Elton flaubert de figueredo


INTERMEZZO I MODERNIZAÇÃO E PROGRESSO PELA “NOVA GERAÇÃO”



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INTERMEZZO I

MODERNIZAÇÃO E PROGRESSO PELA “NOVA GERAÇÃO”


O projeto moderno coloca o indivíduo no centro do mundo, ao prometer que com uso da razão subjetiva (pragmática, instrumental, etc.), do esclarecimento, das luzes, da ciência moderna, nos auto-conservaríamos melhor, através de um ordenamento racional e técnico. No Fausto de Goethe, o diabo Mefistóteles costumava dizer: “tudo que existe merece fenecer”. Na roda-viva dos processos de modernização e nas engrenagens do progresso, tudo parece se transformar em perecibilidade, mudança, devir. Tudo nos parece descartável. Neste sentido, o torvelinho moderno gera um impasse: promete felicidade, progresso, transformação do mundo ao redor; mas, ao mesmo tempo, nos tira a identidade, os encontros míticos e simbólicos, a constância, as bases transcendentes. A modernidade ultrapassa as fronteiras entre nações, religiões e culturas, numa espécie de universalismo formal; porém, de maneira paradoxal, vivemos na eterna desintegração, na cultura do repúdio (onde tudo está sempre a se reciclar, começar do zero, de novo e de novo), num turbilhão de mudanças, disputas, e contradições entre o antigo e moderno, gerando mal-estar e angústia.

Pois, no cerne do projeto moderno há uma promessa de felicidade, baseada na ideia de que a humanidade está sempre progredindo em direção à civilização. A justiça e a bem-aventurança saíram do céu e vieram para o mundo terreno, num processo de secularização. O paraíso não deveria ser mais esperado para o além da morte, mas dever-se-ia ser construído aqui e agora, desde que se confiasse na razão, nas instituições, na ciência. “O paraíso terreno é onde estou”, dizia Voltaire. A ideia de progresso suplanta o da eternidade, e o futuro é o refúgio da esperança.

Mas, evidentemente, as promessas feitas pela modernidade não poderiam ser cumpridas. Otimista com o futuro, embriagado de expectativa pelo paraíso próximo, da felicidade perene, e do gozo permanente, livre de todos os males e limites; os modernos se depararam com o abismo: o Século XX. Duas grandes guerras, genocídios, holocaustos, ditaduras que matariam mais do que quaisquer outras na história da humanidade, desagregação social, anomia, desenraizamento. Se antes admirávamos o mar e a promessa de terra futura onde jorraria leite e mel, de dentro do Titanic, o navio-símbolo do progresso; agora, voltamos nosso olhar para dentro deste navio (ou para dentro de nós mesmos), fazendo dele o próprio palco de nosso prazer efêmero, que nada mais é do que uma revolta permanente contra a realidade. Pois, começar sempre de novo é esquecer aquilo que já se foi, onde tudo é destruído – ao ser integrado – em busca de uma salvação hipotética: salvemos todos, ao tudo destruir, para do “zero” o mundo recomeçar.

O fim da Grande Guerra e a irrupção de 1968 foi significativo no novo estágio do capitalismo e daquilo que gosto de chamar de “hipermodernidade” nas trilhas de Lipovetsky. A base do capitalismo deixa de ser a poupança e o trabalho, e passa a ser o consumo e o desperdício. A vertigem de 1968 inaugura um novo dogma de felicidade, adaptado aos novos tempos, contra a visão restritiva. Agora é proibido proibir, mesmo que isto seja uma abstração sem sentido.

O projeto moderno concretiza-se na globalização, no império das instituições globais (ONU, UNESCO, etc.) contra as soberanias nacionais, na mercantilização da vida, na onipotência do indivíduo; mas, também, na universalização do consumo, na ampliação do conforto, e na segurança para lidarmos com nossas próprias vidas. A ideia de progresso foi ressignificada, e continua presente na gramática política e no cotidiano das pessoas, não sendo mais defendida de maneira ingênua. O nosso tempo, ao acompanhar a intensidade e (falta de) sentido de nossa vida, virou flexível e fluído. A instabilidade é a regra. Entregue as suas fantasias, ao dirigir os “seus reinos pessoais”, o homem hipermoderno desfruta de sua liberdade a partir de uma postura impulsiva, e não raramente, histérica. Sem voz interior, mudando a cada instante, ensimesmado, mentindo para si mesmo, perdido sem a tradição e sem poder contar com reflexões a cerca de sua conduta, este sujeito vira um náufrago da existência, onde a confusão e falta de sentido predominam em suas atitudes. Em síntese, perdeu-se a experiência.

Se na época de Sílvio Romero, o naufrágio da crença no progresso não era tão evidente, pois, se vivia o auge desse entusiasmo com a ciência, agora, parece-nos mais evidente uma ligação intrínseca entre a modernização e a descrença em relação ao duradouro ou apodítico, seja transcendente ou assentado em hábitos e costumes antigos, fazendo uma ligação entre as novas e as velhas gerações: passado, presente e futuro. Num mundo de constantes mudanças, onde os homens movem a qualquer momento uma montanha de lugar, e dominam a natureza para dela extrair respostas, a ideia de essência ou algo constante não poderia nos parecer mais estranha. Tendemos a encarar o mundo a nossa volta como mudança, história e mera criação cultural.

Muito tempo atrás, incomodado com a celebração festiva do progresso e da capacidade técnica-racional, Machado de Assis irá ironizar – com certa elegância – esta nova geração encantada pelas ideias mais modernas vindas de fora, escrevendo em 1879, um pequeno e magnífico ensaio, intitulado A Nova Geração. Machado vê em boa parte da crítica da nova geração ao romantismo uma tendência à falta de prudência, ao preparo intelectual e a ponderação. Por tanto entusiasmo, faltava reflexão.

A poesia romântica era demasiada piegas e melancólica diante dos elogios faustosos da modernização. Além disso, os excessos da poesia subjetiva tinham chegados ao limite da puerilidade e abstração. A poesia nova alargava “o céu dos rapazes” ao incorporar as ciências novas. Diz Machado:

“Os naturalistas, refazendo a história das coisas, vinham chamar para o mundo externo todas as atenções de uma juventude, que já não podia entender as imprecações do varão de Hus; ao contrário, parece que um dos caracteres da nova direção intelectual terá de ser um otimismo, não só tranquilo, mas triunfante. Já o é às vezes; a nossa mocidade manifesta certamente o desejo de ver alguma coisa por terra, uma instituição, um credo, algum uso, algum abuso; mas a ordem geral do universo parece-lhe a perfeição mesma. A humanidade que ela canta em seus versos está bem longe de ser aquele monde avorté de Vigny — é mais sublime, é um deus, como lhe chama um poeta ultramarino, o Sr. Teixeira Bastos. A justiça, cujo advento nos é anunciado em versos subidos de entusiasmo, a justiça quase não chega a ser um complemento, mas um suplemento; e assim como a teoria da seleção natural dá a vitória aos mais aptos, assim outra lei, a que se poderá chamar seleção social, entregará a palma aos mais puros. É o inverso da tradição bíblica; é o paraíso no fim. De quando em quando aparece a nota aflitiva ou melancólica, a nota pessimista, a nota de Hartmann; mas é rara, e tende a diminuir; o sentimento geral inclina-se à apoteose; e isto não somente é natural, mas até necessário; a vida não pode ser um desespero perpétuo, e fica bem à mocidade um pouco de orgulho”50.

O ceticismo de Machado para com as coisas humanas nunca lhe deixou embarcar na euforia da mocidade pelas quinquilharias que viam de fora. Enquanto a humanidade se encantava por si própria e por sua capacidade de dominar as ameaças do natural, Machado utilizava de sua ironia para tratar de Narciso no espelho. Ele identifica uma nova tendência, fruto da voga cientificista que chega ao Brasil, que combate o subjetivismo do romantismo. E é certeiro quando ironiza Silvio Romero por descartar romantismo, idealismo, socialismo, positivismo, em três páginas e com inúmeras adjetivações, numa relação neurótica com o que há de sempre novo.

Machado afirma que, apesar da falta de estilo, Romero é um dos maiores estudiosos da nova geração, tecendo elogios ao seu trabalho sobre a poesia popular no Brasil. O mesmo elogio não pode ser estendido a sua poesia. A concepção científica não se adequa poeticamente a sua forma, dando a impressão de um “um estrangeiro que apenas balbucia a língua nacional”. Sobrava talento naquela geração, mas faltavam unidade e profundidade, devido a certo pedantismo fantasioso resultado da idolatria do futuro e de si mesmo: “aborrecer o passado ou idolatrá-lo vem a dar no mesmo vicio; vício de uns que não descobrem a filiação dos tempos, e datam de si mesmos a aurora humana, e de outros que imaginam que o espírito do homem deixou as asas no caminho e entra a pé num charco”.

A nova geração de progressistas frequenta os livros da ciência hodierna, sem escapar do perigo de fazer-se de superior – com aquele ar entojado – daquilo que lhe foi legado. Desejosos de mostrar o que os seus iguais ignoravam, os novos moços tendiam a se diferenciar como um objetivo, em busca de destaque qualquer. Machado advertia os moços com serenidade: “digo aos moços que a verdadeira ciência não é a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para nutrição; e que o modo eficaz de mostrar que se possui um processo científico, não é proclamá-lo a todos os instantes, mas aplicá-lo oportunamente”. O escritor carioca alerta também a nova geração o espírito de seita dona da verdade, sempre tendente a cair no ridículo.

Nos alertas de Machado condensa-se boa parte dos fracassos das ideologias do progresso, que ficariam visceralmente e mortalmente expostas no Século XX. Um século de guerras, tiranias, genocídios, holocaustos. Um século dominado por homens que julgavam ter os futuros em suas mãos, e que podiam julgar o presente por esta sentença futurística.

George Steiner, publicou em 1971, No Castelo do Barba Azul: algumas notas para a redefinição de cultura. Neste ensaio, ele fez uma analogia entre os extermínios do último século e certa cultura que de longa data se construía. Para Steiner (1992), nenhuma catástrofe ocorrida, como holocausto, não foi antes arduamente desejada pela cultura letrada do Velho Continente, preenchida de tédio, torpor, fastio, e um desejo incontido por algum evento que desse sentido a vida. Vida esta, despotencializada de qualquer sentido depois da “morte de Deus”. O mal-estar da cultura e o niilismo convivem dialeticamente com a euforia incontida pela razão, pela ciência, pela celebração do homem (ou seja, de si mesmo), e anunciam o purificador sangue dos sacrifícios em prol do futuro que foram as revoluções e as guerras mundiais. Uma espécie de volta as religiões imanentistas, que ofertavam o sangue sacrificial aos deuses (neste caso, o futuro redentor).

Os fracassos das ideologias do progresso produziram mais um dos seus filhos: o relativismo. Na presunção de chegar a certezas absolutas ou mesmo a um sistema total que se apresentaria na autoconsciência histórica, através dos métodos instrumentais da ciência ou do inquerimento da razão; os homens decepcionaram-se com a ideia de verdade, tornando todos enunciados iguais entre si (o que já inviabilizaria a própria igualdade de enunciados, já que este é só mais um deles, sem conteúdo intrínseco de verdade que pudesse ser julgado). A crise da razão encontra-se na perda dos seus fundamentos: na tendência da alma para contemplação, que abre o universo como uma totalidade em suspenção. Ao contrário do animal, que só entende o mundo a partir do seu em torno e de suas impressões visuais; o homem apreende imaginariamente o sentido das coisas na própria linguagem (que só pode se realizar pelo princípio da identidade). Mas, a apreensão de qualquer realidade é impossível de ocorrer sem ambivalências. O tido conhecimento objetivo não deixa de ser aprovado por um consenso socialmente útil (como a classe letrada), não fazendo sentido negar as certezas conscientes vindas pelas evidências diretas de um indivíduo isolado.




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