Elton flaubert de figueredo



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2.4. Outros textos


Num de seus primeiros textos de teor filosófico, Realismo e Idealismo, publicado em 23 de maio de 1872, no jornal O Movimento, Romero faz críticas ao positivismo, à metafísica, e ao socialismo. Já crítico dos grandes sistemas, defensor da “verdade atual”, Romero proclama o desaparecimento próximo da religião, e da poesia empolada e metafísica de hoje.

O sergipano afirma também que a ciência é diferente da arte, pois a primeira é uma fábrica organizada, e a segunda possui excentricidade, matéria. Por isto, Sílvio Romero critica o uso do realismo e do idealismo pela poesia. Afirma Romero, que desde Hegel, sabe-se do caráter relativo da verdade, e desde Comte houve sua divulgação. “As ideias absolutas sobre poesia são uma herança da velha metafísica, e absurda como uma tese de astrologia”. Na antiguidade, as coisas tinham uma razão de ser, não havia a racionalidade, a ciência a iluminar, como na civilização complexa.

Entretanto, o ideal é também relativo, não se concebe a priori, depende das ideias que formamos de tudo (contra visão metafísica). O real não deve ser fotógrafo. Reproduzir o que parece certo, real, para as inteligências (variável). As ideias diversas de cada um de nós trarão o ideal, o realismo o que de positivo a ciência for apontando (necessidade). A poesia precisa fazer um consórcio entre o realismo e o idealismo. Só desta maneira, a poesia poderia ser fundada na ciência, sem perder sua excentricidade e criatividade.

Em 1873, Sílvio Romero apresentou sua monografia para finalização do bacharelado em Direito, com o título de Se a economia política é uma ciência, consistindo numa crítica ao espírito doutrinal da Faculdade de Direito do Recife, o que impediria a entrada do bando de ideias novas. A faculdade representava as ideias atrasadas com a autoridade formal do conhecimento.

Antes de se perguntar se a Economia Política era uma ciência, Romero critica a visão lógica ou transcendentalista da ciência, baseada na escolástica, que considerava a ciência contemplativa e verbal. Mudanças dos princípios e das ciências morais. O socialismo, a crítica religiosa, e o positivismo, abalaram os fundamentos da economia política, da teologia, e da metafísica. Eles possuem, como princípio em comum, a imanência e evolução. E como distância: a ordem diversa dos assuntos, e os seus objetivos.

A teologia transcendental é uma ciência impossível, porque a inquirição do sobrenatural não tem base positiva. Mas demonstra também a ciência, ao contrário, que o sentimento religioso é sempre persistente na alma humana, e este é o único dado positivo possível de dedução. Cabe às luzes da razão, ciência, e moral guiar o novo espírito a partir dos dados positivos. Neste sentido, ele nos afirma que “Quando o crítico toma-se corpo a corpo com a teologia mostra-lhe a origem humana e natural dos dogmas divinos, ele não pretende fazer religião, mas ciência” (ROMERO, 2002: p. 27).

Sílvio Romero afirma que o positivismo acabou, mas deixou boa direção. É ainda superior a ideia de revolução. Uma das vantagens do Positivismo seria a morte da metafísica, a expulsão do absoluto das relações humanas, e a absorção dos fatos positivos. Entra suas desvantagens, estariam: a falsa ideia sobre a vida, a tentativa de parar a marcha do tempo com uma doutrina, o amor pelo sistema, à obstinação em considerar impossível qualquer estudo psicológico.

Dentro deste contexto, Romero vê dificuldades na classificação da economia política como ciência, pois o economista tem que criar o objeto de que se ocupa (gerar e multiplicar riqueza). Portanto, a economia política seria mera discrição? O sergipano enxerga como positivo nesse saber o apriorismo da ordem social. Ou seja, se, por um lado, a economia política cria seu próprio objeto, ela também abre mão de abstrações, e tem como primado a ordem social. Ele afirma:

“Todas as ciências, todas as forças uteis da humanidade, em evolução constante, a vão levando a um próspero estado moral e mesmo material. A parte que aí toca à economia política é muito diminuta. E, ainda quando fosse muito grande, não bastaria para dar-lhe o distintivo da ciência. O economista é um astrônomo que pretende fazer os astros de seu firmamento. Não se contenta com a descrição, a análise e o estudo; como cegos da alquimia, ele intenta fazer o outro” (ROMERO, 2002: p.28).

Romero também critica o socialismo, pois, derrotou a economia clássica, e quis fazer-se ciência (algumas ideias políticas e sociais que lhe alimentam). A economia política não possui bases positivas, mas nasceu por uma necessidade do espírito humano, uma solução prática para os problemas da ordem social, nascendo da vacuidade das doutrinas econômicas. Romero nega que o avanço e as conquistas materiais seja resultado do saber da Economia Política, mas sim, da ciência. O sergipano reflete:

“Não significa isto que a riqueza não esteja também entregue a uma lei natural, e ainda que esta lei não possa um dia ser conhecida”. “O economista dirige-se a um alvo inatingível e trata de um assunto que lhe escapa; pelo menos que lhe não entra tanto nas mãos que possa por elas ser dirigido” (ROMERO, 2002: p.30).

O maior problema com a Economia Política é que ela permanece – em parte – metafísica. A mobilidade do caráter da riqueza, a divinização do capital amontoado e as condições do progresso humano buscam-se em outra ordem de ideias. A Economia Política, enquanto valorativa e flutuante, impede a ciência, não ocorrendo à demonstração científica. Ainda assim, Romero classifica-a, provisoriamente, entre as ciências que estudam os fenômenos em si mesmos, considerados em seu todo, como a sociologia, a geologia, psicologia, de acordo com a classificação de Spencer.


2.5. A Escola do Recife perante a elite letrada: os intelectuais, a ação humana e as estruturas.


A chegada ao Brasil desse “bando de ideias novas” do Século XIX, a partir da década de 1870, modificou o panorama intelectual, ajudou a reforçar certas bases nos estudos sociais e culturais, e irá influenciar, inclusive, na própria ação dos homens, como na derrubada do Império. Toda ação humana tem uma concepção das coisas por trás, seja ela mais vulgar ou elaborada. Por sua vez, o mundo que nos rodeia (em suas estruturas) e nossa ação nele também fomenta uma sensibilidade, uma maneira de ser e estar no mundo, que influenciam na elaboração ou crença de certas ideias. Há um diálogo entre pensar e agir, nem sempre unívoco. As ideias não estão desagarradas da vida de quem as expressou, mas não guarda com o mundo material, em suas estruturas ou na prática das relações de troca entre intelectuais, uma relação necessária. Se Romero tomou atitude de repudiar sua banca de defensores da metafísica não foi por um mero acaso, ou fato ordinário da vida, mas por pensar de certa maneira, obcecado pelo novo, pela cultura do repúdio, pelo materialismo, pela ciência hodierna. Neste sentido, as suas convicções precedem tal ação. Mas esta também lhe posiciona de tal maneira no universo intelectual, que terá ressonância por toda sua obra.

Portanto, é possível ligar a história eventual (evenementielle), a infraestrutura material e a histórica cíclica do imaginário, a partir de uma leitura que configure fatos e imagens, de modo que possamos compreender as ideias e o processo de sua criação como um símbolo, que “congele” o tempo, e apresente esta irrupção em suas ambiguidades42. O intelectual sempre diz mais do que o seu duplo imediato: o que está escrito e os fatos ordinários da vida.

Nas últimas décadas do Século XIX, o avanço econômico que o Brasil começara a experimentar a partir dos anos 1850 acelerou-se. O sistema escravista e a ordem saquarema entravam em crise, minados pelas próprias modificações culturais, econômicas e sociais internas. A modernização do país produzia modificações nas relações sociais. As mudanças materiais ocorridas influenciam nas temáticas e abordagens dos novos intelectuais, agora, educados em instituições nacionais, ansiosos por pensar o país e a cultura local dentro do mundo o moderno. E a obra deles correspondem, em alguma parte, as ambiguidades que a época trazia.

Como dissemos, no período da colônia, era predominante a tradição escolástica na elite letrada. A independência do país fez crescer um desejo de pensar o país fora da influência lusitana e a partir das filosofias modernas, mas não há um predominante desejo de ruptura com o passado. O ecletismo significa uma transição, da nação recém-independente, com seu monarca de linha portuguesa. Ele alinhava espiritualismo metafísico com as filosofias modernas, trazendo em sua linha política, um sério desejo por algumas reformas dentro da ordem. A geração de 1870, em sua diversidade, surge de um novo dinamismo social trazido pelas modernizações, por novas camadas sociais, que participam agora da elite letrada, formada no próprio país. Há um anseio por reformas políticas e institucionais, por mais participação, menos centralização, formando esta geração na experiência crítica as estruturas imperiais. Esta nova elite letrada também está ansiosa por independência intelectual, ou seja, para pensar o país fora do que era identificado como “atraso colonial”. As ideias antes predominantes não passariam de anacronismos, havendo, por isto, um entusiasmo muito grande com o discurso modernizador e as ideologias do progresso (liberalismo, positivismo, materialismo, evolucionismo, etc.), críticas ao realismo metafísico. Estas filosofias modernas serão a própria base do grosso dessa nova geração para construir um pensamento nacional, orgânico, no momento mesmo da construção das instituições de conhecimento. A fundação de um pensamento nacional e por seus vícios e virtudes passam por esta elaboração com as ideias modernas de progresso.

A Escola do Recife é um dos elementos mais importantes desta nova geração, não como uma unidade doutrinária, mas como unidade de abordagens, objetos e leituras, que irá se colocar contra o ecletismo espiritualista e as tendências metafísicas, objetivando também, a renovação do campo politico-cultural e intelectual. Reler seus intelectuais significa também compreender este momento da história, plano concreto sobre o qual as ideias pulsavam, fazendo dialoga-las. Significando também, observar por sua época, as fortes tendências na crença do progresso e da ciência, na crítica as filosofias essencialistas.

A construção do pensamento de Sílvio Romero, e das discussões da “Escola do Recife”, passa por esses embates entre as filosofias em voga na sua época. Estes intelectuais foram responsáveis por abrir caminho para novas vertentes de interpretação do país, introduzindo a discussão em torno de toda uma gama de ideias novas, marcadas pelo forte entusiasmo com os avanços da ciência, com o progresso, com a capacidade da razão e da construção humana.

O avanço tecnológico, as conquistas técnicas, a epistemologia da ciência moderna colocam-se em oposição a ideia de metafísica e ao conceito de essência. A secularização com o abandono dos padrões medievais modifica a maneira de pensar e sentir o mundo. O homem explora a matéria, a modifica, alteram rapidamente as paisagens, o tempo é acelerado, e a nossa compreensão se volta cada vez mais para a fluidez do mundo material, da carne, e do corpo. O homem abre pontes, túneis, estradas, e não vê mais obstáculos no seu caminho. Temos o advento do dinheiro, a mercantilização das relações sociais. A ideia de limites inerentes à estrutura da realidade, da sua presença total (LAVELLE, 2012), e de sua representação por símbolos e mitos, é esquecida. Estas mudanças ajudam no advento do historicismo, e na formação das ideologias do progresso.

Já falamos muito nesse trabalho da influência das novas filosofias materialistas e cientificistas na formação intelectual de Sílvio Romero. Mas o seu pensamento também dá abertura e forma os prelúdios do historicismo nacional, preparando este campo para as próximas gerações. Não à toa, Romero legou uma série de estudos culturais e foi um dos fundadores das ciências sociais entre nós. Para ele, todos os problemas deveriam ser historicizados, pois seu conteúdo intrínseco de verdade estaria na sua história.

O historicismo é introduzido no país, indiretamente, pelo ecletismo cousiano. E vai ao encontro da mentalidade do seu tempo, espectadora da modernização no Brasil. Ele representa a consciência de esse mudar histórico, tendendo ao relativismo gnosiológico, já que o Homem não teria natureza, mas história. Dessa maneira, seria fundamental estudar a historicidade do humano, captando com o transcorrer histórico a essência do homem em seu devir. O comportamento dos diversos fatores dependeria da história.

A filosofia seria, assim, a história dos seus problemas, uma sequencia de tematizações com desdobramentos. A compreensão dos problemas precisa de contexto e condicionamento, nisso o historicismo bebe no relativismo. As verdades são históricas. No historicismo, o universal e necessário não se opõem ao contingente atribuído ao fato histórico. Porém, a configuração do fato histórico envolve um fundo de coordenadas gerais que completam o particular. O historicismo é uma espécie de “ecletismo dinâmico” (SALDANHA, 1986: p. 20), que problematiza a historicidade dos homens e mistura as escolas, tendo tendência contrária aos sistemas estáticos. Caberia ao filósofo distinguir em cada escola ou ideário, a parte nuclear, aproveitável, e com este entendimento situar historicamente e fazer progredir o conhecimento. É esta a base do historicismo de Romero.

Existe uma relação intrínseca entre historicismo e culturalismo, porque as culturas estão no tempo, e não são só históricas, como possuem uma visão da história. Spengler era culturalista e historicista, unindo naturalismo com historicismo e culturalismo. A influência do neokantismo, do historicismo, e do culturalismo, em Sílvio Romero, veio através de Tobias Barreto, para Antonio Paim (1974). Sobre o culturalismo no país, em O Tema da Cultura43, José Murilo de Carvalho afirma que:

As teorias culturalistas não constituem propriamente uma Escola, formam um movimento em torno do imperativo moral de transformar o mundo. Imperativo que para Tobias Barreto era compromisso menos acadêmico do que desafio real de salvar a liberdade do homem. E é por ser uma nova forma de falar do mundo do homem que os culturalistas proclamam e fixam os elementos desta que consideram seja a grande questão a ser investigada e esclarecida, a cultura enquanto “criação humana” (Paim, 1997. p. 725). É nela que estão as condições de existência singular, onde o homem “realiza fins específicos” (idem. p. 725) e se descobre como pessoa humana”.

Paim (1974) destaca que na fase final do pensamento de Tobias, ele busca uma ontologia social no conceito de cultura, influenciando a próxima geração de intelectuais recifenses, menos cientificistas. Para ele, Tobias integraria aos elementos do monismo, uma ontologia (de inspiração kantiana) na criação humana da formação das diferentes culturas. Dentro das marchas das ideias, ele insere um elemento cultural. E neste sentido, ele avalia o direito como um produto cultural. Por isto, no concurso para professor na Faculdade de Direito do Recife, Tobias defende a tese na qual contestava a existência de direitos naturais originários. Seja como for, este elemento cultural, introduzido por estes pensadores à nova voga de ideologias do progresso, é um traço importantíssimo para compreendermos a ação e a defesa de certas ideias políticas dos membros da Escola do Recife.

Para Tobias, a cultura era uma questão essencialmente filosófica, e não antropológica ou sociológica. Ele pretende destacar a criação humana nos valores, nos hábitos, na história dos povos, dando unidade a um conjunto de criações do homem. Diferenciando-o dos outros animais por se associarem e se organizarem racionalmente, com plasticidade e tentando dar outras feições a natureza de violência. O absoluto residiria nisto, na experiência concreta e cultural do homem, em sua forma e tentativas, e não numa metafísica transcendental, inclusive, com direitos originários.

E, neste sentido, para Tobias, era preciso historicizar o país, para dá-lhe um rumo, uma direção correta, de acordo com a marcha do progresso da organização racional da sociedade. Escreveu Tobias no seu texto O Poder Moderador de 1871: “O único meio de salvar e engrandecer o Brasil é tratar de colocá-lo em condições de poder ele tirar, de si mesmo, quero dizer, do seio de sua história, a direção que lhe convém”. Esta importância da orientação do pensamento nacional também será cara a Sílvio Romero, que terá como objetivo integrá-lo à “intuição crítica moderna”. Mas, ao contrário de Tobias, Romero estava mais preocupado com a antropologia, a etnologia e as ciências sociais no estudo da formação do país. E menos com uma ontologia a partir da categoria de cultura. Neste sentido, ele afirma:

“Como quer que fossem diversas entre nós as índoles mentais, cada um foi fazendo a sua obra e a mais rápida observação é suficiente para notar facilmente as diferenças de estilo, de assuntos, de métodos, de doutrinas. É assim que, em poesia, Tobias não passou do lirismo condoreiro e eu combati, desde 1869, esse hugonismo e iniciei a nova intuição da poesia transfigurada pela filosofia de nossos dias; que, em crítica literária, ele fugia dos assuntos brasileiros e do brasileirismo, e eu os procurava sempre de preferência; que, em filosofia, não admitia a psicologia e a sociologia como ciências e eu lhes reconheço esse caráter; é assim que jamais pude admitir e explicar o desdenhoso modo de tratar Herbert Spencer. Não é tudo: há especialmente dois assuntos em que o meu modo de sentir e de pensar foi sempre completamente oposto ao seu: a poesia popular e a etnografia. Sabe-se que uma das bases da minha crítica aplicada à literatura, à história e em geral à vida espiritual brasileira, foi a apreciação etnográfica das raças que constituíram o nosso povo. Sabe-se mais que uma das primeiras aplicações desse modo de pensar foi justamente o estudo, a pesquisa da poesia, dos contos, das tradições populares, do folk-lore, em suma. Pois bem: Tobias Barreto não achava isto e tivemos intermináveis discussões a respeito. Não conseguiu modificar as minhas convicções neste assunto, nem alterar o sistema de meus trabalhos. A despeito do seu desacordo, coligi os Cantos Populares do Brasil, os Contos Populares do Brasil e escrevi os Estudos sobre a Poesia Popular Brasileiras.   Outro ponto digno de nota de nosso constante desacordo era o da adoção da forma republicana em nosso país. Espírito muito liberal, inimigo das vilezas e misérias perpétuas da política brasileira, Tobias, todavia, não foi jamais um sectário da república. Não concordei nunca com o meu amigo neste modo de pensar e, ainda muito moço, desde 1869, alistei-me entre os republicanos”(ROMERO, 2002: p.245) .

Mais do que Tobias, Romero sempre teve mais curiosidade pelos estudos sociológicos e científicos. Romero preocupava-se sobremodo com os dados positivos da realidade, os fatos materiais, as evidências empíricas Por isto, a metafísica era um dos alvos prediletos do sergipano, porque – desta maneira – ele atacava a predisposição para o infinito, para o imutável, para o essencialismo.

No transcorrer de sua vida, e de sua obra, Romero fez certo acerto de contas, admitindo uma ideia de ontologia, mas evolucionista. Os prelúdios para isto, já se encontravam nessa fase inicial, com o acolhimento de Spencer. Em Doutrina contra Doutrina (1905), Romero critica o positivismo, pois foi importante numa época, para depois virar uma igreja de pensamento. O sergipano elogia o naturalismo de Spencer, e problematiza a profícua mistura entre Kant e Spencer, voltando-se a ontologia, sem nunca abandonar as críticas ao esssencialismo. Assim, pela influência de Spencer e do evolucionismo, Romero estava mais voltado para o nascimento das ciências sociais no Brasil, e a orientação que esta daria aos rumos da nação do que propriamente a filosofia.

No conceito evolutivo de história tomado por Romero, as ideias se sucediam progressivamente em direção a maior liberdade do homem ao “atraso” da crença, sendo sempre renovada pela “verdade do momento”, criando uma temporalização do conhecimento. E no sentido dado a história, o Brasil é analisado nesta perspectiva, trazendo junto, as ciências da época.

O sergipano é pioneiro na crítica naturalista das questões sociais e culturais. No naturalismo, as leis da natureza determinam as estruturas e o universo natural, e cada passagem de uma etapa a outra, ocorre uma evolução sendo produto delas. Romero é influenciado pela filosofia naturalista, mas incorpora a esta o elemento cultural, da direção do pensamento efetuado pela crítica antenada à “intuição moderna”. Desta maneira, a partir de um conceito finalístico da história natural, introduz o elemento cultural e plástico, que pode orientar o país de acordo com a marcha do progresso. Nessa introdução, permite o nascimento das ciências sociais para além da história positiva, mas a partir de uma perspectiva naturalista, evolutiva e progressista. Por isto, ele pretende operar uma releitura da história nacional, em busca de sua formação para lhe dar orientação.

E para Romero, entender a marcha das ideias seria compreender o espírito do século, da vida material que se apresenta em movimento. Existe uma semelhança, para ele, entre a evolução da sociedade e das leis do espírito, com nexos causais dos processos naturais. Por isto, é possível utilizar um método das ciências na interpretação dos fatos históricos. Ele julga a história de maneira prospectiva: o espaço da evolução futura. Mas, o futuro da evolução seria ditado não só pela biologia, mas pela consciência. Nisto, consiste o papel determinante da intuição em Romero. Ela capta o espírito do século, trabalha com os fatos positivos após compreender para onde está indo, em sua marcha inexorável.

Sílvio Romero procura dar gênese à nação e inseri-la no progresso moderno, do desenvolvimento científico e da modernização material e dos saberes, a partir da incorporação ao pensamento nacional da “intuição crítica moderna”, baseada nas leis naturais. Ele procura uma dialética entre diferença e igualdade na incorporação do quem vem de fora e na historicização de nossas singularidades que precisam ser dirigidas em direção à marcha do progresso. Por isto, os estudos culturais e as ciências sociais (com bases positivas) tinham para Romero muito mais influência do que para Tobias Barreto.

Em 1884, em seus Estudos de Literatura Contemporânea, Sílvio Romero discordava das ideias de Tobias Barreto, para ver na cultura certo prolongamento ontológico da natureza, na forma da criação cultural. Sílvio associa cultura e civilização, colocando a adição do elemento nacional na questão. Daí, a importância dada a sociologia e aos estudos da cultura popular. E para isto, era preciso criar um método crítico (com um comportamento irascível para tratar o país) que incorporasse as modernas ideias vindas da Europa. Uma tentativa confusa de adaptação, mas que pretende ser a base para analisar a formação do país, sem cair em plenos determinismos pessimistas, na falta de consciência e ação intelectual, explicando o projeto do autor. Uma ambiguidade nas ideias, uma ação ambígua, uma situação ambígua no país.

Assim, os integrantes da Escola do Recife não defendem um absoluto determinismo na fundação do país, como sugeriria as bases naturalistas de análise. Mas coloca também na ação e intuição intelectual, a responsabilidade dos problemas nacionais. Os antigos saberes clássicos, trazidos pelos jesuítas, seriam, assim, o alvo preferencial desses intelectuais. Já que, para eles, seriam os responsáveis pelo atraso do país, ao impedir que este direcionasse sua intuição à marcha evolutiva da civilização, representada pelas novas filosofias. Por isto, politicamente se dirigiram a favor das reformas políticas, da República (em maior ou menor grau), das modernizações econômicas e institucionais. Mas, guiariam tais reformas pelo crivo das ideologias do progresso.

Existe nestes termos uma ambiguidade que simboliza este encontro entre teoria e práxis, preconizada pelos intelectuais. Se a nação e a identidade estavam em processo de feitura, afastando-se cada vez mais dos colonizadores, como descartar a tradição? Era só a história e cultura das gerações passadas que poderiam nos dar uma identidade. Mas esta era também responsável por nosso atraso, segundo tais autores. Por isto, era preciso um movimento duplo e ambíguo. Por um lado, mostrar os elementos da construção da cultura nacional, o que nos daria singularidade, e dar a isto uma estima que gere identidade. Mas, por outro, ter o ímpeto reformador e orientador, para pôr a cultura nacional, a partir de sua elite letrada, nos rumos da “intuição crítica moderna”, na marcha do progresso. Por isto, estes pensadores transitavam entre o pessimismo e o otimismo, entre o que chamavam de atraso em nossas tradições, e o que acreditavam ser força fértil para ofertar alguma originalidade ao mundo moderno.

Esta ambiguidade apresenta-se o tempo inteiro na obra cultural e sociológica de Romero, mostrando uma síntese confusa das várias vogas que passaram pelo país, numa busca abrangente de vários campos dos saberes: da biologia aos fenômenos históricos. Ao mesmo tempo em que falava numa teleologia da história, abria espaço para algum nível de liberdade para o homem, na sua participação consciente. Porém, esta consciência deveria estar relacionada com o progresso da ciência.

As ideias iam se esvoaçando na sua marcha em direção ao progresso. E no congelamento desse desbotamento temos um símbolo poderoso que apresenta as ambiguidades da construção do pensamento nacional, pintando o tempo histórico em que se vivia.

Por estas observações acerca da ação humana e sua liberdade perante a adequação da nação a teleologia da história, o seu olhar se volta para os estudos culturais e para o Brasil, elaborando uma crítica estética e estilística de orientação nacionalista. A partir dessa base filosófica, Romero irá fazer uma abordagem histórico-cultural, tratando a literatura e o folclore, por exemplo, como documentos históricos de cultura nacional. Isto a partir de um método: o método da crítica.





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