Elton flaubert de figueredo


A literatura nacional e o “caráter” do seu povo



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3.2. A literatura nacional e o “caráter” do seu povo


Em dos seus textos sobre a literatura, na época de juventude, Uns Versos de Moça, Romero diz que as velhas doutrinas poéticas e religiosas deveriam ficar nas páginas de história. Para analisar a literatura, e consequentemente o país e o seu povo, seria necessário avançar nos estudos das leis que formaram nosso povo, assim como problematizar o nativismo. Para ele, o romantismo quando saia de tupã, voltaria a Portugal, não conseguindo achar o caminho da literatura realmente nacional.

Ainda em 1872, no Jornal do Recife, Romero publicou o artigo A rotina literária, onde afirmava a necessidade de reformas na ordem intelectual, literária e científica do país. Assim como o império ruía e necessitava de reformas diante da realidade conturbada, as letras precisavam renovar-se, aderir à ciência hodierna e revitalizar-se. Modernizar a política e a sociedade, para modernizar as letras, contra a esterilidade do atual estado de coisas, eis o seu projeto sociológico.

Neste artigo ainda, o crítico sergipano dizia que era fenômeno estável próprio dos povos novos, como os brasileiros, a obstinação em assegurar-se aos velhos ídolos, como se os antigos fossem gênios da pátria, sem os quais ela não viveria. Por isto, os povos novos teriam dificuldade de entrar na “marcha da história”. O que passou teve sua importância, mas a cultura letrada em sua marcha evolutiva deve continuar. Diz o sergipano: “A marcha de pensamento não sofre soluções de continuidade: o que foi, não é mais”. Os novos intelectuais não deveriam se fixar aos velhos ídolos.

Romero acreditava que a América tinha nascido em plena luz da renascença, sendo filha de Shakespeare, Milton, Camões e Cervantes. Mas dois séculos depois, ela já tinha legado Washington e Franklin. A diferença dos norte-americanos para nós estaria no fator racial e na formação histórica. A colonização portuguesa era diferente da anglo-saxonica. E, ao contrário dos americanos, que fizeram uma revolução, os brasileiros não teriam aprendido a pensar corretamente com a luta e o embate contra os arcaísmos. Assim, o sergipano considera que a revolução pode ter um papel frutífero, já que as novas orientações nascem dos conflitos.

Por isto, a nossa literatura ainda se encontrava em fase de transição do romantismo ao realismo. A ideia de literatura nacional estava composta, mas havia sido realizada. A crítica havia revelado que as criações religiosas, poéticas, políticas, seriam resultado, na verdade, de suas aptidões subjetivas e íntimas. O indianismo nacionalista possuía um fanatismo heroico que impedia a sobriedade da ciência que captaria as leis de formação de nosso povo, e de suas criações.

Seguindo a crítica aos tópicos do romantismo brasileiro na análise da literatura nacional, e em seu uso dos costumes e tradições do povo, Romero critica a geração ultrarromântica de Álvares de Azedo e Junqueira Freire, pela imitação estéril de Lamartine, e pelos excessos de sentimentalismo, prosseguindo o vácuo de ideias. Porém, não nega a fecundidade e talento de ambos. Diz ele:

“Chamavam-se Álvares de Azevedo e Junqueira Freire.

A crítica elogiativa e inconsciente dos maus folhetins como que apostou-se a desacredita-los. O elogio banal é um insulto para eles. Cabeças fecundas poderão ser poderosos, se a ilustração da terra lhe permitisse.

A literatura frívola do segundo império francês também forneceu matéria para imitadores impertinentes. Os romances e versos de Manoel de Macedo e Machado de Assis trazem aquela origem”56.

Só teríamos literatura nova quando o pensamento brasileiro parasse a contemplação, despindo-se dos velhos preconceitos. Para isto, não se precisaria abrir mão da figura do mestiço, ou do negro, ou do indígena, mas dever-se-ia coloca-los no fluxo da marcha civilizatória de algum modo. Devíamos nos apoderar das novas imaginações que iluminam a ciência moderna: “a civilização moderna é uma obra complexa, para ela todos os povos devem agitar-se”. Avisa-nos Romero:

“A ciência, como a poesia, não pertencem a este ou aquele povo; são da humanidade. Não há aqui gregos e bárbaros. É um engano acreditar que não podemos trabalhar com os pensadores da Europa. Essa colaboração seria honrosa para nós. Até aqui não demos-lhes uma só ideia de mais; nossos livros não lhes adiantem um passo. Seria bom que a pequenos de agora servisse de estímulo a uma grandeza futura”57.

Por dar devida atenção aos aspectos nacionalistas, e ao excesso de misticismo de nosso povo, os românticos teriam se esquecido de visualizar as novas ideias que circulam na Europa, na marcha do progresso. Para ele, seria necessário dialogar com estes novos saberes, para ler cientificamente nossa formação e, finalmente, prestar alguma contribuição à civilização.

O crítico também assevera sobre os perigos da influência francesa nas letras brasileiras. Para ele, a ciência alemã era o que havia de mais adiantado na Europa da época, e todos os países esforçavam-se para assimilá-la. Os mais empenhados nisto na França, seriam: Taine, Renan, Reuss, Scherer, Guiniaut, Bréal, Maury e Essarts. Até na imitação, seríamos atrasados, comenta Romero com acidez e ironia:

“Tal há sido a marcha do pensamento brasileiro, sempre atrasado, sempre vacilante até na imitação. Só em uma coisa tem sido fecundíssima a inteligência nacional, representada por seus corifeus: é no culto sagrado do elogio de nossos gloriosos e estupendos gênios. Há uma série de dualidades, originarias de tendências diversas, que são as grandes forças de majestoso ciclo literário do Império americano: Magalhães e Porto Alegre, Gonçalves Dias e José de Alencar, Álvares de Azevedo e Junqueira Freire, Macedo e Machado de Assis. (...)

Não existem tradições literárias, não foram ainda publicadas meia dúzia de obras de indispensável leitura, e entretanto já se contam tantas notabilidades que devem ser imitadas e seguidas...”58.

Sílvio Romero vai buscar na ordem política uma das respostas ao nosso atraso perante a ciência europeia. Os frutos da geração passada estavam colhidas, mas hoje estavam ultrapassados. A cada época o seu pensamento: “É assim o pensamento, deve passar sempre adiante; conspira sua própria ruina se tem a fraqueza de quedar-se estupefato na admiração de antigo edifício. O passado merece o culto do respeito, mas nunca o sacrifício de nossas ideias de agora”. A respeito das nossas condições de integrar nossa literatura no concerto das nações civilizadas, conclui Romero:

“A poesia brasileira, a da América toda, deve ser adiantada como filha prima da civilização atual. Deve dar à Europa a lição de uma poesia que pariu muito alto sobre os prejuízos de raças, embriagada pelo incentivo profundo da liberdade. Deve ser pensadora e democrática, séria e imperturbável, viril e fecundo, como a força das nações novas que se preparam para representar a terceira fase da civilização: o mundo americo-europeu”59.

Assim, apesar do tom pessimista quanto ao “prejuízo de raças”, Romero acredita na incorporação das jovens nações americanas na Europa, e que caberia ao pensamento trazer esse bando de ideias novas, incorpora-las no nosso contexto, e dá-lhe um elemento original a partir de sua experiência distinta. Apesar de se opor a estética romântica, continua, assim, a preocupação de construção da nacionalidade, mas inserida nos “fatos positivos” da civilização.

De tal feito, que para este empreendimento era preciso buscar os fundamentos da literatura brasileira a partir do ponto de vista naturalista, trazendo à tona a questão da raça, do meio, e da evolução histórica. Romero interpreta nossa literatura como um fenômeno instável, colocado entre a realidade duma tradição europeia que já não é mais nossa, e a fermentação dum processo de fusão racial e cultural.

Em 1871, no jornal de maior circulação do Recife, o Diário de Pernambuco, Romero publicou um de seus mais importantes artigos, A Literatura Brasileira e a Crítica Nacional. Nele, o sergipano seis autores que por força da vontade ampliaram o esforço de diferenciação nacional e de progresso: Gregório de Matos, Gonzaga, Santa Rita Durão, Martins Pena, Álvares de Azevedo e Tobias Barreto.

O primeiro exprime a fusão dos três povos e o despertar da consciência nacional, O segundo transforma o lirismo português para nossas tradições, o terceiro introduz o índio na nossa literatura; enquanto, Martins Pena por satirizar a burguesia portuguesa, Álvares de Azevedo que nos lança no espírito do cosmopolitismo moderno e de suas agruras, e Tobias Barreto que inicia a crítica à nossa realidade.

Esta seria a marcha histórica dos autores com contribuições mais fundamentais para a literatura nacional, e para o estabelecimento da crítica nacional. E na figura de Tobias Barretos, teríamos a atualização mais recente. A tarefa da crítica nacional atualizada é estudar a ação do meio, da raça, da tradição popular, a fim de dar orientação certa ao pensamento, por que este, bem orientado, age decisivamente sobre as instituições e o meio. A crítica é a arma do conhecimento que remove a mentalidade. É a atividade social do pensamento. A crítica literária visa refundir a ideologia do país, mediante a tomada de consciência dos problemas brasileiros, examinados a luz do pensamento científico moderno.

Mais tarde, já no Rio de Janeiro, Sílvio irá desenvolver muito de suas teses sobre a literatura brasileira e o “caráter” do nosso povo, no texto A literatura brasileira, suas relações com a portuguesa, e o neo-realismo, publicado na segunda edição de 1879 da Revista Brasileira. O crítico sergipano reafirma com esse texto a necessidade de rever nosso passado literário, com suas riquezas acumuladas, para propor mudanças.

Estudar a literatura brasileira, para Romero, significava identificar o nível de atraso mental do povo, sendo um sintoma de progresso ou atraso. O crítico acredita que falta uma ideia dirigente e sistemática em nossa literatura, pela falta de um critério positivo. O princípio de nossa literatura era a interpretação das ideias de fora, sua assimilação, e imitação. Por consequente, nossa ciência era manca.

As últimas décadas de império eram conturbadas, e profundas modificações na estrutura socioeconômica e política eram iminentes. Nesta época de crise, Romero via a oportunidade para o estabelecimento da crítica no país, como orientadora do seu novo espírito. Os tempos de crise trariam sempre o ideal das nações, fazendo com que a ciência crítica depure a atmosfera intelectual, sufocando o passado. Olhando para seu retrospecto, uma nação se individualizaria e conquistaria autonomia quanto mais se afasta do arcaico, compreende a verdade da época, imprimindo peculiaridade a sua mentalidade. A civilização possui unidade, mas é cosmopolita, não deve sufocar as peculiaridades de cada povo. O nosso papel peculiar estava nas raças que lhe instituíram, e nisto, residiria nossa contribuição: ajudar, mesmo em condições raciais ruins.

A contribuição da literatura nacional deveria vir desta relação entre sua originalidade (a mistura de raças) e a adaptação da verdade da época trazida pela ciência hodierna, em seu bando de ideias novas. Desta maneira, teríamos uma literatura não apenas nacional, mas verdadeira, fecunda, científica, de acordo com seu tempo, dando sua contribuição ao mundo civilizado. Por isto, Romero crítica o português Teófilo Braga, por esconder o fator negro em suas observações, sendo ainda influenciado pelo estéril indianismo mítico dos românticos.

Comparando o estado mental das nações, o sergipano chega à constatação que a literatura brasileira só não estava mais atrasada do que a de Portugal, ainda alinhada com a poesia metafísica. A poesia lírica brasileira seria muito superior à portuguesa. Para provar isto, Romero recorre à leitura história análogo entre fatos e literatura.

Na invasão holandesa, e na insurreição pernambucana, Romero destaca a união das três raças na insurreição, e o papel dos mestiços. Em especial, ele chama atenção para Calabar, um mestiço, conhecido como traidor pelo apoio dado aos holandeses. Romero faz a sua defesa, afirmando que os holandeses eram superiores mentalmente aos portugueses, em termos culturais e intelectuais. O sergipano destaca também a veia cômica fomentada por Gregório de Matos, acima da metrópole. Com a Inconfidência Mineira, ganhamos o amadurecimento da ideia de pátria, enquanto Gonzaga mostrava-se maior do que a poesia elaborada em Portugal. Diz Romero:

“Para explicar também o fato do naturalismo poético dos brasileiros do século passado, devemos esquecer as aberrações de Teófilo Braga. O fato é simples: a presença de uma natureza brilhante, a juvenilidade da nação que ia se formando, o predomínio das faculdades imaginativas num povo criança, tudo isto explica o lirismo brasileiro. A variedade de seus tons prova-se pelas impressões diversas das três raças, que contribuíram, cada uma, com a sua parte”60.

No uso da língua, Romero afirma que o romantismo foi um passo decisivo para largarmos a cultura lusa. Se tivéssemos ficado na paralisia intelectual de eterna colônia, ficaríamos tão anacrônicas quanto Lisboa. O crítico estabelece três fases no romantismo brasileiro (antes do condoreirismo): a primeira fase, religiosa, representada por Gonçalves de Magalhães; a segunda fase, nacionalista, com Gonçalves Dias; a terceira fase, cética, com Álvares de Azevedo e Junqueira Freire.

Para Romero, a maior vantagem do aparecimento do romantismo foi a conquista do desprendimento português. O maior defeito foi o indianismo, como elemento único de nossa formação, apresentado como misticismo mito-simbólico. E isto, representaria uma volta aos estágios anteriores da civilização estabelecidos por Comte.

No entanto, ele saúda o despertar do naturalismo no país. Muito antes dos portugueses, chegamos a Darwin e Comte. Romero reivindica para Escola do Recife (Tobias e Castro no condoreirismo, enquanto transição), a introdução do naturalismo e do monismo evolucionista entre nós. A partir da ação de Tobias, duas fases teriam se formando na literatura brasileira. A primeira, crítico-científica, representada por ele (Sílvio Romero). E a segunda realista, dominante entre os novos poetas e literatos, extremamente influenciados por Zola. Em sua megalomania, Romero reivindica para si a abertura de um campo mais elevado na literatura nacional.

Do romantismo partimos para a crítica realista, naturalista e evolutiva. A nossa poesia dava sinais de realismo, numa época de transição, junto com os novos tempos políticos, sociais e culturais que pairavam no ar do país. Sílvio Romero problematiza o uso do termo realista, pois “uma obra de arte é tanto mais ideal quanto fielmente se reproduz a realidade”. O novo realismo, para estar de acordo com sua época, deveria interpretar todas as faces, todas as harmonias humanas.

Sílvio Romero elabora uma defesa do Brasil em sua nova etapa, destacando a introdução do monismo científico, em suas faces mais antirromânticas e anti-metafísicas. Tobias, Pereira Barreto e Guedes Cabral são exaltados como introdutores da modernidade do pensamento entre nós. E a literatura nacional deveria ser fiel à ciência hodierna, e aos seus aspectos diversos, para revelar o país.





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