Emilie Richards



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CAPÍTULO XXVI
Naquela noite, Júlia implorou a Maisy que não lhe lesse mais um capítulo. Precisava de uma pausa. Tornava-se obcecada pela vida de Louisa. Toda noite, dividia-se entre pedir à mãe que interrompesse a leitura e que lesse mais rápido. Louisa parecia-se com muitas mulheres que haviam entregado o coração ao homem errado.

Agora, desejava ter concordado em ouvir. Não conseguia dormir, de qualquer forma. A casa estava em silêncio, com todos já recolhidos. Desistindo, calçou os chinelos, vestiu o robe e percorreu o corredor do térreo.

Havia uma vantagem em estar cega. Não precisava acender as luzes e se arriscar a acordar alguém. Na cozinha, pegou um copo e o encheu com água da torneira. Depois, foi se sentar no balanço da varanda frontal.

O ar noturno era fresco, mas estava protegida em seu grosso robe de chenile. Do bosque chegavam zunidos de insetos, mais o canto de um pássaro noturno solitário. Em Ashbourne, ficava mais perto da natureza do que em Millcreek, cujos jardins impecáveis não contavam com mais um tufo de mata nativa. Apreciava aquela proximidade da floresta, embora, na infância, se assustasse com certos trechos dela.

A mata se adensava bastante lá nos fundos, onde o córrego de Jeb Stuart corria sobre pedras tão enormes quanto aquelas com que se construíra a casa que ora ocupavam.

Proibira Callie de brincar lá, e na adolescência desencorajara Christian a tomar aquela rota quando levavam os cavalos de Claymore Park para passear em Ashbourne.

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Mesmo agora, quando se entregava às preocupações sonhava que a floresta se fechava a seu redor, tanto que o sol já não atravessava a copa das árvores, com as trepadeiras se enroscando em seus tornozelos e nas patas do cavalo.



Arrepiada, decidiu entrar. Foi quando ouviu um veículo motorizado se aproximando pela estrada. Sentou-se de novo no balanço e apurou o ouvido, tentando reconhecer o carro de luxo de Bard. Deixara-lhe um recado dizendo que precisavam conversar, mas ele ainda não a procurara. Precisava avisá-lo de que iria contar a verdade sobre Callie a Christian, mas até então ele não lhe dera a oportunidade

Não era Bard. O motor do carro dele zunia melodioso como um quarteto de jazz. O veículo que chegava lembrava a picape de Maisy, mas fazia mais barulho, como se o motorista o acelerasse na pista de cascalho. Às vezes, adolescentes pegavam as estradas vicinais, apostando corrida nos trechos mais largos. Mas Ashbourne ficava tão afastada dos pontos mais movimentados que raramente eram incomodados ali.

O veículo diminuiu a marcha diante da casa. Desligaram o motor e bateram a porta. Ela já decidira entrar e chamar Jake quando ouviu a voz de Christian.

— Sou eu.

Ela se jogou de novo no balanço.

— Você me assustou!

— O que faz aqui fora?

A voz dele estava mais alta. Ela sabia que ele se aproximava.

— Tentando me convencer a dormir. E você? — Tinha o coração aos pulos, mas não por medo.

— Sei lá. No caminho, vim pensando: por que você me contaria a verdade agora, se a escondeu durante quase nove anos?

Júlia estava imóvel, mas o balanço continuava a gingar. Não se faria de desentendida. Não tentaria ganhar tempo. Ninguém tinha o direito de confiscar daquele homem um segundo que fosse.

— Vamos para outro lugar. — Levantou-se. — Todos estão dormindo, e não quero acordá-los.

— Incluindo minha filha?

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Ela sentiu um aperto no estômago.

Callie está dormindo desde as nove horas.

- Vamos na caminhonete.

- Mas estou de robe...

, Pouco me importa!

Christian, não enxergo o chão até a caminhonete.

Ele não se mexeu. Provavelmente, abominava tocar nela. Mesmo que caísse de cara no chão, ele provavelmente não a ajudaria.

Christian aproximou-se, por fim.

- Eu ajudo você.

Júlia sabia que tinha de acompanhá-lo, embora não quisesse.

— Não me puxe. Assim, você me desequilibra.

— Vamos lá.

Ela dispensou a mão dele e esticou o braço até encontrar o dele. Apoiada nele, desceu os degraus da varanda e o seguiu pelo caminho de pedra até a estrada. Christian lhe abriu a porta da caminhonete. Ela firmou um pé no estribo e sentiu o chão com o outro. Em um segundo, estava sentada e a porta se fechava.

— Aonde vamos? — indagou, assim que Christian se instalou ao volante.

— A qualquer lugar onde possamos falar em tom normal.

— Onde possa gritar comigo? Ele não respondeu.

Viajaram por algum tempo. Júlia não imaginava que rumo tomavam, mas não temia pela própria segurança. Estava desesperada para se explicar, mesmo sabendo que nada justificava sua atitude. Escondera de um homem a existência de uma filha que ele teria amado, mesmo detrás das grades de uma cela, e pedira a outro, incapaz de amar Callie, que fosse o pai dela.

Christian pisou no breque e pedras de cascalho chocaram-se contra os pára-lamas do veículo.

Onde estamos? — indagou Júlia, quando ele desligou o motor.

Na estrada, perto do laguinho onde nadávamos.

Lugar estranho, não acha?

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— Por quê? Só porque estacionávamos aqui para fazer amor? Ou não era amor, Júlia? Esse é outro segredo que guardou todos esses anos?

— Eu ia contar, Christian. Mas precisava falar com Bard primeiro.

— Avisar que o verdadeiro pai de Callie ia finalment saber a verdade?

— É.


Ele expirou sonoramente, como se tivesse retido o fôlego por uma hora.

— E então?

— Logo que você voltou, tive medo. Não sabia o que pensar ou fazer. Tinha passado por tantas mudanças. Perdi a visão, deixei meu marido. Não sabia como você reagiria o que poderia fazer com Callie, com meu casamento...

— Não podia deixar algo insignificante como a verdade perturbar seu casamento, não é?

— Isso não é justo. Só estou tentando explicar que há mais gente envolvida nesta história do que parece.

Christian carregava-se de sarcasmo.

— Deixe-me ver. Eu, minha filha...

— Christian, eu estou envolvida, queira você reconhecer ou não, assim como Bard. É o nome dele que consta na certidão de nascimento de Callie. Ele se casou comigo para poder dar a ela seu nome.

— De modo que ninguém soubesse que um assassino condenado era seu verdadeiro pai?

— Acha que teria sido fácil explicar isso a uma criança?

— Que tal assim: ”Seu pai está preso, mas ele é inocente. Um dia, todos saberão a verdade”?

Júlia começou a chorar.

— Você me odeia desde o dia em que dei aquele depoimento na corte. Tentei lhe contar que estava grávida. Seu advogado disse que você não queria falar comigo. Mandei uma carta implorando que me telefonasse. Peter a trouxe de volta fechada.

Christian não replicou.

— Não sabia o que fazer — lamuriou-se ela. — estava condenado a prisão perpétua.

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- Então, voltou-se para Bard Warwick.

- Ele me apoiou durante o julgamento. Aparecia quando mais precisava de alguém. Ele me fazia comer e sair da cama. Providenciava as coisas de que precisava. E me ouvia, o que eu dizia. Como você sempre tinha me ouvido...

-Eu estava meio ocupado lutando por minha liberdade para ouvir você, Júlia.

. Depois da sua condenação, descobri que estava carregando um filho seu. Devo ter engravidado na última vez que estivemos juntos.

— Na noite anterior a seu depoimento no tribunal? Júlia continuava recordando.

— Só Bard e meus pais sabiam que eu estava grávida. Maisy queria que eu o tivesse e criasse como um Ashbourne.

— Podia ter abortado. Melhor do que ter o filho de um assassino, não?

— Acha que eu teria coragem de matar nosso bebê? Era tudo o que me restava, não entende? Era tudo para mim, assim como você fora.

Ouviu-se o vidro de uma janela baixando. Foi o único som em pelo menos um minuto. Então, Christian concluiu:

— Como eu era tudo para você, escondeu de mim a existência de minha filha?

— Temi que você perdesse a sanidade se soubesse que tinha uma filha a quem não podia ver nem abraçar.

— Então, fez isso por mim? – Ele riu.

— Fiz isso por todos. Bard queria se casar comigo, prometeu que seria um bom pai para o bebê. Eu precisava de alguém que me dissesse qual pé pôr na frente do outro e, Deus sabe, nisso Bard é bom. Você precisava de um pouco de paz. Nossa filha precisava de uma vida sem preconceitos. Então, casei-me.

- Que prático, não?

— Eu tinha só vinte anos.

— Mas agora tem vinte e nove.

Eu ia lhe contar. Como já disse, só precisava comunicar a Bard minha decisão, antes.

—- Deve isso a ele, mas não me devia a verdade? Em nenhum momento deveu?

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— Sempre lhe devi a verdade. — Júlia recomeçou a chorar.



— Ainda bem que reconhece. — Christian ligou o motor e pegou de novo a estrada.

— Aonde vamos agora?

— Interessa?

— Temos de conversar sobre Callie, o que isso vai significar para ela.

— Ainda não sei o que vou fazer.

— Não pode revelar a ela, Christian. Não agora. Já pensou em como ela vai ficar confusa? Vai achar que a culpa é toda dela. Sua relação com Bard não é das melhores.

— É, deve ser duro para ele criar a filha de outro homem. A conclusão estava próxima demais da verdade para se negar.

— Ele que não encoste um dedo nela — advertiu Christian.

— Não é nada disso. Simplesmente, ele não gosta de crianças.

— Quer dizer que espera que eu fique quieto e os deixe trabalhar a relação? E depois? Quando ela for mais velha, entro pela porta dos fundos e comento o quanto gostaria de ser seu pai?

Ele dirigia rápido demais. Ela percebia pelo som do cascalho se chocando contra os pára-lamas, mas não lhe pediu para desacelerar. Ele mesmo diminuiu a marcha e freou.

— Pretendo contar a verdade a Callie quando ela tiver idade para entender o que aconteceu — declarou Júlia. — Ela já adora você. Depois que superar o choque, vai querer ser sua filha.

— E nesse ínterim? Seu marido vai me deixar visitá-la? Vai me acolher no seio da família?

— Eu garantirei que você tenha momentos com ela. Vamos dar um jeito.

— Hum.

Júlia ergueu a mão e o tocou no braço.



— Vamos descobrir uma maneira de fazer isso certo. Não fui eu que o impedi de criar sua filha. Foi a Comunidade da Virgínia. Mas farei com que tenha todo o tempo de que precisa com ela agora. Prometo.

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- Diga-me só uma coisa. Como pôde dizer que me amava e então agir assim?

Ela sentiu a agonia na voz dele. Chorou de novo, recordando aquele dia perfeito ao sol de Ashbourne, que desenterrara no consultório de Yvonne.

Eu o amava tanto que tive de me reencontrar, um pedaço de cada vez, isso durante anos.

— Uma pessoa me perguntou hoje se eu ainda te amava. Júlia enxugou as lágrimas na manga do robe.

— É melhor você me levar para casa. Ou já chegamos?

— Não quer saber qual foi minha resposta?

— Isso foi antes ou depois de você perceber que Callie era sua filha?

Em vez de responder, Christian fez outra pergunta:

— Quando deixou de me amar?

— Nunca.


Christian não replicou. Abriu a porta e a fechou com delicadeza, levando-a a concluir que estavam de novo em casa. Ele abriu a porta do passageiro e a segurou pelo braço.

— Cuidado — advertiu, rabugento. — Eu a ajudo a descer.

— Não precisa. — Ela firmou um pé no estribo e baixou o outro rumo ao solo. Mas o apoio estava mais longe do que calculara, e se desequilibrou para a frente. Ele a amparou, envolvendo-a com os braços.

— Christian...

Ele a beijou com tanta voracidade que, por um instante, ela se amedrontou. Então, o medo se esvaiu e a exultação tomou conta de seu ser. Jamais se permitira pensar nesse momento, mas sonhara com ele. Seus corpos se encaixavam como se nunca tivessem se separado. Não podia vê-lo, não Pudera vê-lo por quase nove anos, mas agora se dava conta de que o detalhe não significava nada.

Abria-se a ele como nunca se abrira ao marido, porque Bard jamais a desejara tanto assim. Lamuriosa, apertou-se mais contra Christian. Ambos apertaram os lábios, e ela sentiu a investida de sua língua lisa.

Ele a livrou do robe, que se empoçou a seus pés. Apossou-se de um dos seios por sobre a camisola fina, a palma áspera e excitante. O desejo era uma força líquida, e ela

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pressionava os quadris contra os dele, procurando e encontrando a evidência tangível de seu descontrole. Christian a empurrou e segurou pelos ombros.

— Que diabo estamos fazendo?

Júlia sentiu o ar noturno envolvendo-a. Não sabia onde estavam. Visualizou a floresta na qual pensara pouco antes, onde o córrego de Jeb Stuart corria por entre pedras enormes e a copa das árvores bloqueava toda a luz. Quase sentia as videiras enroscando-se em seus tornozelos, aprisionando-a para sempre. Sentia-se desorientada, assustada, ansiosa por algo que mal provara.

Mas aquele pouco teria de durar para sempre.

— Entre, Júlia. Eu a ajudo nos degraus.

— Mas...


— Não diga nada. Não há nada a dizer. Só entre. Ela pegou o robe que ele lhe estendeu e subiu os degraus

Tudo parecia estranho, como se tivesse passado para um outro universo. Estava em casa, mas, ao mesmo tempo, não estava. Quando Christian afastou a mão, conseguiu recuperá-la e a segurou junto ao rosto molhado de lágrimas, até que ele se esquivou.

— Diga a seu marido que pretendo conhecer minha filha. Quanto ao resto, pouco me importa.

Imóvel na varanda, Júlia ouviu a caminhonete indo embora.

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CAPÍTULO XXVII
Christian não dormiu. Quando a aurora despontou, soube que não adiantava continuar tentando. Como já combinara com Peter tomar o café da manhã com uma senhora que anualmente impunha restrições quanto ao uso de suas terras pelo Mosby Hunt, mal teve tempo de telefonar para Pinky. Queria lhe contar o que descobrira sobre Joachim Hernandez. Cumpridas essas tarefas, arranjaria outras mil, para não ter de pensar em Júlia e Callie.

Tomou banho e saboreou café antes de ligar para Pinky. O amigo atendeu sonolento, mas, ao saber de quem se tratava, abrandou-se.

— Como vão as coisas, Chris?

Trocaram amenidades. Então, Christian revelou o motivo de seu contato, após comentar que seu encontro com Davey Myers não dera em nada. Falou da ligação entre Joachim Hernandez e Fidelity, bem como dos depósitos em conta bancária e das anotações sobre Miles Inchman constantes na agenda do falecido jogador de pólo.

Pinky demorou muito a responder. Christian gostaria de poder ver seu rosto. Então, ouviu uma risada.

— Acontece que está latindo para a árvore errada.

— Posso saber por quê?

— Vamos tomar um café. Às dez e meia? Até lá, talvez eu tenha mais informações. — Combinaram se reunir na mesma lanchonete e desligaram.

Respirando fundo para ter paciência, Christian acompanhou Peter na visita a Sally Foxhall, uma anciã de oitenta

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e nove anos que adorava a atenção de ambos. Não obstante, quando finalmente a convenceram a manter sua fazenda aberta, Christian mal continha o ímpeto de sair correndo.

— Você parece nervoso — notou Peter, no caminho de volta a Claymore Park. — Algum problema?

Christian cogitou se o patrão sabia que Callie era sua filha.

— Não é fácil retomar a vida após tanto tempo afastado — justificou. — É como se tentasse desembaraçar um milhão de fios.

— Pelo menos, seu trabalho está garantido, e logo vai estar tão ocupado que não vai ter tempo de pensar em nada.

Peter parecia mesmo acreditar que ele se readaptaria sem a menor dificuldade. Mudou de assunto para a caçada de abertura, a ter lugar em quatro dias. Quando adentraram Claymore Park, já haviam falado de estratégias, do local de onde partiriam os cães, dos cavalos em que montariam. Ele mesmo conduziria os cães, mas Peter estaria a seu lado, caso precisasse de ajuda.

Peter foi direto para casa e Christian já se encaminhava ao canil quando Rosalita o chamou:

— Visita para você!

Christian chegou a pensar que Júlia fora até ali para terminarem a conversa da noite anterior. Mas era outra pessoa.

— Pastora...

A reverenda Bertha Petersen abriu os braços, e Chrístian se atirou neles.

— Soube pelo diretor.

— Acho que ele espera que a senhora me convença a me entregar.

— O diretor Sampsen sabe que você é inocente. Só não gostou de perdê-lo, é evidente. Estava com medo de que o programa fracassasse.

— Mas isso não aconteceu, não é?

— Javier assumiu o comando e está fazendo um bom trabalho.

Christian alegrou-se.

— Estou indo para Ludwell agora — comentou a

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Pastora. - Mas pensei em me desviar um pouco a caminho do aeroporto para ver como você está.



Ele se emocionou.

.— Estou tocando o barco.

— Não tem sido fácil, acertei?

Christian passou a mão nos cabelos e tentou sorrir.

— Dá para perceber?

— Nunca é fácil, mas deve ser ainda mais duro quando roubaram tanto de sua vida injustamente.

.— Quantos outros homens e mulheres podem estar atrás das grades sem ter feito nada para isso?

— Não sei. Talvez possa fazer algo a respeito. Christian surpreendeu-se.

— Como?

— Existem leis que precisam ser alteradas. E homens e mulheres que precisam de ajuda depois que recuperam a liberdade. Quem estaria em melhor posição para saber o que é justo e o que não é?



A primeira reação de Christian foi rir. Por que se envolveria com problemas alheios? Ao mesmo tempo, quem melhor?

— Diga-me o que tem feito — interessou-se Bertha, mudando de assunto.

Não sabia por onde começar.

— Não parece feliz.

De fato, não se sentia, e quis lhe confidenciar por quê.

— Sou toda ouvidos — incentivou a pastora, como se lesse seus pensamentos. — Só eu e, talvez, o homem lá em cima.

— Se existe um homem lá em cima, ele tapa os ouvidos.

— Deus tem coisa melhor a fazer do que dirigir cada instante de nossas vidas. Mas os fatos ocorrem e as pessoas aprendem com eles, seja esse o objetivo ou não. Tenha certeza, você nunca esteve sozinho.

— Então, por que essa sensação de ser a última pessoa do mundo?

— Sem evangelho hoje — prometeu Bertha. — Por que apenas não me conta o que está acontecendo?

Caminharam até o laguinho, e a reverenda sentou-se em um banco de pedra. Christian contou-lhe tudo, sobre Júlia,

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sobre a investigação que realizava acerca do assassinato de Fidelity e, finalmente, sobre Callie. Reconhecia a voz, mas esta lhe soava estranha. Falava como um homem que desejava algo, um homem como todos os outros. Quando terminou, estava assustado.

— Não entendeu por que ela fez isso, não é? — concluiu Bertha. — Não consegue entender como uma moça de vinte anos, cuja vida virara de ponta-cabeça, pôde tomar uma decisão que o magoou?

Ele não queria responder.

— Na verdade, você entende. — A pastora olhava-o detidamente. — Só não quer admitir. Teme se perder, caso deixe Júlia entrar de novo em seu coração, ainda que só um pouquinho.

Então, Christian contou o que faltava, aquilo que não revelara a Júlia nem a mais ninguém.

— Ainda a amo.

— Eu sei.

Mesmo tendo confessado, ele não se sentia purgado.

— Christian, não o aconselho a destruir o casamento dessa mulher. É o que quer que eu diga?

— Sei que não pode.

— Mas o aconselho a perdoá-la. Enquanto não o fizer, passado e presente lutarão e se atormentarão. Tem de limpar o caminho para poder começar de novo, o que quer que isso signifique. Ela é a mãe de sua filha.

Bertha levantou-se.

— Talvez não se lembre mais, porque faz muito tempo, mas a vida é doce e suave. É um presente, que você ainda vai receber de novo, qualquer dia. Nesse ínterim, tem algo de que cuidar. Você tem uma filha, que logo saberá que você é seu verdadeiro pai. Vai vê-la crescer e saber que fez algo maravilhoso. Júlia lhe deu isso, não foi? Ela podia ter interrompido essa pequena vida antes que começasse. Mas escolheu o caminho mais difícil, ainda que não o que você aprovaria. Acho que ela fez o melhor.

Christian queria continuar zangado. Era mais seguro e confortador, um terreno e um território que entendia. Mas a raiva se dissolvia, não importava o quanto tentasse conservá-la.

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Porque, no meio dela, havia uma criança, sua filha, que Júlia protegera da única maneira possível. Callie. Sua filha.



— Gostei de ter vindo — finalizou Bertha. — Senti uma necessidade muito forte de rever você.

— Também gostei de ver você. — Apertaram as mãos. - Volte sempre que puder.


Talvez você venha a mim na próxima vez. Estou antenada, Christian. Há coisas que você pode fazer para tornar este mundo um lugar melhor, e vou descobri-las para você.

. — Faça isso, pastora. Depois nos falamos.

Pinky já estava à espera quando Christian entrou na lanchonete. Ao sentir o cheiro de café gorduroso, ele se lembrou de Ludwell e seu estômago se embrulhou.

— Puro, não é? — indagou o amigo.

— Obrigado.

— Tenho pouco tempo. — Pinky despejou mais açúcar em seu copo plástico. — Vou contar o que descobri, mas não fui eu, entendido?

— Perfeitamente. Pinky baixou a voz.

— Miles Inchman é agente disfarçado da repartição do xerife. Investiga principalmente tráfico de drogas. Costuma pagar informantes.

Christian assentiu.

— E Joachim?

— Trabalhou para Inchman por cerca de um ano.

— Quer dizer que não vendia drogas para completar a renda de jogador de pólo?

— Não, até possibilitou uma ou duas grandes apreensões. – Pinky agitou o café. — Fidelity Sutherland estava na lista de alvos, mas ela ficou esperta e parou completamente de usar. Ficou limpa, pelo que ouvi dizer. Passou meses limpa antes de morrer.

Christian alegrou-se ao ver sua teoria derrubada. Felizmente, a finada amiga criara juízo, e Samantha também ficaria contente ao saber que o ex-marido não fora tão mau, afinal.

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— E se alguém estava com medo de ser entregue por Fidelity? — considerou Christian. — Talvez ela soubesse demais e tenham decidido eliminá-la, por questão de segurança.



— Joachim devia saber. Nada indica que alguém se sentia ameaçado por ela. Era raia miúda. Não sabia de nada importante e não valia o risco de um crime.

— Parece que é beco sem saída, então.

— Sabe quais são suas chances de descobrir alguma novidade no caso da morte da garota Sutherland?

— Eu já me daria por feliz se soubesse tudo o que você sabe.

— Muito pouco, se quer a verdade. A polícia nunca mergulhou fundo nesse caso, Chris. Simplesmente, você foi flagrado no local do crime com a arma do crime na mão. Disse que pegou o canivete ali do chão, mas não soube dizer onde estava o seu. De que mais precisavam?

— Descobrir o verdadeiro autor, para começar.

— Com exceção do ângulo das drogas, a investigação foi básica. Sei porque já decorei todo o processo, a esta altura. Interrogaram amigos e familiares, todos tinham álibi. Aparentemente, Fidelity não tinha inimigos, nem mesmo admiradores recalcados. Agora é que não faz sentido reabrir a investigação. Ninguém vai tentar incriminar você de novo, e essas pistas suas provavelmente não vão dar em nada, como esta. Foi mais por isso que vim. Para lhe dizer que não precisa continuar com isso, Chris. Não vai descobrir nada, nem precisa. Já está livre.

Christian tomou um gole do café.

— E se Fidelity sem querer ficasse sabendo de algo que não devia? Não quanto a drogas, mas qualquer outra coisa?

Pinky volveu os olhos ao teto.

— A probabilidade é mínima.

— Por que um habitante de Ridge’s Race mataria, Pinky?

— Por qualquer motivo, como em toda parte.

— Estou falando de terras. Vê o que se passa nesta ponta do condado. Ninguém aqui tolera a palavra ”crescimento”.

— Aonde quer chegar?

— Davey Myers me disse que, na época em que Fidelity

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foi assassinada, planejava iniciar um empreendimento perto de Southerland, mas não conseguiu comprar o terreno



— É um tiro longo, e sabe disso.

Sim, Pinky tinha razão. Não tinha os meios nem conhecimentos para conduzir uma investigação. Tinha só motivação, que o devorava.

— Zandoff afirma que trabalhava em construções. Estavam para iniciar uma perto de Southerland. Então, Fidelity é assassinada por Zandoff. Parece um quebra-cabeça com todas as peças, só que não consigo encaixá-las.

Mesmo que o montasse, poderia ver um quadro em branco.

— É um risco que tenho de correr.

— E quer que eu veja se consigo apurar algo?

— Qualquer coisa relacionada a empreendedores na área. Tensões acerca de propriedades.

— Se isso também não der em nada, desiste? Christian não podia prometer.

— É um bom amigo, Pinky.

— Chris, é a pista mais fria que já vi na minha vida. Sabe, você devia esquecer o passado.

Era um conselho que Bertha daria.

— Vou pensar no assunto.

— Pense. — Pinky ergueu o café em um brinde

De acordo com certos padrões, o Mosby Hunt era um clube pequeno, mas tinha sólida reputação. Alguns dos melhores cavaleiros da história local tinham sido seus sócios bem como vários dos homens e mulheres mais ricos da Virgínia. Mas os tempos mudavam, e o clube, para sobreviver mudava também. A fim de angariar fundos, promovia eventos sociais formais em clubes campestres e propriedades com capacidade para centenas de pessoas. Mas boa parte das atividades era informal, como distribuição de bebidas ao final de uma caçada, piqueniques de verão e passeios Pelo campo. Durante a queima de fogos de artifício que encerrava a temporada, recontavam-se as melhores caçadas Para virar mito.

O conselho diretor já definira o local de cada caçada para

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aquele ano, elegendo Claymore Park para oferecer o café da manhã inaugural. Barracas semelhantes a imensas nuvens de chuva pontilhariam a encosta da colina em que Se dera o furta-passo do caçador, sob as quais terrinas com sopa de amendoim e travessas com presunto da Virgínia alimentariam a multidão. Peter supervisionara o planejamento de cada detalhe da festa.

O sucesso do encontro inaugural em si era ainda mais importante. Na volta da conversa com Pinky, Christian encontrou Peter a sua espera.

— Não precisa me dizer que é exagero, mas vou percorrer mais uma vez o terreno da caçada. Checar os obstáculos e ver se há pontos perigosos que não vimos antes.

Christian sabia que Peter conhecia cada centímetro da área em questão, como um homem conhecia o corpo da amante, mas o dono daquele haras era bem-sucedido justamente porque nunca deixava nada ao acaso.

— Quer que eu vá junto?

— Eu esperava que se oferecesse.

Christian selou Night Ranger e se encontrou com o patrão no pátio do estábulo. Peter Claymore, em um baio esguio chamado Jack’s Knife, era o cavaleiro refinado, ereto, porém à vontade na sela, de roupas confortáveis, mas elegantes, o chicote reluzente das horas de labuta. Era extremamente cuidadoso com suas montarias e equipamentos. Jamais delegava detalhes importantes a quem quer que fosse.

Seguiram em silêncio rumo ao local em que se daria o café da manhã inaugural. De lá, dobraram para o sul, passando ao lado de campos de trigo recém-lavrados por uma trilha que se abria a um prado repleto de chicória e salsaburra. Propositalmente, haviam descartado o curso utilizado no furta-passo do caçador, pois os membros do clube esperavam e mereciam algo novo. Nas semanas seguintes, caçariam por todo aquele território.

— Depois que você finalmente fez Robby tomar gosto Por cavalos, costumávamos vir aqui passear, só nós dois — recordou Peter.

Christian duvidou. Robby e seu pai haviam coexistido, mas nunca com afeto verdadeiro. Talvez Peter tivesse se

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conformado com a morte do filho logrando a si mesmo acerca de uma união que jamais houvera.



Sempre pensei que ele fosse me suceder como Mestre dos Cães. Era só o que eu queria. Meu pai também foi mestre, você sabe.

Sim.


Christian sabia, mas não pensava nisso havia anos.

— E, depois dele, o pai de Júlia.

— Harry Ashbourne assumiu quando meu pai morreu de repente, mas revelou-se um grande mestre. Eu não morava em Claymore Park na época, mas vinha caçar sempre que podia. Meu pai fora bom, mas Harry era muito melhor. Saltava obstáculos sem que um fio dos cabelos lhe tremesse. Mas podia ser implacável, também. Era um tirano, nosso Harry. Estava sempre certo, e tínhamos de baixar as orelhas. Um homem emotivo encerrado em aço.

Christian imaginou quanto do pai Júlia herdara.

— Naquele tempo, Maisy também participava, não? Peter sorriu.

— Não sei como Harry a escolheu. Tão pequena e delicada...

— É mesmo?

— Sim, engordou nestes últimos anos. Era uma gracinha. Muitos rapazes gostariam de tê-la visto primeiro, eu garanto.

Christian sorriu. Então, Maisy fora a mais bela de sua época.

— Por que estranhou que Harry a escolhesse?

— Bem, ele era mais velho, e severo. Um falcão. Maisy parecia uma borboleta. Mas, apesar de todas as diferenças, combinavam-se perfeitamente. Ele a adorava, embora se exasperasse com seus defeitos como amazona. Maisy montava bem para os padrões da maioria, mas os padrões de Harry eram muito superiores, você pode imaginar. Mas cheguei a vê-lo observando-a sem ela perceber. Havia orgulho e devoção em seus olhos. Seria capaz de dar a vida por ela.

Christian apreciava a ideia de Maisy ter tido um grande amor. Seu casamento com Jake era sólido e afetuoso, mas gostava de saber que, na juventude, ela se deixara arrebatar.

O dia em que Harry foi encontrado morto na floresta foi o o mais triste da história do Mosby Hunt.

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Fazia muito tempo que Christian soubera do episódio. Tentou se lembrar.

— Ele saiu sozinho?

— Foi. Como demorava a chegar, os cavalariços saíram a sua procura. Encontraram o cavalo, um cinzento enorme como Night Ranger, com as rédeas emaranhadas em uma moita, furioso. Foram necessários três para desvencilhá-lo e acalmá-lo. A essa altura, sabiam que devia ter acontecido algo com Harry. Foram horas rastreando, com a ajuda dos cães de caça inclusive. Não era a especialidade deles, mas um finalmente o encontrou na mata, junto ao córrego. Caíra ao finalizar um salto perigoso na fazenda Ashbourne, um que jamais tentávamos quando caçávamos por ali. Somente Harry se arriscava, parecendo alçar voo. Quebrou o pescoço. Devia ter morrido na hora.

— Deve ser por isso que Maisy fechou Ashbourne.

— É compreensível, mas não um memorial adequado a seu marido.

Avançaram calados pelo que restava de uma velha estradinha aberta para transporte de toras, ao lado de um córrego que desaguava no Jeb Stuart bem mais adiante. Peter desmontou para verificar uma gaiola, na verdade um obstáculo que lembrava um engradado de galinhas, certificando-se de que não precisava de reparos. Não sabia no que o patrão pensava ao examinar as pranchas de madeira fortes, mas ele pensava em um outro passeio a cavalo com Peter.

— Há uma caverna não muito longe daqui — comentou Peter, de volta à sela. — Esse é um dos motivos pelos quais quero soltar os cachorros descendo o córrego no primeiro dia. Quer dar uma olhada? É bom você saber onde fica.

— Temos tempo? Disse que ia sair agora à tarde.

— De fato, preciso voltar logo, mas você pode ir. — Peter o instruiu. — Vi três filhotes de raposa na primavera e nunca mais. Podem ter morrido ou se mudado.

— Vou ver se localizo a caverna.

Peter ergueu o boné em despedida e tomou o rumo de Claymore Park. Seguindo as instruções, Christian cavalgou por mais quinze minutos.

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A princípio, não viu nada extraordinário. O terreno era arborizado e ligeiramente ondulado. Após cortar a mata ao lado do córrego por quatrocentos metros, alcançou um ajuntamento de bétulas, exatamente como Peter lhe adiantara. Trilhou ao redor. Já ia seguir avante quando um movimento acerca de cinco metros a sua direita lhe chamou a atenção.

Era uma raposa cinzenta jovem tomando sol preguiçosamente sobre uma pedra achatada. Christian reteve o fôlego, mas isso bastou para alertar o animal, que se levantou e esticou o corpo flexível. A seguir, fitou o intruso nos olhos. Christian permanecia imóvel. A raposa aguardou, ele também. Finalmente, ela deu meia-volta e desapareceu na floresta.

Vira uma raposa assim de pertinho pela última vez na manhã da morte de Fidelity. Saíra a passeio com Peter naquele dia, também. No caminho, haviam deparado com uma raposa mais jovem do que essa. Na época, não pensara muito a respeito. Ainda esperava pequenos milagres em sua vida. Não imaginara que aquele passeio com Peter seria seu último como homem livre em muitos anos vindouros.

— Preciso me lembrar deste lugar — comentara Peter naquele dia, enquanto a jovem raposa corria para trás das rochas. — Tenho a impressão de que há uma família nas proximidades.

Haviam saído cedo rumo a Southerland, para ver uma égua que o pai de Fidelity queria vender. Peter convidara Christian a lhe fazer companhia e dar uma opinião. Enquanto os fazendeiros discutiam o preço, Christian foi dar uma volta com a égua. Negócio fechado, tomaram o caminho de volta a Claymore Park.

— São belos animais — comentou Christian, distraído. Na verdade, pensava no encontro marcado com Júlia para aquela noite. Tinha milhões de tarefas a realizar, mas Júlia Ashborne era sempre prioridade.

. Por falar em belos animais, viu a. srta. Sutherland saindo com meu filho hoje cedo? Montada em Firefall? Frank comentou. Estava surpreso por você ter deixado.

- Em Firefall?

Peter riu.

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— Vejo que não sabia.

Firefall era o mais novo projeto de Christian, um castanho diabólico com grande potencial para caçador e nenhum pendor para montaria de lazer.

— Fidelity sabe que não deve montar nele. Já me viu treinando-o, ainda está muito chucro.

— Aparentemente, é o que a atrai. E meu filho também não pensa, pelo jeito.

— Vou falar com ela. Hoje mesmo.

Não era de surpreender que Fidelity induzisse Robby a deixá-la montar em Firefall, mas Christian fumegava de raiva. Ela se arriscava, e também ao cavalo. Se acontecesse algo com Firefall, seus meses de trabalho iriam por água abaixo. E se algo acontecesse com Fidelity...

Já estavam quase em casa quando Peter lhe fez uma pergunta perturbadora:

— Christian, pediu a Fidelity que convencesse o pai a falar comigo?

Christian reagiu confuso.

— Sobre o quê?

— Frank me disse que você foi aceito na universidade de Michigan para cursar os dois últimos anos lá.

Na primavera, cansado de trabalhar o dia todo e estudar à noite, Christian se candidatara a uma vaga em várias universidades. Tinha média 4.0 e recomendações de todos os professores, dos quais um enaltecera muito a instituição de Michigan.

— É só um dos lugares que me aceitaram. Ainda tenho esperança de ir para a universidade de Virgínia. Mas me candidatei tarde demais a uma bolsa e agora estou na dependência de outros agraciados desistirem a fim de estudar em outro lugar.

— Frank sugeriu que eu escrevesse ao reitor de admissões da Michigan recomendando-o a uma bolsa-auxílio financeiro completa. Eu me formei lá, você sabe.

Sim, Christian sabia, e por isso mesmo não comentar a respeito com o patrão. Estava determinado a completar seu curso superior sem a ajuda de ninguém. Sempre

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recusava as ofertas de ajuda financeira de Peter, e mesmo uma recomendação lhe parecia uma interferência.

Meu pai tinha muitos problemas, mas ele me ensinou que eu devia me fazer sozinho. — explicou. — Ele nunca pediu ajuda a ninguém e eu também não vou pedir.

Se tivesse pedido ajuda, Gabe poderia estar vivo hoje.

Christian espantou-se. Não era do feitio de Peter ser tão direto ou pessoal.

— Vou escrever ao reitor - decidiu Peter. — A menos que me proíba.

Christian não sabia o que dizer. Ao longo de todos aqueles anos, Peter só o tratara bem.- Deixara-o permanecer em Claymore Park, e sabia que jamais pagaria a dívida com ele, mesmo trabalhando no estábulo fora dos horários de aula. Sempre fora tratado como membro da família, e não queria ofender o benfeitor agora.

— Gosto de homens orgulhosos — declarou Peter, já que Christian não respondia. — São raros hoje em dia. Orgulho e honra são coisas por que vale a pena morrer. Um nome limpo é tudo o que um homem tem de fato.

— Senhor, agradeço a oferta. mas... tenho medo de conseguir o dinheiro, com sua ajuda, e aí... ter de gastá-lo.

Peter riu.

— O problema é Júlia Asbourne, não é? Christian sentiu o rosto afogueado.

— É, senhor. — Agora, pensando bem, era intrigante o fato de Fidelity tentar garantir sua admissão em uma universidade distante. Se fosse mesmo para Michigan, veria Júlia somente nos meses de verão.

— Sendo assim, não escreverei ao reitor. Parece que a srta. Sutherland se enganou.

— Como?

— Bem, segundo Frank, você e a srta. Ashbourne estavam dispostos a passar algum tempo longe um do outro...



Christian estava perplexo.

Não, senhor, não sei de onde tiraram essa ideia.

Tenho conhecimentos na universidade da Virgínia, também, você sabe.

ficou tentado, mas acabou recusando.

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— Obrigado, mas significará mais para mim se conseguir uma bolsa por mim mesmo.



— A maioria dos jovens por aqui consegue tudo facilmente. Você é o oposto, Christian. Orgulho-me de você

— Obrigado, senhor.

Completaram o trajeto até Claymore Park calados, e Christian aproveitou aqueles minutos cogitando qual teria sido o objetivo de Fidelity com aquela interferência. Já estava zangado com ela por sair com Firefall sem sua permissão. O fato novo o exasperava ainda mais.

Continuou pensando no assunto pelo resto da tarde. Depois de cuidar dos cavalos, foi resolver uns assuntos na cidade e, na volta, decidiu passar em Southerland para esclarecer o que se passava. Fidelity tinha algum plano. E Fidelity, quando tramava algo, podia ser tão imprevisível e perigosa quanto o cavalo que tomara emprestado.

Jovem e impaciente, ansioso para descobrir o que a amiga pretendia, decidiu abrir logo o jogo com ela.

Naturalmente, nem imaginava o que o aguardava.

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