Emilie Richards



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CAPÍTULO XVIII
Tanto Mel quanto Peter haviam pedido a Christian que não investigasse a morte de Fidelity. Ele entendia os temores de ambos. Também nutria os seus. Mas ninguém tinha mais interesse do que ele em descobrir todos os fatos.

A seu ver, peças demais não se encaixavam. Zandoff afirmava estar empregado em Middleburg quando Fidelity foi assassinada, mas ninguém se lembrava dele por lá na época. Adensando o mistério, o condenado dizia não ter sido remunerado pelo empregador, de modo que não existia registro algum desse emprego temporário.

Havia que se considerarem também os outros crimes de Zandoff. Ele estrangulava as vítimas. A não ser no caso de Fidelity, jamais usara uma lâmina nem roubara nada, embora gostasse de guardar uma lembrança de cada evento. Sempre removera o cadáver e o enterrara. E sempre atacara a vítima sexualmente antes de assassiná-la. Não se encontraram indícios de que Fidelity sofrera violência sexual, nem sinais de luta.

Enquanto tais questões permanecessem sem resposta, algumas pessoas continuariam acreditando no envolvimento de Christian. Ele ainda podia perder a liberdade, e tal ameaça sobre seu futuro era insuportável.

Quase tão insuportável era não saber exatamente o que acontecera com Fidelity e por quê. A amada filha de Flô e Frank Sutherland merecia descansar em paz.

Na manhã seguinte, à mesa do café, Christian pediu a Peter que o levasse a Leesburg para obter a carteira de

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habilitação. Peter o deixou na repartição do departamento de trânsito com as chaves de seu automóvel, informando que combinara almoçar com uma amiga, a qual o levaria para casa depois.



Após passar no teste de direção e tratar da papelada, Christian se sentou ao volante e considerou as alternativas. Não sentia um pingo do entusiasmo que experimentara os dezesseis anos, ao tirar a carteira de habilitação pela primeira vez. Mas era bom demais estar livre para realizar sua busca. E sabia por onde começar.

Meia hora depois, sentava-se a uma mesa de lanchonete com Pinky Stewart, o investigador da repartição do xerife que encontrara as jóias de Fidelity.

No segundo ano do ensino médio, Pinky se mudara da Carolina do Sul para o norte da Virgínia, e ficaram amigos, No último ano do curso, integraram uma equipe de beisebol que se destacara a nível estadual, Christian o lançador, Pinky na primeira base. Pinky tinha bochechas vermelhas, daí o apelido, rosto redondo, e já estava careca agora, mas continuava alegre e jovial. Mostrou-se exultante em rever Christian, a despeito dos olhares desconfiados dos colegas, e concordou em tomar um café com ele, quando seria de seu interesse profissional declinar o convite.

— Você não está nada mal, considerando tudo — comentou Pinky. — Não imagina como fiquei contente quando encontrei as jóias. Não pude fazer nada por você na época do julgamento, mas cavei com gosto quando revelaram o que devíamos procurar.

Christian esboçou um sorriso. Felizmente, tinha um simpatizante na polícia local.

— Foi surpresa encontrar?

— Um pouco. Não havia por que alguém acreditar que você era inocente. Mas eu sabia que você não era um assassino.

Christian se achava capaz de matar, sim, se descobrisse que mais alguém além de Zandoff ajudara a matar Fidelity e roubara quase nove anos de sua vida.

— Há muitas perguntas sem resposta — observou. — Demais, para o meu gosto.

— Não o bastante para mandá-lo de volta à prisão.

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- Quero saber exatamente o que aconteceu.



Pinky ouviu a argumentação tamborilando com os dedos no mesmo ritmo do discurso de Christian, e então questionou:

Mas por que está me contando isso?

-Preciso de ajuda. Não participei das investigações. Não sei o que encontraram, se havia pistas que não seguiram, porque já me consideravam culpado. Até onde foram tentando comprovar que Zandoff estava mesmo na cidade na época? Exatamente o que sabem que eu não sei?

- Esses registros são confidenciais, Christian. Sabe que não posso revelar o conteúdo deles a você.

Não acha que o sistema legal já me ferrou demais?

Pinky calou-se, sempre sambando com os dedos.

— Sabe, não sou muito bom no que faço. Não tenho o instinto assassino, se entende o que quero dizer.

— Passei nove anos enfrentando o instinto assassino em primeira mão.

— Sabe, o xerife Gordon não está nada satisfeito com o meu desempenho. Vai me demitir na primeira oportunidade. Tem um sobrinho que quer minha vaga mais do que o traseiro da vizinha bonitinha.

— Mesmo? Pinky sorriu.

— Não duro muito tempo lá.

— Não tem mesmo chance?

— Não, tanto que posso correr algum risco. — Pinky inclinou-se para a frente. — Quero mais é que o xerife Gordon se dane. Quer saber? Verei o que posso fazer. Só não espere novidades logo, e não me procure mais na chefatura. Ligue lá para casa. — Tirou a carteira e lhe passou um cartão de visita. — Lembra-se de Wanda Swensen?

Christian percebeu que deveria, se quisesse preservar a amizade de Pinky. Voltou aos tempos de escola e lhe surgiu a imagem de uma loirinha delicada com nariz muito feio.

— Lembro-me.

— Estamos casados há quatro anos. Este é nosso garotão. — Pinky mostrou uma fotografia.

Christian viu que Wanda não consertara o nariz.

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— Tem cara de peste.

— Pode crer! Não temos sossego. Wanda já está esperando o segundo. Só esperamos que seja uma criança mais calma. Menino ou menina. Só mais calminha...

Christian devolveu a foto.

— É um bom amigo, Pinky.

— Apareça lá em casa qualquer dia. Vamos bater umas bolas. Quem sabe, podemos até formar outro time...

Yvonne pedira a Júlia que fosse ao consultório todos os dias naquela primeira semana, e Maisy mostrara-se mais do que disposta a colaborar. Hoje, como iam passar em um lugar antes, saíram de casa mais cedo.

— Não vai me dizer aonde estamos indo? — indagou Júlia, curiosa.

— Não. É surpresa.

— Como a argila?

— Gostou?

Na verdade, Júlia adorara. Após desabafar semanas de frustração com muitos socos na placa, começara a destacar pedaços e a modelar figuras humanas, árvores, cavalos. Aparentemente, ninguém entendia qual era seu intento. Callie, por exemplo, lhe perguntara por que criava animais de circo. Mas a imagem que se formava e definia em sua mente era a de uma floresta silenciosa.

— Estou feliz que tenha pensado nisso — declarou à mãe.

— Pois hoje é outro tipo de surpresa. Tem a ver comigo.

— Que ótimo. Mal posso esperar para ver... — Júlia bufou. — É difícil pôr de lado velhas expressões.

— Não poderá ver, mas poderá sentir. Espere só.

Júlia calou-se. Conversar dentro daquela picape em movimento era cansativo. O dia até que estava fresco, porém viajavam de janelas semi-abertas, e o vento invadia a cabine. Recostou a cabeça e fechou os olhos. Quando despertou, já estacionavam.

— Acho que não vou demorar. Já tratei de todos os detalhes por telefone;

— Onde estamos?

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- Em uma concessionária de automóveis. Vou comprar uma picape nova. Jake ficaria com este ferro-velho até que se dissolvesse em uma poça de óleo diesel.



Ele está sabendo?

Claro que não.

Maisy, como ele vai reagir?

Jake vai adorar o carro novo assim que começar a dirigir. Mas a questão não é ele. Sou eu. Estou farta de me sacrificar sem necessidade. Precisamos de uma picape nova e vamos comprar uma hoje.

— Nunca vi você assim.

— Não está vendo nada ultimamente. Júlia riu.

— É mesmo!

— Desculpe-me. Parece que vamos levar algum tempo para evitar todas as frases com visão, não é?

-É.

— Se o pessoal daqui for eficiente, vou só assinar na linha indicada, entregar o cheque e trocar o carro novo pelo velho. Já tirei tudo o que era nosso de dentro deste aqui. É o que vai deixar Jake com pulga atrás da orelha. Quando vir a pilha de mapas, garrafas de água e cabos de borracha no gramado da frente...



— Vá lá e dê um show, Maisy.

Para surpresa de Júlia, a mãe estava de volta em dez minutos. Ouviu o motor macio de um carro novo emparelhando com a velha picape.

Maisy abriu-lhe a porta.

— Negócio fechado. Eu ajudo você a descer.

Apoiada no braço da mãe, Júlia pisou no estribo do carro e então no chão.

— Dois passos e estará na picape nova.

Júlia subiu ao assento e sentiu um cheiro forte de plástico, couro, borracha e cera.

Uau, que conforto! — Balançou-se na poltrona.

A mãe assumiu o volante após falar com alguém, provavelmente o vendedor.

Podemos ir. Céus, ouça esse motor. Seu cinto de segurança está pendurado à direita. E vamos ligar o ar-condicionado.

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Júlia procurou o cinto.



— É mesmo necessário?

— Ora, preciso testar esta máquina! — Maisy deixou o estacionamento cantando pneus, a exemplo de Robby e Fidelitv toda vez que partiam de Ashbourne. Júlia sentiu nostalgia

— Yvonne, aí vamos nós! — exclamou Maisy. — Ah, isto é que é picape!

— Mais devagar.

— Júlia, você sabe ser estraga-prazeres.

— Só estou tentando salvar nossas vidas. A mãe aliviou o pé sobre o acelerador.

— Descreva a picape — pediu Júlia.

— É vermelha, os bancos são de couro preto, tem todos os opcionais. Não é o máximo?

— Jake vai ter um troço.

— Que tenha.

Júlia decidiu pressionar:

— O que está acontecendo, Maisy? Estão se desentendendo por que eu e Callie estamos lá? Estão tensos demais por nossa causa?

— De onde tirou essa ideia?

— Então, o que é?

— Não sei. Estamos bem. Não precisa se preocupar. É só uma falha de comunicação.

— Como assim?

— Não ouvimos mais um ao outro. Quando conversamos, é como se emitíssemos ondas de sonar, as quais batem nos objetos e então se lançam em todas as direções. Já aconteceu isso com você e Bard?

— Não. Maisy calou-se.

Júlia ponderou e opinou:

— O que está descrevendo é um lapso de comunicação entre duas pessoas que já foram muito chegadas. Você repara quando não estão se comunicando porque normalmente se comunicam.

— Pode ser.

— Bard e eu dizemos o que tem de ser dito, e entendemos um ao outro.

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- Parece ótimo. — Maisy não acreditava de fato nisso.



Nem tanto — replicou Júlia. — Porque nem sequer tentamos dizer as pequenas coisas. Os sentimentos, os acontecimentos engraçados do dia-a-dia. Nunca falamos de conversas que tivemos, nem de esperanças que não se concretizaram, nem de pesadelos, nem de fantasias...

Gostaria que falassem de tudo isso?

A pergunta parecia estranha, mas Júlia a considerou pertinente.

— Não. Era o que imaginava, Maisy?

— Gostaria que você se declarasse loucamente apaixonada por seu marido, que sempre foi e sempre será. Como não é possível, prefiro a verdade.

— Não sei se Bard poderia ter esse tipo de relacionamento comigo, mas sei que comigo nunca terá.

— O que isso significa? Júlia não tinha certeza.

— Acredita em almas gêmeas?

— De jeito algum.

— Ora, que surpresa. Seu livro é tão romântico...

— É só uma história, uma ficção.

— Então, Ian não é a alma-gêmea de Louisa?

— É você quem vai dizer.

— Jake não é sua alma-gêmea? Meu pai não foi?

— Não e não. Trata-se de homens muito diferentes. Amei ambos. Senti-me ligada a ambos de maneiras diversas. Mas algum deles era o único homem com quem eu deveria estar?

— Era?


— O destino interfere nos planos mais bem-feitos.

— Você era jovem quando meu pai morreu.

— Era.

— Parece que sobreviveu abrindo mão do seu mundo para encontrar outro.



— É uma boa interpretação.

Teve algum apoio? De vizinhos e amigos? Parece que meu pai era benquisto na comunidade.

— Era muito benquisto.

— E, quando ele morreu, as pessoas não a confortaram?

— Foram gentis e se preocuparam. Mas, com minha vida

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sofrendo uma mudança tão brusca, eu só queria esquecer o mundo que Harry tanto amara.

— Sendo assim, fechou Ashbourne, retirou-se da sociedade

— E me concentrei em criar você e, depois, em amar Jake.

— Se Bard morresse, eu não reagiria de forma tão extrema. — Júlia lamentou a declaração assim que a emitiu

— Você acredita em almas gêmeas, e Bard não é a sua. É isso o que está tentando dizer?

— Não sei se acredito nisso. Mas você tem mais sorte. Talvez você e Jake não estejam se comunicando bem agora, mas já se comunicaram no passado. Podem consertar o que está errado.

— E você?

— Maisy, você odeia Bard Warwick desde o dia em que anunciei que ia me casar com ele.

— Não, odiei que você decidisse se casar só para preservar o futuro de Callie. Odiei que ele se aproveitasse do seu desespero oferecendo-lhe algo que um bom homem não podia. Odiei que ele exigisse que você se adaptasse ao mundo dele, sem se preocupar em se adaptar ao seu. — Maisy fez pausa para respirar. — Vou parar por aqui. Que jeito horrível de começarmos o dia, não?

Júlia sabia que a mãe apertava as mãos no volante. Maisy estava zangada, mas não com ela.

— Começamos com honestidade — opinou.

— Ele tem qualidades — admitiu Maisy. — Eu as enxergo também.

— Eu me casei com ele. Será que não lhe devo lealdad e dedicação?

— Não, se ele não merece. É esse seu objetivo agora, não é? Determinar quem deve o que a quem.

— Já estou me submetendo a terapia a caminho do consultório de Yvonne. Vou me submeter no caminho de volta para casa, também?

—Vou dirigir minha picape nova e manter a boca fechada.

— Só quero ver.

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yvonne conduziu Júlia a sua sala e a instalou confortavelmente, como de hábito. Então, lançou uma bomba.

- Vamos tentar algo novo hoje.

- O quê?

- Hipnose.

- Está brincando.

- É a sério.

Eu não tenho de enxergar para você balançar alguma coisa na minha frente?

- Ai, você assiste a filmes baratos demais!

— Mas para quê?

— Para verificarmos se você entra em contato com aquilo que não quer ver. Para que você enxergue de uma maneira diferente.

— Não posso ser hipnotizada.

— Como sabe?

— As meninas fazem isso em festas de pijama. Nunca consegui.

— Não tem nada a ver, Júlia.

— Falaram-me disso no hospital, Yvonne.

— Quase sempre, pessoas com esse problema específico são fáceis de hipnotizar.

— Pessoas histéricas?

— Você se acha histérica?

— Antes de me acontecer isto, eu jamais teria considerado o termo.

— Não a considero histérica. Vejo uma mulher que esconde um segredo de si mesma, uma mulher sensível, talentosa, criativa, uma artista capaz de analisar o que se passa em seu íntimo mais do que a maioria das pessoas, embora nem sempre o faça. Uma mulher que tenta desesperadamente se esquivar de algo sobre o que não tem controle.

Júlia pensou em Christian, em Callie e nas atitudes que tomava para evitar o inevitável. Encheu-se de vergonha.

— Júlia?


O psicólogo do hospital também sugeriu hipnose. Recusei. E recuso novamente.

- Por quê?

retorcia as mãos.

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— Não quero reviver o que me aconteceu. Perdi Não quero sentir tudo aquilo de novo.

— Não precisa ser tão doloroso. Poderá descrever os eventos como se observasse acontecerem com outra pessoa.

— Não.

— Quando estiver pronta, então.



— Nunca estarei.

— Falemos dessa sua ânsia por evitar o sofrimento, então Vamos começar por algo simples. Alguma vez perdeu um animalzinho de estimação?

— Não.

— E uma oportunidade? Algo insignificante. Uma coisa que queria e não conseguiu?



— Tive a oportunidade de ganhar uma bolsa de estudos em artes no ensino médio, mas perdi o prazo.

— Ótimo exemplo. Podemos usá-lo. Conte-me como foi o dia em que perdeu essa chance.

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CAPÍTULO XIX
Júlia não sabia em que momento surgira a idéia de cavalgar. Após contar a Yvonne como perdera uma bolsa de estudos sem importância, revelara que quase deixara o medo impedi-la de aprender a montar, percebendo então o quanto sentia falta da sensação de estar em cima de um cavalo. Uma vez conscientizada disso, a vontade quase lhe detivera o fluxo de palavras.

Em casa, trancou-se em seu quarto no térreo e telefonou para Millcreek. Quando a sra. Taylor atendeu, pediu-lhe que transferisse a ligação para o celeiro e falou com Ramón, o mesmo cavalariço que despachara Feather Foot para Callie, e lhe disse o que queria. Então, saiu à procura da mãe.

— Não vai gostar de ouvir — avisou.

— Eu decido isso — replicou Maisy.

— Vou montar. Quero dar um passeio com Calie, assim que ela chegar da escola.

— Mas como?

— Ramón vai me acompanhar. Ele já está vindo para cá com Sandman, o cavalo mais manso de Millcreek. Por favor, não se preocupe.

— Júlia...

Tenho de fazer isso, Maisy. Preciso montar em um cavalo outra vez. Não há perigo, será apenas um passeio no campo.

Nada que eu diga irá deter você, não é?

- Não.

Vai precisar de ajuda para se vestir?



Karen, cuja presença se tornava inestimável, já encerrara

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o trabalho naquele dia, mas Júlia encontrara as peças que queria em suas gavetas.

— Vou vestir uma calça jeans. Estarei pronta quando você e Callie chegarem da escola.

Júlia estava um pouco nervosa, mas seu entusiasmo foi muito maior. Já aguardava no pátio quando Ramón chegou. Ele a saudou e ela acenou.

— Qual está montando?

— Moondrop Morning.

— Por quê? — Júlia conhecia Morning, a mais nova aquisição de Bard, um capão baio fogoso que já viera com aquele nome ridículo.

— Ele precisava de exercício. Tem se comportado melhor ultimamente. O sr. Warwick trabalha com ele todas as tardes,

Júlia gostaria que Bard fosse paciente assim com a filha, ou demonstrasse por ela metade do interesse.

— Sra. Warwick, não estou questionando, mas tem certeza de que está pronta para isso?

Júlia sempre gostara de Ramón, um jovem imigrante salvadorenho que já vira mais carnificina e horror em seus poucos anos de vida do que um soldado de carreira. Estudante de veterinária até ser obrigado a fugir da terra natal, era um rapaz gentil, muito jeitoso com cavalos e resistente aos desmandos de Bard.

Era triste reconhecer a verdade inegável. Com ares de príncipe, Bard regia em Millcreek e tratava os empregados como se fossem objetos. Fidelity também vivera como uma princesa, cheia de defeitos e dinheiro, porém sempre tratara os colaboradores de Southerland como amigos.

— Estarei bem, com você ao nosso lado — assegurou Júlia. — Eu o fiz interromper algum trabalho importante?

— Não, eu ia mesmo exercitar este cavalo. E o sr. Warwick não precisa saber aonde fomos, certo?

Júlia imaginou o sorriso de Ramón, dentes alvos em contraste com uma pele cor de caramelo.

— Por mim, não. Aliás, acho melhor que não comente.

— Mamãe!


Júlia não ouvira o motor suave da nova picape de Maisy, nem

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a porta batendo. Um pequeno corpo chocou-se contra sua perna. Fechou os braços em torno de Callie.

- Oi, meu amor. Como foi a escola?

Odeio a escola. Vamos mesmo passear a cavalo?

Claro que vamos.

Oi, Ramón! — Callie desvencilhou-se da mãe. — Quer me ver selar Feather Foot?

- Não perderia por nada.

Júlia ouviu passos e então a voz de Maisy.

— Ah, se eu fosse vinte anos mais nova...

— Tem bom gosto, mas se casou com Jake.

— Veremos se escolhi certo quando ele der a primeira olhada na picape nova.

Jake fora pescar e só estaria de volta na hora do jantar.

— Talvez ele chegue enquanto passeamos — considerou Júlia. — Assim, poderá se entender com ele sem testemunhas.

— Talvez precise de testemunhas. Júlia riu.

— Assim que Callie trocar de roupa, partimos. Alguém pode me conduzir a Sandman para que eu possa montar?

— Não acho uma boa ideia — implicou a mãe.

— O que quer dizer?

— Há dois cavalos aqui, e um parece mais arisco do que o outro.

Callie saiu correndo.

— Obrigada, Ramón! Ramón sela o pónei enquanto eu me troco! Volto em um segundo... — A porta chocou-se contra o batente.

— Ela está mesmo animada — concluiu Júlia.

— Acho que vou entrar — decidiu Maisy. — Procurem-me na volta. Se Jake já estiver em casa e não me acharem, vejam se descobrem uma cova recente na área de Ashbourne...

Minutos depois, a porta bateu de novo.

— Estou pronta! Estou pronta!

— Calçou as botas? Pôs o chapéu?

— Pus. Podemos ir agora? Ramón vem vindo. Oi, Feather Foot! — A menina saiu em disparada. Júlia aguardou ouvir os passos mais tranqüilos do Cavalariço.

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— Está pronta, sra- Warwick?

— Estou. Você vai na frente, está bem?

Ele a segurou pelo braço, e começaram a percorrer o gramado. Era estranho estar tão perto de duas bestas enormes e não conseguir vê-las.

— Quanto falta?

— Dois passos. Sandman está parado. — Ramon lhe tomou a mão e colocou sobre a sela do cavalo.
Júlia recordou a aparência de Sandman, um baio-escuro com um quarto de puro-sangue que lhe dava compleição robusta. Seus deddos deslizaram sobre o couro, e percebeu que transpirava-

— As rédeas — anunciou o cavalariço.

Júlia sentiu as tiras de couro na palma da mão e as ergueu.

Sozinha, localizou o estribo com a mão direita. Então, firmou o pé esquerdo e com um pequeno impulso de Ramón montou na sela.

— Obrigada. Assim que se aprumou, colocou as rédeas na posição correta e encaixou bem os pés nos estribos. — Parece que está tudo em ordem.

— A srta. Callie também está pronta.

— Então, só falta você-

Num minuto, o rapaz se achegava montado.

— Srta. Calli Quer ir na frente? Eu encerro a fileira. Júlia aprovou esquema. Callie conhecia bem as trilhas de Ashbourne e, se seguissem nessa ordem, Ramón poderia ficar de olho nas duas.

— Iuuhuuuu! exclamou a menina.

— Pode ir, mas sem gracinhas, Calie — advertiu Júlia. — Lembre-se de que não enxergo o que está fazendo.

— Sou a líder!

— Ainda tem de comer muitas verduras e legumes.

— Avante!

Júlia ouviu o baque dos cascos contra o chão, e então Sandman se pôs em movimento. Estava em cima de um cavalo outra vez.

— Relaxe e se divirta — recomendou Ramón, logo atrás. — Está em segurança. Eu garanto.

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Christian não precisou de muito tempo com os filhotes para perceber que Clover, a despeito da linhagem impecável, era a estereotipada ”loira burra” do mundo dos cães. Era engraçadinha, bonitinha, mas tão acéfala que não se dava conta de que havia coisas mais importantes na vida.



Cansada de tropeçar na cadelinha toda manhã, Gorda, uma matrona de cinqüenta e tantos anos, estava pronta para expulsá-la do canil. Fish, irascível e ”cuidadoso com sua energia”, até se oferecera para ir até a Pensilvânia nas férias para devolver Clover a seu criador.

. Estão convencidos de que ela não tem jeito? — indagou Christian naquela manhã, e ambos responderam ”sim” sem vacilar.

Mas ele não tinha tanta certeza. Os cães, a exemplo dos humanos, amadureciam cada um no seu ritmo. Tinha um fraco por retardadinhos. Por outro lado, já treinara cães o bastante, dentro e fora da prisão, para saber que, na maioria dos casos, cães inteligentes e promissores não se originavam de filhotes como Clover.

— Telefonei para o criador de Clover — informou Peter, no fim da tarde. — Ele disse que ninguém reclamou dos outros filhotes da mesma ninhada.

— Será que ela não estava sobrando lá?

— Não. — Peter ficou constrangido. — Fui o primeiro a escolher. Deixei-me levar pela carinha bonita, acho.

— Bem, ela tem tudo, menos cérebro.

— Resumindo, ele não aceita devolução. Mas prometeu um exemplar da nova ninhada de graça. Ora, depois dessa, não sei se vou querer investir nessa linhagem outra vez.

— Eu o aconselho a aceitar a oferta. Só pense duas vezes antes de cruzá-lo, mesmo que tenha sorte dessa vez.

Christian deu um tapa nas costas de Peter.

Vou treiná-la sozinha por algum tempo. Night Ranger eu temos muito trabalho pela frente, se vamos participar da abertura da temporada. Vamos levar Clover e ver como ela se comporta.

— Não podemos investir em alimentação e cuidados com ela se não tiver mesmo jeito, Christian. Será excluída do grupo

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— Vamos ver o que posso fazer.



Christian foi selar Night Ranger. No celeiro, era como se o cavalo o aguardasse, ou, mais provavelmente, à cenoura que ele sempre tinha no bolso. Desde que voltara para Qlaymore Park, Ranger parecia mais interessado na vida. Ainda nem se comparava ao competidor confiante e esperto que fora um dia, mas Christian tinha fé em que se recuperaria

— Você, eu e Clover. Que trio, hein? Não nos encaixamos em lugar nenhum.

Christian afagou o cavalo no pescoço enquanto o selava. Quando estavam prontos, levou-o para fora e montou para uma galopada breve até o canil. Os filhotes o saudaram como a um velho amigo, pulando uns em cima dos outros só para despencarem no chão em uma pilha de corpinhos quentes e macios. Clover o olhava sonolenta de um canto, e ele teve de instigá-la muito para que se animasse a investigar o que havia. Imaginou se ela se sentia como ele no ensino fundamental, cônscio de que os outros garotos partilhavam um segredo maravilhoso que lhe escapava. Nesse caso, já devia estar desconfiada de que nunca lhe contariam o segredo.

Pegou-a, certo de que a tarde já teria se passado antes que conseguisse lhe prender a atenção o bastante para chegar à porta. Ao ar livre, colocou-a no chão, não muito longe de Ranger. Então, puxando o cavalo pelas rédeas, tomou o rumo do campo, chamando a cadelinha.

Clover permaneceu sentada onde estava por algum tempo, e então se animou ao perceber que deveria acompanhálos. Agitando a cauda e levantando as orelhas, entrou na frente de Ranger e se deitou de costas, para que lhe coçassem a barriga.

— É, vai ser uma longa tarde — conformou-se Christian. — Vamos, bobinha, estou tentando salvar sua pele. Pode se esforçar um pouco?

Ela se contorceu toda, feliz, até que Christian a cutucou com a ponta da bota. Zangada, ela se levantou e começou a latir para Ranger. Nem parecia um cão de caça. Nada de melodia sonora, de tons profundos. Clover latia como um poodle mimado. Christian comparou-a a uma estrela de cinema

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mudo obrigada a gravar a voz pela primeira vez. A carrêira de Clover ia virar fumaça, também.

- Você nunca ouviu os outros cães? — Christian percebeu que Ranger ignorava as provocações do filhote. — Se a colocarmos junto com as outras cadelas, será que aprende?

Clover sacudiu todo o corpinho, e ele teve de sorrir. Trotava a seu lado agora, satisfeita por ter subjugado Ranger sozinha.

A uma boa distância do canil, Christian montou em Ranger, certo de que o cavalo evitaria pisar em Clover, na medida do possível.

Não vamos muito longe — prometeu. — Porque algo me diz que vamos voltar com a cadelinha na sela. Mas vamos lhe dar uma chance.

Aos vinte minutos de passeio, Júlia teve a certeza de que tomara uma decisão terrível. O ar estava frio, mas o sol lhe aquecia os ombros e braços. Callie não cabia em si de orgulho por liderar a coluna, e de alegria por estar passeando a cavalo com a mãe outra vez.

— Onde estamos? — indagou Júlia.

— Sabe o curral em que o sr. Greely deixa o touro?

— Callie!

A menina riu.

— Calma, não estamos lá! Júlia suspirou aliviada.

— Não me assuste assim.

— Não sei onde estamos. Só acompanhamos a trilha. Mas sei voltar para casa.

— Ramón?


— Lembra-se do ponto em que a mata desce ao encontro da cerca entre Claymore Park e Ashbourne?

Júlia sabia exatamente onde estavam agora. Contornavam a floresta, por uma trilha que existia ali. — Obrigada. Não tinha a menor ideia. Pontos de referência não me dizem nada hoje em dia. Esta é uma boa fazenda. Tem boa terra, bom pasto. E um córrego provendo água. Pena que não criem cavalos. Bem, temos o gado Higland para apreciar.

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— Quando aprendeu a montar, tinha um cavalo aqui mamãe?



Júlia contara à filha que aprendera a montar tarde, mas não como tudo acontecera.

— Não. Aprendi a montar em Claymore Park, e tinha permissão para montar o cavalo que quisesse quando quisesse.

— Com seus amigos?

— É.


— A mãe de Tiffany trabalha em Claymore Park e disse que posso montar lá de vez em quando, também!

Júlia apertou as rédeas na mão.

— É mesmo?

— Aí, vou ser como você.

— Mas devemos falar com o sr. Claymore a respeito, afinal, os cavalos são dele.

— Tem mais alguém a cavalo lá na frente...

Júlia cogitou quem teria se afastado tanto da pista de treino ou dos currais em que os cavalos costumavam se exercitar. Apurou o ouvido, mas ouviu apenas o latido de um cão.

— Ramón?


— Callie, pare — instruiu o rapaz. — O filhote está vindo nesta direção.

— Que filhote? — indagou Júlia, crente em que ouvia o uivo de um cão de caça. — Ramón, Peter está exercitando os cachorros?

— Só um. Bem pequeno. E não é o sr. Claymore.

— Quem é, consegue ver?

— Ninguém que eu conheça. Júlia adivinhou quem era.

— É jovem, loiro?

— É.

— Vamos dar meia-volta. Já nos afastamos demais e-



— Callie, fique parada! — ordenou Ramón, soltando uma torrente de impropérios em espanhol.

Júlia ouviu o grito de surpresa da filha. A suas costas, o cavalariço continuava praguejando em espanhol, em cima de um cavalo agitado. Sandman parecia tranqüilo, mas seus companheiros pareciam encontrar dificuldade para controlar

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As montarias. O filhote aproximava-se. Mais e mais, a julgar pelos latidos. Desolada, soube quando ele ultrapassou a cerca.



- Ramón! Feather Foot não gosta de... — Júlia interrompeu-se ao ouvir um grito da filha e o som de cascos em disparada. — Callie! Você está bem? Callie!

Mamãe!


Júlia nunca precisara tanto da visão, mas, apesar do terror que a devastava, seu dia continuava negro como noite sem estrelas.

- O que está acontecendo? Callie!

Cascos chegaram bem perto dela, e então se desviaram.

— Deixe comigo! — tranqüilizou uma voz familiar. – Circunde, garota! Puxe as rédeas para um lado! Forme círculos grandes!

— Não consigo!

— Consegue, sim!

Júlia sabia que Christian fora resgatar Callie, contudo, antes que tivesse tempo para considerar os perigos daquele encontro, Sandman começou a se mexer inquieto. Puxou as rédeas e tentou acalmá-lo, mas só relaxou ao ouvir a voz de Ramón de um ponto próximo e abaixo.

— Já o peguei.

— Callie? Onde está Callie?

— Está circundando com Feather Foot. Já o ten sob controle. O homem a está ajudando.

— Por que você não...

— Morning assustou-se. Eu teria piorado ainda mais a situação.

— Ela está bem?

— É uma excelente amazona. Está bem, sim. Corroía as rédeas do pónei.

Júlia engoliu o nó na garganta.

— E o cãozinho?

A seus pés. Dormindo.

Júlia quis gritar. Era uma necessidade violenta. Mas, disse a si mesma para ficar calma, pois o desespero logo Passaria. Ao ouvir a filha tagarelando, porém, soube que seu tormento apenas começava.

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— Você saltou sobre a cerca! Eu vi! E é uma cerca alta!



— Viu como? — questionou Christian. — Seu pónei estava disparado.

— Não estava disparado, não. Eu o tinha sob controle. Só não conseguia... fazê-lo parar.

Christian riu.

— E isso é diferente. Entendo.

— Aquele é seu cão de caça? Mamãe, fui salva! Ela não sabia o que dizer.

— Olá, Júlia. — Christian parecia próximo. Ela voltou o rosto na direção da voz.

— Christian, nem sei como lhe agradecer.

— Ele saltou sobre a cerca. O cavalo dele é muito bonito, mamãe. Como ele se chama?

— Night Ranger. Sua mãe o conheceu quando ainda era um potro.

Júlia levou um choque.

— Night Ranger?

— O próprio. Peter o encontrou em Maryland e trouxe de volta para casa.

— Ele salta muito bem! — elogiou Callie. — Nunca vi um cavalo saltar tão alto. Posso montar nele?

— Não! — gritaram Júlia e Christian ao mesmo tempo. Júlia tentou compensar a veemência.

— Callie, seu pónei acaba de disparar. Ainda não está pronta para Night Ranger. — Respirou fundo. — Christian, ela está mesmo bem?

— Assim me parece. Entusiasmada.

— Você é o Christian que estava preso? — indagou a menina.

— Receio que sim.

— Achei uma injustiça. Deviam lhe dar um monte de dinheiro por ter passado por aquilo. Ele não fez nada, Ramón, mas mesmo assim o mandaram para a prisão...

— Isso acontece muito em meu país — recordou o salvadorenho. — Muito prazer, Ramón Lopez.

— Christian Carver.

Júlia visualizou os dois homens se cumprimentando sem desmontar de seus cavalos.

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O cãozinho ainda está dormindo aqui embaixo? — Tinha pavor de se mover.



Oh, que gracinha. — Callie enterneceu-se. — Posso passar a mão nele?

Nela — esclareceu Christian. — Espere, deixe-me segurar o pónei. Não queremos que dispare de novo, certo?

- Callie, é melhor voltarmos... — Júlia desistiu ao ouvir pezinhos se chocando contra o solo e então a voz da filha bem próxima.

Oh, é mesmo uma gracinha... Mas muito bobinha. Não sabe que é muito pequena e que um cavalo é muito grande? Júlia mantinha o rosto voltado para a frente.

— Alguém pode me dizer o que está acontecendo?

— Sua filha está se apaixonando por minha cadelinha — informou Christian.

— Ela sempre adorou cachorros... — Júlia considerava insano manter aquela conversa, quando tinha vontade de gritar e chorar.

— Deve ter alguns, então.

— Não, não tem. — Bard não permitia.

— Mas devíamos ter cães em Millcreek — opinou Ramón.

— Talvez Moondrop Morning se comportasse melhor, acostumado aos latidos.

— Ela está me lambendo, mamãe!

— Eu sabia que ela servia para alguma coisa — replicou Christian.

Os dois homens riram. Júlia não sabia o que dizer ou fazer. A situação era tão impossível que desafiava as convenções.

— Ela é uma graça — comentou Christian, e Júlia sabia que ele não falava da cadelinha.

— Obrigada — murmurou.

— Mas pensei que fosse mais parecida com você.

— E é. Nos olhos.

— Olhe para mim, Callie. Júlia sentiu o coração falhar.

Parece um pouco, sim — concordou Christian.

fechou os olhos, retendo as lágrimas, e baixou a voz.

- Ouça, naquela noite...

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— Está tudo bem, Christian.



— Eu não sabia.

Ela presumiu que ele se referia a sua perda de visão

— Claro que não. Como poderia?

— Lamento.

— Nunca lamentei tanto quanto agora há pouco, quando o pónei de minha filha disparou e... não pude fazer nada

— Está tudo bem. Nada de mau aconteceu.

— Não vai perguntar o que uma cega faz a cavalo, se não pode cuidar nem de si mesma, quanto mais da filha?

— Parece até que quer ser questionada.

— Acho melhor irmos.

— Se conseguirmos separar a menina do filhote.

— Mais uma vez, obrigada.

— Esqueça. Descobri que Ranger e eu ainda conseguimos saltar obstáculos. Isso é bom demais.

Júlia recordou a imagem de Christian Carver voando sobre cercas em seu cavalo glorioso. Se soubesse o que o destino lhe reservava naquele longínquo dia de primavera, teria fugido de Claymore Park para nunca mais voltar?

Callie deu um grito de prazer enquanto brincava com a cadelinha.

A resposta era óbvia.

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