Emilie Richards



Baixar 2.29 Mb.
Página15/23
Encontro30.06.2019
Tamanho2.29 Mb.
1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   23
CAPÍTULO XXIV
Três dias após o furta-passo do caçador, Samantha encontrou Christian no canil com o veterinário, este verificando se a matilha contraíra dirofilariose.

— Tem um minuto? — indagou ela.

Fish entrou para ajudar, e Christian acompanhou a treinadora até lá fora.

— É preciso adorar cachorros — comentou ela, tapando o nariz contra o mau cheiro.

— Ei, mantemos o canil sempre limpo. E o cheiro não é pior do que no estábulo. Só que são cachorros em vez de cavalos.

— As crianças foram dispensadas da aula, devido a uma reunião de professores, por isso trouxe Tiffany para passar o dia aqui com Callie. Ela está com Clover.

— Clover fez questão de barrar seu caminho?

— Fez. Não dá para acreditar que seja um cão de caça com pedigree.

Christian admirou-a no conjunto de calça caqui e blusa de tricô em um tom de laranja que só as mulheres sabiam definir. Gostava dela, moça bonita e saudável a se lhe oferecer. Sabia que ela o achava atraente, também. Supunha que, se a convidasse para sair, ela aceitaria.

Mas não tinha vontade.

— Sei que precisa voltar ao trabalho... — começou ela.

— Estamos aprontando a matilha para a temporada.

— Já saíram para caçar?

Ainda não, só para exercícios. Estavam na temporada de caça às raposinhas, e Peter lhe pedira para esperar até ser

308

apresentado como organizador de caçadas no furta-passo do caçador. O próprio Peter continuara caçando com os cães, com a ajuda de batedores voluntários, incluindo Bard Warwick.



Mas, agora que assumira oficialmente o cargo, Christian começaria a sair com Peter, a partir do dia seguinte. Não sabia se estaria pronto para ser o organizador de caçadas quando fosse aberta a temporada de caça, mas iria se empenhar.

— Começo amanhã — contou a Samantha. — Só espero não cair do cavalo.

- Vai montar em Ranger?

— Provavelmente. O ritmo é mais lento agora do que quando a temporada começa a sério, e poderei ver como ele se sai.

— É um velho campeão. Não vai decepcionar você. — Samantha tirou algo do bolso da calça e lhe ofereceu. — Não me esqueci de nossa conversa. Esta é uma lista de pessoas com quem Fidelity andava saindo quando nos conhecemos. Claro, ficamos estremecidas depois que descobri que ela tinha dormido com meu marido, mas continuávamos freqüentando o mesmo meio. Estas pessoas a conheciam bem. No sentido bíblico, em se tratando de alguns dos homens.

Christian leu os nomes. Não havia tantos quanto temera.

— E só incluí as pessoas que continuam na área — esclareceu Samantha. — Até porque os que desapareceram nunca tiveram muita importância.

— Já conhecia Júlia nessa época?

— Parece que Fidelity mantinha partes de sua vida em compartimentos bem estanques... uma coisa obsessiva. Não sei se Júlia desconfia do quanto sua melhor amiga era louca.

— Acho que não. Ela teria me contado.

— Você e Júlia eram íntimos. — Não era uma pergunta.

— íamos nos casar assim que terminássemos os estudos.

— E tudo acabou em pesadelo. Lamento.

Christian dobrou o papel e o guardou no bolso da capa que usava para trabalhar no canil. Obrigado pela lista.

Christian, não quero forçar nada, mas, se quiser sair uma noite dessas, vamos lá. Já não existem caras legais como você. A gente se diverte e só.

309


— Não sou mais um cara legal, Samantha.

— Um cara legal meio triste. — Ela sorriu. Ele sorriu também, mas não aceitou a oferta.

Encabeçava a lista de Samantha o nome de uma moça balconista de uma loja de antiguidades em Middleburg. Ela arregalou os olhos quando Christian se apresentou mas dispôs-se a ajudar. Contou que a polícia colhera seu depoimento por ocasião da morte de Fidelity, e em todos aqueles anos ela nunca se lembrara de mais nenhum detalhe importante.

— Eu gostava de Fidelity, mas detestava sua mania de dar em cima de todo homem que lhe chamava a atenção — confessou ela, espanando as estantes da vitrine do tempo da Depressão. — Achava que ela acabaria se aquietando, e nunca soube de ninguém que lhe quisesse mal realmente

Quando ele indagou a respeito de drogas e ex-amantes recalcados, ela apenas deu de ombros.

— Todo mundo usava drogas, e todo homem que se envolvia com Fidelity já sabia que o relacionamento seria breve, concorda? Quando um caso ameaçava ficar sério, ela despachava o sujeito na hora. Fidelity era assim.

As duas pessoas seguintes na lista não haviam conhecido bem Fidelity, aparentemente.

O quarto nome pertencia a uma bela morena que estudara no colégio Foxcroft com Fidelity. Haviam treinado juntas para conquistar uma vaga na equipe olímpica de equitação, mas nenhuma das duas conseguira. De certa forma, a decepção as uniu, mas não passaram muito tempo juntas no último verão da vida de Fidelity.

Caroline embalava as filhas gémeas enquanto o atendia no restaurante que ela e o marido haviam aberto em The Plains, outra cidade vizinha.

— Fidelity voava alto demais para o meu gosto — explicou. — Enquanto eu me empenhava nos estudos e fazia planos sérios para minha vida, ela só pensava em qual festa ir e com qual cara iria para a cama depois.

— Lembra-se de algo que possa me ajudar? Alguoi louco

310


De se tentári que ela tenha feito? Alguém que parecesse deslocado na vida dela?

. Ela estava usando drogas. Principalmente cocaína. As chamadas drogas ”finas” também. Havia um sujeito, jogador de pólo chamado Joachim, que a abastecia, e a metade do grupo dela. Parece que ele morreu anos depois em uma briga. Estava sempre por perto, como se a tivesse no cabresto Ou algo assim. Christian surpreendeu-se. Conhecia a esposa de Joachim?

— Aquela modelo? Ela viajava muito, para fazer fotos. Provavelmente, não sabia o que ele aprontava em sua ausência. Devia acreditar que todo aquele dinheiro vinha do pólo. De qualquer forma, era só um dos motivos. Fidelity estava muito mudada, e eu me assustava com aquilo. Drogas me assustavam.

Christian agradeceu a ajuda e voltou para Claymore Park. Duvidava de que Samantha o ajudaria a desenterrar o passado de Fidelity sabendo que ela poderia descobrir os segredos de seu ex-marido. Decidiu falar-lhe francamente, para ver o que ela respondia. Mas não naquela noite.

Prometera a Calie passar em Ashbourne para ajudá-la a treinar Clover. Então, veriam a encrenca em que haviam se metido.

Decidiu montar em Night Ranger. Do topo da última colina antes de alcançar a casa dos Fletcher, poderia ver se tinham visitas. Evidentemente não queria se encontrar com Bard. Nesse caso, daria meia-volta. Mas, do ponto de observação, viu apenas a picape nova de Maisy.

No pequeno padoque vazio próximo ao celeiro, livrou o cavalo dos arreios e o deixou pastando. Tratava-se de um ritual que praticara na juventude. Sentia-se como alguém que faltara à missa durante anos; mas que, diante de um altar, ajoelhava-se e fazia o sinal da cruz sem pestanejar. Perto da casa, foi saudado por um exultante filhote de cão de caça.

— Ei, garota! — Fincou o joelho na grama e a afagou no Pescoço. — Como é que você está?

311

— Christian! — Callie correu de dentro da casa como se estivesse à espera. — Christian!



— Oi, Callie! — Antes que ele se preparasse, ela se atirou contra ele, e ambos tombaram no chão.

— Derrubei você!

— Pode apostar. Sou seu prisioneiro.

— Callie! — A voz horrorizada de Júlia desceu os degraus da varanda.

Christian ria, dominado pela criança e pela cadelinha.

— Está tudo bem. Ela só me pegou de surpresa. Callie ria divertida. Christian lhe embaraçou os cabelos antes de empurrar Clover para o lado e se sentar. A menina também se sentou.

— Veio visitar Clover ou a mim?

— Às duas, é claro.

— Verdade?

— Verdade verdadeira. Quer dizer que já se entenderam?

— Se já! Clover é a melhor cadelinha do mundo!

— É mesmo? — Christian aliviou-se. Temia que Júlia lhe atirasse o filhote de volta ao vê-lo. — O que está achando, Júlia?

— Acho que minha filha está com péssimas maneiras. Callie, peça desculpas a Christian.

— Desculpe-me — obedeceu a menina, mas seus olhos cintilavam marotos.

— Não foi nada.

Júlia desceu os degraus com cuidado. Enfrentava a cegueira assim como fazia tudo o mais. Com cautela e inteligência. Algumas mulheres se deixariam derrotar por aquela súbita perda da visão.

— Quanto à cadelinha... — começou ela. Christian reteve o fôlego.

— Não sei se quero ouvir.

— Ela é maravilhosa — completou Júlia. — Callie a adora. Maisy também. Jake a tolera.

— E você?

— Tento impedir que ela se enrosque nas minhas perna Christian nem pensara no transtorno, mas locomover-se

312


Para Júlia, devia ser menos difícil sem uma cadelinha retardada atrapalhando.

Será que é melhor eu levá-la de volta?

Ela fica aqui fora, menos à noite — explicou Callie. „ E já a estou treinando.

Ele lhe desejava boa sorte.

Callie está fazendo progressos — revelou Júlia, segurando-se no poste, junto ao último degrau. — Mostre a Christian, Callie.

Callie levantou-se e correu para a mãe.

— Clover... Clover... Aqui, menina!

Clover inclinou a cabeça, como se raciocinasse! Então, abandonou Christian e foi ao encontro da nova dona.

— Viu? — gritou Callie, extasiada. — Viu?

— Fantástico! — elogiou Christian. — Bom trabalho! — Começava a acreditar em milagres.

— Vou ensiná-la a se sentar, parar, dar uma volta e tudo o mais. Maisy me deu um livro com ilustrações.

— Só não vá rápido demais. Ela pode se confundir. Eu me concentraria em um tópico de cada vez, até ter certeza de que ela aprendeu. — Nesse ritmo, Callie ainda estaria treinando Clover depois de casada e com filhos.

— E vou ensiná-la a guiar mamãe por aí, como um cãoguia de verdade.

— Eu treinei cães-guia — revelou Christian. — Era um ótimo trabalho. Mas terá mais sorte se tentar ensinar Clover a encontrar raposas.

— Mas isso não ajudaria mamãe. Christian levantou-se e espanou as roupas.

— Não, a menos que ela queira um casaco de peles.

— Argh! — repudiaram mãe e filha juntas. Christian riu.

— Callie, queria lhe dar os parabéns por seu desempenho no furta-passo do caçador. Você e Feather Foot fizeram um otmo tempo. Logo atrás dos vencedores.

Mas não ganhamos.

Você não se divertiu?

Diverti-me.

- Pois era o principal objetivo.

313

Callie coçou a cabeça de Clover.



— Meu pai ganhou. Ele disse que brinco demais e por isso não treino o quanto deveria.

Christian ficou pasmo. A menina tinha uns sete ou oito anos. Toda criança não tinha o direito de brincar?

— Quer ver Feather Foot de perto? — convidou Callie — Pode lhe dar uma maçã.

— Seria uma honra. Tudo bem, Júlia?

Ela parecia infeliz. Devia achar que ele prolongava demais a visita a sua filha.

— Bom, já está escurecendo — comentou ele, já que ela não respondia. — Talvez seja melhor deixarmos...

— Vão lá — incentivou Júlia. — Espero vocês aqui na varanda.

— Vamos! — Callie estendeu a mãozinha. Christian a pegou e se deixou arrastar pelo entusiasmo infantil.

— O que faz aí fora sozinha? — Maisy saiu e deixou bater a porta de tela.

— Christian e Callie estão no celeiro. Ela quis lhe mostrar Feather Foot.

A mãe nem respondeu.

— Callie está louca por ele — admitiu Júlia. — Ela sabe que ele gosta dela. Então, ele lhe deu a cadelinha. Bastou. Um adulto que não tenta modificá-la e que gosta dela o bastante para pensar em agradá-la. É uma raridade em sua curta vida.

— Isso se chama pai — esclareceu Maisy.

— Eu sei.

— Vai contar a ele, não vai?

— Não tenho escolha. Alguém vai contar, ou ele vai descobrir por si só.

— É esse seu raciocínio? Vai contar a ele porque não tem outro jeito?

— Vou contar a ele porque ele merece saber. Sempre mereceu, embora parecesse duplamente cruel quando ele estava na prisão. Agora, seria cruel não revelar. Esses dois pertencem um ao outro. Já se encontraram sem minha ajuda-

314

- Vai contar esta noite?



Não. Preciso comunicar minha decisão a Bard, primeiro. Devo-lhe isso. Vai mudar tudo.

- E Callie?

Contarei a Callie quando ela for um pouco mais velha. Não quero que saiba por outra pessoa.

Que alívio! Viver uma mentira equivale a queimar no inferno.

— Maisy, você não acredita em inferno.

. Porque não precisamos de um. Arranjamos encrenca suficiente nós mesmos. O diabo não tem de levantar um dedo.

— Você não acredita em diabo, tampouco.

— Justamente.

— Como será que Christian vai reagir? — Júlia voltou o rosto na direção do celeiro. Ouvia a risada aguda da filha.

— O que você acha?

— Ele não perdeu só nove anos da própria vida. Perdeu todos os de Callie, também. E vai me culpar por isso.

Maisy pôs a mão no ombro de Júlia.

— Os filhos mudam tudo. Mudam nosso jeito de ver a vida, as decisões que tomamos, as escolhas que fazemos. Pelos filhos, fazemos coisas que não faríamos por nenhum outro motivo.

Júlia pôs a mão sobre a da mãe.

— Mudou a mim. Vai mudar a ele também.

— Eles vêm vindo. Júlia baixou a voz.

— Como eles ficam juntos? Maisy respondeu triste:

— Como peças de um quebra-cabeça que se encaixaram.

315

CAPÍTULO XXV
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Depois que Ian se retirou, permaneci acordada até o alvorecer, planejando como iria deixá-lo. Era jovem, mas não carecia de bom senso. Não fizera nada de errado, nada que teria podido evitar, mas Ian me espancara mesmo assim. Todos os meus esforços de nada haviam valido. Jamais conseguiria agradá-lo, não por ser tola ou inadequada, mas simplesmente por se tratar de uma missão impossível.

Se ele esperara convencer-me de que era inútil, ainda não conseguira. Fizera-me duvidar de mim mesma e me sentir responsável por tudo de errado em nossas vidas, porém ultrapassara um limite ao me agredir. Sabia que o que ele fizera era errado, muito mais do que perverso, talvez maligno. Sabia que os maridos batiam nas esposas, às vezes. Aprendera até que a esposa podia merecer. Mas, agora que me integrara a essa odiosa irmandade, dava-me conta de que a lição estava errada.

Nenhum homem podia erguer a mão para uma mulher. Por motivo algum.

Quando meu medo se aplacou, a fúria o substituiu. Quando a fúria arrefeceu, a tristeza se infiltrou. Inconformada, recordei o Ian Sebastian que vira pela primeira vez montado em um enorme garanhão preto, o príncipe encantado que me arrebatara do chão e levara a galope para seu castelo na Virgínia.

316


Eu levantei-me, com um plano inacabado na mente. Esperaria Ian sair da fazenda e procuraria Annie. Sabia que ele me vigiaria atentamente até ter certeza de que eu obedeceria a suas ordens. A essa altura, Annie e Paul já teriam voltado da viagem de lua-de-mel à Espanha. ficaria com eles até poder concretizar meu plano de voltar para Nova York. Minha mãe e meus irmãos não me aceitariam de volta, mas na Virgínia eu não permaneceria, temendo deparar-me com Ian em cada esquina. Se minha família de fato se recusasse a me acolher, eu acompanharia Annie e paul na mudança deles para Chicago e me estabeleceria por lá.

Sentiria falta de Ian. Parecia estranho, mas era verdade. Quando não estava zangado, ele era um companheiro agradável, amante maravilhoso, fonte de conversas interessantes. Admirava sua dedicação a Rio Fox, à caça, à Virgínia. Para sempre lamentaria a morte de nossos sonhos mútuos.

Mas não me deixaria espancar novamente.

Levantei-me com esse pensamento, determinada a evitar meu marido sem despertar suas suspeitas. Sentia-me dolorida e meu corpo latejava, mais do choque contra os arbustos do que das bofetadas de Ian. Quando me endireitei, entretanto, uma dor lancinante me trespassou o abdome, um longo e terrível espasmo que me deixou sem fôlego. Caí de novo na cama, dobrada em duas, a cabeça apoiada contra os joelhos.

Por um segundo, apavorei-me. Teria afetado algum órgão interno ao ser arremessada de cima do cavalo? A dor ameaçava me partir ao meio. A cólica que me atormentava durante as regras mensais nem se comparava àquela.

Embora, recentemente, não tivesse tido regras nem cólicas com as quais pudesse comparar o súbito flagelo.

Lentamente, coloquei-me em posição sentada outra vez e fitei a porta que separava meu quarto do de Ian. Ocupada demais, prestara pouca atenção aos ciclos de meu corpo. Ao Pensar a respeito, atribuíra as regras atrasadas aos exercícios desabituais.

Até aquele momento, não cogitara a possibilidade de estar grávida.

317

Gemi um pouco, embalando-me enquanto considerava o que podia estar acontecendo. Talvez estivesse perdendo a criança que nem soubera estar gerando, porque o pai fizera o cavalo me derrubar. Talvez até porque o pai dela me espancara em seguida.



O que acontecia era terrível, mas ainda assim eu via a ironia. Desde o início, Ian reclamava um filho. Agora, por culpa dele mesmo, talvez esse filho nunca nascesse.

Aguardei nova estocada de dor, mas, após alguns minutos, como nada acontecia, levantei-me outra vez e fui para a porta. Precisava satisfazer minhas necessidades e verificar se havia sangramento. Antes de chegar ao banheiro, porém, outra onda de dor me atravessou. Engoli em seco, surpresa com a intensidade. Cruzei os braços sobre o ventre, em uma tentativa inata e vã de proteger a criança que podia haver dentro de mim. Gemi e gemi, enquanto a dor e a tontura continuavam.

Não sei se meus gemidos acordaram Ian, ou se ele também nem dormira naquela noite, tomado de culpa pelo que fizera ou, pior, zangado por não ter me dado outro soco. A porta se abriu e ele entrou. Reagi endireitando-me, apesar da dor, erguendo as mãos espalmadas para mantê-lo a distância.

Ele reagiu como se eu o golpeasse.

— Louisa... Está passando mal?

— Não. Vá embora. Por favor.

— Está, sim. Qual é o problema?

Ele falava tão gentil que, por um segundo, nem entendi. Enganei-me pela voz, enfeitiçada pelo que parecia culpa nos olhos dele.

— Levantei-me e... — Prendi a respiração conforme outra estocada de dor me trespassava.

— Onde é que dói? Toquei no ventre.

Antes que eu completasse a frase, ele me ergueu nos braços e carregou de volta à cama.

— Não se levante de novo. Deve ficar em repouso.

— Não sei... Pode ser...

— Está grávida?

— Não desconfiava. Não até agora. Mas posso estar-

318


Ian avaliou a situação.

Vou telefonar para o dr. Carnes. Ele virá imediatamente.

Um veneno inesperado surgiu dentro de mim.

. Como vai explicar os hematomas no meu rosto?

Ele me ajeitou com cuidado e se ajoelhou ao lado da cama.

- Pode me perdoar por aquilo?

Vi nos olhos dele algo que jamais esperara. Lágrimas, e, por um instante, perdi a fala. Foi ele quem se manifestou primeiro:

— O demónio se apossou de mim. Tentei fazer você se aprimorar e, quando falhou...

— Não consegui! — Desviei o rosto.

— Quando não conseguiu, achei que estava deliberadamente tentando me mostrar que eu estivera errado sobre Crossfire o tempo todo e você, certa. Não conseguia raciocinar, Louisa. Reconheço. Depois, quando fizeram chacota de mim por sua causa e do seu cavalo inadequado, senti uma coisa dentro de mim. Parecia que o demónio me impelia.

Talvez, se não o fitasse naquele instante, tivesse me salvado. Não teria sentido pena dele, nem a golfada de doce emoção. Mas o fitei e vi lágrimas em seu rosto.

— Céus, como te amo! — declarou ele, comovido. — Casei-me com você porque te amo, Louisa. Se puder perdoar meu lapso terrível. Se puder...

Ele pousou a mão sobre a minha. Tudo o que eu tinha a fazer era virá-la para cima e apertar a dele.

E o fiz, pois nunca fora amada de verdade antes. Não desse jeito, tão terrível e deturpado. Ser amada dessa maneira, por esse homem, compensava tudo o que eu já sofrera.

Mas não sofreria mais. Tinha certeza disso. Muito provavelmente, carregava um filho de Ian e, se não o perdesse agora, logo seríamos uma família. Eu daria a Ian algo que ele sempre desejara, e isso com certeza faria toda a diferença.

- Diga que me perdoa — implorou ele.

Estendi a mão e enxuguei as lágrimas no rosto dele. Então, declarei a Ian Sebastian o que ele tanto queria ouvir.

Não passei os meses seguintes aprimorando minhas habilidades de equitação, conforme o Ian furioso determinara.

319

Passei-os deitada na cama, de pernas elevadas, tendo cada capricho atendido. Ia mesmo ter um filho, e nem as éguas premiadas de Ian recebiam mais atenção do que eu.



Estava convencida de que gerava uma menina, mas ainda não comentara o fato com Ian, que só se referia à criança como sendo um menino. Eu temia uma discussão acerca de um fator que nenhum de nós podia influenciar. Ian se mostrava tão gentil e atencioso desde aquela noite de Ação de Graças que, podendo escolher, eu teria escolhido um menino só por gratidão. Mas, secretamente, e já que não podia determinar, ansiava por uma filha.

Transcorridos dois meses sem cólicas, o dr. Carnes me deixou levantar da cama. Àquela altura, a gravidez já era evidente a qualquer um que me olhasse com mais atenção. Agora, caminhava com menos vivacidade, em roupas feitas mais para esconder do que para mostrar. Cortei meus cabelos, pois queria ter algo em mim simples e reto. Voltamos a receber e, se meu comportamento infeliz na caçada de Ação de Graças humilhara Ian, minha gravidez cessou as fofocas. Todos os sócios do clube sabiam que era impossível argumentar com uma mulher em meu estado.

Oferecemos um pequeno jantar a Annie e Paul por ocasião de sua mudança para Chicago. Seis semanas depois, organizamos outro, para os Jones. Eu estava triste com a partida dos parentes, mas me encorajava com as atenções de meu marido. Talvez não precisasse mais de refúgio por perto. E, quando meu bebê estivesse grande o bastante para viajar, visitaríamos Annie.

Encontrava-me em gestação avançada quando Ian me flagrou tricotando um casaquinho amarelo para o bebé. Já era noite, perto do horário de dormir, e até então fizéramos companhia um ao outro, deliciando-nos com o perfume de madressilvas que entrava pela janela aberta.

— Louisa, não sabe que nenhum filho jamais usará roupa tão frívola?

Ele falara em tom leve, de brincadeira, e meus instintos, anestesiados por meses de paparicos, não ficaram alertas.

— Devo escolher as cores de Rio Fox Hunt? Verde-escuro e o grená do casaco do pai?

320


— Melhor do que amarelo.

Acontece que pode ser uma menina. E, se puxar a mim, vai ficar linda neste casaquinho.

Ian calou-se, e mergulhei de novo em meus pensamentos até que ele voltou a se manifestar:

— É melhor que não seja menina, Louisa. Encarei-o.

— Não está falando a sério.

.— Eu lhe disse, quero um filho.

— Eu sei. Mas esta não é sua única chance de ganhar um, você sabe.

— Filha não me interessa. Talvez depois, quando tiver filhos homens o bastante para me contentar.

— Querido, o que fizemos, fizemos juntos. Prometo que, se for menina, será uma grande amazona e você terá muito orgulho dela. — Se ouvi a mim mesma revelando os sonhos de minha filha, nem me preocupei.

— Uma filha nunca é motivo de orgulho. As mulheres, em geral, são criaturas tolas. Minha própria mãe era a mais tola de todas.

Dividi-me entre a expectativa de vislumbrar mais uma cena do passado de Ian e a indignação por meu sexo.

— Nunca me falou de seus pais, Ian. Como eles eram?

— Meu pai era um homem que sabia como obter tudo o que queria. Transformou a fazenda Rio Fox no que é hoje, com o suor do próprio rosto e uma força de vontade inquebrantável.

— E sua mãe?

— Era fraca. Entre duas fileiras de trilhos com um trem desembestado em sua direção, ela não teria tido a força ou o juízo para pular fora.

— Parece que não se davam bem...

— Eu tinha meu pai. Bastava.

— Nem todas as mulheres são tolas. Vamos criar nossa para ser corajosa e inteligente...

Ian desdenhou.

— Chega dessa conversa. Vai ter um menino. Estou convencido.

Chateada, pedi licença e me retirei minutos depois, alegando

321


cansaço. Na cama, porém, não conseguia dormir. O retrato da família de Ian me intrigava e perturbava. O desprezo dele pela mãe parecia quase beirar a amargura, e quanto ao pai? O homem com força de vontade inquebrantável. Teria conquistado a vontade do filho, também?

Comecei a recear por meu bebé, menino ou menina.

Um mês antes da data prevista para o nascimento, fui à cozinha pedir a Lettie uma refeição fria para a noite particularmente quente, frango com salada verde, mas na verdade queria questioná-la.

— Lettie, fale-me dos pais do sr. Ian. Sei tão pouco.

Apesar das duas janelas enormes sombreadas por carvalhos e do pequeno ventilador girando, a cozinha estava quase insuportável de tão quente. Abanei a cozinheira, incentivando-a a falar-

— A sra. Cláudia era uma boa mulher, mas pequena, pequena demais para se impor ao sr. Andrew. Ele era grande, maior do que o sr. Ian, e quando gritava... — Lettie meneou a cabeça e expressou pesar. — Era um som que espero nunca mais ouvir.

— Ela o temia?

— Todos o temíamos, se quer a verdade. Eu teria ido embora, se não tivesse me criado aqui. Acontece que esta era a minha casa e ele não gritava comigo. Sabia que me perderia se o fizesse.

— Mesmo assim, tinha medo dele?

— Um homem daquele? Uma pequena falta e ele era capaz de torcer seu pescoço. Ficava fora do caminho dele. E dancei um pouco no dia em que morreu.

Baixei a voz:

— Ele era cruel com Ian?

— Basta uma vez ou duas para você aprender, se deixarem. Ele batia no menino, mas não tanto quanto batia na sra. Cláudia. Não havia nada que ela pudesse aprender que o detivesse.

A cozinha estava abafada, mas de repente enregelei-me.

— Ele batia nela?

Lettie me encarou. Havia compreensão em seus olhos-

— Meu homem me bateu uma vez e o expulsei de casa.

322


Seth?

Não. Juntei-me com Seth depois. Ele não bate em mulher.

Cláudia... a sra. Sebastian morreu antes do marido?

- Morreu. Se quer saber, ela não tinha motivo para viver.

Tentei visualizar meu marido na infância, acuado em seu terrível drama familiar. O que aprendera? Pior, do que não conseguia se esquecer?

— Vai querer o frango inteiro ou em pedaços?

Nem sei o que respondi. Perdera todo o apetite.

Naquela noite, comecei a sentir dores intermitentes nas costas e na barriga distendida. Ian concluiu que o bebê ia nascer e me mandou para a cama, enquanto telefonava para o médico.

Foram dois dias em um calor miserável, com o trabalho de parto cessando por horas, só para recomeçar com renovada intensidade. Ian e o dr. Carnes confabulavam em voz baixa. Chamaram uma enfermeira, que veio para me assistir e deixar o mais confortável possível.

Tinha certeza de que estava morrendo; então, fiquei certa de que precisava morrer. Os cálidos sentimentos maternais crescentes durante a gravidez me fugiam a cada dor aumentada. O calor não dava trégua, a umidade era pegajosa como mel. Quando conseguia dormir, sonhava estar presa no inferno, com o diabo montado em minha barriga.

Ian mantinha-se por perto. Banhava-me o rosto com água fresca, prometendo que tudo logo se acabaria.

Na terceira manhã, justamente quando o médico comunicava a Ian que teria de intervir, as dores recomeçaram ainda lancinantes. Uma hora depois, nossa filha nascia. Ian não estava presente, claro. O médico e a enfermeira ampararam a criança enquanto eu cerrava os dentes e a Paria com as poucas forças que me restavam. O bebê minúsculo chegava ao mundo, e tentei sangrar até morrer em saudação.

Lembro-me pouco do dia seguinte. Contaram-me que só a habilidade do dr. Carnes me mantivera viva. Mais tarde, mostraram-me minha filha, uma criança chorosa de

323


rosto vermelho com erupções e tufos de cabelos castanho-escuros.

Depois, recomendaram-me que cuidasse bem daquele patético e enrugado fiapo de humanidade, pois as complicações do parto dificultariam, se não impossibilitariam, que eu completasse uma nova gestação.

Chorei durante horas, e então enxuguei as lágrimas. Desejara uma filha, e tinha uma. Bem no fundo, preocupara-me com a lógica de ter mais filhos, mas agora não tinha mais com que me preocupar. Suportara o inferno para parir aquela criança, e nunca mais teria de reviver a experiência.

Outro dia se passou antes que eu visse Ian. Não lhe perguntei como recebera a notícia de que nascera uma menina, nem como se comportara durante minha quase morte. Em especial, não lhe indaguei como reagira ao saber que sua esposa, a única égua reprodutora em seu estábulo humano, provavelmente não voltaria a procriar.

Eu segurava o bebê quando Ian finalmente foi me ver. Haviam me dado banho e prendido os cabelos com uma fita azul. A criança dava sinais de que, no devido tempo, iria se tornar apresentável.

Ergui o olhar calada e esperei meu marido se manifestar. A enfermeira estava no quarto, o médico permanecia no corredor. Senti-me grata pela presença de ambos.

— Está melhor? — indagou Ian, polido.

Fiz que sim. A enfermeira aproximou-se, tirou o bebê de meus braços e o levou para o pai. Quis me desencostar dos travesseiros e tomar minha filha de volta, mas aguardei, mal ousando respirar.

Ian não pegou a criança, apenas a olhou.

— Ela não é muito apresentável, é?

— Ainda não — concordou a enfermeira. — Quase nenhum bebê é bonito logo ao nascer. Mas tem uma bela mãe e um pai formoso. Será uma linda criança.

— Pode me deixar a sós com minha esposa por um minuto.

— Só por um minuto. A sra. Sebastian precisa descansar. - Ian sorriu gélido, e a mulher, entendendo o recado, retirou-se de cabeça baixa levando o bebê.

— Já escolheu o nome? — indagou ele.

324

Era a última coisa que eu esperava ouvir dele. Previra acusações. Não fora uma esposa obediente.



Gosto de Alice — revelei. — Talvez Ann, em homenagem a Annie? Annabelle é muito comprido, e Annie não ia querer isso.

Ian parecia já ter perdido o interesse no assunto.

— Como queira.

— Que tal Alice Ann?

— Escolha bem, pois parece que será sua única chance. Meus olhos se encheram de lágrimas.

— O médico pode estar enganado, Ian.

— Isso veremos.

— Sei que queria um menino. Ele dispensou a lamúria.

— É costume, em momentos como este, dar-se uma jóia. — Tirou do bolso do paletó uma caixa de veludo estreita e a estendeu a mim.

Confusa, abri-a e contive a respiração.

— Ian... — Era uma fieira de pérolas perfeitas.

— Esse colar foi de minha mãe. Achei que era sua vez de guardá-lo, para dar a... Alice. — Pronunciara o nome com desgosto.

Ergui as pérolas e pensei na mulher que primeiro as usara, a mulher que não conseguira agradar ao marido.

— Foi seu pai quem deu a ela? — Ergui o olhar, ainda balançando as pérolas diante do rosto.

— Foi presente de casamento dos pais dela, se não me engano.

Não sei o que teria feito se o colar tivesse sido presente do pai de Ian. Mas Cláudia Sebastian o ganhara no dia do casamento, talvez o último dia feliz de sua vida, embora se tratasse de algo que eu jamais saberia. Era um símbolo de esperança, esperança que escapara a Cláudia e talvez a mim também.

Mas ainda não à pequena Alice.

— É lindo, obrigada. — Tentei sorrir. — Fico imaginando o que teria ganho se tivesse conseguido gerar um menino.

— Minha gratidão eterna.

Ele me deu o mesmo sorriso gélido que dedicara à enfermeira

325

e deixou o quarto. Não o vi mais até o final da minha convalescença.



Mal o sol raiara no dia seguinte, Christian postou-se junto à cerca em roupas de caça informais, enquanto Samantha exercitava uma potranca. O exemplar ruão era bonito como um quadro e ligeiro como uma gazela. Alguém sem a menor veia poética a batizara de Mack’s Girl Cousin.

Samantha freou a montaria, que já suava em bicas. Outro treinador de Peter também usava a pista. Depois que se resfriaram, Samantha conduziu a potranca de volta ao portão para não atrapalhar o outro. Christian a seguiu.

— Parece boa.

— Peter está esperançoso com esta aqui.

— As duas ficam perfeitas juntas. Combinam até na cor, pelagem e cabelos vermelhos.

— Se Peter decidir colocá-la para caçar, verei se consigo ser eu a montadora. Estou pesada demais para ser jóquei.

— Podia parar de comer outra vez.

— Podia, mas não vou. Gosto de me sentir gente.

— Tiffany já voltou às aulas?

— Completamente. Eu a deixo na vizinha de manhã cedo, e de lá ela toma o ônibus para a escola. — Samantha desmontou, tomou as rédeas e rumou ao estábulo, onde tiraria a sela da potranca e a escovaria. — Aposto como não caiu da cama para me falar de Tiffany.

— Queria lhe falar antes de sair. É que descobri umas coisas ontem.

— Tipo?


— Vou direto ao ponto, Samantha.

— Pode me chamar de Sam. Eu gosto.

— Sam. Estive com Caroline Watson e com outros de sua lista. Mas foi Caroline quem fez a revelação mais interessante. — Christian hesitou. — Não vai gostar de saber.

— Obrigada pelo alerta, mas, se é sobre Joachim, nada mais pode me surpreender.

— Ela afirma que ele vendia drogas para Fidelity. Samantha deixou o queixo cair.

— Sabia disso?

326

- Quando engravidei, percebi que certas coisas não se encaixavam. Joachim não pareceu se perturbar quando lhe contei que íamos ter um filho, embora meus trabalhos diminuíssem, assim que comecei a engordar. Sempre havia dinheiro para pagar as contas, o que era estranho. Joachim tinha gostos extravagantes e, que eu saiba, o pólo nunca enriqueceu ninguém.



- Desconfiou de alguma atividade ilegal?

— Achei que ele tinha alguma namorada rica. Era jovem, estava grávida. Andava deprimida com o fato de o casamento ser tão porcaria. — Ela deu de ombros. — Era melhor não saber o que se passava.

— O que acha agora?

— Bem, é uma surpresa desagradável. Mas pode ser verdade.

— Entendo. — Christian acreditava nela. Samantha estacou à entrada do estábulo.

— Mas, de uma coisa tenho certeza. Joachim jamais teria matado ninguém. Definitivamente, era do tipo ”paz e amor”. Nunca se alterava, não guardava rancor. Talvez por isso não fosse o melhor jogador de pólo do circuito. Não tinha o instinto assassino.

— Mas considere este quadro: farta dele, Fidelity ameaça denunciá-lo como traficante de drogas...

— Nesse caso, ela teria de confessar que comprava drogas dele.

— Joachim seria capaz de contratar alguém para matá-la?

— Karl Zandoff? — Samantha refletiu por um bom tempo. Finalmente, torceu o nariz. — Não sei. Parece impossível. Mas nunca soube das drogas até agora. Se isso for verdade, Pode haver muitos outros fatos que desconheço.

— Só mais uma pergunta. Joachim deixou cartas, documentos, extratos bancários? Qualquer coisa que possa nos dar uma pista?

— Essa é fácil. Encaixotei e guardei em um boxe de aluguel tudo o que havia no apartamento dele. Joachim não tinha família nos Estados Unidos, exceto Tiffany. Quando ele morreu, as autoridades me ordenaram que tomasse providências quanto aos pertences dele. Vendi os móveis e

327

tudo o que não tinha valor sentimental. O resto, profissionais empacotaram, para eu vasculhar algum dia, se quisesse separar o que poderia interessar a Tiffany e descartar o que sobrasse. Mas, até hoje, não tive coragem. Acho que não quero encarar Joachim de novo.



— Ontem, você comentou que poderíamos sair para uma noitada...

— Ah, vou adorar. Nós dois sob as luzes ofuscantes de um depósito.

— Hoje em dia, é meu único tipo de diversão.

Júlia gostava de Yvonne e confiava nela implicitamente. A cada sessão, sentia-se mais à vontade com as perguntas da terapeuta e mais segura quanto a remexer nas próprias lembranças em busca das respostas.

Naquela manhã, Yvonne voltou a sugerir hipnose, e Júlia acabou concordando.

— Desculpe minha reação exacerbada na outra ocasião. Agora estou aceitando melhor a ideia.

— Em que tem pensado?

— Concluí que, se quero mesmo voltar a enxergar, devo fazer tudo o que for necessário.

— É algum progresso, embora tenhamos de trabalhar esse seu entusiasmo.

Júlia sorriu apreensiva.

— Só prometa que não me mandar abrir os braços e cantar feito galo.

— Vamos começar devagar. Estará completamente ciente de tudo ao seu redor. Se não se sentir à vontade com algo que eu perguntar, sairá do transe imediatamente.

— Vou conseguir?

— Garantirei que consiga. Hoje, vamos recordar algum dia muito bom.

Seguindo as instruções da terapeuta, Júlia acomodou-se bem à vontade na poltrona macia, recostando a cabeça no espaldar. Fechou os olhos e, durante os quinze minutos seguintes, realizou uma série de exercícios de relaxamento, retesando e então afrouxando partes diversas do corpo, até se sentir totalmente flácida. Até então, o processo se revelara

328


fácil e nada ameaçador, a voz de Yvonne semelhante a um rio fluindo através de seu ser.

- Vou contar — explicou a terapeuta. — Você faz de conta que está no topo de uma escadaria grandiosa. Não tão alta a ponto de meter medo, mas só com alguns degraus. Nofim, há uma aconchegante sala de estar, com móveis confortáveis e um fogo gostoso na lareira. Seu desejo é chegar e se aninhar diante das chamas, porque seu programa de televisão favorito está para começar. Trata-se da história de sua vida. Mas não precisa se apressar, porque o programa só começa quando você já estiver bem instalada diante da telinha.

Júlia podia visualizar a cena, adicionando detalhes, até se parecer de fato com um lar.

— Pronta para começar a descer? — indagou Yvonne.

— Pronta.

— Desça o primeiro degrau e respire. Continue descendo, respirando profundamente. Não precisa ter pressa. O fogo vai queimar a noite toda, a televisão ainda nem foi ligada. O ambiente é quente e aconchegante, você veste suas roupas mais confortáveis. Sente-se leve como uma pluma, flutuante. A cada inspiração profunda, um degrau rumo à sala.

Júlia perdia a consciência do tempo. Sentia-se relaxar mais profundamente a cada passo. Quando se acomodou diante da lareira, foi como se um cobertor a envolvesse.

— O controle remoto está pertinho de sua mão direita, Júlia. Quando estiver pronta, pegue-o e ligue a televisão. Deixe o controle em seu colo enquanto assiste à história de Sua vida. Se ficar cansada ou enjoada do programa, basta apertar o botão de desligar, que a tela se apagará. Permaneça lá sentada por alguns segundos. Então, abra os olhos e estará de volta ao consultório. E vai se lembrar de tudo o que viu e fez.

— Está bem. — Júlia achava-se tão relaxada que lhe Parecia estranho falar, mas sua voz soava normal.

Enquanto assiste ao programa, por favor, conte-me tudo o que está vendo. Como não posso assistir também, dependo de você. Essa televisão dispõe de muitos canais e muitos programas. Mas você quer recordar um dia feliz de

329

seu passado, um dia em que tudo parecia certo, com inteiro alcance de suas mãos.



- Tanto tempo atrás?

Pode recuar quanto quiser. Quando estiver pronta, ligue a televisão.

Júlia sabia que não estava em uma sala de estar diante de uma televisão, mas o ambiente parecia real. Podia sentir o calor da lareira e a televisão parecia sólida. Pegou o controle remoto e pousou-o no colo. Quando apertou o botão de ligar, viu seu passado se desdobrar.

- Sabe, Júlia, você e Christian são mesmo uns babacas. É só um baseado. Não vão ficar loucos se fumarem. Nem a polícia vai pular de tras dos arbustos e levar vocês presos. Não é, Robby?

Naquela tarde, Robby parecia ter vindo direto de uma quadra de tênis. O conjunto de short e camiseta branca lhe destacava o bronzeado a perfeição. Os quatro amigos descansavam na encosta de uma colina em Ashbourne.

Nunca fui Preso — confirmou Robby.

- Masvai Acabar preso por excesso de velocidade, por isso é bom se conter nas estradas — apoquentou Júlia, dispensando o cigarro de maconha. Sabia que levava a vida em geral com cautela exagerada, mas não achava certo experimentar drogas. Nunca experimentara.

Christian, que nem bebia, também rejeitou o baseado, e Robby passou o cigarro a Fidelity, que tragou profundamente antes de devolvê-lo.

Que raios vocês dois fazem para se divertir? — questionou Fidelity, após exalar a fumaça fétida. — Ah, já sei. Mas não nos aborreçam, a menos que queiram contar todos os detalhes picantes.

Christian riu.

Você não respeita nada, Fidelity?

— Estamos em uma igreja, por acaso?

Enquanto os Amigos se provocavam, Júlia divagava. Fazia uma tarde quente de verão, Perto de anoitecer. Dali a um mês, todos retomariam os estudos, Fidelity em Swarthmore, Robby em Yale, Júlia em William and Mary, e Christian

330


No período noturno da George Mason ali perto, a menos que ainda conseguisse uma bolsa de estudos. Já haviam nadado, e então decidido tomar sol nos campos de Ashbourrne. Não fosse a maconha, que incomodava Júlia, aquele dia fora quase perfeito.

Robby atirou o toco do cigarro na relva luxuriante e se deitou no cobertor. Cada um era a trave de uma roda, cada par de pés apontado para um ponto cardeal. Acima deles, abelhas zuniam e corvos gralhavam. Uma brisa leve erradicava todo o trabalho do sol.

— Isto, sim, é sagrado — opinou Robby.

Júlia surpreendeu-se. Robby não costumava falar dos sentimentos. Tinha poderes mentais espantosos, mas, se experimentava o mundo em outros níveis, raramente o revelava.

— Quer dizer que gosta de estar conosco, Robby, querido? — provocou Fidelity. — Eu jamais teria adivinhado.

— É preciso ser claro com Fidelity — observou Christian.

— Ela não tem um pingo de sutileza em seu corpinho perfeito.

— Isso é um defeito? — questionou ela. — O que você vê é o que você tem...

— Já Júlia tem profundezas ocultas — considerou Robby.

— É mais parecida comigo.

— E como você é? — quis saber Fidelity. — Qual é a chave para Robby Claymore?

— A chave? — Ele refletiu por alguns segundos. — Quero o que todo mundo quer, imagino.

— Que seria...

— Um lugar ao sol.

— Já conseguiu isso. — Fidelity fez um gesto que abrangeu o céu. — Ele está bem em cima de você. — Estreitou o olhar. — Bem, não tão em cima agora. Está descendo rápido... Mas continua lá.

— O que é que você quer, Fidelity? — indagou Christian.

- Tudo. O mais rápido possível.

Para que tanta pressa?

Ah, sei lá. A gente vive em um mundo tão grande e lindo, e quero um bom pedaço dele para mim. É o que quer dizer, Robby?

331


— Ninguém quer tanto quanto você — replicou o amigo. — Seu apetite é assustador.

— Como pode saber? — Fidelity apoiou-se em um cotovelo, arrancou uma folha de azevém e a agitou junto às narinas dele.

Robby afastou o incómodo.

— Tenho olhos e ouvidos.

— E como é o seu apetite? Robby estava amuado.

— O que quer saber exatamente?

Júlia riu. Fidelity estava quase sempre flertando e, para variar, era divertido ver como Robby lidava com ela. Continuaram com as provocações pelo resto da tarde, indolentes e sensuais, como só bons amigos podiam se permitir.

Christian estendeu os braços para o céu.

— Quero mais dias como este. Nunca vou me trancar em um laboratório ou escritório. Meu trabalho será ao ar livre, debaixo do céu mais azul do mundo...

— Suando no calor da Virgínia — completou Robby.

— Suando no calor da Virgínia — concordou Christian.

— Montado nos cavalos mais perfeitos já produzidos, construindo minha vida com Júlia...

— Ei, eu não vou opinar? — protestou ela.

— Construindo minha vida com Júlia, ela minha principal parceira em todas as decisões.

Todos riram.

— Vamos continuar em Ridge’s Race — decretou Júlia.

— Teremos nossa casinha e...

— Ashbourne não serve? — questionou Fidelity. — Não é boa bastante para vocês dois?

— Uma casinha com crianças, cavalos, e vocês dois sempre tão perto quanto estão agora — concluiu Júlia.

— Voltando a Robby — provocou Fidelity. — Terá de conseguir mais do que um lugar ao sol.

— Quero me sentir pertencente a algum lugar. Júlia voltou a se surpreender. Não sabia o que dizer. Naturalmente, Fidelity não tinha essas sutilezas.

— Pertencente? — Voltou a irritar as narinas do amigo com a folha de azevém. — Quer ser mais pertencente do

332

Que já é? É dono de Claymore Park, querido e da Corrida de Ridge's Race. Não existe garota nesta cidade que não baixe a calcinha de babados para você, basta pedir. É bonitão e inteligente o bastante para bater papo com Einstein...



Que já morreu — lembrou Júlia.

Ora, Robby é inteligente o bastante para descobrir um jeito de ressuscitar o homem — afirmou Fidelity. — E, debaixo dessa fachada indiferente, reside um coração apaixonado, acertei?

Robby agarrou-lhe o pulso, e confiscou a folha de azevém e a atirou longe.

— Tem de fazer troça de tudo?

— Não estou fazendo troça. Acho você o máximo.

Júlia sentiu lágrimas nos olhos. Fidelity podia ser egoísta, porém amava Robby, bem como a ela e Christian. Ao mesmo tempo que abria os braços para o mundo exigindo tudo, estava pronta para sufocá-lo com afeto exuberante e verdadeiro.

— Bom, acho que devo agradecer — declarou Robby, por fim.

— Todos o achamos o máximo — afirmou Júlia. — Seu lugar é conosco. Sempre será. Isso nunca vai mudar, Robby. Sei que sempre estaremos juntos.

Acme Storage era um depósito impecavelmente limpo. Não obstante, o boxe alugado por Samantha cheirava a bolor, como se os restos da vida de Joachim apodrecessem dentro das caixas e engradados. A luz forte parecia ricochetear nas fitas adesivas brilhantes. Lá dentro era tão frio que Christian se alegrou por ter levado um agasalho pesado.

— Tem certeza de que quer fazer isso? — questionou Samantha. — Não vai ser nada fácil.

— O conteúdo está bem identificado nas etiquetas. Não Precisamos abrir as caixas com louças e livros. Por exemplo.

Christian olhou ao redor. Havia muito material a vasculhar. mas a empresa empacotadora fora eficiente na classificação. Começou a desempilhar caixas, reunindo as mais promissoras em um canto do boxe.

- Que tal começarmos por estas aqui?

- Vamos levar para casa na minha caminhonete — sugeriu

333

Samantha. — Lá poderemos examinar o material. Tenho um vinho ótimo que Peter me deu quando um dos meus potros chegou em primeiro na Corrida da Primavera de Foxfield.



Perderiam algum tempo, mas fazia sentido. Dentro do boxe, logo se enjoariam do frio e do cheiro de mofo.

— Vamos lá, então.

Uma hora depois, as caixas se espalhavam na minúscula sala de estar de Samantha. Após dispensar a babá, ela colocou Tiffany, morena como o pai, mas sardenta e extrovertida como a mãe, na cama, e foi ajudar Christian.

-- Como vamos fazer?

- Você abre e dá uma olhada dentro. Se houver algo que não quer que eu veja, é só tirar. Caso contrário, vou vasculhar. Se encontrar algo interessante, separo e...

-- Entendido — cortou Samantha. — Mas onde é que entra o vinho?

- No final. Como recompensa.

Ela resmungou, mas foi buscar uma faca, tesouras e um rolo de fita adesiva.

- Promete que leva as caixas de volta e guarda de novo no boxe?

-- Não terá de mover um dedo. Realmente, não sei como lhe agradecer.

Iniciaram o trabalho. A casa de Samantha era aquecida e Dispunha de iluminação suave, com aroma de pêssego. Espantava Christian o fato de ela ser tão feminina. Paredes em tons pastel, mantas floridas, cortinas rendadas. Devia ser o lado irreverente da mulher que trabalhava tanto nos estábulos de Claymore Park. Era encantador. Ela era encantadora.

Empacotadores profissionais não selecionavam. Iam de cômodo em cómodo, guardavam tudo em caixas e as lacravam. Samantha riu ao ver o conteúdo da quinta caixa.

- É o cesto de lixo, com o lixo intacto.

Não lixo de cozinha, espero.

- Não, do escritório. Não há nada aqui que valha a pena examinar.

- Mas gostaria de dar uma olhada, mesmo assim

334

Ele o fez, e deu o braço a torcer.



. Joachim Hernandez, o rei dos recadinhos.

- Sim, ele os escrevia e colava por todo o apartamento.

”Ligar para John”, ”Lavar o carro”, ”Dobrar a roupa lavada”. Ele ajudava com a roupa?

— Não, esses recados eram para mim. Encontraram documentos comprometedores na décima caixa. Bingo! Extratos bancários — verificou Samantha. —

Agora, vou descobrir se ele ganhava o bastante para pagar todas as nossas despesas.

Christian aguardou.

E então?

— Joachim vivia me surpreendendo. Passava meses sumido e, então, quando eu já estava para entrar com um processo judicial, ele aparecia com um cheque e planos de passar duas semanas com Tiffany.

— Espero que ele tenha feito seguro.

— Fez. Foi com a indenização que comprei esta casa. Eu queria que Tiffany tivesse um lugar que pudesse chamar de lar.

— Conseguiu. Gostei muito.

— Acho que vou querer aquele vinho agora. E você? Samantha foi abrir o vinho, enquanto Christian começava a separar os extratos bancários por data. Joachim não era nada organizado, vivera como um rato. Havia extratos desde três anos antes da morte dele, o que lhe parecia perfeito. Acabava de formar as pilhas quando Samantha voltou com o vinho e uma travessa com queijo e biscoitos. Ela pousou a bandeja na mesinha de vime e se sentou de pernas cruzadas no chão ao lado dele.

— Que vamos fazer agora? — provocou ela, recostada no sofá, roçando o joelho no dele.

— Vou analisar os extratos velhos. Você poderia dar uma olhada nos mais recentes.

— O que estamos procurando?

Christian não sabia. Depósitos ou retiradas incomuns, talvez. Não acreditava que teria a sorte de encontrar o canhoto de um cheque nominal a Karl Zandoff, mas fatos

335

estranhos podiam vir à tona. Instruiu Samantha a procurar padrões ou desvios de padrões, e voltaram ao trabalho. Meio cálice de vinho depois, Christian parou um pouco.



— Joachim tinha emprego fixo, Sam? Quero dizer, ele recebia regularmente de algum patrocinador?

— Sabe como são remunerados os jogadores de pólo?

— Não sou do ramo.

— Em resumo, trata-se de um esporte de ricos. Amadores ricos oferecem altas somas a profissionais para que joguem em seus times. No auge da carreira, Joachim chegava a ganhar dez ou vinte mil durante um torneio. Os melhores jogadores faturavam ainda mais.

Christian assobiou.

— Mas Joachim gastava demais também. Tinha seis póneis e pagava toda a despesa de manutenção e transporte deles. Mais os honorários profissionais. Sem falar no custo de confraternizar com os ricos boa-vida.

Christian sabia que ”pónei” era um termo usado tradicionalmente, porém incorreto. Jogadores de pólo montavam em puros-sangues, cuja manutenção era caríssima. Entendia por que Samantha trabalhava tanto na época.

— Sendo assim, é pouco provável que Joachim recebesse contra-cheques regularmente.

— Contra-cheques teriam sido uma bênção.

— Mas, duas vezes por mês, mensalmente, eram feitos depósito de seis mil dólares na conta dele.

— Deixe-me ver.

Christian lhe passou o extrato.

— Aparece nos três últimos.

— Um depósito automático. — Ela parecia intrigada. — Não é nenhuma fortuna, mas bastante regular. Estranho.

— Dê uma olhada nos extratos mais recentes.

Analisaram mais registros. Os depósitos automáticos apareciam em vários, os primeiros efetuados no inverno seguinte à morte de Fidelity, e então ao longo de um anoDepois, cessaram.

— Como descobrir quem fazia os depósitos? — considerou Samantha.

336


- Acho que o banco não lhe informaria, porque você não é a titular da conta.

- Nunca quis ter conta conjunta com ele.

Algum cheque chamou a atenção?

Não, parecem todos normais.

Talvez encontremos faturas de cartão de crédito. — phristian abriu mais uma caixa.

No meio da segunda taça de vinho, Christian parou de beber. Voltaria à prisão antes de tomar gosto por vinho ou qualquer outra bebida. Os prazeres do fino francês cantavam em suas veias. A bela mulher a seu lado era um bónus.

— Faturas de cartões de crédito. Referentes a anos. Ele nunca jogava nada fora?

— Acho que ele tinha fobia a se livrar das coisas. Quando nos divorciamos, insistiu em levar todos os enlatados, por medo de morrer de fome, creio.

— Vou abrir as outras caixas — prontificou-se Samantha. — Avise-me se quiser que eu dê uma olhada nisso aí.

Christian não encontrou nada de interessante nas faturas. Após verificar umas dez, percebeu a visão turva e os números impressos se embaralhando.

— Vou ter de parar um pouco.

— Vista cansada?

Ele fechou os olhos e deixou o vinho agir.

— Cérebro cansado.

— É mesmo muita coisa.

— Ler nunca foi fácil para mim — lembrou Christian.

— Mas você se formou enquanto estava preso, não?

— A não ser quando estou muito esgotado, consigo ler o bastante para qualquer fim. Mas sou disléxico.

— Enxerga as palavras ao contrário?

— Não, meu problema era deficiência de reconhecimento de palavras. A maioria das pessoas aprende uma palavra automaticamente e a reconhece após algumas vezes. Alguns têm de pronunciar a mesma palavra em voz alta várias vezes até computá-la, e nesse ínterim o significado desaparece. Com a ajuda de Robby Claymore, melhorei quando cresci mais um pouco, e consegui entrar no ensino médio.

337

Mas, quando fico cansado, até palavras conhecidas me parecem novas.



— Sabe, Callie tem o mesmo problema. É muito inteligente, mas apresenta dificuldade na leitura. Júlia repassa listas de palavras com ela todas as noites.

Christian reagiu surpreso, embora disfunções de aprendizagem fossem muito mais comuns do que se pensava. Supunha que Callie tinha sorte por ser filha de Júlia, alguém já familiarizada com a dislexia antes que sua própria garotinha manifestasse o problema.

Lembrou-se de um comentário de Callie naquela noite em que fora visitá-la.

— Maisy deu a ela um livro ilustrado para ajudar no treinamento de Clover. Pensei que fosse só por ela ser pequena. Tem sete anos, não?

— Oito. — Samantha arregalou os olhos ao abrir a última caixa. — Achei!

— O quê?


— Agendas. — Ela mergulhou a mão. — Esta é do ano em que Fidelity morreu. — Mostrou um delgado volume de couro. — Ainda não existia palmtop. Joachim anotava tudo.

Ela estendeu a agenda, mas Christian a rejeitou.

— Pode ver para mim, por favor? Comece de dois meses antes da morte de Fidelity.

Samantha sentou-se ao lado dele e acendeu um abajur.

— Março?

— Está ótimo. Podemos recuar mais, se necessário.

— Jogo de pólo. Drinques com amigos. Encontro com M.I.

— Imagina quem seja?

— Conheceram-se em um bar em... Leesburg. — Samantha aproximou a agenda da luz. — Lá, ele podia tomar um drinque sem perigo de se encontrar com gente do mundo do pólo.

— I. Não é uma inicial comum. Iverson? Irving?

— Vamos ver se aparece de novo... — Nos dois dias seguintes, Joachim apenas levou um cavalo ao veterinário e praticou jogadas. — Tem um rabisco na margem.

Virou a agenda e tentou decifrar.

— ”Sem sorte na venda. Informar M.I.” — Baixou o volume

338


ao colo. — Venda de quê? Drogas? Um cavalo? É outra fonte de renda dos jogadores de pólo. Criam e treinam póneis amadores.

Christian pensou.

— M.I. pode ser as iniciais de algum haras, em Middleburg, talvez.

— Duvido. Ao marcar encontro em um bar, teria escrito o nome da pessoa, não do local de trabalho. — Samantha prosseguiu a averiguação, folheando, até deparar com outra anotação estranha. — "Nova tentativa de venda. F. ameaçou."

Será Fidelity? — Christian endireitou-se. — Veja no final da agenda. A maioria tem folhas em branco para anotações. Ele pode ter escrito algo lá.

Samantha marcou onde estava com o dedo e verificou o final.

— Datas de aniversário. O meu esta aqui, mas ele nunca se lembrava de me comprar um presente a tempo. Virou a página.

— Números de telefone. — Correu os olhos pela relação.

— O de Fidelity consta. Alguém com as iniciais M.I.?

— Miles Inchman.

— A mãe dele tinha senso de humor.

Deve ter achado que Miles contrabalançava Inchman. Suponho que seja demais esperar que conste o telefone de Karl Zandoff.

— Não consta.

Retornaram à agenda de compromissos. Houvera vários com Inchman ao longo dos meses. Samantha folheava.

— Outro rabisco na margem, Christian. ”F. diz que vai me entregar. Ha, ha. M.I. vai rir.”

— Tenho um amigo na repartição do xerife. Vou pedir a ele que puxe a ficha de Miles Inchman...

Samantha o impediu de chegar ao telefone.

— Amanhã, está bem? Estou em frangalhos. E isto é só o começo. Pode levar a agenda e mostrar a ele. Mas sabe que as chances são poucas, não? Fidelity, Joachim, Karl

339

Zandoff.•• Até dá para ligar dois, mas três? Está procurando agulha em um palheiro.



Christian recostou a cabeça no sofá.

— Acho que está na hora de eu ir embora e deixar você dormir.

— Fique mais um pouco e relaxe. Ainda não acabamos o vinho.

Samantha tinha o rosto bem-formado bem próximo do dele, a boca carnuda a centímetros de distância. Ela avançou e o beijou, ele a segurou pela nuca.

Quando finalmente se separaram, Christian ofegava.

— Fazia tempo que não beijava, hein? — provocou ela.

— É, perdi a técnica.

— Não, senhor!

Ele a puxou de volta para outro beijo, e desta vez ela foi junto, os seios macios contra seu peito duro, o quadril aninhado junto ao dele. Na prisão, esforçara-se muito para não fantasiar com mulheres. Pensar nelas, sonhar com seus corpos quentes e maleáveis tornaria sua vida já infernal impossível de suportar. Agora, era como se uma brasa adormecida se reavivasse dentro dele. O toque das mãos de Samantha, a maciez de seus lábios, os movimentos incessantes da língua bastavam para levá-lo à loucura.

Ela se afastou, por fim, apenas o bastante para poder fitá-lo nos olhos.

— Diga-me uma coisa, Christian. Ainda está apaixonado por Júlia Warwick? Porque, se estiver, esta não é uma boa idéia.

— Não fazia um mês que eu tinha sido encarcerado quando ela se casou com outro.

— Você foi condenado a prisão perpétua. Não achou que ela fosse esperar, achou?

— Só não esperava que ela fosse se casar com outro cara tão depressa.

— Bom, ela devia pensar em Callie...

O momento passou. O desejo desaparecia tão rápido quanto surgira, mas Christian ainda sentia o cérebro entorpecido.

— Callie?

340


Samantha o fitou e, de repente, arregalou os olhos, como e percebesse algo.

, Bem, está mesmo ficando tarde, e sinto uma certa ambivalência aqui.

Ele lhe agarrou o braço.

Disse há pouco que Callie tem oito anos, mas na hora não desconfiei. Quando ela faz aniversário?

Ela tentou se esquivar.

— Não é para termos esta conversa, Christian.

— Mas vamos ter.

— Não posso contar nada. Ela não é minha filha. Então, ele soube. Teria adivinhado antes, se não estivesse tão concentrado em se readaptar à vida em liberdade.

Teria sabido antes, se Júlia não tivesse escondido o segredo dele, desde o início. Se ela não o tivesse enganado, fazendo-o acreditar que Callie era filha de outro homem.

Fechou os olhos.

— Como um homem pode ser tão burro?

— Christian, eu nunca, jamais pretendi tocar nesse assunto. Se tinha segredos, Júlia os guardou bem guardados. Não sei mais do que você.

Ele abriu os olhos.

— Mas desconfiava, não? Há quanto tempo?

— Quando nos conhecemos e você me contou sua história, achei óbvio. Ela se parece com você. Achei que era por isso que passou a visitá-la, e lhe deu a cadelinha. Desculpe-me.

Samantha estava à beira das lágrimas.

— Ela é loira, enquanto Júlia e Bard têm cabelos castanho-escuros — considerou Christian. — E ambos apresentamos a mesma deficiência de aprendizagem. — Meneou a cabeça, sem tentar confortar a amiga. — E já tem oito anos. Pensei que tivesse sete. Maisy me falou dela em uma carta. Deve ter esperado meses após o nascimento de Callie até mencioná-lo. Não relacionei as datas. Nunca me passou pela cabeça que pudesse ser minha.

— Talvez não seja. Podemos estar... Christian preparou-se para se levantar.

— É melhor ir embora. Ela o segurou pelo braço.

341


— Não faça nada que poderá lamentar depois.

— Sabe o que lamento? Ter perdido a infância da minha filha.

— Júlia deve ter feito o que achou melhor, Chris.

- Pode não ser, mas a gente às vezes demora a perceber, não é verdade?

Ele se levantou.

— Pego as caixas depois, está bem? Samantha juntou-se a ele.

— Esfrie a cabeça. Vá por mim, esfrie a cabeça. Pense antes de procurar Júlia.

Mas Christian já perdera mais tempo do que qualquer homem dispunha. Não admitia perder nem mais uma noite.

342




1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   23


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal