Elton flaubert de figueredo



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2.6. A função da crítica


Ao tratar da cultura filosófica nacional e das ideias filosóficas vindas de fora do país, Sílvio Romero se apropria da ideia de método, que perpassa por toda ciência moderna, para tratar da cultura e identidade nacional. E o seu método é crítico, tentando realçar o seu caráter positivo. A construção da sua base filosófica irá lhe proporcionar a aquisição de uma metodologia para tratar dos problemas de formação do país.

O método crítico pretende captar o espírito do século, através da verdade relativa que surgirá do embate com as ideias anacrônicas, mortas na marcha da evolução. A crítica ilustra o espírito da humanidade, descobre a analogia das obras no envolver do tempo. Para além do comentário, a crítica não é só uma intepretação, especializando-se no esclarecimento científico, histórico e social.

O substrato da crítica é captar a fundamentação científica do pensamento, que a partir da evolução das leis naturais reveladas pela ciência hodierna, vai progredindo, e uma verdade relativa vai substituindo a outra, de acordo com o sentido histórico de cada época. Para Romero, a história era uma sucessão evolutiva, onde as verdades de hoje superavam as de ontem, e caberia a crítica parir a verdade nascente do momento. E como a cultura é um sistema, ela não pode abdicar da “intuição crítica moderna” para dar-lhe uma direção esclarecida para melhor fazer coletivo.

Assim, o criticismo de Romero é uma teoria do conhecimento, adotando a verdade como relativa, e se revelando a partir da lei dos contrastes. Diz Cândido:

“(...) entende por crítica o fermento trazido em si mesma por toda ideia e que se eleva ante ela como negação, sempre que ela perde a sua funcionalidade. No processo evolutivo, o espírito crítico é o que, tomando conhecimento dos limites de um pensamento, revela as suas incoerências e propugna o pensamento novo, que lhe sucederá. Uma noção quase dialética, lembrando a teoria hegeliano-marxista da contradição interna de toda ideia ou estado social”. (CÂNDIDO, 2006: p. 89/90).

Do materialismo, legou a ordem do ser social, sendo estas sucedidas a partir de uma lei interna. Criticar é ter contato com a realidade das coisas que estão de acordo com o espírito do tempo, é compreender a alma e sensibilidade de um povo, e dar-lhe uma orientação adequada a este tempo. O papel do crítico é interpretar este espírito do tempo, com a intuição adequada à ciência moderna, orientando o pensamento do país, dando-lhe substância, fazendo-lhe cair tudo o que está estabelecido como anacrônico. Conclui Romero em sua A função da crítica (1880):

“Ela, aqui, não deve limitar-se ao empenho de mostrar o largo caminho que nos cumpre trilhar; deve, antes de tudo, desobstruir o terreno, juncado de velhos preconceitos e falsidades; deve alçar o látego destruidor e desfazer as legendas, para afirmar a luz”44.

Desde seus primeiros escritos nos jornais, Sílvio Romero se mostrava um intelectual combativo, mirando suas armas intelectuais na direção de qualquer um com quem discordasse. Durante este caminho, Romero enfrentou uma série de dificuldades por conta de sua personalidade irascível e pela combatividade de suas ideias. A fúria dos criticados, e a reação nem sempre honesta, utilizando-se de outros meios, chamou a atenção de Sílvio e marcou muito de sua reflexão sobre o espírito nacional. Afirma ele:

“Não deixa de ser coisa perigosa o publicar neste pais um livro de crítica. Além da falta absoluta que existe aqui desta ciência e disciplina de espírito, acresce que os nossos ledores, grandes e pequenos, como bons burgueses, estão tranqüilíssimos com tudo quanto os cerca, e repelem soberbamente aquilo que os possa perturbar”45.

A crítica moderna deveria enfrentar os problemas estrutura da elite letrada do país e do seu cotidiano e modus operandi. A vida espiritual brasileira, para Romero, seria pobre e mesquinha, marcada pela banalidade, e pela irritação com quem pretende trazer as novas ideias e os novos princípios. E esta incapacidade é a principal responsável por não termos um pensamento próprio, uma cultura filosófica, de autores que dialogam ou se enfrentam, sucedendo-se no tempo, e criando uma tradição de pensamento. Diz Romero:

“A força de desprezarmos a corrente de nossa própria história e pormo-nos fora do curso das idéias livres, eis-nos chegados ao ponto de não passarmos de ínfimos glosadores das vulgaridades lusas e francesas; eis-nos dando o espetáculo de um povo que não pensa e produz por si”46.

Para reverter este quadro, seria fundamental dar importância à reflexão histórica. A aura negativa que orbita em torno da crítica, impede o entendimento dessa nova ciência, de sua força e alcance, em lidar com os fatos positivos e com o espírito da época. O trato irascível que é dado ao método crítico, inquieta Romero: “Em que pode prejudicar ao desenvolvimento espiritual de um povo o estudo que lhe mostrem quais as suas conquistas históricas e suas aptidões imanentes?”47. Só no espírito crítico, o Brasil tomaria outra direção, a partir de um novo ambiente intelectual que lhe animaria, estando de acordo com a verdade do seu tempo. A crítica seria responsável por um futuro melhor desse país. Sílvio Romero explica:

“A nós que temos vivido de contrafações indigestas, a nós que não temos vida própria, que somos um dos povos mais deteriorados do globo; que, espécie de contrabandistas do pensamento, não temos a forma das grandes conquistas e das grandes verdades da ciência, só a crítica, a tão desdenhada crítica, nos pode preparar um futuro melhor”48.

E para isso, é preciso escrever com paixão e criticar com paixão. Mas paixão pela ciência. Ela seria a guia da sinceridade, que nos levaria a verdade do tempo. O intelectual apaixonado pela verdade não se encanta com doutrinas ou sistemas, mas pela verdade relativa da época, por ter a nobreza das boas convicções e dos bons estímulos. As ideias, enfileiradas em marcha, vão se esvanecendo na irascibilidade crítica, em sua cordis. Afirma o sergipano:

“Para certa gente, escrever sem paixão eu sei o que quer dizer: é faltar à consciência e à dignidade, ter a cabeça cheia de parvoíces, que se derramam sobre o papel; é chafurdar-se constantemente no pestilento pélago dos elogios mentidos e das bajulações indecorosas. Escrever sem paixão é repetir, em todos os tons possíveis, as velhas frases louvaminheiras, que povoaram este país de gênios e de prodígios, de sábios e de brilhantes; gênios e sábios em alguns medíocres, que nos têm dado uns folhetins... prodígios e brilhantes alcatifando os nossos rios gigantescos e as nossas selvas seculares”49.

E artificialidade da cultura brasileira encontrava-se na metafísica ultrapassada pela ciência e no romantismo pitoresco e grotesco. A poesia romântica representava toda artificialidade da cultura intelectual do país, pois era falsa, tratando de símbolos inexistentes, de maneira pitoresca e não científica. A poesia romântica desandou a falar sobre os índios e a cultura popular, sem fazer um estudo científico sobre nossas lendas, nossos costumes, e nosso folclore. A ciência da crítica, ao contrário, pretende renovar o antigo terreno da filologia, das criações mitológicas e religiosas. Eis como Romero trabalha a literatura como um documento cultural. E este é o fio que nos leva par ao próximo capítulo.

Neste capítulo, sintetizei: a) as raízes, formação e substância da filosofia moderna, ainda em sua variedade, a partir do primado do sujeito, do antirrealismo gnosiológico, do subjetivismo da ciência moderna, que possibilitaram ascensão do “bando de ideias novas” de meados do século XIX; b) como as ideias nas elites letradas brasileiras estavam ligadas a ação dos homens e a independência da nação, desde a escolástica de teor lusitano, ensinada pelos jesuítas à filosofia moderna, as ideologias do progresso da nova geração, passando pela transição conciliadora do ecletismo; c) a base filosófica de Sílvio Romero, baseada visão teleológica da história, mas também culturalista, e orientadora da ação humana. A partir disso, analisei o “bando de ideias novas” trazidas pela Escola do Recife no quadro geral da elite letrada nacional, o que elas representavam na ação humana, e o quadro estrutural da época que apresentavam a partir de suas ambiguidades.

A verdade, para Romero, era sempre a do seu tempo. E nesta marcha, era possível alguma ação humana para adequar o pensamento e a cultura nacional a ela. A outra opção seria se entregar ao anacronismo e fracasso. O método para atualizar o pensamento nacional seria a crítica. E seria com este método que ele analisaria as manifestações culturais no país, a partir da literatura, poesia popular, folclore, etc. O seu projeto era criticar nossa formação cultural, a partir de uma dupla vertente. Por um lado, pessimista quanto a nossa formação racial e geográfica, por outro, otimista quanto à possibilidade de, através da crítica, modernizar o pensamento nacional, e criar uma nação culturalmente independente. É neste ritmo ambíguo de sua obra, que passarei a sua análise literária, a partir da função da crítica ao romantismo e dos estudos da poesia popular, e os problemas para a realidade prática que suscitavam.






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