Elton flaubert de figueredo



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CONSIDERAÇÕES FINAIS


Voltamos ao passado com os pés no presente. Durante o processo de feitura desta dissertação, o país ferve discutindo política. Nem tão estranha coincidência, que muito do tentei discuti aqui, como modernidade, cultura, progresso, ideologias e ciência na elite letrada, apresente-se de alguma forma em nosso cotidiano. Não saberia dizer o quanto deste mundo que me rodeia influenciou nos interesses, perguntas, hipóteses e respostas que elaborei ao olhar para obra de Sílvio Romero. Assim como, no estudo da formação do debate público nacional. Tão longe no tempo, mas tão perto de nós.

Vários temas borbulham no caldeirão político. Embora este não fosse o objetivo do trabalho – nem o tenha utilizado – li algumas discussões no Parlamento nas décadas finais do Império. Muitas das discussões mostravam a inquietação das ambiguidades da época, que são inerentes a todas. Assisto as discussões no Congresso brasileiro de hoje, mais de cem anos depois. As questões, o talento, a capacidade argumentativa, o trabalho de leitura, são diferentes, mas algumas questões permanecem: o desejo pelo progresso econômico, a assimilação do nosso “atraso”, o senso comum consolidado por um trabalho de longa duração da elite intelectual dominante, criando um mainstream na era da mídia de massas do que seria adequado e moderado. A gramática política responde a isto, tornando clara a perspectiva do nascimento da elite letrada entre nós e a sua influência até hoje, inclusive, na ação política prática mais imediata.

Mas, assistindo a sessão legislativa, outras coisas também se tocaram com este trabalho. Um parlamentar se levanta, vai à tribuna, e começa a discursar sobre o governo e um projeto. Todos os seus colegas encontravam-se em pé, conversando ou confabulando, sem prestar atenção no orador presente. Por curiosidade, procuro votações e discussões no Parlamento americano, inglês, australiano, espanhol, francês. Todos os políticos sentados escutam em silêncio a fala dos seus pares e observam os argumentos. Aqui, o respeito à voz do seu par não parece fazer parte do decoro parlamentar. A comparação não tem valor de importação, faço-a apenas pelo fato de que toda valoração só pode surgir enquanto analogia. Percebemos melhor características do povo brasileiro observando suas diferenças em comparação a outros. E nisto, não se trata de superioridade ou inferioridade explícita. Pois, a desenvoltura do brasileiro, por certa perspectiva, pode ser uma vantagem para vida cotidiana. Na vida, sempre há perdas e ganhos pelas escolhas e construções realizadas. Mas, torna-se evidente a dificuldade que encontramos em torno dos valores, do respeito para com o outro, da racionalização da vida, da impessoalidade pública ou republicana. Alguns desses traços passam pelo que somos, e se comunicam com a construção de nossas elites letradas, da criação do espaço público e daquilo que orbita o seu debate. Há uma relação entre certas características nossas e a cultura e seus sistemas em longa duração

Para compreender o que nos faz brasileiro, a cultura do país, é preciso voltar ao seu passado. E neste sentido, o trabalho historiográfico sempre lida com um passado-presente. Pois algo que passou se torna do nosso interesse de estudo no presente por nos oferecer alguma questão que nos inquieta. Viajar pelo mundo nostálgico das ideias e de suas histórias nos oferece um mosaico cheio de símbolos condensados, que nos permite pensar a cultura nacional – e suas regionalidades – em longa duração, em suas permanências e mudanças. Donde podemos observar a perspectiva de independência sob a qual se formou nossa elite letrada e da estabilização dos seus sistemas. Compreender isto é também observar muito de nossas características, que se perduram até hoje, e a origem de muitas questões culturais, intelectuais e políticas.

Há outra ligação entre o passado e presente a que aqui recorro. O Brasil do ocaso do Império a partir dos anos 1870 passava por modernizações econômicas, e pela dinamização de sua vida social e política. A segunda revolução industrial ocorria no mundo, com inventos que mudariam o cotidiano das cidades e das pessoas. Aquilo que lhe dava suporte, a modernidade capitalista, com a ampliação do mercado consumidor, industrialização, e mão-de-obra assalariada não estava de acordo com as estruturas da ordem imperial, ainda contando com o trabalho escravo. O Brasil, na periferia do mundo moderno, estava integrado a um sistema de produção internacional, e precisava conciliar interesses. Nas décadas finais do século XX, surgiu, nas ciências sociais, a expressão brazilianization, dando conta na época de questões econômicas e sociais na separação por raças com um estado mercantil, mas que logo, tornou-se referência quanto ao caráter brasileiro e a carnavalização dos paradoxos. Por estas chaves, compreender a formação da cultura desta jovem nação brasileira no século XIX parece mais do que atual para pensar o mundo.

A sociedade dos anos 1870 tornava-se mais dinâmica e era necessária a ampliação da participação política para além da ordem que fomentou a unidade da nação, a partir de um trabalho de conciliação. A nação era recém-independente, encontrava-se sob uma monarquia de linhagem portuguesa, que o ligava ao passado de colônia. Era preciso resgatar símbolos, construir um sentimento nacional, criar as instituições do país. O país queria afirmar sua independência perante o passado, ao mesmo tempo em que precisava recorrer a ele para compor sua identidade. E isto será feito a partir da conciliação de interesses.

Antes os nossos jovens moços intelectuais iam a Coimbra receber sua educação formal. Lá ou permaneciam na esfera das ideias dominantes da escolástica portuguesa e no saber clássico, que ligava o Brasil ao mundo ocidental a partir da metrópole portuguesa, ou se embebeciam de iluminismo francês, das ideias da revolução, ansiosos pela independência do país. Depois da independência, era preciso construir o país e suas instituições, e nisto, incluía a criação de uma elite intelectual que pudesse ser atuante no Estado. Era preciso criar instituições de conhecimento e uma elite nacional gabaritada para atuar na unidade do país.

Essa elite letrada nasce para formar a sociedade civil, e não ser dela um fruto de suas disputas e inquietações. Ela nascia preocupada em formar o país, diferencia-lo dos tempos portugueses, sair da adolescência e emancipar-se. O que lhe inquietava era a busca por símbolos que representasse a nacionalidade, e que dessem suporte para a criação de um sentimento nacional. Para isto, era preciso conciliar opostos, contradições, problemas políticos e sociais.

Ao contrário da sociedade civil, que pode criar diversos grupos orgânicos a perspectiva de mundo no encontro entre as três gerações (passado, presente e futuro), o Estado é uma instância impessoal que serve para dirimir estes conflitos, e tornar possível a vida em sociedade. O Estado não tem uma direção e uma substância na maneira de conceber os problemas do mundo, mas possui uma burocracia com seus interesses. Ele serve para ser uma instância informal da sociedade, ser dela produto. Mas, no Brasil, o Estado montado pela metrópole foi ele formador da jovem nação.

E a elite letrada brasileira nasce atrelada ao Estado, a construção da ordem nacional, desempenhando funções burocráticas, e unificando o país na política institucional. A elite letrada estava atrelada ao aparato burocrático moderno. Desde sua formação, há um fosso entre os intelectuais – e a representação de suas ideias – e o mundo cotidiano das pessoas. As palpitações da sociedade num diálogo entre pensar e estar, sentir e ser, não se desenvolve por esta falta de maturação interna, criando um vácuo entre as camadas dominantes da elite letrada e a experiência. O resultado é intelectuais viciados em camadas de discursos que encobrem a realidade efetiva experienciada a partir da unidade da consciência. E estas são uma das características de nossa cultura bacharelesca, onde há um predomínio de discursos, retórica, símbolos sem substância, o medalhão do nome sem a verificação de sua qualidade, contra o domínio prático, os enlaces entre pensar e fazer.

Uma das consequências disto era o fato do Estado estar a construir a sua sociedade civil, que deveria lhe dar suporte. Na verdade, quem deve mandar e construir o Estado moderno é a sociedade civil. É dela e de sua diversidade que se deve constituir o Estado a partir de seus representantes, dando organicidade a suas leis. Quando é o Estado que cria o público, ele torna a sociedade anêmica.

Disto resultado uma série de caracteres marcantes da vida cultural brasileira. Não só como característica da formação do país, mas na própria formação de sua elite letrada, e da influência desta na maturação cultural em longo prazo, resulta certo artificialismo na criação nacional. Um povo que tem dificuldade de captar a substância distinta da aparência com que se faz vista, que macaqueia camadas retóricas, e que é tomada de sofismas no debate público ou intelectual. E, como colocou Sérgio Buarque de Holanda (1997), um povo cordial, dado a supremacia da emoção, da cordis, da emotividade pessoal e dos seus laços. O homem cordial, fruto já de nossa herança portuguesa (incrementada pelos elementos das culturas negra e indígena), é avesso à hierarquia, é hedonista, prefere o gozo à perda libidinal pela ética, tornando-se pouco afeito às regras sociais, dando sempre um “jeitinho” para dobrá-las. E por esta cordialidade, reforça os laços pessoais e o compadrio.

A cordialidade brasileira cria um desafio para a sociedade democrática e a modernidade, pois nestes o Estado deve ser descontínuo dos laços familiares ou de amizade, sendo impessoal. Mas, no Brasil, ocorre uma extensão entre Estado e família. O que cria, na periferia do mundo moderno, uma relação diferente entre a sociedade e o Estado, as pessoas presentes e o passado da sociedade.

Esta adaptação entre o mundo moderno e suas estruturas e símbolos, com a nossa herança formadora, cria condições próprias. Pela ordem vigente ser sempre um ajuste pessoal, uma conciliação de interesses, uma aparência prática, um jeitinho que se deu, uma harmonia subjetiva e não orgânica, ao invés de partir de uma substância racional da coisa empregada (por exemplo, a defesa da democracia liberal por causa das suas características próprias, etc), ela é sempre artificial, não tendo força moral ou intelectual que antepare um contrato entre as gerações (passado, presente e futuro). Ou seja, a ordem não aparece como escolha da sociedade de acordo com sua substância própria (as características próprias do sistema democrático, por exemplo), mas um jeitinho familiar que se deu para viver naqueles termos, uma contingência subjetiva.

A ordem é, assim, forte no presente e frágil no futuro. E a elite letrada é construída através da artificialidade dos símbolos modernos e de suas ideologias, refletindo na caricatura certo desejo mimético de rivalidade. Ela se forma pensando na construção do país, como um adolescente que se quer voltar contra os pais, e fundar sua identidade, buscando características distintas do poder de outrora. Não à toa, ela sempre esteve atenta aos ruídos que imaginou vir do futuro, encantada com a cada nova moda de progresso vinda da Europa. E esta mesma elite letrada tem um grande raio de influência na história de longa duração de um país, modificando esta ordem.

Por isto, temos uma cultura que se move contra as gerações passadas. Uma nação jovem que quer sua independência, espera se auto-afirmar, mas não encontra substância, razão, maturação da identidade, mas só rebuscos, aparências, retóricas e chavões, criando um nacionalismo ressentido contra os valores universais, que só a partir deles, poderia se ter alguma sustentação original. De maneira simbólica, nas letras nacionais, os pais acostumam seus filhos a lhe odiarem, e como a ordem provém disto, isto significa odiá-la por sua fraqueza e laços pessoais, pois lembram o passado. O ódio às gerações passadas (lugar onde se poderia buscar a substância através da experiência) move a cultura brasileira e o seu nacionalismo ressentido, sempre querendo se firmando perante o passado. Neste sentido, a memória é luta, e serve para nos lembrar do que não desejamos, ao invés de ser pertencimento e moradia do nosso ser histórico. Já que o existente não é uma escolha em si mesmo, mas sempre um arranjo subjetivo.

A elite política era a elite letrada. Se os laços familiares e pessoais sustentavam a unidade da ordem por um tempo, tornando-lhe um acordo de firme de decisões, ela não tinha a mesma força institucional em longa duração, sempre sofrendo os ventos das novas ideologias do progresso, e sendo particularmente sensível ao movimento moderno de diluir no ar o que antes era sólido. São essas características que vão culminar no nacional-desenvolvimentismo do século XX.

A falta de diálogo entre as três gerações perpassa a cultura nacional e aspectos de nossa elite letrada, tornando-se um símbolo condensado de nossas dificuldades e de nossa cultura em longo prazo. A elite preenchia a burocracia, tinha o dever do estado, tinha o dever de formar a cultura, ela não nasce fruto de uma cultura, mas é pura ação no tempo, irromper de sentimentos. Ele não representa uma díade cultural entre ordem e transgressão, mas precisa artificialmente construir o país, direcionando uma parte para sustentação do trabalho de conciliação, dando força ao presente, enquanto as cisões vão lhe levando as transformações do mundo, agindo de maneira decisiva sobre a artificialidade da situação anterior. Os intelectuais num processo de autoafirmação de sua independência, mas sempre dependentes das novidades de fora e de suas modas, dirigem-se a hegemonia do progresso, criando uma espécie de imperativo categórico da elite letrada. A filosofia moderna é o substrato dessa elite letrada nacional, criado no ódio ao pai.

Neste sentido, Sílvio Romero e o seu “bando de ideias novas” são os melhores representantes desta combinação. Encantado com as novas modas que viam do velho mundo, como o positivismo, o monismo materialista, o evolucionismo, o sergipano interpretava a formação do país nas três chaves: raça, geografia e cultura. O que poderia corrigir nossos erros seria a orientação do pensamento, pela elite letrada, colocando-lhe de acordo a “intuição crítica moderna”. O país precisava tornar científico os seus problemas, estando de acordo com a verdade relativa do seu tempo, numa marcha para o progresso. Mas este desejo de futuro pela ciência e desprezo pelo passado, apresentava várias contradições.

Querendo tornar científico o pensamento, Romero mostrou muito pouco rigor em suas análises. Na sua crítica da política, sobra erística e destemperos contra políticos famosos da época e do passado, paixão pelas novidades, e pouco acuro racional, hermenêutico, e mesmo, científico. De ciência, Romero só tinha as leituras de Buckle, Taine, Moleschott, com o tom racista da época. Na marcha das ideias, o progresso esvoaçava em tons emocionais. O que ocorria era muito mais uma macaqueação. Com exceção dos estudos sobre poesia popular e folclore, Romero pouco avançou substantivamente noutras áreas.

No uso da ciência e da “intuição crítica moderna” havia uma repetição cansativa dos termos, a tal ponto que houvesse um encadeamento de emoções aos termos. As palavras ganhavam uma impressão emocional, sendo repetidas reiteradamente, sem a mínima referencia a coisa (e sua substância) que a palavra designa. A intuição crítica moderna não orientava o pensamento, repetia muito dos problemas nacionais que eram apontados, ao inverter a causa deles.

Como bom filho ingrato, num de seus arroubos, Romero afirmou que apenas Portugal era mais atrasado do que o Brasil. A culpa de nossa orientação “anacrônica” vinha da tradição. Numa dialética entre o de fora e de dentro, onde se busca a si próprio com a poesia popular e o folclore, mas se afasta dos pais, da ordem antiga, das tradições, excomungando o pacto entre as gerações, que parece nunca ter existido. Porque um pacto entre gerações depende da substância própria das coisas as quais ele se refere. Um pacto em torno da democracia liberal depende da defesa de sua essência para além do presente, mas ligando as gerações de outrora com as gerações vindouras. Ao contrário, este pacto era sempre presente e pessoal, dependente do que está internalizado na época e dos seus laços subjetivos.

O gosto pelo de fora convivia com a orientação nacionalista, ressentindo-se quanto ao “passado anacrônico”. A falta de substrato que sustente os valores facilitava o endeusamento do moderno, até ao ponto de torna-lo uma caricatura. Encantada pelo progresso, a maior parte da geração de 1870 não defendia as mudanças por valores ou pela razão, não acreditava que o fim da escravidão era uma questão de valor, mas uma necessidade do tempo histórico, da verdade do seu tempo, indo do assalariamento da mão-de-obra às teorias raciais de embranquecimento. As mudanças do devir histórico, acompanhado pela modernidade e pelos processos de modernização, iam varrendo o passado, sem um trabalho elaborativo.

Assim, essa falta de profundidade, que, na verdade, revela o desprezo pela substância e pelos o símbolo do legado dos pais, chega ao debate público fomentado pelas elites letradas, onde as modas se sucediam, e iam sendo incorporadas por suas caricaturas, como a da “intuição crítica moderna” (que nada tinha de crítica) ou da ciência hodierna (que de ciência mesmo tinha muito pouco). Na própria obra de Romero, há um trabalho que não resolve o desejo por ciência e o excesso de coração, emoção, de disputas pessoais, subjetivas, configurando-se na relatividade das verdades do tempo e num invólucro de “método crítico”, que mais dava vazão aos seus desejos e raivas.

Estas são algumas marcas da cultura nacional, do debate público e da elite letrada. Neste sentido, após a formação da ordem imperial, da unidade nacional, de nossas instituições de conhecimento, de um sistema literário, nasce a geração de 1870, ansiosa por reformas e espaços políticos e intelectuais. Uma boa parte dela trazia o entusiasmo com o mundo moderno, o desejo de consertar a nação a partir desse marco. É com ela também que se consolida uma esfera pública, com jornais e revistas, com estudos a respeito de nossa formação, e não só exaltação e reivindicações de símbolos. O nascimento dos estudos sociais no Brasil nasce muito influenciado pela perspectiva moderna, pendendo sempre para valorização da mudança e do novo.

As humanidades, o debate público, e esta elite letrada que pretende explicar o Brasil, nascem com as marcas da “cultura do repúdio”. Ela significa repudiar o existente, a vida como tal, entediar-se com as agruras do real e aspirar sempre um novo e imediato momento. O repúdio é sempre passional. A cultura do repúdio é a cultura do esquecimento, pois começar sempre de novo é esquecer daquilo que já se foi. As vivências passadas não se tornam experiências, porque não há mais aprendizado. O que se viveu deve ser esquecido em prol do novo acontecimento. Sem a reflexão do ocorrido, o homem não se torna maduro, pois não acumula mais experiências.

As elites letradas se formam, criam meios de difusão de suas ideias, assumem o debate público, e vão fomentando o senso comum da nação a partir dessa “cultura do repúdio” e da quebra do pacto entre as gerações. Soma-se ao nacionalismo ressentido que quer ver grandeza nela pelo simples fato de ser sua nação. Para se afirmar enquanto povo e nação, a crítica aos “saberes antigo”, na verdade ao clássico e ao universal.

Mas, obviamente, não é uma obrigação entre nossos intelectuais. Falo de uma configuração geral, datada historicamente, construída, relacionada à nossa cultura e formação. Literatos, como Machado de Assis, resolveram em sua obra o problema entre o cosmopolita e o local, sem cair na cultura do repúdio, na caricatura diletante a favor de qualquer ideologia do progresso, abordando os problemas da cultura brasileira, compreendendo onde pisava, sem abrir mão do universal ou do pacto entre gerações. Em sua obra, encontramos a maturidade, sempre com pitadas de ironia. Outra exceção é Joaquim Nabuco, que observando a necessidade imperiosa de acabar com a escravidão, jamais precisou recorrer à catarse moderna, ao rompimento com as gerações passadas e seu legado.

Como contraponto, Romero também teve sua valia. Justamente quando saiu dos cacoetes da caricatura científica, entusiasmada com o progresso, que criou para si, e foi buscar o sentimento do povo brasileiro. A crítica literária nele é um instrumento de acesso para compreensão de nossa formação e do nosso caráter. Os estudos de poesia popular e folclore deixaram um legado duradouro. Muitíssimo maior do que sua base filosófica. E com mais substância do que sua obra de crítica literária ou sociológica. Foi quando voltou ao passado para entender o seu povo que Romero obteve maior mérito.

Para ele, a constituição do país teria se dado através da raça, do meio e da cultura. Seríamos um povo miscigenado (uma mistura híbrida entre brancos, negros e índios), com um meio árido para civilização. As nossas dificuldades de nascença poderiam ser melhoradas pela orientação do pensamento em direção a “intuição crítica moderna”, daí diante de tanto pessimismo, o seu otimismo direcionado a cultura e ao futuro da elite letrada. Para orientar o elemento cultural, ele teve que buscar as manifestações populares, através da poesia popular e do folclore. Na coletânea de danças, contos, poemas, troços, jogos, do folclore regional, encontra-se uma bonita figura de nosso hibridismo, com o trabalho criativo do seu povo.

Neste trabalho de coletânea das representações populares, o sergipano foi fundamental no nascimento dos estudos sociais, históricos e antropológicos no país. E nisto, reside sua principal contribuição, mesmo com o racismo, o pessimismo diante da miscigenação, a caricatura da ciência e do progresso e a vontade descontinuadora em relação ao passado. A crítica objetiva que sempre virava relativização ou impasse retórico. O seu material coletado é analisado por esta perspectiva, que em suas estruturas, representam muito da cultura brasileira e de sua elite letrada. Ao falar da mestiçagem e de sua importância formadora no Brasil influenciou os próximos sociólogos, historiadores e antropólogos.

No estudo de sua obra em formação, muitas características da cultura nacional e de suas elites letradas se apresentam. Uma delas é a distância entre o julgamento e a percepção, que revela a falta de senso de medidas. Outra é o excesso de retórica, camadas de discurso, doutrinas contra a realidade prática, a experiência. Isto revela nela, a falta de uma origem, como presença do universo físico, a falta de noção densa da realidade. Pois, no tecido da vida, é necessária a realidade e sua presença. Nisto, o homem cordial demonstra uma inabilidade para lidar com os conflitos da vida, já que tudo nos parece impossível. Isto é resultado de uma cultura separada da vida prática, cheia de artificialismos e doutrinas gerais, que escondem a própria faltas de substância na ausência da unidade da experiência e consciência. Um pouco da tristeza do povo brasileiro, a que recorria Paulo Prado, no século seguinte, deve-se a isso. Um povo sem experiência de vida, pessimista quanto ao futuro e ao que não fosse certo e perene pelos laços pessoais do presente.

Neste sentido, a depreciação é uma forma de compensação. Na inadequação ao legado das gerações passadas, Romero buscava como compensação a mudança perpétua da “cultura do repúdio”, a caricatura da ciência hodierna, as ideologias do progresso. Na crítica dura, exaltada, repleta de adjetivos contra adversários ou “advogados” do saber antigo, havia também um mecanismo compensatório contra a falta de presença, a marginalidade, o querer o que não se tem, sempre e incansavelmente.

A elite letrada contava com os meios políticos e com os meios de difusão de suas ideias. E utilizavam a mediação para dar vazão à insatisfação perene com o legado das gerações de outrora. Por sua formação e meios de ação encontram-se sempre um passo a frente da população, não vindo de sua organicidade, mas lhe tirando o ânimo verdadeiro. O pensamento de Romero, como um representante de uma vertente da geração de 1870, condensa – em seus extremos – algumas dessas características que circulam e dominam o ambiente futuro da proclamação da República; porém, não reduz a atuação da elite letrada e de alguns intelectuais a isto.

Reler este momento é fundamental para entender o crítico e intelectual na feitura de sua obra, e compreender este mosaico fundado entre os fatos humanos e o imaginário. Pois, não só de ações e criatividade foi feito o homem; mas este, também, foi estruturado pelas intensas modificações porque passava o mundo, o país no mundo, e sua região no país.

A estrutura da obra de Romero foi feita durante este período que estudamos, sendo rico em símbolos para análise do país e de suas elites letradas. Com o tempo, aderiu ainda mais ao evolucionismo de Spencer, mas sempre efetuou suas análises sociológicas com base no tripé: raça, meio e cultura. Travou batalhas contra Machado de Assis e José Veríssimo, realçou a importância de Tobias Barreto. Em especial, as suas principais obras de destaque após 1880: Estudos de Literatura Contemporânea (1885), História da Literatura Brasileira (1888), Doutrina contra Doutrina (1905). Neles, Romero aprofunda algumas questões que já estavam presentes em seu período de formação. É entre 1865-1880, na luta contra a metafísica e o romantismo, na interpretação científica do país, que gira a unidade de sua obra.

As elites letradas continuam distante da realidade efetiva da sociedade civil, cada vez mais dominadas por camadas de discursos. Desta feita, a moda francesa da vez é a filosofia dos desirants. Sempre raciocinando contra os antepassados e histericamente vendo em tudo poder, contra os próprios limites da realidade. O hedonismo nacional turbinado pelo desejo sem culpa da era hipermoderna entra em cena como compensação da perda dos referenciais, que alivia as tensões. As gerações vindouras sempre estão irremediavelmente deslocadas das gerações de outrora. Uma cultura que odeia o valor, que odeia o universal, que odeia os seus antepassados, ao negar o pacto entre as gerações, e enxergar no passado um terrível opressor.

A obra de um escritor pode nos suscitar todas essas questões. Romero não era um filósofo de brilho, nem um ensaísta de primeira (abusava de repetições, caricaturas e adjetivos), mas condensou em seus escritos: retratos de uma época, símbolos da elite letrada nacional. E na parte pungente de sua obra, os estudos de poesia popular e folclore e a coleta de material sociológico e historiográfico, abriu caminho as novas ciências das humanidades e para o estudo nacional. A partir de sua base filosófica, Romero condensava as ideias de seu tempo, baseados no conceito de progresso, evolução, e no primado do sujeito; sendo que, a partir disto, elabora uma leitura original da cultura brasileira, clamando por soluções para nossas debilidades letradas.

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