Emilie Richards



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Sinopse
A repentina cegueira de uma artista plástica é diagnosticada como trauma psicológico... mas o que será que ela não quer ver?...

Um homem inocente é libertado após nove anos de cárcere por um assassinato que não cometeu...

Numa comunidade de milionários e pessoas que os servem, um drama de escândalos, segredos e crimes está prestes a ser revelado...

Filha de um legendário e aristocrático mestre caçador da Virgínia, Júlia Warwick cresceu num mundo em que cavalos puro-sangue e caça à raposa são verdadeiras paixões, não simples passatempos. Júlia encontrou sua própria paixão em Christian Carver, um talentoso treinador de cavalos. Mas quando uma bela herdeira é assassinada e Christian é condenado pelo crime, Júlia, grávida e desesperada, casa-se com um amigo que lhe oferece consolo. Agora, a cegueira, embora escureça seu mundo, abre os olhos de Júlia para verdades ocultas. Verdades sobre seu marido, sua família, seus amigos e o homem que amou. A medida que a história se revela, uma lembrança esquecida começa a retornar, um mistério vem à luz... e duas pessoas apaixonadas, separadas por forças que não puderam controlar, confrontam-se novamente, de uma vez por todas...


Emilie Richards
TORMENTA DE PAIXÕES
Editora Nova Cultural

Copyright © 2001 by Emilie Richards

Originalmente publicado em 2001 pela Silhouette Books, divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.

Silhouette, Silhouette Desire e colofao são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: Fox River

Tradução: leda Moryia Editora e Publisher: Janice Florido

Editora: Fernanda Cardoso

Editoras de Arte: Ana S. Dobón e Mônica Maldonado

Paginação: Dany Editora Ltda.

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Rua Paes Leme, 524 - 10 andar CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil

Copyright para a língua portuguesa: 2002 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Impressão e acabamento:

DONNELLEY COCHRANE GRÁFICA E EDITORA BRASIL LTDA. DIVISÃO CÍRCULO - Tel.: (11) 4191-4633
CAPÍTULO I
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Hoje, quando penso em Rio Fox e em tudo o que aconteceu aqui há tantos anos, sem querer me vejo envolta em tons de verde. O doce e fresco verde da relva se adensando rumo ao horizonte, o perene verde da floresta se matizando inevitavelmente ao verde-azulado das colinas da Virgínia, até, por fim, as montanhas se fundindo com um céu enevoado.

É, mais ou menos, o mesmo céu que os outros vêem. O céu que se estende sobre a Califórnia, a China e as regiões mais distantes da Antártica. É o céu sob o qual nasci, sob o qual vivi os eventos que relato nesta história. O mesmo céu que manda o sol e a chuva que tornam as colinas de Rio Fox as mais verdes e luxuriantes do mundo.

Mas eu, Louisa Sebastian, sou a única que vê a silhueta do homem orgulhoso contra o céu de Rio Fox, o homem ereto em um garanhão em que ninguém mais monta, um homem tão unido ao cavalo que lembra o centauro mítico, e perco o fôlego, apesar de tudo o que sei a seu respeito.

Hoje, quando sou obrigada a recordar os eventos ocorridos em Rio Fox, sinto-me afogar em tons de verde e no sangue que há tanto tingiu de um terrível vermelho brilhante aquelas folhas de relva. Nos muitos anos desde então, o mato cresceu e a chuva eliminou todos os vestígios da tragédia, mas sei que a terra embaixo ainda não se recuperou, que,

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se cavar naquele exato lugar, a terra sob minhas unhas ainda aparecerá manchada de escarlate.



Se soubesse o que me aguardava ao cavalgar até Rio Fox naquela primeira tarde, teria galopado de volta à fazenda de minha prima e lá me encerrado. Alegando mal-estar ou machucado, teria pedido que meus baús fossem arrumados imediatamente para meu retorno a Nova York.

Mas, naturalmente, o futuro não é nosso para o sabermos. Só o passado nos pertence, para o contemplarmos e lamentarmos por toda a eternidade.

Os cidadãos de Ridge’s Race, na Virgínia, diziam que Maisy Fletcher vivia a vida como uma matilha de cães de caça dividida entre duas pistas de odor. Ela usara muitos disfarces em seus cinqüenta anos, cada um reveIando claramente a mulher volúvel e distraída sob eles. Jake Fletcher, casado com ela por vinte anos, discordava, afirmando que a esposa não tinha dificuldade em tomar uma decisão.

E assim prosseguiam.

Hoje, aqueles que conheciam Maisy ficariam chocados ao ver seu passo determinado e seu alheamento a tudo e todos que estivessem entre ela e a porta frontal da clínica de Gandy Willson, na histórica Leesburg. Ela ignorou os pilares de cabeça de cavalo em cada lado da calçada de tijolos em ziguezague e as magnólias enfeitando o pórtico. Mal notou o jovem casal sentado rígido em um banco verde sob as magnólias, à esquerda. Mais impressionante, esquivou-se do guarda de segurança que lhe pediu identificação.

— Senhora, não pode entrar sem me mostrar sua identidade — advertiu o rapaz, seguindo-a.

Maisy estacou apenas o tempo suficiente para examiná-lo. Parecia um foragido do Instituto Militar da Virgínia, com os cabelos quase totalmente raspados e cicatrizes de acne ainda visíveis. Dedicava-lhe o olhar hostil que ela associava a novos cadetes, produto de exaustão e molestamento.

Normalmente, ela teria dado uma piscadela ou indagado ao rapaz sobre sua linhagem, sua opinião quanto às chances dos Redskins de Washington naquela temporada, seu palpite na eleição presidencial. Mas hoje deu as costas.

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- Não tente me deter, filho. Sou inofensiva como uma borboleta em um temporal com granizo. Vá cuidar do seu serviço.



Mas, senhora...

Minha filha está internada aqui.

— Terei de chamar...

Ela girou a maçaneta e entrou.

Nunca estivera na clínica de Gandy Willson. Ao longo dos anos, conhecidos haviam desaparecido em seus confins para períodos de ”descanso”. Alguns se jactavam da estadia ali, acrescentando a sigla ”S.G.W.” ao nome como um título académico. ”S.G.W.”, ou Sobreviventes de Gandy Willson, no código local, significava ”Não me ofereça um drinque”, ou ”Dê-me a bebida mais forte que tiver”, dependendo do tempo de tratamento.

Maisy não se surpreendeu com o que viu. Gandy Willson atendia à elite abastada. O lustre que enfeitava o teto de catedral era de cristal cintiIante, o tapete sob seus pés provavelmente privara de uma adolescência normal uma dúzia de crianças do Terceiro Mundo.

O guarda de segurança não a seguira até lá dentro, mas um sujeito mais velho saiu do escritório pronto para expulsá-la quando chegou à área da recepção. Tinha sessenta anos, no mínimo, usava óculos, vestia-se impecavelmente e tentava, sem sucesso, sorrir como um vovô.

— Acho que não nos conhecemos. — Ele estendeu a mão. — Sou Harmon Jeffers, diretor da Gandy Willson.

Maisy hesitou, mas cedeu ao ver a mão trémula de velhice. Apertou-a para firmá-la.

— Sou Maisy Fletcher. Minha filha, Júlia Warwick, está internada aqui.

— A mãe de Júlia. Claro. — O homem mantinha seu sorriso não convincente.

Não havia nada de ”claro” ali. Maisy e Júlia eram tão diferentes uma da outra quanto uma rosa de um hibisco. Na prática, eram da mesma família, mas a semelhança parava aí. Naquele mês, Maisy estava de cabelos vermelhos e lamentavelmente duros de permanente. Júlia sempre conservara os seus lisos e negros. Maisy ganhara um quilo de

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peso em cada ano vivido. Júlia vivia de ar. Maisy apresentava altura mediana. A pequena Júlia mal lhe alcançava o ombro.



E essas eram as características em que mais se assemelhavam.

Maisy esticou ao máximo seus um metro e sessenta e dois, ao que a base da coluna protestou.

— Vim visitar minha filha.

— Que tal irmos para minha sala? Pedirei chá e poderemos conversar.

— É muita gentileza, dr. Jeffers, mas acho que não tenho tempo. Agradeceria se me ajudasse a encontrar o quarto de Júlia. Detesto topar com estranhos.

— Infelizmente, não posso.

— Que seja. Pode ao menos me informar onde ela está?

— Sra. Fletcher, é imperativo que conversemos. A recuperação de sua filha depende disso.

Maisy ergueu o primeiro de vários queixos. Os demais acompanharam feito lesmas.

— Minha filha não devia estar aqui.

— Não concorda que sua filha precisa de tratamento?

— Minha filha devia estar em casa, com as pessoas que a amam.

O jovem casal no banco lá fora entrou e atravessou o tapete de forma letárgica. Jeffers tocou no ombro de Maisy para desviá-la da porta.

— O marido da sra. Warwick não pensa assim. Ele acha que ela precisa ficar aqui, descansando e recebendo terapia diariamente.

Maisy foi direto ao ponto, como de hábito, quando a raiva lhe fervia por dentro.

— Exatamente, de quantos casos de cegueira histérica o senhor já tratou?

— Esta é uma clínica psiquiátrica. Tratamos principalmente de...

— Viciados em substâncias — completou ela. — Drogados. Alcoólicos. Minha filha não é nem uma coisa nem outra. Mas poderá ter-se tornado ao sair daqui. Vocês a levarão à loucura.

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— Alguns diriam que sua filha já está a caminho. — O homem ergueu um espesso sobrolho grisalho, enfatizando.



Não há nada de errado com os olhos dela, só que ela não enxerga. Na prática, está totalmente cega. Com certeza, não quer me convencer de que isso é normal...

Maisy respirou fundo e escolheu bem as palavras, tanto por clareza quanto por ênfase.

Meu genro a trouxe para cá diretamente do hospital porque não queria que ela causasse constrangimento. Ela veio para cá porque ele a ameaçou. Ela não está aqui por acreditar que possam ajudá-la.

— Ela ainda não falou ao telefone desde que chegou. Como sabe disso?

— Conheço minha filha.

— Mesmo, sra. Fletcher?

A insinuação a deteve, conforme ele previra. Para um médico tão bem-treinado, descobrir um calcanhar-de-aquiles devia ser tão elementar quanto prescrever o psicotrópico mais em voga.

Maisy levou alguns segundos para se recompor, concentrando a considerável energia no que tinha a fazer.

— Vou ver minha filha. — Estava surpresa consigo mesma por falar sem piscar, sem interromper o contato visual. — Ou o senhor me ajuda, ou haverá escândalo.

— Vamos nos sentar e conversar. Se depois disso ainda quiser vê-la, mandarei um recado. Se ela não a quiser receber, porém, terá de ir embora.

Ela ergueu as mãos cheias de anéis, vencida.

O diretor a conduziu pelo corredor até a porta por onde surgira. A sala era como a imaginara. Mobília de couro, paredes lambrisadas de madeira escura com inúmeros diplomas emoldurados, uma escrivaninha tão maciça quanto o ego de um psiquiatra. Sempre imaginou se os profissionais mediam o tamanho da mesa de trabalho assim como os adolescentes mediam o pênis.

— Fique à vontade.

Maisy tinha duas opções: empoleirar-se na beirada do sofá feito criança na sala do diretor da escola, ou recostar-se,

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parecendo completamente indefesa. Tinha certeza de que o palco fora montado dessa forma. Recostou-se.



O dr. Jeffers sentou-se à mesa inclinado para a frente, as mãos unidas sobre o mata-borrão.

— Quer dizer que não acredita que este seja o melhor lugar para a sra. Warwick?

Maisy consultou o relógio de pulso, uma bugiganga barata incrustada de vidro e pérolas que combinava com tudo. Agora, gostaria de poder mover as mãos com mais destreza.

— É de minha filha que estamos fIando. Ninguém a conhece melhor do que eu, o que não significa que saiba tudo sobre ela. Mas entendo que Júlia é uma pessoa reservada. Extrai suas forças de dentro. E não partilhará essas forças ou fraquezas com um estranho. O senhor é um estranho.

— E partilhará com a senhora?

— Gostaria que parasse de pôr palavras em minha boca.

— Corrija-me, se for o caso, mas tenho a impressão de que acredita que pode ajudá-la e eu, não.

— Estar com pessoas que a amam a ajudará. Sei que ela está desesperada para abraçar Callie...

— É impossível que saiba dessas coisas, sra. Fletcher. Estaria projetando? Sua filha não falou com ninguém, exceto o marido, desde que chegou.

— Sei que ela está desesperada para abraçar Callie — repetiu Maisy, um pouco mais alto. — Está me ouvindo? Ela está louca para abraçar a filhinha. Se acha que uma mulher louca para abraçar a filha é candidata a terapia, precisa voltar urgente para a faculdade de medicina.

— Só há uma louca nesta clínica, e ela está sentada na minha frente — replicou o diretor, com seu pseudo-sorriso de avô.

Com alguma dificuldade, Maisy se pôs de pé, mas, antes que pudesse se manifestar, o telefone tocou. O diretor atendeu fazendo um gesto para que ficasse. Quando acabou de falar, olhou-a e deu de ombros.

— Parece que não é a única louca nesta clínica, afinal. Sua filha sabe que a senhora está aqui.

Maisy aguardou. Jeffers levantou-se.

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- Ela exige vê-la. Está em um quarto no andar superior. Vá até o fim do corredor, dobre à esquerda e verá a escada. Lá em cima, entre na primeira à esquerda e depois à direita. O quarto dela é no fim do corredor. Mas saiba que é minha responsabilidade notificar o sr. Warwick de que a senhora visitou a sra. Warwick contra minha recomendação médica.



Dr. Jeffers, o senhor é psiquiatra ou espião?

— Cara senhora, saiba que apresenta tópicos de saúde mental a trabalhar, também.

Como atestado de saúde mental, Maisy retirou-se sem responder.

Júlia adivinhara que a mãe estava na clínica. A picape de Maisy e Jake rateava com som de ossos chacoalhando em compasso com as explosões do escapamento. Bard passara anos tentando convencer Jake a comprar uma nova caminhonete, mas o padrasto de Júlia sempre se recusara. Era homem que preferia passar sem conforto a gastar dinheiro em bobagens. Não um pão-duro, mas alguém que acreditava em tomar conta das posses.

Ao ouvir o ratear e as explosões no estacionamento, Júlia foi até a janela confirmar a suspeita. Não sabia ao certo o que esperara, um súbito erguer da escuridão, uma espiada no mundo que não via havia semanas. Sentiu o vidro frio sob a ponta dos dedos, acompanhou a esquadria de textura lisa, as grades trabalhadas. Mas não teve sequer o prazer de uma brisa da tarde. A janela estava bem trancada.

Percebera então que precisava de ajuda. Ajuda prática, não do tipo pela qual supostamente se internara ali. Já no primeiro dia, dera-se conta de que a clínica de Gandy Willson era o lugar errado para ela e que as sessões com o dr. Jeffers não passariam de batalhas de gracejos. Ela escondendo os sentimentos, ele sutilmente repreendendo-a por não cooperar.

Por sorte, havia uma funcionária sinceramente interessada nela. Karen, a enfermeira em serviço, concordou em ligar para o dr. Jeffers e transmitir a exigência da paciente. Se Maisy Fletcher estava ali para ver a filha, ele não deveria dispensá-la. Se o fizesse, Júlia seria a próxima a sair.

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Quando Maisy entrou no corredor, Júlia soube que a mãe se aproximava pelo som de seus passos. Maisy estava sempre com pressa, como se fosse a algum lugar importante, embora, na verdade, o destino jamais fosse sua prioridade.



— Júlia?

— Aqui, Maisy.

A porta se abriu, uma bem-vinda rajada de ar fresco antecedeu um baque suave.

— Querida.

Júlia ouviu e sentiu o cheiro da mãe. Em um segundo, Maisy encostava as mãos macias em seu rosto. Envolta em forte odor de violetas, aninhou-se nos braços da mãe.

Júlia enlaçou Maisy pela cintura quando esta se juntou a ela na cama.

— Como soube que eu estava aqui? — indagou a mãe.

— Ouvi a picape. Acho que foi bom Jake nunca a ter trocado.

— Não foi o que pensei a caminho daqui. Quase a larguei no acostamento. Aquele ferro-velho maldito nunca gostou de mim.

— Porque você força demais. — Era a história da vida de Maisy.

— Como você está?

Júlia endireitou-se e cruzou as mãos no colo. Para variar, Maisy pareceu perceber a indireta e se afastou um pouco, dando à filha espaço para respirar.

— Nem melhor, nem pior — declarou Júlia.

— Esse dr. Jeffers é um filho da mãe intrometido que não deve saber curar nem unha encravada.

— Não seja tão generosa com ele.

Normalmente, neste ponto, Júlia teria se levantado para andar no cómodo. Só que agora essa fuga específica carregava-se de perigo. Já memorizara o leiaute, mas não tinha certeza de poder percorrê-lo com a mãe olhando. Por um instante, sentiu o coração descompassado, a respiração rasa. O mundo era um buraco negro sugando-a, ameaçando puxála para seu vácuo para sempre.

— O que faz aqui, querida? — indagou Maisy. Júlia conseguiu se acalmar.

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— Todos os lugares são iguais quando a gente não enxerga.



— Não é verdade. Você precisa ficar com pessoas que a amam, em um lugar que conheça bem. Não com estranhos.

— Olhe ao redor. É quase um lar. Tenho lareira, um quarto cheio de antiguidades... foi o que disseram. E a vista é inestimável.

— A única coisa inestimável neste quarto é minha filha, e este não é seu lugar.

Os olhos sem visão de Júlia encheram-se de lágrimas. Ela se levantou. Era mais seguro se arriscar a um choque com algum móvel do que com o amor da mãe.

— Bard achou que seria melhor para todos.

— E você concorda?

— Nem sempre ele consegue a seu modo, Maisy. Apenas, desta vez, achei que pudesse estar certo.

— Por quê?

— Ele teme por Callie. — Júlia estendeu o braço à frente e se desconcertou ao descobrir que não se aproximara tanto da parede quanto esperara. Foi avançando aos poucos até tocá-la antes de voltar a falar.

— Ele diz que minha... condição a confunde e deprime, que de certa forma ela se sente culpada...

— Isso é ridículo.

Júlia ficou de frente para a mãe, ou assim acreditava.

— Como pode saber?

— Porque sou avó dela. Telefono para ela todos os dias desde o acidente, e ontem fomos tomar sorvete depois da escola. Callie sabe que não é culpa dela que Duster tenha empacado diante do obstáculo e Iançado você de cabeça sem ele. É o risco que se corre ao treinar um cavalo novo.

— Logo após a queda, Callie me disse que tinha certeza de que Duster empacara porque ela o assustara com o pónei.

— Mas você não explicou que Duster já tinha empacado várias vezes antes e continuaria empacando? Foi o que ela me disse. Não acredito que ainda se sinta culpada, só está sozinha e com medo de que você não volte.

Júlia reprimia lágrimas.

— Disse a ela que vou voltar assim que estiver bem?

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— Ela tem oito anos. Nessa idade, a palavra da avó não convence tanto quanto a da mãe.



— A queda não tem nada a ver com esta... esta condição. Disse isso a ela, também?

— Disse, mas é difícil para ela entender.

— Como entenderia? Nem eu entendo, em um minuto, estou vendo, no outro, não enxergo nada. E não há nada errado com meus olhos. Não há nada errado com nenhuma parte de meu corpo, exceto minha mente.

Maisy calou-se, aguardando, supunha Júlia, que ela recuperasse o controle. Algo que mãe e filha tinham em comum era um desgosto mútuo por explosões emocionais. Júlia começou a vaguear pelo quarto de braços estendidos. Deparou com uma cadeira e nela se segurou.

— Não estou louca — declarou, por fim.

— Está com medo de que eu esteja pensando isso?

— Bard afirma que é tudo questão de mente sobre matéria. Ele quer que eu me mostre adulta, endireite os ombros e vá cuidar da minha vida. Se eu puser isso na cabeça e me concentrar enquanto estiver aqui, voltarei a enxergar. — Júlia pensou esboçar um sorriso. — É o que ele faria, claro.

— Ele ficaria surpreso. Há coisas na vida de que nem Lombard Warwick entende.

— Fecho os olhos e, toda vez que os abro, espero ver, mas não vejo. Caí do cavalo muitas vezes, mas esta foi diferente. Quando voei de cabeça por sobre o obstáculo, lembro-me de ter pensado em Christopher Reeve. O cavalo dele também empacou, e agora ele está entrevado em uma cadeira de rodas para o resto da vida. Ao me chocar com o solo, tive medo de me mexer, medo de não conseguir me sentar ou andar outra vez. Acho que desmaiei. Quando voltei a mim...

Tateando, contornou a escrivaninha e chegou à janela. Voltou-se para a mãe novamente.

— Quando voltei a mim, não abri os olhos. Primeiro, levantei uma perna, depois um braço. Fiquei tão aliviada. Não imagina como fiquei aliviada. Não tinha quebrado nada. Então, abri os olhos.

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— E não viu nada.



Júlia já contara tudo isso à mãe no hospital para onde a levaram após o acidente, porém repetia, necessitada de fazê-lo, por algum motivo.

— Pensei: ”Que estranho. Devo estar aqui há horas. Callie deve ter voltado para buscar ajuda, e agora não conseguem me encontrar. Pensei que fosse noite, mas uma noite muito negra mesmo. Na verdade, fiquei inconsciente por menos de um minuto”.

— Ajuda ficar repassando o evento assim?

— Nada ajuda. A névoa não se dissipa. Nem sequer se torna menos densa. E sabe qual foi o pior momento? Pior do que despertar cega? Foi quando me disseram que não havia nada errado com minha visão. Reação histérica. Sou uma histérica.

— Você é uma mulher inteligente, sensível e maravilhosa. Não é um rótulo psiquiátrico.

— Mas estou em uma clínica psiquiátrica! Pode ter lareiras e antiguidades, mas ainda é uma clínica para doentes mentais.

— Você não devia estar aqui.

Júlia percebeu que tinha de contar o resto a Maisy.

— Há detalhes que desconhece.

— Bem, não é a primeira que diz isso. Júlia tentou sorrir, mas não conseguiu.

— Antes disto, mesmo antes de eu selar Duster naquele dia, as coisas... não iam bem.

Maisy não respondeu. Júlia sabia que, se pudesse enxergar, veria a mãe torcendo as mãos no colo. Mãos cobertas de anéis. Maisy adorava brilhos. Adorava cores vibrantes, texturas diferentes, roupas leves e soltas que lembravam haréns ou luaus na Polinésia. Era o ponto focal em qualquer multidão aquela mãe que os colegas de escola de Júlia achavam ridícula, a chama brilhante e exótica em uma comunidade de velhos tweeds e jeans perfeitamente desbotados.

— Não quer ouvir, certo?

— Júlia, estou aqui sentada esperando.

— Você nunca quer saber quando as coisas não vão bem, Maisy. Se usasse óculos, seriam cor-de-rosa.

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— Claro! — concordou a mãe. — Lentes de olho-de-gato em aros de vidro, e você os detestaria. Mas tentar manter uma atitude positiva não é o mesmo que se recusar a enxergar que há um outro lado da vida.



Júlia envergonhou-se. Amava a mãe, mas havia entre as duas um abismo tão largo quanto seus vinte e nove anos. Jamais o entendera, e duvidava de que Maisy conseguira, tampouco. Como duas mulheres podiam se amar sendo tão diferentes, tão distantes em todos os aspectos, era um mistério.

— Desculpe-me. Não quis criticar. — Júlia tomou o rumo da cama, ou assim pensou. — Só não quero tornar isto pior para você.

— Vamos tornar melhor para você, em vez disso. Conte o que está acontecendo. E vá um pouco para a esquerda — instruiu Maisy.

Júlia acatou e encostou a canela no poste da cama.

— Vou precisar de uma bengala branca — comentou, a voz embargada.

Maisy lhe tomou a mão e a ajudou a se sentar.

— O dr. Jeffers deu algum prognóstico?

— Não. Ele raramente fala durante as sessões e, quando o faz, só formula perguntas. Por que não procurei ajuda quando os problemas começaram? Por que me mostro tão defensiva? Por que não quero meu marido opinando no tratamento?

— E Bart gostaria de opinar?

— Duvido, mas tenho certeza de que nunca declarou isso ao médico.

— Fale dos problemas que mencionou antes.

— Eu andava tendo dores de cabeça de cegar. — Júlia sorriu sem graça. — Desculpe o trocadilho.

— Disse ao médico?

— Disse. Já examinaram cada centímetro do meu cérebro, realizaram todos os testes neurológicos que existem, chamaram especialistas. Não encontraram nada físico.

— Que mais?

— Eu... —Júlia não sabia como revelar o próximo detalhe. — Meu trabalho estava comprometido.

— A pintura? Júlia assentiu.

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— Os Trent me encomendaram um retrato de família. Lembra-se deles? Têm uma linda fazendinha no caminho para Middleburg, logo depois da casa de Gradys... Duas crianças loirinhas que andam de pónei com Callie... Um menino e uma menina...



— Acho que sim.

— Tivemos três sessões. Não consegui fazer.

Júlia não sabia como explicar a próxima parte. Não tivera sucesso com Bard nem com o dr. Jeffers. O marido lhe dissera que estava extenuada e agravando os problemas. O dr. Jeffers escrevera sem parar, o arranhar da caneta ameaçando enlouquecê-la.

Tentou de novo:

— Foi pior do que isso, na verdade. Fiz esboços preliminares. Os Trent queriam algo informal, com os cavalos e outros animais no campo ao fundo. Os esboços ficaram bons. Eu tinha boas ideias de como executar. Mas na hora de pintar...

— Prossiga.

— Eu não conseguia pintar o que via. Eu começava, e então o quadro parecia progredir sem mim. O sr. Trent é um homem rígido, formal, severo com as crianças. Foi tudo o que consegui capturar na tela. Ficou parecendo um soldado depois que o tornei rude. A certa altura, surpreendi-me pintando uma suástica na manga dele.

— Talvez não estivesse pintando o que via, mas o que sentia. Isso não faz parte do trabalho artístico?

— Acontece que eu não tinha controle sobre aquilo. — Júlia ouviu a própria voz alterada e fez pausa para respirar. — Foi assim em todos os trabalhos que fiz no mês anterior ao acidente. Nas cenas de caçadas, não eram mais dias tranqüilos de outono entre amigos. Caçamos raposas por diversão, não para destruí-las. Mas nas pinturas o destaque era para os cães estraçalhando a presa. Era tão perturbador que, quando terminava uma sessão, sentia-me tão abalada que tinha medo de começar outra.

— Talvez fosse fadiga. Talvez precisasse de férias.

— Bem, consegui, não é?

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Maisy não respondeu, e Júlia não a culpou. O que havia a dizer? Se não recuperasse a visão, jamais voltaria a pintar.



— Quando você era pequena e algo a aborrecia, você ia para seu quarto desenhar. Era assim que se expressava.

— Ainda é. Mas o que estou expressando? Ou estava? Porque nunca mais farei isso, a menos que ocorram mudanças radicais.

— Vamos lá para casa, Júlia. Se Bard não a quer em Millcreek, vamos para Ashbourne. Sabe que há lugar para você e Callie lá. Podemos chamar um terapeuta em quem confie. Jake também quer que você fique conosco. Sabe que ele quer.

Júlia amava o padrasto, que levara equilíbrio à vida de Maisy e afeto gentil à sua. Tratava-se de um homem quieto e delicado que nunca cessava de se maravilhar com as excentricidades da esposa. Sim, sabia que ele a receberia de braços abertos.

Por um segundo, ficou tentada a dizer ”sim”, a voltar para a casa em que crescera, levando a filha junto. Até que sua visão voltasse, ou até que aprendesse a viver com a deficiência. Então, a realidade se impôs.

Meneou a cabeça decidida.

— Não posso. Bard ficaria furioso. Teve de mexer pauzinhos para me colocar aqui. Está convencido de que preciso me afastar de tudo e de todos para melhorar.

— Mas o que você acha?

— Espero que ele esteja certo. Porque não acredito que vá agüentar ficar aqui muito tempo. Parece que estou em uma prisão. Sei como Christian... — Júlia calou-se, estarrecida com o que quase dissera.

— Sabe como Christian se sente — completou Maisy. — Fazia muito tempo que você não tocava no nome dele.

Júlia enrijeceu-se.

— Eu não estava pensando em Christian. Não sei de onde veio isso.

— Você perdeu a visão, ele perdeu a liberdade. Ambos vivem em lugares que não escolheram. Aí está a ligação.

— Não quero falar do Christian.

— Nunca quer.

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Veio um barulho da porta. Grata, Júlia voltou o rosto naquela direção.



— É a enfermeira — informou Maisy.

— Sra. Warwick? — Karen, a funcionária que contatara o diretor do hospital a pedido de Júlia, entrou fazendo barulho para que a paciente soubesse onde estava. — O dr. Jeffers acha que precisa descansar agora.

Para variar, Júlia tinha de concordar com o psiquiatra. De repente, sentia-se esgotada até os ossos. O colchão subiu quando Maisy se levantou.

— Você parece mesmo cansada. Volto amanhã. Alguma mensagem para Callie?

— Diga que a amo e que logo estarei em casa. Diga que a vejo em meus sonhos.

— Vai pensar no que eu disse?

Júlia assentiu, mas então lembrou-se de que talvez a mãe não olhasse para ela. Era só mais um daqueles detalhezinhos em que os não cegos nem reparavam.

— Sim, vou pensar.

Sentia a garganta coalhada de palavras não ditas. Parte dela desejava implorar a Maisy que a levasse para casa em Ashbourne, para o estranho chalé de pedra em que morara até o casamento. Outra parte insistia para que ficasse e sofresse ali em Gandy Willson, pois, se sofresse bastante, poderia se curar.

Karen tinha voz rouca e suave e mãos quentes. Jeito esquisito de descrever alguém, mas eram as características que Júlia conseguia apreender.

— Sabe, sra. Warwick, que não pode receber visitas, com exceção de seu marido, mas, infelizmente, o dr. Jeffers tem uma reunião amanhã às três da tarde e, estando fora, não terá como monitorar a clínica detidamente. Qualquer um pode entrar...

— Entendo — declarou Maisy.

— Obrigada. — Júlia entendia o que Karen tentava fazer.

— Até logo, meu anjo.

Júlia sentiu a mão da mãe no ombro, depois os lábios dela em seu rosto. Depois que Karen e Maisy saíram, o quarto ficou tão vazio quanto seu coração.

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