Emilie Richards



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CAPÍTULO XXII
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Na volta da lua-de-mel, fomos recebidos com festa na casa de Annie e seus pais. Ian reassumiu sem dificuldade seu papel de respeitado membro da comunidade, Mestre dos Cães e proprietário da fazenda Rio Fox.

Eu demorava mais a fincar pé. A casa sempre se mantivera em ordem antes da minha chegada e havia poucas mudanças a fazer, agora que eu morava lá. Com exceção de Annie, nenhuma de nossas vizinhas, escassas e distantes, para começar, apresentava uma idade compatível. Ian era quase vinte anos mais velho do que eu, mas não obstante o fazendeiro mais jovem em um raio de quilómetros. Os filhos dos casais vizinhos já haviam se casado e se espalhado aos quatro ventos. Até gostava das viúvas que me visitavam, mas só Annie podia ser mesmo amiga. Certa tarde de setembro, quando passeávamos a cavalo, minha prima me deu notícias más.

— Tenho um segredo. — Paráramos para descansar debaixo de bordos centenários, com a saia do traje de montaria arregaçada até os joelhos. — Não contei nem a mamãe e papai.

— Adoro segredos! — Até então, eu guardara o meu, constrangida em revelar o comportamento de Ian em nossa viagem de lua-de-mel.

Ele se aborrecera demais em Veneza, monumento decaído de uma gente visionária que afundava a cada dia. Aquela

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discussão na suíte do hotel fora a primeira de muitas, e me confortara com a esperança de que meu marido se encontrasse mais feliz e tranqüilo de volta a seus domínios.



— Paul arranjou emprego em uma corretora de valores de Chicago. Vamos nos mudar para lá assim que nos casarmos

Eles se casariam em outubro, e a notícia era mesmo ruim. Eu esperara que Paul e Annie se instalassem perto dos pais dela. A terra por ali ainda era barata e, algum dia, o casal herdaria Sweetwater.

— Mas você detesta a cidade — argumentei. — Onde vai cavalgar?

— Já encontramos uma casa em um bom pedaço de terra não muito longe da área urbana. Poderemos ter alguns cavalos. Serei a fazendeira, enquanto Paul vai à cidade todo dia para ganhar nosso pão com manteiga.

— O que será de seus pais sem você? Annie ficou triste.

— Meu pai está pensando em vender Sweetwater. Há muitos interessados em propriedades abrangidas pela caça à raposa, e ele pode lucrar muito. Já está cansado do trabalho que dá criar cavalos.

— E sua mãe?

— Reclama do isolamento em que vive aqui. Eles têm amigos em Chicago e se adaptariam mais rápido do que eu. Espero que considerem se mudar para lá. Se Paul e eu lhes dermos netos, vão querer estar por perto.

Os Jones eram primos distantes, mas representavam a única família que eu tinha fora de Nova York. A mudança de Annie já seria devastadora para mim, mas, se os pais dela também partissem, eu ficaria completamente só.

— Nem sei o que dizer. — Por isso, não disse. Pela primeira vez, dava-me conta do quanto me era vital a amizade de minha prima.

— Você e Ian irão nos visitar, claro. E nós viremos visitar vocês.

— Sim, vão querer ver os pais de Paul.

Annie não precisava me lembrar de que os Symingt passavam apenas parte do ano na Virgínia. Na melhor das hipóteses, nos encontraríamos esporadicamente.

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Decidi descobrir uma maneira de me firmar naquele lugar e naquela noite, durante o jantar, sugeri a Ian que oferecêssemos o almoço de abertura da temporada de caça em nossa fazenda. Eu sabia que a diretoria já planejava os convites informando a data e local de cada caçada. Logo teriam toda a programação pronta.

—Annie me disse que, tradicionalmente, o mestre oferece um almoço na volta da primeira caçada. Quer que eu tome as providências?

Ele me fitou detidamente, como de hábito. Naqueles momentos, eu não imaginava o que se passava na cabeça dele, e passara a me acautelar. Nunca tinha certeza do que ele diria ao terminar.

— Você é muito jovem, e nunca organizou um evento como esse. O que a faz pensar que conseguiria, Louisa?

— Passei anos estudando para ser uma boa anfitriã. Era a missão de minha mãe.

— E acha que teoria basta?

— Temos uma boa equipe de empregados aqui. Lettie é a melhor cozinheira em um raio de centenas de quilómetros, e me garantiu que produziria uma festa memorável. Sabe, Ian, eu só gostaria de fazer algo que fizesse você se orgulhar de mim.

Ele me analisou mais um pouco.

— Só por isso mesmo?

Comecei a temer que ele lesse cada pensamento meu e me acusasse de novo.

— Quero que as pessoas vejam que sou mais do que uma moça bonitinha que lhe chamou a atenção.

Ele sorriu afetuoso, e relaxei sob o raio de sol inesperado.

— Sente-se só?

— Tenho você. — Retribuí o sorriso. — Mas você tem que administrar a fazenda e cumprir seus deveres com o clube. O almoço é algo que posso fazer para ajudar, ao mesmo tempo que conheço melhor as outras pessoas. A menos que prefira que eu não tente.

— Conseguiria oferecer o almoço e cavalgar no mesmo dia?

— Não vejo como. Preciso estar aqui para garantir que tudo saia perfeito. Mas as pessoas vão entender, não? Perdoarão essa pequena falta?

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Ian refletiu.



— Haverá outras caçadas.

Na verdade, haveria caçadas demais para o meu gosto, mas eu não ousaria estragar o bom humor de meu marido.

— Quer dizer que posso iniciar os preparativos?

— Estou feliz por ter uma esposa que pensa no que é melhor para todos.

O elogio inesperado animou-me exageradamente o espírito. Se conseguisse agradar Ian Sebastian, um mestre tão severo, certamente encontraria meu lugar naquela terra de haras

Passei boa parte do mês seguinte tomando providências. Reuni em minha casa senhoras que haviam oferecido o almoço no passado e lhes pedi conselhos. Todas excelentes amazonas e anfitriãs, ajudaram-me com gosto. Consideran do que os caçadores voltariam ao final da cavalgada, eu deveria providenciar pratos substanciosos, porém simples. Montamos um cardápio que incluía ensopado de galinha Brunswick, típico da Virgínia, presunto com os biscoitos amanteigados de Lettie, tigelas de ambrósia gelada, feijão assado condimentado e, de sobremesa, torta de maçã con noz-pecã. A despeito da Proibição, o bar estaria bem abastecido. Caçadores de raposa tinham muita sede.

A primeira fase da temporada, da caça às raposinhas na qual caçadores principiantes e cães filhotes treinavam já era um sucesso. Em dias de caçada, Ian acordava ao nascer do sol e, na maioria das vezes, eu o acompanhava para aprender o que pudesse. Não queria envergonhar meu marido em minha primeira caçada.

Na intimidade do início da manhã, praticando juntos um esporte que era a vida de Ian, parecíamos nos aproximar. Ele se mostrava dócil e sensível, tanto que comecei a acreditar que os incidentes havidos na Itália decorreram das reações de um homem ativo e cheio de vida quando fora de seu elemento. Era bonito demais, um cavaleiro exímio que encarava todos os desafios, pois nenhum era tão grande que pudesse derrotá-lo. Montado em seu garanhão, era o homem que eu desposara, poderoso, apaixonado, no controle total de seu ambiente.

Meu café da manhã seria o maior sucesso, assim eu determinara.

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Supervisionei o preparo do ponche de rum contrabandeado para os homens, enquanto eles aguardavam a soltura dos cães. De manhãzinha, dois cavalariços haviam carregado para a varanda frontal da casa a mesa de jantar que a família de Ian trouxera da Inglaterra, para que todos pudessem se servir da bebida sem desmontar, como era costume. Assim que eles partissem, começaria de verdade meu trabalho para servir o almoço. Decidira eu mesma arrumar as flores na mesa, arranjos de crisântemos brancos e amarelos colhidos nas bordaduras de que o velho jardineiro Seth cuidava com tanto carinho.

Ian levantou-se bem antes do amanhecer. A caça às raposinhas era época de treinar e exercitar cavalos e cães. Usavam-se trajes quaisquer, em ritmo menos extenuante. Mas, quando fosse mesmo aberta a temporada de caça, exigiam-se roupas e protocolos formais. Quando cheguei ao pé da escada, Ian já estava de calça de couro, mais o tradicional casaco vermelho e botas lustrosas. Os sócios do clube Rio Fox Cont usavam jaqueta de gola verde-escura, nossa cor oficial, e botões de prata com a cabeça da raposa gravada. Alisei as lapelas de Ian e me estiquei para o beijo de bom dia, mas ele não tinha tempo nem paciência para isso.

— Tenho de ver os cavalos — resmungou, retirando-se. Eram os cavalariços que executavam a maior parte do trabalho, mas eu sabia que naquele dia especial os cavalos, tanto os de Ian quanto os dos caçadores e dos batedores, tinham de estar impecáveis, com a crina trançada e o pêlo brilhando. Ian examinaria cada detalhe.

— Vemo-nos quando os outros começarem a chegar. — Eu planejara colocar na mesa roscas, café fumegante, frutas e. claro, o ponche de rum, para o caso de alguém precisar de um reforço antes de partir para a diversão.

Ian fitou-me por um segundo, sério.

— Este é um dia muito importante, Louisa.

— Eu sei, querido. — Eu sabia que a função dele não era fácil. Cabia a Ian garantir que todos tivessem uma boa caçada, mas sem quebrar nenhuma regra de segurança ou Piqueta. — Mas vai dar tudo certo. Você cuidará disso.

— E você.

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— O almoço será perfeito. Eu prometo. Ficará orgulhoso de mim.



Ele saiu sem dizer mais nada, e eu fui à cozinha. Letti era uma cinqüentona magérrima que nascera escrava em Rio Fox, porém ganhara a liberdade antes que pudesse colecionar lembranças do cativeiro. Eu passara muitas tardes ouvindo, fascinada, histórias de sua infância naquela fazenda. Às vezes, só para garantir meu interesse, ela deixava escapar um ou outro comentário sobre Ian, mas nunca quando eu especulava.

Como eu imaginara, Lettie tirava as primeiras roscas do forno.

— Vai comer uma e não aceito recusa — ela já foi avisando. Obedeci, embora meu estômago protestasse. Não comera nada na noite anterior, agitada demais de expectativa pelo almoço.

As roscas de Lettie eram leves e crocantes, e a manteiga, de uma fazenda vizinha, rica como o rei Midas. Engoli o último bocado sem mastigar.

— Seth me prometeu colher as flores bem cedinho. Sendo assim, se não precisa de mim aqui, já vou lá preparar os arranjos.

— Diga a ele que mandei lavar os passeios. — Casada com o jardineiro havia quase quarenta anos, Lettie nunca perdia a oportunidade de lhe dizer o que fazer.

— Mais alguma coisa, Lettie?

— Está com medo, sra. Louisa?

— Bobagem, não?

A cozinheira não concordou.

— O sr. Ian pode ser severo, e você quer agradá-lo. Sei que quer.

— Ele é meu marido.

— A sra. Francês se esforçou tanto que se esgotou. Também me esgotei, cuidando dela.

Fiquei apreensiva.

— Ela costumava voltar para a casa dos pais, não é?

— Não era difícil, pois eles moravam no outro lado da montanha.

— Imagino que Ian ficasse desgostoso. Lettie refletiu a respeito.

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- É melhor você ir. Assim que Mary chegar, vamos fazer os amanteigados. Faça os arranjos de flores mais bonitos que puder.

Esqueci as palavras de Lettie a caminho do galpão de jardinagem. Mais velho do que a esposa e vinte quilos mais pesado, Seth já colhera braçadas de crisântemos brancos e amarelos, rudbeckia e salsa-burra, os quais colocara em jarros de água com folhagens. Em pouco tempo, eu já produzira vários arranjos, um para enfeitar a mesa e os demais para colocar na varanda, onde Lettie serviria o café da manhã. Quando os caçadores partissem em busca da presa, eu voltaria ao galpão para terminar os arranjos para a mesa.

Seth ajudou-me a levar tudo para a casa, e não estávamos nem um pouco adiantados. Os vizinhos já chegavam. Alguns moravam perto, mas muitos tiveram de acordar bem antes de o sol nascer para se porem a caminho. Alguns haviam saído de casa no dia anterior e pernoitado em propriedades próximas a Rio Fox, ou despachado os cavalos na frente, a fim de enfrentar sem maiores transtornos as estradas esburacadas, em seus automóveis importados.

Eu sempre soubera o que esperar, contudo, à medida que a cena se formava, meu coração se inchava mais de comoção. Os homens trajavam casaco de lã vermelho ou preto e calça-culote branca, uns de cartola, outros com o típico boné de veludo. As mulheres usavam uniforme escuro e chapéu-coco ou boné garbosamente fixado sobre os cabelos presos, a saia drapeada acima dos tornozelos. E havia os cavalos, baios a castanhos lustrosos, ariscos como se acabassem de sair do estábulo. Alguns tinham uma fita vermelha amarrada na cauda, indicação de que costumavam escoicear e, portanto, de que todos deveriam tomar cuidado com eles. Cavalariços que acompanhavam os patrões trocavam as mantas coloridas das montarias por selas brancas.

Saudavam-se com gratidão e entusiasmo. Os convidados eram tão variados quanto eu imaginara. Às famílias mais tradicionais e estabelecidas juntavam-se aos recém-chegados. Annie e Paul chegaram com amigos jovens, ex-colegas de escola ou trabalho. O êxodo do norte tivera início havia algumas

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semanas, e os caçadores de raposa abriam a temporada em suas fazendas recém-adquiridas ou ”lotes” arrendados

Eu fora gerada para aquele momento, e tinha de exibir a minha linhagem. Determinei-me a bancar a anfitriã como um puro-sangue se determinava a saltar obstáculos. Conversava, elogiava e me solidarizava, sempre garantindo que as necessidades de nenhum convidado fossem ignoradas. supervisionava a colocação dos pratos de comida e da quantidade de rum no ponche, colhendo os elogios exultante.

Até o instante em que Ian me puxou para o lado, Os olhos cuspindo fogo, as mãos duras em torno do chicote

— Sabe o que fez?

Ele estava tão furioso que era um milagre que falasse baixo.

— Esqueci alguma coisa?

— Pequena idiota! Não sabe de nada mesmo, não é? Escolheu flores nas cores dos clubes de caça Piedmont e Orange County!

Eu podia ser nova na região, mas já sabia que esses clubes eram nossos rivais. E não se tratava de uma rivalidade amigável, considerando que fundos e terras eram limitados.

— Eu não sabia. — Estava mesmo desolada. — Ninguém nunca comentou quais eram as cores deles.

— Piedmont é ouro-velho. Orange County é branco. Tinha de saber! Bem que achei que seria demais para você dar esse almoço. Humilhou-me, Louisa.

— Como pode pensar que fiz de propósito? Foi só um grande equívoco.

— Devia ter perguntado.

— Como, se o problema nem me passou pela cabeça? Ian olhou-me como se eu tivesse duas cabeças. Mas ergui a única que tinha e estreitei o olhar.

— Só há uma maneira de compensar meu erro. Fingir que não houve erro algum. Ignorá-lo completamente. É tudo o que pode fazer.

— Diga-me, isso vale para o nosso casamento? — A voz dele carregava-se de recriminação. — Devo ignorar o fato de ter desposado uma boneca desmiolada?

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Reprimi as lágrimas.

— Eu só queria agradar você.

— Pois falhou miseravelmente. — Ian apertava o cabo do chicote com tanta força que tinha os dedos brancos.

Enquanto Ian montava em seu garanhão para brindar com o ponche de rum, pensei em Francês e nas reminiscências de Lettie na cozinha pela manhã.

Engoli em seco e fui acompanhar a despedida cerimonial. Annie, na companhia de Paul, os pais e os sogros, interceptou-me. Montava uma égua castanha chamada Lulabelle, que ela me emprestara em meus dias descontraídos em Sweetwater. Ela falou alto, como se quisesse que os outros ouvissem.

— Louisa, você é brilhante. Quem mais teria pensado em combinar flores nas cores dos clubes vizinhos com o verde do nosso Rio Fox? Foi um grande tributo à camaradagem entre os clubes de caça à raposa da Virgínia. Exatamente o lembrete de que todos precisávamos na primeira caçada da temporada.

— É bom darmos o exemplo, não? — repliquei, em voz alta também, de queixo bem erguido.

Alguém aplaudiu com entusiasmo; então, o momento passou. Annie, diplomata nata, fizera o possível. Imaginei se ela ouvira parte de minha discussão com Ian ou, ciente de críticas contra mim, engendrara tal solução. Qualquer que tivesse sido o motivo, senti-me profundamente grata.

O brinde foi descontraído, na presença dos quinze pares de cães trazidos pelo organizador da caçada, e todos os cavaleiros procederam aos preparativos finais. O corneteiro tocou as notas de abertura. Em uma nuvem de pó em meio a caudas de eqüinos, o Rio Fox Hunt partiu para encontrar a raposa.

Permaneci imóvel até o último cavaleiro desaparecer de vista. Sabia que Ian pretendia soltar os cachorros na margem oeste do rio Fox, em um vale conhecido simplesmente como ”A Bacia”. Ele avistara as cobiçadas presas na área durante a caça às raposinhas, e era natural que começassem por lá. Esperava que tivessem sucesso, mas também que demorassem bastante, dando-me tempo para me certificar de que nada mais sairia errado.

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Por um momento, o senso de injustiça incendiou-me. Não era dever do marido proteger a esposa? Ampará-la nas dificuldades? Confortá-la quando cometia um erro? Nosso casamento seria sempre assim? Ele estaria sempre à espreita, pronto para me atacar assim que cometesse algum deslize?



— Espero que a pobre raposa permaneça em sua toca — murmurei. Então, fui pedir a Seth que colhesse mais flores de cores diversas para acrescentar aos arranjos.

Conforme eu esperara, o pessoal começou a retornar por volta da uma hora. O campo, composto por todos os cavaleiros com exceção do Mestre dos Cães e sua equipe, contava com os melhores e mais hábeis caçadores e também com os novatos no esporte ou aqueles velhos ou desajeitados demais para ganhar o prémio. Havia também os que seguiam a pé. Todos tinham sido convidados para o almoço junto com os proprietários que abriam suas terras à caça

Os cavaleiros começavam a chegar de acordo com o nível de habilidade, os melhores só por volta das quatro horas. Annie e Paul chegaram e se desculparam em nome dos Jones, que haviam ido direto para Sweetwater. O sr. Jone machucara uma perna após saltar um obstáculo, e a sra. Jones insistira em levá-lo para casa. Nesse ínterim, eu já alimentara dezenas de pessoas. Algumas permaneciam e outras já se retiravam após um breve descanso e camarádagem. Ouvi narrativas da caçada à raposa que haviam empreendido, uma grande raposa vermelha, prémio muito mais valioso do que as raposas cinzentas nativas. A raposa vermelha era muito admirada por sua astúcia e capacidad de se manter adiante dos cães.

Algum tempo depois, o corneteiro tocou outro sinal e os cachorros começaram a chegar ”de língua para fora. Já não estava tão zangada com Ian, pois nada ouvira além de elogios a seu desempenho naquele dia. Tinha certeza de que ele se arrependeria, depois que o campo todo se retirasse e ele descansasse bem.

Não esperava o que me aguardava.

Ouvi os cães adentrando o pátio e os cascos dos cavalos logo atrás. Acabei de instalar uma vizinha idosa em uma cadeira mais confortável e, ao me voltar, vi Ian montado

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em Equator, o mesmo garanhão negro que usava no dia em que nos conhecemos.



Ergui a mão em saudação, até que ele desmontou e a levei ao peito, horrorizada. Ian foi a meu encontro com a cabeça ensangüentada de uma grande raposa vermelha na mão direita. Erguendo o troféu, falou alto para todos ouvirem:

- Para minha esposa e graciosa anfitriã, que não pôde Comparecer à primeira caçada em consideração a todos nós. Trouxemos-lhe a presa, Louisa, com nossa gratidão.

Fitei o que restava de um animal esperto e afável e então o rosto do homem com quem me casara. A satisfação nos olhos de Ian foi a última coisa que notei antes de cair desmaiada.

Como os cães do Mosby pertenciam ao clube, os membros esperavam poder participar dos cuidados com eles e levá-los a passear duas vezes por semana. Antes da temporada de caça, geralmente se fazia isso a pé, por quilómetros em meio a campos e ao longo de estradas vicinais. O organizador de caçadas e os funcionários do canil sempre acompanhavam, atentos aos cães e ajudando os sócios a identificar e conhecer pessoalmente cada animal.

Na primeira manhã em que exercitou os cães com membros do clube, Christian preparou-se para encrencas. Sabia que a decisão de Peter de torná-lo organizador de caçadas fora impopular. Peter o inteirara dos boatos em circulação e do protesto organizado por Bard Warwick. Mas Peter continuava firme, e Christian até então não sentira nada além de uma civilidade meio seca.

Contudo, sabia-se que o primeiro grande evento do outono era o furta-passo do caçador, quando Christian deveria enfrentar problemas de fato, se fossem acontecer. Ele não temia o que os outros pudessem dizer ou fazer, porém não ansiava pela experiência. Supunha já haver usufruído sua cota de proscrição.

O furta-passo do caçador era um evento que servia para arrecadar fundos e ”quebrar o gelo” para a temporada, além de oportunidade para se apresentar o público ao esporte da Caça à raposa. Estabelecia-se um curso semelhante ao que Seria usado durante uma caçada real. Em grupos, estreantes

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percorriam o caminho como se seguissem cães. As equipes saíam a cada três minutos e, no fim do dia, aquelas que chegassem no tempo mais próximo do ideal estabelecido pelos juizes eram declaradas vencedoras.

Na tarde anterior ao furta-passo do caçador, Christian e Peter determinaram o curso, que passava por Claymore Park, Southerland e uma ponta de Millcreek.

— Maisy Fletcher tinha que fechar Ashbourne — résmungou Peter, enquanto determinavam desvios complicados para evitar os limites da propriedade. — Harry Ashbourne deve estar se revirando no túmulo.

Christian sempre considerara Maisy corajosa por enfrentar os vizinhos. Achava que compreendia sua aversão ao esporte. Pessoalmente, simpatizava com as raposas. Sabia como era ter todos os cães do inferno correndo atrás dele. Como organizador de caçadas, pretendia assegurar que nenhuma raposa morresse em seu turno.

Depois de mapear o curso, ele e Peter mediram a distância com uma trena e apuraram que o trecho tinha pouquíssimo mais de dezesseis quilómetros. Determinaram velocidades de treze quilómetros por hora para os caçadores e de dez quilómetros por hora para os hilltoppers, crianças e principiantes. Nesse esquema, haveria tempo para pausas, como as que ocorriam em uma caçada real, enquanto os cães checavam ou tentavam recuperar a pista da raposa. Naqueles pontos, voluntários ofereceriam refrescos aos cavaleiros, que deveriam guardar os copinhos para provar que percorreram todo o trajeto.

Passaram o resto da tarde e início da noite com preparativos, quando Peter saiu para uma reunião na cidade. Christian perguntou a Rosalita se alguém de Ashbourne telefonara para falar de Clover, mas não havia nenhum recado.

Passara duas noites exaustivas pensando na conversa com Júlia e em sua reação extrema ao tocar no rosto dele molhado de lágrimas. Estava celibatário havia quase nove anos. Fazia sentido que o contato com uma mulher, com qualquer parte de uma mulher, lhe provocasse convulsões de desejo. Mas tocar Júlia fora como voltar para casa.

Não tinha certeza de que a perdoara. Perdão era um conceito

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remanescente de uma vida diferente. Pessoas que nunca haviam perdido nada podiam perdoar facilmente. Ele precisava determinar se entendia, se conseguia se colocar



no lugar dela e acreditar que, sob as mesmas circunstâncias, teria duvidado, também. E, nas primeiras horas daquela manhã, ao despertar suando frio sem lembranças do que sonhara, soube que entendia. Podia esquecer o episódio, enfim.

Mas seria mais difícil esquecer Júlia. Soube disso quando a governanta informou que ninguém de Ashbourne telefonara. O casarão parecia insuportavelmente vazio, e ele só esperava que a moradia do administrador ora em reforma ficasse pronta ainda neste século.

Já devorara metade de suas enchiladas de frango quando Rosalita espiou da porta da cozinha. Era uma texana extremamente competente sem um pingo de sangue espanhol. O pai lhe dera esse nome em homenagem a uma bela senhorita por quem se apaixonara na juventude. Embora já murcha e de cabelos brancos, Rosalita tinha o vigor de uma criança de dez anos.

— Você tem visitas.

Christian imaginou se estava para ser linchado.

— Quem?


— Nossas vizinhas de Ashbourne, Maisy Fletcher, a filha e a neta.

— Júlia está aqui? — Ele gostou de saber que Júlia finalmente se aventurava fora de Ashbourne. Também agradava a perspectiva de revê-la.

— Resolveram esperar lá fora. Faz uma bela noite.

— Você poderia...

— Vá lá. Eu guardo o resto das enchiladas para você.

— Você é um anjo!

- Ah, eu sei!

Christian saiu pela porta da frente, mas não viu ninguém. da varanda, localizou Maisy e Callie admirando um jardim com laguinho instalado na primavera.

- Estamos aqui! — chamou Maisy.

Só então ele viu Júlia na lateral, ereta, magra e cega. Foi até ela primeiro.

- Júlia?

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— Oi, Christian. — O rosto dela se iluminou. — Que bom que está em casa.

Ela era casada. Tinha uma filha. Mas de repente ele se sentia como um garoto também.

— É mesmo — concordou, rabugento. — Devem ter tomado alguma decisão.

— Adoraríamos adotar a cadelinha. Tem certeza de que Peter concorda?

— Certeza absoluta.

— Aceitarão pagamento por ela?

— Seria impossível estabelecer um preço. Acho que ficaríamos devendo. Considere um presente.

— Sendo assim, obrigada.

— Callie já sabe?

Júlia demorou alguns segundos para responder.

— Achei que seria melhor você contar a ela. Para que fiquem amigos.

Como se adivinhasse que falavam dela, Callie se levantou e correu ao encontro dos dois.

— Christian! Tem peixes lá! Grandes como as trutas de Jake!

— As trutas de Jake eram do tamanho de carpas ornamentais? — questionou Christian.

— Não ficaram muito maiores, depois que Jake as limpou — explicou Júlia.

Callie estacou diante dele.

— Posso ver Ranger? Posso ver a cadelinha? Mamãe vinha cavalgar aqui quando era pequena. Posso vir também, qualquer dia?

— Sua mãe não era tão pequena — recordou Christian, embaraçando os cabelos da menina, até se lembrar de que se tratava da filha de Bard Warwick, o homem que o proibira de se aproximar de sua família. Baixou a mão, contendo o entusiasmo. — Vamos esperar você crescer mais um pouco e veremos.

Callie ficou triste.

— Tiffany monta aqui, às vezes.

— Vamos pensar no assunto, está bem?

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- As pessoas sempre dizem isso e nunca pensam. Gosto de poder fazer as pessoas pensar.

Chrristian sorriu. Lembrava-se de Júlia criança, nada parecida com a filha. Ela sempre fora quieta, sensível, pensativa. Callie, que fisicamente não lembrava a mãe em nada, tampouco, era como uma rajada de ar fresco em uma sala lotada. Estranhamente, ela lhe lembrava Fidelity.

Mas eu vou pensar — prometeu. — Seriamente. Além disso, sei de algo melhor do que montar. Adivinhe o que é.

— O quê?


Uma visita aos cães de caça no canil. Vamos lá?

— Clover está lá?

— Vai vê-la na primeira parada. — Ele desconfiava de que seria também a última parada.

— Eu já vim aqui. Sei onde fica o canil!

Maisy, anormalmente calada, agarrou a mão da neta antes que saísse em disparada.

— Vamos juntas. Deixe Christian ajudar sua mãe.

— Mamãe, não pode enxergar só agora? — lamuriou-se a menina. — Assim, chegaríamos logo lá.

Christian temeu que Júlia se magoasse, mas ela riu.

— De sua boca para os ouvidos de Deus, querida.

— O que isso quer dizer?

Maisy prendeu a mão da neta debaixo do braço.

— Eu lhe digo. Vamos.

Christian pegou a mão de Júlia e a colocou em seu braço.

— Podemos ir assim? Está bom para você?

— Está.

Começaram a andar, e Christian surpreendeu-se com o passo confiante de Júlia. Atento aos obstáculos, buracos no caminho, raízes de árvore ou pedras soltas, ele só se manifestou ao comentário:



— Ela gosta de você.

Christian sabia que ela se referia a Callie.

— Também gosto dela. Ela me lembra alguém, mas só Descobri quem há poucos minutos.

— Quem? — Júlia reteve o fôlego, e ele diminuiu a marcha.

— Fidelity.

— É mesmo?

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— Tem a mesma energia, a mesma franqueza charmosa E parece que vai ficar tão bonita quanto ela.



— Espero que ela tenha todas as qualidades de Fidelitv e nenhum dos defeitos.

— Até as melhores pessoas ficam perdidas quando ninguém lhes aponta o certo. Você saberá dizer ”não” a Callie, tenho certeza. Ela vai aprender a estabelecer limites.

— Não preciso. O pai lhe diz ”não” o tempo todo. — Júlia fez pausa. — Desculpe-me. Não é da sua conta, não é mesmo?

— Bard colocou Callie em minha conta quando me mandou ficar longe dela. E de você também, aliás.

— Não ligue para as ameaças de Bard, Christian. Sabe um casal de amigos me telefonou hoje para saber se vou participar do furta-passo do caçador amanhã e também se eu estava de acordo com meu marido.

— Em quê?

— Ele entrou com uma petição. Quer que o conselho vete sua nomeação como organizador de caçadas.

Christian estava surpreso por ser a esposa de Bard a inteirá-lo do fato.

— Eu sabia que teria aborrecimentos amanhã. Estou preparado.

— O que vai fazer se Bard conseguir?

— Vou treinar cavalos. Mas Peter é o problema. A disputa é importante para ele. Vai renunciar como mestre e ordenar a transferência do canil. Talvez até feche Claymore Park.

— A atitude de Bard tem pouco a ver com você e tudo a ver comigo. Lamento. — Júlia hesitou. — Parece que ando me lamentando demais, não é?

— É, mas os motivos variam. Caminharam mais um trecho em silêncio.

— Sabe por que escolhi o nome Callie? — A pergunta era retórica, e não aguardou resposta. — Aliás, é diminutivo de Callinda.

— É um nome diferente.

— Quando éramos pequenas, Fidelity me disse que daria o nome de Callinda a sua filha, se tivesse uma. Não sei de onde o tirou. Mas estava irredutível. Tinha toda a vida planejada. Primeiro, iria às Olimpíadas e conquistaria uma

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medalha de ouro. Depois, já formada na faculdade, iria morar no Kentucky e trabalhar para alguma promotora de eventos, cuidando da publicidade de corridas e coisas assim. Até conhecer um bilionário.



Nunca pensou pequeno, nossa Fidelity.

Teriam uma filha, só uma, porque ela não queria deformar o corpo, que se chamaria Callinda Júlia.

— Quer dizer que o nome do meio de Callie é Júlia?

— Não. É Fidelity.

Ele não deveria estar surpreso, mas a revelação o comoveu, pôs a mão sobre a dela e a apertou contra o braço. Durou só um segundo, mas sabia que Júlia recebera a mensagem.

— Mas não conseguia chamá-la de Callinda. Achava... sei lá, meio insolente. Parecia pesado demais para ela, por isso, ficou sendo Callie.

Christian reparou que Júlia falara só na primeira pessoa do singular, jamais incluindo Bard, mas não ligava a mínima para a opinião dele, de qualquer forma.

— Fidelity teria gostado.

— Talvez ela esteja olhando por Callie. Seria típico dela, não? Nunca entendeu o significado da palavra ”não”. Por que a morte a impediria de fazer o que quisesse?

— Acredita mesmo nisso?

— Já acreditei. Senti tanto a falta dela... e a sua. Christian não se encheria de esperanças por conta do comentário.

— Robby deve ter sofrido muito, também. Passaram algum tempo juntos? Antes de ele morrer?

— Robby se fechou totalmente. Depois que você foi para a prisão, mergulhou em livros e pesquisas. Tentei manter contato, mas era doloroso para ambos. Ele bebia demais, creio. Sei que ele estava embriagado quando bateu o carro na árvore. Robby não era do tipo que pedia ajuda.

— Estamos quase chegando. Tem um portão, mas está aberto. Vou passar. Dê-me sua mão, para eu guiar você.

Júlia obedeceu e transpôs a barreira sem dificuldade. Callie e Maisy aguardavam no pátio.

— Podemos entrar todos, ou vocês esperam aqui e eu trago Clover para brincar — sugeriu Christian.

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- É melhor esperarmos aqui — optou Maisy.- Você e Calie podem entrar.



Christian abriu a porta e a menina invadiu o recinto. Foram saudados por uma dúzia de corpinhos agitados, excitados ante aquela quebra de rotina.

— Quantos cachorrinhos! — Calie tinha os olhos arrregalados. Algumas crianças teriam se assustado, mas não ela. Era óbvio que adorava animais. Atirou-se no meio dos filhotes, acariciando e ralhando, deixando que lhe lambessem o rosto. — Clover, onde está você?

Christian já localizara a cadelinha, mas não disse nada. Para sua surpresa, Clover juntou-se ao bolo, contorcendo-se como se soubesse que fora chamada. Devia ser a primeira vez na vida que obedecia a uma ordem.

-— Clover! — Naquele mar de cãezinhos tricolores, Calie a reconheceu. Agarrou-a e erguèu-a bem alto, tarefa nada fácil, considerando que o filhote, como todos os cães de caça, alcançaria um bom tamanho. — É você! Quer brincar comigo lá fora?

Os outros filhotes exigiam atenção, mas Calie só tinha olhos para aquele. Clover lambeu-lhe o rosto.

— Òh, ela gosta de mim!

—- Acho que ela gosta de você o bastante para ir morar na sua casa. O que acha disso? Calie fitou Christian.

— Posso levar Clover para casa?

.-- Ela é sua. O sr. Claymore a deu de presente. Sua mãe e sua avó já disseram que você pode ficar com ela.

— Posso ficar com ela? Para sempre?

- Para todo o sempre.

Calie correu de encontro a ele com o filhote pendurado em um braço. Abraçando-o nos quadris, apertou com força.

- Foi você, não foi? Não foi o sr. Claymore. Foi você!

Christian alisou-lhe os cabelos. O gelo em torno de seu coração derretia-se mais rápido do que podia limpar a sujeira do canil.

—- Não a leve, mamãe... Prometo que ela não vai morder nada nem fazer xixi no chão...

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A boa notícia: Clover já se instalara na casa. A má notícia: Callie não queria se separar dela à noite.

Maisy já informara que ela e Jake não ficariam aborrecidos se Callie dormisse com a cadelinha.

— Comparado ao que ela vai desejar na cama daqui a alguns anos, Clover não é nada —justificara Maisy, irônica.

Resignada, Júlia arrumou as cobertas sobre Callie e Clover. Ambas lhe deram um beijo de boa-noite. Saiu do quarto sorrindo.

Mas o sorriso não durou muito tempo. Encontrou a mãe na cozinha.

- Ela parece feliz, não? Extasiada, eu diria.

— Não vão mesmo se incomodar com Clover aqui, se voltarmos para Millcreek?

— Claro que não. Assim, verei Callie com mais freqüência. Júlia puxou uma cadeira.

— Você me deixou sozinha com Christian em Claymore Park.

— Foi Callie quem me arrastou para o canil.

— Esperava que eu contasse a ele?

— Esperava, sim. Embora não fossem a hora e o lugar mais apropriados.

Júlia tamborilava com os dedos na mesa.

— Maisy, preciso de outro favor. Grande.

— Não vou contar a ele para você, se é no que está pensando.

— Quero participar do furta-passo do caçador amanhã. E vou deixar Callie entrar com Tiffany.

Maisy reagiu preocupada.

— Tem certeza?

— Samantha prometeu ir com elas, e os saltos são opcionais para todos. As crianças têm um curso mais curto a Percorrer. Vão se divertir como nunca.

— Sem dúvida. Mas você quer mesmo ir?

— Quero.

Maisy calou-se. Júlia sabia por quê. Até então, atendera ao desejo de Bard de manter sua ”condição” em segredo, mas agora decidira se expor a todos.

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— Pouco me importa o que os outros pensem. Não me envergonho do que me aconteceu. Estou cega e, pelo que sei, isso não é contagioso.



Maisy não se conformava.

— Vai precisar de ajuda.

— Você me acompanha, para garantir que eu não bata em árvores nem role as ribanceiras?

— Sabe há quanto tempo não participo das atividades do Mosby Hunt?

— Desde que meu pai morreu. Se não quiser ir, pedirei a Karen que trabalhe um dia extra.

— Não. Está na hora de eu aparecer em algum evento. Mas não vou de jeans nem de tweed, estou avisando.

— Por mim, pode ir até de plumas e paetês.

— E Bard?

— Bard está ocupado demais tentando expulsar Christian. Já entrou até com petição para impedir Christian de continuar como organizador de caçadas.

— Criar caso é o maior prazer de um advogado.

— Quero ir amanhã para deixar claro que não estou do lado dele.

— Tem certeza de que deve fazer isso?

— Há nove anos, no banco das testemunhas, deixei os jurados pensarem que eu duvidava do homem que amava. Se eu não ficar do lado de Christian agora, será equivalente. Posso estar cega, mas não incapacitada de lutar pelo que é certo e defender alguém de quem gosto.

— Estou orgulhosa de você. Júlia levantou-se.

— Bem, vou tentar dormir a noite toda. Amanhã será um dia cansativo.

— Quer que eu leia mais um capítulo?

— Claro. Comparada ao abacaxi que Louisa está descascando, minha vida é uma tigela de cerejas. Embora apresente uma misteriosa semelhança com Lombard wick III.

— É só uma história, Júlia.

— Sei. Mas talvez me dê força para enfrentar o dia de amanhã.

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CAPITULO XXIII
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

O, que faz um homem esperar perfeição de uma mulher estando ele mesmo longe da perfeição? Eu tentava ser uma boa esposa, mas meus esforços, que teriam agradado qualquer pessoa razoável, não satisfaziam Ian, e ele fazia questão de que eu soubesse disso. Cônscio das raízes profundas de minha futilidade, de meu fraco discernimento, ele teria escolhido outra mulher para desposar. No entanto, como nosso casamento tinha de continuar, eu aprenderia as coisas de que precisava. Ele garantiria isso.

Ele se abrandou, claro. Dias depois, graciosamente desculpou meus erros, reconhecendo que eu era jovem, afinal, e não se podia esperar que já soubesse de tudo. Talvez até ele tivesse algo a ver com minhas falhas. Se tivesse me supervisionado mais atentamente, eu teria me mostrado mais à altura.

Vi-me dividida ante essa nova concessão a minha pouca idade. Após experimentar as nuvens negras da fúria de meu marido, enchi-me de tal forma de gratidão que tentei esquecer a injustiça evidente. Em momentos estranhos, po-

, deixava-me assaltar pela raiva.

A raiva diminuiu quando Ian e eu assumimos novos papéis. Ele me instruiu longamente sobre cada aspecto de ser boa esposa, e eu, ansiosa para evitar brigas, empenhei-me em aprender todas as lições. Após várias caçadas,

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durante as quais me mantive na retaguarda, montada em Jubilee, um baio gentil que Annie e seus pais me haviam dado como presente de casamento, Ian concluiu que eu precisava de um puro-sangue mais fogoso e aulas de equitação mais avançadas. Objetei-me, mas, quando ficou claro que Ian não desistiria sem outra cena, concordei em montar em Crossfire, de quatro anos.



Sempre tivera medo de Crossfire. Belo capão branco puro-sangue era maior e tinha as pernas mais longas do que qualquer cavalo que eu já montara, quase dezessete palmos. Seu pai era Cuban Sunset, o renomado cavalo de caça que gerara também o garanhão de Ian, Equator. Ian quisera Crossfire para si, mas o animal se revelara previsível demais para lhe manter o interesse. Equator, um cavalo só para os cavaleiros mais corajosos, correspondia mais a seu gosto.

Descobri que Crossfire era previsivelmente desafiador, um cavalo com vontade própria e disposição para defendê-la. Ele sabia que eu tinha a metade do tamanho de Ian e só uma fração de sua força. Também sentia meu medo e explorava cada inconsistência minha.

De início, Ian parecia em seu elemento ao me instruir. Demonstrava paciência surpreendente, irritando-se apenas com minhas apreensões à medida que se aproximava a reunião de Ação de Graças. Tratava-se de um encontro especial no clube Rio Fox, seguido de festa na sede. Seria uma das maiores caçadas da temporada, e Ian decidira que eu debutaria em Crossfire nessa ocasião. Em parte, ele insistia nisso porque queria uma entrada triunfal a meu lado, ele, moreno em um garanhão negro, eu, loira em um capão branco. Eu sabia que Ian queria fixar uma nova imagem na mente do grupo. A estonteante Louisa em sua poderosa montaria. Talvez, então, eu finalmente me tornasse a esposa que ele merecia.

Eu saía com Crossfire diariamente, saltando e levando os tombos esperados. Contudo, perseverava, até que o sonho de meu marido tornou-se meu.

Esse é o problema dos sonhos. Raramente são da própria pessoa. Infiltram-se de uma alma para outra e, se

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ambas partilham a cama e as horas entre o crepúsculo e aurora, seus sonhos tornam-se um. Ou, ao menos, o sonho do mais forte torna-se o sonho do mais fraco. Ian era o mais forte,naturalmente. Mais velho, fisicamente superior, confiante em saber sempre mais. Acreditei quando me disse que podia domiinar Crossfire, e de fato melhorei. O puro-sangue nem sempre me levava a sério, mas realmente me ouvia quando lhe convinha. Em troca, acostumei-me ao modo como seu corpo. se retesava quando nos aproximávamos de um obstáculo,, com sua velocidade alucinante ao atravessar um campo, com seu desejo inflexível de ser o primeiro.

O Dia de Ação de Graças chegou, e acordamos antes do nascer do sol para ir à sede do clube, onde o encontro começaria e terminaria. Os cães seriam levados pelo organizador de caçadas mais os empregados do estábulo, e Ian e eu tínhamos aquela última hora para repassar tudo o que ele me ensinara.

— Vamos soltar os cachorros perto do Costão do Soldado — informou ele. — É certo espantarmos uma ou duas raposas na primeira hora. O dia está quase perfeito.

Eu sabia o que um dia perfeito requeria. Clima claro e fresco. Considerando que o cheiro de uma raposa pairava próximo ao chão e se erguia à medida que o solo se esquentava, quanto mais quente o clima, mais cedo começava a caçada. O final de novembro fora nítido e frio, entretanto, e aquele dia não seria exceção. Uma geada fina ainda se aderia à terra, garantindo que o odor não flutuasse acima da cabeça das raposas.

— As cercas estão em ordem. John Higby construiu uma nova, de modo que teremos uma a mais para saltar. Já fiz isso, e nenhum dos cavaleiros deverá ter dificuldade. Muito menos você com Crossfire.

Eu queria sentir a mesma confiança, mas já estava cansada de conter o puro-sangue em um passo razoável. Ele Sentia a excitação do dia e parecia pronto para viver a sua a Qualquer momento.

Vou me esforçar ao máximo — prometi. — Mas, se

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Crossfire e eu não conseguirmos saltar, terei de ficar atrás, com os hilltoppers. Você vai entender?

— Entenderei que você desistiu, algo que não espero de você, Louisa. Casei-me com você por sua iniciativa.

Não sei o que me deu na hora, mas não deixaria o comentário passar em branco.

— Verdade? Porque, às vezes, querido, tenho a impressão de que está tentando extraí-la de mim, gota a gota.

Mal as palavras saíram de minha boca, soube que arruinara o dia. Ian não recebia bem críticas. Esperei que explodisse, mas até que ele reagiu com brandura.

— Talvez tenha essa impressão às vezes, mas só quero que se saia o melhor possível. Não é essa minha tarefa de marido?

Eu já o desafiara o bastante e conhecia suas limitações.

— Desculpe-me. É claro que só está tentando me ajudar.

— Desconfio de que não pense assim, em absoluto.

— Só estou nervosa com o dia de hoje, Ian. Acho difícil controlar Crossfire...

— Bem, talvez alguma garotinha gentil apareça com um pónei bem mansinho para você montar.

Ele incitou Equator a um trote, depois a um meio-galope, e logo Crossfire e eu comíamos poeira.

Considerei uma espécie de vitória impedir que Crossfire seguisse Equator. Quando chegamos à sede do clube, já estava exausta devido ao esforço de mantê-lo sob controle. Ele queria disparar, e a visão dos cães o fazia levantar as orelhas em expectativa.

Saudaram-me cordialmente. Annie e Paul estavam em lua-de-mel, após a cerimónia de casamento em uma igreja local. Os Jones andavam tristes com a mudança do jovem casal para longe, mas já se conformavam. Falava-se que talvez se transferissem para Chicago também, e eu, cada vez que ouvia esses comentários, sentia-me mais só.

A sede do clube fora decorada com abóboras e espigas de milho. Lá dentro, o aroma de peru assado começava a saturar o ar. Conversei com algumas senhoras enquanto aguardávamos a chegada dos demais. A sra. Jones juntou-se

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a nós e, depois que lhe indagamos notícias de Annie, pasçamos a fazer comentários sobre nossas montarias.

— Aquele seu capão parece arisco — observou a sra. Jones. — Meio grande para uma mulher pequena, não acha?

- Ian quer porque quer que eu monte nele. — Sorri, ela devia ter enxergado a verdade.

- Louisa, querida, se não se sente bem com o cavalo, talvez não deva levá-lo em uma caçada...

— Ian ficaria muito decepcionado se eu desistisse. Outra mulher, a sra. Rutherford, de uma fazenda próxima a Middleburg, opinou:

— Ele é muito severo, não é mesmo? Ideal para o cargo de Mestre dos Cães... — Não completou a sentença, mas era evidente: ”Mas não necessariamente ideal para marido”.

As outras mulheres foram ver suas montarias, mas a sra. Jones me segurou.

— Está se entendendo com Ian, não?

Eu sempre a considerara frívola demais para enxergar algo um palmo diante do nariz.

— Ian é difícil, às vezes — admiti, grata por poder desabafar.

— Casei-me com o sr. Jones pensando que fôssemos morar na cidade. Eu adorava ir ao teatro e senti muita falta das noitadas quando nos mudamos para Sweetwater. Agora, parece que vamos passar a velhice em uma metrópole.

Ela queria dizer que superaríamos as diferenças com o tempo. Como eu mesma me dizia isso havia meses, o chavão foi quase um alívio.

— Sentirei sua falta, se se mudarem mesmo — declarei. São a única família que tenho na Virgínia.

Ela me deu tapinhas na mão.

— Às vezes, é melhor não ter a quem recorrer. Deve descobrir seu jeito de lidar com Ian, sem interferências.

Novamente ao ar livre, montei em Crossfire com a ajuda do cavalariço de Rio Fox. Logo percebi que estava encrencada. O puro-sangue agitava-se de expectativa. Ele participara da caçada às raposinhas, mas aparentemente não se satisfizera. Sabia o que estava porvir e planejava se colocar na dianteira.

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Havia mais participantes do que o normal. Reuniram-se em torno de Ian, que explicou seu plano. Ele nos alertou quanto a alguns pontos do percurso: um milharal recém lavrado, que devíamos evitar, uma parte da floresta em que se recolhiam toras, um trecho do rio Fox que subira demais com o excesso de chuva, devido a um dique de castores que seria mais difícil de transpor do que de hábito.



Ele me ignorava, e eu sabia que estava zangado. O organizador de caçadas tocou várias notas na corneta e partiu da sede do clube com seus vinte ou mais pares de cães. Os batedores, que raramente açoitavam os cachorros, iam pelas laterais, para impedir que alguns se desgarrassem da matilha.

Ian seguiu atrás do grupo e nós o acompanhamos, conforme se esperava dos competidores. Não havia nada mais reprovável do que ultrapassar o mestre, quase tão mau quanto apressá-lo.

Eu não morria de amores pela caça à raposa, principalmente depois que Ian me presenteara com aquela cabeça ensanguentada. Ainda não superara o choque, e seguir na retaguarda era minha maneira de evitar testemunhar a morte de mais animais. Mas era evidente que, para o sucesso de meu casamento, eu deveria demonstrar mais espírito esportivo. Portanto, jurei me esforçar, deixar Ian orgulhoso, apreciar a caçada tanto quanto ele.

Alcançamos a estrada rústica sob o Costão do Soldado após uma cavalgada quase perfeita através do prado e da floresta. Dali a pouco, deveríamos nos calar, para não atrapalhar os cães. Mas, por enquanto, os cavaleiros batiam papo, atualizando as fofocas.

Quando os participantes se reuniram outra vez, o organizador da caçada soltou os cães emitindo notas destacadas pela corneta. Minutos a fio, aguardamos em silêncio que os animais captassem o odor. Então, a cadela-líder saiu em disparada, seguida da matilha latindo vigorosamente.

Não houve nada de mais no início da caçada. Lutando com Crossfire, consegui contê-lo ao vencermos o primeiro obstáculo. Considerando que era estreito o ponto de ultrapassagem, tivemos de esperar nossa vez e exultei por conseguir segurar o puro-sangue antes de surgir nossa oportunidade

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de saltar. Voamos por sobre a cerca como se nosso destino fosse o céu.



Com a confiança crescente, concentrei-me em guardar uma distância segura de Ian. Estávamos perto demais da frente para meu conforto, mas jurei não recuar. Queria que Ian visse que eu tentava agradá-lo. Se me saísse razoavelmente bem, ele me perdoaria.

Os cães seguiam entusiasmados a pista de cheiro forte. Cavalgamos por quase uma hora, parando duas vezes para deixar os animais recapturarem a pista. Ao partirmos após a segunda pausa, percebi que meus braços doíam de tanto conter Crossfire, e como estava exausta. Nesse instante, um casal idoso ultrapassou-me feliz da vida e me envergonhei.

Lancei-me avante com a esperança de que o puro-sangue se cansasse também. Mas foi tolice. Meu cavalo ainda só se aquecia, e a batalha para mantê-lo firme entre os participantes prosseguia. Ultrapassamos mais dois obstáculos, atravessamos a floresta e cruzamos o rio Fox em um ponto raso, longe do dique de castores. Os cães corriam bem à frente, e muitos participantes rastejavam atrás de mim agora. O mestre de campo, cuja tarefa era nos manter juntos, vinha por último, ajudando os retardatários a encontrar o caminho através do rio.

O que aconteceu em seguida perdurará em minha memória para sempre. Os cães silenciaram-se, e eu só sabia qual rumo seguir graças a lampejos escarlate através da floresta. Coloquei Crossfire na direção certa e diminuímos a marcha. Afrouxei as mãos nas rédeas para conservar as forças. Foi quando uma esguia raposa vermelha com cauda grossa feito galho de árvore passou correndo à nossa frente. Os cães começaram a persegui-la imediatamente, e Crossfire disparou atrás, antes que eu conseguisse segurá-lo.

Tentei conter o puro-sangue, sem sucesso. Para Crossfire, eu devia incomodar tanto quanto uma formiga, e ele esticava as pernas longas como se disputasse uma corrida. Ian vinha atrás de mim e o organizador da caçada, em seguida. Ian pedia para que eu segurasse a montaria, mas equivalia a pedir que ficasse de mãos sobre a sela. Crossfire continuava em sua louca disparada.

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Ian conseguiu se aproximar bastante de minha retaguarda, mas o som dos cascos de Equator instigava Crossfire a correr ainda mais.

— Segure esse cavalo, maldição!

Eu puxava as rédeas, esquecida de tudo o que aprendera mas nada deteria Crossfire. Ian só conseguiu nos ultrapassar graças à força superior de Equator. Horrorizada, vi os cães saltando por sobre uma árvore caída a nossa frente na mata fechada, o vão largo o bastante para a passagem de apenas um cavalo. Não se via o outro lado, o que indicava uma depressão, sempre um salto difícil, e eu sabia, apesar do pânico, que não poderíamos ultrapassar o obstáculo juntos.

— Segure o cavalo! — gritou ele, de novo.

— Não consigo!

— Pois devia ser capaz!

Ian via o perigo. Estava no controle da montaria. Eu tinha certeza de que ele frearia Equator no último instante para me deixar saltar na frente, embora fosse uma horrível quebra de protocolo ultrapassar o mestre. Preparei-me para o voo, esforçando-me desesperadamente para adotar a postura correta. Equator emparelhou conosco, e Ian desceu o açoite no lombo de Crossfire.

O resto transcorreu em um borrão. Crossfire tropeçou e capotou no matagal. Lançada violentamente para a frente, aterrissei sobre uns arbustos. Depois, soube que Ian ultrapassara o obstáculo sem dificuldade e prosseguira, deixando-me aos cuidados do mestre de campo, que chegara minutos depois.

— Por sorte, Ian a deteve! — declarou o mestre de campo, um rapaz chamado Calvin, após se certificar de que eu não me machucara. — Seu cavalo estava totalmente fora de controle. Ele é demais para você, Louisa. Deve estar convencida disso agora, depois do que aconteceu. Estou surpreso que Ian tenha permitido. Ele deve ser mesmo muito apaixonado por você.

Eu apresentava muitos arranhões e hematomas, mas nada grave. Profundamente humilhada, tive de andar até a estrada e esperar que me conduzissem o cavalo, ou alguém me desse carona de volta à sede do clube.

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Um fazendeiro passou em uma carroça de feno puxada por duas mulas, e subi no veículo. Como ele ia passar perto da fazenda Rio Fox, preferi completar o trajeto até em casa a pé, em vez de voltar para o clube, dolorida e chateada demais para comemorar a Ação de Graças com os outros. Mas telefonei ao chegar, só para não vasculharem a floresta a minha procura. Então, fiquei esperando Ian.



Ele chegou mais tarde do que eu previra. Nossos empregados já haviam voltado, com Crossfire sob controle. Os cães estavam no canil, tratados dos ferimentos, bem alimentados e repousando da caçada quando meu marido finalmente chegou montado em Equator. Eu passara o resto do dia tentando adivinhar o que ele faria e diria.

Ian não reconheceria que Crossfire era cavalo demais para mim, porque nesse caso teria que admitir que errara. Tampouco eu deveria esperar que ele se desculpasse por ter arriscado minha segurança só para ultrapassar o obstáculo na minha frente. Àquela altura, ele já devia estar acreditando que açoitara Crossfire só para deter a disparada do cavalo atrás dos cães e evitar maiores danos.

Claro, eu pensava de outra forma. Embora me acostumasse cada vez mais a reordenar os fatos em minha cabeça, não poderia alterar aquele último. Lembro-me perfeitamente da fúria no rosto de Ian ao erguer a chibata. Naquele instante, se pudesse bater em mim e não no cavalo, ele o teria feito com gosto.

Ian encontrou-me no andar de cima, em minha suíte. Era cedo demais para dormir, mas eu já vestira a camisola. A despeito do banho quente e do chá de camomila de Lettie, sentia-me exausta e dolorida. Só queria ler um pouco e mergulhar no sono. Ian jamais pediria desculpas, mas talvez, pela manhã, aceitasse as minhas. Em meu coração rebelde, eu sabia que não lhe devia nada, mas, em minha cabeça, sabia que essa era a única maneira de voltar às boas graças de meu marido.

— Então, conseguiu chegar em casa. — Ele entrou no quarto e fechou a porta.

Eu esperara evitar o confronto até o dia seguinte, certa

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de que ele dormiria no quarto dele, como costumava fazer sempre que chegava tarde. Pousei meu romance no colo



— Telefonei ao chegar. Recebeu meu recado?

— Foi-me transmitido diante de três ou quatro diretores do clube. Minha esposa chegou em casa na carroça de feno de um fazendeiro. Fui alvo de piadas o resto do dia.

— Lamento. Eu pedi que lhe falassem em particular.

— Fui repreendido por deixar você ser tão cabeça-dura Louisa. Por permitir que montasse em Crossfire hoje quando é evidente que não tem experiência suficiente.

Eu não demonstraria raiva, embora por dentro fervesse.

— Lamento isso também. Deve ter sido difícil explicar.

— Difícil? — Até então, ele permanecera junto à porta. Achegou-se à cama. — Sou o mestre. Se não me respeitarem, o que acontecerá? Por quanto tempo mais me aceitarão no clube?

— Você é o melhor mestre da Virgínia, Ian. Claro que vão...

— Se não consigo controlar minha mulher, como vou controlar a caçada? — Antes que eu me desse conta, ele puxou a colcha que me cobria. — Pode me dizer?

A apreensão, que se integrara a meus dias sutilmente, transformou-se em algo mais ameaçador.

— Ian, esforcei-me ao máximo. Mas Crossfire é demais para mim. Todos tinham razão. Gostaria que não fosse assim...

Ele me puxou pelos braços e me fez ficar de pé, suas mãos como tiras de aço me machucando.

— O que a fez pensar que poderia montar nele? Apesar de todo o pavor, reagi estupefata.

— Mas eu lhe disse milhares de vezes... Ele me esbofeteou. Com força.

— Você me disse? Você me disse? Resmungou um pouco, nada mais. Se tivesse sido franca...

Eu estava sem fôlego. Jamais levara um bofetão na vida. Nem de meus pais, nem dos professores, nem de meus irmãos enquanto brincávamos. Meu rosto virara para o lado ao impacto do golpe.

— Ian, pare!

— Parar o quê? Que eu continue a permitir que você me

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faça de palhaço? Com prazer! — Ele bateu de novo, virando meu rosto na direção oposta.



Lutei, tentando me desvencilhar. Ele me golpeou mais duas vezes, um soco no pescoço, outro na clavícula, com tanta força que perdi o fôlego. Então, ele me empurrou de volta à cama.

Você é uma desgraça! É uma ameaça nas caçadas!

Em choque, toquei no meu rosto em chamas. Ainda sentia o impacto da palma das mãos dele.

— Pare de me olhar assim! Isso não foi nada, nada, perto do que você merece! — Ian pareceu considerar se devia continuar me castigando.

Encolhi-me contra os travesseiros.

— Amanhã, você vai montar naquele cavalo e praticar o controle sobre ele. Vai fazer isso todos os dias, está entendendo? É uma boneca inútil, Louisa, mas vai praticar até alcançar os padrões que estabeleci para você. Não sairá de Rio Fox, não irá a parte alguma, não fará nada, não verá ninguém, enquanto eu não ficar satisfeito.

Na verdade, ele queria me manter prisioneira até que as marcas do espancamento desaparecessem.

— O que tem a dizer? — indagou ele.

— Des-desculpe-me... — consegui tartamudear, embora as palavras se entalassem em minha garganta.

Ele considerou se aceitava ou não o pedido. Parte dele, uma besta odiosa e furiosa, queria me bater de novo, até me ver desmaiada.

Mas uma outra parte, um homem melhor, de certa forma, pareceu recuperar o controle. Ele meneou a cabeça, girou nos calcanhares e saiu do quarto.

Uma vez que o furta-passo do caçador era aberto ao público e só para diversão, nessa ocasião os sócios do Mosby Hunt não precisavam vestir suas roupas tradicionais. Hoje não importava a cor dos casacos e camisas. Todos poderiam Se apresentar como quisessem, menos os que tinham função a cumprir.

Christian deu o nó e ajustou a gravata, prendendo-a com alfinete mais liso que conseguira encontrar. Por sorte,

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encontrara roupas que lhe servissem, sem ter de fazer encomenda especial. Entre Middleburg e Warrenton, compusera-se como organizador de caçadas, às custas de Peter. Calça-culote amarelo-canário, casaco vermelho, colete branco, camisa e gravata, luvas e cinto trançado, boné de veludo preto. As extravagantes botas feitas sob medida, Peter lhe dera sem cerimónia.

— Eram de Robby. Por favor, se servirem, fique com elas. Ele ia querer.

Serviram.

Após bater as botas mais uma vez, juntou-se a Peter no estábulo. O patrão aprovou sua apresentação.

— Resolvi levar Gorda e Fish na parte da manhã, e os cachorros mais velhos. O pessoal sempre quer vê-los. Vamos enjaulá-los perto do portão. A princípio, você fica estacionado lá, para dar instruções e checar o Coggins.

Havia poucas exigências para participação no furta-passo do caçador, mas uma delas era resultado negativo no teste sangüíneo de Coggins, que detectava anemia infecciosa eqüina.

Christian imaginou se Peter o colocara em local tão visível, em uniforme de organizador de caçadas, para transmitir uma mensagem. Supunha que seria melhor passar pelo dissabor logo no início.

— Vai levar Night Ranger? — indagou o patrão.

— Planejei. Acordei cedo, dei-lhe o banho mais completo que já teve e pintei os cascos. Deu trabalho trançar sua crina e cauda. Ele não gostou nada, nada.

— Fazia tempo que não se distraía com essas tarefas, não é?

— Meus colegas assassinos na prisão irritavam-se quando eu tentava praticar neles.

Peter riu.

— Está se adaptando, não está, filho?

— Na medida do possível, obrigado.

— O que quer que aconteça hoje, vai dar tudo certo. Eu prometo.

— Não ponha em risco sua posição por minha causa. Gostaria de ser o organizador de caçadas, mas não à custa de desentendimentos entre os sócios.

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— Vale a pena. Principalmente se for Bard Warwick me afrontando. Christian recordou comentários de Júlia acerca do marido.



— Não gosta dele, estou certo?

— Nunca gostei.

— Pode me dizer por quê?

— Porque se trata de um homem com uma só paixão. Bard é como um cavalo de corrida campeão gerado para vencer e só vencer. Tudo o que ele faz, tudo o que é visa apenas a esse objetivo.

— Ele já conquistou tudo, não? Tem a fazenda Millcreek, tem Júlia e Callie. É respeitado na comunidade.

— Sim, e está aumentando a fortuna, mas nunca será suficiente. Mal ganha uma corrida, entra em outra. Não sei nem se ele pára no círculo do vencedor. Sai disparado de novo.

— Analogia interessante.

— O nome Warwick é respeitado aqui, embora o pai de Bard não tenha dado o melhor exemplo. Só espero que Bard não faça nada que manche esse nome, em benefício da filha.

Christian cogitou por que Bard e Júlia não tinham mais filhos. Ela era mãe dedicada, sem dúvida, e Bard parecia do tipo que fazia questão de um filho homem para continuar seu nome, por mais arcaico que fosse o raciocínio atualmente.

— Trata-se de membro honrado do clube — reconheceu Peter. — Está nervosinho, sim, mas nunca representou ameaça a ninguém, de fato. Estou pronto para a briga.

Christian concluiu que Peter estava mais do que pronto. Estava ansioso.

— Pois bem, como estou? — Júlia abriu os braços para que a filha a inspecionasse. — Abotoei a camisa direito? Enfiei as fraldas na calça por igual? — Girou-se lentamente. — A calça está manchada ou amassada?

— Você está linda.

Júlia decidiu perguntar à mãe, só para se garantir. Vestira uma calça jeans boa e camisa xadrez azul e verde com Pulôver de cashmere verde-folha amarrado sobre os ombros, prendera os cabelos com fivela de prata. Pequenas cabeças

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de cavalo de prata lhe adornavam os lóbulos, presente de Fidelity no dia em que orgulhosamente adentrara os portões de Southerland para mostrar à amiga que vencera seu medo dos cavalos.



Ouviu Maisy descendo a escada e estacionou junto ao último degrau, repetindo o giro para que a mãe pudesse avaliar sua apresentação.

— Está ótima — aprovou Maisy.

— E Callie?

Maisy deu uma olhada na neta também.

— Uma graça! Callie, a camisa de elefante rosa combina perfeitamente com o short de zebrinha.

— Maisy! — Júlia riu. — Só pode estar brincando.

— Mas estou de calça jeans e camiseta! — protestou a menina.

— E lavou atrás das orelhas — completou a avó. Ela está pronta. Podemos ir.

— O que Maisy está vestindo? — indagou Júlia à filha.

— Roupas de vovó.

— Estou de calça azul-marinho e camisa combinando — descreveu Maisy. — Estou mesmo parecendo uma avó. E, antes que diga qualquer coisa, ontem cortei os cabelos e quase toda a permanente se foi. Estou apresentável.

— Os cabelos de Maisy estão castanhos — informou Callie.

— Maisy, qual é a cor natural de seus cabelos? De verdade?

— Jamais revelarei. — Maisy enganchou o braço no dela. — Pronta?

Júlia endireitou a espinha. O dia seria uma provação, mas estava determinada a suportá-lo.

— Mal posso esperar para passear na picape nova.

A viagem até Claymore Park durava poucos minutos pela estrada. Samantha passara em Ashbourne bem cedo com um trailer para pegar Feather Foot. Ela mais a filha estariam à espera no haras de Peter. Seguindo indicações precisas, estacionaram em um prado atrás da casa. Conforme instruções, Callie saltou e se manteve junto do veículo enquanto Maisy ajudava Júlia a descer.

Alguns clubes de caça promoviam eventos de gala do qual participavam sócios que viajavam milhares de quilômetros

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com cavalos campeões, mas Mosby tinha objetivos diferentes. Peter queria apresentar os moradores locais ao norte. Manter a propriedade aberta para a caça à raposa era sempre uma preocupação, e o furta-passo do caçador servia para agradar à comunidade. Comerciantes vendiam comida e artesanato em uma barraca próxima à porteira. No final do evento, haveria uma corrida de póneis e um desfile de cavaleiros fantasiados, com pseudoprêmios para os piores cavaleiros de cada divisão.



Júlia colocou os óculos de sol, desceu da picape e se segurou no braço da mãe.

- Pode me contar tudo o que vê? Callie pode ajudar. — Júlia sentiu a filha junto ao corpo e a envolveu com o braço.

— Tem uma porção de carros — contou a menina. Júlia imaginou caminhonetes e picapes novas em folha.

— E trailers de cavalos?

— Muitos — confirmou Maisy. — O portão está uns sessenta metros a nossa frente. Christian está lá com outros homens, orientando o tráfego de gente e animais. Veste uniforme de caça.

— Como é que ele está? Mais velho, claro, mas...

— Ele não mudou quase nada, para ser franca. Só está mais duro. Como se tivesse esquecido como é ser jovem.

— E esqueceu. — Júlia ouvia vozes e chilreies. Em algum ponto à esquerda, um cão latia, e também por perto um cavalo relinchava.

— Ele fica bem de casaco grená. Seu pai também ficava. Nem todo homem corresponde. Alguns ficam parecendo bobos.

— Não é grená — opinou Callie. — É vermelho.

— Mas eles chamam de grená — explicou a avó. — Uma das tradições mais bobas do mundo.

— Pois eu gosto dessas tradições — declarou Júlia. — Remetem-nos a uma época mais graciosa. Quando educação e cavalheirismo significavam alguma coisa.

Fala da época em que se encarceravam pessoas em calabouços e o esgoto corria a céu aberto nas ruas?

—- Christian deve saber o que era um calabouço. E não seJa tão arrogante. — Júlia deu tapinhas no braço da mãe.

Flô Sutherland me contou há muito tempo que você era

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uma grande amazona. Foi por isso que não quis mais caçar raposas? Porque as tradições são bobas?

— Não, porque não seria mais capaz de cavalgar sem procurar o mestre em seu grande cavalo cinzento.

Júlia envergonhou-se.

— Desculpe-me. Acho que não entendi. Maisy a confortou.

— Vi Christian outro dia com Night Ranger. Por segundo, só um segundo...

— Ele lhe lembrou meu pai?

— Não se parecem. Nem de longe. Mas ele monta no cavalo do mesmo jeito que Harry montava. Como se fossem uma coisa só.

— Vamos lá! — Callie desvencilhou-se da mãe. — Posso ir na frente?

Como não enxergava, Júlia não podia dar permissão.

— Maisy?


— Callie, já sabe que não deve se aproximar da traseira de nenhum cavalo? — questionou a avó.

— Claro que sei!

— Então, pode ir. Mas tome cuidado. E veja se encontra Samantha. Vamos pagar sua taxa de inscrição.

Venceram o resto do percurso em silêncio.

— Christian vem vindo — avisou Maisy.

— Maisy, Júlia. — Com voz forte, ele falava de curta distância. — Não sabia que viriam.

— Não perderia por nada — retrucou Júlia, de queixo erguido. Estendeu a mão, e ele a apertou por um segundo, soltando-a para cumprimentar Maisy.

— Bom comparecimento? — indagou Maisy.

— Maior do que o esperado.

— Todos querem participar.

— O circuito não é dos melhores. Boa parte fica escondida da vista.

— Não era ao furta-passo que eu me referia. Christian riu.

— Estou feliz que seja nosso novo organizador de caçadas — declarou Júlia, alto para ser ouvida, caso houvesse alguém por perto.

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- Obrigado.

Qualificado você é — concordou Maisy. — E faz excelente figura.

júlia nunca desejou tanto poder vê-lo.

- Mas vamos deixar você fazer seu trabalho — adiantou-se Maisy.

Ficarei de olho em Callie no furta-passo, mesmo sabendo que está segura na companhia de Samantha.

Ela se sente totalmente à vontade em cima de um cavalo, ao contrário de mim nessa idade — recordou Júlia.

- Bem, ela herdou os genes de alguém. Júlia engoliu um repentino nó na garganta.

- Tenha um bom dia.

— Pretendo. Obrigado.

— Ele já foi — sussurrou Maisy, dali a pouco. — Mas você é o centro das atenções. Cuidado, estão se aproximando...

Júlia preparou-se para explicar à horda invisível por que se apoiava no braço da mãe, por que não enxergava mais nada e por que decidira morar em Ashbourne com os pais e Callie até se recuperar.

Bard Warwick, com seu cavalo Moondrop Morning, era o sócio número quarenta e três no furta-passo do Mosby Hunt. De pé à porteira, Christian pediu-lhe o atestado negativo para o teste de Coggins.

— Eu não devia me incomodar em mostrar nada a você, Carver. — De má vontade, Bard lhe estendeu o papel.

Christian analisou o documento e aprovou.

— Obrigado. Se conduzir seu cavalo até aquele estande e preencher um cheque, receberá um pacote de informações e um horário de largada. Caso já esteja inscrito, será um dos primeiros a sair.

Espero que não tenha gasto muito nesse uniforme. Christian o encarou impassível.

— Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?

— Sim, seria ótimo se simplesmente renunciasse ao cargo de organizador de caçadas.

Christian avistou Frank e Flô Sutherland chegando. Nove anos se passaram, mas ainda reconhecia facilmente os pais

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de Fidelity, embora houvessem envelhecido dois anos de cada um desde a tragédia. Se sentira tensão desde que se postara junto à porteira, agora se transformava em uma barra de ferro.

— Outras pessoas querem passar — informou a Bard O outro olhou por sobre o ombro e novamente para Christian.

— Não pensei que fossem vir. Dadas as circunstancias, — Conduziu o cavalo ao estande indicado, mas Christian tinha certeza de que se voltaria, louco para ver o circo pegar fogo.

— Sra. Sutherland. Sr. Sutherland. — Christian não se declarou contente em revê-los. Não era como se sentia. Foram os primeiros a se voltarem contra ele. Nunca os culpara de fato. Seu sofrimento era incomensurável. Por mais que houvessem errado como pais, adoravam a filha, e tinha certeza de que cada dia lhes parecia impossível de enfrentar sem ela.

O casal reagiu atónito ao vê-lo. Marido e mulher tinham a mesma expressão. Horrorizada. Cogitou como Bard perdera a oportunidade de informá-los de que ele estaria ali. Talvez concluísse que valeria mais a pena presenciar o choque dos Sutherland.

— Christian... — murmurou Flô. Fidelity se parecera com a mãe, mas Flô tinha feições mais rudes e era mais alta do que fora a filha.

— Gostaria que não tivéssemos nos encontrado assim — declarou Christian. — Lamento. Pensei que soubessem que eu estaria aqui.

— Não, não... — Flô meneou a cabeça e então ergueu o queixo. — Como você está?

Ele se espantou de tal forma que não conseguiu encontrar as palavras para responder.

— Flô, isto não é hora — ralhou o marido, tomando-lhe o braço.

Mas a mulher desvencilhou-se.

— Quero saber como ele está. É só uma pergunta. Foram nove anos de tortura, Frank. Não posso saber como os enfrentou?

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Frank fitou o chão. Era um moreno atraente de uns sessennta anos. Agora, tinha o rosto afogueado de humilhação.



- Estou bem, sra. Sutherland — assegurou Christian. - E a senhora?

Lamento... — Ela começou a chorar em silêncio, e precisou de todas as forças para emitir as palavras seguintes. — Lamento tanto que um dia tenhamos acreditado que foi você. Nós o conhecíamos. Sabíamos...

Frank abraçou os ombros da esposa. Quando ergueu o rosto, Christian viu em seus olhos a mesma expressão suplicante.

— É isso mesmo, Christian. Não podíamos... Simplesmente... — Desolado, meneou a cabeça.

Christian engoliu em seco. Durante nove anos, imaginou como seria ver as pessoas rastejando a seus pés, implorando perdão. Agora sabia. Era o inferno.

— Acreditaram nas evidências — lembrou, conformado.

— Fidelity o amava como a um irmão — afirmou Flô.

— Eu também a amava. Todos a amavam. Gostaria... de ter podido salvá-la. De ter chegado a tempo.

— Se pudermos fazer algo por você... — Frank estendeu a mão. — Tem nosso apoio para assumir o cargo de organizador de caçadas. Peter escolheu muito bem. Sempre teve os instintos ideais.

— Peter entende de honra — reconheceu Flô, enxugando as lágrimas. — Vai nos dar orgulho, eu sei.

Frank tirou dois certificados do bolso do paletó.

— Vamos participar do furta-passo. Nosso cavalariço já está chegando com as montarias.

Christian examinou os atestados do veterinário, mas pareciam escritos em grego. Devolveu-os e instruiu como preencher à inscrição.

Boa corrida — finalizou.

Foi quando Flô Sutherland tomou a atitude mais surpreendente do dia. Adiantou-se e beijou Christian no rosto.

- Tenha uma boa vida, Christian. Ninguém merece mais do que você.

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— Júlia?


Bard aproximou-se antes que Maisy a alertasse quanto à presença dele. À sombra de uma amoreira, fora do caminho de transeuntes e animais, aguardou, relembrando a história de Maisy. Fazia ideia do que Louisa sentira na caçada de Ação de Graças.

E depois.

— Que surpresa ver você aqui — comentou o marido. Pelo tom de Bard, Júlia concluiu que havia pessoas por perto. Muita gente lhe oferecera ajuda a manhã toda, cavando fofocas, descrevendo em voz sonora e compassada aquilo que ela não podia ver, como se tivesse ficado surda além de cega.

— Callie vai competir com Tiffany, e eu quis estar presente.

— Imagino seu tédio, já que não enxerga nada.

— Maisy vai descrever tudo.

— Oi, Maisy — cumprimentou ele à sogra, por fim, como se só agora a notasse.

— Está elegante, Bard. Vai correr?

— Formei dupla com Sarah McGuffey, da fazenda McGuffey. Nossos cavalos são compatíveis.

Júlia conhecia Sarah, uma divorciada predadora digna de novela mexicana. Não sentia um pingo de ciúme.

— Em que cavalo vai montar?

— Moondrop Morning. Sarah trouxe um baio-escuro.

— Irão se sair bem. Não quer procurar Callie e lhe desejar boa sorte?

— Estou surpreso que tenha concordado com isso.

— Por quê? Ela monta bem, e Samantha estará por perto o tempo todo.

— Por causa do guia. Júlia nem respondeu.

Callie devia tê-los visto juntos, pois chegou exclamando:

— Papai!


— Callie. — Bard a tratava como se fosse adulta. - Soube que vai competir.

— Papai, ganhei uma cadelinha! Ainda é filhote e se chama Clover! Foi Christian quem me deu!

Júlia tentou consertar:

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- Ela não pertencia a Christian, querida. Foi o sr. Claymore quem disse que você poderia ficar com ela. Pertencia ao clube.

Do que é que ela está falando? — questionou Bard, ignorando a criança.

— Um dos filhotes não atendeu às expectativas, e Peter concordou em dá-lo a Callie.

- Adotou um cachorro sem me consultar?

— Adotei.

— A cadelinha correu para Feather Foot, e Feather Foot disparou — contou a menina.

Júlia entendeu o significado da expressão ”de mau a pior”.

— Do que é que ela está falando? — protestou Bard, impaciente.

— Ela mesma lhe contará em detalhes, depois.

— Gostaria que você me explicasse.

— Não foi nada grave. Fomos passear a cavalo, a cadelinha apareceu e espantou Feather Foot.

— Foram passear a cavalo?

Júlia estava surpresa por ele não saber.

— Ramón levou Sandman e nos acompanhou. Bard explodiu.

— Que pensar de uma cega que leva a filha para passear a cavalo?

— Que é uma tonta, creio. Mas confiante.

— Não aconteceu nada, Christian me salvou — tranqüilizou Callie. — Tinha que ver, foi como nos filmes!

— Ele tinha levado a cadelinha para passear — explicou Júlia. — Estávamos perto do limite entre as duas fazendas. Ao ver o pónei disparar, ele saltou sobre a cerca e ajudou Callie a recuperar o controle sobre a montaria. Moondrop Morning também tinha se assustado e Ramón apanhava Para contê-lo.

Bard não disse mais nada.

Boa sorte, papai — desejou a menina. — Já vou indo.

reparou que Bard não retribuiu os votos.

- Já entendi por que não quer voltar para casa — continuou ele, depois que a criança se afastou.

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— Não entendeu nada, Bard. Meus motivos não mudaram. Deixei você antes de Christian sair da prisão.



— Deixou-me?

— Isso mesmo.

— Quer dizer que não vai mesmo voltar?

— Não é hora nem lugar para discutirmos isso.

Maisy lhe tomou o braço.

— Júlia, Flô Sutherland vem vindo e parece perturbada. Júlia cogitou o que mais poderia dar errado. Era evidente que não devia ter comparecido. Devia ter deixado Christian lutar suas batalhas sozinho.

— Júlia.

Alguém lhe tomou as mãos.

— Flô, como vai?

— Eu é que pergunto, como está você?

— Estou bem. Não enxergo nada, mas espero melhorar

— Não que esteja fazendo algo para tanto — implicou Bard.

— Bard — cumprimentou Flô, gélida. Bem mais simpática, voltou-se para a terceira mulher presente. — Maisy, que prazer revê-la em um evento do clube após tantos anos. E está maravilhosa.

— Eu a vi trocar palavras com o novo organizador de caçadas — alfinetou Bard. — Topar com ele na porteira deve ter sido um choque.

— Bard — ralhou Júlia. Ele a ignorou.

— Estou circulando uma petição para destituir Christian do cargo, e espero que Flô e Frank a assinem.

— Lamento decepcioná-lo, mas Christian tem todo o meu apoio, e o de Frank — replicou Flô. — E vamos convencer os que já aderiram a retirar suas assinaturas. Júlia, não está do lado de Bard, está? Só para sabermos.

— Não posso acreditar, Flô! — protestou Bard. — Restam dezenas de perguntas sem respostas. Ele estava junto ao corpo de sua filha...

— Já chega — cortou Maisy, para surpresa de Júlia, Que também já ia se impor. — Remoa suas dúvidas sozinho!

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Flô já sofreu demais, e Christian também. Não precisa trazer de volta todo o pesadelo.

Flô baixou sua voz já suave.

Bard, todos conhecem suas preocupações. E a maioria desconfia da causa.

Júlia afligiu-se.

Flô...

Desculpe-me, Júlia, mas está na hora de os dois perceberem que metade da cidade especula quem é o pai biológico de Callie.



Júlia reteve o fôlego.

— Tenho certeza de que se sente ameaçado, Bard — prosseguia Flô. — É compreensível. Mas não permitirei que use o assassinato de minha filha para se proteger de suas inseguranças. Não vai tornar minha vida mais difícil, nem a de Christian, só por medo de não conseguir manter aquilo que roubou de outro homem!

Bard fumegava.

— Como se atreve...

— Como você se atreve? — desafiou Flô. Júlia ergueu as mãos para detê-los.

— Basta. Já não disseram o bastante? E se Callie ouvir?

— Não há ninguém por perto — tranqüilizou Maisy.

— Júlia, eu faria quase tudo por você — afirmou Flô. — Mas não lincharei um homem inocente pela segunda vez. Nem para preservar a harmonia na vizinhança, nem para preservar um segredo seu.

— Ela já foi — informou Maisy, antes que Júlia pudesse replicar.

— Deixe-nos a sós, Maisy — pediu Bard. — Por favor — acrescentou, após um segundo.

— Júlia?

— Fique por perto, por favor — pediu Júlia. Ouviu a se afastando. Ficou sozinha com o marido.

— Quer dizer que andou contando a verdade por aí?

— Não contei nada a ninguém. Não entende? As pessoas sabem calcular e enxergam muito bem. Callie se parece com Christian. Agora que ele voltou, todos vão reparar ainda mais na semelhança.

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No fim, você se deu bem, não é? Sua filha é legítima graças a mim e agora seu amante volta à cena. Quanto tempo vão demorar para se juntarem de novo? Ou já estão juntos?



Estranhamente, Júlia não se zangou, pois sabia que o marido sofria. Ele a resgatara quando ela imaginara precisar de socorro, embora agora percebesse que se afogava em águas rasas. Bastava ter ficado de pé e saído andando mas era jovem demais, e estava apavorada quanto ao futuro da criança que gerava.

Não queria que Bard sofresse. Estendeu o braço, mas não o encontrou. Ele não moveu um dedo para ajudar. Imaginou se o marido, de certa forma, se regozijava vendo-a às cegas.

Júlia baixou a mão, relutante.

. — O problema entre mim e você não tem nada a ver com Christian. Tentei ser a esposa que você achava que queria, mas nenhum dos dois foi feliz. E temos de pensar em Callie...

— Sim, Callie, sempre Callie. A lembrança viva do homem que você ama.

— É por isso que não consegue ser um bom pai para ela? Porque ela lhe lembra Christian?

Bard não respondeu.

— Para ter Callie, bastava amá-la — resumiu Júlia. — Sei, porque a Jake bastou. Eu não podia ter tido pai melhor.

— É, mas Maisy ainda estava apaixonada por Harry Ashbourne quando se casou com Jake?

- — Quando nos casamos, assumi um compromisso. Queria que nossa união desse certo. Mas você não queria parceria. Você queria me controlar.

- — Tenho de me aprontar para a competição.

— Bard, Yvonne o convidou a participar de uma de minhas sessões. Ela acha que pode nos ajudar a resolver este impasse.

— Impasse? Pois tenho a solução, Júlia. Você volta para Millcreek e me deixa cuidar de você ao meu modo. Vai ficar longe de Claymore Park e de Christian Carver, além de

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Devolver a tal cadelinha que Calie ganhou. Se minha filha quer um cachorro, eu mesmo o escolherei para ela.

estava se defendendo, agora que sua estratégia para expulsar Christian do Mosby Hunt fracassara. Pois, conhecendo a posição dos Sutherland, ninguém mais assinaria a petição. Quando se sentia mais seguro, Bard podia se mostrar mais gentil e sensível do que o homem a sua frente.

Mas a mulher vivia só para esses raros momentos dourados? Pensou em Louisa novamente, Louisa que nutria esperanças semelhantes para sua união com o explosivo Ian Sebastian.

A vida da personagem fictícia correspondia ao lado escuro da vida da própria Júlia.

— Não concordo — declarou, cansada. — Já consigo ficar de pé sozinha, Bard. Se continuar me pressionando, irei embora.

— Se pensa que vou ficar chorando pelos cantos, pode tirar seu cavalinho da chuva.

Júlia ouviu um som de botas se afastando. Mas ela e Bard haviam se separado havia tantos anos já, que a ausência dele agora lhe significava muito pouco.

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