Elton flaubert de figueredo


CAPÍTULO IV INTEPRETAR O BRASIL NAS VEREDAS DA CIÊNCIA



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CAPÍTULO IV

INTEPRETAR O BRASIL NAS VEREDAS DA CIÊNCIA

4.1. O caminho para modernizar o país é dar-lhe orientação social e intelectual


No combate ao romantismo, à metafísica, à ideia de essência, ao que era ensinado pelos jesuítas, as elites letradas de até então, orbitou as reflexões formadoras do caráter intelectual de Sílvio Romero, emergindo o sentimento de que o futuro desejável da nação passaria por uma reforma intelectual, uma orientação do pensamento, dirigindo-se aos símbolos modernos através da ciência hodierna e da verdade de sua época. Para além das teorias raciais e do darwinismo social, predominantes entre os progressistas da metade do Século XIX, Romero acreditava que era possível transformar o Brasil numa nação moderna, reformando sua cultura, ao dar-lhe direção na intuição moderna, diminuindo o que seriam, para ele, defeitos naturais de nossa formação (como a raça e o clima).

O naturalismo, o materialismo, o evolucionismo e o positivismo, eram as ideias novas que estariam adequadas à nova realidade do mundo, às mudanças abundantes e reluzentes, prometendo o futuro do debate intelectual (na verdade, transformando-o em ideologia) aos nossos jovens letrados, mesmo com o pessimismo em relação à construção mestiça da nação. As ideias críticas do velho mundo, transgressoras do saber estabelecido, tornavam-se moda de maneira muito mais fulminante na cultura letrada do novo mundo. Este encantamento com as novas filosofias em voga, quase sempre promotoras do progresso e orientadoras do futuro, arrebatava de sobremaneira a jovem cultura letrada nacional, sem que houvesse antes um embate entre o antigo e o moderno, de modo que se criasse uma tradição de pensamento. As modas vão se sucedendo, o entregue emocional se torna maior do que o empenho intelectual, e uma geração encontra cada vez mais dificuldade em se comunicar com a outra, fora um apelo linear guiado pelos símbolos trazidos pela modernização. Há uma ausência de tradição.

Junto com a modernização e a técnica, vinham do centro da modernidade ideias antenadas com esta, que eram macaqueadas pelos jovens da nova geração, apoiando-as de maneira entusiasta e as legitimado simplesmente por ser o novo ou vir da Europa. No entanto, estas ideias não poderiam ser simplesmente repetidas, pois não se adequavam a nossa realidade. Como pensar o país, manter o otimismo da nacionalidade e a segurança da identidade, sem reelaborar o pessimismo com a nossa formação vindas deste “bando de ideias novas”? Havia uma ambiguidade a ser reconhecida, que ficou condensada nos trabalhos de Romero.

Neste sentido, para o sergipano, no que pese todas as nossas dificuldades naturais, como a raça e a geografia, a grande contribuição do país para a “intuição crítica moderna” das nações ocidentais seria aproveitar o seu caráter mestiço, de mistura e hibridismo, para dele extrair uma contribuição original a ciências, das dificuldades inerentes a essa construção. Entre o otimismo e o pessimismo com nossa condição, Romero acreditava que era possível modernizar o país, dando-lhe uma orientação científica. E para isto, seria essencial o estudo da sociedade, da cultura, da história, da política, através dos modernos métodos da sociologia, da historiografia, da etnologia, etc.

Modernizar o país significava entendê-lo por uma chave cientificista, aplicando ao estudo da sociedade brasileira os métodos das ciências naturais, trazendo-os, portanto, para as análises sociais. A sociedade passava a ser concebida como um organismo, com coerência interna, mas que reage aos incentivos externos.

Chacon (2008) mostra que as ciências sociais chegam ao Brasil através da escola do Recife. Os estudos desses pensadores introduzem no país uma tentativa de analisar os estudos sociais fora do cabide literário, tão comum à época. Um dos objetivos de Romero e de membros de sua geração será tonar a sociologia, a antropologia, a política, a história, em disciplinas científicas, fora dos estudos literários, que sempre as marcaram até então. E esta fundação, e a maneira como ela se deu, irá influenciar as próximas gerações de intelectuais. Na base, a ideia de que o estudo do país, a construção dos estudos sociais (e científicos), deveria estar a serviço da transformação do país.

Sílvio não desejava construir um sistema doutrinário, pois seria vã diante de sua crença nas verdades momentâneas do tempo. O que ele desejava era “pintar” um retrato do país em sua formação, orientar este processo de acordo com os sintomas do tempo em que vivia, incorporando a modernidade europeia. E é nesta chave que vão sendo fundadas as instituições de conhecimento e as disciplinas das ciências humanas no Brasil.

O Brasil que Romero combate é o país de origem portuguesa, é o país do clero, é o país dos jesuítas propagadores da metafísica, é o país da tradição, é o país das essências, é o país dos intelectuais que não estão ligados à ciência do tempo, é o país dos políticos que não são contra a ordem saquarema. O sergipano é crítico de nossas tradições coloniais, portuguesas, cristã. Para ele, o diletantismo literário (fruto da cultura escolástica) e à hostilidade pelo trabalho manual, impedia o interesse pelas ciências naturais.

Como mostra José Murilo de Carvalho (1980), no início do império a formação da classe letrada no país era voltada para burocracia e para criação do estado nacional, consolidando a soberania. Havia uma tendência bacharelesca, intelectualista, estatal, mas também, literária, onde nela todas as humanidades se abrigavam. A formação intelectual era voltada a carreira burocrática. Fernando de Azevedo (1963) sintetiza dessa forma:

“A formação intelectual que recebiam, eminentemente literária, orientada não para a técnica e a ação, mas para o cuidado da forma, adestramento na eloqüência e o exercício das funções dialéticas do espírito, não podia fazer desses mestres em Artes e licenciados senão letrados, imitadores e eruditos, cujo maior prazer intelectual consistia no contato com os velhos autores latinos” (AZEVEDO, 1963: p. 278).

Para Romero, esta busca pelo humanismo obnubilava a coisa prática, e dificultava a entrada dos estudos científicos. Os estudos sociais seriam tomados por teorias, e não pela análise científica dos fatos positivos. O sergipano se volta contra certo tipo de ensino, herdeiro da tradição cristã, para por no lugar o que chamava de “intuição crítica moderna”, dominada pelo historicismo, naturalismo, monismo materialista e evolucionismo.

Por isto, no estudo da literatura, foi além da mera descrição dos elementos nacionais ou da problematização do caráter de verdade do documento, buscando, na verdade, o sentimento do país que apresentaria nossa intuição equivocada e afastada das recém-descobertas modernas. Para, a partir disso, fazer uma reforma intelectual, moral, científica, no país. No entanto, longe da suposta objetividade do rigor científico, Romero estava mais preocupado com a dimensão política e civilizacional que o seu trabalho supostamente teria ao país. Mais do que propriamente um caráter intrínseco de verdade, apuro teórico e intelectual, que corresponderia – de fato – ao amadurecimento da cultura letrada nacional, Romero estava preocupado com suas dimensões políticas.

Romero não resolveu esta ambiguidade de sua obra durante sua vida. O seu objetivo era tratar a realidade a par da crítica moderna, visando colocar o país na marcha das ideias em direção ao progresso. O seu esforço constante em mostrar os males nacionais, na sua estrutura social, política, econômica, e em sua dimensão cultural, eram muito mais retóricas do que propriamente argumentações fundamentadas e realistas, com rigor científico e conceitual. Havia, neste desejo por alcançar o moderno, uma admiração com as ideias progressistas de fora, macaqueando-as numa inspiração crítica.

O crítico sergipano prometia trazer com suas análises a “intuição crítica moderna”, mas ficava restrito ao campo da retórica, com excesso de adjetivações e bravatas contra tudo que era ou parecesse antigo na elite letrada nacional. Ao mesmo tempo, este pessimismo encontrava refúgio numa tímida esperança com nosso futuro adequado, e com as originalidades que encontrava em seus estudos.

Deste esforço de Romero na fundação das ciências sócias entre nós, duas coisas se destacam: a) as abordagens e o material coletado que abriam caminhos para análise sociológica, b) o excesso de retórica e brava na luta contra o que era antigo ou tradicional na elite letrada, condensando uma ambiguidade mal resolvida na obra, entre deslumbre modernizador e busca por alguma originalidade nacional. Mesmo com mais maturidade (ainda assim não há corte epistemológico), quando há um abrandamento da análise da cultura a partir do modelo de Taine e Buckle, e um pouco mais do evolucionismo culturalista de Spencer, esta ambiguidade não sumirá de sua obra.




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