Emilie Richards



Baixar 2.29 Mb.
Página19/23
Encontro30.06.2019
Tamanho2.29 Mb.
1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   23

CAPÍTULO XXXI
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

sr. Ian não tinha nem a idade de Alice quando o pai tentou ensinálo a montar. — Lettie punha a mesa para o jantar. Embora eu não dissesse nada enquanto arrumava rosas com mãos trémulas, ela sabia o que me perturbava.

— Foi um dia triste para todos nós quando ele aprendeu — repliquei.

Alice já dormia no andar superior, e aguardávamos convidados. Eu sabia que passaria boa parte da noite acalmando-a de pesadelos. Ian deixara nossa filha amarrada à sela por quase uma hora, e a menina voltara incoerente a meus braços. Embalei-a, tentando confortá-la, até que adormeceu, de pura exaustão.

— O pai do sr. Ian o ensinou do jeito que ele está ensinando Alice agora.

Não me interessava de fato se Ian aprendera seu comportamento imperdoável com o pai ou com alguma visita celeste. Ele afligira uma criança sensível, que não se recuperaria facilmente. Ian podia ter sofrido o mesmo abuso na infância, mas eu não queria que minha Alice ficasse como ele adulto.

— E não adianta tentar mudá-lo — advertiu Lettie. — É o que tenho a dizer. Certas coisas têm raízes profundas.

— Não posso expulsar o sr. Ian de casa, como você expulsou seu primeiro marido, não é?

401

— Sou só a cozinheira. Fechei os olhos.



— Desculpe-me, Lettie. É mais do que a cozinheira para mim. É amiga, e aprecio isso.

Pensei que ela não tivesse mais conselhos, mas estava enganada.

— Às vezes, quando não se pode expulsar o outro, é melhor ir embora...

Baixei a voz, embora Ian estivesse fora, e lhe revelei minha decisão:

— Vou para a casa de minha mãe. Ela está cada vez mais doente. E levo Alice. Amanhã, antes que o sr. Ian leve a menina para mais uma aula de equitação.

— Quer que Seth as leve à estação de trem?

Eu planejara ir a pé até Sweetwater e pedir misericórdia a Etta Carrolton, mas a ajuda de Seth facilitaria muito a fuga.

— Não quero que ele se encrenque.

— É só não dizer a ele aonde vão. Não vou dizer, tampouco. Ele nem vai saber que o sr. Ian desaprova.

Apertei-lhe a mão. Tinha uma aliada, os olhos e ouvidos que haviam testemunhado a transformação de Ian no homem que era.

Mostrei-me o mais amável possível naquela noite, para meu marido não desconfiar de nada. Eviteí-o, como ele devia esperar, naquelas circunstâncias, mas fui boa anfitriã e o jantar transcorreu sem incidentes. Alice dormiu o tempo todo, despertando apenas quando eu já ia me recolher. Acalmei-a até que reconciliasse o sono. Quando cheguei a meu quarto, Ian me esperava.

Andando de um lado para o outro, ele não parou ao me ver.

— Deve achar que fui muito duro, mas é a única maneira de quebrar o ciclo. Ela não vai sentir tanto medo amanhã.

Eu sabia que levantaria suspeitas se aquiescesse.

— Tem certeza? E se não?

— Nesse caso, vou repetir o procedimento até ela perder todo o medo. E você não vai me impedir.

— Oh, já deixou isso claro. Ninguém diz ao grande Ian

402


Sebastian o que fazer, muito menos os mais fracos. Estamos a sua mercê. Exatamente como sempre quis.

- Não precisa ficar histérica. A menina não apresenta arranhão ou hematoma.

- Está ferida no coração.

- Meu pai também era muito severo, e sobrevivi. Ou melhor, vicejei!

Você também apresenta cicatrizes no coração. O trauma o impede de sentir o que um pai deve sentir por sua filha.

Ele ergueu a mão para me esbofetear, mas permaneci imóvel, pronta para o golpe. Se ele me batesse, eu teria uma prova de que meu marido era violento e, portanto, de que minha filha e eu corríamos perigo.

Talvez o dia o houvesse abalado emocionalmente, também. Talvez, no fundo, se sentisse culpado pelo que fizera. Em vez de me agredir, retirou-se batendo a porta.

Houvera risos em nosso casamento, beijos ternos e lindos presentes. Aquele era o homem que me dera prazer na cama e uma filha que eu adorava. De repente, nada disso pesava. Esperei que aquele tivesse sido meu último encontro com Ian Sebastian.

Alice e eu acordamos sob céus ameaçadores, e arrumei uma pequena bagagem para nós duas. Expliquei a minha filha o que íamos fazer.

— Alice, nós vamos embora daqui. Para bem longe da fazenda Rio Fox.

Ela arregalou os olhos verdes.

— E Patches?

— Principalmente de Patches.

Alice animou-se pela primeira vez em vinte e quatro horas.

— Vamos visitar a vovó, e poderá brincar com seu primo Joseph. — Meu irmão George acabava de ganhar o Primeiro filho, e eu sabia que Alice gostaria do bebê.

Papai vai nos encontrar?

. Eu não devia voltar a criança contra o pai, mas estava indignada demais.

Não, papai não irá a Nova York. Ela pareceu se satisfazer com a resposta.

403

HUrEu sabia que Ian marcara compromisso na cidade, e ele saiu sem se despedir. Observei-o até desaparecer além da colina montado em Equator, apesar da ameaça de tempestade. Então, avisei Lettie de que estávamos prontas. Dali a minutos, estávamos no carro, com Seth ao volante, rumo à estação ferroviária. O aguaceiro caiu quando estávamos no meio do caminho, como que para encerrar minha vida na Virgínia com uma terrível fanfarra.



A viagem para Nova York foi longa e árdua. No entanto a cada novo quilómetro que me distanciava de Ian, meu coração sofredor se aliviava. Não importava o que acontecesse em seguida, estava livre dos abusos de Ian e, mais importante, salvara Alice. Seríamos pobres. Jamais encontraríamos lugar na sociedade nova-iorquina. Mas estaríamos seguras, e, ao abandonar Ian, eu ensinara a minha filha a lição mais importante de todas. Sua vida lhe pertencia, não era propriedade de nenhum homem. Poderia fazer dela o que quisesse, se tivesse coragem.

Eu telegrafara para George avisando que chegaríamos e por quê. Ele me aguardava na estação, vestido de preto. Bastou olhá-lo para saber que minha mãe se fora.

Entreguei-lhe Alice para um abraço.

— Mamãe partiu?

— Ontem à noite, por volta das dez horas. Tinha esperança de que agüentasse até você chegar.

— Foi em paz?

— Parecia aliviada em partir.

— Contou-lhe por que eu estava vindo?

— Não.

Aliviei-me. Mamãe morrera sem saber de minha desgraça



— Há mais — declarou George.

Continuávamos de pé na plataforma. Eu sabia que meu irmão, por mais prático que fosse, não me manteria ali sem um bom motivo.

Instintivamente, peguei Alice e a apertei contra o peito

— Ian sofreu um acidente.

Aguardei, de lábios contraídos, que o peso do mundo caísse sobre mim ou fosse retirado para sempre.

— Parece que, assim que vocês saíram, ele chegou em

404

casa para pegar algo que esquecera. Descobriu que tinham partido para a estação de trem e tentou alcançá-las cortando pela floresta. O cavalo o arremessou. Quando a montaria chegou sozinha no estábulo, os empregados iniciaram as buscas. Encontraram-no inconsciente.



— E agora?

— Continuava inconsciente, Louisa, quando falei com o médico pela última vez.

Não podia acreditar. Ian era o melhor cavaleiro da Virgínia, e Equator, agora mais velho e controlado, não costumava disparar. Ian devia ter corrido feito louco para nos alcançar. Devia ter mandado a cautela às favas.

Ciente de meu dever, não o questionei.

— Caso eu ficasse, George, teria me acolhido?

— É uma mulher casada. Volte para a Virgínia e tente de novo.

— E se ele continuar a me espancar? Continuar a abusar de sua sobrinha?

— Então, esforce-se ainda mais.

— Seria mesmo capaz de nos dar as costas, se eu não tivesse alternativa?

— Espero nunca ter de descobrir.

Eu também esperava. Rezei para que, na volta a Rio Fox, Ian Sebastian estivesse morto ou profundamente mudado. Não fazia ideia do tipo de mudanças que me aguardavam.

Christian não servia para detetive. Uma tarde inteira no palácio da justiça não lhe rendera nada. Não encontrara relatos importantes, nem licenças, nem documentos relativos à negociação do terreno nas proximidades de Southerland. Descobrira, sim, novas restrições ao uso da terra que praticamente impossibilitavam subdivisões agora. O condado combatia o crescimento urbano com unhas e dentes e, aparentemente, ganhava a guerra.

Foi dormir cedo e acordou ao amanhecer para trabalhar no canil, exercitar Night Ranger e preparar um seleto grupo de cães de caça para a caçada inaugural no dia seguinte. Peter e os empregados do canil sairiam com o resto da Matilha mais tarde. Pensando nas milhares de tarefas a

405


cumprir, percebeu que seguira na direção de Southerland só quando já estava quase lá.

Sem a menor vontade de rever o local do assassinato de Fidelity, deu meia-volta e subiu uma colina, atravessando a divisa de Southerland, mas sem invadir Ashbourne, pois duvidava de que Maisy receberia bem os cães em sua propriedade. Era o caminho pelo qual retornara do café da manhã com Sally Foxhall, na companhia de Peter. Aos oitenta e nove anos, a anciã seguia vivaz, com memória límpida do passado, se não do presente. Vivera muito tempo sozinha, até recentemente, quando uma neta de trinta e poucos anos amante do campo chegou para ficar.

Sally revelara que Lucy, a neta, herdaria Foxhall. Peter entusiasmou-se quando a moça demonstrou interesse em se tornar sócia do Mosby Hunt. Se ela integrasse o clube de caça à raposa, poderiam expandir a atividade pelos hectares de Foxhall por muitos e muitos anos.

No topo da colina, Christian freou Night Ranger e olhou a distância. Foxhall ficava a uns bons vinte minutos de cavalgada dali, mas a um curto sobrevoo para uma gralha. Não reparara na manhã da visita, mas algo em Sally o intrigava agora. A anciã exaltara demais as virtudes da neta. Comparada ao resto da família, Lucy parecia uma santa.

— Lucy veio para cuidar de mim — enaltecera a velha fazendeira. — É a única que se importa.

Naquela hora, Christian presumira que Lucy fora a única parenta a abrir mão da vida em outro lugar para cuidar da velha avó. Agora, imaginava se Sally se referira ao amor da neta por Foxhall.

Sally os recebera com a máxima hospitalidade. Como reagiria a uma visita de surpresa?

— Coelhos em vez de raposas — murmurou, dando tapinhas no pescoço do cavalo. — Ou em vez de Foxhall-

No terceiro ano da condenação, Christian partilhara cela com um homem que enganara idosos com a verve de um político e o talento de um artista de circo. Ele lhe revelara

406


seus segredos até que Christian ameaçou enforcá-lo com a própria língua. Mas aprendera uma lição. Sempre fingir saber o que não sabia.

Chegou ao escritório de Virgínia Vistas pouco antes do encerramento do expediente. Sabia que Bard Warwick estava lá, porque vira seu automóvel de luxo no estacionamento. Em nome dos velhos tempos, estacionou a picape colada ao pára-choque traseiro do carro bacana.

O escritório em si pecava pela decoração rebuscada, estilo casa rural inglesa, mas reconheceu um quadro, uma bela paisagem, como sendo de Júlia. Seu estilo amadurecera, tornara-se mais sofisticado, mas o tema principal permanecia os cavalos e a caça. Era mesmo muito talentosa, mas abrangia muito mais. Retratava com perfeição a natureza, as alegrias da camaradagem, valores como honra e respeito, que caíam em desuso. Não pintava raposas e cães, mas esperanças, expectativas, a busca do homem pelo indefinível.

Quando a recepcionista lhe indagou o nome, declarou que era um velho amigo de Bard e que gostaria de lhe fazer uma surpresa. Ela simplesmente indicou a sala dele e lhe deu as costas.

Bard falava ao telefone e não notou que alguém entrava. Christian fechou a porta e aguardou o fim da conversa. Viu a surpresa no rosto do outro quando se voltou na cadeira pronto para repreender quem ousara interrompê-lo.

— Precisamos levar um papo — adiantou-se Christian.

— Como foi que entrou aqui?

— Sei a senha.

— Pois vou mudá-la já. — Bard pegou o telefone.

— Vá em frente. Terei prazer em divulgar o que sei. Posso começar por Callie...

Bard pôs o fone no gancho.

— Quem pensa que é?

Sou o homem cuja filha você roubou.

Eu me casei com a mãe de sua filha. É bem diferente. Christian reparou que Bard não parecia surpreso com o fato de ele já saber.

407

— Assumiu-a como sua. Seu nome consta na certidão de nascimento dela.



— Júlia qiys assim.

— Já nos falamos.

— Só falaram?

— O que está insinuando?

— Júlia sai de casa. Você sai da prisão. Sei somar dois e dois.

— Não corretamente. O problema é entre vocês dois. Estou fora disso.

— Aposto como ela correu direto para os seus braços ontem, depois que decidiu me deixar.

Christian não disfarçou a surpresa. Júlia decidira se separar de Bard. Se parasse para pensar nisso, não conseguiria pensar em mais nada.

— Parece que está um dia adiantado.

— Pode-se contar com um bom negócio. Mas não se pode contar com uma mulher. Lembre-se disso, se ela fizer o mesmo com você.

Christian atravessou a sala e se sentou na mesa de Bard como se fosse um velho amigo. Enganchou a bota no suporte da cadeira de Bard e cruzou os braços.

— Fechou muitos bons negócios no auge da carreira, não?

— Saia da minha sala, Carver.

— Sei que tentou negociar com Sally Foxhall. Lembra-se dela? Quase dez anos se passaram, mas ela ainda fala muito bem de você, mesmo sem entender por que não a visitou mais, como costumava logo depois que ela sofreu aquele enfarto.

Bard era tão eficaz quanto Christian em esconder os sentimentos.

— Conheço Sally Foxhall. Criei-me aqui, sabia? Já era velha e meio caduca quando nasci.

— Quando foi que achou que ela lhe venderia as terras? Quando ela pensou estar à beira da morte?

— Que eu saiba, Sally não vendeu Foxhall a ninguém. Perdi algum lance?

— Absolutamente. É astuto, eu reconheço. Se tivesse fechado

408


o negócio, hoje estaria rico. — Christian fez pausa. Se bem que já está muito rico, não?

— Já disse, fora do meu escritório!

— Pois daqui vou direto ao xerife.

— Fazer o quê?

— Para começar, revelo que, na manhã em que Fidelity foi assassinada, você estava em Foxhall, acabando de convencer a velha Sally a encarregá-lo da venda da fazenda. Não podia mais continuar cuidando da propriedade, nenhum dos herdeiros queria o encargo... até que Lucy apareceu. Naturalmente, você mesmo teria comprado as terras via testa-de-ferro, sem que seu nome constasse na documentação. Imagino que teria instituído um consórcio ou algo assim, de modo que jamais relacionariam o futuro empreendimento à sua pessoa.

— Está louco.

— Vou lhe contar um segredinho. Sabe o que levei mais tempo para adivinhar? Por que você toleraria a incorporação de um condomínio residencial nos fundos de Millcreek? O fato é que não toleraria. Sabia que não havia esse perigo, porque, assim que corresse a notícia do empreendimento, os Sutherland, Peter Claymore e todos os outros poderosos se uniriam para comprar a terra de volta, pagando dez ou vinte vezes mais do que você teria pago a Sally. Talvez até participasse do movimento, para evitar suspeitas. No final, nada de empreendimento e muito lucro para seu consórcio de um.

— Quanta criatividade!

— Sally disse que confiava plenamente em você, para fazer o que fosse certo para Foxhall. Pena que ela tenha melhorado de saúde e decidido continuar lá, não é mesmo? Estava para pôr a mão em milhões!

— Você não conseguiria provar nada disso nem em mil anos.

— Não sei. Sally me parece bem lúcida, e adora falar...

— Mesmo que quisesse comprar Foxhall, seria só para incorporá-la às minhas terras. Antes um de nós do que um deles, é o que sempre digo. E você jamais conseguiria provar

409

o contrário. Ninguém acreditaria em uma palavra de Davey Myers.



— Sempre sobra um rastro de papéis. — Christian sorriu. — Em poucas semanas de liberdade, veja quanta coisa descobri.

Bard recostou-se na cadeira.

— Pago para ver.

— É mesmo? Inclusive diante do xerife?

— Não fiz nada ilegal.

— Sally Foxhall vai adorar falar de tudo do que se lembra. Incluindo Fidelity. Quem poderia esquecer? Eu jamais.

— Vai embora ou não vai?

— Fidelity encontrou-se com você em Foxhall naquela manhã. Sally recorda o fato perfeitamente...

Na verdade, Christian não sabia se o encontro ocorrera naquele dia. A velha Sally não podia ser tão específica. Vivia se esquecendo de que Fidelity estava morta, por exemplo.

Para sua surpresa, Bard confirmou.

— De fato, nós nos encontramos naquela manhã. Não é novidade. Ela foi lá para falar comigo.

— Estava perturbada, segundo Sally. Muito perturbada, mas quem não estaria? Acabara de descobrir o que você pretendia. Passara o verão todo xeretando e se intrometendo. Tinha tempo de sobra e não devia satisfações a ninguém.

— Mesmo sabendo que eu queria Foxhall, Fidelity não teria erguido um dedo. Como já disse, antes eu do que um forasteiro. Ela sabia que eu não deixaria construírem nada lá. Pensávamos da mesma forma.

— Longe disso.

— Quem é você para falar? Pode ter-se criado aqui, mas não passa do filho de um bêbado.

— Só que conquistei quem você mais queria, Bard. Isso deve dizer algo sobre minha linhagem.

A raiva atravessou a expressão do outro.

— Eu era bom demais para querer seus restos, mas os aceitei mesmo assim.

Christian agarrou Bard pela camisa e o puxou contra si. Bard era corpulento, mas achou melhor não resistir.

— Você não quis sujar as mãos, por isso, contratou

410

Gandoff para matar Fidelity, porque ela descobriu seus planos. Provavelmente, conheceu o assassino por meio de Davey.



Está louco! Christian apertou as mãos.

— Fidelity ia avisar a vizinhança, e você tentou convencê-la do contrário naquela manhã em casa de Sally. Como não conseguiu, decidiu matá-la. Vou provar que você cons- pirou com Zandoff e garantir que vá direto para minha cela em Ludwell.

Bard não se mexeu, nem tentou empurrar Christian.

— Nunca vai encontrar nada que me ligue a Zandoff. Até porque não foi ele quem a matou. — Sorriu sarcástico. — Sei quem foi.

Christian sabia que ele estava blefando. Era outra lição que aprendera na prisão. Sabia quando um homem dizia a verdade.

Soltou Bard, mas não baixou a guarda.

— Sally disse que viu os dois na estrada naquele dia, agitando os braços como cata-ventos. Então, Fidelity partiu com o carro, e você a seguiu minutos depois.

— O problema não era comigo. Ela estava zangada com outra pessoa. Com a pessoa que a matou, na verdade.

— Quem?

— Acha que simplesmente adivinhei?



Sem piscar, Christian esticou a perna e mandou a cadeira de Bard girando pela sala. Bard levantou-se.

— Eu sempre soube quem matou Fidelity, e não foi Karl Zandoff. Você só não percebeu porque estava tão cego quanto minha mulher está agora.

Christian sabia que não conseguiria fazê-lo nomear o assassino. Bard morreria antes de revelar. Teria de descobrir sozinho.

— Nesse caso, mesmo sabendo que eu não tinha matado Fidelity, deixou que me condenassem. Devia querer muito Júlia, não?

— Júlia era um prêmio cobiçado. Quase tão valioso quanto

411


Foxhall. Já que não podia ter uma, contentei-me com a outra.

Bard o provocava, para que ele tentasse lhe arrancar a verdade à força. A comoção traria o xerife, e ele voltaria para a cadeia.

Lembrou-se da lição mais importante que aprendera em Ludwell. Levantou-se.

E foi embora.

Júlia sentia falta de andar a cavalo. Sentia falta do cheiro e da textura das montarias, do rangido da sela de couro, dos breves sobrevoos ao saltar sobre um obstáculo. Saía sempre a passeio com Callie, quando Ramón não estava ocupado, mas, desde o acidente, os cavalos, a exemplo da pintura, já não faziam parte de seu cotidiano.

Para compensar, visitava Sandman, agora confortavelmente abrigado no celeiro de Jake. Era tão mansinho que ela até podia entrar na baia para escová-lo. Com a mão livre pousada na anca do animal, sempre sabia onde ele se encontrava. Adquiria tamanha confiança quanto a espaços que nunca se sentia ameaçada.

Naquela noite, após colocar a filha na cama, foi ao celeiro sozinha, testando o caminho com a bengala. O som do cascalho sob seus pés a orientava quanto a não sair da trilha. Não seguiu em linha reta, mas encontrou a porta do celeiro sem problemas, e entrou. Calçou as botas que sempre deixava por ali, deu um torrão de açúcar a Feather Foot e foi ao encontro de Sandman. Sentiu algo contra a perna e então um gato miou, como se ela lhe houvesse pisado em uma pata ou no rabo.

— Desculpe-me — murmurou, certa de que o bichano já estava bem longe.

Gostava dos sons no celeiro à noite. O noturno dos insetos lá fora, a movimentação dos grandes eqüinos em sono profundo, o estalido da palha sob seus pés. Ali, não havia música, nem ninguém para se preocupar com seu tédio.

Ninguém para ver suas lágrimas.

Nem sabia por que chorava. Porque seu casamento se acabara. Porque sua visão não retornava. Porque certo dia

412


TORMENTA DE PAIXÕES

sonhara com uma vida cheia de amor, na qual a partilha de coisas ínfimas trazia a satisfação mais profunda.

Encontrou a baia de Sandman e entrou. O cavalo parecia letárgico, adormecido talvez, e não se importou quando ela lhe afagou o focinho. Não saberia dizer por quanto tempo ficou lá soluçando, até que alguém a chamou.

— Júlia?


Não sabia de onde vinha a voz e, de início, nem a reconheceu. Percebeu então que Christian se encontrava no celeiro. As luzes deviam estar apagadas e, por conseguinte, ele não a via.

— Estou com Sandman. — Júlia fez pausa. — O que faz aqui?

Ele parecia mais próximo quando respondeu.

— Não sei.

— Não sabe?

— Está chorando.

Júlia enxugou o rosto com a mão, antes de tirar um lenço de papel do bolso.

— Não estou, não.

— Sempre diz isso. íamos ao cinema, e você não admitia que tinha chorado. Enxugava o rosto e afirmava que estava chovendo.

— Ainda se lembra de tudo, não é?

— Tinha muito tempo para recordar. Júlia teve vontade de chorar mais.

— Posso entrar? — indagou Christian.

— Não sei. Há espaço para todos?

— Comparada a outras baias, isto é um hotel de luxo. — Ele se juntou a ela. Seus casacos se tocaram, mas eles, não. — Bonito cavalo.

— É manso. Boa montaria para uma cega.

— Tem montado? Depois daquele dia, claro.

— O dia em que viu sua filha pela primeira vez? — Júlia suspirou. — Não. Só quando Ramón pode nos acompanhar.

— Deve ter se aprimorado muito ao longo desses anos.

-— Deve saber. Foi você quem me ensinou.

— Você quis aprender. Eu só estava lá para instruir.

413

— Praticamente teve de me segurar em cima do cavalo, Christian.



— Mas era amazona nata.

— Covarde nata. Talvez pressentisse algo já naquela época. Não teria ficado cega se não tivesse aprendido a montar não é?

— Mesmo assim, sente falta. Sei como é. Em Ludwell eu acordava às vezes... — Christian calou-se.

Por favor, conte.

— Sonhava que estava cavalgando. Aí, despertava e lembrava que estava preso.

Júlia conhecia a sensação.

— Depois que você foi condenado, eu sonhava que estávamos fazendo amor. Sempre acordava.

— Quando acordada, pensava em mim?

— Estava casada com outro homem. Quando o sol brilhava, era leal a ele. É engraçada nossa capacidade de nos dividirmos... Eu me esforçava tanto para esquecer você, mas, toda noite, você voltava. Quando despertava, depois de sonhar, não me sentia desleal com Bard, porque a escuridão pertencia a você. Imaginava como estaria, se ainda pensava em mim com algum sentimento que não a raiva. Recordava os bons tempos.

— Você o deixou. Ele me disse.

Ela se surpreendeu, mas não quis saber das circunstâncias.

— Eu devia tê-lo deixado há muito, ou me esforçado mais para nosso casamento valer alguma coisa. Mas preferi me distanciar. Achei que seria melhor para Callie se eu continuasse com Bard, só que errei. Ela é pequena, mas já se sente responsável pelos problemas que sente ao redor.

Estendeu a mão, para tocá-lo e se sentir segura. A seu lado, Sandman mexeu-se.

— Christian, não deixei Bard só porque você saiu da prisão. Não quero que pense isso. Deixei-o porque já tinha passado da hora, e finalmente juntei coragem.

— Por que está me dizendo isso?

— Para que não pense que estou abrindo uma porta para tentar arrastar você através dela. Não quero que se sinta responsável pelo fim do meu casamento.

414

— Vamos dar uma volta. Em Night Ranger.



— O quê?

— Vim a cavalo. Ranger pode nos levar. Já fez isso antes.

— Agora?

— Já. Você quer cavalgar. Eu tenho o cavalo.

— E quanto ao que eu disse?

— Captei a essência, Júlia. Vamos ou não? Ela se magoou, depois se zangou.

— Não. Era o que costumava fazer antes. Fechar-se. Achou que eu tinha traído você no banco das testemunhas e foi para a prisão sem me deixar explicar. Deixou na minha vida um buraco tão grande quanto aquele no qual o enfiaram!

— Agora, tem outro.

— Mas não estou pedindo que o preencha!

— Não, apenas deixou claro que sua separação não tem nada a ver comigo, para que eu não me sinta culpado. Pois aí vai a verdade, já que precisa de todas as palavras: pouco me importa por que deixou o filho da mãe. Pode ter tido uma visão, ou ouvido do médico que Bard era maléfico a sua saúde, ou simplesmente caído em si e percebido que ele representa a escória da humanidade.

Júlia digeriu a declaração.

— Então, o que veio fazer aqui? Se não liga para mim, por que me convidou para cavalgar?

— Acontece que não sou nenhum santo, nem nobre! Pouco me importa o motivo de você ter-se separado, mas me importa o fato de estar separada.

Ela se sentiu flutuar, como se lhe tirassem dos ombros o peso de nove anos. Estendeu a mão e o tocou no rosto. Ele a segurou no lugar.

— Ainda vamos demorar para falar de outra coisa além do passado e do presente — concluiu Júlia, afagando-o.

— Concordo.

— Mas, no futuro imediato, vejo um homem, uma mulher e um cavalo.

A mulher na garupa, abraçada à cintura dele?

— Nada me daria mais prazer.

— Não sei aonde vamos...

Júlia cogitou se ele se referia à cavalgada ou a suas vidas.

415


— Precisamos avisar Maisy que vamos sair.

— Já avisei.

— Então, vamos voar, Christian.

Ele lhe tomou a mão, não de leve, mas possessivo, como na época em que eram amantes. Conduziu-a com cuidado para fora do celeiro, anunciando as mudanças de direção e desvio de obstáculos. No pátio, ajudou-a a montar em Night Ranger e subiu também, em um movimento atlético, instalando-se na frente.

A sela não era grande o bastante para dois, mas o detalhe não tinha importância. Júlia sentia a agitação do cavalo e o corpo forte e quente de Christian suportando seu peso. Ele firmava os pés nos estribos, mas ela balançava as pernas livremente. Enlaçando-o com força, apoiou o rosto em suas costas.

Christian recuou os braços e lhe massageou as coxas.

— É mais leve do que um beija-flor.

— Night Ranger não deve pensar assim.

— Ele está feliz por ter você aqui. Júlia apertou-se mais contra ele.

— Será?


— Tenho certeza.

Christian endireitou-se, pegou as rédeas e fez a montaria avançar pelo pátio. Dali a pouco, em campo aberto, Night Ranger ganhou velocidade.

A noite estava fria, mas Júlia nem sentia. Flutuava em meio ao ar fresco da Virgínia, junto do homem que sempre amara. Se tivesse controle sobre o tempo, iria congelá-lo neste exato momento, para que nada nunca mais mudasse.

Enquanto Night Ranger alargava as passadas, Christian e Júlia reviviam seus sonhos, só que juntos, desta vez.

Christian cavalgava, e ambos faziam amor.

Maisy aguardava quando Júlia entrou em casa.

— Suas bochechas estão vermelhas como maçãs.

— Não é de admirar. — Era como se tivesse voado. Não trocara uma palavra com Christian, até que ele a ajudou a saltar da sela e acompanhou à porta, mas seu corpo cantava, e sentia o coração repleto.

416

— Venha se aquecer junto ao fogo. Depois eu desço e o apago-



— Pode ler mais um capítulo, Maisy?

— Agora?


— É. Não vou conseguir dormir tão cedo.

— Sabe, a história pode esperar. Não vai a parte alguma.

— Quero saber o desfecho.

— Ainda não escrevi o final.

— Leia o que já tem, então. Maisy hesitou, e Júlia percebeu.

— Parece relutante. Desculpe-me. Está cansada?

— Não, vou buscar.

— Quero saber o que aconteceu com Louisa.

— Ela voltou para Ian, você sabe.

Júlia percebeu que era hora de contar à mãe o que fizera.

— Mas eu não vou voltar para Bard. Comuniquei isso a ele ontem.

— Desconfiava.

— Não, você esperava.

— Júlia, só quero a sua felicidade. Mas não sei exatamente como irá consegui-la.

— Estou aprendendo a me ater a cada momento. Parece-me a única coisa com que podemos contar realmente.

— Pois se engana. Podemos mudar o futuro. Não todo, mas mais do que imagina.

— Espero que Louisa mude o dela. Maisy pegou a mão da filha e a apertou.

— Essa é uma vantagem das histórias. Podemos moldálas como quisermos.

417




1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   23


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal