Emilie Richards



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CAPÍTULO XXVIII
No meio da tarde, sentada ao sol na varanda frontal, Júlia enrolava uma bola de argila nas mãos. Callie e Tiffany brincavam com Clover no pátio.

Entre os gritos de prazer das meninas e a serenata da cadelinha, Ashbourne vibrava com música. A porta de tela bateu e Maisy comentou:

— Estão se divertindo à beça, hein?

— Essa cadelinha foi o melhor presente que Callie já ganhou.

— Posso me juntar a você?

— Claro. — Pelo ranger das correntes, Júlia soube que a mãe se acomodava no balanço. Contara-lhe logo cedo que Christian descobrira tudo. Estranhamente discreta, ela não pedira detalhes. Aliviara-se, pois não queria reproduzir a cena daquela noite.

— O que está fazendo?

— Não sei.

— O busto de alguém?

Júlia continuou enrolando a argila. Não importava o que fizesse, a massa insistia na forma da cabeça e rosto de um homem, ao menos em sua mente.

— Só estou mantendo as mãos ocupadas.

Karen levara Júlia a Warrenton para mais uma sessão com Yvonne. Ela se deixara hipnotizar novamente, com bom resultado. Conseguira relaxar notavelmente, e as lembranças fluíram.

— Falamos de Fidelity e do que senti quando soube que ela fora assassinada.

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— Deve ter sido difícil.

Júlia lançava a bola da argila de uma mão para a outra

— Sabia que tínhamos brigado na noite anterior?

— Nunca me contou isso.

— Precisei da hipnose para me lembrar.

— Por que brigaram?

Júlia começou a modelar a massa.

— Por causa de Christian e Robby.

— Normal, não acha? Moças brigando por causa de rapazes.

— Ela achava burrice eu me comprometer. Devia ser inconseqüente, como ela. Contou que Bard estava interessado em mim, queria que eu saísse com ele, para ver o que acontecia. Ela não entendia que era diferente para mim, que eu já tinha encontrado o homem da minha vida.

— Brigaram feio?

— Fidelity nunca levava nada tão a sério.

— Onde Robby entrava na história?

— Fidelity achava que Robby precisava adquirir mais confiança.

— Isso era verdade. Para um garoto tão inteligente, ele se mostrava muito inepto com as pessoas.

— Robby estava sempre pensando. Quando voltava à realidade, tinha perdido muita coisa e não sabia como se justificar.

— Boa análise. Mas como Fidelity pretendia aumentar a confiança dele?

— Flertando com ele. Nada de mais. Ela achava que, se lhe desse alguma atenção, ele se sentiria mais seguro de si. Fidelity não tinha a menor dúvida quanto a seus poderes.

— Não pode me ver, mas estou meneando a cabeça. Júlia deu-se conta de que modelava um rosto masculino novamente. Já formara o nariz e havia alisado o espaço para os olhos. Enrolou a argila e a deixou cair na mesa ao lado.

— Sabíamos que Robby procurava seu lugar ao sól.

- Fidelity acreditava em soluções simples, era só isso.

— Aquela garota precisava trabalhar.

— Andava atrás de Christian, também, atormentando-o quanto a ir para uma universidade melhor.

— Foi por isso que brigaram?

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Ela havia nos incomodado o verão todo, tumultuando sempre que possível. Fiquei farta e lhe disse para nos deixar em Paz.



Foi assim que terminaram sua última conversa.

Fidelity riu, mas eu saí zangada, e disse isso a ela. Agora lamento. É uma triste lembrança do último encontro com minha melhor amiga.

Quantas vezes já não tinha brigado com Fidelity?

Poucas. Quem passava muito tempo zangado com ela?

E o que sua raiva causou a ela naquele dia?

Absolutamente nada.

— Então, não acredita que ela tenha perdido o sono na última noite de sua vida por conta disso?

Júlia sentiu um nó na garganta.

— Maisy, por que nunca temos a oportunidade de nos despedirmos das pessoas que amamos?

— As vezes, temos.

— Eu nunca tive.

Apesar da noite insone, Christian atirou-se ao trabalho braçal pelo resto da tarde. Lavou cavalos e correu quilómetros com os cachorros. Devia ter ficado exausto, mas não estava.

Jantou cedo os deliciosos tacos de Rosalita e, na perspectiva de outra noite em claro, tomou uma decisão.

Tinha uma filha, e queria vê-la. Não para lhe contar quem era. Não para iniciar o longo processo de se transformar em um pai de verdade. Apenas para vê-la, sabendo, Pela primeira vez, que ela lhe pertencia.

A cadelinha seria a desculpa. Por mais incrível que parecesse, a exemplo de todos os cães, Clover servia para alguma coisa, afinal. Passaria na casa dos Fletcher para saber como ia o filhote.

Telefonou antes de sair, para não causar transtorno, e falou com Maisy. Ela assegurou que todos ficariam felizes em vê-lo.

ia desligar quando decidiu esclarecer um ponto, aproveitando que conversavam só os dois.

- Entendo por que não me falou de Callie.

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— Que bom.



— Daqui a pouco, estou aí.

Tomou um banho rápido e se barbeou, como se fosse ver a namorada. Mas seu encontro era com uma garotinha. Pensou no que lhe diria naquela noite. Vestiu roupas limpas e calçou botas novas e tomou o rumo de Ashbourne.

Callie estava fora de casa com Clover quando ele chegou. Estacionando meio longe da casa, não se aproximou de imediato, encantado com a cena da menina atirando gravetos para a cadelinha ir buscar. Mas Clover não se animava limitando-se a abanar a cauda.

O sol já se punha, e Callie vestia-se de acordo. Calça jeans, suéter azul, japona amarela, chinelos cujas solas se acendiam como vaga-lumes quando ela pulava. Ao vê-lo, ela correu a seu encontro, com os chinelos piscando.

— Oi, Christian!

Ele a arrebatou antes que se chocassem. Não queria mais soltá-la. Gostaria de ficar abraçado com ela pelo resto da vida, como agora.

Mas acabou soltando-a, e ela riu.

— Você viu? Clover já está se interessando pelos gravetos. Na próxima vez, vai correr atrás deles.

— Você acha?

— Tenho certeza. Veio me visitar?

— Vim.

— Então, venha brincar com a gente! — Callie correu de volta para a cadelinha. — Quer ver o que mais ela consegue fazer?



— Mal posso esperar.

— Veja isto! — A menina postou-se diante do filhote e o olhou bem nos olhos. — Clover, sente-se.

A cadelinha abanou o rabo, mas continuou com as quatro patas fincadas no chão.

— Sente-se, Clover! — ordenou Callie.

Christian estava para avisar que aquela lição em partl cular levava algum tempo, quando o filhote assentou a traseira no chão.

— Uau! — Estava mesmo impressionado. Imaginou o que Callie conseguiria com um cão mais esperto.

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Ela tem de estar prestando atenção — explicou a menina. — Também não gosto de prestar atenção na escola, por isso, sei como é.



Christian agachou-se para acarinhar Clover.

Eu tinha dificuldade para ler e não prestava atenção às aulas, tampouco.

É? Eu também.

— Mas tenho uma boa notícia.

— Qual?

— Aprendi, e hoje gosto de ler. Calie demonstrou interesse.



— O que é que você lê?

— Livros sobre cachorros, por exemplo. E sobre cavalos. Também leio jornais, revistas, romances. Gosto de mistérios, porque são como resolver um quebra-cabeça.

— Para mim, ler é que é um quebra-cabeça...

Christian mais uma vez impressionou-se com a inteligência da criança, inchando-se de orgulho a seguir. Tratava-se de sua filha, brilhante como latão polido.

— Às vezes, parece. Mas, depois que a gente monta, vale a pena.

— Sou boa em matemática. Consigo somar de cabeça.

— Que ótimo.

— E gosto de desenhar. Como a mamãe, — Callie baixou a voz. — Ela desenhava, antes de ficar cega.

— Eu me lembro, ela desenhava muito bem. Fez uns retratos meus há muito tempo.

— Eram amigos.

— Éramos.

— Ainda são?

Aquela resposta era mais difícil.

— Aconteceram muitas coisas tristes, Callie.

— Como a morte de Fidelity. É, isso foi muito triste.

— Muito triste — confirmou outra voz. Christian levantou-se e viu que Júlia se juntara a eles. Fascinado pela filha, não notara a aproximação.

Júlia — cumprimentou, com um movimento de cabeça que ela não podia ver.

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— Christian. — Ela cruzou os braços sobre o agasalho vermelho felpudo. Os cabelos presos em trança expunham os mesmos brincos de cabeça de cavalo com que fora ao furta-passo do caçador. Segurava um galho torcido que provavelmente usava como bengala para testar o caminho no pátio.

— Bom, já vou indo — decidiu ele, olhando para Callie — Só passei para ver se você e Clover continuavam se dando bem.

Júlia esticou o braço e o reteve após algumas tentativas e erros.

— Christian, gostaria que fosse conosco a um lugar. Só nós três.

— Aonde?

— Ao túmulo de Fidelity, para colocarmos flores. Callie parecia interessada. Ele, surpreso.

— Agora?

— Você não pôde ir ao enterro.

De fato, estava preso. Passou dois meses atrás das grades até que Peter conseguisse mexer seus pauzinhos e libertá-lo sob pagamento de fiança. Mas, mesmo que tivesse podido comparecer, teria sido a última pessoa desejada na despedida de Fidelity.

Júlia entendia.

— Nunca pôde se despedir. De certa forma, eu também não. Gostaria que fizéssemos isso juntos. Callie pode levar Clover. É um lugar bonito, com muito espaço para brincar. O sol já se pôs?

— Falta pouco.

— Então, é melhor corrermos. Vamos lá? Christian não poderia se negar. Decidiu não mentir a si mesmo. Não podia negar nada a Júlia.

— E as flores?

— Maisy está colhendo um buquê. Crisântemos, ásteres, o que encontrar. Claro, Fidelity preferiria orquídeas, terá de se contentar com essas hoje.

— Callie, você quer ir? — indagou Christian.

— Eu e Clover.

— Com Clover, claro. Talvez ela encontre uma raposa.

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— Será? Christian sorriu.



— Não.

Callie devolveu o sorriso, e ele reparou que faltava um de seus dentes na arcada inferior. Isso quase lhe partiu o coração.

Maisy chegou com as flores e a chave da picape nova. Espremeram-se na cabine, criança e cachorro no meio. O motor pegou lembrando o rosnado de um leão robusto.

Christian seguia para o cemitério de Ridge’s Race, mas Júlia o instruiu a entrar em Southerland.

— Ela foi enterrada no cemitério da família. Acho que ninguém lhe contou isso.

— Assim como não me encomendaram um discurso.

— Foi no dia mais quente do verão. As lágrimas secavam no rosto das pessoas. Garotas de Foxcroft cantaram ”Amazing Grace”. Um colega de Swarthmore tocou flauta. O pastor se recusou a ver sentido naquilo. Disse que não fazia sentido. Foi o comentário mais brando que ele fez.

Christian concluiu que fora bom estar na cadeia.

— Mamãe, você acredita em fantasma?

— Não. Por quê?

— Fidelity pode ter virado fantasma. Pode estar a nossa espera para nos espantar.

— Fidelity virou anjo — afirmou Christian, sem pensar.

— Anjo? Júlia riu.

— Fidelity seria a primeira a discordar.

— Era nossa amiga, e agora é o anjo da guarda de Callie — concluiu Christian.

A menina gostou da ideia.

— Eu tenho anjo da guarda!

— Por que não teria? Fidelity não é seu nome do meio?

— É.

— Nesse caso, ela deve prestar mais atenção em você.



— Tenho anjo da guarda — comentou Callie com a cadelinha. A seguir, dirigiu-se à mãe: — Christian disse que vou aprender a ler, como ele aprendeu.

Ele não dissera bem isso, mas não a corrigiu.

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— Sim, Christian consegue ler tudo agora — confirmou Júlia.



— Talvez Fidelity me ajude.

Seria uma nova atribuição dos anjos, mas Christian concluiu que a ideia não faria mal. Diminuiu a marcha quando se aproximaram da porteira de Southerland e informou Júlia onde estavam.

— O cemitério fica à esquerda, subindo uma colina - instruiu ela. — Há um caminho entre dois salgueiros-chorões

— Apropriado.

— Do topo, verá o local, ao lado de um córrego. Christian avistou os salgueiros, fez uma curva e iniciou a lenta subida da colina. Lá de cima, viu uma cerca de estacas brancas em torno de inúmeras lápides de pedra simples. Estacionou e desligou o motor.

— Chegamos.

— O céu parece um arco-íris gigante! — admirou-se Callie.

— É o crepúsculo — esclareceu Christian a Júlia. — Está mesmo espetacular hoje.

Júlia abriu a janela.

— É tão silencioso aqui. Devíamos ter enterrado Fidelity sob a pista de dança de uma boate.

— Uma boate bem seleta — especificou ele.

— Não se enterra ninguém em uma boate — ralhou Calie. Christian saltou e pegou a cadelinha. Callie esgueirou-se sob o volante enquanto ele contornava o veículo para abrir a porta do lado de Júlia.

Ela se agarrava ao buquê de flores como se estas pudessem rechaçar tudo, de espíritos malignos a marcianos. Ele a segurou pelo antebraço.

— Se pegar na minha mão, evitaremos o que aconteceu ontem à noite.

Júlia o encarou como se pudesse ver a expressão em seu rosto.

— Lamento sobre ontem a noite. Lamento sobre tudo, Christian.

— Por que quis vir aqui comigo? E com Callie?

— Para a partilharmos. É importante que ela veja como

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nos damos bem e não pense em guardar segredos de nenhum de nós.



Ele riu.

E quanto a Bard Warwick?

Estamos falando de mim e de você, quero que Callie nos veja nos comportando como adultos. Assim, quando souber da verdade, estará preparada.

Por que neste lugar?

Ela mordiscou o lábio, os dentes se enterrando no tecido macio que ele provavelmente machucara na noite anterior. Não conseguia desviar o olhar nem pensar em mais nada.

— Estou me tratando com uma terapeuta — revelou Júlia. — Deve achar bobagem, ou tarde demais...

— Acho válido, nestas circunstâncias.

— Bem, ela me hipnotizou e...

— Mamãe!

Christian viu Callie pendurada em um ramo baixo de um velho bordo na entrada do cemitério.

— O que ela está fazendo? — afligiu-se Júlia.

— Tentando subir no galho de uma árvore.

— Não é perigoso?

— Não, a menos que esteja criando uma bonequinha de porcelana.

— De jeito nenhum. — Ela levou as mãos em concha à boca. — Tome cuidado! — Virou-se para onde Christian devia estar. — Você me avisa se ela cair?

— Claro, e vou socorrê-la. Mas dizia que foi hipnotizada...

— Parece perda de tempo, não?

— Não, se de fato ajudar. — Christian percebeu que conversavam como velhos amigos. Por mais que relutasse, aos poucos retomava os velhos hábitos.

— Ainda não sei se vai adiantar. O objetivo é me fazer desenterrar lembranças.

— Lembranças que a impedem de enxergar?

— Talvez. Hoje, por exemplo, recordei minha última conversa com Fidelity. Brigamos por sua causa...

Por minha causa?

—- E de Robby também. Fidelity queria que eu me divertisse, que saísse com outros rapazes.

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— Eu sei.

— Sabe?


— Era um dos motivos pelos quais estava zangado com ela no dia em que morreu. Um dos motivos pelos quais a procurei em Southerland.

— Nunca me contou isso.

— Não parecia importante, não depois que ela morreu. De qualquer forma, era difícil explicar qualquer coisa na cadeia. Quando saí, após Peter pagar a fiança, estava mais preocupado com a possibilidade de ser condenado. Ou pior.

— Disse à polícia que estava zangado com ela porque soube que ela estivera em Claymore Park e convencera Robby a deixá-la montar em um cavalo que você estava treinando, um cavalo em que ninguém mais deveria montar.

— Firefall. Um castanho bruto. É, estava zangado por causa disso também.

— Nunca entendi por que ela fez isso.

— Às vezes, ela acordava cedo e ia lá cavalgar, para variar em relação aos cavalos e trilhas de Southerland. Nós também íamos lá às vezes, pelo mesmo motivo. Naquela manhã, ela deve ter dito a Robby que eu havia lhe dado permissão para montar em Firefall. Ela só queria tumultuar, mas acho que ele nem percebeu. Fiquei zangado quando soube. No fim do dia, quando finalmente tive uma folga, fui tirar satisfações com ela e...

— Christian, como soube que Fidelity queria que eu saísse com outros rapazes?

Ele lhe narrou a conversa com Peter na manhã do dia da tragédia. Não sabia se devia ou não contar o que viera em seguida, mas decidiu revelar tudo.

— Vi Bard na cidade naquela tarde, enquanto pegava umas encomendas.

— Bard?

Christian lembrava-se do evento como se tivesse ocorrido no dia anterior. Tivera anos para recordar cada cena em detalhes. Fora à cidade em uma das picapes velhas de Claymore Park, uma veterana geralmente relegada aos caroços de feno. A viagem pela estrada poeirenta no veículo sem amortecedores nem ar-condicionado em nada contribuíra para



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acalmá-lo. Havia apenas uma vaga na frente da selaria. Já manobrava para ocupá-la quando uma esguia caminhonete prateada simplesmente a roubou!

parara ali mesmo, bloqueando a saída da caminhonete, e saltara.

Agora, ironicamente, percebia a simbologia do momento.

— Acho que levantei com o pé esquerdo naquele dia.

— O que aconteceu?

Discutiram. Bard não via nada de errado em ocupar a vaga, embora Christian houvesse chegado primeiro. Christian recusou-se a tirar a picape e Bard ameaçou chamar a polícia.

— Discutimos por causa de uma vaga de estacionamento — resumiu. — Ele disse que estava de olho em você, e que Fidelity tinha dito a ele que você estava pronta para conhecer muita gente.

— Eu jamais soube dessa conversa.

— Só por curiosidade, estava mesmo pronta para conhecer muita gente?

— Eu só queria você. Por que Fidelity estava aprontando tudo isso?

Christian acreditou em Júlia. Agora, refletia sobre a pergunta dela. Sua especulação sobre a vida de Fidelity rendera algo, afinal.

Recostado na picape de Maisy, mantinha-se atento a Callie, que escalava mais a árvore.

— Sei por que ela estava fazendo isso, mas não vai gostar de saber. Quer a verdade?

— Por favor.

Em poucas palavras, Christian revelou sobre o envolvimento de Fidelity com drogas.

Ela pulou fora a tempo, mas teve de se afastar de todas as pessoas e lugares em que costumava se divertir. Fidelity tinha dois mundos, Júlia. Um era aquele que habitava com você, comigo e com Robby. O outro era mais Perigoso.

— Como soube disso?

— Tenho investigado desde que saí. Receio que tudo seja verdade.

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— E ela estava fazendo tudo aquilo...

— Por se sentir entediada e provavelmente meio zangada com a falta de agitação na nova vida. Devia sofrer e se assustar com a abstinência das drogas. Teve o bom senso de parar antes de perder o controle, mas viu-se com tempo e energia de sobra para mexer com as únicas pessoas de quem podia continuar próxima.

Júlia caiu em silêncio, analisando a teoria. Quando falou foi quase chorando.

— Quer dizer que, por estar infeliz, queria nos fazer infelizes também?

— Acho que ela pensava saber o que era melhor para cada um de nós, e não tinha mais nada a fazer. Talvez, no fundo, sentisse inveja do que nós dois tínhamos, mas não creio que fosse algo consciente. Acho que ela não queria nos magoar. Só precisava controlar alguma coisa em sua vida.

— Por que ela não me contou o que estava acontecendo? Nunca deixou escapar nada...

— Fidelity não tinha fraquezas, lembra-se? É o que acontece quando se cria um filho fazendo-o acreditar que é perfeito. Como ela admitiria que não era? A quem quer que fosse?

— Sinto tanto a falta dela. — As lágrimas de Júlia reluziam à luz do dia que morria. — Eu teria ajudado.

— Bem, eu não estava presente no final, quando ela realmente precisou. Depois da discussão com Bard, peguei minhas encomendas, saí da selaria e fui direto para Southerland.

— Foi quando nos encontramos?

Júlia ia à cidade comprar mantimentos para Maisy quando cruzara com ele na estrada. Pararam para se cumprimentar, ela notara sua tensão, e ele revelara que tinha contas a acertar com Fidelity. Foram essas palavras que a atormentaram enquanto dava seu depoimento no banco das testemunhas.

— Foi quando nos encontramos.

— E você não quis me dizer o que estava acontecendo-

— Não queria envolver você.

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Que irónico, não?



Christian sentiu a garganta bloqueada.

Se tivesse chegado em Southerland vinte minutos antes...

Júlia conseguiu encontrar a mão dele e a apertou.

Esqueça isso, Christian. Não tem culpa do que aconteceu. Um louco a matou e deixou você pagar o pato. Éramos os melhores amigos de Fidelity, e ainda a amamos. Talvez ela tenha mesmo se transformado em um anjo. Quem sabe? Talvez ainda esteja tentando interferir e nos dar um final feliz-

— Se Fidelity pudesse se manifestar, eu não teria sido condenado e você não teria se casado com Bard, para criar minha filha como se fosse dele.

— Talvez só agora ela tenha conquistado liberdade para agir.

— Todo Natal, assistíamos a filmes piegas em Ludwell. Não havia um homem lá que acreditasse que o mundo teria sido um lugar pior se ele não tivesse vivido nele.

Júlia tentou soltar a mão, mas ele a segurou e apertou.

— Desculpe-me.

— Por quê? Christian não respondeu.

— Vamos lá dizer adeus? — convidou ela.

— Sim, vamos. — Ele a fez enganchar o braço e seguiram devagar ao cemitério.

Callie pulou do galho e os acompanhou. Clover lutava no meio do capim, cada folha um desafio.

— Callie, você coloca as flores no túmulo de Fidelity? — Júlia estendeu o buquê. — Christian vai mostrar qual é.

Percorreram todos os corredores e só então Christian localizou a lápide procurada. O túmulo estava bem-cuidado. Alguém plantara uma roseira vermelha, que ainda tinha flores exalando um perfume doce no ar, embora já fosse fim de outono.

— É aqui.

— Fidelity, sentimos muito a sua falta — declarou Júlia. Gostaríamos que estivesse aqui conosco, em carne e osso, mas, esteja onde estiver, espero que se encontre em paz.

— Estas flores são para você — completou Callie. Inclinando-se

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, pousou com cuidado o buquê nà base de uma lápide de mármore simples com o nome de Fidelity e os dizeres ”Filha Amada”. — E, se quiser ser meu anjo da guarda terei orgulho em aceitar.



Christian sabia que chegara sua vez. Era insensato, contudo, sentia a presença de Fidelity. Ela estivera em seus pensamentos por tanto tempo que era como se a conjurasse

— Lamento não ter podido salvar você. Mas estou feliz por a ter conhecido e sido seu amigo.

Uma brisa agitou a roseira, e Callie pegou a mão de Christian.

— Ela não está triste. Veja, a roseira está dançando. É ela quem está fazendo dançar. Não fique triste, está bem?

Permaneceram os três juntos, vendo a roseira de Fidelity valsar à luz minguante.

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CAPÍTULO XXIX
Desta vez, foi Pinky quem acordou Christian antes do amanhecer, com um telefonema. Ele atendeu ao primeiro toque a linha privativa da ala de hóspedes de Claymore Park.

— Chris? Agora te peguei. Bom dia!

— O que aconteceu? — Christian sentou-se e afastou os cabelos da testa. Tinha certeza de que o amigo programara o despertador para poder lhe telefonar àquela hora e se vingar.

— Queria pegar você antes que fosse para o estábulo.

— Hum... — Christian esforçava-se para manter os olhos abertos.

— Descobri uma coisa interessante.

— Despeje. Pinky riu.

— Encontrei com um velho companheiro ontem à noite. Ele trabalhou para Davey Myers, na época em que a construtora estava no auge.

— E?

— Não imagina como é fácil para um tira fazer um cara beber. Eles acham que, se estão com você, ninguém vai se engraçar. Sabia dessa?



Christian bocejou.

— Ainda estou tentando acordar... Pinky compadeceu-se.

— Aí vai: ele se lembra do negócio de que Myers falou, aquele perto de Southerland.

Christian ficou desperto em um instante.

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— Do que ele se lembra?



— Que muita gente teria ficado irada se desse certo, que muitos ricaços acordariam qualquer manhã daquelas Com escavadoras praticamente no quintal, vendo casas de condomínio se multiplicando feito coelhos selvagens. Seria o fim das raposas. Acho que era o que se comentava entre um uísque e outro.

Christian incentivou e o amigo prosseguiu:

— Ele não quis dizer mais nada. Pode ter sido pago para ficar de bico calado. Esvaziou mais meia garrafa, mas nem assim soltou a língua. Disse que havia coisas nas quais precisava pensar, e talvez não se lembrasse de mais nada, afinal. Foi o que consegui.

— Quem é ele?

— Lester Morgan, de Warrenton. Agora mora aqui e trabalha para Virgínia Vistas.

Christian já raciocinava a todo o vapor. Virgínia Vistas era o empreendimento imobiliário ao qual Bard Warwick prestava consultoria jurídica.

— Há quanto tempo ele está nesse emprego, você sabe?

— Ah, há um bom tempo. Lembro-me de quando ele se mudou para cá. Até o ajudei a encontrar lugar para morar. Hoje em dia, está casado e tem casa, mas na época...

— Não se lembra exatamente quando?

Pinky pensou. Christian quase o ouvia contando o tempo.

— Foi na época em que você foi condenado — concluiu o amigo. — Um ano antes ou depois. Melhorou?

Sim, o quadro ficava mais nítido para Christian.

— O que ele faz em Virgínia Vistas?

— Avalia propriedades. Contrata empreiteiros e supervisiona o trabalho, quando necessário. Para ser franco, não sei como conseguiu esse emprego. Ele é habilidoso com as mãos, mas não muito brilhante na cabeça.

— Ele falaria comigo?

— Não. Terá de investigar de outro jeito.

— Talvez verifique o que Virgínia Vistas realizava na época...

— Faça isso. E boa sorte. Porque acho que é disso que

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vai precisar de agora em diante. Não consigo pensar em mais nada para ajudar. Christian agradeceu e desligou.



Júlia estabelecera uma rotina que lhe dava a sensação de segurança. Embora ainda precisasse de ajuda em certas tarefas e com papéis, a cada dia tornava-se mais auto-suficiente, o que era conveniente, considerando que Karen arranjara emprego em uma clínica de cirurgia e continuaria em Ashbourne somente até o fim do mês.

Naquela manhã, porém, foi uma bênção poder contar com Karen. Maisy fora ajudar na galeria, e Júlia tinha consulta em Leesburg com um interno que a examinara quando internada na Gandy Willson. Era um procedimento de rotina, que avaliava resultados de análises. Ela quase cancelou, mas no último minuto decidiu ir. Seu próprio médico estava sempre com a agenda tão cheia que talvez levasse meses para fazer os testes com ele.

Foram no carro de Karen, conversando como velhas amigas. Júlia já sabia tudo da vida da enfermeira a esta altura, e lhe revelara boa parte da sua.

— Sabe, você me fez perceber que tenho poucas amigas — comentou Júlia, quando passaram obedecendo a um dos poucos semáforos entre Ashbourne e o consultório médico.

— É mesmo?

— Na verdade, acho que nunca quis ter uma amiga íntima.

— Tinha seu marido, não é?

— Não. — Júlia finalmente se dera conta de que seu casamento com Bard durara tanto simplesmente porque sempre soubera que jamais seriiam amigos. Não estivera pronta para outro relacionamento no qual tivesse de abrir o coração. E receava que Bard nunca se visse nessa condição.

Karen pisou no acelerador.

— Bem, eu me casei com o Pai de Brandon porque todo o mundo que eu conhecia estava se casando e achei que estava na hora. Walter foi o primeiro que apareceu depois que liguei o cronômetro.

— Eu me casei porque estava esperando um filho de outro homem.

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— E Callie não compensou? Não sei o que seria de mim sem Brandon. Por ele, valeu a pena tudo o que suportei de Walter.

Noutra ocasião, Karen contara que o marido colecionara amantes, assim como muitos homens colecionavam lembranças esportivas.

— Também não sei o que seria de mim sem Callie.

- Já imaginou se não a tivesse tido? Nunca mais engravidei. Podia nunca mais ter a chance de criar um filho.

— Não sei. A cada dia, surgem novos tratamentos.

— Só podia ser enfermeira — retrucou Júlia. — Mas nem sei qual é o meu problema. Meus períodos são irregulares, e essa deve ser a causa. Bard jamais considerou fazermos um tratamento. Acho que ele não gosta de crianças o bastante para se esforçar tanto.

— Acho isso engraçado.

— Por quê?

— Bem, disse que achava que ele não conseguia amar Callie porque não era filha dele.

— Pode ser.

— Nesse caso, ele teria movido céus e terra para ter um filho de seu sangue.

— Talvez ele tivesse tomado alguma providência, se eu houvesse desejado um filho dele. — Júlia percebeu que jamais enunciara tal pensamento. — Acho que nunca quis ter um filho com Bard, Karen. Por isso, não insisti.

— E agora é tarde demais?

Era tarde demais para Júlia realizar muitos projetos com o marido. Mas ainda não estava pronta para falar a respeito.

Chegaram cedo ao consultório médico, e Karen ajudou Júlia a encontrar a sala de espera. Júlia já se acostumara a não saber o que se passava ao redor e, embora Karen lhe descrevesse o ambiente, sentia-se à vontade com o que não podia ver.

Na hora da consulta, Karen a encaminhou à sala indicada e permaneceu em sua companhia. Uma enfermeira lhe pediu que vestisse uma camisola.

— Só vim saber o resultado de uns testes — esclareceu Júlia. — Preciso mesmo trocar de roupa?

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- O doutor quer realizar um rápido exame pélvico, sra. Tarwick. Alguma restrição?

Embora curiosa, Júlia disse que não. Karen a ajudou a se despir e vestir a camisola. Então, retirou-se.

Júlia estava sentada na maca de exames quando a porta se abriu e uma voz sonora a cumprimentou. Com exceção do odioso dr. Jeffers, todos os médicos que a examinaram desde o acidente fundiam-se em sua mente. Neurologistas, oftalmologistas, especialistas em retina. O dr. Forrester, interno falante, parecia-lhe um completo estranho. Respondeu a suas perguntas sobre a saúde em geral, o clima, e se houvera alguma melhora na visão.

— Sabe, conheci seu marido no ano passado — comentou ele. — Só agora percebi a ligação. O médico dele estava fora da cidade. O sr. Warwick parece uma central elétrica.

— Pensei que fosse uma consulta de rotina — replicou Júlia, assim que pôde se manifestar. — Tem mesmo de me examinar?

— Peço um voto de confiança. É que fiquei perplexo com um dado, mas gostaria de realizar mais um exame antes de conversarmos.

— Não pode adiantar nada?

— Poderia, mas seria melhor se falássemos depois do exame. Nada de segredo, é só precaução. Nada com que deva se preocupar, eu garanto.

Júlia deu de ombros.

— Está bem. Não posso mesmo ir a parte alguma vestida assim.

Ele pareceu achar graça. Ela sorriu. O outro interno era sério e arredio, e sempre quisera trocá-lo por outro. Talvez Preferisse o dr. Forrester.

Ele foi chamar a enfermeira, e Júlia deitou-se na maca.

Animada por ver a filha aos poucos recuperando o apetite, Maisy se esmerara no preparo do jantar, mas Júlia mal Provou a refeição de salada verde e broa de milho.

— Não está com fome? Júlia suspirou.

— Acho que não consigo pensar e comer ao mesmo tempo.

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— Parece preocupada.

— Ainda tenho muito a acertar.

Ninguém sabia disso melhor do que Maisy, nem quando Júlia estava mentindo. Voltou a lavar pratos.

— Estive pensando no seu livro — comentou Júlia.

— E?

— Por que resolveu escrever essa história em particular?



— Todo autor tem de partir de alguma coisa.

— Diante do cavalete, não pego um pincel e começo a pintar aleatoriamente.

— Nunca?

Quer dizer que faz isso? Senta-se diante da máquina de escrever e...

Não, as palavras não surgem do nada. Acontece que os relacionamentos me fascinam. Sempre me fascinaram. E, na minha idade, já- testemunhei dezenas de casamentos,

talvez centenas.

— Ian é um homem terrível.

Se é assim que o vê, não atingi meu objetivo.

Vai me dizer que ele tem algo que o salve? Seria pedir demais.

— Qual nada-

— Sério.

Imagine isto: uma picape atravessa o campo. O campo está enlameado, o veículo afunda um pouco. A picape seguinte cai nos sulcos da primeira e segue sem problemas. Mais três ou quatro fazem o mesmo. Então, aparece outra. Tudo vai bem, até que o motorista percebe que tem de fazer uma curva. Ele tenta, mas, preso aos sulcos, não consegue se desviar. Por mais que tente.

— É como estar preso a trilhos.

Maisy sorriu.

Ou seja, às vezes, é impossível mudar. E não adianta tentar.

Quer dizer que Ian Sebastian não podia mudar seu comportamento? Está desculpando o modo como ele trata Louisa?

Não, estou dizendo que a vida é difícil, que as respostas nem sempre estão à mão.

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Bard se surpreenderia ouvindo isso.

Desde o começo, acha que Ian se baseia em Bard.

Um homem pode agredir uma mulher de várias maneiras.

Maisy observou a filha. Júlia tinha o queixo erguido, como costumava fazer na infância. Aos outros, dava a impressãode ser uma menina sensível, maleável, mas ela soubera em primeira mão no que consistia sua filha.

Assim como as pinturas, as histórias podem ter interpretações diversas, dependendo da pessoa que aprecia.

— Ou da pessoa que as cria. Maisy concordou, mas Júlia não viu.

— Ian muda depois que nasce a filha? — indagou Júlia. — É por isso que o defende?

— Está quase na hora da leitura, e não o estou defendendo. Não quer que eu adiante a história, quer?

— Pode ler para mim na varanda, depois de acabarmos com a louça? A menos que tenha outra coisa para fazer.

— Não tenho.

— Sem Callie aqui, a noite será longa...

Júlia deixara a filha dormir na casa de Tiffany.

— Vou ler para você na varanda — confirmou Maisy. Voltando-se para a mãe, era quase como se pudesse vê-la.

— Quando pinto, sempre imagino nitidamente o que quero mostrar.

— Alguns têm mais dificuldade, querida. Não importa o quanto se esforcem, não importa o quanto precisem transmitir.

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