Elton flaubert de figueredo


CAPÍTULO III A CRÍTICA AO ROMANTISMO: A LITERATURA LIDA COMO UM DOCUMENTO DE CULTURA



Baixar 0.93 Mb.
Página12/20
Encontro11.06.2018
Tamanho0.93 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   20

CAPÍTULO III

A CRÍTICA AO ROMANTISMO: A LITERATURA LIDA COMO UM DOCUMENTO DE CULTURA.


"Em todas as coisas está presente o eterno".

Wolfgang Goethe.

Na vida da literatura no século atual há um quadro mal desenhado, um quadro sombrio, que há de parecer extravagante a futuros apreciadores: é o da tristeza romântica”.

Sílvio Romero.


3.1. O Combate ao Romantismo

3.1.1. Surge o movimento romântico.


Mais do que uma escola artística, com um sistema de ideias e práticas mais rígidas, o romantismo foi, antes de tudo, um movimento, simbolizando sintomas de uma época de passagem, em transformação. Surgido nas últimas décadas do Século XVIII na Europa, o romantismo não se restringiu as questões artísticas ou literárias, mas também tratou de problemas políticos e filosóficos, caracterizando-se em muito, na oposição ao racionalismo iluminista, no contexto de formação da sociedade liberal.

Giovanni Reale (1990) afirma que o termo “romântico” apareceu pela primeira vez na Inglaterra, na metade do século XVII, indicando aquilo que era fabuloso, fantástico, fora das medidas da realidade. O próprio termo “romance” passa a designar uma história pitoresca, mágica, para além do mundo real. Com o tempo, este termo passou a designar o renascimento do instinto e da emoção, numa época em que estas estavam cada vez mais sufocadas pela instrumentalização da razão, pelo cálculo das coisas materiais, e pela operacionalidade da ciência.

O romantismo surge no momento que dois acontecimentos irão delinear a formação de uma época: a Revolução Industrial e as revoluções modernas, inaugurada na Europa ocidental pela Revolução Francesa. O movimento romântico surge como a primeira resposta estética, cultural, e filosófica, a esta sociedade que está se formando. Opondo-se ao universo das formas racionalistas e da harmonia do classicismo; o romantismo representa, para o poeta alemão Novalis, uma “arma de defesa contra o cotidiano”, na modorra de sua banalidade vangloriada, em seu tédio constante. Significando, portanto, uma reação à “mediocratização” da vida espiritual no mundo moderno. Não raro, o romantismo foi, por isto, estigmatizado – não sem alguma razão – pela nostalgia idílica do passado.

Para Peter Gay (1999: p. 49), a chave do romantismo é o reencantamento do mundo. Na modernidade, segundo Max Weber, existe um projeto de autonomia no domínio privado nas esferas criadoras de valores (como a ciência, a arte e a moral), em detrimento dos símbolos metafísico-religiosos que, anteriormente, davam sentido e comunhão à vida humana. Weber denomina este processo de “desencantamento do mundo”: racionalização crescente que se manifesta na conduta humana. O homem vai largando a esfera da transcendência. Assim, uma das motivações do romantismo (GAY, 1999: p. 49), especialmente o alemão, é restaurar o mistério, pois os iluministas tinham degradado a vida interior do homem quase por definitivo. Era preciso repensar o processo de secularização do mundo, a partir do resgate da imaginação, da natureza, do instinto, através de uma realização melancólica no interior da alma do homem.

Mas, na sensibilidade romântica havia também o amor pela ambiguidade, pela perplexidade, pela complexidade do mundo moral, pelas coisas sem solução, irresolutas. Um sentimento de inquietação consigo mesmo. Essa inalcançabilidade era descrita como o estado de ânimo do anseio (Sehnsucht): uma motivação que jamais pode ser alcançada, encontrando na sua necessária angústia, um sentimento de satisfação.

Longe de ser uma escola homogênea, o romantismo representou mais um movimento de reação à época que se formava, com diferentes intensidades, e defesas até mesmo opostas. Nem sempre os românticos concordavam em torno de assuntos como revolução francesa, religião, e ciência; mas podemos identificar algumas características em comum na formação do movimento.

A primeira é a oposição entre imaginação e razão, ou em certo sentido, entre razão contemplativa (que almeja captar em centelhas a totalidade do real em sua complexidade e diversidade) e razão instrumental (interessada na operacionalidade). Neste sentido, eles objetivavam o resgate da magia, que seria a apresentação da verdade como forma de revelação.

Os românticos possuem sede pelo infinito. Para Goethe, o eterno apresenta-se em todas as coisas. Ao mesmo tempo, essa vontade é irrealizável, a não ser por um curto momento de vislumbre. Reale (1990) afirma que o romântico também expressa esse desejo por infinito como "Streben", ou seja, como "tender" para algo que nunca cessa, sendo sempre perene, já que as experiências humanas e materiais são todas finitas, mesmo que seu objeto seja o infinito, estando em transcendência. Por fora dela, transcendente, o infinito daria sentido e profundidade ao finito. É justamente este movimento, “Streben”, que salva o protagonista Fausto no romance de Goethe.

Nesse sentido, tanto a filosofia do romantismo é arte e estética, e a poesia está em acordo com essas concepções gnosiológicas: a filosofia como estética, deve captar e apresentar esta re-ligação do finito ao infinito. E a arte deve fazer esta realização, sendo o eterno que se manifesta em todas as coisas. A filosofia caminha com a arte, porque o pensamento só pode ser autêntico como inventividade. E o amor é o seu método, o seu caminhar.

A segunda característica é a concepção de natureza como vida que cria eternamente, na qual a morte é um "artificio para ter mais vida"51 (Goethe). Os românticos retomam a concepção antiga dos gregos da physis. A força da natureza é a própria imitação da potência do divino. Holderlin exclamava: "Sagrada natureza! Tu és sempre igual, em mim e fora de mim, ao divino que está em mim"52. Por sua vez, Schelling afirmava que a natureza era a manifestação do absoluto. Para Novalis, o poeta entenderia melhor a natureza do que o cientista, porque a capta por contemplação e não por métodos experimentais.

Desta maneira, a natureza deixa de ter a concepção mecanicista-iluminista, e passa a ser entendida como vida que se cria eternamente, um organismo, um jogo móvel de forças gerador dos fenômenos, que não pode ser capturado, mas só contemplado, por representar a própria força do divino.

Outro significado do romantismo (em especial, o inglês) são as críticas ao utilitarismo de Bentham. Este era um filósofo e jurista inglês que fundou uma ética baseada na ideia de utilidade, correspondendo à defesa de que nossa ação seria mais correta e benéfica pra sociedade, desde que nos guiássemos pelo critério da felicidade pessoal. Bentham foi também o criador do panóptico, que corresponderia à observação total do indivíduo, sendo um esboço para as instituições vigilantes de uma sociedade racional. O poeta romântico inglês, Samuel Taylor Coleridge, era um conservador espirituoso, e enxergava na doutrina de Bentham um inimigo contra a moral, a tradição, os costumes e a beleza. Para Coleridge, Bentham seria um representante do intolerante secularismo industrial, um sistema construído no empirismo racional de Locke e nos filósofos franceses. O poeta inglês era um admirador de Platão, e acreditava que as luzes sem a fé e a imaginação, eram inimigas do próprio conhecimento. Princípios – e não o cálculo pragmático – era necessário para o bem agir.

Os românticos europeus queriam exaltar a natureza, cultuar a imaginação e a emoção, valorizar os costumes de um povo, conservar as tradições, enraizar-se novamente. Contra o mundo que nasce da revolução industrial, contra o iluminismo e o racionalismo, os românticos se atraiam pelo lirismo, pela subjetividade, pelas emoções do eu. Eles eram nacionalistas, por que acreditavam que as tradições e costumes de um povo, num contato entre as gerações, eram mais importantes para o bem viver do que a razão universalista do iluminismo, que queria suprimir as particularidades locais.

Em decorrência disto, temos a quarta característica dos românticos: a defesa das tradições locais, dos costumes, dos hábitos. Num contexto de consolidação dos estados nacionais, os românticos desconfiavam da uniformização das ideologias do progresso. O nacionalismo seria representante da tradição local, da identidade de um povo, daí a importância cada vez maior que assume o estudo da cultura popular.

A religião, em geral, será alvo de grande controvérsia entre os românticos. Mas, principalmente no romantismo alemão, ela será revalorizada como relação do homem com o infinito e com o eterno, sendo colocada em patamar muito mais elevado ao qual era renegada pelo Iluminismo, que separava arbitrariamente fé e razão, religião e ciência. Em especial, havia uma defesa da religião cristã.

Marcante entre os românticos era também a importância dada à figura do gênio. Ele é a própria criação artística, expressando por centelhas a suprema expressão do verdadeiro e do absoluto. Novalis dizia: "Sem genialidade, nós todos não existiríamos. Em tudo é necessário o gênio". Para ele, a genialidade é o instinto mágico, a "pedra filosofal" do espirito. O gênio possui uma força originária, que imita a natureza e se torna regra de si mesmo.

Todas essas características dos românticos desaguam em dois conceitos do romantismo alemão: Sturm und Drang (tempestade e ímpeto). Para Reale (1990), estes conceitos promoveram uma reviravolta no panorama das ideias e da estética, pois ao compreender a natureza como força criadora da vida, aproximava-se do panteísmo, e contrapunham-se as tendências das luzes de colocar o divino na razão suprema. Disto, ocasiona-se a predileção por sentimentos exagerados, excêntricos, pela desmedida, pelas paixões impetuosas. Autores como Goethe, Schiller, Novalis, Holderlin, Herder, deram expressão a essa filosofia em seus trabalhos.

Há uma contradição entre os estudiosos se esse espírito impetuoso antecipa nas letras o que depois será a irrupção da Revolução Francesa, ou se já é ele uma reação a toda atmosfera iluminista e racionalista, que irá desaguar nela. Para Reale (1990), trata-se de uma reação do espírito alemão depois de séculos de torpor, tornando-se um anúncio do romantismo, em sua valorização do místico, do selvagem, do primitivo, das emoções. Um movimento que se passa não só nas letras, como na filosofia com as traduções dos diálogos platônicos feitos por Schleiermacher, reconduzindo-os as discussões filosóficas, conceitos fundamentais para os românticos, como a teoria das ideias, a anamnese, e a concepção de alma.

Um dos mais destacados românticos, Friedrich Schiller era um entusiasta da Revolução Francesa, e irá dizer que o caráter moral de um povo mede-se pela beleza tocando suas almas a partir da capacidade estética. Como no platonismo, o belo alia-se ao bem e ao justo, e torna-se meio para o conhecimento. Enquanto Friedrich Novalis, sendo bastante influenciado por Platão, encarava a filosofia como nostalgia, já que o ímpeto pelo verdadeiro representava um desejo de retorno à sua casa, à sua dimensão original e completa, sem enganos. Desejar a verdade era desejar o bem, almejar o eterno e o sublime. Por isto, Novalis era favorável a restauração da República Cristã.

Estes homens, portanto, representam mais do que um grupo, mas um estado de espírito, que formará o movimento romântico, com uma visão de mundo, por vezes extremamente ensimesmada ao se basear excessivamente no indivíduo. Os românticos voltam-se cada vez mais para si mesmos, sua interioridade, com as experiências de dramas humanos, amores trágicos, ideais que não foram alcançados, fracassos, etc.

O termo romântico passa então a se popularizar como tendência exacerbada ao idealismo, ao sonho e à fantasia, que carecem de sentido objetivo. Contra o equilíbrio dos clássicos, baseia-se no fugaz, na inspiração, na intuição, nos insights, na paixão desmedida, na saudade, no sentimento da natureza e na força da cultura popular e das lendas nacionais. Por isto, inspira-se nas lendas medievais e nas primeiras histórias de cavaleiros e donzelas do século XIII.

Encontramos diferentes romantismos na busca pelo reencantamento do mundo, todos com diversos tons e sentidos de individualismo. Enquanto o romantismo alemão valorizou mais a relação do eu e do particular com o eterno, o infinito, e o religioso, o romantismo francês era mais subjetivista, mais irrupção do eu e do império de sua vontade, sendo menos religioso e mais onipotência do desejo. Muitas vulgarizações também foram feitas nas margens do mundo moderno.

Por sua natureza melancólica, opostas ao entusiasmo com o progresso e domínio da razão, muitos intelectuais da geração de 1870, como os membros da Escola do Recife, voltarão suas críticas ao romantismo brasileiro, como representante do atraso nacional, que impediria a orientação das novas ideias progressistas.

3.1.2. O romantismo no Brasil.


Antônio Cândido (2009) afirma em Formação da Literatura Brasileira que a literatura torna-se estável como um elemento cultural de um povo, quando firma-se num sistema de obras interligadas, com um público estabilizado de leitores. Assim, a literatura torna-se orgânica diante da sociedade, e pode fixar uma articulação de idas e vindas de longa duração. Portanto, a literatura de um país só amadureceria se estivesse ligada a um sistema literário, onde autores produzem e publicam suas obras, e são lidos por um público assíduo de leitores, gerando uma tradição.

Entre nós, a literatura é organicamente fruto da literatura ocidental – que nos chegou com a colonização – sendo modificada e ressignificada com as singularidades do Novo Mundo. A influência do de fora e o desejo imperioso de destacar nossas particularidades ao acentuar o que existia de original no país, são partes da dinâmica que constrói a literatura por aqui. “Assim, a literatura não ‘nasceu’ aqui: veio pronta de fora, para transforma-se à medida que se formava uma sociedade nova” (CÂNDIDO, 2009: p.12). Uma dialética entre o local e o cosmopolita na fórmula explicativa de Cândido. Daí, certo sentimento de dualidade na formação da nossa literatura.

Ao utilizar a ótica da literatura, Cândido apresenta os vários momentos em que, nos primeiros séculos depois da descoberta do Brasil, os brasileiros tentaram se desligar da herança portuguesa, buscando a autoafirmação e uma identidade nacional singular. O meio privilegiado para esse tipo de estudo é o cultural, onde os traços mais importantes e as características mais decisivas deste espírito nacional aparecem. Ele percebe que, nos momentos iniciais, as letras tupiniquins buscavam um traço “nosso” que, ao mesmo tempo, não se afastasse do que estava sendo feito no resto do mundo ocidental.

Para Cândido (2009), foi mais especificamente no século XIX, entre o Arcadismo e o Romantismo, que se formou um sistema literário no Brasil, onde a literatura deixa de ter produções isoladas, para ser praticada como atividade regular, já tendo como referência uma tradição local. No fim do Arcadismo, com o surgimento dos gêneros públicos, em função da efervescência política, teremos o “jornalismo de ensaio”, tendo em Hipólito da Costa sua figura mais representativa, revelando uma reflexão crítica na literatura da realidade nacional. O fervor pelo crescente desejo de superação do estatuto colonial, somado a concepção ilustrada da inteligência a partir da segunda metade do século XVIII, preparou o terreno para o amadurecimento da consciência nacional do período joanino.

Se, na Europa, o Romantismo surge contra a sociedade que nascia do capitalismo industrial, contra a harmonia das formas clássicas, contra o culto da razão, da ciência, do progresso; na periferia do Ocidente, ele nasce no mesmo momento que era preciso criar uma sociedade civil, inventar e recriar tradições, época de grande admiração pelo progresso do mundo civilizado.

No Brasil, o Romantismo foi o estilo que prevaleceu entre 1830 e 1880, ou seja, desde o período da Regência até os primeiros anos da guerra do Paraguai, quando a crise do império já se fazia sentir. A ambiguidade em sua construção nas letras nacionais residia no fato do Romantismo ser análogo à ascensão e apogeu do Segundo Reinado, período de crescentes modernizações; e por outro lado, ele era primeira grande resposta estética da cultura ocidental ao mundo moderno e à sociedade liberal. Um tremendo movimento duplo.

A sociedade e as condições materiais que formaram o romantismo na Europa eram muito diferentes das brasileiras. Aqui, o Romantismo beneficiou-se do processo de formação do estado nacional e de institucionalização do saber; principalmente, da atividade literária. O Romantismo Brasileiro procurar preencher o movimento romântico com os símbolos nacionais, sendo, para MERQUIOR (2002), “o nosso primeiro sistema literário não só dotado de consciência ideológica, como de uma consciência programática da sua brasilidade”. O crítico também afirma:

“Esse período de afirmação nacional necessitava, ao nível da cultura de suas elites, de um complexo mitológico suscetível de celebrar a originalidade da jovem pátria ante a Europa e a ex-metrópole. Nesse ponto, entram em função o exotismo romântico e o gosto pelo passado remoto: a sociedade tribal ameríndia de antes da descoberta era, de fato, a nossa “Idade Média”. O indianismo é, assim, descoberto pelos românticos, como alimento mítico reclamado pela civilização imperial, na adolescência do Brasil Nação. O amparo que o mecenato oficial deu à épica indianista traduz o reconhecimento dessa função ideológica. Além disso, utilizando-se de gêneros menos “nobres” e mais populares do que o repertório neoclássico, a literatura romântica manteve-se permeável à criação folclórica e à subliteratura, isso numa sociedade pouco livresca e escassamente letrada. Por meio dessa “porosidade” cultural, a produção romântica entrou nos costumes e, face aos estilos dos seus sucessores, estava ao alcance intelectualmente pouco elevado d estudantes e sinhás. O enraizar-se do romantismo representou o triunfo da oralidade na literatura: o predomínio da experiência da palavra falada sobre o hábito sistemático da leitura reflexiva”. (MERQUIOR, 1996: p. 80-81).

Portanto, há uma dialética político-cultural na formação do romantismo tupiniquim. Se o europeu se erigia contra a homogeneização da sociedade europeia liberal e civilizada, que fazia altares para razão e ciência; na América Latina, ele incentiva que a nação se civilize, ao mesmo tempo em que vai buscar no passado referências para tal obra. Isto cria um significado duplo no romantismo latino-americano, num diálogo entre progresso e tradição, futuro e passado.

O Romantismo na Europa fez da natureza uma idealização do passado, contrapondo, tradição versus autonomia da razão. Na América Latina, a natureza funcionava como uma idealização da futura nação. Era preciso intercalar o futuro da nação, os símbolos da identidade nacional, e o passado colonial.

Ao contrário de outros países da América espanhola, que possuíam uma visão mais negativa a respeito do passado colonial, no Brasil, houve um tertius entre estes dois elementos. Assim, o passado colonial evocaria a grande nação futura. O passado da futura nação funcionava como uma espécie de profecia sagrada, materializada no tempo, prestes a se cumprir, a partir da evocação de seus símbolos.

A defesa das culturas locais do Romantismo combina com a ideia nacionalista. O filósofo romântico alemão Johann Gottfried Herder, era contra a uniformização das luzes iluministas. Ele era antiuniversalista, pois só Deus poderia abarcar a unidade do ser. Por isto, esta unidade apresentava-se materialmente na forma de várias culturas. O Romantismo nacional possuía uma missão histórica, fruto desta combinação com um momento histórico que vivíamos: a independência da nação. Com esta, veio à necessidade pela busca da autonomia cultural do país, e de tradições que dessem uma identidade ao povo que habitaria a nação recém-soberana. Por isto, podemos dizer que o Romantismo maturou e difundiu a ideia de Brasil.

Com a vinda da família real ao Brasil e com o processo de independência do país, a vida social agitou-se, marcando a literatura por um intenso período de participação na formação da cultura letrada. Acentuando ainda mais o sentimento de que a literatura brasileira deveria ser diferente da portuguesa, ensejando nos nossos escritores a vontade de falar (e talvez, explicar) o país, através de seus romances. Neste sentido, a literatura romântica cumpre um papel na formação da identidade nacional, falando do Brasil indígena, rural, regional.

A nossa literatura tenta superar o sentimento de inferioridade, gerado pela inadequação entre as medidas adotadas de fora (de países europeus com condições sociais, culturais e geográficas bastante diferentes) e a realidade de dentro, um país tropical, mestiço e culturalmente muito diferente; exaltando nossas singularidades, como forma de autoafirmação. O romantismo faz parte deste processo de pretensa negação dos valores portugueses, que, na verdade, encobria certo fascínio e dependência.

Neste sentido, em Literatura e Sociedade, Antônio Cândido (1980) argumenta que a literatura brasileira empenha-se na “pesquisa e descoberta do país”, construindo-o simbolicamente ao mesmo tempo em que, o representava em sua tinta e imaginação. Num país recém-independente, os românticos procuravam mostrar suas tradições próprias, independentes das portuguesas, tentando aprofundar no passado a própria realidade presente, a fim de demonstrar que possuíamos a mesma dignidade nas nossas raízes históricas. Mais do que os outros saberes, a literatura vai exercer, entre nós, papel fundamental na formação do espírito nacional, Cândido argumenta:

“Diferentemente do que se sucede em outro países, a literatura tem sido aqui, mais do que a filosofia e as ciências humanas, o fenômeno central da vida do espírito. (...)

Ante a impossibilidade de formar aqui pensadores, técnicos, filósofos ela preencheu a seu modo a lacuna, criando mitos e padrões que serviram para orientar e dar forma ao pensamento. Veja-se, por exemplo, o significado e a voga do indianismo romântico, que satisfazia tanto às exigências rudimentares do conhecimento (graças a uma etnografia intuitiva e fantasiosa) quanto às da sensibilidade e da consciência nacional, dando-lhes o índio cavalheiresco como alimento para orgulho e superação das inferioridades sentidas”. (CÂNDIDO, 1980: p.130-132).

Na formulação da identidade nacional seria preciso rever as tradições do nosso povo, recuperando símbolos. Os primeiros poetas românticos manifestaram o desejo de exaltar a natureza, a história, as especificidades, os sentimentos e os costumes nacionais. A terceira geração de poetas românticos, representada pela figura de Castro Alves, irá resgatar as tradições africanas na construção da identidade nacional. Neste momento, o movimento já passava pela influência do abolicionismo, pelas questões sociais, voltando-se para ideia de futuro, e abrindo caminho para o realismo e o naturalismo.

Deste modo, a literatura foi fundamental para formar a consciência nacional e investigar o cotidiano e os problemas brasileiros. Mais do qualquer outra área foi sob sua insígnia que se desenvolveu o espírito da cultura letrada brasileira. Para Cândido (1980), será Machado que condensará a dialética entre o local e o cosmopolita, justamente por ter uma visão histórica da formação da literatura e da ilustração brasileira, aparecendo nos jornais, também, como crítico literário.

Éramos um povo adolescente, querendo tudo negar daquilo que nos foi legado pelos portugueses. Na evocação do passado, tínhamos os elementos diferenciadores, como o índio, o negro, a natureza, o regional; mas faltava a maturidade das permanências. Enquanto uma boa parte da geração de 1870 (o que Machado chamava de “nova geração”) encantavam-se com a ciência e as novas filosofias modernas vindas da Europa, Machado de Assis representava a maturidade das letras nacionais, equilibrando o universal com o local. O que a literatura precisava era de um “sentimento íntimo”, onde o escritor ao mesmo tempo em que está situado no tempo e espaço, mantenha sua universalidade característica. Assim, a literatura nascente só estaria consolidada, quando após o período de autoafirmação, os autores tivessem competência para também tratar temas universais, não se restringindo a temas locais.

Neste contexto, a literatura vai se desenvolvendo no país não só como arte ou estética, mas como política ou politica cultural. A pergunta: “qual literatura?” era sempre prosseguida da pergunta “qual nação?”. Pois esta não havia se criado magicamente a partir do ato mesmo de sua independência, e era preciso criá-la, consolidá-la, dá-lhe lastro. O poder que se cria após a independência não possui a devida legitimidade histórica, baseada nas tradições e costumes, portanto, falta-lhe ser legítimo diante do espírito local, das diversidades regionais.

A literatura constata, junto com a política, que era preciso criar e consolidar a soberania nacional. Neste sentido, no processo de formação de uma cultura letrada, era preciso também evocar os símbolos condensados. Eis um dado de experiência concreta, real e material, que os românticos tiveram que lidar ao erigir suas obrar. Essa experiência histórica irá marcar a formação desta escola no país, e irá marcar o próprio transcorrer de fatos e do imaginário nacional no Brasil.

Quando o Romantismo aporta em terras brasileiras, havia inúmeros problemas de educação no império. A nossa ilustração geralmente era educada no exterior, principalmente na antiga metrópole, Portugal. A formação de uma elite letrada no país, expressando-se de maneira mais homogênea data-se desde Minas Gerais, com o Arcadismo e as revoltas, como a Inconfidência Mineira, por causa das pressões fiscais do estado metropolitano.

A maior influência do Romantismo brasileiro (assim como; o português) vem do francês. Diferente do Romantismo alemão, de quem foi uma imitação vulgar, o Romantismo francês foi inicialmente um promulgador das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade, que se espalharam pela Revolução Francesa. Decepcionado com os resultados obtidos pela revolução, como o terror e o bonapartismo, os românticos franceses voltaram-se a crítica ao materialismo da sociedade que vindoura. A segunda geração de românticos foi profundamente marcada pela decepção e pessimismo.

Um dos percussores do Romantismo na França, e um dos mais influentes no Brasil, François-René de Chateaubriand, que acreditava que a ciência não poderia chegar ao coração das pessoas, mas apenas a sua inteligência. Outro romântico muito influente foi Alphonse de Lamartine, que conseguiu um grande destaque na poesia com a obra Meditações Poéticas (1820). Mas, a maior expressão entre os franceses viria logo depois, com Victor Hugo, autor de O Corcunda de Notre Dame e Os miseráveis. Com ele, temas políticos e sociais eram trazidos ao romantismo.

O romantismo francês não tinha tanto teor filosófico, não era baseado na transcendência platônica, e na íntima relação entre contemplação, anamnese, e busca pelo inacessível eterno e infinito, com o romantismo alemão. Na França, ele foi mais maniqueísta, pois tinha gosto pelas simples oposições: ciência e imaginação, razão e coração, cálculo e sonho. E, por isto, foi por vezes, ao contrário do alemão e inglês, radicalmente anticlerical, pessimista, mas também, com facetas mais sociais e políticas. E foi este tipo de romantismo que foi mais influente no Brasil, num momento de transição do país após a independência. Menos conservador, no sentido anglo-saxão ou alemão, e mais moderno.

Entre 1833 e 1837, um dos fundadores do romantismo entre nós, Gonçalves de Magalhães, morou em Paris, e tomou contato com seus jovens poetas e escritores. Lá, ele viveu a atmosfera conturbada da Restauração e da Monarquia de Julho, e criará uma busca interessante pelo país (Brasil) num outro (França). Para pensar o Brasil era preciso analisar o seu passado colonial. E Gonçalves de Magalhães era francamente hostil aos fatos anteriores da nação. Já em outros românticos, veremos abertura e aceitação de nossa herança. Varnhagen irá dizer que foi positivo para jovem nação ser tutelada em seu passado, e que isto permitiria a realização do país, pela herança e tradição legada.

Em busca desse passado, os românticos criam uma historiografia literária, para dar cabo ao projeto de uma literatura de identidade nacional. Era preciso, então, buscar a independência literária do Brasil, na busca por suas raízes. Desta maneira, o romantismo irá navegar na memória, para descobrir a nação. Pra isto, era preciso buscar a natureza americana, como já tinha sido feito, de certa maneira, por Basílio da Gama e Santa Rita Durão.

Para melhor divulgar suas ideias, um grupo de escritores brasileiros residentes na França decidiu fundar a primeira revista que divulgaria o romantismo brasileiro. A revista se chamava: Niterói, revista brasiliense. Não deixa de ser interessante o fato de ela ser publicada no exterior, por jovens estudantes, objetivando a divulgação de cultura no Brasil.

Esta revista era o campo da primeira geração de românticos, tornando-se sua porta-voz, ao levantar questões fundamentais para a cultura e identidade da jovem nação: nativismo, autonomia literária, renovação estética. Na epígrafe da Niterói, constava: “tudo pelo Brasil, e para o Brasil”. Entre seus escritores estavam Gonçalves de Magalhães, que tinha assistido aulas de Mont’Alverne; Araújo de Porto Alegre; e, Francisco de Sales Torres Homem.

A Niterói teve apenas duas edições. Em geral, a revista tratava de economia política, literatura nacional, com crônicas, poemas e contos. As principais influências que apareciam na revista eram: Madame de Stael, Chataubriand, Constant, Say, Cousin. No primeiro exemplar, trazia um artigo de Gonçalves de Magalhães, Ensaio sobre a história da literatura no Brasil, onde ele defende a ideia de que os escritores brasileiros guardavam um "instinto oculto", que os fazia diferentes dos autores de outras nações, a despeito da influência cultural da metrópole, e do instinto nacional que lhe recorria. A tiragem da revista era pequena e a pretensão de sua publicação mensal foi frustrada pela demissão de Gonçalves de Magalhães do cargo que ocupava na legação brasileira na França.

Em 1848, outra revista foi fundada: Minerva Brasiliense. Ela trazia comentários, artigos, e notas bibliográficas, sobre a literatura francesa, grega, e argentina. Entre seus escritores e editores estavam Gonçalves de Magalhães, Torres Homem, Pereira da Silva, Santiago Nunes Ribeiro, Joaquim Norberto Souza e Silva, e Emilio Adet. A revista contava com poemas, romances e contos. A Minerva Brasiliense trazia uma novidade: a preocupação modernizadora. Na introdução do primeiro número, é publicado um artigo de Torres Homem, intitulado Progresso do Século Atual, onde são narrados os avanços no último século no Ocidente, em direção a “perfectibilidade humana”.

Em 1849, irá surgir a revista Guanabara, dirigida por Joaquim Manuel de Macedo, Gonçalves Dias e Araújo de Porto Alegre, que tinha preocupação central com o desenvolvimento moral e intelectual do homem, diferenciando-se das outras pelas preocupações deontológicas e estéticas.

Na Guanabara, aparece pela primeira afastamentos em relação a visão da corte. No texto de Macedo, Costumes campestres do Brasil, aparecem pela primeira vez a preocupação com o interior, lá residindo o país profundo, ao contrário do cosmopolitismo artificial da corte. E Gonçalves Dias, em seu texto Meditação, antecipa a crítica moral à escravidão.

Outra revista criada na época, em 1859, foi: A Revista Popular: noticiosa, scientifica, industrial, historica, litteraria, artistica, biographica, anedoctica, musical. Ela representava uma transição para uma nova mentalidade, menos romântica e mais histórica, econômica, e científica, trazendo várias traduções de fora, e tendo entre seus mais fieis colaboradores: Fernandes Pinheiro e Joaquim Norberto.

Neste período, as obras de Joaquim Norberto de Souza e Silva ajudavam a consolidar a autonomia cultural do país, desbravando o gênero biográfico, ele faz uma antologia dos perfis femininos da nossa literatura de até então, demonstrando a aliança entre o historicismo romântico e o nacionalismo. Os artigos apresentados na Revista Popular foram publicados em 1862, com o título Brasileiras Célebres, analisando personagens, como a índia Paraguaçu, a beata Joana de Gusmão, Marília de Dirceu, dentre outras, que se destacaram “pelos talentos e virtudes como pelos feitos guerreiros”. Joaquim utiliza a literatura para fornecer um mosaico dos principais acontecimentos da história do país, do descobrimento ao império, para lhe dar um caráter histórico.

Coerentemente ao compromisso firmado com a pátria, desde a juventude, Joaquim Norberto incorpora o índio à história da literatura brasileira, identificando-o com nossa “exuberante natureza”. Neste período, o índio vai sendo incorporado como uma espécie de mito-símbolo do país, dando-lhe um caráter nacional. Ao criar a historiografia literária brasileira, os românticos criaram também a literatura nacional, sua origem, seu sistema, obtendo uma identidade nacional, ao mesmo tempo em que, o império criava o estado nacional.

O indianismo romântico recuperou os símbolos do colonizador épico e do bom selvagem, porém retratados de maneira unívoca, superficial, macaqueando a realidade. No lugar dos símbolos medievais, os românticos indianistas apresentavam os índios como herói nacional, valorizando um pioneirismo no sentimento nacional, um herói épico como o cavaleiro medieval. A respeito de certos artificialismos, Bernardo Ricúpero coloca:

“Mas não é porque o romantismo brasileiro encontra no índio um instrumento para realizar sua principal aspiração, servindo de mito de fundação nacional, que se deva pensar que a imagem do indígena permaneça, ao longo da história, como essência imutável. Talvez os românticos gostassem que pensássemos assim, mas, na verdade, a representação acerca dos ‘primeiros brasileiros’ variou durante o império e continuou a mudar depois da proclamação da República”. (RICUPERO, 2004: p.154).

Na poesia, o indianismo idealizador do nosso romantismo teve sua expressão máxima em Gonçalves Dias, em seu Canção do Tamoio e no poema épico I-Juca-Pirama, narrando o heroísmo e honra do índio, diante da luta e da morte. Outro livro marcante do indianismo romântico, agora em prosa, foi O Guarani de José de Alencar. Se a língua, e outras características eram semelhantes, o que Alencar encontrou como símbolo do Brasil foi a nossa terra, elegendo como herói nacional o seu dono original, o índio. Na sua imagem, incorporavam-se artificialmente os valores desejáveis do homem brasileiro que se criara na nascente nação, como a lealdade à terra amada, que não se deveria abandonar em prol de outras. O índio Peri, protagonista, era um símbolo condensado da terra, e do amor que o povo brasileiro deveria ter de suas raízes, cultura, da própria nação.

A segunda geração será mais cosmopolita, e representa o escapismo diante das dificuldades da vida moderna cotidiana, do tédio, do escapismo diante da responsabilidade. Mas, é na última fase do romantismo brasileiro, para Merquior (2002), que ocorre – de fato – uma troca da mística indianista, que ia ao encontro da formação do estado nacional pela obra saquarema, para a militância liberal, simbolizando um período nacional de transição nas ideias e na realidade prática. Ainda assim, para Merquior (2002), quando essa conversão cristalizou-se, o romantismo já tinha conquistado a instauração de “uma língua literária brasileira”, sendo um passo fundamental para formação dessa elite letrada, que passava por um sistema literário, nacional, no processo de independência das ideias.

Mas, o romantismo também parte do Brasil de um processo artificioso. Ao invés da sociedade criar o seu estado, ao invés do povo estabilizar tradições, crenças e costumes em comum, era preciso que a burocracia e a elite letrada o fizesse, de cima para baixo. Daí que esta tradição nasce sem lastro, sem um substrato real e espontâneo. O estado nacional se forma antes da nação, e de nos tornarmos um povo: problemas da modernidade em sua periferia, onde ela foi importada. Era preciso organizar o que ficou, criar um sistema de reprodução, antes de ser uma escolha da própria sociedade. Ter que ser moderno mesmo sem escolher ser.

De tal feita, que a literatura deixou de ser apenas literatura, e passou a ser política, sociedade, e a própria cultura, acarretando em problemas estéticos notáveis, além de excentricidades. O artificialismo da invenção das tradições sem lastro fica marcado na figura idealizada de um índio por jovens que visitavam Paris e moravam na corte, sem nunca ter tido o menor contato com um deles. As nossas peculiaridades eram transformadas em mitos fundadores sem o menor contato ou experiência. Eis um dos motivos do empobrecimento do romantismo entre nós: faltava experiência. A literatura passou a ser tudo, e não era mais nada por não ser ela mesma. A literatura criou o seu sistema, mas isto foi feito perdendo o seu fundo mesmo de experiência real, num diálogo entre o universal e o particular, o subjetivo e o objetivo.

A este respeito, muito se discutiu entre os românticos. A identidade nacional lhes era anterior? Era preciso buscar este lastro na base material e social do período colonial, mas esta ainda não possuía uma unidade dirigente do espírito do homem de letras. Nas discussões entre Gonçalves de Magalhães e Varnhagen, entre o pessimismo e o otimismo perante nosso passado colonial, vemos a inversão – e fossilização – da própria tradição, pois, ela não se imponha no hábito e cotidiano dos homens, como uma realidade primária e imediata; mas tinha que ser artificialmente invocada para, depois, servir de experiência à literatura. Porém, esta experiência era tão artificial, que os próprios resultados literários foram perecíveis esteticamente, e tiveram mais serventia social, cultural, e mesmo, política do que propriamente literária.

Mesmo sem a força intelectual do romantismo europeu para se impor, o romantismo entre nós triunfou, muito mais por sua importância na estabilização de um sistema para elite letrada (com a formação de um público de escritores e leitores cativos), num contexto de formação e acumulação do poder nacional. Diante desta influência formadora do romantismo, e de suas características e peculiaridades, não espanta que, até hoje, a cultura letrada nacional, num país “sem caráter” mais substancioso, trate as tradições e costumes de um povo como um artifício, uma mera invenção, ou mesmo, um joguete dos poderosos para manter seu status quo. Ao passo que, um inglês seria tomado de assalto, se caridosamente fosse informado por um brasileiro arrogante que todos os seus costumes, hábitos e tradições ancestrais não passassem de artifícios e estratégias de dominação. Seja como for, o romantismo marcou profundamente a formação da cultura das letras no país.

3.1.3. Romero entra em cena: a crítica literária e ao romantismo


A crítica literária passava por um momento de transição e, na cidade do Recife, ouviam-se os ecos do intenso desejo pelo novo. Recife era um centro de fermentação intensa dos jovens intelectuais, embriagados pelas novidades da ciência oficial da Europa. A filosofia destes jovens pulsava este interesse.

Primeiro, nos anos 1860, com a poesia condoreira de Tobias Barreto e Castro Alves, que invadiam os teatros, as rodas de letrados, o mundo boêmio, e o amor de belas donzelas. Depois, nos anos 1870, com as críticas literárias (de bases monistas, materialistas e evolucionistas), de conteúdo científico, de Tobias Barreto, Sílvio Romero e outros jovens. O país pulsava mudanças, entrava no ritmo frenético da modernização e da vertigem social das cidades modernas, o entusiasmo com inovações técnicas e avanço da ciência instrumental fazia parecer que o paraíso estava próximo e seria em terra, não mais nos céus. E Romero cortejava a crítica literária para uma dança, procurar ampliar os estudos de literatura, incorporando-o nas discussões epistemológicas da época.

A partir do método crítico que Romero propôs perante seus estudos filosóficos, ele irá analisar a literatura nacional muito mais como um documento sociológico, de cultura, do que como uma contribuição estética. Aliás, uma das críticas vindas do sergipano, por causa de sua influência materialista, era a respeito do excesso de importância dado a questões estéticas no trato dos românticos.

Ao contrário da teoria romântica, a literatura, para Romero, deveria ser lida como letra social, como um documento de cultura de um povo, representando o grau de evolução dele, ao invés de ser lida e apreciada meramente a partir de seus méritos estéticos ou artísticos. Assim, ele estabelece uma relação orgânica e funcional entre a literatura e a sociedade, através dos métodos científicos e evolucionistas. A crítica da cultura nacional como imitação mimética do de fora aparecerá pela primeira vez de maneira mais clara.

Não seria possível a ação intelectual de Romero, se ele não se beneficiasse do universo intelectual criado pelos românticos. A historicização da literatura brasileira, sua crítica e incorporação nos sistemas da cultura letrada, efetuadas por Pereira da Silva, Varnhagen, Joaquim Norberto possibilitaram o sergipano não só um material rememorativo da experiência nacional, mesmo que artificializada, como lhe permitiu agir num campo simbólico. Portanto, Romero recebe o acervo da crítica anterior, a carga histórica legada, e tenta agir nesta tradição da crítica literária para modifica-la.

Quando Sílvio Romero começou a dar opiniões a respeito dos assuntos literários nos periódicos recifenses, os jornais e revistas já eram elementos da crítica militante, dirigindo-se a obras e a problemas literários do momento. Havia algumas revistas de divulgação literária e científica de razoável tiragem. Essas revistas contribuíram para divulgar o gosto pela literatura, e criar certa consciência analítica. Mas tal função coube por excelência à crônica e ao folhetim de jornal, que aproximaram do público, as obras, os autores, e os problemas literários. Para Cândido (2006, p: 37), “o que os salões fizeram nos séculos XVII e XVIII, o jornalismo prolongou no século XIX, ou seja, transformar a literatura numa questão de sociabilidade, de comunicação, de debate e, mesmo, de iras e renovações”. Levando também ao sentimento de que era preciso uma renovação na crítica literária.

Para suas análises culturais, Sílvio Romero baseia-se no modelo naturalista no materialismo monista, e no evolucionismo, aplicando à literatura os princípios de Taine, Spencer e outros. A isto, ele acresce elementos nacionalistas, ao concebê-la como resultado da progressiva transformação das origens europeias pela ação do meio ou mistura das raças. Romero irá dar preferência ao predomínio da ciência, da cultura, da história, dos elementos extrínsecos a obra, sobre a estética e os seus elementos intrínsecos.

Assim, a crítica literária irá mover-se entre conhecimento e emoção, ciência e arte, história e estética. Sílvio Romero buscava mais na literatura o que ela significava no plano da civilização e da cultura do que na graça ou estética das suas obras. De Littré extraiu a importância dada à filosofia no estudo da crítica literária.

A literatura deveria se subordinar a marcha das ideias, a verdade do momento, representada pelo avanço, conquista e determinação da ciência da época. Como parte do mundo, a literatura – como tudo mais – seria regida por essas leis e princípios. Sobre sua formação intelectual e literária, nos diz Romero:

“Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca o pude delas separar, nem mesmo agora para lhe responder. Não tive nenhumas precocidades literárias, científicas ou outras quaisquer. Quando escrevi a primeira poesia e o primeiro artigo de crítica, tinha dezoito anos e meio bem puxados e já andava matriculado na faculdade do Recife.

(...) Quando me afundei em mim mesmo, para sondar como se me tinha operado o que se poderia chamar a minha origem e formação espiritual, conheci que essa espécie de exame de consciência não era nada fácil. Achei, em minh'alma, meio velada, num semicrepúsculo subjetivo, tantas antropologias, etnografias, lingüísticas, sociologias, críticas religiosas, folclóricas, jurídicas, políticas e literárias, que tive medo de bulir com elas e me meter nesse matagal...

(...)  Escrevi, é certo, algumas poesias, entre os dezoito e vinte e cinco anos, que andam aí em dois volumes. Mas foi só. Não tenho romances, contos, novelas, dramas, comédias, tragédias, folhetins, crônicas, fantasias...

 Não, nada disso. Conheci, mais e de súbito, que essas confissões de autores são coisa perigosa: se se diz pouco, parece simplicidade afetada e insincera; se se diz um tanto mais, parece fatuidade e pedanteria.” (ROMERO, 1905 apud Do Rio, João, 1905, p. 29-38).

Sílvio Romero posicionava-se mais como um crítico cultural da literatura do que propriamente como um literato. Aderindo as últimas modas (o bando de ideias novas) da filosofia materialista e evolucionista, assim como da ciência oficial, da Europa, Romero fará dos periódicos em que publica seus textos, armas de combate contra o romantismo. Apesar de reconhecer os motivos e avanços proporcionados pelos românticos, para o sergipano tal movimento tinha sido ultrapassado por novas ideias na marcha da evolução cultura dos povos, tornando-se peça de museu, velharia, coisa obsoleta diante das novas expressões. Um amor e tanto pelo novo, acima da própria noção de verdade, que como vimos, estava posta a serviço da evolução e do progresso, sendo definida apenas pelo movimento material (a verdade de sua época), e não por essência ou identidade.

Sobre a crítica literária, em 11 de julho de 1873, Romero publica um artigo no Jornal O Liberal, chamado A Crítica Literária. Nele, Romero entra em polêmica com o político e escritor Albino Meira Ramos. Na época, Albino era tão-só aluno da Faculdade de Direito do Recife, mas em 1890, seria nomeado presidente do estado de Pernambuco. Albino era um ano mais velho do que Romero, mas sua sala na Faculdade de Direito era dois posterior a do sergipano, vindo a se formar em 1875. Albino Meira era um liberal, sem maiores preciosismos ideológicos. Romero ataca Albino por ver na crítica de alguns novos teóricos um elemento corrosivo e destrutivo do caráter de um povo. Para o sergipano, longe de prejudicar o desenvolvimento espiritual de um povo, a crítica seria um método científico. O único que possibilitaria a mudança radical na orientação da elite letrada, em direção a “intuição crítica moderna”.

Romero afirma (com milhares de adjetivos nada elogiosos, bem distantes do suposto rigor científico) que Albino não entende a moderna crítica e as suas modificações. Para o sergipano, a principal base da crítica, como ciência com intuição moderna, era a história. Esta seria o seu esteio, com seus métodos para vislumbrar o passado e iluminar o presente. No entanto, as posições de Albino representariam as velhas retóricas banais do romantismo. Romero exalta Tobias Barreto como introdutor da moderna crítica entre nós.

Em sua estadia no Recife, Sílvio Romero dedicou muitos artigos também à crítica ao romantismo, a partir da análise de livros de poesia e dela como um todo. Num desses textos, A Poesia de Hoje, em 1873, o sergipano faz esta crítica ao romantismo:

“É um progresso sem dúvida se atendermos a falta de ideias firmes e determinadas que houvera sido, em grande escala o apanágio dos nossos doutrinadores. Fazer a classificação, sem bases, da escola mineira, traçar insulas biografias dos poetas do século passado, citar fora do movimentos uns versos de Caldas ou Dirceu, tudo aquilo que os críticos românticos entendiam ofertar-nos, tudo isso deve sair da circulação. (...) Enumerar as excelências do gênero épico e as propriedades dos gentios para ele, namorar a solidão das selvas seculares e a frescura da primavera eterna do pátrio céu, sonhar o caboclo ou o campônio, pesado de encantos e maravilhas, tudo com que os folhetinistas tinham por bem brindar-nos, tudo isso deve cair por muito estéril ou banal. Estas coisas, se houvessem de pertencer à história, para lá já devem ir marchando; estão no domínio das ideias moribundas53.

Para o crítico sergipano era preciso procurar as leis científicas para uma sistematização da nossa vida pensante. O romantismo teria nos legado “frescuras” anacrônicas, pouco rigorosas, e uma intuição pouca afeita ao moderno. Não nos faltam palavras para ser um povo de alta cultura, segundo Romero, mas falta-nos ciência hodierna, ligada ao que seria o novo e o sentido da época.

É neste mesmo sentido que, em 1872, no jornal A República, Romero publicou um artigo intitulado Uns Versos de Moça, onde analisava o livro de versos de Narcísia Amarália, Nebulosas. Neste artigo, Romero faz uma série de críticas ao romantismo por sua morbidez. Para o sergipano, a tristeza romântica impediria a vivacidade científica séria e despreocupada. O romantismo seria uma expressão artística sonolenta e mórbida.

A melancolia, instância querida dos poetas românticos, seria um estado perpétuo de paralisia, impedindo o espírito sistêmico, não sendo um estado passageiro. A melancolia, a imcompletude, a busca por algo inacessível, virou alvo supremo dos sonhadores românticos, impedindo a visão científica, a evolução da marcha das ideias, o otimismo perante a verdade do tempo. Diz Romero: “Como o misticismo alexandrino procurava na desfruição a suprema condição para fruir a eterna verdade, o romanticismo dos últimos tempos buscava no desespero sentimental a última ratio do belo infinito!”54.

Mas, a história haveria de corrigir este impropério romântico. A alegria desafogaria-se de seus prantos. Traçando uma história ou evolução da alegria e da tristeza, Romero afirma que a alegria pagã era uma serenidade majestosa da vida sã da antiguidade, enquanto a agonia dolorosa do espírito ascético medieval, um anelo místico do teologismo cristão. A renascença, por sua vez, teria um espirito dúbio entre o sonho e o céu, a realidade e a terra. Três séculos se passaram disso, e o romantismo ainda estaria a dar ressonância a tal coisa, não estando atualizado com o espírito do século.

No século atual, essa dubiedade deveria ser contrabalanceada, mas isto não ocorreria com o romantismo, que fez a primeira metade do século XIX pertencer às cismas do infinitismo e da essência. Para Romero, este “idealismo abstruso” e “empirismo grosseiro” perderam razão de ser.

O romantismo divorciava o amor do prazer sério e suave, e transformava-o em desespero. O amor e o prazer teriam perdido, entre os românticos, o caráter de dignidade e de candura que tem sempre as paixões profundas e sadias. O movimento romântico impediria a ciência hodierna, pois esta pisa em terreno sólido, sem extravagâncias. É o caminho da história para as produções da humanidade futura, filhas do sentimento e das criações oriundas da inteligência. Romero lamenta, ainda, os créditos às ironias de morte feitas por Byron e os pesares de Lamartine. Em defesa do lirismo contra a melancolia romântica, Romero afirma:

“Os repetidores de Schlegel devem pôr-se um pouco mais a par do movimento científico do dia para não se exporem tão facilmente... A literatura que combato, não teve doutrinas suas, eu não sei qual fosse a filosofia de um Shelley ou a de um Musset. Tão grandes como são, pode ser que muitos possuíssem, mas não a deveram certamente às extravagâncias do seu sistema. A transformando em vista do futuro... Por que e por quem? Enigma estupendo! Eis uma fórmula vazia, sem alcance e sem critério; nada exprime além do desconhecimento da morte profunda, irremediável que dilacera as entranhas da decrépita doutrina”55.

Em 1873, Romero irá publicar no jornal O Trabalho, uma série de textos críticos, chamados O romantismo no Brasil. Nestes artigos, Romero critica a falta de realidade social na literatura romântica, criando, para ele, uma artificialidade de nossa experiência, por um excesso de interesse em questões estéticas. Não bastava participar do projeto de unidade nacional, buscar e inventar tradições para o povo; para Romero, era preciso aproximar ainda mais a literatura das questões culturais e sociais, e torna-la ainda menos um problema estético.

O excesso de idealização representaria a falta de paixão pelo passado, não como um mito ou símbolo, mas como materialidade ocorrida, do romantismo brasileiro; pois este, não olharia para o passado de acordo com os parâmetros da ciência historiográfica, mas preocupado na exaltação do que ontem foi. Isto impediu que os românticos procurassem as leis de formação de nossa vida mental.

Sílvio Romero combate nestes artigos duas coisas do romantismo: a) o povo apresentado como sendo capaz de ombrear o mundo civilizado; b) e o misticismo popular. A inerrância do povo e sua soberania pelos românticos são comparadas ao direito divino dos reis e a infalibilidade papal. Romero critica o fato de o romantismo ter transformado o povo em mito, com atributos singulares e extranaturais, um índio falso, e não verdadeiro, real, de acordo com os parâmetros das ciências humanas. O romantismo fez mais retórica do que psicologia, mais divagações retóricas do que analise etnológica. Ele afirma: “estamos fartos de apologias poéticas e de cismares românticos; mais gravidade de pensamento e menos zigue-zagues de linguagem” (ROMERO, 1977: p.38).

Em síntese, o romantismo encontra-se numa via oposta a desejada por Romero. Por seus significados, ainda estaria atrelado aos idealismos do espiritualismo vindo do colonizador, ao misticismo universalizador, a exaltação pitoresca das características pátria. O romantismo tinha uma intuição oposta a do “bando de ideias novas”. Para Romero, era preciso modernizar o país a partir da orientação de sua elite letrada, tornando-a refratária ao essencialismo e ao romantismo. O país precisa ser orientado pelas letras a “intuição crítica moderna”.

Entusiasmado com o bando de ideias novas vindas da civilização, que apareciam na paisagem tropical do Recife, Romero irá tentar adapta-las a nossa realidade, mostrando nossa originalidade e identidade, mesmo que às vezes de maneira pessimista, abrindo para os estudos sociológicos, literários e etnológicos, um campo vasto. Se, por um lado, o entusiasmo com as ideologias do progresso que vinham de fora, e com as modernizações materiais e intelectuais, levou o sergipano a desprezar questões estéticas, metafísicas, e a contestar a veracidade das modas, caindo em mitos historicistas; por outro, ajudou a criar um campo de estudos no país, incluindo nisto, os estudos literários. Portanto, Romero traz para crítica literária novos objetos, métodos e campos científicos, com a etnologia, sociologia, antropologia.





1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   20


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal