Elton flaubert de figueredo


A Filosofia no Brasil: ensaio crítico



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2.3. A Filosofia no Brasil: ensaio crítico.

2.3.1. Em busca de uma posição autônoma no cenário filosófico.


Dentro do período estudado, o texto de conteúdo filosófico mais importante elaborado por Sílvio Romero foi o seu primeiro livro a respeito do tema: A Filosofia no Brasil (1878). Romero pretende fazer uma avaliação da cultura filosófica nacional e de suas debilidades para, em direção ao futuro, apontar novas propostas. Esse novo rumo deveria ser guiado pela adaptação das novas ideias diante da realidade brasileira, o mérito deste caminho a se abrir é reivindicado pelo próprio autor, e também para Tobias Barreto.

Por isto, a grande motivação deste trabalho de Romero é a renovação intelectual do país, que deveria entrar na marcha das ideias, e no concerto das nações civilizadas, sem perder suas características. Para tanto, Romero faz uma severa crítica dos iniciadores da cultura filosófica no país, apontando sua principal lacuna: a falta de embate entre as ideias, resultando na ausência de uma genética ou tradição. As modas vão se sucedendo, e uma vai sendo largada em prol da outra, sem que haja um combate, um trabalho de síntese. Neste sentido, um autor não dialoga com o outro, e um sistema não é resultado do seu enfrentamento com um anterior. Afirma Romero:

“Na historia do desenvolvimento espiritual no Brasil ha uma lacuna a considerar: a falta de seriação nas ideias, a ausência de uma genética. Por outros termos; entre nós um autor não procede de outro; um sistema não é uma consequência de algum que o precedeu”. (ROMERO, 1878: p. 35).

Disto resulta a nossa falta de tradição intelectual, que abriu mão da ideia de cadeia, ou mesmo de sistema. Esta debilidade é, para Romero, fruto da nossa falta de espírito público e, principalmente, da falta de espírito científico, resultado de séculos de jesuitismo na educação. Os trabalhos anteriores se tornam “filhos perdidos no torvelinho da indiferença” da geração atual. Romero chama atenção para a fonte extra-nacional das ideias:

“O cosmopolitismo contemporâneo, de que, pela força das conquistas comerciais, partilhamos também um pequeno quinhão, traz á humanidade destes resultados: espíritos vivaces de nações toscas e atrasadas, arrebatados pela rápida corrente das grandes ideias, que fecundam os povos ilustres da atualidade, deprimidos os pátrios prejuízos, conseguem alçar a fronte acima do amesquinhamento geral, e embeber-se de uma nova luz. Vejo nesse fenômeno uma exceção aberta á lei da ação do meio social, que ás vezes é mesquinho, em prol da civilização que irradia n'outra parte. A luta pela cultura consegue a final triunfar até entre os povos sistematicamente atrasados, como o nosso”. (ROMERO, 1878: p. 36).

Romero acredita que o cosmopolitismo do mundo tem estruturalmente a força para triunfar mesmo em povos atrasados como o nosso, sendo uma questão de tempo e direção ativa de uma intelectualidade ligada a isto, a realização da época. Por isto, considera positiva a imigração das ideias, desde que seja um fator de dobra do meio social, onde a civilização ocidental daria orientação ao nosso atraso, desde que não apagasse as nossas próprias referências. Há nessas linhas um traço inconfundível de evolucionismo e da ideologia do progresso.

Mas, Romero também se inquieta com nossa formação cultural, e afirma que a filosofia nos foi estranha nos três primeiros séculos, pois estava atrelada ao que estaria superado pelo tempo. Ele identifica – no século XIX – três grupos de estudos filosóficos brasileiros: a) o sensualismo metafísico francês e o ecletismo francês; b) as reações católicas e metafísicas, com influência de Gioberti, Rosmini, e Ventura; c) e os “emancipados das superstições”, leitores das novas ideias, que se sucedem na marcha do progresso científico, são os leitores de Comte, Darwin, Spencer. E são essas três filosofias que ele pretende analisar em seu livro, para depois dar um diagnóstico da renovação que a cultura nacional e filosófica precisa, tendo ele a cabo, evidentemente, ao apresentar suas ideias filosóficas.

Para fazer esta análise, Romero adota como metodologia o estudo das condições materiais e a biografia do autor. Diz ele sobre seu método de análise:

“É um abuso da critica o pegar em um livro qualquer, e sem indagação alguma sobre as condições em que haja vivido o seu autor, pretender traçar um juízo que suponha definitivo. Este método, todo apriorístico, não é um processo regular de análise. O critico exibe as suas opiniões, senão os seus caprichos, e nada de regular sobre a genética e a seriação das ideias do escritor pode sair de um trabalho tão falsamente empreendido” (ROMERO, 1878: p. 139).

Como pode se ver, Romero é adepto da leitura a cerca das determinações materiais ou psicológicas de uma obra, que revelaria a verdade de seu tempo, num traço característico do antirrealismo de todo materialismo. Ele começa o seu périplo pela filosofia brasileira em 1833, com o compêndio de Eduardo Ferreira da França: Investigações de Psicologia. E depois o livro de Domingos de Magalhães: Fatos do Espírito Humano. Em ambos, ele repara a viva influência de Fichte e Victor Cousin. Além de constatar a dívida destes livros para com um terceiro autor, analisado rapidamente por Romero, Mont’Alverne, que era discípulo de Condillac, nesse princípio de cultura filosófica: O compêndio de Filosofia.

Francisco do Mont’Alverne foi um frade franciscano e teólogo. Em seu livro O Compêndio de Filosofia (1859), defendia o ecletismo dos pensadores franceses, as doutrinas de Locke, e o ecletismo cousiano, combatendo o tomismo e a escolástica. Romero afirma que faltava em Mont’Alverne capacidade crítica e cultura filosófica, além do total desconhecimento acerca da crítica recente às noções da metafísica; ainda assim, foi um dos formadores do ecletismo entre nós.

Para Romero, Eduardo da França e Domingo de Magalhães eram meros continuadores de Mont’Alverne, sendo assim, eram adeptos da escola metafísica, que Romero chamava de católica. Ele colocava o sensualismo e o ecletismo francês desses autores em mesma projeção, ignorando a uma série de diferenças entre elas, sendo que a própria obra de Cousin é uma resposta, em certa medida, ao sensualismo. O sergipano afirma que a filosofia deles era ainda romântica, e uma maneira de anacronismo querendo ser lei universal.

Romero defende que a espiritualidade era uma abstração oriunda de um enigma que não se firmava nos fatos, não havendo provas científicas da existência do transcendente, de Deus, etc. Por isto, o sergipano critica o sensualismo de Eduardo da França, para quem o sentimento de nossa própria existência é uma sensação geral, não localizada factualmente. O sergipano chama isto de resquício metafísico..

A influência de Victor Cousin fica ainda mais forte na obra de Domingos Magalhães, Factos do espírito humano (1858), que ele define como uma obra anacrônica de Romantismo/espiritualismo católico. Com pouca profundidade, e sem ciência, sendo mais clínico e teológico. Romero afirma que Magalhães incompreende o “espírito do século” e a filosofia moderna, além de cair em formas anacrônicas de vitalismo. O sergipano critica também a noção apriorística da causa, pelas vias de Malebranche.

Dentre os autores reactivos ao sensualismo e ecletismo francês, Romero destaca o Padre Patrício Muniz, definido por ele desta maneira: “a escolástica que lê Kant”. Através da Teoria da Afirmação Pura (1863), ele combate o sensualismo, o panteísmo, e o materialismo, elaborando uma junção entre a escolástica e a teologia moderna. Romero galhofa da tentativa do padre ao tentar unir a filosofia moderna à teologia, gerando um “desenvolvimento científico do dogma”.

Sílvio reafirma que o pensamento de Patrício Muniz não é autônomo, mas reprodução da substância de outros, uma mistura entre teologia vulgar e filosofia vulgar. Por isto, ao tentar criticar o panteísmo, cai ele próprio numa forma panteísta. Ao tentar combater a filosofia moderna, caiu ferido com sua arma.

Outro reator destacado por Sílvio Romero era o pintor paraibano Padre Pedro Américo, em seu livro La Science et les Systémes (1868). O livro seria uma imitação canônica do debate europeu. Sílvio Romero, em síntese, condena sua concepção de ciência por ser tomista. Pedro Américo cairia em duas filosofias anacrônicas aos novos tempos: a especulação e o apriorismo histórico (raciocínio sem experiência).

Para Romero, estes segundo (espiritualistas reatores) representavam o saber ensinado pelos jesuítas, atrelado a colônia, a escolástica, o que ele considerava anacrônico. Os primeiros, sensualistas ou ecléticos, eram uma transição intelectual de um povo que deveria se emancipar, mas ainda estava atrelado a anacronismos passados. A terceira linha seria os emancipados, estes sim, herdeiros da verdade da época, do progresso, da modernização da nação. Eles traziam as novas vogas da Europa, como o positivismo e o materialismo. Romero transforma uma discussão dentro da elite letrada, cercada de escolhas, opções e ideologias, em lei necessária da história, para qual a nação deveria se ordenar diante da marcha das ideias. Na verdade, longe dessa passagem por etapas, sempre ocorreram debates. A associação entre universalismo e tradição a coisas anacrônicas sempre foram contestadas por alguns intelectuais.

Claro que nem todos os adeptos das novas ideias seriam emancipados para Romero, mas só aqueles que estariam de acordo com o avanço da ciência. Dentre os emancipados desta disputa desenhada entre sensualistas e ecléticos contra espiritualistas reatores, estávamos os autores antenados com as novas ideias vindas da Europa, de acordo com o espírito da Segunda Revolução Industrial. Entre eles, Romero destaca: Luiz Pereira Barreto, Visconde de Rio Grande, Guedes Cabral, e Tobias Barreto.

Luiz Pereira de Barreto era uma espécie de positivista ortodoxo. O seu livro era uma propagação vulgar do positivismo, como objetivo de simples divulgação. Sobre o positivismo, Romero faz a seguinte avaliação crítica:

“Eu disse, algumas linhas atrás, que a doutrina de Auguste Comte trouxe inapreciáveis vantagens á filosofia, mas que no grande todo depara-se com ideias inaceitáveis e perigosas para a ciência. Tal é. O positivismo é um fecundo sistema, no caso de alguns outros que têm havido. Por mais que se esforcem os seus discípulos, na hora atual, para, coloca-lo ao nível dos últimos avanços do espirito, é sempre verdade que o grande edifício já nos fica pelas costas. Vamos para adiante. Julgo-me, seja dito de passagem, com plena isenção de espirito para aprecia-lo; outrora seu sectário; na ramificação dirigida por E. Littré, só o deixei quando livros mais desprevenidos e fecundos me chegaram ás mãos. Comte só foi largado por amor a Spencer, a Darwin, a Haeckel, a Büchner, a Vogt, a Moleschott, a Huxley, e ainda hoje o lado inatacável, aquilo que sempre restará de sua brilhante organização filosófica, me prende completamente. O positivismo é um dos grandes sistemas de filosofia que, n'este século, têm sofrido mais desajuizadas censuras”. (ROMERO, 1878: p. 68).

O positivismo, para Romero, era um sistema fecundo, que muito tinha contribuído para evolução dos estudos e indivíduos, mas que estava – como qualquer outro sistema – preso ao tempo, e suas ideias ao ficarem anacrônicas se tornavam perigosas para o avanço do conhecimento. O sergipano afirma que já foi um sectário de Littré, mas que se libertou com outras leituras: Spencer, Haeckel, Buchner, Moleschott. Assim, vemos já nessa época uma passagem de Romero do positivismo para outras vogas, como o evolucionismo.

E neste sentido, Romero vai analisar as críticas de Pereira Barreto ao materialismo. Para o sergipano, o conhecimento da matéria não é extra-experimental, mas fruto da própria intervenção instrumental da ciência nela. Hume e Kant abalaram o edifício metafísico, Comte abalou o absoluto no homem. O positivismo é preparatório (e não defunto) da fase materialista-positiva, que é o próximo passo da evolução na marcha das ideias em direção ao progresso. Por isto, Sílvio defende uma espécie de “realismo materialista”.

Para ele, o realismo materialista não busca o porquê das coisas (não é um sistema), mas sim, busca a verdade relativa (atual), a verdade da época, o sentido das ideias em marcha no fenômeno sensível. Assim, só conhecemos o “como das coisas” e nunca o “por que”. O realismo materialista era assim uma teoria do conhecimento e, para ela, os positivistas deveriam se voltar. Haeckel e Moleschott eram, para Romero, positivistas pela via do materialismo científico. O sergipano defende também a influência de Büchner nesse progresso, com seu realismo monístico, e sua filosofia positivo-naturalista, realçando o como da ciência e não o porquê das coisas. A generalização faria parte da velha e carcomida filosofia.

O Visconde de Rio Grande, mais do que os trabalhos filosóficos, foi um grande propagador do naturalismo, através dos estudos de geologia. Igualmente, Guedes Cabral teve destaque com seu livro As funções da ciência, sob ótica do naturalismo filosófico (1873). Para Romero, era um brado da ciência emancipada da órbita metafísica dos jesuítas. O problema apontado era que não passava de compilação, faltando o elemento original. Uma de suas vantagens, entretanto, era o de não ser sistemático, nem doutrinário, mas de querer ir a fundo aos fatos, na matéria. Era um impulso ao realismo científico: onde não existem doutrinas e teorias, mas só: relações e consequências.

O último dos “emancipados”, e de todos eles, o mais importante, era Tobias Barreto. Filho de família humilde, só aos 25 anos ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Foi professor de latim no interior de Sergipe, dos 15 aos 22 anos, entrando nos debates filosóficos graças à amizade com frei Itaparica, tratando-se de um daqueles casos de dinamização social e mobilidade que chegava a elite letrada.

No início, Tobias se junta à atmosfera do romantismo e do ecletismo cousiano, sendo um adepto de ambos. No entanto, rompe com o ecletismo, e dá novos passos na incorporação do “bando de ideias novas” no Recife e no país. Paim (1974) reclama que ao não observar as circunstâncias do ecletismo, Tobias deixava de perceber a influência dele no seu próprio pensamento. O ecletismo era historicista, e a tradição da “Escola do Recife” teria influência do historicismo cousiano, a partir do gosto pelo desenvolvimento por oposições, ou por tensões dialéticas. As transformações no mundo das ideias se davam progressivamente a partir das tensões e superações. Esse desenvolvimento linear, numa marcha de ideias, que tanto agradava essa geração, tinha tido seus prolegômenos já no trabalho de conciliação da tradição imperial que eles tanto detestavam.

Tobias alia uma forma de monismo teleológico, um pouco mecanicista como o de Haeckel, com o culturalismo de Hartmann. Unindo, assim, o monismo materialista com o culturalismo evolucionista, que guardava muitas bases em Kant e Spencer. Por isto, para Tobias, a sociedade, o Estado, e o Direito são, por conseguinte, fenômenos culturais, e não mecanicamente explicáveis. Eles não pertencem às causas eficientes, mas as causas finais.

No artigo O atraso da filosofia entre nós, publicado no Jornal do Recife, em 18 de novembro de 1872, Tobias Barreto irá tratar da literatura contrariando os conceitos vigentes, que a limitavam a imaginação e a ficção. Sendo assim, a literatura era um sintoma aprofundado de todas as produções intelectuais de um país, em uma época dada, por incorporar com suas valorações próprias, a ciência, a filosofia, a poesia, o teatro, o romance, e até a pintura e a música. Um exemplo de como ele articulava a fundação da sociedade a partir da cultura, num quadro teleológico e monista. Diz Tobias:

“Assim se compreende na Alemanha, onde os livros ou tratados de literatura nos dão a conhecer não só Goethe e Schiller, como Kant e Hegel, não só Freytag e Stifter, como Strauss e Baur, não só Beethoven e Mozart, como Cornelius (pintor), etc. etc.”.41

A literatura sedimentaria a unidade da cultura em que estava presente, revelando também esse movimento teleológico a que ela pertence.

No entanto, ao comentar Tobias, Sílvio Romero resume-se ao seu livro, Ensaios e estudo de filosofia e crítica (1875). Sendo elogiado por ser propagador das novas ideias filosóficas entre os brasileiros, e por não fazer romarias literárias ou grupos provincianos. Mas, Romero não considera Tobias acima de suas conquistas, não sendo superior a contribuição positiva vinda da Europa. Diz ele:

“Note-se ainda que não tenho ao Dr. Tobias Barreto na conta de gênio e de notabilidade europeia; peço somente que me apontem, a mim que gosto um pouco de estudar imparcialmente a vida intelectual de minha pátria, onde se acham os espíritos brasileiros superiores ao desprezado critico dos Ensaios e Estudos. Não teço elogios, pretendo apreciar os produtos de uma pena brasileira, e faze-lo pelo moderno método de comparação, que tão bons resultados ha trazido á filologia e á ciência das religiões. É possível, como já se o tem feito, aplica-lo á literatura e á filosofia, e mostrar que, no ermo cientifico que nos envolve, onde cabeças fartas de clássicas toleimas laboram no vácuo de uma intuição imperfeitíssima do mundo como ele é, e vivem de uma política ferrenha que as devora, o Dr. Tobias Barreto não é só um espirito culto e um critico acertado, é uma individualidade. Antes de faze-lo, cumpre notar um pouco a biografia e a psicologia do escritor”. (ROMERO, 1878: p. 139).

Combinando conteúdo da obra com sua importância na cultura filosófica do país, Romero identifica em Tobias um renovador intelectual entre os brasileiros. Ele observa que a mania bacharelesca impede a formação do filósofo, pelo excesso de formalismo, e que coube a Tobias mostrar o direito como própria criação cultural, filha da evolução dos fatos sociais e não do direito natural. Romero acredita que Tobias possuía a principal identidade de um intelectual: sentir o espírito do século, intuir o seu tempo.

Tobias tinha o mérito também de colocar em circulação e publicitar os alemães. Romero identifica no germanismo, a sede principal da ciência contemporânea do seu tempo. As principais influências da obra de Tobias que foram legadas para Romero orbitam em torno: do pessimismo de Hartman, e do monismo de Haeckel.

A filosofia de Tobias encontra diferenças com a de Sílvio. Enquanto o primeiro é mais adepto do monismo, Romero é mais entusiasta do evolucionismo de Spencer. Mas, ambos estão contaminados por essa atmosfera de novas ideias, pela ideologia do progresso, e pela confiança excessiva na ciência. Reside, em ambos, um sistema geral de ideias semelhante: uma espécie de naturalismo metafísico ou ontológico, com pitadas culturalistas. Embora, Tobias se preocupasse mais com o valor universal, enquanto Sílvio buscava nele elementos para enxergar melhor nós mesmos, o particular, o ser brasileiro. Sobre os livros que lia no Recife, diz Sílvio:

"Transportado para o progressivo e agitadíssimo centro espiritual do Recife, em 1868, aos 17 anos de idade, isto é, na força da vivacidade e do entusiasmo, entendi de tomar parte nas lutas ali então travadas, escolhendo o campo intelectual mais de harmonia com o meu temperamento — a crítica. Os meus verdadeiros mestres foram, então, Taine, Rénan, Max Muller, Scherer, Gubernatis, Bréal, Lenormant e Gobineau. Taine, principalmente, com seu belo livro Filosofie de l'art en Grèce, o primeiro dele que li. Rénan, por seus admiráveis ensaios sobre As Religiões da Antiguidade, A Poesia das Raças Célticas e os livros sobre Averrhoes e o Averrhoismo a Vida de Jesus, São Paulo, Os Apóstolos e O Anticristo. Max Muller, por seus livros sobre linguagem, religião e mitologia. Scherer, por seus belos artigos Notre race et ses ancêtres, Mahomet et le Mahometisme, Mythologie Comparée, La Vie de Jesus (a propósito de Renan) e outros e outros. Gubernatis, por sua Mitologia Zoológica principalmente. Devo juntar, também, o excelente Emile Burnouf com o magnífico livro La Science des Religions e o conde de Gobineau com seu excelente Essai sur l'inegalité des races humaines”. (ROMERO, 1905 apud MENDONÇA, Carlos Susskind, 1938: p.56).

2.3.2. A filosofia de Sílvio Romero.


Na época da elaboração desse livro, Romero está firmando uma leitura da história da filosofia, que era basicamente sua filosofia, não trazendo grande originalidade. Ele assim tenta elaborar seu esboço de filosofia viva:

“Todavia, eu não me quero dar por mais do que sou em matéria literária e científica, isto é: um simples discípulo, que busca somente ser aplicado e consciencioso, diligente e emancipado. Quem dera que todos os nossos pretendidos savants tivessem esta franqueza. O meu sistema filosófico reduz-se a não ter sistema algum; porque um sistema prende e comprime sempre a verdade. Sectário convicto do positivismo de Comte, não na direção que este lhe deu nos últimos anos de sua vida, mas na ramificação capitaneada por Émile Littré, depois que travei conhecimento com o transformismo de Darwin, procuro harmonizar os dois sistemas num criticismo amplo e fecundo Nem é isto alguma novidade esquisita, quando a tendência filosófica principal na Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Espanha na atualidade é justamente este criticismo independente, firmado nos dados positivos, espécie de neo-Kantismo”. (ROMERO: p. 183).

O seu criticismo anti-sistemático, crente da força do progresso e na marcha das ideias, era uma mistura das várias influências das ideias em voga na sua época. Romero chega a afirmar que na filosofia do Século XIX na Alemanha duas correntes se enfrentaram, o pessimismo e o naturalismo monístico, sendo superadas por uma síntese superior, o criticismo. A filosofia de Romero ganha unidade na ideia de evolução, sendo crítica e não dogmática, dependente as ciências particulares a posteriori dos processos fenomênicos. O evolucionismo de Spencer tem um papel fundamental nisto:

“Basta indicar um facto concreto e salientíssimo, quais são as obras de Herbert Spencer. Eu não sei si ainda haverá entre homens que se ocupam de filosofia quem ignore que este celebre escritor inglês, que como pensador é mais profundo do que Littré (apesar deste não ser só para mim o que dele disse Michelet), e cujo monumento filosófico tomado no seu todo é mais imponente do que o do próprio Comte. eu não sei si ainda haverá, digo. quem ignore que ele abraçou muitas ideias deste ultimo e repeliu outras, e que também desenvolveu e fecundou a sua doutrina pelo dartrinismo de que foi até um dos predecessores. Eis ai a possibilidade da junção harmônica das duas correntes de ideias, sem duvida alguma, as mais fecundas que nosso século viu surgir. Sou eu, pois, sectário do positivismo e do transformismo? Sim; entendendo-os, porém, de um modo largo e não sacrificando a minha liberdade de pensar a cortas imposições caprichosas que os sistemas possam, por ventura, apresentar”. (ROMERO, 1878: p. 185).

Sem sistemas fixos, Romero afirma que a única filosofia que existe é a verdade do seu tempo. Toda verdade seria relativa, sendo dependente do progresso do século e da época histórica. A filosofia teria por dogma a relatividade de todas as coisas.

Romero procura compreender a distinção entre a origem e a formação ou desenvolvimento do universo. Esta última é explicável pelas leis descobertas pela ciência moderna, como a imanência, a unidade dos seres, a evolução, a transformação e a equivalência das forças. Quanto, porém, a origem, Romero é mais maleável, afirmando que é mister recorrer-se a um princípio superior, qualquer que ele que seja, e cuja natureza não poderia ser determinada cientificamente, embora ele não descarte que um dia seja.

Para Romero, a humanidade procede por evolução, e no conhecimento também. Existe uma marcha das ideias, onde não há gênios, mas só desdobramentos. E as regularidades e leis observáveis desta marcha se davam pelos choques e enfrentamentos. Na marcha das ideias, tivemos Descartes quebrando os saberes medievais, depois Hume e Locke, donde Kant retirou sua filosofia. Seguiu-se com Fichte, Schelling, Hegel, o sensualismo, Hartmann, o positivismo, o evolucionismo, o materialismo. Mesmo na arte, assim também ocorreu, com Mozart sucedendo Hayden, e depois vindo Beethoven. Cada qual expressando a verdade do seu tempo, enfrentando e superando seus antecessores.

Prosseguindo sua intenção de dar expressão a marcha das ideias, Sílvio Romero critica parte do comtismo, por amor a simetrias e sistemas, o que prejudicaria a ciência. Contra a regularização caprichosa da verdade, ele quer o espírito crítico: revelador do momento histórico e de sua verdade intrínseca. Existe uma escala de evolução para o pensamento, e Comte foi superado por Spencer. No entanto, o positivismo ainda possui a sua utilidade:

“Entre os úteis serviços prestados por Comte á filosofia destacam-se, a meu ver, os seguintes: A excelente classificação das ciências, superior ás propostas por Ampère e por Spencer. O grande pensador classificou-as pela ordem natural, a ordem do desenvolvimento. Três são os princípios fundamentais de tal trabalho: 1) os fenômenos se desenvolvem na ordem de sua complexidade crescente, e de sua generalidade decrescente; 2) cada ordem de fenômenos, exigindo induções que lhe são próprias, só pode tornar-se sistemática sob o impulso dedutivo resultante de todas as ordens menos complicadas; 3? As ciências mais especiais e mais complexas requerem não só as verdades das ciências, como também seus métodos”. (ROMERO, 1878: p. 69).

E considera os pontos negativos do positivismo:

“Tudo é bem deduzido; há porém, aí um pequeno defeito de detalhe. Comte desdenhou inteiramente dos trabalhos psicológicos e estabeleceu um hiato entre a biologia, como que a encarava, e os estudos sociológicos. Foi levado a este passo pelo modo anticientífico porque foi tratada até seu tempo a ciência dos fenômenos cerebrais. De igual anátema feriu ele a lógica, a economia política e a medicina. Entretanto, estas ciências, evitando, cada vez mais, os processos e aberrações metafísicas, vão tocando no terreno dos factos positivos e se constituindo em aproveitáveis1 estudos.” (ROMERO, 1878: p. 70).

Para o crítico sergipano, o positivismo teria o mérito de superar a filosofia anterior, e desenvolver os principais aspectos do monismo contemporâneo: a relatividade, a imanência, a evolução e a unidade dos seres. Estes quatro elementos seriam a base da ciência hodierna. Mas, agora, o positivismo encontrava-se anacrônico, porque a marcha das ideias tinha lhe ultrapassado, principalmente na ação da ciência no terreno dos fatos positivos.

Encantado pelas modas que vinham de fora, Romero depositava nos seguintes autores o porte da verdade relativa de agora: Buckle, Spencer, Haeckel, Buchner e Mill. E caberia ao espírito crítico fundar o pensamento entre os brasileiros. Este não sendo nem uma filosofia, nem uma doutrina (como afirmavam os positivistas), coexistia junto ao sistema predominante da ciência de seu tempo. Para Romero, foi assim que o politeísmo derrotou o fetichismo; e, depois, o monoteísmo matou o politeísmo. Com o espírito crítico, a metafísica bateu a teologia; depois, aliado ao positivismo, bateu a metafísica. O espirito crítico seria uma necessidade permanente do pensamento, uma condição fundante do movimento e da luta pela vida na esfera das ideias. A intuição crítica, junto com o monismo materialista, causaria golpes fatais contra a ortodoxia comtiana.

Romero afirma que hoje a critica deveria ter um caráter positivo, impedindo que ideias se tornassem doutrinas, sendo uma “autoridade central do pensamento”. O espírito crítico representa a relatividade evolucional versus a apriorística do absoluto. Mas, não pode haver uma síntese das ciências sem uma unificação gnosiológica; por isto, Romero abre mão da metafísica, mas fica com a ontologia. Abrindo caminho para unidade dos saberes, ancorados na ciência experimental.

Romero capta de Littré a concepção da ciência como aquilo que formulava a intuição geral do mundo sobre o próximo passo da humanidade; e de Spencer, retira-a como unificação do saber. Assim, a ciência exige observação, hipótese e experiência aturadas e rigorosas; nutrindo-se de raciocínio, tempo, e labor de muitas gerações, evoluindo constantemente. A segurança da ciência estaria na ausência dos sistemas metafísicos. Afirma Romero:

“Sendo diversos os agentes, e contrários por natureza, nada obsta a conceber-se a oposição dos seus resultados. Sou propenso até a enxergar nestas duas ações contrárias, na hipótese que avanço, a harmonia de duas forças, ou tendências que se contrabalançam. Assim mais se perpetua o equilíbrio geral do sistema. (...) Nada ha mais belo na historia das ciências do que apreciar a insigne harmonia que reina entre as leis gerais astronômicas formuladas por Kepler e Newton, o sistema universal do éter de Fresnel e Boucheporn, a doutrina geológica evolucional de Lyell, o sistema genealógico de Lamarck, a teoria da seleção de Darwin e Haeckel, as vistas positivas da historia de Comte e Spencer, nada ha mais belo, na historia das ciências do que contemplar a harmonia que reina entre tantas e tão profundas especulações e a teoria evolucional do mundo do filósofo alemão e do astrônomo francês. Esta grande intuição universal é um dos mais nobres presentes feitos pelo século passado ao atual. E nenhum dos fundadores das grandes teorias se julgou em indeclinável obrigação de impugna-la”. (ROMERO, 1878: p. 111).

Sílvio Romero aceitava o princípio da complexidade crescente na classificação das ciências, e, sobretudo, o entendimento de que filosofia se deve limitar a elaborar sua síntese, ou seja, que ela deve abandonar qualquer pretensão apriorística ou transcendental. E crítica o positivismo por não estar aberto ao progresso científico, pois deveria incorporar os dados da ciência e não cair em fantasias teóricas, abrindo mão de todas as doutrinas.

Nesta perspectiva adotada por Romero, há grande influência de Hartmann. O processo não é encarado como puramente mecânico, mas há também a possibilidade dentro das leis universais. E para Romero, isso era essencial para pensar o país também. Há na natureza a imanência de um fim, combinação entre causalidade e finalidade, entre movimento e sentimento, e entre teleologia e mecanicismo. Apesar de adotar um evolucionismo teleológico, o seu criticismo é também uma espécie de materialismo científico.





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