertência. Mas Lizzie e Lego recusavam-se a abandonar a pista. Apesar de bem-treinadas para não tumultuar nem perseguir outros tipos de presa, talvez hse tvessem se deixado levar pela excitação do momento, porser um tanto jovens. Podiam estar no rastro de um gamo, de um lince, ou, pior, de um urso. O coiote, que invadia a região, também era uma possibilidade.

Colados ao chão, os cães deslocavam-se facilmente por entre arbustos, pedras e árvores caídas, mas Christian e Night Ranger encontravam-se em desvantagem. O cavalo imenso, que se saía muito bem em campo aberto, lutava para avançar naquele terreno acidentado e, dali a pouco,perdiam os cães de vista.

Christian praguejou e seguiu na direção dos latidos. Chamou-os vezes sem conta, estalando o chicote quando tinha espaço, mas a matilha definitivamente se rebelara. Se tivesse uma arma, atiraria para o alto, pois esse sinal os cães raramente desrespeitavam. Mas não podia cavalgararmado, ainda. Até estar livre de qualquer suspeita e ser inocentado oficialmente, não lhe passava pela cabeça deixar-se flagrar portando arma de fogo, nem mesmo uma de calibre22 com chumbo para emergências.

Após alguns minutos, arrependeu-se de ter saído em perseguição aos rebeldes. Devia ter esperado o outro batedor e ordenado que ele fosse atrás dos cães. Havia muito, explorara cada colina e vale daquela região, mas estava em desvantagem agora. Nos passeios com Peter, nunca haviam subido aquela colina, esperando que a caçada tomasse outros rumos. A floresta se adensava no território desconhecido. Não corria o risco de se perder, pois bastava descer a encosta

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e retomar a velha estrada de transporte de toras, mas cogitava se encontraria os cães antes que estes encurralassem qualquer que fosse sua presa.

Encontrou uma clareira e, pouco além, a sinfonia canina em crescendo. Incitou Night Ranger a avançar, chamando e estalando o chicote enquanto disparavam pelo espaço aberto, passando por outra depressão e subindo a encosta. Do topo, olhou para baixo.

Montado em Jack’s Knife, Peter acenou-lhe. Tinha um38 apontado para seu peito.

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