Emilie Richards



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CAPÍTULO XVI
Tantas noites em Ludwell, Christian acordara de sonhos nos quais cavalgava. Prometera a si mesmo que, se por um milagre conseguisse sair da prisão antes de morrer, a primeira coisa que faria era selar um garanhão e sair a galope. Contudo, ainda não montara em um cavalo desde a soltura.
— Christian, precisa ver uma coisa — comentou Peter, adentrando a cozinha.

Christian terminava o jantar. Passara os três últimos dias no canil, conhecendo os cachorros e aprendendo a trabalhar com os funcionários, Fisher e Gorda, que compreensivelmente se ressentiam do aparecimento súbito de um chefe. Sem dúvida, invadia o terreno deles. Quanto a cavalgar, simplesmente ainda não tivera a oportunidade.

Ou não fizera a oportunidade. Não tinha muita certeza.

Olhou para Peter, que, fora de seu normal, sorria largamente.

— O quê?

— Venha ver. Já terminou aí não?

Peter passara fora a maior Parte do dia. Christian desconfiava de que agora descobriria Por quê. Levou o prato ao balcão. A governanta, Rosita Já deixara claro que ele não deveria executar nenhuma tarefa doméstica.

— Teve um bom dia? indagou Peter, enquanto saíam.

— Produtivo. Acho que vou me dar bem com Fish e Gorda.

— Fish logo se acostuma com você. Gorda não cria caso, desde que não tenha de fazer todo o trabalho sujo sozinha. Fish costuma sumir nessas horas-

— Vamos dividir o trabalho, sim.

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- Sei que fará sua parte, mas lembre-se, filho, que tem peixe maior para fritar. Sua primeira responsabilidade é com o canil e os cavalos do estábulo, mas quero que reserve uma parte do tempo para trabalhar com alguns dos competidores com obstáculos. Estava para se tornar um treinador de primeira

Pode dizer, Peter. Não me esqueci de onde estive.

Odeio a palavra prisão. Odeio o que aconteceu.

Eu idem.


Peter riu, e a tensão se esvaiu conforme se aproximavam do estábulo.

Então, prepare-se para rever um velho amigo.

Christian pensou em vários velhos amigos que ainda não” estava preparado para reencontrar. E naquela que surpreendera no escuro em Ashbourne, a que menos desejara rever.

Peter acionou um interruptor, e mais luzes se acenderam. Começaram a percorrer o corredor central, ladrilhado em intrincado padrão ziguezague. As paredes de abeto marrom-douradas reluziam de verniz; as portas das baias tinham ferragens suficientes para manter os empregados ocupados por horas. Após o incêndio, Peter reconstruíra o celeiro segundo as plantas originais, de modo que permanecia fiel à lembrança que Christian guardava da infância. Só a selaria central fora substituída por duas salas no extremo de cada ala. Christian imaginava se Peter não fizera a modificação para não pensar em Gabe Carver toda vez que entrasse lá.

Peter o chamou para uma baia quase no fim da fileira.

— Conhece este camarada?

Night Ranger relinchou uma saudação.

— Não acredito... — Christian passou a mão no focinho do animal. — Como conseguiu?

— Lembra-se de que o vendemos para uma fazenda do Kentucky?

Sim, Christian lembrava-se. A transação se realizara três meses após o assassinato de Fidelity, uma oferta boa demais para Peter recusar. Ainda em liberdade após pagamento de fiança, pudera despedir-se do cavalo predileto, mas aquele não fora um dia nada bom.

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— Que aconteceu com ele depois?



— Competiu por algum tempo. Apresentou bom desempenho, mas machucou um joelho. Conseguiu se curar, só que os donos se desinteressaram e o venderam a uma fazenda menor, que o vendeu a outra menor ainda... —Peter expressou desgosto. — Acabou em um celeiro em Maryland. Sem cuidados, não vivia muito bem. Nosso velho amigo aqui estava para se tornar comida de cachorro.

Christian continuava afagando o cavalo, que não si esquivava.

— Ei, companheiro, está em casa agora.

— Acho que não vamos demorar para colocá-lo em forma outra vez. Boa alimentação e pasto, exercícios corretos e cuidados. Nunca o devia ter vendido. Era seu favorito.

— Eu não ia mesmo estar aqui para treiná-lo.

— Bem, é minha oportunidade de me redimir com os dois. Ele é seu. Seu nome está na nota de venda.

Christian recuou.

— Não posso aceitar.

— Por que não?

— É um cavalo muito valioso.

— Não mais, a não ser para você e para mim, talvez. Mas ele ainda tem bons anos pela frente. Apesar da idade, pode se sair bem em caçadas. Como batedor, você vai precisar de uma montaria confiável. Ranger é perfeito.

Night Ranger relinchou, como se concordasse.

Então, Christian soube por que não cavalgara ainda. Estava esperando por seu animal favorito, uma das maiores presenças em seu passado.

— Vamos dar uma volta — decidiu. — Vem conosco?

— Acho que não. Vocês dois têm muita conversa para pôr em dia. — Peter deu-lhe um tapa nas costas antes de se retirar.

Christian fitou o animal a sua frente.

— Ambos passamos por maus bocados, não é mesmo? Night Ranger o focinhou, como se realmente entendesse e concordasse... ou como se quisesse uma maçã. Christian riu.

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Bom, vamos ver se conseguimos esquecer um pouco o que passou.

Júlia apreciava noites tranqüilas. Bard costumava sair após o jantar para reuniões de negócios, e ela, após colocar a filha na cama, aproveitava aquelas horas livres para pintar. Agora que não podia mais fazê-lo, dispunha de tempo demais para pensar, as mãos imóveis e inúteis, a mente vagando por lugares que não queria visitar.

Esta noite, sentada na varanda frontal, analisava os sons noturnos. A família acabara de jantar, e Callie fora montar em Feather Foot sob o olhar atento de Jake. Ainda pensava na sessão que tivera com Yvonne pela manhã, quando falara de Christian e Fidelity. Revelara à terapeuta que Christian era o pai de Callie, embora ele nem desconfiasse de que tinha uma filha.

— Esconder a filha dele deve ter sido uma decisão difícil — comentou Yvonne. — Devia estar muito zangada.

— Não, eu o amava. — Júlia engoliu em seco. — E ele me amava. — Pensou no homem que se confrontara com ela na escuridão, e lágrimas encheram seus olhos. — Mas foi há muito tempo.

— Gostaria de falar a respeito?

— Deve ler os jornais.

— Leio.


— Então, sabe que ele foi acusado de um crime que não cometeu.

— Li sobre isso, sim.

, — Fidelity, a moça assassinada, era minha melhor amiga. Éramos mais chegadas do que irmãs.

— E Christian?

— É uma longa história. Complicada.

A voz de Yvonne se intensificou, como se ela se inclinasse Para a frente.

Sou paga para ouvir histórias complicadas. A vida é confusa.

- A minha é.

Sendo assim, deve ter muitas coisas para me contar. por que não começa por Fidelity?

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Júlia partiu da época em que tinham seis anos. Tornaram-se amigas quando cursavam a primeira séri. Naquele inverno, haviam participado do mesmo grupo de leitura na biblioteca local, fantasiadas de folha de outono e árvore, ilustrações vivas da história predileta da bibliotecária. Foi quando juraram ainda representar princesa ou fadas, mas nunca mais plantas da floresta.

Southerland era uma das fazendas mais próximas de Ashbourne, mas Maisy deixara de freqüentar a sociedade ao enviuvar, arrastando Júlia consigo para a obscuridade. Não obstante, as duas garotinhas, ao serem reapresentadas, tornaram-se inseparáveis.

Fidelity estudava em colégio particular, Júlia freqüentava uma instituição pública, mas nas horas livres as duas gostavam de nadar na piscina dos Sutherland, ou no córrego de Jeb Stuart. Também jogavam tênis, brincavam de boneca e iam ao cinema. Colhiam maçãs e uvas em Ashbourne, riam de tudo, dormiam uma na casa da outra e não se deixavam separar, de modo que Fidelity tornou-se presença tão comum em Ashbourne quanto Júlia em Southerland.

Quando Maisy se casou com Jake, as meninas foram damas-de-honra. Tinham treze anos quando Flô as levou para Paris, onde saborearam escargots e trufas e perambularam pelo Quarteirão Latino.

Na adolescência, já não podiam passar tantas horas juntas, mas a amizade continuava sólida. Fidelity ia às mostras de arte para ver os trabalhos de Júlia, e posava quando a amiga precisava de modelo. Quando Fidelity completou dezesseis anos, Júlia lhe deu de presente um retrato a óleo tão bonito que outras famílias lhe encomendaram trabalho. Por sua vez, Júlia comparecia aos eventos hípicos para ver a amiga competir. Fidelity cobiçava uma vaga na equipe olímpica de equitação, e os Sutherland gastavam uma pequena fortuna em cavalos e treinamento especial para ela. Mas todas as vagas foram preenchidas por atletas mais experientes, e foi no ombro de Júlia que Fidelity amargou sua decepção.

Então, Christian Carver entrou em suas vidas, e nada nunca mais foi igual.

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Uma dobradiça rangeu e Maisy ralhou:



Fica sozinha demais aqui.

júlia levou a mão ao peito.

Você me assustou.

Não tive intenção. Pensei que tivesse ouvido a porta.

Não, acho que estava a milhares de quilómetros daqui. Ou dez anos recuada no tempo...

Sei de um lugar melhor onde pode pensar.

Qual?

Venha comigo. Júlia levantou-se, feliz com a interrupção.



— Deixe-me colocar a mão em seu braço.

Minutos depois, Maisy a instalava em uma cadeira na varanda fechada atrás da cozinha. O recinto já servira como estúdio, sala de exercícios e até galinheiro, no ano em que Maisy cismara que precisavam de ovos frescos. Ultimamente, transformara-se em depósito, mas era evidente que o tinham esvaziado e arrumado.

— Eu lhe pediria que não espiasse, mas acho que não há necessidade — brincou Maisy.

Júlia considerou que progrediam, se até sua mãe já conseguia fazer graça a respeito de sua cegueira.

— Não perde por esperar. Estou catalogando mil piadas a respeito de suas dietas fracassadas.

— Já conheço todas. Naquela paranóia do bug do milénio, estoquei comida o bastante para encher um armazém.

— Eu daria tudo para ver o que ainda tem.

— Verá.


— O que estamos fazendo aqui, Maisy?

— Vai ter uma surpresa.

Maisy era a rainha das surpresas. Júlia as tivera ao longo de toda a infância. Suas sobremesas favoritas, bonecas de pano criadas a sua imagem e semelhança, flores do campo em vasos de vidro sobre a cómoda.

Tive uma infância maravilhosa — reconhecia. — Eu era quase tão mimada quanto Fidelity.

— Que nada. Eu adorava aquela enjoadinha, mas Flô e Frank não lhe deram chance de desenvolver um bom caráter. A menina só fazia nadar contra a maré.

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— Mas nadava bem.

— Ainda sente falta dela, não é?

— As nuvens nunca me alcançavam quando eu estava com Fidelity.

— Nuvens?

Júlia ainda recordava a sessão com Yvonne.

— Do que se lembra de minha infância, Maisy? Eu era feliz?

Maisy ficou tanto tempo calada que Júlia achou que ela não ia responder.

— Você não era infeliz — assegurou a mãe, por fim.

— É a sensação que tenho. Não era infeliz, mas vivia em busca de alguma coisa. Precisava de algo que não tinha

— Do sol.

— Pode ser. E Fidelity me trouxe o sol. Às vezes, ela nos ofuscava. Percebo agora. Mas eu preferia ter demais do que de menos.

— Eu nunca soube o que fazer por você. Acho que ainda não sei.

— Não precisa fazer nada. Essa luta é minha.

— Bem, tenho aqui uma coisa que pode ajudar. Estenda a mão.

Júlia atendeu ao pedido e tocou em algo frio e úmido. Enterrou os dedos na massa e um odor pungente desprendeu-se

— O que é? Argila?

— Jake e eu montamos um pequeno estúdio para você. Nada de mais. Mas tem três tipos de argila, rolos, instrumentos de madeira para modelar e produto para limpar as mãos. Poderá se ocupar disso por horas, se quiser. Não pode ver seus desenhos, mas poderá sentir suas esculturas

Júlia apertou a mão e a argila cedeu mais. Daria trabalho amaciá-la, e a perspectiva da tarefa a animava.

— Que grande idéia! Como surgiu?

— Já trabalhei muito com argila. Sei o quanto pode ser terapêutico.

— Terapêutico?

— Espere, deixe-me puxar a mesa para perto de você. É pouco maior do que uma mesa de jogo, mas tem tudo de que você precisa.

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- Por que terapêutico?



, Ao manusear argila, consegui superar a morte de seu pai e e retomar a vida. Trabalhei questões do tipo: ”Quem sou? Para onde vou?” Dilemas de todos nós. — Maisy hesitou. — Dilemas que você não estava enfrentando quando perdeu a visão.

- Maisy...

Estou errada?

Invade terreno perigoso.

Topei com Peter Claymore na cidade hoje à tarde.

-E?


Ele me contou que Christian esteve aqui há duas noites para me visitar.

Júlia desejou atirar a placa de argila contra a parede. Em vez disso, ergueu-a e começou a lançá-la de uma mão para a outra.

— Você o viu? — pressionou a mãe.

— Como?


— Desculpe-me, eu não quis...

— Conversamos. Eu estava sozinha no jardim, no escuro. Não que fizesse diferença para mim. Ele chegou pelos fundos, por trás de mim. Disse que veio visitar você.

— Onde estava Callie?

— Já tinha entrado.

— Não receou que ela saísse a sua procura?

— Ela quase saiu.

Qualquer hora, ele vê a menina, Júlia. É melhor decidir já o que fazer quando isso acontecer.

— Ele não vai voltar, Maisy. Está... magoado e zangado. Acho que me odeia. Não vai se arriscar a me ver de novo.

— Ele sabe que você está morando aqui?

— Não sei o que ele sabe! — Júlia respirou fundo. — Desculpe-me.

- Por quê? Por se zangar com a minha insistência? Acontece que não posso deixar de falar. Callie é minha neta, e christian é o pai dela.

Consta na certidão de nascimento dela que o pai é Lombard Warwick. Ninguém precisa saber de nada além disso.

Já se deu conta de que metade da cidade especula

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quem é o verdadeiro pai dessa criança? Os boatos começaram antes de ela nascer. Callie vai ouvir comentários qualquer dia. Bem como Christian.

Júlia tinha vontade de gritar.

— Maisy, pare. Não quero mais falar sobre isso.

— Ela fica mais parecida com ele a cada dia.

— Pare!

— Não, é você quem tem de parar. Não pode fazer um problema desaparecer simplesmente ignorando-o.



O silêncio que se seguiu foi rompido apenas pelo barulho de um pássaro na árvore junto à janela.

— Chame se precisar de alguma coisa — declarou Maisy por fim. — Ou chame Jake. Ele entra daqui a pouco. Vou sair!

— Aonde vai?

— A Claymore Park. Vou ganhar algum tempo para você, mas é só o que prometo. Já que ele quer me ver, vou a seu encontro. Mas, cedo ou tarde, ele e Callie vão estar na mesma hora, no mesmo lugar. Então, veremos quanto tempo ele leva para adivinhar que a menina é filha dele.

— Não a perdoarei se lhe contar.

— Seu pai falava assim quando estava zangado. Eu odiava na época e odeio agora.

Júlia estava irada demais para pedir desculpas.

— Bem, não há dúvida quanto à identidade do seu pai — finalizou Maisy.

Sozinha no escuro, Júlia sentia os pensamentos se lançando em todas as direções. Deu um soco na placa de argila sobre a mesa. A seguir, começou a amaciá-la.

Maisy já se acalmara um pouco ao sair pelo portão de casa. Não pediria desculpas à filha. Amava-a e, como toda mãe, culpava-se por tudo de errado que acontecia em sua vida. Mas certos fatos Júlia tinha de enfrentar, e quem melhor para lhe dizer isso do que a mãe?

Temeu deparar com Callie e Jake a caminho da picape mas eles não estavam à vista. Tomou o volante e girou a chave na ignição. Para variar, o motor pegou sem ratear

Interpretou o evento como bom presságio, sinal de que o calhambeque estava disposto a se mudar para bem longe-

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No dia seguinte, iria à cidade trocá-lo por outro carro. Pouco importava a opinião do marido. Já passara tempo demais da vida se preocupando com cada atitude que tomava.



Estava a meio-caminho de Claymore Park quando se sentiu incapaz de raciocinar com clareza.

Não podia contar a Christian sobre Calie, e jamais lhe passara pela cabeça fazer isso, mas não o proibiria de ir a Ashbourne. Ela e Jake não tinham sido abençoados com filhos, mas, caso contrário, teria desejado um filho como Christian. Tratava-se de um homem decente e forte que levara cartas fracas no jogo da vida. Só imaginava se, entregue ao destino, ele se tornara uma criatura amargurada.

Quem precisava de amigos mais do que Christian?

A despeito de todas as evidências, do alarde da imprensa e da condenação dos moradores da cidade, Maisy jamais duvidara da inocência de Christian. Nas cartas que escrevera para ele na prisão, reiterara o fato vezes sem conta. Procurara Peter Claymore regularmente, para saber em que pé estavam as apelações e oferecer a contribuição de Ashbourne no pagamento dos honorários advocatícios. Péter recusara toda ajuda, mas a mantivera a par dos progressos no processo legal. Fizera o que pudera por Christian. Agora, restava-lhe oferecer apoio.

Pegou o desvio para Claymore Park e estacionou em uma vaga perto do estábulo. Permaneceu na picape por vários minutos, pensando no que diria e em como externaria seu afeto a Christian. O que poderia lhe dizer que não fosse mentira?

Finalmente, saltou e alisou o vestido sobre os quadris avantajados.

— Maisy?

Peter Claymore saía do estábulo e surpreendeu-se ao vê-la.

Peter. — Ela estendeu a mão, que ele apertou, antes de beijá-la no rosto.

O que faz aqui?

— Vim visitar Christian. Ele está?

- Foi dar um galope, mas volta já. Que bom que veio. Ele anda muito sozinho.

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— Que pena que não nos encontramos quando ele foi em casa na outra noite...



— Se for até aquela colina ali, o verá.

— Eu vou. — Maisy apalpou a barriga. — Preciso fazer ginástica.

— Lembro-me de quando era magra feito graveto. Mas gosto de você assim também.

— Amigos de verdade aceitam a gente de qualquer jeito.

— Boa caminhada.

Peter foi para casa e Maisy tomou o rumo da colina. Ofegava ao chegar ao topo. Realmente, precisava se exercitar, e fazer dieta. Decidiu pensar seriamente a respeito se sobrevivesse àquele passeio.

Podia esperar ali, mas detestava ficar parada. Sua vida era um furacão, por sua própria escolha. Entendia por que e como acontecera, mas não sabia como endireitar. Continuou andando e subiu outra colina.

Não muito distante, no lombo de um enorme cavalo cinzento, um homem galopava em sua direção, de costas para o horizonte rosado. Reteve o fôlego. Por um segundo, vislumbrara o espectro de Harry Ashbourne cavalgando a seu encontro ao crepúsculo. Então, percebeu que o homem era Christian.

Ele diminuiu a marcha ao avistá-la. Então, voltou a imprimir velocidade, e estacou a metros dela. Desmontou, segurou as rédeas e sorriu.

— Maisy Fletcher.

— Christian. — Ela se achegou e, na ponta dos pés, beijou-o no rosto. — Não tenho palavras para dizer o quanto estou feliz em ver você.

Ele assentiu.

— Não estava me esperando?

— Foi por isso que vim.

— Você parece... não sei, espantada. Será que mudei tanto

— Para ser franca, tive uma sensação... de já ter vivido esta cena. Meu primeiro marido tinha um cavalo muito parecido com esse. Por um instante, pensei estar diante do fantasma dele.

— Não conhece Night Ranger, não é? Ranger, esta é Maisy Fletcher, uma grande amiga. — Christian estendeu o braço na direção da visitante, como se de fato os apresentasse

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- Ah, esse é o famoso Night Ranger! Júlia me falou... Ele preencheu a lacuna:

É, ela deve ter comentado. Peter descobriu onde ele estava e o comprou de volta para mim. Mas parece que nós passamos muito tempo afastados. Minhas pernas parecen espaguete, e ele se mostra hesitante, como se não soubesse o que fazer.

— Logo se acertam.

Vamos voltar. — Christian tomou a trilha que Maisy percorrera.

— Soube que esteve lá em casa há uns dias – comentou ela.

— Eu não sabia que Júlia estava lá.

— Está passando uns dias conosco.

— Ah, é? — Christian parecia surpreso.

— Achamos melhor. Ela precisa de muita ajuda. Tem sido difícil, para todos, a adaptação. A gente não se dá conta do quanto depende da visão, até que passa a viver com alguém que não enxerga... — Maisy percebeu que tagarelava, dizendo mais do que o necessário, porque na verdade não sabia o que dizer.

— Como assim, alguém que não enxerga?

— Não percebeu? Ela não contou?

— O quê?


— Ela está cega.

Maisy percebeu que Christian retinha o fôlego-

— Caiu do cavalo há umas duas semanas, quando passeava com a filha. A besta empacou diante de um obstáculo, e ela voou. Não se machucou, mas, quando voltou a si, não enxergava nada.

Christian não replicou, digerindo a informação.

— Ninguém entende o que aconteceu — prosseguia Maisy. - Realizaram centenas de testes e exames. Fisicamente, ela não apresenta nenhum problema que explique a anomalia, só que ela não enxerga. Concluíram então...

- O quê?


— Que é psicológico.

— O que você acha?

— Imagino que o corpo possa pregar peças na gente.

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— Não acha que os médicos estão enrolando? Como não conseguem descobrir a causa, se esquivam e inventam teorias.

— Júlia submeteu-se aos melhores especialistas. Simplesmente, parece que não há mesmo explicação.

— Lamento — murmurou Christian. — Não consigo imaginar uma coisa dessa.

— As vezes, acontecem coisas sem sentido. Como sua condenação. Ele estacou.

— Fui a sua casa naquela noite para lhe agradecer todas as cartas que me enviou. — Fez pausa. — E pedir desculpas por nunca ter respondido.

— Você as lia?

— No começo, sim. — Voltaram a caminhar. — Depois, não consegui mais. É difícil explicar...

— Não precisa. Eu só escrevia para que soubesse que eu continuava pensando em você. Não era nada importante. Acho que, mesmo agora, não tenho nada importante a dizer,

— As cartas me faziam lembrar de muitas coisas.

— De Júlia... Christian grunhiu.

Maisy sabia que ele não queria falar disso, mas ela já se indispusera com a filha naquela noite. Podia se indispor com Christian também.

— Não consegue entender por que Júlia se casou tão rápido com Bard depois do seu julgamento, não é?

— Não importa mais. Foi há muito tempo.

— Ela estava em cacos, Christian. Isso deve fazer sentido. Tinha perdido Fidelity, em seguida perdeu você. Bard a manteve inteira e, no fim, representou um refúgio de todo aquele sofrimento.

— Não importa mais. Lamento que esteja cega. De verdade. Mas não é da minha conta.

— Nunca a perdoou por duvidar de você.

Maisy não esperava que ele respondesse, mas ele o fez, após longo silêncio.

— Não, não perdoei. Você nunca duvidou de mim. Nem Peter. Robby também sabia que eu não tinha matado Fidelity. Mas Júlia...

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- Júlia não tinha nem vinte anos. Era jovem, mas permaneceu a seu lado. Só vacilou uma vez...



- No banco das testemunhas, diante de Deus e do país.

- Tinha sido advertida pelo promotor, Christian. E estava sob juramento.


Ela contou ao júri que eu estava furioso com Fidelity naquela tarde. E, quando o promotor perguntou se eu estava nervoso o bastante para matar, ela não negou.

- Estava perturbada. Não sabia o que dizer, como dizer.

Maisy, no fundo, sua filha cogitava se eu tinha matado a melhor amiga dela.

se esperava fé cega, tinha escolhido a mulher errada. Júlia sempre torce a verdade como um cãozinho faz com uma boneca de pano, até que estoure e espalhe todo o recheio. As evidências eram todas contra você. Foi flagrado na cena do crime com a arma do crime na mão. E tinha motivo...

— Nada justifica matar outro ser humano.

— Não concordo, mas não vou discutir. O fato é que, superada toda a dor, após analisar todos os fatos, Júlia passou a acreditar em você tanto quanto eu.

Alcançaram o celeiro antes que Christian voltasse a falar.

— O que aconteceu com você nos últimos nove anos, Maisy? Não costumava externar sua opinião com essa ênfase.

— Estou recuperando o tempo perdido. — Maisy o tocou no braço. — Sempre pensei em você como o filho que não tive. Não deixe a amargura destruí-lo, Christian. Sofreu um terrível revés na vida, e nada lhe devolverá o tempo Que perdeu, mas trate de esquecer o mais rápido que puder.

Só quero paz. Fiquei contente em ver você. É uma boa amiga, e sempre lhe serei grato. Agora, vou tentar tocar a vida. Espero que Júlia viva a dela. Espero que recupere a Visão, mas o que acontece com ela já não é da minha conta.

Maisy imaginou quantas horas Christian passara insone na Prisão convencendo-se disso.

Mais tarde, depois de ler para Júlia e deixá-la no escuro, imaginou quantas horas sua filha permaneceria acordada pensando em como contar a Christian que a vida dela e a vida deles eram de sua conta, sim.

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