Emilie Richards



Baixar 2.29 Mb.
Página2/23
Encontro30.06.2019
Tamanho2.29 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   23

CCAPÍTULO II
Assim como na Grã-Bretanha, era freqüente na Virgínia darem nomes às grandes fazendas e propriedades. Ashbourne era uma casa grande e diferente no meio de cento e vinte hectares de colinas sinuosas e córregos pedregosos. As montanhas Blue Ridge, mais do que sombras tocando a terra, eram uma presença que a ancorava, levando as colinas a picos mais íngremes e ravinas mais largas. Maisy nunca cessava seu fascínio pela beleza natural de Ashbourne ou pelo capricho do destino que a levara ali como esposa de Harry Ashbourne, mestre do Mosby Hunt, o seleto clube de caça à raposa.

Harry falecera havia quase vinte e cinco anos. Ashbourne sobrevivia, retendo o fôlego, pensava Maisy, para que a filha de Harry, Júlia, a reclamasse e restaurasse à antiga glória.

A casa principal de Ashbourne era uma graciosa construção neo-grega de antigos tijolos cor de cereja e colunas dóricas. Alas simétricas de dois andares, quando a parte principal tinha três, abrangiam a ampla varanda posterior e o terraço de lajes. Na época de Harry, os jardins de azevinhos, loureiros, lilases e glicínias mantinham-se perfeitos, nunca em exagero, porém clássicos e de bom gosto, como a casa em si.

Ao longo dos anos, os jardins se desintegraram. Bordos, mimosas e nogueiras ancestrais sucumbiram a raios ou secas; o labirinto de buxos que Harry plantara durante a gravidez de Maisy se transformara em uma cerca intransponível a obstruir a vista e os movimentos, até que um jardineiro o removeu. Ao longo dos anos, as meticulosas

20

bordaduras de bulbos e perenes se esparramaram sobre grama e arbustos, afastando-se dos limites a cada estação.



Maisy preferia o jardim assim. A casa estava vazia agora, e as rudbeckias, papoulas-rubras, espigas de chicória e campainhas-da-virgínia aqueciam e abrandavam sua fachada desgastada. Nem a casa nem os jardins estavam em ruínas. Maisy providenciava a manutenção necessária. Jake fazia boa parte do trabalho, tão habilidoso quanto era afável. Mas a propriedade simplesmente marcava passo até a filha de Harry decidir o que seria dela.

Maisy e Jake moravam no chalé do caseiro, uma encantadora construção de pedra azul que era a mais antiga na propriedade. Ficava na borda da floresta, onde raposas e marmotas se aconchegavam em cavernas confortáveis e corujas faziam vigília nas noites mais solitárias.

O chalé tinha dois andares, um largo corredor central e aposentos agradáveis que se apertavam sem lógica ou motivo, um em cima do outro. A calefação e o encanamento batiam e rangiam, o vento uivava por entre as fendas nas esquadrias das janelas e portas. Maisy e Jake concordavam em que as idiossincrasias da casa contribuíam para seu charme, tanto quanto o telhado de ardósia e a profusão de lareiras.

O céu já escurecia quando Maisy chegou da visita à clínica de Gandy Willson. Camadas de nuvens negras se sobrepunham, bloqueando o pôr-do-sol que devia haver ali e prometendo pouco uma noite estrelada. Ela costumava correr para fora duas ou três vezes toda tarde para apreciar o espetáculo celeste. Inventava desculpas, claro, embora Jake certamente não se deixasse lograr. Maisy aumentava os gatos no celeiro, três velhinhos malhados chamados Winken, Blinken e Nod. As vezes, vistoriava portões para o fazendeiro que arrendara o primoroso pasto de Ashbourne para seu peludo gado HighIand de longos chifres. Nenhuma justificativa era extravagante demais, desde que lhe permitisse sair.

Atravessou a larga entrada e encaixou a picape em sua vaga ao lado do celeiro, espreguiçando-se ao pisar no chão. Sentia cãibras, tanto por ficar sentada quanto pela falta de estofamento que absorvesse os impactos. Jurou, como sempre

21

ao dirigir a caminhonete do marido, que mandaria guinchar o ferro-velho na próxima vez que Jake desse as costas. Estava de olho em uma outra, vermelha, em oferta em Leesburg, e imaginava ouvir sua buzina toda vez que passava em frente.



Como previra, encontrou o marido no celeiro. Havia vários na propriedade. Aquele que Harry usara para abrigar seus cavalos de caça mundialmente famosos ficava no outro lado, sem animais agora, mas cheio de artistas e artesãos a quem Maisy alugara o espaço como ateliê.

Este celeiro era o original, menor, construído com toras de castanheiros derrubados manualmente e muito suor honesto. Jake o usava como oficina. Não havia nada que ele não conseguisse desmontar e montar de novo de modo a funcionar conforme a proposta. Gente dos condados de Loudoun e Fauquier lhe levava torradeiras, cortadores de grama, motonetas e ventiladores de sótão para consertar. A maioria era como o próprio Jake, crente em que existia cura milagrosa para tudo, pessoas que podiam comprar artigos novos, porém mantinham caso de amor com o passado.

Quando ela chegou, Jake estava inclinado sobre a bancada de trabalho. Sentada no canto, Winken golpeava o cotovelo dele toda vez que ficava ao alcance. Os três felinos sentiam-se totalmente à vontade no celeiro. A exemplo de tantas coisas ali, eram uma espécie de refugo. Maisy os encontrara certa manhã de inverno tentando sair de um saco de papel no estacionamento do Middleburg Safeway, bolinhas peludas que ela alimentara religiosamente a cada duas horas com uma mamadeira de boneca, a despeito de sua alergia a pêlo de gato e da necessidade de dormir a noite toda sem interrupção. Agora, anos depois, eles mantinham o celeiro livre de ratos e faziam companhia a Jake. Os gatos, descobrira Maisy, eram ferrenhos defensores do quiproquó.

— Cheguei.

Jake voltou-se para saudá-la. Quando se absorvia no trabalho, esquecia tudo ao redor. Ele tinha o poder de concentração que faltava em Maisy, tanto que ela provocava dizendo que um ladrão conseguiria roubar tudo do celeiro,

22

até as teias de aranha, enquanto Jake trabalhava em um projeto.



Ele limpou as mãos em um pano antes de beijar a esposa no rosto.

Conseguiu vê-la?

Consegui, mas não sem luta. — Maisy sabia que ele não lhe perguntaria o que descobrira. Jake sempre aguardava as informações que ela queria revelar. Olhou por sobre o ombro dele. Blinken se juntara à irmã, e as duas focinhavam o trabalho de Jake. — Como vão as coisas?

— Liz Schaeffer me trouxe um relógio de lareira que está na família há três gerações. Marca só cinqüenta segundos por minuto.

— E tem conserto?

— Vou precisar de peça nova, mas acho que sim. — Ele a estreitou nos braços, como se soubesse que precisava de seu calor. — Fiz chili para o jantar. E o pão de milho está pronto para ir ao forno.

— Você é bom demais para mim.

Maisy relaxou junto dele, contempIando o rosto que se enrugava com a idade. Jake nunca fora bonito, mas sempre se mostrara distinto, bem antes de atingir a idade a partir da qual o adjetivo se aplicava. Seus cabelos já estavam brancos como a neve, mas continuavam grossos e encaracolados, como na primeira vez que os vira, e ainda, como então, um tanto compridos demais. Os olhos castanhos prometiam paciência, porém ultimamente denunciavam uma certa fadiga, também. Às vezes, Maisy temia que o marido estivesse se enjoando dela.

— Só me deixe arrumar as coisas aqui e entro para terminar o jantar.

Maisy afastou-se em uma onda de culpa.

— Não seja tolo. Eu coloco o pão de milho no forno e faço uma salada. — Fez pausa. — Temos alface?

Jake sorriu.

— Comprei ontem.

— Onde eu estava?

— Enfurnada no estúdio.

— Oh...


23

— Gosto de fazer compras, Maisy. Sempre encontro algum conhecido. Faço mais negócios entre cenouras e berinjelas do que ao telefone. Vá fazer a salada.

Ela se voltou da porta.

— Você se importaria se Júlia e Callie viessem morar aqui?

Jake ergueu o olhar da bancada.

— Foi Júlia que teve a ideia?

— Eu convidei. — Maisy fez pausa. — Insisti.

— Feito rolo compressor no piloto automático.

— Ela não devia estar lá, Jake. Conhece o lugar. Ela está péssima.

— Sabe que Júlia e Callie são bem-vindas aqui.

— Eu não devia ter pressionado?

— É uma boa mãe. Sempre faz o que acha que é melhor. Maisy conhecia os perigos de se agir por instinto, mas gostou do apoio.

— Vou lá de novo amanhã.

— Bard não vai gostar de saber que está interferindo. Ela saiu e contemplou o céu, agora uma faixa maciça de estanho lustroso. A temperatura despencava, e estremeceu. Era o outono ensaiando a chegada. Após o jantar, pediria a Jake que acendesse a lareira da sala de estar, e então lhe contaria em detalhes tudo o que Júlia dissera.

Imaginou, como fazia com freqüência agora, se o marido acharia a narrativa tediosa demais para lhe prender a atenção.

Júlia sabia que o marido a visitaria após o jantar, não porque a agenda dele fosse previsível, mas porque ele precisava comprovar pessoalmente que tudo na clínica estava sob controle. No início do casamento, aquela qualidade de Bard a tranqüilizara. Estava casada com um homem que tinha resposta para tudo, até que, finalmente, começara a se acomodar e deixar que ele respondesse por ela.

Sentiu uma pontada de culpa, como sempre, quando nutria pensamentos desleais quanto a Bard, o homem que permanecia a seu lado no pior momento de sua vida. Seu marido podia ser dominador, mas revelava-se também forte e seguro.

24

De certa forma, Bard era produto de outra época. Era mais velho do que ela, quase doze anos mais velho, porém, mais do que a idade, a perspectiva os separava. Bard teria se sentido à vontade na corte do rei Artur, um cavaleiro feliz matando dragões. Mas jamais teria sido Iancelot. Não se motivava por fervor religioso e quase nunca por romance. Os dragões cairiam só por estar em seu caminho.



Às sete horas, Júlia caminhou até a cómoda onde ficavam a escova e o pente. Seus cabelos negros e lisos à altura dos ombros eram fáceis de manter, mesmo sem vê-los. Escovava-os agora, alisando-os do topo da cabeça, onde era difícil dividir.

Não se maquiou, receosa de que o batom mal-aplicado fosse pior do que nada. Pouco antes, vestira calça de lã e twin set porque seu quarto era mais frio do que gostaria. Maisy vivia lhe dizendo que se sentiria mais aquecida se engordasse, mas Júlia duvidava de que estivesse destinada a ganhar peso naquela conjuntura específica de sua vida. A comida da clínica era exatamente como esperara, pobre em gorduras e suave: rúcula guarnecida de cogumelos portobello.

Acabava de abotoar o casaquinho quando bateram na porta, e Karen falou-

— Está frio aqui. Quer que acenda a lareira? O dr. Jeffers deu permissão.

Supunha que a permissão fosse necessária. Após algum tempo na Gandy Willson, qualquer paciente em seu juízo perfeito desejaria se atirar nas chamas.

— Está sorrindo — notou a enfermeira.

— É de imaginar o fogo — mentiu Júlia. — Ótima ideia. Atravessou o quarto em passo incerto e se sentou em uma cadeira ao lado da cama, enquanto Karen trazia a lenha. Os sons eram todos familiares, incluindo o da explosão de enxofre quando o fósforo foi riscado.

— É um fogo bem baixo — informou Karen. — De gravetos. Mas vai aquecê-la. A calefação nesta ala está com problemas...

Júlia agradeceu e ficou ouvindo os estalidos da madeira. No hospital, logo após o acidente, descobrira ser impossível medir o tempo. Sem dicas visuais, um segundo parado

25

se parecia muito com o seguinte. O sol ou a lua podiam estar enviando seus raios pela janela, mas ela não sabia. A lâmpada no teto podia estar acesa ou apagada, o noticiário na televisão do vizinho podia ser matutino ou noturno.



Aos poucos, descobrira novas dicas pelas quais se guiar. O chiado da lâmpada fluorescente no canto quando a luz era necessária, à noite, o cheiro do desinfetante quando passavam o esfregão no corredor a cada manhã. Na clínica, as dicas eram outras, porém igualmente previsíveis.

Descobrira também que o tempo passava mais devagar do que imaginava. Sem as distrações constantes de uma vida normal, cada segundo parecia se fundir ao seguinte em câmera lenta. Jamais compreendera as teorias de tempo e espaço de Einstein, mas talvez começasse agora.

Quando já tinha certeza de estar esperando por no mínimo um dia, ouviu a batida negligente de Bard na porta. Ele sempre batia duas vezes, com a precisão de uma britadeira. Então, abria a porta e cruzava o chão para beijá-la no rosto.

Esta noite não foi diferente. Ele estava a seu lado antes mesmo que lhe dissesse para entrar. Reconheceu a fragrância pós-barba que ajudara Callie a escolher no último Natal e sentiu o rosto áspero contra o seu.

— Você parece cansada. — Ele já se endireitara e se afastara. Ela sabia pela voz.

— Experimente ficar sentado o dia todo.

— Precisa descansar. É por isso que está aqui.

Ela estava ali para poupá-lo de constrangimentos. Desconfiava de que nenhum dos amigos do casal sabia exatamente o que lhe acontecera, e imaginava que história Bard inventara.

— Descansaria melhor em casa. Poderia me movimentar. Fazer exercícios. Sentiria mais sono.

— Já discutimos isso mil vezes, Júlia.

A paciência forçada na voz do marido a perturbava.

— Você já discutiu isso mil vezes, Bard. Eu quase não dei minha opinião.

— Soube que suas sessões com o dr. Jeffers não têm dado resultado.

26

— Se quer dizer que não recuperei minha visão miraculosamente, de fato, elas ainda não deram resultado.



— Não foi o que eu quis dizer. Júlia sentia a frustração crescer.

— Bard, pare de me tratar como se eu tivesse a idade de Callie, por favor. Estou cega, não voltei a ser criança. Exatamente, o que quis dizer?

— O dr. Jeffers disse que você não está colaborando. Que resiste ao tratamento.

— Resisto a despejar tudo a meu respeito só para que ele tenha algo para rascunhar em seu bloco.

— Como sabe que ele escreve alguma coisa?

— Ouço a caneta dele arranhando. Restam-me quatro sentidos.

— Por que resiste à ajuda dele?

— Ele não está me oferecendo ajuda. É um bisbilhoteiro. Quer conhecer todos os detalhes da minha vida e não vejo motivo para lhe contar.

— Prefere um cão-guia?

Júlia não respondeu. Atravessando seus dias feito um trator, Bard desenvolvera uma teoria de vida formada por um conjunto interminável de decisões simples, pró ou contra. De acordo com essa teoria, resumira o tratamento da esposa: ou ela deixava o dr. Jeffers curá-la, ou permanecia cega. E não estava disposto a reconsiderar a questão.

— Acho que a resposta é ”não”. — Bard afastara-se mais, tomando o lugar favorito de Júlia à janela.

— O que está vendo? — indagou ela. — Gosto de saber o que acontece lá fora, para poder imaginar quando estou aí.

Pela primeira vez, o marido mostrou-se perturbado.

— Parece até que já se conformou em viver assim.

— Fiz uma pergunta simples, não ameaçadora.

— Vejo o que se esperaria: árvores, canteiros de flores, gramado. Parte do estacionamento. Colinas a distância.

— Obrigada.

— Soube que Maisy a visitou hoje. Contra as recomendações.

Como a voz dele estava mais alta, Júlia concluiu que ele falava de frente para ela. Imaginou-o recostado na esquadria

27

da janela, com as longas pernas cruzadas nos tornozelos, os cotovelos relaxados, os dedos das mãos entrelaçados enquanto aguardava a resposta. Recordou a primeira vez em que reparara de fato em Lombard Warwick.



Conhecia Bard desde sempre. O povoado de Ridge’s Race, nada mais do que um ajuntamento de posto de gasolina, agência de correio e armazém típico, ganhara o nome de uma corrida anual que se estendia entre dois cumes, um em cada extremo do vilarejo. Era também o endereço de dezenas de fazendas e propriedades milionárias, incluindo Ashbourne e Millcreek, esta da família de Bard. Ridge’s Race tinha prefeito e assembleia, igrejas em três das quatro estradas que se cruzavam no limite oeste da cidade e uma comunidade tão coesa quanto uma vila de pescadores da Nova Inglaterra.

Devido à diferença de idades, ela e Bard nunca foram à escola juntos. Mesmo que tivessem nascido no mesmo ano, seus caminhos educacionais não teriam se encontrado. Bard estudou na mesma escola para filhos de militares em que seu pai se formara. Júlia, produto de uma mãe igualitária crente em que a segregação de classes era quase tão prejudicial quanto a segregação racial, freqüentou escolas públicas locais.

Não iam à mesma igreja, tampouco. Havia uma placa relacionando as gerações de Warwick na parede da igreja episcopal de Santo Albano, para onde convergiam as pessoas mais poderosas de Ridge’s Race nas manhãs de domingo. Os Ashbourne também figuravam na placa, e Júlia fora batizada lá, uma criança chorona nos braços fortes do pai, que morrera quando ela contava apenas quatro anos. Mas, desde que Júlia se lembrava, nas raras ocasiões em que foram à igreja, Maisy escolhera congregações e religiões a esmo, em Leesburg ou Fairfax.

Mesmo não freqüentando as mesmas igrejas ou escolas, Bard sempre esteve presente na vida de Júlia. O haras Millcreek ficava pouco além na estrada. A pequena Júlia via o vizinho passar em esguios cavalos puro-sangue ou em um de vários carros esportivos caríssimos. Via-o também na cidade, discutindo o clima e política local na fila da agência

28

do correio, ou em Middleburg, comprando conhaque e rédeas. Até Júlia completar vinte anos, Bard não passara de um objeto no cenário local, como os quilómetros de cerca de quatro varões e os imensos trailers de cavalos.



Então, certo dia, ao ver o mundo em cacos a seus pés, ela finalmente deu uma boa olhada em Lombard Warwick, solteiro cobiçadíssimo, filho de Brady Warwick e Grace Lombard, herdeiro do haras Millcreek, formado em direito em Yale, dono de cavalos de caça campeões em uma região repleta de seletos eqüinos de raça.

Percebia agora que Bard estava no auge naquele ano, aos trinta e um, lindo de morrer. Os cabelos castanho-escuros não apresentavam sequer um fio grisalho, os olhos verdes cintilavam límpidos. O queixo comprido e elegante sombreava-se por barba negra, enquanto os malares angulosos definiam um rosto confiante e aristocrático. Ele tinha um jeito de olhar para uma mulher que lhe ensinara mais sobre a própria sexualidade do que os sermões confusos de mamãe e as aulas de higiene e saúde no ensino médio.

Não se apaixonara por ele, mas sentira-se atraída por sua força e autoconfiança, algo tão poderoso que, no final, mudara sua vida.

Bard ainda atraía fisicamente. Engordara, seguindo os” passos do pai, que taxara pesadamente os cavalos mais robustos do condado, mas até então os quilos extras só haviam somado a sua estima. Alto, de ossatura larga, deslocava-se com postura militar. Raramente o desafiavam, e ainda mais raramente o derrotavam no que quer que fosse.

As outras mudanças eram mais sutis. Os olhos continuavam límpidos, porém perturbavam. O grisalho nas têmporas era charmoso, mas enganoso. A idade não trouxera consigo a serenidade. Ele era inteligente, mas não necessariamente Perspicaz, conseguia esperar a oportunidade, mas nunca, nunca tinha paciência.

Agora não era diferente.

— Júlia, ainda não me disse o que Maisy veio fazer aqui. Essa insistência outra vez em voltar para casa... por acaso não foi ideia dela, foi?

29

— Tenho de relatar todas as minhas conversas com minha mãe?



— Não quero que ela atormente você.

Ele erguera um pouco a voz. Júlia o imaginava puxando o lóbulo, seu único cacoete visível quando se zangava.

— Bard, é você que está me atormentando.

— Por quê?

— Porque quer mandar na minha vida.

— O dr. Jeffers acha que ela vai desandar sua recuperação. É de Maisy que estamos fIando. Estou surpreso que tenha chegado aqui, que não tenha ficado no acostamento da estrada escolhendo folhas de outono por tamanho e cor

Júlia enfureceu-se, embora pudesse imaginar a mãe fazendo exatamente isso.

— Ela me ama. Está preocupada. Bard abrandou-se.

Estamos todos preocupados, querida. Quero que se recupere o mais rápido possível.

— Não quero ficar aqui. Podemos contratar outro terapeuta para me atender em casa. Ficaria bem menos caro do que me manter aqui.

— Mas não será tão benéfico.

Estava na hora de descalçar as luvas de pelica. Júlia endireitou-se um pouco e virou o rosto até ter certeza de estar encarando o marido.

— Não me quer em casa porque se sente constrangido. Não quer que ninguém saiba que sua mulher chegou ao fundo do poço, a ponto de criar uma deficiência.

— Esqueceu-se completamente de Callie. Acha que vai ser bom para ela ver a mãe desse jeito? Ela já anda bastante deprimida. Não precisa ver você batendo nas paredes e tropeçando nos degraus.

Em Júlia, a frustração se transformou em raiva e explodiu.

— Por que essa preocupação com Callie de repente, Bard? A maior parte do tempo, você não pensa nela duas vezes.

— Presumo que essa opinião venha de sua mãe, também.

— Vem direto de mim.

— Não costumo mimar Callie. Mas isso não significa que não me importe com ela.

30

Eu disse que você não pensa nela duas vezes. Callie é encargo meu. Eu tomo as decisões. Eu lhe dou atenção.



- E, sendo seu encargo, Callie espera que se recupere e volte a cuidar dela.

— Ela precisa estar comigo, eu enxergando ou não. As crianças imaginam o pior quando os adultos não são honestos com elas.

— Eu a tranqüilizo.

— Tem passado algum tempo com ela? Levou-a à Ianchonete? Levou-a ao cinema? Ajudou-a com o dever de casa?

— Eu trabalho. Faço o que posso.

O trabalho de Bard nunca fora fonte de tensão antes, porque Júlia estava sempre em casa para preencher as lacunas. Ele era advogado do Virgínia Vistas, um dos maiores empreendimentos imobiliários da região. Quando não estava negociando ou fechando contratos, trabalhava com os empreendedores, como advogado e como investidor particular. Com o dom de saber quando comprar e vender a terra verde do Senhor, Bard multiplicara a fortuna de modo que as propriedades consideráveis que herdara dos pais abastados agora não passavam de um ou dois itens em seu porta-fólio financeiro.

— Tem passado algum tempo com ela? — pressionava Júlia. — Ela adora cavalgar com você. Levou-a para cavalgar?

— A última cavalgada dela com um dos pais não deixou boas recordações.

— Mais um motivo. Ela precisa entender que meu acidente foi um acaso.

— Estou fazendo o que posso.

— Ela precisa de mais.

— Então, é melhor você se recuperar logo, não acha? O bem-estar de Callie deveria ser um incentivo.

— Como pode ser tão desprezível?

Bard não respondeu. Sem enxergar, Júlia só podia imaginar sua expressão. Nada agradável.

— Vou levá-la para cavalgar no fim de semana — decidiu-se ele, por fim.

Era uma concessão, mas não muita, considerando que ainda estavam na segunda-feira.

31

— Bard, isso que está acontecendo comigo não depende de meu controle consciente. Talvez demore a se curar. Se não se curar, não vou passar o resto da vida em Gandy Willson só porque você me quer fora do caminho.



— Gostaria que parasse de dizer isso. Está aqui para se recuperar.

— Ainda pode ver Callie antes que ela durma. Por favor, vá para casa e leia uma história para ela.

Bard refletiu.

— Está bem. Mas acho melhor ela ler para mim. Precisa praticar.

Outra velha discussão. Callie sofria de um tipo de dislexia que tornava a leitura uma luta. Bard acreditava que a menina superaria a deficiência se lesse em voz alta. Não importava o quanto ela se enervasse e se deprimisse.

— Pode ler para ela, por favor? — pediu Júlia. — Ela poderá praticar quando tudo voltar ao normal.

— Quer que eu passe algum tempo com ela, mas fazendo exatamente o que você quer.

— Se você passasse mais tempo com ela, eu não teria de lhe dizer o que fazer.

Quando respondeu, Bard já estava bem na frente dela. Deslocara-se sem fazer barulho.

— Se isso a faz se sentir melhor, vou ler para ela. Em troca, será que pode parar de enfrentar tudo e todos e se concentrar em ver novamente?

Júlia não se deu ao trabalho de repetir que nem toda a concentração do mundo lhe traria de volta a visão. Mas faria o trato.

— Vou seguir o tratamento.

— Assim é que se fala. — O marido inclinou-se e a beijou, não no rosto, mas nos lábios.

— Você vem amanhã?

— Claro. Espero que já esteja enxergando, então.

— Eu também.

— Vou para Richmond cedinho e poderei passar aqui só bem depois do jantar. Durma bem.

Isso ela não podia prometer.

— Você também.

32

Bard fechou a porta com a máxima delicadeza, mas mesmo assim o som reverberou. Júlia experimentava inúmeros sentimentos.



Nunca lidara bem com as próprias emoções. Raramente entendera o que alimentava a criatividade em seu íntimo, ou a selava por completo. Achara melhor não esmiuçar. Pintar, desenhar, ou mesmo esculpir, algo que fizera bem pouco, tornaram-se seu meio de vazão. Talvez não entendesse nada um pouco mais ao terminar, mas sentia-se melhor. E isso bastava.

Agora, o desejo de fazer esboços se manifestava com tanta força que quase lhe arrancava o fôlego. Levantou-se e caminhou tateando até encontrar a escrivaninha. Apalpou a madeira em busca da gaveta. Sentiu um puxador de madeira, agarrou-o, e sentiu a gaveta deslizando em sua direção. Colocou a mão lá dentro e procurou papel e lápis, mas encontrou só o que parecia ser uma agenda telefónica delgada, embora naquele quarto não houvesse telefone.

A fim de evitar roubo, Bard lhe confiscara a bolsa. No momento, não se dera conta de que ele a privava também dos lápis e do bloco de desenho, a única maneira de fazer esboços. Por que precisaria deles? Quem consideraria que uma cega poderia querer desenhar sem enxergar?

Mas ela queria. Com tanta intensidade, com tanta voracidade, que chegou a pensar que morreria se não o fizesse.

Antes que pensasse em uma solução, Karen bateu na porta e entrou.

— Vi seu marido sair. Precisa de ajuda para se aprontar para dormir, sra. Warwick?

Júlia quase chorou de alívio.

— Karen, sei que parece ridículo, mas sou artista e, mesmo sem enxergar, preciso desenhar. Basta um bloco de papel, um lápis, ou mesmo uma caneta. É difícil arranjar?

Karen demorou um pouco demais para responder, o bastante para Júlia saber que não era nos materiais que ela pensava.

— Sra. Warwick, o problema é que... o dr. Jeffers proibiu. Instruiu toda a equipe de enfermeiros a não lhe ceder material de arte.

33

Júlia não compreendia.



— Mas por quê? Ele teme que me suicide com um lápis?

— Acho... acho que ele pensa que é uma fuga da realidade E ele quer que a senhora enfrente seus problemas.

Júlia reteve o fôlego, perplexa.

— Quer que eu telefone para ele? — prontificou-se a moça. — Digo a ele o que me pediu e vejo se ele dá permissão. Se não for possível, talvez ele venha aqui para lhe explicar pessoalmente.

Júlia dispensou a oferta com um gesto. Sabia o que o dr. Jeffers diria. Psiquiatra da velha guarda, ele só acreditava na psicanálise.

— Lamento — murmurou Karen. — Não concordo com ele, mas, se a ajudar...

— Vou me aprontar para dormir.

— Lamento sinceramente. Júlia nem conseguiu responder.

— Vou avivar as brasas — declarou a enfermeira. — O fogo já quase se apagou.

Rígida, de pé, Júlia esperou até Karen fechar a porta. A raiva era agora um caldeirão fervente em seu peito. Raramente, sentira-se tratada com tanta injustiça. No momento mais assustador de sua vida, estava trancada entre estranhos que não podia ver, prisioneira de terapias ultrapassadas e dos caprichos de um psiquiatra.

Nunca fora rebelde. Em todas as áreas da vida, em geral tomava as decisões cheia de preocupação pelos outros. Mesmo como artista, jamais bIançara o barco. Pintava retratos e paisagens tradicionais. Na William e Mary, levara ao desespero os professores, que elogiavam seu talento incentivando-a a se libertar das convenções.

Queria se libertar agora. Seguira todas as regras, e o que lhe acontecera? O próprio corpo a traíra.

Respirou fundo para se acalmar, mas foi como se a rajada de vento alimentasse as brasas incandescentes. Do outro lado do quarto, veio um espocar suave na lareira. Imaginou o que restava do fogo que Karen acendera. A enfermeira espalhara a lenha. Uns gravetos, descrevera ela. Não devia haver nada agora, além de carvão...

34

Talvez restasse um graveto ou dois, parcialmente queimados, negros como carvão. Afastou a ideia de imediato, mas ela se formou de novo, uma tola e perigosa rebeldia que poderia incendiar a clínica. No mínimo, nunca mais teria fogo no quarto, por mais frio que fizesse.



Foi até a lareira e colocou as mãos espalmadas contra a abertura. O protetor era de vidro, como imaginara, pelos sons que Karen produzira ao abri-lo e fechá-lo. Encontrou os suportes para puxá-lo e foi recompensada com um som deslizante quando os painéis se separaram. Ajoelhou-se na lareira e expôs a palma das mãos contra a abertura. O calor era mínimo. Tinham sido chamas bem baixas, como Karen comentara.

Sabia que poderia se queimar, mas não se importava. Baixou as mãos e tateou a linha entre a lareira de ladrilhos e a seqüência de tijolos. A princípio, não teve sucesso, mas foi avançando, e sentiu um pedaço de madeira frio ao toque. Examinou-o cuidadosamente com a ponta dos dedos. Tinha uns cinco centímetros de diâmetro, mais graveto do que galho. Apertou-o na mão direita e deslizou a esquerda por seu comprimento. Sentiu mais calor à medida que progredia, até que recolheu os dedos chamuscados, alarmada.

Concluiu que a ponta do graveto ainda ardia. Ergueu-o mais alto e encostou a ponta no chão da lareira por alguns segundos. Então, passou a mão pelo comprimento outra vez. Repetiu a seqüência várias vezes, até ficar satisfeita. Ergueu-o e o agitou diante do rosto. Fumegava pouco agora, não mais em brasa, muito provavelmente a caminho de se transformar em cinzas.

Que importava se aquele lápis de carvão improvisado funcionaria ou não? Não podia ver o resultado. Era o movimento que importava, a tradução das visões em sua mente.

Levantou-se e percebeu que tremia de excitação. Quanto desta seria da amotinada e quanto da artista? Não sabia nem se importava. Estava para transformar uma situação impensável.

Escolheu a faixa de parede mais larga, uma sem quadros ou estantes que lhe bloqueassem os movimentos. A um braço de distância, imaginou de que cor a parede fora pintada.

35

Gostaria de ter perguntado a Karen ou Bard. Imaginou-a branca e então concluiu que o detalhe não importava, considerando que jamais veria o que estava para desenhar, exceto em sua própria mente.



E duvidava de que o dr. Jeffers promovesse mostras de arte.

— Ainda bem que não é papel de parede — comentou, em voz alta.

Respirou fundo, e as brasas incandescentes de sua imaginação explodiram em chamas.

36




1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   23


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal