Emilie Richards



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CAPÍTULO XXX
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Em momentos de fúria cega, Ian continuava a me espancar, e segui encontrando maneiras de me culpar pelo que ele fazia. Forçada a escolher entre um futuro incerto e um marido que declarava me amar e vivia prometendo nunca mais me bater, tomei o que me pareceu o caminho mais fácil.

Sempre me censurando severamente, Ian ignorou nossa Alice nos primeiros anos de sua vida. No fundo, eu me aliviava, descobrindo-a uma cópia tão perfeita de mim mesma. Apaixonava-me por suas características mais ínfimas, a forma das unhas, os macios cachos castanho-escuros que lhe cobriam a cabeça, os olhos de um verde idêntico ao dos meus. Tinha seis semanas quando me sorriu pela primeira vez, e fiquei feliz por Ian não estar lá para partilhar. Era minha filhinha. Ele a abandonara ao nascer. Na antiga Roma, ele a teria atirado aos lobos.

À medida que crescia, fui eu a testemunhar seus primeiros passos vacilantes. Eu a ensinei a contar, e o nome de todas as flores do nosso jardim. Alice era minha alegria, o propósito de minha existência, o motivo de meu casamento com Ian Sebastian não ser um completo fracasso.

Então, decorrido algum tempo, convencido de que eu jamais lhe daria um filho, Ian começou a mudar sua atitude em relação a Alice.

Até então, ele só vira a filha de passagem. Quando voltei

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de uma visita a minha mãe doente, foi como se nem tivesse notado a ausência dela. Ela o chamava de papai com sua voz infantil, e ele a mostrava às visitas, como devia fazer um pai orgulhoso. Mas eu tinha certeza de que, se colocasse Alice entre outras meninas parecidas e da mesma idade, ele não a reconheceria. Agora, de repente, reparava em tudo.



— Ela é muito medrosa — criticou ele, certa noite, após o jantar, observando-a brincar com três filhotes de cão de caça que levara para casa.

Vi Alice esquivando-se dos dentes dos cachorrinhos.

— Bem, eles mordem, e ela ainda não tem três anos. Logo se acostuma com eles.

— Tenho certeza de que você não era assim.

— Cada criança é diferente. Não há como comparar. Na noite seguinte, a cena se repetiu.

— Alice, pare de se lamuriar — ralhou Ian. — Empurre-os, se não quer que a mordam.

A menina arregalou os olhos. Até aquele momento de sua vida, o pai mal lhe dirigira a palavra.

— Eles me machucam...

— Afaste-os!

Ela tentou, mas tinha mãos pequenas e continuava temerosa quanto aos dentinhos caninos. Ian levantou-se e se aproximou.

— Eu lhe disse para afastá-los. — Empurrou os filhotes para trás. O que fora brincadeira para Alice era algo mais para Ian, e os cães entendiam. Um se deitou de costas, os outros dois se afastaram.

— Tem de ser corajosa — orientou Ian, severo. — Os animais percebem quando alguém tem medo, Alice, e se aproveitam. Tem de ser sempre forte e corajosa.

Ela o fitou com olhos cheios de mágoa e lágrimas. Ele meneou a cabeça e a deixou.

Dei-me conta então da felicidade que tinham sido os primeiros anos de Alice, quando o afastamento de Ian não causara problemas. Mas aquela súbita ligação poderia causar. Ela não agradara ao pai no primeiro teste de coragem. E haveria outros. Não se tratava de uma criança fraca, aPenas sensível. As cores lhe pareciam mais fortes, as vozes,

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mais altas, os sabores, tão picantes que ela preferia os alimentos mais suaves. Tinha aguda consciência dos humores que a cercavam, que por sua vez a afetavam. Achei que se dedicaria à poesia ou à música, mas nunca seria a atleta ousada e corajosa que Ian certamente esperava.



Previ encrencas.

As encrencas começaram para valer quando Ian determinou que era hora de Alice aprender a montar. A menina tinha fascínio por cavalos. Teria sido difícil para ela sobreviver em Rio Fox, caso contrário. Ao mesmo tempo, as criaturas enormes e velozes a amedrontavam. Respeitava seus cascos e pernas esguias, e gostava de vê-las a distância, mas sempre a uma boa distância.

Faltando uma semana para o terceiro aniversário de nossa filha, Ian chegou de um leilão com um pequeno pónei malhado.

— Venha ver o que comprei para Alice — chamou-me, naquela noite.

Acompanhei-o até o estábulo e fiquei exultante com sua escolha.

— Mas não fique chateado, meu querido, se ela não se entusiasmar logo de início — alertei. — Por menor que seja o pónei, ainda lhe parecerá imenso.

— Você mima demais essa menina. Um dia, esta fazenda será dela, e ela terá de saber tudo sobre cavalos e equitação para tocar o negócio.

Ao mesmo tempo que me maravilhava por vê-lo raciocinando assim, eu me afligia. Nossa filha não era tão levada quanto ele gostaria.

No dia do aniversário de Alice, os vizinhos chegaram para a festa. Os Carrolton, um casal com dois meninos, haviam arrendado Sweetwater na esperança de que os Jones ainda lhes vendessem a propriedade. Ian admirava Bob Carrolton, praticante de caçadas na Inglaterra, e Etta Carrolton também era amazona hábil. Boquiaberta ante o barulho que Dick e Gil, de cinco e seis anos respectivamente, faziam, Alice os observava curiosa de meu colo.

Lettie serviu presunto com diversos tipos de salada e então um grande bolo de coco para comemorar o aniversário

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de Alice. A tarde já se resfriava quando Ian chegou com o pónei para a filha ver. Interessada e cautelosa, ela se deixou conduzir pelo pai e passou a mão no focinho do animal. Então, assim que Ian lhe soltou a mão, ela correu de volta para mim.



Os meninos acharam muita graça. Estavam loucos para montar, embora, para seus padrões, o pónei de Alice fosse manso demais.

— Terão sua vez, mas Alice primeiro — determinou Ian. Ele tirou Alice de meu colo e a colocou sentada no lombo em pêlo do animal. Como era bem-comportado, não requeria mais do que um cabresto. Alice segurou-se na crina, enquanto o pai puxava o pónei pelo pátio.

Exultei ao ver minha filha se saindo tão bem. Esperara lágrimas quando Ian tentasse colocá-la no lombo do animal, mas Alice olhava reto em frente, sem a menor intenção de protestar. Após várias voltas no pátio, Ian a retirou. Só então percebi como ela estava amedrontada. De volta ao meu colo, tremia tanto que eu mal conseguia contê-la. Ela se agarrou a meu pescoço e chorou. Para completar, molhou a saia.

Ian era só desgosto. Eu via na expressão dele, ainda que cortês, levasse os meninos visitantes a passear de pónei também. Finda a festa, assim que os Carrolton se retiraram, ele explodiu.

— É tudo culpa sua! Quer que ela fique agarrada à barra da sua saia!

— Não é verdade! Ela tem só três anos, Ian. Vai adorar o pónei quando se acostumar com ele. Na verdade, foi muito corajosa. Montou nele, apesar do medo. Vai aprender, se lhe der uma chance.

— Você paparica demais essa menina! Depois de se revelar uma mulher inútil, transformou minha única filha em uma ratinha medrosa!

Pensei que fosse submeter Alice a mais uma lição de Quitação naquela noite, mas ele entrou em casa. Dali a Pouco, o cavalariço foi buscar o pónei. Eu mesma coloquei nossa filha para dormir, como de hábito, mas Alice tinha Pouco a dizer, e nada sobre o pónei. Disse-lhe que o pai

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comprara o pónei especialmente para ela, e que logo aprenderia a montar nele, como uma menina crescida.



Alice desviou o rosto e enfiou o polegar na boca.

Ian aguardava-me em meu quarto. Meu coração se acelerou quando vi o rosto dele. Estava zangado, e eu sabia o que isso podia significar, mas, dessa vez, ele não me bateu

— Alice passa tempo demais com você. A partir de amanhã, dedicarei parte da manhã a ela, ensinando-a a montar. Não parece animada com a perspectiva — concluiu, já que eu não respondia.

Não me passava pela cabeça contrariá-lo. Até aquele momento, ele ainda não levantara a mão, mas eu percebia sua luta para se conter.

— Estava pensando no quanto uma menina precisa do pai — revelei, franca. — Alice precisa mesmo passar mais tempo com você.

— Não vou admitir que interfira em nada que eu fizer.

— Ela é sua filha. Sei que vai tomar conta dela. Apenas... lembre-se de que o que lhe acontecer agora poderá marcá-la pelo resto da vida.

Ele demonstrou desgosto, como se a ideia fosse ultrapassada e não das mais modernas.

— Virei buscá-la após o desjejum. Que esteja pronta. Ele se retirou sem mais uma palavra, e eu sabia, por minha experiência, que não voltaria. Naquela noite, eu não era digna de suas atenções.

Na manhã seguinte, tentei preparar Alice para a primeira aula de equitação.

— Seu pai vai levar você para ver seu pónei. Ela ficou apreensiva.

— Mamãe também vai?

— Hoje, não, doçura. Papai quer Alice só para si. Ela não se mostrou contente. Continuei:

— Papai comprou o pónei só para você, e quer que você aprenda a montar nele. Não há perigo. Papai vai tomar conta de você.

— Não gosto de pónei — declarou a menina, fazendo beiço.

Eu sabia que tinha de ser firme.

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— Mas vai aprender a gostar dele, e também a montar nele. Papai quer assim, e você deve ouvir papai.



O que quer que tivesse ouvido em minha voz a convenceu. Continuava de olhos arregalados, mas não discutiu mais.

Alice estava pronta quando Ian chegou. Ele nunca sorria para a filha, nem a tocava no queixo, nem a carregava um pouco, demonstrações de afeto que eu tivera de meu pai também severo. Ian raramente a olhava e ainda mais raramente lhe dirigia a palavra. Desta vez, porém, fitou-a detidamente, como se quisesse confirmar que estava inteira.

— Alice, vamos montar. Sua mãe lhe contou?

— Ela disse que tenho de aprender a gostar. Ele me olhou, eu dei de ombros.

— Foi exatamente o que eu disse, Ian.

— Não existe criança no mundo que não goste de póneis. Eu receava que Alice fosse uma.

— Expliquei que não havia perigo e que você tomaria conta dela.

— Parece até que está me alertando.

Eu temia demais por minha filha para sentir medo dele naquele instante.

— Por favor, tenha paciência com ela — pedi, branda. — Sabe, nós, mulheres, reagimos melhor quando nos tratam com carinho.

Ele pegou Alice no braço e a carregou para fora da casa. Podendo arrebatá-la de volta e fugido, eu o teria feito. Voltaram juntos uma hora depois.

— Hoje só demos uma olhada — informou Ian, mal-humorado. — Ela deu uma cenoura para ele comer, e eu lhe expliquei o que é uma sela.

— Afaguei o focinho dele — completou Alice, solene.

— E ele afagou o seu, meu amor?

Ela não riu, sinal evidente de que a aula a extenuara. Quando correu para voltar a seu quarto, Ian impediu-me de segui-la.

— Ela tem medo de tudo. De mim, do pónei, das sombras do estábulo!

— É tudo muito novo para ela. Mas tenho certeza de que foi um bom começo.

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— É bom que melhore logo. — Ele se retirou, e senti um aperto no estômago.

A lição do dia seguinte devia ter sido parecida. Assim que Ian voltou ao estábulo, fui atrás de minha filha. Encontrei-a sentada de pernas cruzadas na cama.

— Você montou no pónei hoje, querida?

— Ele se chama Patches.

— É? Foi você quem escolheu o nome?

— Ele tem manchinhas.

— Eu sei, é todo malhado. — Juntei-me a ela na cama. — E papai a levou em um passeio pelo pátio?

A filha não respondeu.

— Alice?

— Não gosto do Patches. Senti o coração afundar.

— Alice, Patches é um pónei muito mansinho. Pode se esforçar para gostar dele, por mim? Ele não vai machucar você. Depois que aprender a montar nele, poderemos dar longos passeios por toda a fazenda Rio Fox.

Ela me olhou com a mesma expressão teimosa que eu testemunhara tantas vezes no rosto de meu marido.

— Não gosto dele.

— Mas tem de aprender. — Com isso, deixei-a refletindo. No final da semana, ficou claro que a paciência de Ian se esgotava. Quando foi buscar a filha para mais uma aula, avisou-me de que selara o pónei e que Alice montaria naquele dia, quisesse ou não.

— Ian, é melhor esperarmos ela crescer mais um pouco...

—Alice é uma criança inteligente, Louisa. Só está teimando.

Desesperei-me.

— O que pretende fazer? Bater nela, como me bate quando não faço o que quer? Alice é muito pequena. Iria machucá-la muito.

Ele estreitou o olhar.

— Vá lá em cima buscá-la, ou a trarei arrastada.

Eu não sabia o que fazer. Se me recusasse, ele cumpriria a ameaça. Se continuasse argumentando, poderia enfurecê-lo tanto que ele acabaria mesmo batendo na menina. Decidi ir buscá-la. Na escada, recomendei-lhe que obedecesse

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ao pai, embora pressentisse que aquele dia não terminaria bem para nenhum de nós.

— Gostaria de ir junto e assistir — declarei, enquanto Ian pegava a mãozinha dela.

— Hoje não.

— Posso incentivá-la...

— Louisa, vá para o seu quarto e fique lá até voltarmos.

— Sou prisioneira em minha própria casa?

— Não quero que interfira. Suba.

Alice nos observava de olhos arregalados. Eu sabia que ela ficaria ainda mais assustada se me visse insistir.

— Está bem — concordei, o mais animada que pude. — Divirtam-se os dois, por favor. Alice, seja boazinha e faça tudo o que papai mandar, está bem?

Comecei a subir a escada, mas, assim que a porta se fechou, fui à saleta, de onde se tinha boa vista do pátio diante do estábulo. Ian possuía binóculos. Tentei recordar onde ele os guardava, mas o pânico me obliterava a mente. Finalmente, encontrei-os em uma secretária de nogueira. De volta à janela, posicionei-os e ajustei o foco das lentes.

Enxerguei Alice nitidamente. Caminhando ao lado do pai, atrasava-se um pouco, como faziam os condenados a caminho do patíbulo. Ian lhe dizia algo enfatizando com movimentos do dedo indicador. Senti meu coração afundar.

Tentei pensar no que fazer. Ian irritava-se tão facilmente que, se eu tentasse interferir novamente, poderia fazer algo terrível com nossa filha. Não havia ninguém próximo que pudesse interceder por mim, certamente nenhum empregado, todos dependentes do patrão para o pão de cada dia. Os vizinhos não se envolveriam em uma disputa doméstica e, além disso, os homens concordariam com Ian. Estava sozinha e incapaz de defender minha filha.

Patches estava selado e à espera na entrada do estábulo. Aparentemente, Ian revelara todo o seu plano, pois, assim que chegaram, ergueu Alice do chão e a colocou no minúsculo silhão que comprara para o pónei. Ela se atirou nos braços dele antes que se afastasse. Eu via seu rostinho claramente, Ela soluçava.

Levei o punho cerrado à boca para abafar um lamento, tirando

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os binóculos trémulos. Quando os recoloquei diante dos olhos, vi Alice de novo na sela. Mais uma vez, ela tentou sair, mas Ian a segurou no lugar. A boca dele se movia, e eu podia imaginar o que dizia. A menina encolheu-se, mas tão logo o pai se afastou, tentou desmontar novamente.



Ian voltou-se e gritou qualquer coisa, provavelmente a um dos cavalariços. Segurou Alice no lugar, enquanto ela se contorcia para descer, porém, para meu alívio, não bateu nela. Minutos pareceram se passar, e ele a mantinha na sela. Então, o rapazote chegou carregando algo debaixo do braço, que passou a Ian. Horrorizada, eu o vi esticar a tira de couro e começar a amarrar a filha à sela, indiferente a seus protestos e soluços.

Senti-me mal fisicamente. Meu estômago inchou e engoli bile. Ian afastou-se. Alice continuava lutando, mas agora não tinha como sair de cima do pónei. Observei enquanto ele conduzia a pequena montaria pelo pátio. Após várias voltas, como Alice continuava chorando, Ian amarrou as rédeas de Patches a uma árvore e deixou minha filha apavorada para enfrentar seus temores sozinha.

Durante as semanas de cegueira, Júlia esperara que as pessoas a procurassem. Naquela manhã, ao despertar, soube que isso também teria de mudar. Estava cega. Embora os médicos estivessem convencidos de que voltaria a ver, não tinha por que acreditar neles. Cada revelação mínima lhe dera a esperança de estar no caminho da luz. Agora, ao abrir os olhos e constatar que o mundo continuava negro como o fim dos tempos, percebia que não podia deixar a vida em suspenso. Usara o fato de não enxergar como desculpa para não agir.

Não havia ligação relevante.

Tomou banho e se vestiu antes de todos. Quando Jake chegou para fazer o café, já estava pronta para sair.

— Acordou cedo — admirou-se ele. — E parece que vai a algum lugar.

— Vou a Millcreek.

— Precisa de carona. — Não era uma pergunta.

— Importa-se?

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- Devo levar meu café e o jornal?

— Ficaria grata se esperasse enquanto falo com Bard. O padrasto devia ter percebido como ela odiava pedir, pois replicou pensativo:

— Sabe, Júlia, não é incómodo algum ajudar você. Muito menos para mim e sua mãe. Eu costumava desejar que precisasse mais de mim. Gosto de me sentir necessário.

— Estou contente que vá estar lá comigo. Não há ninguém que eu quisesse mais.

— Vou colocar café em uma garrafa térmica e saímos. Não quer tomar?

— Não, prefiro ter com Bard primeiro, obrigada.

A viagem foi curta e silenciosa. Júlia esperava encontrar o marido em casa, mas sabia que se arriscava. Não quisera anunciar a visita. Para variar, era Bard quem seria pego de surpresa.

Em Millcreek, Jake a ajudou a saltar e ela entrou na casa usando a própria chave. Ouviu a voz do marido vindo da sala de jantar e as réplicas deferentes da sra. Taylor. Tomavam cedo o desjejum e, ao final da refeição, Bard costumava passar à governanta uma lista de tarefas para o dia. Júlia raramente tomava o café com o marido, esperando, percebia agora, escapar a destino semelhante.

Imaginou se, a exemplo da fictícia Louisa Sebastian, acomodara-se aos caprichos de Bard para manter a paz. Louisa por medo, ela por culpa e gratidão.

— Se me levar até a porta da sala de jantar, farei o resto — disse a Jake, em voz branda.

— Estarei na varanda a sua espera. A sra. Taylor a acompanha até a saída?

Presumira, logicamente, que Bard não estaria disposto.

— Tenho certeza de que sim. Ou eu mesma encontro o caminho. Conheço bem esta sala.

— Estou lá fora. Leve o tempo de que precisar. Enquanto o padrasto a conduzia, Júlia memorizou os passos e desvios. Quando ele parou, soltou-lhe o braço.

— Olá, Bard.

O marido ficou surpreso.

— Júlia!

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Ela ouviu os passos de Jake se afastando e então a port frontal da casa se fechar.

— Era Jake? — Bard parecia mais próximo agora. Levantara-se para recebê-la.

— Ele me trouxe e vai esperar lá fora.

— Por quê? Chame-o de volta. Pedirei à sra. Taylor que prepare mais café e tudo o mais. Ele pode nos fazer companhia

— Não creio. Esta não é uma visita social. A voz dele baixou vários tons.

— Não?


— Desculpe-me. Pensou que eu tivesse voltado?

— Quer dizer que veio aqui para me dar más notícias?

— Vim lhe fazer uma pergunta.

— Já inventaram o telefone, sabia?

Bard recorria ao sarcasmo para obter o controle de uma conversa. Júlia sabia disso, mas não recuou.

— Queria estar na sua frente, mesmo não podendo vê-lo.

— Sendo assim, acho que não preciso lhe oferecer o desjejum.

— Vamos direto ao ponto. Por que mentiu durante todos esses anos quanto ao motivo de não termos um filho?

Ela quase podia ouvi-lo considerando respostas variadas, mas a eleita a pegou de surpresa.

— Estou feliz que saiba. Isso a surpreende?

— Muito. Mas será que acredito?

— Vamos para a sala de estar... Júlia nem se mexeu.

— Por que não me disse que fez vasectomia?

— Sei que está zangada. Não a culpo. Eu...

— Quero uma explicação, não uma interpretação dos meus sentimentos. Apenas exponha os fatos.

Bard demorou a responder. Ela aguardou, recusando-se a quebrar o silêncio, como fizera tantas vezes durante o casamento.

Quando falou, a voz dele era um eco de seu ego robusto.

— Quando Callie completou dois anos, dei-me conta de que não queria mais filhos. Já não conseguia dormir de preocupação, aflito toda vez que fazíamos sexo, mesmo evitando a gravidez. Por isso, decidi tomar uma atitude.

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Sem falar comigo?



Não havia o que discutirmos. Na época, nada que você dissesse me faria mudar de idéia. Eu não gostava de ser pai. Não gostava da bagunça, do barulho, do tempo que perdia. Não passaria pelo flagelo de novo com outro bebê, nem Que fosse meu. Fiz a operação quando estava fora da cidade. Eu ia lhe contar.

— Quanta consideração. Acabou se esquecendo?

— É que me arrependi depois. Fui impulsivo demais. Você tinha direito a opinar. Sei disso agora.

Júlia estava tão nervosa que preferiu não replicar.

— Como descobriu? — indagou Bard.

— O interno que me examinou na Gandy Willson ficou intrigado com meus períodos irregulares e me perguntou por que não tomava pílula. Eu disse que não precisávamos evitar uma gravidez. Eu quis dizer que esperávamos ter um bebê, mas ele pensou que eu me referia a sua vasectomia. Dr. Forrester. Lembra-se desse nome? Consultou-se com ele no ano passado, para tratar de uma infecção urinária, quando seu médico estava viajando. O dr. Forrester lembrou-se da vasectomia porque você estava convencido de que era essa a causa da infecção, e ele não conseguia chamá-lo à razão.

Bard mudou o tom:

— Por pior que pareça, sinto-me justificado.

— Posso saber por quê?

— Eu sabia que era apaixonada por outro homem. As chances de você querer um filho meu iam de poucas a nenhuma. Se você um dia quisesse mesmo, eu poderia tentar uma reversão.

— E se não desse certo? Ia inventar que ficou estéril por causa de caxumba ou algo assim?

— Foi estupidez, eu reconheço, mas acho que estava enjoado de ser o homem com quem você se casou só para dar Um sobrenome a sua filha. Não vi por que lhe contar a Verdade. Você nunca ia querer um filho meu, de qualquer forma.

—- Se tivesse me dito que não queria mais filhos, talvez não tivesse tido importância. Mas manteve a vasectomia

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em segredo porque queria que eu pensasse que o problema era comigo.

— Eu errei.

— Esse é seu jeito de pedir desculpas?

— Não seja hipócrita! Eu me casei com você, não? Nunca gostei de crianças, mas assumi a responsabilidade pela bastardinha de outro para podermos ter uma vida juntos.

As palavras tinham um poder que transcendia as sílabas e o enunciado. Em um segundo, ainda havia casamento, mais ou menos. No outro, não havia mais.

— Não quis dizer isso — declarou Bard, em seguida. Mas não era possível recolher as palavras ditas.

Ele a tocou no braço, tentando remendar:

— Casei-me com você porque era a mulher que eu queria, Júlia.

Ela respirou fundo.

— Durante todos esses anos, desconfiei de que grande parte de minha atração por você tinha a ver com Ashbourne. Quando Maisy morresse e a propriedade se tornasse minha, seria sua, também. Mas nunca me dei conta de como minha gravidez facilitou tudo para você.

— Pode até parecer assim, mas...

— Eu tinha a propriedade, o nome, a formação. Era aceitável sob todos os aspectos, e ainda precisava de você. Com exceção da bastardinha do outro, era mesmo um arranjo perfeito, não?

— Casei-me com você porque queria que fosse a minha mulher.

— Casou-se comigo porque é um filho da mãe com coração de pedra que viu uma oportunidade e a agarrou! Sentiu por mim o mesmo que sente por uma propriedade espetacular que aparece em seu caminho. Um pedaço de terra como Ashbourne, por exemplo. E sentiu ainda menos por Callie.

Júlia deu meia-volta, mas o marido a segurou pelo ombro.

— Combinamos sob todos os aspectos. E nos demos bem, como previ. Talvez não nos amássemos no início, mas te amo agora. Farei o que for preciso para superarmos esta crise. Irei à terapeuta com você, se é o que quer. Passarei

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mais tempo com Callie. Se voltar para casa e me deixar cuidar de você, está tudo resolvido. Mas nunca entraremos em um acordo com você morando em Ashbourne. Tem de voltar para casa para fazermos dar certo.



— Por quê?

Bard reagiu perplexo.

— Por quê?

Por que quer que eu volte para casa.

— Para termos mais tempo...

— Para que possa me controlar — corrigiu Júlia. — Para que não me influenciem contra você, não é? Para que não fique tentada a fazer coisas que você desaprova.

— Não sei do que está falando.

— Sabe, sim. Cometi um grave erro nestas últimas semanas, Bard. Não contei a Christian que Callie é filha dele. Pois ele acabou descobrindo de outro jeito. Voltar para Millcreek não vai acionar para trás os ponteiros do tempo. Nada voltaria a ser como antes. Para ser franca, nem sei como era antes. Disse que me ama. Mesmo que seja verdade, o amor não é nada comparado a endireitar o passado. Você não está disposto a isso, e acho que nunca estará.

— Quer dizer que acabou? Vai jogar fora nove anos de casamento por causa de uma mentirinha?

Nosso casamento foi uma mentira.

— Bastante conveniente, Júlia. Precisava de um marido para dar nome a sua filha. Servi. Agora, não precisa mais de marido, porque o verdadeiro pai da criança está de volta. Entra Christian Carver. Sai Lombard Warwick.

Júlia vasculhou o coração e teve a certeza de que dizia a verdade:

— Se Christian retornasse agora à prisão, eu não mudaria minha decisão. Nosso casamento terminou antes de começar. Levei nove anos e precisei perder a visão para enxergar isso claramente.

Maisy soube que Júlia fora a Millcreek logo cedo, mas nem ela nem Jake sabiam os detalhes. A filha passara o dia pálida e tensa, mas, excetuando o detalhe, mostrara-se ela mesma. Callie já fora dormir e Júlia permanecia na

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varanda, embora a temperatura já caísse abaixo dos dez graus centígrados.



— Vai se congelar — advertiu, levando uma manta de retalhos de sua fase de trabalhos com agulha. Clover abrira um buraco em um dos quadrados, o que devia ser considerado progresso, no caso da cadelinha retardada. — Será que consigo convencê-la a entrar?

— Você é um amor, mas estou bem. Parece que o outono chegou para valer, não é? As folhas já estão caindo?

— Mais rápido do que eu gostaria. Jake está acendendo o fogo na lareira. Se quiser ouvir outro capítulo, podemos nos acomodar diante dela.

— Mal posso esperar.

— Verdade?

— Quero saber se Louisa teve coragem de abandonar Ian.

— Não vou adiantar nada.

— Uma coisa é um homem maltratar a mulher. Outra bem diferente é ele maltratar uma criança.

— Mulheres e crianças foram consideradas posses durante séculos e séculos. As atitudes demoram a mudar.

— Viu alguma mudar em seu período de vida? Maisy juntou-se a Júlia no balanço.

— Não rápido o bastante.

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