Emilie Richards



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CAPÍTULO XVII
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher

Como eu previra, minha mãe não ficou nada satisfeita ao saber de meu compromisso. Na Virgínia, Ian Sebastian passava por aristocrata, mas na Quinta Avenida não gozava de maior importância. Em Nova York, ele era só mais um fazendeiro. Meus irmãos, sempre cautelosos, discretamente investigaram a situação financeira e a reputação de meu noivo. Tranqüilizados, tentaram convencer mamãe de que seria um bom casamento, mas ela não se conformava. Eu nunca seria uma das Quatrocentas de Nova York. Ela fracassara na missão.

A cerimônia ocorreu conforme planejamos, sem que ela abençoasse de verdade. Às seis horas, rompendo a tradição, George e Henry me conduziram ao altar, e Annie, agora noiva de Paul Symington, foi minha única dama-de-honra. Meu vestido de renda branca revelava uma porção escandalosa da perna, com cauda de vários metros. A grinalda tinha flores de laranjeira e centenas de minúsculas pérolas que se prolongavam ao véu como uma queda d'água. O buquê, presente de Ian, estava tão carregado de orquídeas, rosas e gardênias de estufa que senti os braços cansados antes mesmo de alcançá-lo.

A fazenda Rio Fox nunca me parecera tão encantadora. Eu me apaixonara por ela no dia em que Ian me arrebatou para cima de seu garanhão e para dentro de sua vida. A casa de dois andares em estilo georgiano com espigão central,

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Era de tijolos cor-de-rosa com detalhe em cinza-claro e um pórtico recuado que sustentava varandas nos dois pavimentos. O Sebastian que a construíra adorava janelas multifacetadas, e o vidro soprado à mão permanecia, distorcendo a vista do campo.



Ian trajava fraque com calça listrada, sem cumprir a ameaça de aparecer com o uniforme de Mestre dos Cães e anunciar minha chegada com uma corneta. O pastor exultou quando fizemos os votos, e Ian colocou uma aliança de ouro no meu dedo. O pastor pigarreou dali a pouco, quando nosso beijo já durava demais para os padrões da decência.

— Vamos ter de fazer uma doação substancial à igreja — comentou Ian, ao deixarmos o altar como marido e mulher.

Ri, mais feliz do que nunca. Minha vida de conto de fadas seguia de vento em popa.

A recepção durou horas. Durante a estadia em Sweetwater, eu apreendera que os virginianos acreditavam que divertir-se era um dever sagrado. Até minha mãe, que procurava defeitos, viu-se em apuros. Então, quando uma tiaavó de Ian, com mais de noventa anos, recitou a linhagem da família recuando até a mansão em Leicestershire onde tudo começara, com um título obscuro concedido por Carlos II, minha mãe se apaziguou o bastante para nos convidar a visitá-los antes de embarcarmos no navio rumo à Europa.

Era quase meia-noite quando o último convidado foi embora. Minha família e os demais convidados de fora foram pernoitar em Sweetwater ou em hospedarias de Middleburg. Quase lamentei quando a casa finalmente se esvaziou, pois até os criados haviam se retirado discretamente. Até aquele momento, o casamento transcorrera como um sonho, a realização dos planos que fazia desde a infância. Agora, casada, eu estava para começar uma vida nova com um homem que mal conhecia.

Não pensara nisso com muita freqüência nos últimos meses. Até que ponto uma mulher podia conhecer um homem? Freqüentávamos ambientes diversos, pensávamos diferente, tínhamos interesses nada afins. Quando nossos caminhos se cruzavam, éramos gentis, até polidos um com o outro.

Mas, amizade, como a que eu tinha com Annie, era improvável.

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Uma mulher esperava que um homem lhe apreciasse os pontos fortes e perdoasse os defeitos, mas compreensão verdadeira era outra coisa.

Agora, cogitava se fizera a escolha errada. Até aquele momento, jamais questionara minha linhagem. Cooperara totalmente com o objetivo de minha mãe de arranjar um marido rico e bem-relacionado e, apesar das dúvidas dela, eu conseguira um. Teria deixado o orgulho sobrepujar o bom senso ao me unir a um homem misterioso?

Ian entrou na sala quando aquele último pensamento me assaltava. Ele me olhou no rosto e deu uma gargalhada.

— É natural, querida, que esteja um pouco preocupada agora.

— É?

— Afinal, acabamos de dar um grande passo, e já vamos dar outro.



Eu imaginara aquele próximo passo com um misto de curiosidade e desejo. Estava bem-informada da mecânica, senão dos detalhes, e achava tudo extraordinário.

— Deve saber — retruquei. — Já foi casado uma vez. Ele acendeu um cigarro e agitou o fósforo para apagá-lo.

— Quer saber como era Francês? Nunca perguntou. Eu não tinha certeza, mas assenti.

Ele deu uma tragada profunda.

— Tínhamos a mesma idade. Ela era da Virgínia, também. A família se estabelecera no condado de Clarke, e tinha raízes tão profundas quanto as dos Sebastian.

— Um casamento perfeito.

— Éramos compatíveis. Às vezes, pelo menos. Mas Francês era geniosa e, quando ficava insatisfeita, voltava para a casa do pai. Passei anos de nosso casamento adulando-a para que voltasse. Na última vez, grávida, ela se recusou a permanecer em Rio Fox, a despeito de termos providenciado a melhor assistência médica. Ela queria ficar com a mãe. Nosso filho nasceu um mês antes do previsto, e o parto foi fatal para ambos. A parteira que os atendeu pouco sabia dos avanços da medicina.

Fiquei desolada.

— Ian, lamento tanto. É uma história terrível.

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- Eu não devia ter lhe contado esta noite, mas não devem haver segredos entre nós.

- Estou feliz que tenha me contado.

Agora, deve entender por que não me animava a me casar de novo.

Senti-me honrada por ser a mulher que conseguira fazê-lo mudar de ideia, que bem podia ter sido a finalidade de ele me contar aquela história. Pus a mão no braço dele.

— Não sou como Francês. Casei-me com você hoje para vivermos juntos os bons e os maus momentos, e permanecerei a seu lado.

Ele suavizou a expressão.

— Esperemos que haja muito poucos maus momentos em nossa vida a dois.

— Ouvi dizer que esta noite pode ser um bom momento, se pararmos de relembrar tristezas e subirmos para o quarto.

— Mas que raposinha assanhada!

— Não sei se sou. Vamos descobrir juntos.

Ele apagou o cigarro e me puxou contra si. Como eu esperava, o que se seguiu representou um bom momento.

O que eu não sabia era que muitos momentos péssimos estavam à espreita.

Júlia não prestara muita atenção à leitura do romance de Maisy. A história de Louisa, romântica e sonhadora, parecia irrealista demais esta noite. Embora a protagonista anunciasse maus momentos porvir, não queria se envolver na vida de outra mulher. Não quando a sua estava aquele caos.

Pedira desculpas à mãe. Embora desejasse que Maisy não interferisse, reconhecia sua razão. Christian estava livre E morando tão perto da filha. Seus caminhos se cruzariam, em breve. Quanto tempo ele levaria para perceber a verdade?

Não haveria final feliz naquela história. Christian fora muito injustiçado, e cada dia sem saber sobre Callie era mais um castigo que ele não merecia.

Entrelaçou os dedos sob a nuca e fitou o teto cegamente. Como Uma história que começara tão bem pudera terminar de forma tão trágica? Imaginou se o objetivo de Maisy, ao

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escrever a ficção de Louisa, não fora lhe dizer para manter a esperança viva. Seria Rio Fox um recurso meio demente de lhe mostrar o caminho de volta a Christian?



Cerrou as pálpebras. Estava sendo injusta, e sabia disso. Maisy não conspirava para reuni-los. Só queria que a filha fizesse o que era certo, que contasse a Christian que ele tinha uma filha.

Recordou a época em que contava tudo a ele, embora ele quase sempre lhe adivinhasse os pensamentos antes que se manifestasse. A maravilhosa intimidade começara na Corrida da Primavera de Middleburg e terminara em um tribunal.

No entanto, continuava em suas lembranças.

Na festa após a corrida, Christian Carver deu atenção as duas garotas, cuidando para não demonstrar interesse maior por nenhuma delas. Mas Júlia tinha certeza de que ele estava de olho em Fidelity.

Exausta, com a guarda baixa e os hormônios em explosão, voltara com Fidelity para Southerland, pois dormiria lá. Como a amiga, vestira-se com mais capricho para prestigiar a competição, e alisou a saia com cuidado antes de se deitar. Fidelity largava as roupas no chão ao se despir, pois alguém as recolheria no dia seguinte, para lavar na máquina ou mandar para a tinturaria. Em casa, quando Júlia largava alguma coisa no chão, lá permanecia até que ela mesma a recolhesse.

— Está bem, gosto de Christian — confessou Júlia, de joelhos dobrados, apoiando a cabeça do cotovelo para ver Fidelity. — Ele é diferente.

— Concordo. É órfão, e o pai dele incendiou o estábulo de Claymore Park. Quer mais?

— Sei que ele não é filho de milionário.

— Mas Robby é. — Fidelity soergueu-se. — O que acha dele?

— Sempre gostei de Robby, também.

Parece que ele fica mudo quando estou por perto. —Fidelity riu. — Para um garoto rico e inteligente, ele não demonstra muita confiança. Precisa se fortalecer. Pena que

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vá estar ocupada demais com o melhor amigo dele para ajudá-lo nisso...

Fidelity estava sempre à espreita, experimentando a vida, tomando o que era bom e descartando o que não valia a pena. Não era cruel, até tinha bom coração, mas não conquistar a vaga na equipe olímpica fora uma grande frustração, a primeira. Ela ainda acreditava que fora injustiçada.

- Christian não me parece do tipo com quem se pode brincar — opinou Júlia. — Ele não é como você, Fidelity. É sério. Passou por dificuldades e teve de amadurecer rápido. Acho que ele não gosta de joguinhos.

Joguinhos? De que joguinho está falando, posso saber?

— Você não quer namorado sem dinheiro.

— É, mas ele passa. É bonito. Após tanto tempo com os Claymore, virou um rapaz fino. Não reparou como estava à vontade na festa hoje? Ah, e é membro do Mosby Hunt. Papai disse que Christian é o melhor batedor que tiveram nos últimos anos.

— Hoje foi herói, mas amanhã volta a recolher estrume no estábulo de Claymore Park.

— E daí? Eu também recolho estrume.

— Você nunca levantou uma palha em sua vida, Fidelity.

— Mas sei recolher estrume, se um dia precisar. E eu mesma cuido dos meus cavalos, mas disso você nem desconfia, porque não chega perto deles.

— Só estou dizendo que é melhor ir devagar com Christian. Não se cansa de despedaçar corações?

— Ora, vamos, nunca despedacei coração nenhum. Só os dilacero um pouco. Se me enjoar do Christian...

— Quando se enjoar do Christian...

— Ele vai se conformar. Já é homem e sabe se comportar como tal.

Júlia perdeu a paciência.

— Talvez devesse se comportar como adulta, também, Para variar.

Fidelity arqueou uma sobrancelha perfeitamente depilada.

Está gostando dele? Daí esta discussão? Bem, se o quiser, posso reconsiderar...

- Nada disso. Não quero suas migalhas.

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Fidelity deitou-se e contemplou o dossel da cama.

— Você precisa ser mais determinada, Júlia. Está deixando o caminho livre.

— O quê?

— Nunca desejou nada em sua vida. Agora, quer Christian, mas mesmo assim o entrega a mim de mão beijada.

— O que quer que eu faça? Que arranque seus olhos?

— Não notou para quem ele ficou olhando esta noite?

— Não tenho sexto sentido, como você.

— Para você, sua tonta! Joguei todo o meu charme para cima dele, com covinhas e tudo, mas ele só tinha olhos para você.

Júlia estava perplexa.

— Sabe como conquisto os caras? — instigou a amiga

— Exibindo cada célula de seu corpo perfeito?

— Escolhendo com cuidado. Só parto para cima daquele que sei que vou conquistar. É só isso. Para que dar murro em ponta de faca? A única vez que desejei algo fora do meu alcance, perdi. Christian gosta de você. Reconheço os sinais.

— E não está zangada?

— Ora, tem muito peixe no oceano. Todos prontos para ser fisgados.

Júlia ficou sem saber o que fazer. Temia que Fidelity estivesse enganada. Então, considerou que talvez Christian hesitasse em convidá-la para sair, considerando que as duas eram amigas íntimas. Certo dia, ao voltar da escola, encontrou-o na varanda de casa, com Maisy a paparicá-lo.

Estacionou o carro ao lado da picape de Claymore Park e rumou ao encontro deles, tentando parecer descontraída. De vestido mexicano bordado e botas de caminhada, Maisy a saudou e entrou correndo em casa. Não sabia o que a espantava mais, se a presença de Christian ou a discrição da mãe.

— Que boa vizinhança! — comentou, à guisa de cumprimento. — Parou só para conhecer minha mãe?

— Pensei que chegasse em casa mais cedo.

Teria se apressado, se soubesse que ele a aguardava. Sentou-se no degrau ao lado dele, aliviada por ter-se arrumado

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melhor naquele dia. Alisou a saia de malha sobre os joelhos.

Tem colhido muitas vitórias?

- Não. E você?

Também não.

Ele se levantou.

— pena, mas tenho de ir. Já demorei demais. Júlia mal disfarçou a decepção.

Oh...

— Eu devia ter telefonado. Cheguei há uma hora. Tenho aula à noite e preciso me preparar. Você me acompanha até a picape?



Percorreram o caminho em silêncio. Christian saiu pelo portão, fechou-o e se apoiou na barra superior.

— Por que não monta?

Ela não conseguia raciocinar. Ele sorriu, encorajador.

— Não é porque vocês não têm cavalos aqui, certo? Poderia montar em Southerland, se quisesse.

— O que foi que Fidelity disse?

— Nada. Só que você não gosta de cavalos.

— Então, conversaram. Veio aqui porque Fidelity lhe disse para vir!

— Vim porque ela me deu a desculpa perfeita.

— E precisava? Christian sorriu charmoso.

— Eu não queria cometer nenhum erro com você. Júlia sentiu falta de oxigênio e respirou fundo.

— Admito, tenho medo de cavalos. Não sei por quê, mas eles me aterrorizam.

— Bem, eles são grandes. Todo mundo fica apreensivo no começo.

— Eu não fico só apreensiva. Começo a suar frio. Tremo tanto que não consigo segurar as rédeas. Sinto enjoo.

— Mas só quando monta? Júlia riu incrédula.

Fidelity tentou me ensinar. Acredite. Eu queria aprender. De verdade. Mas ela não entende minha reação. Ninguém

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entende, nem eu. Simplesmente... — Fez pausa. - Por que você e Fidelity estavam falando de mim? ”””

— Bem... Eu só quis me certificar de que não estava invadindo o território de ninguém.

Júlia aliviou-se, e então alegrou-se.

— Não tenho medo de mais nada. Já escalei montanhas. Atirei-me de bote em corredeiras... e sou a melhor amiga de Fidelity há anos. Isso deve significar alguma coisa. Christian sorriu, injetando mais oxigênio nas veias dela

— Júlia, quero ensinar você a montar. Confia em mim. Sou paciente, vamos dar um passo de cada vez.

Ela ponderou sobre o que falavam de fato.

— Vamos tentar? — pressionou ele.

Júlia imaginou-se no lombo de um cavalo, bem acima do chão, escorregando de um lado para o outro sobre o animal indiferente... com Christian a seu lado.

Era possível ensinar alguém a montar sem tocar na pessoa? Provavelmente, não.

— Gosto de ver que pensa antes de se decidir — elogiou Christian.

— Você tem um cavalo bem mansinho? Não vai me colocar em cima de Night Ranger, vai?

Ele lhe tomou a mão e a apertou.

— Que tal começarmos amanhã? Antes que perca a coragem. Chegue bem cedo. É sábado.

— A que horas?

Ele lhe soltou a mão.

— Às sete. Preciso passear com os cachorros às oito. Temos uma hora para sua primeira aula.

Júlia o observou se afastar. Tinha um gingar solto, descontraído. Só quando a picape desapareceu na estrada, deu-se conta da loucura com que concordara por amor. Mas era tarde demais para mudar de idéia.

Nas semanas seguintes, Robby, Christian, Fidelity e Júlia Arranjaram um milhão de desculpas para se encontrarem, nos arranjos mais variados. A amizade permanecera adormecida por muitos anos, porém agora desabrochava. Nadavam, comiam, ouviam música. Iam ao cinema e faziam churrasco,

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apenas acostumando-se novamente uns com os outros, tornando-se velhos amigos, pois amigos já eram. Júlia não se sentia nem um pouco à vontade com Christian. Nunca vivenciara aquele turbilhão de emoções, as mãos suadas, as pernas bambas, a febre da atração sexual. A cada novo encontro com ele, as sensações intensificavam-se.



Flagrava-se reparando em detalhes mínimos. Nos pêlos dourados que cobriam os antebraços bronzeados dele. No contorno forte do queixo e no ângulo do nariz. Na breve hesitação que demonstrava antes de dar a sua opinião, como se não pudesse ser negligente, nem mesmo no calor de uma discussão. Sempre que analisava os próprios sentimentos, percebia que não se tratava só de atração física. Christian era um homem de verdade. Dizia o que pensava, e não recuava. Era forte em todos os aspectos que importavam.

Embora ela se revelasse a pior aluna de equitação da história da humanidade, ele não desistia. Tinha uma paciência infinita. Infelizmente, seu autocontrole também era extraordinário.

Um mês inteiro se passou antes que Júlia se sentisse confiante o bastante para dar uma volta no curral de Claymore Park sem Christian também estar montado a seu lado. Não imaginava o porquê de tanto terror, mas o medo lhe parecia uma emoção aceitável, naquelas circunstâncias. Os cavalos eram criaturas enormes, imprevisíveis e hipersensíveis. Assustavam-se com qualquer barulho e até com uma folha de jornal rodopiando no chão. Mordiam, pisoteavam e escoiceavam.

Mas também a faziam se sentir alta, muito alta, quando montada em um deles... ao menos agora que começara a vencer o medo.

Em meados de junho, com seis semanas de treinamento, Júlia já conseguia trotar e, graciosamente, manter um meio-galope. Agora, mal podia esperar para montar e detestava quando acabava a aula. Graças às aulas de equitação, tivera contato com Christian quase diariamente. Sempre paciente, ele a confortara e exigira o bastante para fazê-la querer superar os temores. Superada a pior fase, passara a dedicar as vinte e quatro horas do dia a aguardar o momento de estarem juntos novamente.

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— Você tem todos os instintos certos de uma amazona. — concluiu Christian, ao final de dois meses. O dia findava mas o sol de verão descia devagar. — A filha de Harry Ashbourne tinha que ter herdado o talento dele.

Júlia ficou radiante com o elogio, muito mais convincent vindo dele. Até então, vivera isolada do mundo eqüestre que a cercava. Agora, não só montava, como fazia parte da aristocracia, a filha de uma lenda.

Christian conduziu Night Ranger ao encontro de Whitey, a velha égua confiável com a qual Júlia aprendera.

— Antes que inche de orgulho e fique grande demais para a montaria, vamos tentar um desafio maior.

Ela inclinou a cabeça para o lado e sorriu para o instrutor. Daquele ângulo, podia ver cada fio de seus cabelos queimados de sol que escapavam do chapéu de caubói. A calça jeans não podia ser mais velha e empoeirada, a camiseta tinha cor de capim no inverno. Resumindo, era lindo de morrer!

— Talvez não esteja sorrindo quando terminarmos — advertiu ele.

— Sinto-me capaz de tudo.

Christian sorriu, empurrando o chapéu para trás.

— Alguns homens interpretariam isso como um convite.

— Bem, alguns homens são mais ousados do que outros. Agarram o que querem.

— E é desse tipo de homem que gosta? Júlia fingiu considerar, e então sorriu.

— Qual é o desafio de hoje?

— Vamos dar um passeio no campo. Você precisa praticar fora do curral.

Ela ficou surpresa e gostou da ideia.

— Já? Confia em mim?

— Eu confiaria em uma criança de cinco anos em Whitey. Ora, claro que confio. Vamos. — Christian montou na sela.

— Ranger ainda não se exercitou hoje. Não costumo sair com ele só para passear, mas vou abrir exceção, porque é dia de comemoração.

Na infância, Júlia sonhara galopar pelos campos, atravessando florestas, subindo colinas. O medo tornara o sonho

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impossível, mas agora Christian lhe dava esperança. Iniciou o passeio ansiosa, mas, depois que se acostumou com o ritmo tranqüilo, descontraiu-se. Christian disparou na frente e então voltou a galope, para gastar a energia do puro-sangue. Lado a lado, venceram o pasto ondulado a trote. Depois, reduzindo a marcha a uma caminhada, prosseguiram calados por algum tempo.



Em que está pensando? — indagou Christian, finalmente.

- Estou adorando. Deve ser essa a sensação de caçar. Mais ou menos.

Com o detalhe de não estarmos usando roupas engraçadas.

Júlia riu.

— Tenho fotografias de meu pai vestido como mestre. Ele está... arrebatador. Isso mesmo. Gosto daquelas roupas engraçadas.

— Vai querer caçar?

— Não.

— Por que não? Já aprendeu a montar.



— Porque teria de saltar obstáculos. Sem chance.

— Pena que pense assim, porque será sua próxima aula. Ela deixou de sorrir.

— De jeito nenhum.

— Mas é a próxima etapa da aprendizagem.

— Não quero aprender a saltar. Eu só queria me sentir à vontade em cima de um cavalo.

— Sabe que seria muito bem-recebida no Mosby. Agora que Fidelity entrou para o clube, só falta você. Robby também participa, quando não está tentando deixar o pai zangado.

— Ninguém perdoa minha mãe por ter fechado Ashbourne.

— Você não tem nada a ver com o que ela fez. E seu Pai era mestre. É só disso que o pessoal vai se lembrar quando se integrar ao nosso grupo.

— Não monto bem o bastante para caçar raposas.

— Mas gostaria?

Whitey agitou-se um pouco, e Júlia a controlou sem Pestanejar.

— Não sei. Na temporada, ouço os cães de manhã bem cedinho, em Claymore Park ou em Southerland, e... não sei Se teria coragem.

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— Mas já progrediu tanto. Empenhe-se um pouco mais. Prometo ir devagar. A sensação é de estar voando. Como se tivesse asas.



Se fosse outra pessoa sugerindo, Júlia teria se negado de forma irredutível. Mas Christian parecia capaz de convencê-la a qualquer coisa.

— Como começaríamos?

— Há um obstáculo baixo logo à frente. Mais fácil, impossível. Nem vai se dar conta de que o ultrapassou.

Ela sentiu o coração aos pulos só de imaginar.

— Não sei...

— Vamos dar uma boa olhada nele, depois você decide. Adentraram o bosque que bordejava o pasto e desceram a colina até uma velha ponte de pedra. Dez minutos depois, Christian anunciou:

— Ali!

Contra o céu que escurecia, Júlia viu uma cerca irregular, com um seção mais baixa do que as outras.



— Especialmente para nós — definiu Christian. — Mais fácil, impossível.

— Talvez para você. Pararam na entrada do campo.

— Quer que eu salte primeiro? Ela ganharia tempo.

— Quero.


Christian colocou Night Ranger em trote e, antes que Júlia piscasse, o grande cavalo cinzento voava sem esforço sobre a cerca. Christian e o cavalo desapareceram na mata além, deram meia-volta e saltaram por sobre o obstáculo novamente, e em um segundo, estavam a seu lado outra vez.

— Que tal?

— Acho melhor voltar para casa. Já passou do toque de recolher.

Ele devia ter constatado seu medo. Era mesmo impossível esconder um pavor tão paralisante.

— Não quero cair — explicou Júlia. — A possibilidad" de cair me aterroriza.

— Qualquer hora, vai cair. Quem cavalga cai, de vez em quando. É normal. Mas é por isso que estou lhe dando aula.

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para que crie bons hábitos e evite quedas. Se cair durante a caçada, terá de contribuir para uma festa no final da temporada. Você e os outros que tiverem passado pelo mesmo vexame. É tudo brincadeira. — Ele a fitou. — Vamos lá, juntos?



— Não.

Está segura comigo.

Não há espaço para os dois cavalos saltarem ao mesmo tempo.

- Não, quero dizer nós dois juntos em Night Ranger.

Como?

Christian desmontou e segurou as rédeas do garanhão.



— Amarre as rédeas de Whitey naquele toco. Ela espera aqui. Júlia hesitava.

— Algum problema, Jules?

Ela sorriu ao uso do apelido. Christian começara a chamá-la assim na primeira aula, mas só quando ninguém mais podia ouvir.

— Não.


— Então, desça daí. Logo vai estar escuro.

Júlia obedeceu. Amarrou as rédeas da égua no toco de um galho e se aproximou de Christian.

— Estou acostumada com Whitey. Night Ranger me assusta.

— Estarei junto. Não vai acontecer nada, prometo. Vamos, eu seguro as rédeas enquanto você monta.

Ela quase desistiu. Ele devia ter visto em seus olhos, pois a tomou pela cintura e, antes que ela piscasse, beijou-a.

Ela sentiu o chão lhe fugir aos pés. O céu desceu. Abraçou-o e retribuiu os beijos sem a menor hesitação.

Finalmente, ele recuou, mas só depois de beijá-la no rosto, no queixo, na testa.

Christian, meu pai quebrou o pescoço e morreu ao cair de um cavalo.

— Pelo que sei de seu pai, foi ele quem quis assim. Quem o conheceu diz que parecia um demónio. Harry Ashbourne gostava de se arriscar. Mas você não precisa se arriscar. Entende o que quero dizer?

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A vida apresentava muitos riscos, mas nenhum tão pessoal quanto aquele. Tinha poucas recordações do pai; mas lembrava-se de um homem poderoso que desprezava a fraqueza. Agora, quase podia ouvi-lo instigando-a a não se entregar ao medo.

— Aliás, notou que beijei você? — provocou Christian

— Podemos falar disso depois?

— Só me diga se vai querer que a beije de novo. Ela lhe tomou o rosto e beijou com força.

— Christian, temos de saltar agora, antes que o beijo se esgote e o sol se ponha.

Ele sorriu.

— Montando!

Júlia viu-se na sela de Night Ranger antes de ter tempo para reconsiderar.

— E você?

— Já estou indo. — Christian montou atrás dela. Embora Júlia fosse pequena, a sela não podia comportar ambos com folga, mas essa era a última de suas preocupações. — Enganche seus pés nas minhas pernas, porque vou ficar com os estribos. E se recoste em mim.

Isso foi fácil... e excitante. Ele a circundou com os braços e firmou as rédeas nas mãos.

— Prepare-se para voar, Júlia. Não precisa fazer nada Só se deliciar.

Ela mordiscou o lábio, que Christian acabara de beijar

Ele nem lhe perguntou se estava pronta. Devia saber que não estava nem ficaria. Colocou Night Ranger em trote.

— Pois bem, quando deixarmos o chão, incline-se para a frente e faça pressão com os joelhos. Estou segurando você com firmeza e não vai cair. Mas não feche os olhos.

Júlia estava aterrorizada. A cerca aproximava-se com incrível velocidade. Chegou a pensar que não conseguiriam saltar por cima dela, mas então temeu que fossem...

E saltaram.

Christian freou o garanhão ao aterrissarem no outro lado.

— Tudo bem aí?

Júlia temia ter deixado alguma parte sua para trás.

— Não sei...

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- Como se sente? não sabia ao certo.

Christian impeliu Ranger para a frente e o fez dar meia-volta. Desta vez, Júlia controlou-se e, quando alçaram voo, agachou-se e apertou os joelhos.

Isso, muito melhor.

saltaram outra vez. E outra.

Finalmente, Christian freou o garanhão e desceu da sela, mas não estendeu a mão para Júlia.

- Sua vez, Jules. Vai saltar sozinha agora. Ela não estivera amedrontada a ponto de não sentir o corpo rijo de Christian junto ao seu, a força de seus braços. Não posso. Não em Night Ranger.

— Quem melhor?

— Ele vai me ouvir?

— Só há uma maneira de sabermos...

Júlia analisou o sorriso de Christian. Era um desafio. Endireitou os ombros e aguardou enquanto ele encurtava os estribos. Suas mãos tremiam, e tinha certeza de que o garanhão reagiria mal à apreensão da amazona. Mas a montaria se mantinha imóvel, esperando a ordem. Era agora ou nunca. Se recuasse, jamais chegaria a este ponto novamente. Fecharia de vez aquela porta em sua vida.

E Christian a consideraria covarde.

-— Apenas lembre-se de não se levantar pouco antes do obstáculo ou durante o salto — recomendou Christian. — É a pior coisa que pode fazer. Concentre-se, e vá. Night Ranger fará o resto.

— Lá vou eu. — Júlia pegou as rédeas e apertou Ranger de leve. O garanhão começou a trotar rumo à cerca, tão descontraído quanto na primeira vez. Saltaram juntos, voando. Ela nem perdeu o prumo quando aterrissaram no outro lado. Deram meia-volta e repetiram do lado de lá.

Christian os aguardava junto de Whitey, de braços abertos. Assim que Night Ranger estacou, Júlia pulou para o chão e se atirou nos braços dele.

Eu sabia que conseguiria! — elogiou ele. Foi maravilhoso! Maravilhoso!

Estou tão orgulhoso de você. — Christian lhe tomou

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o rosto nas mãos. — Se conseguiu superar isso, conseguirá qualquer coisa. e



Os olhos dela brilhavam. Não os fechou quando ele a beijou novamente. Agarrou-o e o puxou com toda a força. O triunfo transformou-se em outra coisa. Afastou-se um pouco.

— Você me beijou aquela hora só para me dar coragem? Ambos ofegavam.

— Beijei você aquela hora porque não agüentava mais — Christian lhe abriu a presilha e amaciou os cabelos. Beijou-lhe o pescoço. — O instrutor não deve se aproveitar da aluna.

— E se ela quiser que ele se aproveite?

— Ela quer?

Júlia o beijou em resposta. Ele grunhiu.

— Bom, acho melhor irmos devagar. Quero que se acostume com a idéia, até porque pode mudar de idéia. Se continuar decidida, erguemos todas as barreiras.

Ela o segurou pelos ombros.

— Podemos erguer as barreiras já. Andamos marcando o passo demais, não acha?

— Percebe o que está dizendo?

— Estou dizendo que me apaixonei por você na Corrida da Primavera de Middleburg. Aí, tive de aprender a montar só para chamar a sua atenção. Já esperei demais.

— Jules, sempre teve a minha atenção.

Christian estreitou-a contra si conforme se deitaram na relva macia. Ranger afastou-se para examinar o pasto perto de Whitey, e o céu mergulhou na noite. Júlia sentiu o solo úmido sob as costas quando Christian a despiu, mas nem ligou. Ele a aquecia, jovem, forte e quase tão inexperiente quanto ela. Nada mais importava. Tocaram-se, beijaram-se e riram. Quando ele finalmente a penetrou, contorceram-se juntos, em êxtase, sob o olhar satisfeito dos eqüinos a pastar por perto.

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