EducaçÃo imagética em platãO



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EDUCAÇÃO IMAGÉTICA EM PLATÃO

ALVES, Daniel Figueiras

UNICAMP – Faculdade de Educação – Grupo PAIDEIA – Pós-Graduação em Educação – SP

Eixo 5: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação, Linguagem e Mídias

Categoria: Pôster

danielfigalves@gmail.com


Resumo
Este projeto contempla uma discussão em torno de três recortes temáticos no pensamento platônico: Educação, Imagética e o confronto destes dois: Educação Imagética. Platão aborda a Educação de forma ampla e diversificada nos Diálogos; contudo, nosso recorte pretende focar a formação moral e propedêutica fundamentada na tradição. Numa segunda etapa trataremos da Imagética platônica, discutindo o papel e a posição das imagens dentro dos Diálogos. A Educação Imagética, por fim, será desenvolvida nesta pesquisa como entroncamento daqueles dois temas. Visa elucidar o procedimento pedagógico mediado por imagens para a infusão das virtudes (sensíveis e moralizantes) na alma, com vistas à adequada conduta política no Estado. A metodologia consiste numa Leitura Estrutural dos Diálogos contextualizados em seu ambiente histórico. Esta metodologia permite a compreensão do pensamento de Platão (tempo lógico do discurso) fundamentado em seu tempo histórico, haja vista ser inegável a influência da tradição na edificação do pensamento filosófico platônico.
Palavras-chave: Educação, Imagem, Platão.


Introdução e delimitação do problema

As imagens são parte integrante do discurso platônico e constituem não apenas ornamentos alegóricos e dramatúrgicos dos Diálogos, mas também elementos estruturais e funcionais do pensamento platônico, atuando de forma plena e rigorosa na validade racional do discurso filosófico. Não são poucas as passagens em que Platão destaca o poder educativo das imagens em seus Diálogos, aliás, o próprio discurso platônico é revestido do mesmo encantamento imagético diversas vezes denunciado (em muitas passagens dos Diálogos) como ludibriador e mascarador da realidade inteligível, intimamente atrelado a linguagem sofística e poética – sobretudo mediada pelas alegorias, pelos mitos, pelas narrativas, ou apelo às imagens, de uma forma geral. O recorte temático desta pesquisa: “o processo de Educação Imagética dentro do corpo dos Diálogos platônicos” situa-se num contexto cultural intensamente permeado pelo discurso da tradição poética e pela retórica sofística – notadamente o período clássico ateniense. Esse contexto cultural grego é determinante na construção do pensamento educativo platônico que se vê na necessidade de pautar-se por recursos igualmente poéticos e imagéticos para alcançar sua teleologia. A questão substancial a ser respondida: “O que é a Educação Imagética em Platão?” se alia a outras que lhe dão suporte: “O que podemos compreender por Imagética platônica? Ou ainda, qual o estatuto ontológico das imagens?”, e: “Qual é o procedimento pedagógico proposto pelo filósofo?”, notadamente tendo em vista a moralização da conduta dos cidadãos para a vida no Estado.


Objetivos
Examinar o sentido da Educação, notadamente sensível, em Platão

Examinar o sentido da Imagética em Platão

Compreender o procedimento e a validade da Educação Imagética nos Diálogos platônicos.
Metodologia
A pesquisa se pretende bibliográfica e tem como referencial teórico principal os Diálogos de Platão – o interesse maior está na investigação da temática por meio dos próprios textos do filósofo (Cf. GOLDSCHMIDT; 2002, pg. XXIV-XXV.) A metodologia consistirá numa Leitura Estrutural desses Diálogos visando a compreensão do movimento do pensamento de Platão, notadamente com foco na problemática de cada uma das questões. De um modo geral, todos os Diálogos (individualmente) contribuem para o esclarecimento do recorte (uns em maior grau que outros), entretanto o que se buscará realizar não é explicitação do sentido de cada texto em si mesmo, mas a investigação das possíveis relações dentro de um mesmo Diálogo e também entre eles. Pretendemos, ainda, situar este estudo dos Diálogos em seu contexto histórico. É necessário entender esse movimento do pensamento platônico – seu tempo lógico, no seu tempo histórico (Cf. GOLDSCHMIDT; 1963, pg. 144-147), isto é, na cultura musical helênica, particularmente o período clássico ateniense. A realização de uma leitura do discurso platônico à luz do próprio fluxo dialético do pensamento do filósofo permite uma abordagem metodológica mais adequada sobre as questões fundamentais desta pesquisa.
Desenvolvimento
A teleologia do processo educativo (percurso em etapas) n'A República objetiva a formação intelectual do filósofo-governante do Estado ideal – um tipo superior de educação, a filosofia, para a instrução de um tipo humano igualmente superior. A educação pretende, em última instância, fomentar a virtude contemplativa na alma dos cidadãos superiores com vistas a promover a estabilidade política alicerçada no conhecimento verdadeiro sobre o Bem. Platão estabelece um sistema de hierarquias de classes sociais e de virtudes, serão três as classes (ou categorias sociais): produtores, guardiões e governantes, cujas virtudes características a cada uma delas serão respectivamente: a temperança, a coragem e a sabedoria. Existe ainda uma quarta virtude referente à harmonia entre as três classes no Estado e as três virtudes na alma: a justiça, perfeito equilíbrio entre todas essas virtudes (IV, 433b-c). A sabedoria é tida por Platão como a virtude mais elevada, própria do filósofo – situa-se no nível da intelectualidade e é inacessível a maioria dos cidadãos.

Uma questão nos apresentada pelo comentador Samuel Scolnicov (Cf. 2006, pg. 18.), pertinente ao foco temático desta primeira etapa da pesquisa, pode ser sintetizada na seguinte sentença: se a educação intelectual é somente acessível a poucos – aristocracia filosófica, ou ainda a um único indivíduo – Sócrates, tal como Platão deixa transparecer em alguns diálogos, então qual tipo de educação resta a maioria dos cidadãos? Aos indivíduos incapazes de assimilar a virtude intelectual, responde o comentador, restam às virtudes populares, valores mecanicamente adquiridos por meio de uma educação sensível e irracional (Ibidem). Esse tipo de educação é tratado por Platão com maior fôlego nos livros II e III d’A República como o tipo de formação gímnico-musical para os guardiões do Estado ideal; é propedêutico e visa estabelecer as bases morais da alma por meio da infusão das virtudes não intelectuais. A música é o elemento mais importante desse modelo de educação sensível englobando a literatura, a religiosidade e a oralidade, cujo tipo de linguagem e conteúdo é capaz de orientar a alma dos cidadãos para determinadas condutas morais. Apropriadas para a participação política no Estado ideal.

O tema que inaugura o diálogo Menão (70a), qual seja: “A virtude pode ser ensinada?” ocupa um espaço central em nossa discussão sobre o sentido da educação sensível em Platão, trata-se de compreender os fundamentos da educação não intelectual. A virtude pode sim ser ensinada desde que não seja ela virtude intelectual (sabedoria). As demais virtudes (sensíveis) deverão ser infundidas na alma por meio de um processo educativo basicamente inconsciente, irracional e mecânico, quer dizer: o discípulo assimila tal virtude sem estar ciente do sentido dessa aprendizagem, as virtudes sensíveis são inferiores à sabedoria (racionalidade ou parte racional da alma) e o procedimento é mimético (aprende-se por repetição). O Sócrates platônico toma as virtudes do sensível como guias práticos das atividades políticas, isto é, como conduta moral pautada pela opinião verdadeira. As virtudes práticas têm sua utilidade assegurada na medida em que atuam como regras para a boa conduta, para prosseguir nos estudos e para o comportamento adequado (justo) no Estado ideal.

As imagens serão tratadas nesta investigação sob dois aspectos primordiais: modo de conhecimento e modo de imitação. O discurso platônico (sob a forma textual dos Diálogos) apresenta aos leitores uma vasta gama de usos e situações para as imagens; a linguagem metafórica e alegórica mantém intrínseca relação com as intenções pedagógicas morais e práticas da vida na pólis grega.

As abordagens sobre as imagens no discurso platônico encontram-se dispersas no corpo dos Diálogos, contudo a sistematização de uma hierarquia epistemológica, podemos assim considerar, aparece concentrada nas obras A República e Carta VII; ambas estabelecem modos de conhecimento e, apesar de situarem a imagem em níveis distintos, concordam quanto a sua impossibilidade de investigar a essência dos objetos. O grau de conhecimento imagético situa-se na esfera do sensível, incapaz de alcançar a verdadeira realidade – para Platão, realidade necessariamente inteligível e invisível aos olhos.

Ao final do livro VI d'A República (509e-510a), Sócrates propõe a Gláucon a visualização mental de uma linha segmentada (modos de se conhecer um objeto); de um lado desta linha situa-se o mundo sensível (investigado pelos sentidos) e do outro o mundo inteligível (investigados por intermédio dos pensamentos). Os objetos de conhecimento são visíveis no primeiro e invisíveis no segundo. O conhecimento sensível dos objetos (verificáveis pela visão) promove opiniões e não o conhecimento verdadeiro, os objetos concretos não podem ser iluminados pela luz da verdade, isto é, pela inteligência, mas por meio da luminosidade comum e ordinária. O Sol está para o mundo sensível assim como o Bem está para o mundo inteligível, a luz do sol ilumina os objetos sensíveis e faz projetar deles imagens e sombras; eis a posição do  ­conhecimento imagético na hierarquia dos modos de conhecimento n’A República (511e): a imaginação (eikasia) ocupa o nível mais baixo, portanto mais afastado da realidade inteligível assegurada pela Ideia do Bem. A imagem proporciona ao observador tão somente a contemplação sensível dos objetos por meio de suas sombras e imagens visíveis – aparências, isto é, a suposição acreditada da existência desses objetos.

Na Carta VII (342a-b) Platão estabelece outra divisão hierárquica quanto aos modos de conhecimento, a saber: o nome, a definição, a imagem e o conhecimento intelectual. A imagem passa a ocupar um posto de menor inferioridade em comparação com a hierarquia epistemológica exposta n’A República; na qualidade de modo de conhecimento “imagem” é superior ao nome e a definição, todos anunciados pela linguagem verbal. Para Platão, nenhum destes quatro modos de conhecimento é capaz de dizer o objeto em si mesmo, no entanto o conhecimento intelectual é o que mais se aproxima (C.VII., 342d).

A exposição sobre a linha segmentada, n’A República, prossegue no livro seguinte (VII, 514a) para a apresentação do mito da caverna; os rumos do Diálogo retornam para as questões de ordem educativa e política, anteriormente interrompidas para dar espaço às discussões epistemológicas. O que se segue a partir da introdução do mito platônico é a ilustração, por intermédio de um tipo de linguagem figurativa e metafórica (pensar e argumentar por meio das imagens) mais acessível ao público em geral, exemplificada pelo percurso do prisioneiro agrilhoado que de súbito se liberta da caverna para em seguida ascender à sabedoria e curar-se da ignorância. O caminho gradativo do prisioneiro até a contemplação do Sol é comparado ao mesmo percurso dos modos de conhecimento na linha segmentada: partir da imagem e seguir em direção ao Bem (515c-516b).

A ilustração dos argumentos, ou ainda a própria justificativa deles, são recursos frequentemente empreendidos por Platão nos Diálogos. No Fedro (244a), a exemplo, temos o elogio socrático ao delírio das Musas: a exaltação da adivinhação, a evocação das divindades e a produção de belos discursos como resultado desse delírio. Os deuses falam por meio de imagens e os poetas, sacerdotisas, os doentes mentais ou outros indivíduos inspirados pelas Musas serão capazes de falar, entusiasticamente, aquilo que é de mais útil e benéfico. Sócrates também inclui na arte dos delírios a recordação das imagens superiores por meio da reminiscência – trazidas à memória mediante estímulos sensíveis.

O poder de convencimento da imagem constitui um fator que atravessa a questão da educação dentro do corpo dos Diálogos, sobretudo no que tange ao processo de formação moral dos guardiões do Estado idealizado n'A República. A imitação é capaz de atuar, pedagogicamente, na formação do caráter dos guardiões, infundindo-lhes a virtude (III, 396d-e). A exposição da utilidade do discurso imagético é acompanhada, ao mesmo tempo, pelas ressalvas de Sócrates quanto à viabilidade e a autenticidade dessa formação: deverão ser os guardiões imitadores ou não? (394e). A arte da imitação não é algo recomendado aos guardiões, especialmente em idade infantil, visto que, nessa fase, as crianças estão mais suscetíveis aos discursos aprazíveis e impressionáveis, diz o Sócrates (II, 377b-c). Não é conveniente que os guardiões sejam imitadores, menos ainda de outras atividades que não a defesa do Estado, pois a imitação de funções inferiores ou inadequadas contraria o caráter de excelência desejável e da justiça na alma e no Estado (III, 395b-c). As imitações, via de regra, devem ser evitadas. No entanto, em função do caráter aprazível das imitações é possível que os guardiões venham a tomar contato com este tipo de linguagem; desse modo, Sócrates recomenda cautela e exige que os guardiões imitem apenas aquilo que é belo, bom e plenamente adequado a sua função.

Para o Sócrates do Fedão (74a), a percepção de uma imagem (visual ou sensorial como um todo) estimula a alma na reminiscência de outras imagens sensoriais, ou ainda do próprio modelo inteligível da coisa representada pelas imagens. A imagem atua na alma como estímulo a externação da Ideia (escondida no interior da alma do sujeito) que emerge ao tomar contato com sua representação sensível (imagem imperfeita); a alma poderá, assim, reconhecer a Ideia ou sua cópia mais simétrica numa outra imagem menos fiel. O conhecimento (socrático) consiste em recorda-se do que foi esquecido.

Há o emprego do mesmo sentido para reminiscência no Fedro (249d), onde o conhecimento poderá ser alcançado por meio da possessão divina. As imagens sensíveis apenas são úteis para auxiliar o processo de reminiscência, capaz de dizer o conhecimento intelectual, ou ainda a contemplação do Bem. A ação de enxergar, isto é, a afecção sensível provocada pela imagem do objeto concreto, permite que tenhamos contato visual com a coisa vista. Ao fecharmos os olhos por algum tempo e, logo em seguida, cessarmos de visualizar o objeto, serão grandes a chances de nos esquecermos de suas cores e formas (Teet., 163d-e). O esquecimento da Ideia procede da mesma forma segundo Platão. Quando a alma encarna num corpo (sensível e perecível) passa a se esquecer da verdadeira realidade do mundo inteligível, já habitado por ela antes. No entanto, se corretamente estimulada poderá ser capaz, novamente, de visualizar (internamente) a verdadeira beleza e o verdadeiro conhecimento latentes na alma. A educação atua nesse sentido, isto é, estimula a alma a se recordar (inconscientemente) do Bem e da virtude.


Referências
GOLDSCHMIDT, V. Os diálogos de Platão: estrutura e método dialético. Trad. Dion Macedo. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

__________. Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos. In: ______. A religião de Platão. Tradução de Ieda e Oswaldo Porchat Pereira. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963. p. 139-147.

PLATÃO. A República. Tradução Maria Helena da Rocha Pereira. 4ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983.

_______. Diálogos: Apologia de Sócrates, Critão, Menão, Hipias Maior e outros. Volumes: I e II. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 1980.

_______. Protágoras, Górgias, Banquete e Fedão. Volumes: III e IV. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 1980.

_______. Fedro, Cartas e O primeiro Alcibíades. Volume: V. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 1975.

_______. Teeteto, Crátilo. Volume: IX. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 1973.



SCOLNICOV, S. Platão e o problema educacional. São Paulo: Loyola, 2006.




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