Emilie Richards



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CAPÍTULO XX
De volta ao haras, Christian encontrou Peter no estábulo conversando com uma moça muito bonita, de cabelos curtos loiro-avermelhados e nariz coberto de sardas. Trajava calça jeans e blusa de moletom verde e amarela de Claymore Park.

— Como ela se saiu? — indagou o patrão, ao vê-lo desmontar com a cadelinha no colo.

— Se está falando de Clover, arranjei uma solução. Peter contemplou o filhote.

— Minhas pistolas estão todas prontas para atirar.

— Ela espantou o pónei de Callie Warwick. A moça se afligiu.

— Callie está bem?

Peter lembrou-se de apresentá-los.

— Christian, esta é Samantha Fields, uma de nossas treinadoras. Estava de férias na semana passada.

— Fiz uma bela faxina em minha casa e lavei montanhas de roupa! — Samantha estendeu a mão. — Um ano de trabalho acumulado. Como vai, Christian? Callie é a melhor amiga de minha filha Tiffany.

Christian apertou-lhe a mão. Quase se esquecera da sensação de tocar em uma mulher, ainda que brevemente. Samantha não tinha mão macia, mas, comparada à dele, era Pequena e estreita. Desejos duramente reprimidos ameaçavam aflorar.

Mas o que foi que aconteceu com Callie? — indagou a moça, preocupada.

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— Ela já está bem. Percorria uma trilha em seu pônei com a mãe e um rapaz chamado Ramón.

— Ramón Lopez, do haras de Millcreek — lembrouPeter.

— Pois é, o pónei disparou, graças a Clover. Tive qui ajudar a menina a deter a montaria.

— Júlia ficou muito nervosa? — indagou Samantha.

— Ficou, mas logo se acalmou.

— Que coragem de montar em um cavalo, agora que está cega...

— O quê? — Peter franziu o cenho. — Do que está falando?

— Não soube? — replicou a funcionária.

— Soube que ela caiu do cavalo e foi parar no hospital, mas pensei que já estivesse bem.

Samantha meneou a cabeça, pesarosa.

— É terrível o que está acontecendo, e logo com Júlia, uma das melhores pessoas que conheço e a única adulta que presta em Millcreek.

— Samantha... — advertiu o patrão.

— Ora, é verdade! Aquele marido dela... — Samantha mordeu a língua e olhou para Christian. — Por acaso, ele é seu amigo?

— Deus me livre. — Christian sabia que devia estar babando em cima daquela beldade de pernas longas, mas só fazia sorver cada palavra que se dizia a respeito de Júlia.

— Bard Warwick não merece uma filha como Callie — voltou Samantha à carga. — Não se mostraria satisfeito nem que ela fosse perfeita. Encontraria algo para criticar.

Christian reagiu incrédulo, pois, em seu breve contato com a criança, não vira nada nela que merecesse crítica.

— E Clover? — pressionou Peter.

Antes de responder, Christian indagou a Samantha.

— É verdade que Callie não tem cachorro?

— É. Parece que seu único animal é Feather Foot. O velho Bard não tolera representantes simpáticos de nenhuma espécie em seu haras.

— Callie e Clover se deram muito bem. Acho que podemos fazer uma garotinha muito feliz.

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- Dar Clover a Callie? — Peter franziu mais o cenho.

- E Júlia vai concordar?

- Eu falaria com Maisy. — Christian não pretendia se reaproximar de Júlia.

- Acho que Júlia não vai se opor — opinou Samantha.

Como voltou a morar com os pais, talvez já não leve muito em conta a opinião de Bard Warwick quanto à criação de Callie.

Júlia está morando em Ashbourne? — Peter espantava-se cada vez mais. — Como ninguém me contou isso?

- Você abomina fofocas, a menos que lhe digam quem vai caçar com você e quem não vai — replicou Samantha.

Christian queria resolver logo a questão.

— Vamos dar Clover para Callie?

— Se prometerem esterilizá-la — decidiu o patrão. — Não quero acidentes com minha matilha.

— Tenho certeza de que vão concordar.

— É uma solução piedosa. — Peter despediu-se e foi para casa.

— Já nos conhecíamos — comentou Samantha, assim que ficou a sós com Christian.

— Não posso acreditar que não me lembre de onde.

— Eu era amiga de Fidelity Sutherland.

Como Christian continuava de cenho franzido, ela detalhou:

— Meu ex-marido, pai de Tiffany, foi uma das conquistas de Fidelity, um jogador de pólo chamado Joachim Hernandez. Lembra-se agora?

Ele negou.

— Lamento. Mas o que vinha primeiro, sua amizade com Fidelity ou seu interesse em Joachim?

— Infelizmente, ela o viu depois que nos casamos. Viajei a trabalho, para fazer umas fotos, e ele disse a ela que estávamos separados. Ela nem se incomodou em checar ainformação.

Lamento muito.

Não importa mais. Ambos estão mortos. Joachim foi assassinado durante uma briga de bar, uns dois anos após o divórcio. De certa forma, Fidelity me ajudou. Fez-me ver

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que meu marido era inferior a uma salamandra na escala evolutiva. Levei alguns anos e precisei ter uma filha antes de criar coragem para deixá-lo, mas foi Fidelity quem deu o primeiro empurrão.



De repente, Christian lembrou-se de um argentino esguio e atraente ao lado de uma modelo de longos cabelos avermelhados.

— Espere aí, vocês dois não saíram em uma capa de revista?

— Infelizmente, não, ou estaria rica a esta altura. Mas fiz algumas fotos. Na época em que achava o máximo comer só uma vez por semana.

— Está mais bonita agora.

— Lamento tudo o que aconteceu com você. E com Fidelity. Desejei odiá-la, mas nunca consegui. Ela não era mau-caráter, apenas inconseqüente. Ninguém lhe ensinou que não podia tomar tudo o que quisesse.

— Como terminou aqui?

— Acho que me casei com Joachim porque adorava cavalos.

Christian sorriu, pois entendia.

— Quando me vi solteira outra vez, percebi que preferia cavalgar a sorrir para uma câmera. E tinha de pensar em Tiffany. Não queria continuar fotografando a troco de cada vez menos, deixando minha filha aos cuidados de qualquer um. Há seis anos, consegui emprego aqui, como assistente de gerência. Logo tomei o cargo do chefe e então Peter me colocou como treinadora, após ver do que eu era capaz nas horas vagas.

— Conheceu bem Fidelity ao final de sua vida?

— Tão bem quanto qualquer pessoa, imagino. Partilhávamos Joachim na época.

— Sabe quem é Karl Zandoff?

— Sim, li tudo nos jornais.

— Já o tinha visto antes? Alguma vez o viu perto de Fidelity, ou alguém parecido com ele?

— Faz muito tempo. Ela tratava bem a todos. Fazia parte de seu charme. Mas dava preferência a ricos e famosos.

- Claro. É difícil imaginá-la com um homem como ele.

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- E os outros? Estou tentando montar um quadro. Sou a única pessoa no mundo que tem certeza de que não tenho nada a ver com a morte dela.



Sendo assim, quem melhor para descobrir quem fez isso? — Samantha agachou-se para afagar as orelhas de Clover. — Antes e depois de Joachim, ela deve ter tido uma fila de homens entrando e saindo de sua cama.

Lembra-se de algum nome?

Sugiro que abra a lista telefónica.

Ele parecia chocado.

— Sério, Christian. Fidelity parecia viver como um cavalo de corrida galopando rumo à linha de chegada. Será que pressentia que ia morrer logo? Tentava agarrar tudo antes de partir?

— Tudo o quê?

— Todo o grupo dela usava drogas.

— Você também?

— Não há nada melhor para manter o peso. Mas eu conseguia me controlar e não abusar. Fidelity já estava usando as chamadas ”drogas finas”.

— Pode me citar nomes?

— Farei tudo o que puder por você. — Samantha sorriu de novo, não devassa, mas era um saudável convite à diversão típico dos norte-americanos.

Christian pensou em Júlia Ashbourne Warwick, com seus olhos cegos, feições expressivas e corpo rijo de tensão. Pensou na traição de seu próprio corpo a ela durante o reencontro na trilha. Mal contivera o ímpeto de arrebatá-la e carregá-la para bem longe dali, em seu cavalo.

Ficarei satisfeito com os nomes, por ora — declarou, meio seco.

A moça não se ofendeu.

. Vamos ver... Mas tome cuidado. Essa gente pode ser violenta.

Alguém já foi. E vou descobrir quem.

Fazia tempo que não comíamos peixe fresco. — Maisy beijou o marido no rosto, e ambos acenaram para o companheiro

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de pescaria dele, que se afastava na estrada tocando a buzina da caminhonete.

— Tivemos um dia ótimo — festejou Jake, erguendo a linha com o jantar do dia seguinte. — Como foi o seu?

— Maravilhoso. Claro, já está terminando.

— É mesmo? — O luar fazia brilhar sua careca, uma espécie de halo.

Maisy lamentou que o marido parecesse tão beatífico. Enfrentar um anjo era difícil.

— Vamos brigar.

— Não me diga.

— Vai ser uma briga feia, de foice, de revólver, de...

— Por quê?

— Bom, longe de mim criar caso, mas...

— Maisy, o que se passa? E de quem é aquela picape na entrada de nossa casa?

— Engraçado, você mesmo respondeu.

Jake era paciente. Pacientemente, aguardou a explicação.

— Por que não damos um passeio ao luar e apreciamos a picape juntos? — Ela enganchou o braço no dele.

— Estou todo suado, e fedendo a peixe.

— Acho muito sexy.

— E vamos ter algo mais do que um passeio ao luar esta noite?

— Tem algo em mente?

— Acho que já pesquei minha cota por hoje. Talvez não. Jake pendurou a linha com os peixes na cerca, e rumaram ao celeiro, diante do qual a nova picape estava estacionada.

— Querido, um homem sábio me disse recentemente que não estou comunicando as coisas que são importantes para mim. Ao menos, acho que foi isso que ele quis dizer.

— Pois eu lhe daria ouvidos, se fosse você. Homens sábios não dão sopa por aí.

Maisy apertou o braço.

— Tenho muitas coisas para dizer, mas não sei como nem quando, ou mesmo porquê.

— Está começando bem.

— Sabe, uma delas se revelou a mim ontem.

— Uma das coisas que precisa dizer?

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- Exatamente. Na verdade, uma coisa que eu precisava



E já fez? Ou vai fazer?

Jake estacou a uns seis metros da picape.

Belo automóvel, Maisy. Estava mais do que na hora. Eu já estava remendando os remendos naquele ferro-velho. Não restava uma peça original!

Ela nem se mexia.

Seu velho tratante! Por que não me disse que queria trocar de carro?

Não sou velho, ainda não fiz setenta.

— Passei anos insinuando, sugerindo, implorando que trocássemos a caminhonete.

— Eu sei.

— Então, por que não tomou providência?

— Tomei.


— O quê?

— Esperei você tomar uma atitude. E parece satisfeita. Está satisfeita?

— Se estou!

— Esta picape é boa demais para circular só no condado de Loudoun. Podíamos comprar uma barraca de acampamento e viajar pelo país, subindo montanhas, atravessando rios. Nada pode nos deter agora. À noite, na hora de dormir, vamos contemplar as estrelas. Bem agarradinhos...

Maisy estava tão feliz que queria cantar.

— Tem certeza de que velho é só quem tem mais de setenta?

— Que linda picape, Maisy. Vamos entrar.

— Dentro é muito confortável. Mas já espalhei dois fardos de feno na caçamba e cobri com cobertores velhos. Vai ver. Quando nos deitarmos, vamos olhar as estrelas...

— Só as estrelas?

— Tenho de ler mais um capítulo para Júlia.

— Mas a noite ainda está só começando, não?

— Há quanto tempo não digo que te amo?

— Merecíamos fundo musical agora. — Jake a envolveu num abraço e apertou com força. — Acho que já estou uvindo uns acordes...

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CAPÍTULO XXI
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Nosso navio cortou águas calmas durante uma semana, mas não sou marinheira. Enjoeime terrivelmente a viagem toda, e nada de ganhar as tais pernas de marujo. Ian aborreceu-se com isso, mas até que enfrentou de bom humor, em especial após conhecer outros entusiastas de eqüinos a bordo.

Desembarcamos em Southampton e de lá fomos imediatamente para Londres, onde pernoitamos. Finalmente, partimos para a Itália, de trem. Até então, não percebera como estava cansada nem como o casamento e agora a viagem me haviam exaurido. Ao deixarmos a estação ferroviária, ainda estava sem fala de fadiga, desejando apenas dormir até chegarmos a nosso destino.

Ian, que se mostrara solidário ante meu mal de mar, não entendia tanta exaustão. Insistia para que eu lhe fizesse companhia, em vez de ficar deitada. Casara-se comigo para conversar, não para me admirar enquanto eu dormia, declarou

Fui assaltada pela culpa. Eu negligenciara meu marido, talvez mais do que imaginara. Estávamos em lua-de-mel e era provável que viajássemos muito pouco no futuro.

Sentei-me ao lado dele, lutando para manter os olhos abertos e a conversa animada. Ele bebeu uísque o dia todo, quase meia garrafa, e então, à noite, pediu que nos servissem o jantar. Foram pratos e mais pratos. Ao final da refeição,

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ponderei se ele me obrigara a prová-los todos só para ver se eu obedecia e permanecia acordada.



Que tolice. Estávamos em lua-de-mel, e a comida era excelente.

Recolhemo-nos, finalmente, e Ian me tomou nos braços. Devido a meu enjoo no navio, era a primeira vez que se aproximava de mim desde Nova York. Resisti enquanto ele me despia a camisola, mas ele pareceu nem perceber.

Ian, ainda não me sinto bem — queixei-me.

Vai se sentir melhor quando terminarmos.

Ele estava determinado, e me envergonhei por lhe ter negado meus favores durante a viagem. Trata-se de um homem recém-casado, e eu, a mulher que ele escolhera após anos de solidão. Esperei que ele fosse rápido, para que pudesse dormir, enfim.

Mas, se sabia o que eu esperava, ele não demonstrou. Colheu seu prazer lentamente. Então, quando eu estava quase dormindo, tomou-me outra vez, para garantir. Ele mergulhou no sono em seguida, e fiquei acordada, tensa e infeliz, imaginando se tinha motivos para tanto.

Ele se desculpou na manhã seguinte, ou pelo menos tentou. Claro, eu o interrompi para dizer que fora culpa minha. Eu não devia ter-me enjoado em alto-mar e, se ele perdera a paciência, era mais do que compreensível.

Jurei esquecer o comportamento dele, e ficamos agarradinhos enquanto nosso trem adentrava a Itália, como os recém-casados que éramos.

Um dia longo e quente findava quando chegamos a Veneza, e desembarcamos na estação para eu descobrir que meu conto de fadas recomeçava. Jamais vira lugar tão exótico e bonito quando Veneza, embora fosse julho e o calor desprendesse mau cheiro dos canais coalhados de turistas. Seguimos para nosso hotel em uma gôndola privativa, desconsiderando o barco a vapor em que viajavam outras pessoas. O hotel, verdadeiro palácio de mármore branco, fora muito recomendado a Ian. Ficava no Grande Canal e a poucos metros da praça de São Marcos com sua gloriosa basílica, mais a torre do relógio e suas nuvens de pombos.

Nossos aposentos eram lindíssimos, com vista da água

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a partir das três janelas ora cerradas contra o sol e graciosa mobília antiga, manufaturada durante a ascensão e queda dos doges venezianos ao longo de séculos. Eu estava encantada, mas meu marido, não.



— Esta maldita cidade fede como um esgoto!

— Receio que seja isso mesmo, amor. Lotada de turistas neste calor!

Ele me encarou. Tinha as bochechas vermelhas e a testa molhada de transpiração. Tenho certeza de que não me apresentava melhor.

— Está reclamando, Louisa?

— Explicando. — Sorri. — Sem necessidade. Porque você já sabia disso, não?

Ele não sorriu de volta.

— Fica mais fresco depois que o sol se põe.

— Aí, poderemos abrir as janelas e contemplar o Grande Canal. Ah, este é o lugar mais romântico do mundo!

Assim que entregaram nossos baús, Ian foi tomar um banho frio e fiquei supervisionando as camareiras. Ele parecia mais calmo ao voltar, e o imitei, tomando um demorado banho para me livrar do pó da viagem.

Na banheira, despertei de um quase estupor ao som de vozes zangadas em nossa saleta de estar.

A porta se fechou com um estrondo e, então, silêncio.

Fiquei sem saber o que fazer. Questionar meu marido ou Confortá-lo? Antes que me decidisse, ele invadiu o banheiro

— Você suspendeu meu pedido de refeição?

Eu nem sabia que ele pedira refeição no quarto, e lhe disse isso. A essa altura, ele já se sentava na borda da banheira, os olhos flamejantes.

— Ele disse que a senhora havia feito o pedido. Ele estava tão zangado que senti medo.

— Devem ter confundido seu pedido com o de algum outro hóspede, Ian. Nem me passou pela cabeça pedir serviço de quarto. Pensei que iríamos jantar no restaurante lá embaixo-

— Sou um homem paciente, compreensivo, e pouco exigente. Mas não admito que você ou qualquer outra pessoa faça alterações sem me consultar. Está entendendo?

Agora, era eu que me zangava. Já respondera, mas temia

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discutir com meu marido. Estava nua, ele, totalmente vestido e ainda não me acostumara a ficar despida na frente dele.



Sempre o consultarei — assegurei, seca. — Mas desta vez o que houve foi um engano. Ele se inclinou em minha direção. A honestidade é muito importante para mim. Entende isso?

- Ian, em quem prefere acreditar? No funcionário do hotel ou em sua mulher?

Não sei o que ele teria dito ou feito em seguida, pois bateram na porta e ele foi atender. Saí da banheira afobada, enxuguei-me e vesti um robe de seda.

Ian estava sentado à mesa pequena defronte ao Grande Canal quando entrei no quarto. As cortinas tinham sido abertas, e o céu refulgia com todas as cores do crepúsculo. Eu continuava com calor, mas ao menos agora uma brisa adentrava as janelas.

Ele me olhou.

— Já trouxeram nosso jantar.

— Estou vendo.

— Vamos saborear.

— Espero que tenha comentado que houve confusão de pedidos.

Ian franziu o cenho.

— Venha jantar.

Juntei-me a ele à mesa estreita, mas não peguei o garfo.

— O rapaz disse que houve confusão — informou Ian, Por fim. Era evidente seu desgosto em admitir.

Minha raiva desapareceu.

— É, foi uma viagem longa e cansativa. — Inclinei-me Para a frente e pus a mão sobre a dele. — Mas a noite é mais fresca e igualmente longa.

— Certas coisas me tiram do sério — confessou ele, rabugento.

Todo mundo é assim.

— Não admito ninguém agindo às minhas costas, fazendo mudanças.

Vou me lembrar disso.

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— E não admito que mintam para mim.

— Ian, casou-se com a mulher certa. Não tenho motivos para lhe mentir.

Era verdade.

Ao menos, até aquele momento.

Maisy cantarolava enquanto arrumava a cozinha após o desjejum. Jake já saíra, e Júlia ainda não aparecera. Karen deixaria Callie na escola a caminho das compras no supermercado. Enquanto punha pratos de molho e esfregava balcões, fundia uma melodia romântica à outra sem perder o ritmo.

— Que felicidade!

Maisy voltou-se e viu a filha à porta.

— Faz um lindo dia. Dormiu bem? Júlia não respondeu.

— Acho que não — deduziu a mãe. As olheiras indicavam que Júlia não pregara os olhos.

— Minha cabeça parecia um caldeirão. Sua história, por exemplo, me impressionou. Fiquei analisando para descobrir por quê, e consegui.

Maisy não pressionou.

— Está tentando me dizer alguma coisa, não é? — adivinhou a filha.

Maisy enxaguou e espremeu a esponja antes de responder.

— É meu primeiro romance. Acho que estou tentando lhe dizer que quero ser escritora.

— Já é escritora. Tão boa que me deixou acordada a noite toda.

— É, imagino que deva me alegrar.

— Maisy, sei o que está fazendo.

— Sabe?


— Não é só ficção. Você baseou Ian em alguém. Maisy atacou as manchas na porta da geladeira.

— Dizem que todo personagem se baseia em alguém conhecido, mesmo que o escritor não se dê conta disso.

— Droga, pare de se esquivar! Você se baseou em Bard

— O que a faz pensar assim?

— Não vou responder. As semelhanças são evidentes. -

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Júlia aproximou-se da mesa, sentiu a borda e se sentou. - Louisa se casa com um homem que pode lhe dar uma boa vida. Convence-se de que está apaixonada por ele, mas então conhece um outro lado da personalidade do marido, trata-se de um homem exigente, controlador e dado a ataques quando algo o desagrada.

É a minha história. Mas você é a única que pode dizer se é a sua história também.

Você nunca gostou de Bard. Ainda não gosta de Bard. Nunca vai gostar de Bard.

Maisy baixou a esponja.

— É você quem não suporta Bard ultimamente. Não transfira seus sentimentos para mim, querida. Tenho meus problemas em que pensar.

Júlia voltou o rosto na direção da mãe. Maisy ainda se desconcertava quando a filha errava o alvo. Júlia baixou as pálpebras.

— Sabe, acho que nesta semana pedi mais desculpas do que em toda a minha vida. O que há de errado comigo?

Maisy encheu o bule com água e colocou café solúvel.

— É evidente que sua relação com Bard não vai bem.

— Eu era tão jovem quando me casei com ele. Como Louisa.

— Louisa não estava grávida nem viu o homem que amava ser condenado e trancafiado em uma prisão.

— Quando me casei com Bard, assumi um compromisso que pretendia honrar.

— Pretendia?

— É difícil encarar a verdade, mas aí vai: não tenho a menor vontade de voltar para Millcreek, Maisy. Mesmo que minha visão voltasse com o primeiro gole desse café, eu não faria as malas para voltar para casa.

— Então, já estão separados?

— Gostaria de poder ver seu rosto agora. Está sorrindo?

Não. Seu casamento está desmoronando. Como poderia ficar feliz?

baixou a voz.

- Pois, só de pensar nisso, eu fico feliz. Uma parte de minha

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Vida está devastada, mas a outra reage como se eu abrisse uma janela e deixasse o ar fresco entrar em minha vida.

Maisy não sabia o que dizer.

Júlia esticou os braços à frente.

— Não sei como isto vai terminar, mas não vejo como voltar para um homem que só se satisfaz quando faço exatamente o que ele quer. — Fez pausa. — Um homem como o que você retrata em seu livro.

— Júlia, pode interpretar minha história como quiser. É prerrogativa sua. Mas é só uma história.

— Se insiste...

Maisy ligou a cafeteira.

— Os outros comeram ovos mexidos. O que vai querer?

Christian não pensara nas dificuldades de tentar pegar Maisy sozinha para lhe falar da cadelinha. Seu plano infalível para evitar Júlia, aparentemente tão simples, revelava-se impraticável. Concluiu que seria mais fácil e objetivo simplesmente perguntar a Júlia se sua filha podia adotar Clover.

Iriam se encontrar mais vezes, ao longo dos anos. Era inevitável. Melhor se inocular o veneno desde já, em doses pequenas.

Os cães tiravam uma merecida sesta após a longa caminhada matinal quando finalmente selou Ranger para um passeio. Mas foi desviado por um telefonema de Pinky Stewart.

— Nada relevante ainda — declarou o amigo, em voz baixa e sem cumprimentar, como se temesse ser ouvido. — Mas achei que gostaria de saber que a construtora Davey Myers, de Warrenton, era quem mais empregava operários temporários para trabalhar em Ridge’s Race e Middleburg no início da década de noventa.

Christian agradeceu e Pinky desligou.

— Samantha, quer que eu retire aqueles suprimentos no Horse Country em Warrenton? Vou dar um pulo na cidade.

Ela parou de escovar uma das éguas mais famosas de Claymore Park e sorriu. Apesar das sardas e do corte de cabelo jovial, ainda lhe restava o glamour de modelo.

— Oh, que bom. Eu lhe devo essa.

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- Já aprontaram a encomenda?



Já. São nove caixas.

Então, já vou.

Quer que eu exercite aquele seu cavalo? Ele parece fora de forma.

Não precisa. Eu mesmo faço isso na volta.

Está bem.

Christian foi elaborando perguntas enquanto deixava para trás propriedades e mais propriedades dedicadas ao culto da equitação, cujas receitas quitariam a dívida interna do país. Em Warrenton, na loja especializada Horse Country, retirou a encomenda e pediu instruções para chegar à sede da construtora Davey Myers. O escritório funcionava em um pequeno armazém deteriorado com uma frota de caminhões velhos na entrada. Após se apresentar à recepcionista entediada, aguardou em uma sala atravancada de papéis e armários de arquivo enferrujados. A empresa já ganhara muito dinheiro, mas, a despeito do aquecimento na construção civil nos últimos anos, não seguia próspera agora.

— Em que posso ajudá-lo? — Um homem de uns setenta anos entrou. Tinha feições de buldogue e corpo de palhaço, com pés muito grandes em sapatos brancos lustrosos e calça folgada sobre a barriga protuberante.

— É Davey Myers?

— Já fui. Agora, não passo de um velho tentando se manter em um mundo de jovens. — Myers não falava amargurado.

— Soube que sua empresa contratava muita mão-de-obra nesta região no início da década de noventa.

— É verdade. Então, tive um enfarte e meu contramestre fugiu com metade dos operários e minha terceira mulher. Era bonita, e tinha só quarenta e cinco anos.

Christian assobiou, impressionado.

— Para completar, o governo decidiu conferir minha contabilidade. — Myers o convidou a se sentar.

Christian removeu uma pilha de papéis e a colocou com cuidado no chão. Sentou-se na cadeira e Myers fez o mesmo.

— Mas continua operando.

— Se quer chamar assim. Só faço pagar licenças, seguros

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e impostos. Tenho o governo federal, o Estado da Virgínia e o município de Warrenton em cima de mim. — Myers fé? um gesto vão. — Não vou entrar em detalhes.



— Tenho esperança de que possa me ajudar, Davey.

— Sei quem você é. Ainda enxergo bem o bastante para ler os jornais.

— Nesse caso, talvez já desconfie do motivo de eu estar aqui.

— Vamos ver se acertei.

Christian revelou que estava à cata de todos os fatos por trás do assassinato de Fidelity.

— Você pode ser o construtor que empregou Zandoff — concluiu. — Tem como verificar?

— Acha que tenho alguma informação que não entreguei à polícia?

— Não. Mas gostaria que me repetisse o que disse a eles.

— Passou por um mau bocado, rapaz. Sei como é.

— Parece que sim.

— Eu disse o seguinte: não me lembro desse Karl Zandoff. De qualquer forma, nunca contratei irregularmente. Podia ser a escória do mundo, mas eu registrava em meus livros. Só que meu contador era um incompetente, entende? Incapaz de somar dois e dois sem calculadora.

Christian achava que Myers dizia a verdade, pelo menos em um aspecto. Era exatamente aquilo o que dissera à polícia.

— Se eu verificasse uma de suas obras hoje, quantos imigrantes contratados encontraria?

— Ora, são os únicos que a gente consegue empregar hoje em dia. Todo mundo só pensa em trabalhar com computadores, em ficar milionário sem sujar as unhas.

— Quer dizer que todos os seus empregados estão em situação regular? Todos têm papéis em ordem?

Myers sorriu.

— É que já não sou tão perspicaz quanto antes, entende? Eles dizem que estão regularizados, mostram documentos que parecem verdadeiros... — Deu de ombros.

— Talvez se lembre de Zandoff, mas teme que a polícia descubra que seu contador sumiu com os registros dele, ou

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que aquele seu contramestre tenha feito algo que não devesse e você acabe segurando a bolsa.



Myers inclinou-se para a frente, derrubando outra pilha de papéis.

Cá entre nós, eu lhe diria se me lembrasse. Conheço a cara de Zandoff desde o dia em que a polícia me disse que eu podia ter contratado o sujeito e tive até pesadelos com ele. Já pensou? Zandoff andando em cima das minhas lajes, de olho nas moças bonitas passando lá embaixo...

— Pesadelos, mas nenhuma lembrança?

— Eu contratava centenas de avulsos naquela época. Se Zandoff estava entre eles, não me lembro. — Myers bateu na cabeça. — Fiquei mal depois do enfarte.

Christian desejou-lhe melhoras e levantou-se para ir embora. Na despedida, Myers lhe citou outras duas construtoras em que ele poderia procurar.

— Queimei as pestanas durante algum tempo... — O velho coçou a cabeça quase careca. — Realizei muitas obras por lá, nada longe do local em que a moça foi assassinada. Cheguei a procurar ex-empregados, que colaboraram comigo na época. Mas ninguém se lembrou do sujeito. Ninguém.

— Não me lembro de muitas construções sendo erguidas. Alguns celeiros, uma ou duas casas. Era esse tipo de obra que realizava?

— Não, construíamos em loteamentos de alto nível, casas extravagantes. Em uma área de quatrocentos hectares, dez casas. O pessoal da cidade tem a impressão de estar nos confins do Alasca. Esperam topar com ursos-cinzentos. Ganhei muito dinheiro naquele projeto.

— Perto de Ridge’s Race?

— A oeste.

Christian pensava conhecer o empreendimento em questão. Na época, não pensara nisso, mas uma velha propriedade fora loteada e os habitantes locais andavam muito satisfeitos.

— Não tinham entrado com ação para embargar a obra? Myers fez um gesto vão.

Não adiantou nada. Tínhamos licença. Compramos a terra legalmente. É claro que o município de Ridge’s Race,

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se é que se pode considerar cidade aquela pulga no mapa fez de tudo para nos deter. Mas não arredamos pé. A terra era nossa e não desistiríamos.

— Lembra-se de que terra era essa?

Myers esforçou-se, mas acabou meneando a cabeça.

— Não. Lamento.

— E não deve ter mais os registros, certo? Davey Myers apenas sorriu.

A noite parecia chegar mais cedo a cada dia, e já era crepúsculo quando Christian finalmente entrou em Ashbourne no lombo de Night Ranger. Atrasara-se porque ainda procurara em Warrenton os dois outros construtores que Myers indicara, só para continuar de mãos vazias. Em Claymore Park, a tarde passara voando, enquanto descarregava as compras e examinava um cachorro que acabara de voltar do veterinário. Só se vira livre após o jantar.

Saltou da sela a várias centenas de metros da casa de pedra e seguiu puxando Ranger o resto do caminho. Ele e o cavalo já melhoravam. Sentia as pernas mais fortes, e Ranger parecia apreciar a vida. Focinhando-o agora, era como se o instigasse.

Christian riu e apertou o passo.

Deixou o cavalo a certa distância da casa, perto de um velho cocho de pedra em que Maisy plantara crisântemos. Ouviu risos lá de dentro, um som que provavelmente sempre o lembraria dos anos sem ele. Luz derramava-se das janelas. Sentia cheiro de fumaça. Jake sempre acendia a lareira, mesmo quando o clima não o exigia.

Não teve de bater. Callie, com seus ouvidos bem apurados de criança, percebera sua aproximação, ou assim justificou ao empurrar a porta contra ele.

— Ouvi você chegando. Onde está seu cavalo? Christian agachou-se para lhe falar olho no olho.

— Se contar, promete que vai se manter a uma distância segura dele? É um bom cavalo, sem dúvida, mas não sei se está acostumado com crianças.

— Não vou chegar perto. Prometo. Ah, já o vi! — Ela desceu correndo os degraus da varanda.

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- Christian, que boa surpresa. — À porta, Maisy enxuga as mãos em um pano de copa. Hoje vestia sarongue havaiano. Pés descalços com unhas fúcsia espiavam debaixo da barra.

Ele mal acreditava na sorte que tivera.

— Vim tratar de um assunto com você.

— Eu já ia pôr a mesa. Você já jantou?

Christian assegurou que já fizera a refeição. Não sabia muito sobre crianças, mas sabia que elas detestavam esperar.

— Que pena — lamentou Maisy. — É truta fresca. Sempre gostou do modo como eu a preparava, lembra-se?

Ele se lembrava de acariciar o pé de Júlia sob a mesa dos Fletcher, enquanto trocavam olhares ardentes, e beijos, quando finalmente se viam a sós. Em uma dessas ocasiões, pouco antes de ser trancafiado na prisão, assim que os pais se recolheram, ela o conduzira a seu quarto, onde fizeram amor desesperadamente. Foi a última vez que estiveram juntos.

— É sobre Callie — adiantou. Maisy enrijeceu-se.

— Sendo assim, devia ter essa conversa com Júlia, meu querido.

— Creio que sim, mas prefiro falar com você. Maisy desceu um degrau.

— Onde está Callie?

— Foi ver Night Ranger. Prometeu não se aproximar. Vai cumprir?

— É uma boa menina, mas cavalos são uma tentação.

— Ele é grande o bastante para intimidá-la um pouco.

— Christian, francamente, acho que deve ter essa conversa com minha filha.

— Júlia lhe contou o que aconteceu ontem?

— Em detalhes. Que bom que você apareceu.

— Eu não quis falar naquela hora... Maisy parecia perturbada.

— Christian...

— Tinha de falar com Peter primeiro, de qualquer forma. Mas ele concordou. Callie gostou da cadelinha. E não podemos ficar com ela. Você pergunta a Júlia se Callie pode

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adotar Clover? Acho que dará um bom animal de estimação mas não tem serventia com a matilha. — Ele sorriu sem graça. — Não é o filhote mais esperto do mundo, entende?



— Era isso? Quer dar uma cadelinha para Callie? Christian franziu o cenho. A julgar pela expressão de Maisy; só podia concluir que fora inconveniente.

Devia ter dado a impressão de que tentava se reintegrar à vida da qual fora arrancado. Devia ter dado a impressão de que tentava conquistar o amor da filha de outro homem. Afinal, um dia amara a mãe daquela menina.

Recuou.

— Desculpe-me. Acho que foi uma ideia cretina. Esqueça. Nem comente com Júlia...



— Nem comente o quê?

Christian levantou o rosto e, viu Júlia juntando-se a eles na varanda. Sentia-se tão encurralado quanto no primeiro dia do cumprimento de sua pena, em uma cela da prisão estadual.

— Não tem a menor importância. — Voltou-se para ir embora.

— Christian teve uma ideia maravilhosa — revelou Maisy, rápida. — Veio oferecer a Callie a cadelinha que causou todo o alvoroço ontem. Disse que as duas se deram muito bem, e que parecia natural ficarem juntas.

Christian voltou-se e viu que Júlia expressava surpresa.

— Foi por isso que veio?

— Não podemos ficar com o filhote. Nunca vi criatura mais inadequada para caça à raposa. Mas será um ótimo animal de estimação. Pensei que Callie talvez quisesse adotá-la.

— Vocês decidem. — Maisy ergueu a barra do sarongue e subiu os degraus apressada. — Podem entrar, se quiserem — completou, por sobre o ombro.

— Não! — recusaram Christian e Júlia, juntos. Júlia apalpou o corrimão e desceu os degraus.

— Para alguém que disse que não queria me ver nunca mais, você tem aparecido muito.

Ele a fitou detidamente antes de responder. Júlia amadurecia bem. Boa conformação óssea, traços clássicos. Nunca dependera de roupas ou maquiagem para se compor. Estava

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magra demais, meio desarrumada, e os olhos cegos o desconcertavam.

Mas, infelizmente, para ele, ela continuava bela.

. Foi um equívoco — reconheceu. — Só achei que...

O quê?


— Ah, sei lá.

— Christian... — Júlia meneou a cabeça. — Tem ideia de quantas vezes desejei que estes últimos nove anos nunca tivessem acontecido?

Ele não se preparara para uma conversa desse tipo. Não esperara que Júlia mergulhasse direto em seu coração.

— Não tantas quanto eu, aposto.

— Você era meu mundo.

— Mas uma parte sua acreditou que eu tinha matado Fidelity.

— Nunca vai me perdoar por isso, não é?

— Que importância eu devia ter para você? Casou-se com outro homem, mal dei as costas.

— Você não me deixou explicar. Não telefonava nem atendia a minhas ligações. Não lia minhas cartas.

— Diga-me: como pôde acreditar que cortei o pescoço de sua melhor amiga?

— Não acreditei. Mas o mundo inteiro desmoronava ao meu redor. Consegue entender isso? Claro, foi muito pior para você, mas foi terrível para mim, também. Fidelity estava morta, iam trancafiar você em uma prisão para sempre. Você tinha na mão o canivete que a matou. Seu próprio canivete.

Christian sentiu uma porção da amargura se esvaindo. Sabia que Júlia não conseguia dormir após a morte de Fidelity. Lembrava-se disso agora. Durante o julgamento, ela lhe contara que, toda vez que fechava os olhos, via Fidelity em uma Poça de sangue. Não conseguia comer. Lembrava-se da última vez que fizeram amor, de como ela estava magra. Tão magra que ele pusera de lado o próprio pavor de que a verdade não fosse descoberta a tempo de salvá-lo.

— No banco das testemunhas, senti-me completamente só — recordou ela. — Você parecia a milhares de quilômetros,

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inalcançável. Flashes me cegavam, câmeras me focalizavam, gente me gritava para ter bom senso.

— Mas não foi assim, Júlia.

— Mas era como eu me sentia. Um inseto sob a lente de um microscópio. Como se toda aquela gente soubesse de algo que me escapava. Foi só um segundo. O pior de todos — Lágrimas encheram seus olhos cegos. — Revivo essa aflição todos os dias. Tento esquecer, mas não consigo. É como se eu tivesse colocado você naquela prisão, Christian. Meu momento de dúvida girou a chave de sua cela.

Ele ponderou que deveria estar feliz por saber que ela também sofrera todos aqueles anos. Talvez exultasse ao descobrir que a mulher atormentada que ele amaldiçoara por nove anos de fato existiria. Mas descobria que ela não existira. Aquela era a mulher que ele amara. Mais velha, mais triste e avassalada pela culpa por seu instante de traição. Continuava magra demais. Provavelmente, não dormia bem. Ainda. E cega, porque seu corpo se voltara contra ela.

Tocou-a no rosto. Ela se sobressaltou, pega de surpresa. Ele passou o polegar na trilha de uma lágrima, sobre uma pele macia como pétalas de rosa. Pele de mulher. Pétalas de rosa. Tivera pouco de ambas em sua vida.

Baixou a mão.

— Por que se casou com Bard Warwick?

— Eu estava em pedaços. Ele colou os cacos.

— É feliz? Foram felizes? Antes de...

— Antes que eu deixasse de enxergar o mundo ao meu redor? Não.

— Lamento. — Ele não lamentava coisa alguma. Seu egoísmo era compreensível. Passara inúmeras noites imaginando-a feliz nos braços de Warwick. Estava contente por saber que ela nunca se sentira feliz com o outro, embora rebaixasse o conceito que tinha de si mesmo por reagir assim-

— Tive Callie — lembrou-se Júlia. — Essa alegria compensou tudo.

Christian lembrou-se do motivo de sua visita. Não acertar o passado, mas apenas dar à filha de Júlia um presente

— Vai considerar o filhote? Não por seu eu a oferecer.

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Se achar que a cadelinha fará sua filha feliz. Se não for inconveniente terem um animal de estimação.



- Vou falar com Maisy e Jake. Se voltarmos para Millcreek...

Se?


- Bard não gosta de cachorro. Teríamos de deixar a cadelinha aqui. Mas Callie viria todos os dias brincar com ela.

- Quer dizer que vai pensar?

Penso em muitas coisas, Christian. Não consigo parar.

Ele fechou os olhos, e o mundo virou breu. Imaginou como ela suportava a provação. Esforçava-se para voltar a ver, fracassando a cada instante? Mas sabia o que significava ser cego. Não passara anos nessa condição, no que se referia àquela mulher? Ela o amara, e ele deixara seu momento de indecisão alimentar o pior tipo de ódio.

E odiar a pessoa amada não era o maior dos pecados?

— Avise quando decidir — finalizou.

— Christian, obrigada. É uma oferta maravilhosa.

— Callie parece uma criança adorável.

— Você nem imagina. — Júlia estendeu a mão. Ele hesitava. — Não vai se despedir? — sussurrou.

Ele não pôde se recusar.

— Maisy? — Jake a abraçou por trás na cintura. — Qual o problema?

Estavam na cozinha, e ela enxugou os olhos com um Pano de prato.

— Lembra-se de umas noites antes do assassinato de Fidelity? Eu acordava transtornada e ofegante, como se me espremessem os pulmões. Foi ficando cada vez pior...

— Premonições?

— Não consigo enxergar o futuro. Mas sinto o tormento de outras pessoas. Sinto coisas acontecendo em torno de mim, coisas que pressionam todos nós. Aprendi a fazer isso quando jovem.

- Está sentindo agora?

- Você não sente?

Júlia tem de viver a própria vida.

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— Sou a mãe dela. Precisava lhe dizer para tomar cuidado. Em vez disso, tentei mantê-la a salvo. Agora, ela está cega.



— Você foi uma boa mãe. A melhor. Maisy encarou o marido.

— As coisas vão piorar antes de melhorar, Jake.

— Costuma ser assim.

Maisy ouviu um barulho na sala de estar e soube que a filha e a neta logo estariam ali. Degustaria as trutas de Jake, talvez ajudasse a colocar Callie na cama e então leria mais um capítulo para Júlia. Depois, com o marido adormecido a seu lado, permaneceria desperta, lutando para respirar.

— Só não nos deixe, não importa o que aconteça — implorou. — Fique conosco, Jake.

Ele sorriu, gentil.

— Não estou sempre?

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