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Michael Crichton

Título original NEXT

EDITORA ROCCO LTDA.

2007

Next: o futuro (bem) próximo



Michael Crichton;

Este romance é ficção, exceto pelas partes que não são.

Quanto mais o universo parece compreensível,

mais parece também inútil.

- STEVEN WEINBERG

A palavra "causa" é um altar a um deus desconhecido. -WILLIAM JAMES

O que não é possível é não optar. - JEAN-PAULSARTRE

Prólogo

Vasco Borden, 49 anos, puxou as lapelas do paletó e endireitou a gravata, enquanto descia pelo corredor acarpetado. Não estava acostumado a usar terno, embora tivesse aquele azul-marinho, feito sob medida, para atenuar a massa muscular do corpo. Borden era enorme, 1,93 m, 110 kg, um ex-jogador de futebol americano que trabalhava como investigador particular, especialista em resgate de fugitivos. E naquele momento Vasco seguia seu homem, alguém com pós-doutorado, calvo, de trinta anos, fugitivo da MicroProteonomics, de Cambridge, Massachusetts, enquanto seguia para a sala principal da conferência.

A Conferência BioMudança 2006, com o subtítulo entusiasmado "Faça Acontecer Agora!", estava sendo realizada no hotel Ve-netian, em Las Vegas. Os dois mil participantes representavam todos os envolvidos em biotecnologia, inclusive investidores, agentes de RH que contratavam cientistas, agentes de transferência de tecnologia, executivos e advogados de propriedade intelectual. De um jeito ou de outro, quase todas as empresas de biotecnologia dos Estados Unidos estavam ali representadas.

Era o lugar perfeito para o fugitivo se encontrar com seu contato. O fugitivo parecia insignificante; tinha um rosto inocente e uma pequena pinta no queixo; vergava os ombros quando andava, irradiando uma impressão de timidez e inépcia. Mas, na verdade, escapara com doze embriões transgênicos, num frasco Dewar criogênico. Transportara o material através do país para aquela conferência, onde ten-cionava entregá-lo para quem trabalhava.

Não era a primeira vez que alguém com pós-doutorado desistira de trabalhar por um salário. Nem seria a última.

O fugitivo foi até a mesa de registro para pegar seu crachá da conferência e pendurar no pescoço. Vasco parou na entrada, ajeitando seu próprio crachá. Viera preparado para isso. Fingiu examinar a relação de eventos.

Todos os discursos mais importantes seriam no salão principal. Haveria seminários para assuntos como "Sintonize Seu Processo de Recrutamento", "Estratégias Vencedoras Para Manter Talento de Pesquisa", "Remuneração e Benefícios de Executivos", "Administração Empresarial e a CVM", "Tendências do Registro de Patentes", "Anjos Investidores: Bênção ou Praga?", e finalmente "Pirataria de Segredos Industriais: Proteja-se Agora!".

Grande parte do trabalho de Vasco envolvia empresas de alta tecnologia. Já estivera em conferências como aquela antes. Ou eram sobre ciência, ou sobre negócios. Aquela era sobre negócios.

O fugitivo, cujo nome era Eddie Tolman, passou por ele e entrou no salão principal. Vasco seguiu-o. Tolman desceu por algumas filas, e sentou num lugar em que não havia ninguém por perto. Vasco entrou na fileira atrás dele, e sentou um pouco para o lado. O garoto Tolman verificou as mensagens de texto no celular, depois pareceu relaxar. Levantou os olhos para escutar o discurso.

Vasco especulou por quê.

O homem no pódio era um dos mais famosos capitalistas de empreendimentos de risco da Califórnia, uma lenda no investimento de alta tecnologia, Jack B. Watson. O rosto de Watson estava ampliado na tela por trás dele, com o bronzeado característico, uma aparência extraordinária. Parecia mais jovem que seus 52 anos, e cultivava com o maior empenho a reputação de um capitalista com consciência. O que lhe permitira efetuar uma série de acordos financeiros implacáveis. A mídia, no entanto, só falava de sua presença em escolas tradicionais, ou mostrava-o distribuindo bolsas de estudos para jovens menos privilegiados.

Mas naquela sala, Vasco sabia, a reputação de Watson para negócios implacáveis era a maior preocupação de todos os presentes. Ele especulou se Watson seria duro o bastante para adquirir uma dúzia de embriões transgênicos por meios ilícitos. Era provável que sim.

Naquele momento, porém, o discurso de Watson era estimulante e laudatório:

- A biotecnologia está se desenvolvendo cada vez mais. Estamos prestes a conhecer o maior crescimento de qualquer indústria desde os computadores, há trinta anos. A maior empresa de biotecnologia, a Amgen, de Los Angeles, emprega sete mil pessoas. As verbas federais para a pesquisa em universidades ultrapassaram os quatro bilhões de dólares por ano, em campi de Nova York a San Francisco, Boston a Miami. Os capitalistas de novos empreendimentos investem em empresas de biotecnologia numa média de cinco bilhões por ano. A sedução das curas espetaculares, que se tornaram possíveis com as células-tronco, as citoquinas e as proteonômicas, atraem os maiores talentos para essa área. E, com a população global se tornando mais idosa a cada minuto, nosso futuro se torna mais promissor do que nunca. E isso não é tudo!

Ele fez uma pausa, dramático.

- Chegamos ao ponto em que poderemos nos impor à chamada Big Pharma... e é o que faremos. Os grandes laboratórios farmacêuticos, maciços e inchados, precisam de nós, e sabem disso. Precisam de genes, precisam de tecnologia. Eles são o passado. Nós somos o futuro. Estamos onde o dinheiro está!

Essas palavras arrancaram aplausos estrondosos. Vasco mudou a posição de sua corpulência na cadeira. A audiência aplaudia mesmo sabendo que aquele filho-da-puta retalharia sua empresa sem a menor hesitação, se isso fosse conveniente para seus lucros.

- É claro que enfrentamos obstáculos para o nosso progresso. Algumas pessoas... por mais bem-intencionadas que pensem ser... optam por se interpor no caminho da melhoria humana. Não querem que os paralíticos andem, não querem que os pacientes de câncer se recuperem, não querem que as crianças doentes vivam e brinquem. Essas pessoas têm seus motivos para protestar. Religiosos, éticos ou até mesmo "práticos". Mas, quaisquer que sejam seus motivos, eles estão no lado da morte. E não vão triunfar.

Mais aplausos trovejantes. Vasco olhou para o fugitivo, Tolman. O homem estava outra vez verificando o celular. Era evidente que aguardava uma mensagem. E aguardava com muita impaciência.

Isso significava que o contato se atrasara?

Com toda certeza, era mais do que suficiente para deixar Tolman nervoso. Porque em algum lugar, Vasco sabia, o homem guardara um tubo térmico de aço inoxidável, com nitrogênio líquido, onde estavam os embriões. Não se encontrava em seu quarto no hotel. Vasco já o revistara. E cinco dias haviam transcorrido desde que Tolman deixara Cambridge. O sistema de refrigeração não duraria para sempre. E os embriões se tornariam inúteis, se degelassem. Portanto, a menos que Tolman tivesse meios de repor o NL2, a esta altura devia estar ansioso em recuperar seu contêiner, e entregá-lo ao comprador.

O que devia acontecer em breve.

Dentro de uma hora, no máximo, Vasco tinha certeza.

- Claro que haverá pessoas que tentarão obstruir nosso progresso — declarou Watson, do pódio. - Até mesmo nossas melhores empresas se acham envolvidas em litígios judiciais, inúteis e improdutivos. Uma das primeiras empresas que financiei, a BioGen, de Los Angeles, está no tribunal neste momento porque um homem chamado Burnet decidiu que não precisa honrar os contratos que ele próprio assinou. Porque agora mudou de idéia. Burnet tenta bloquear o progresso médico, a menos que lhe paguemos. Um extorsionário cuja filha é a advogada que cuida do processo para ele. Mantendo o caso em família.

Watson sorriu.

- Mas venceremos o caso Burnet. Porque o progresso não pode ser detido!

Watson ergueu as mãos para o alto, acenando para a multidão, enquanto os aplausos espalhavam-se pela sala. Ele se comporta quase como um candidato, pensou Vasco. É isso o que Watson quer? O cara, com certeza, tinha dinheiro suficiente para ser eleito. Ser rico era essencial na política americana atual. Muito em breve...

Ele olhou e viu que Tolman havia desaparecido.

A cadeira estava vazia.

Merda!

- O progresso é nossa missão, nossa vocação sagrada! — gritou Watson. — O progresso para vencer a doença! O progresso para interromper o envelhecimento, banir a demência, prolongar a vida! Uma vida livre de doença, deterioração, dor e febre! O grande sonho da humanidade... que finalmente se torna realidade!



Vasco Borden não prestava mais atenção. Deslocava-se pela fila na direção do corredor lateral, olhando para as saídas. Umas poucas pessoas se retiravam, mas nenhuma parecia com Tolman. O cara não podia ter escapado tão depressa. Tinha de haver...

Ele olhou para trás, a tempo de ver Tolman subindo lentamente pelo corredor central. O homem olhava de novo para o celular.

— Sessenta bilhões de dólares este ano! Duzentos bilhões no ano que vem! Quinhentos bilhões em cinco anos! Este é o futuro de nossa indústria, e esta é a perspectiva que levamos para toda a humanidade!

A multidão levantou-se de repente, oferecendo a Watson uma ovação, de pé. Por um momento, Vasco não pôde mais ver Tolman.

Mas foi apenas por um instante... pois agora Tolman se encaminhava para a saída central. Vasco virou-se e saiu por uma porta lateral. Alcançou o saguão no instante em que Tolman saía, piscando com a claridade mais intensa.

Tolman olhou para o relógio e seguiu para o corredor no outro lado, passando pela parede de vidro que dava para o campanário de tijolos vermelhos de San Marco, reconstituído pelo hotel Venetian e iluminado feericamente à noite. Ele ia para a área da piscina, ou talvez para o pátio. Naquela hora da noite, os dois lugares estariam apinhados.

Vasco permaneceu perto.

Seria agora, pensou ele.

Na sala principal, Jack Watson andava de um lado para outro. Sorria e acenava para a multidão que o aclamava.

Obrigado... é muita gentileza... obrigado...

Ele inclinava um pouco a cabeça cada vez que dizia isso. Apenas a quantidade certa de modéstia.

Rick Diehl soltou um grunhido de repulsa enquanto observava. Diehl estava nos bastidores, acompanhando tudo num pequeno monitor preto-e-branco. Era o CEO, o principal executivo da BioGen Research, um homem de 34 anos, ainda se empenhando em subir em Los Angeles. Aquele desempenho de seu mais importante investidor externo deixava-o muito apreensivo. Porque Diehl sabia que, apesar dos aplausos e das imagens de crianças negras risonhas que seriam enviadas, ao final do dia, para a imprensa, Jack Watson era um autêntico filho-da-puta. Como alguém comentara:

- O melhor que se pode dizer de Watson é que ele não é um sádico. É apenas um filho-da-puta de primeira classe.

Diehl só aceitara o financiamento de Watson com muita relutância. A esposa de Diehl era rica, e ele começara a BioGen com o dinheiro dela. Seu primeiro empreendimento como CEO fora a aquisição da licença para explorar uma linhagem de células, oferecida pela UCLA, a Universidade da Califórnia em Los Angeles. Era a chamada linhagem de células Burnet, desenvolvida a partir de um homem chamado Frank Burnet, cujo corpo produzia poderosas substâncias químicas que combatiam o câncer, chamadas citocinas.

Diehl não esperava realmente ganhar a licença, mas acabara sendo vencedor. Subitamente, defrontara-se com a perspectiva de apresentar o projeto para que a FDA, a Administração de Alimentos e Drogas, aprovasse os testes clínicos. O custo desses testes começou em um milhão de dólares, mas, num instante, elevou-se para dez milhões, sem contar os custos operacionais e as despesas com o material necessário. Ele não podia mais depender exclusivamente do dinheiro da esposa. Precisava de financiamento externo.

Fora então que descobrira como os capitalistas de empreendimentos de alta tecnologia consideravam as citocinas arriscadas. Muitas citocinas, como as interleucinas, haviam levado anos para chegarem ao mercado. E sabia-se que muitas outras eram perigosas para os pacientes, até mesmo mortais. E, ainda por cima, Frank Burnet entrara com uma ação judicial, questionando a propriedade da BioGen em relação à linhagem de células. Diehl tivera dificuldades até para se reunir com investidores. Ao final, fora obrigado a aceitar o sorridente e bronzeado Jack Watson.

Mas Watson, Diehl sabia, queria simplesmente assumir o controle da BioGen e afastá-lo da empresa.

- Um discurso fantástico, Jack! Fantástico!

Rick estendeu a mão quando Watson finalmente saiu para os bastidores.

— Fico contente que tenha gostado.

Watson não apertou a mão estendida. Em vez disso, tirou da lapela o transmissor sem fio e largou-o na mão de Diehl.

— Cuide disso, Rick.

— Claro, Jack.

— Sua esposa está aqui?

— Não. Karen não pôde vir. — Diehl deu de ombros. — Um problema com as crianças.

— Lamento que ela tenha perdido este discurso.

— Ela receberá o DVD.

— Mas divulgamos as más notícias. Essa é a questão. Todo mundo sabe agora que há uma ação judicial, que Burnet é o bandido, mas que temos o controle da situação. Isso é o mais importante. A empresa assumiu uma posição perfeita.

— Foi por isso que você concordou em fazer o discurso? Watson fitou-o de alto a baixo.

— Pensou que eu queria vir para Las Vegas? Isso é demais! — Ele tirou o microfone e entregou-o a Diehl. — Cuide disto também.

— Claro, Jack.

E Jack Watson virou-se e afastou-se, sem dizer mais nada. Rick Diehl sentiu um calafrio. Graças a Deus pelo dinheiro de Karen, pensou ele. Porque sem isso estaria perdido.

Depois de passar pelas arcadas do Palácio do Doge, Vasco Borden entrou no pátio, seguindo o fugitivo, Eddie Tolman, através da multidão noturna. Ouviu o fone no ouvido estalar. Devia ser sua assistente, Dolly, em outra parte do hotel. Ele tocou no ouvido.

— Pode falar.

— O careca Tolman reservou uma diversão.

— É mesmo?

- É, sim. Ele...

- Espere um instante. Deixe para contar daqui a pouco.

A frente, Vasco via uma coisa em que não podia acreditar. Jack B. Watson surgiu no lado direito do pátio, acompanhado por uma mulher linda e sensual, de cabelos escuros, logo se fundindo com a multidão. Watson era famoso por estar sempre acompanhado por mulheres deslumbrantes. Todas trabalhavam para ele, todas eram inteligentes, e todas eram espetaculares.

A mulher não surpreendeu Vasco. A surpresa foi constatar que Watson seguia direto para cima de Eddie Tolman, o fugitivo. O que não fazia o menor sentido. Mesmo que Tolman estivesse fazendo um negócio com Watson, o famoso investidor nunca se encontraria com ele pessoalmente. Ou, pelo menos, nunca em público. Mas lá estavam os dois, em rotas de colisão, através do apinhado pátio veneziano, bem diante de seus olhos.

O que aquilo significava? Ele não podia acreditar no que estava prestes a acontecer.

Mas depois a mulher tropeçou e parou. Usava um vestido curto e muito justo, com sapatos de saltos altos. Apoiou-se no ombro de Watson, dobrou o joelho, mostrando grande parte da perna, e examinou o sapato. Ajustou a tira do salto, tornou a pôr o pé no chão e sorriu para Watson. Vasco desviou os olhos dos dois para descobrir que Tolman já havia desaparecido.

Watson e a mulher cruzaram o caminho de Vasco, passando tão perto que ele pôde até sentir o perfume que ela usava. Ouviu Watson murmurar alguma coisa. A mulher apertou-lhe o braço e pôs a mão em seu ombro, enquanto andavam. O casal romântico.

Tudo não passaria de um acaso? Ou acontecera de propósito? Haviam-no enganado? Ele comprimiu o fone no ouvido.

- Dolly, eu o perdi.

- Não é problema. Posso vê-lo.

Vasco levantou os olhos. Ela estava no segundo andar, observando tudo lá embaixo.

- Foi mesmo Jack Watson que acabou de passar? - acrescentou Dolly.

I

- Foi, sim. Pensei que talvez...



- Não creio. Não posso imaginar Jack Watson envolvido nisso. Não é o seu estilo. O careca está indo para seu quarto porque tem um encontro marcado. Era isso que eu ia contar. Ele contratou uma diversão.

- Quem?


- Uma russa. Aparentemente, ele gosta de russas. E altas.

- Alguém que conhecemos?

- Não. Mas tenho uma pequena informação. E instalei câmeras na suíte.

- Como conseguiu? — perguntou Vasco, sorrindo.

- Digamos que a segurança do Venetian já não é mais como antigamente. E também é mais barata.

Irina Katayeva, de 22 anos, bateu na porta. Tinha na mão esquerda uma garrafa de vinho, dentro de um saco de veludo de presente, com o cordão fechado. Um homem em torno dos trinta anos abriu a porta e sorriu. Não era atraente.

- Você é Eddie?

- Isso mesmo. Entre.

- Trouxe isto para você. Do cofre do hotel.

Ela entregou a garrafa de vinho. Vasco, que observava a cena por um pequeno monitor portátil, comentou:

- Ela fez a entrega no corredor. Onde seria vista no monitor de segurança. Por que não esperou até entrar?

- Talvez ela tenha sido instruída a fazer assim — sugeriu Dolly.

- A mulher deve ter pelo menos um metro e oitenta. O que sabe a seu respeito?

- Fala um bom inglês. Quatro anos aqui. Estuda na universidade.

- Trabalha no hotel? - Não.

- Então, não é uma profissional?

- Não esqueça que estamos em Nevada.

No monitor, a russa entrou no quarto e a porta foi fechada. Vasco girou um controle em seu monitor portátil, a fim de captar

uma câmera interna. O homem tinha uma enorme suíte, com mais de cem metros quadrados, em estilo veneziano. A mulher balançou a cabeça e sorriu.

— Linda suite.

— Também acho. Aceita um drinque? Ela sacudiu a cabeça em negativa.

— Não tenho tempo.

A russa estendeu a mão para as costas e baixou o zíper do vestido. Deixou-o pendendo dos ombros. Virou-se, fingindo estar perplexa, e deixou que ele admirasse suas costas nuas, até as nádegas.

— Onde fica o quarto?

— Por aqui, meu bem.

Quando eles foram para o quarto, Vasco tornou a usar o controle. Viu o quarto no momento em que a mulher dizia:

— Não sei nada sobre os seus negócios e não quero saber. Negócios são muito chatos.

Ela deixou o vestido cair. Deu um passo para o lado e deitou na cama, completamente nua, agora, exceto pelos sapatos de saltos altos. Tirou-os também.

— Não creio que você precise de um drinque — comentou a russa.

- Sei que eu não preciso.

Tolman jogou-se em cima dela, pousando com algum estrépito. A mulher soltou um grunhido e tentou sorrir.

— Calma, rapaz.

Ele ofegava agora. Estendeu a mão para os cabelos da mulher, a fim de acariciá-la.

— Deixe meus cabelos em paz. — A russa desviou a cabeça. — Basta deitar, e eu o farei feliz.

- Você acredita nisso? — murmurou Vasco, olhando incrédulo para o monitor. - Ele não é sequer o homem de um minuto. Quando uma mulher tem essa aparência, era de se esperar...

— Não importa - disse Dolly, interrompendo-o. — Ela está se vestindo agora.

— É verdade. E com alguma pressa.

— Ela deveria lhe dar meia hora. E se Tolman pagou, eu não vi.

- Eu também não vi. E ele resolveu se vestir também.

- Alguma coisa está acontecendo - disse Dolly. — Ela deixou a suíte.

Vasco acionou o controle, a fim de mudar para uma câmera diferente, mas só captou estática.

- Não posso ver porra nenhuma.

- Ela está saindo. Tolman continua na suíte. Não, espere... ele também vai sair.

- Tem certeza?

- Tenho. E leva a garrafa de vinho.

- Para onde será que ele vai?

Os embriões congelados eram transportados num recipiente térmico de aço inoxidável, revestidos de vidro com borossilicato, chamado de frasco Dewar. Os Dewars eram quase sempre grandes, no formato de latões de leite, mas podiam ser fabricados em tamanho pequeno, com capacidade para um litro. Um Dewar não tinha o formato de uma garrafa de vinho, porque a abertura precisava ser larga. Mas o tamanho era o mesmo. E, com toda certeza, caberia num saco de vinho de veludo.

- Ele deve estar levando o frasco no saco — comentou Vasco.

- Foi o que imaginei. Já os viu?

- Já, sim.

Vasco podia ver o casal no térreo, perto da estação das gôndolas. Andavam de braços dados, o homem levando a garrafa de vinho no braço em gancho, mantendo-a de pé, uma maneira incômoda de carregá-la. Formavam um casal insólito, a linda mulher e o homem tímido, de postura relaxada. Seguiram pelo canal, mal olhando para as lojas por que passavam.

- Estão a caminho de um encontro — disse Vasco.

- Posso vê-los.

Vasco correu os olhos pela rua apinhada e avistou Dolly na outra extremidade. Dolly tinha 28 anos e uma aparência absolutamente comum. Podia ser qualquer pessoa: uma contadora, namorada, secretária, assistente. Sempre podia passar despercebida. Naquela noite, vestia-se ao estilo de Las Vegas, cabelos louros encrespados e

um vestido vistoso, com um decote profundo. Estava um pouco além do peso, o que tornava a impressão ainda mais perfeita. Vasco estava com ela havia quatro anos agora, e trabalhavam muito bem como dupla. Na vida particular, o relacionamento era apenas bom. Ela detestava quando Vasco fumava charuto na cama.

— Estão seguindo para o corredor — avisou Dolly. — Não... estão voltando.

O corredor principal era uma vasta passagem oval, de teto alto e dourado, luzes suaves, colunas de mármore. Ofuscava as multidões que passavam por lá. Vasco ficou para trás.

— Mudaram de idéia? Ou nos perceberam?

— Acho que são cuidadosos.

— Este é o grande momento.

Ainda mais importante do que pegar o fugitivo, eles tinham de saber a quem Tolman entregaria os embriões. Obviamente, era alguém na conferência.

— Não deve demorar muito agora — comentou Dolly.

Rick Diehl andava de um lado para outro, ao longo das lojas junto do canal das gôndolas, com o celular na mão. Ignorava as lojas, repletas de mercadorias caras, do tipo que ele nunca desejara. Diehl crescera como terceiro filho de um médico de Baltimore. Os irmãos foram para a faculdade de medicina e se tornaram obstetras, como o pai. Diehl recusara-se a fazer a mesma coisa, e ingressara na pesquisa médica. As pressões da família acabaram fazendo com que mudasse para a Costa Oeste. Fez pesquisa genética na Universidade da Califórnia em San Francisco por algum tempo, mas sentia-se mais atraído pela cultura empresarial entre as universidades da cidade. Parecia que cada professor que tinha algum valor abrira sua própria empresa, ou integrava os conselhos de várias companhias de biotecnologia. No almoço, a conversa era só sobre transferência de tecnologia, licenciamento cruzado, pagamentos por avanço na pesquisa, compra e venda de controle acionário.

A esta altura, Karen, a esposa de Rick, recebera uma herança substancial. Ele passara a dispor de capital suficiente para começar.

Havia muitas empresas na área de San Francisco, com uma intensa competição por espaço e contratação. Rick decidiu se instalar no norte de Los Angeles, onde a Amgen acabara de construir sua vasta fábrica. Diehl montou uma fábrica moderna, contratou equipes de brilhantes pesquisadores, e começou a trabalhar. O pai e os irmãos foram visitá-lo. E ficaram devidamente impressionados.

Mas... por que ela não ligava de volta? Rick olhou para o relógio. Eram nove horas. As crianças já deviam estar na cama. E Karen deveria estar em casa. A empregada dissera que ela saíra uma hora antes, não sabia para onde. Mas Karen nunca saía sem o celular. Devia estar com ela. Por que, então, não ligava de volta?

Ele não compreendia, o que o deixava bastante nervoso. Estava sozinho naquela maldita cidade, com mais mulheres lindas por metro quadrado do que jamais vira em toda a sua vida. Era verdade que eram o resultado de muita cirurgia plástica, mas nem por isso deixavam de ser sensuais.

A sua frente, ele avistou um cara todo desleixado andando com uma mulher alta, espetacular, cabelos pretos, pele lisa, um corpo esbelto e sensual. O cara devia ter pago para ter a companhia daquela mulher, mas, mesmo assim, era evidente que não a apreciava. Ele segurava uma garrafa de vinho como se fosse um bebê. Dava a impressão de estar tão nervoso que quase suava.

Mas aquela mulher... oh, Deus, que tesão!

Mas por que Karen não retornava sua ligação?

- Ei, veja isso! — exclamou Vasco. — É aquele cara da BioGen, circulando como se não tivesse nada para fazer.

- Já vi.


Dolly estava cerca de um quarteirão à sua frente.

— Mas isso não tem qualquer importância.

Tolman e a russa passaram direto pelo homem da BioGen, que se limitou a abrir o celular e fazer uma ligação. Como era mesmo seu nome? Diehl. Vasco já ouvira algumas coisas a seu respeito. Ele começara uma empresa com o dinheiro da esposa, que talvez tivesse agora o controle do casamento. Ou algo parecido. Mulher rica, família tradicional da Costa Leste, com muito dinheiro. Mulheres assim gostavam de usar calça.

- Restaurante - avisou Dolly. - Eles estão entrando no Terrazo.

II Terrazo Antico era um restaurante de dois andares, com varandas envidraçadas. A decoração era de bordel moderno, tudo dourado. Colunas, teto, paredes: cada superfície tinha um ornamento. O que deixava Vasco nervoso só de olhar.

O casal entrou, passou pelo balcão de reservas, e foi para uma mesa lateral. Vasco viu que havia um homem corpulento sentado à mesa. Parecia um bandido, a pele escura, as sobrancelhas cerradas. Olhou para a russa e só faltou lamber os beiços.

Tolman falou com o homem de pele escura. O cara parecia perplexo. Não os convidou a sentar. Vasco pensou: Há alguma coisa errada. A russa deu um passo para trás.

Foi nesse instante que houve um súbito clarão. Dolly tirara uma foto. Tolman olhou, compreendeu a situação, e saiu correndo.

- Que merda, Dolly.'

Vasco saiu correndo atrás de Tolman, que se embrenhou pelo restaurante. Um garçom ergueu as mãos.

- Senhor, desculpe...

Vasco empurrou-o e continuou a correr. Tolman ia mais devagar do que poderia, porque tentava não sacudir a preciosa garrafa de vinho. Mas não sabia mais para onde ia; apenas corria. Passou pelas portas de vaivém, entrou na cozinha, com Vasco logo atrás. Todos gritaram e alguns brandiram facas, mas Tolman continuou a correr, aparentemente convencido de que havia uma saída pelos fundos, através da cozinha.

Não havia. Ele estava acuado. Olhou ao redor, frenético. Vasco mostrou um de seus distintivos, numa carteira que parecia oficial.

- Prisão de cidadão - disse ele.

Tolman recuou, todo encolhido, entre dois freezers, contra uma porta estreita, com uma pequena janela vertical. Tolman passou pela porta estreita e fechou-a.

Uma luz piscou ao lado da porta.

Era um elevador de serviço.

Merda!


- Para onde vai o elevador?

- Segundo andar.

- Mais algum lugar?

- Não. Apenas o segundo andar. Vasco apertou o fone no ouvido.

- Dolly?

- Já estou a caminho.

Ela ofegou ao subir a escada correndo.

Vasco postou-se na frente da porta do elevador e esperou. Apertou o botão para o elevador descer.

- Estou na frente do elevador - avisou Dolly. — Eu o vi. Ele desceu.

- É um elevador pequeno - disse Vasco.

- Sei disso.

- Se ele tem mesmo nitrogênio líquido em seu poder, não deveria estar aí dentro.

Dois anos antes, Vasco perseguira um fugitivo até um depósito de material de laboratório. O cara quase sufocara depois de se trancar num closet.

O elevador desceu. Assim que parou, Vasco puxou a alça para abrir a porta. Mas Tolman devia ter acionado a emergência, porque a porta não abriu. Vasco viu o saco de vinho no chão. O veludo fora baixado para mostrar a beira do Dewar de aço inoxidável.

E a tampa fora removida. Um vapor branco saía pela abertura.

Através do vidro, Tolman fitava-o, de olhos arregalados.

- Vamos, filho, não seja tolo — disse Vasco.

Tolman sabia, com toda certeza. Sabia exatamente o que estava fazendo.

— Ele estava aqui em cima - informou Dolly, parada no segundo andar. — Mas a porta não abriu. Vai descer outra vez.

- Volte para a mesa — disse Vasco. — Pode deixá-lo.

Ela compreendeu no mesmo instante o que Vasco queria. Desceu apressada pela escada coberta de veludo vermelho para o térreo. Não ficou surpresa ao descobrir que a mesa a que sentava o homem que parecia um bandido estava vazia. Nada do bandido. E a linda russa também desaparecera. Havia apenas uma nota de cem dólares debaixo de um copo. Ele pagara em dinheiro, é claro. E sumira.

Vasco estava agora cercado por três seguranças do hotel, todos falando ao mesmo tempo. Quase uma cabeça mais alto do que os três, ele pediu que se calassem.

- Quero saber uma coisa. Como podemos abrir o elevador?

- Ele deve ter apertado a emergência.

- Como podemos abrir?

- Temos de desligar a energia.

- A porta abrirá automaticamente?

- Não, mas poderemos arrombá-la assim que o elevador parar.

- Quanto tempo levará?

- Talvez dez ou quinze minutos. Mas não faz diferença, pois esse cara não irá mesmo a parte alguma.

- Vai, sim — murmurou Vasco. O segurança riu.

- Para onde ele poderia ir?

O elevador desceu de novo. Tolman estava de joelhos, com as mãos no vidro da porta fechada.

- Levante-se — disse Vasco. — Vamos, filho, levante-se. Não vale a pena.

Subitamente, Tolman revirou os olhos e caiu para trás. O elevador começou a subir.

- O que aconteceu? — perguntou um dos seguranças. — E, afinal de contas, quem é esse cara?

Merda!, pensou Vasco.

Toman emperrara os mecanismos do elevador. Levaram quarenta minutos para abrir as portas e retirá-lo. Ele já morrera havia bastante tempo, é claro. No instante em que caiu, ficou imerso numa atmosfera de cem por cento de nitrogênio, do nitrogênio líquido que vazava do Dewar. Porque o nitrogênio era mais pesado do que o ar, enchera progressivamente o elevador, de baixo para cima. Quando caiu de costas, Tolman já estava inconsciente, e deve ter morrido em menos de um minuto.

Os seguranças queriam saber o que havia no Dewar, de onde não saía mais vapor. Vasco pôs luvas e pegou o tubo de metal. Não havia nada ali, apenas uma série de clipes vazios nos lugares em que os embriões deveriam estar. Os embriões haviam sido removidos.

— Está querendo dizer que ele se matou? — indagou um dos seguranças.

— Isso mesmo — confirmou Vasco. — Ele trabalhava num laboratório de embriologia. Sabia sobre o perigo do nitrogênio líquido num espaço restrito.

O nitrogênio causava mais fatalidades em laboratórios do que qualquer outra substância química; e metade das baixas era de pessoas que tentavam salvar colegas de trabalho que haviam desfalecido em espaços confinados.

— Foi a sua maneira de escapar de uma situação difícil — acrescentou Vasco.

Mais tarde, voltando de carro para casa com ele, Dolly perguntou:

— O que aconteceu com os embriões? Vasco balançou a cabeça.

— Não tenho a menor idéia. Tolman não os pegou.

— Acha que a mulher os removeu antes de ir para o quarto dele?

— Alguém os removeu. — Vasco suspirou. — O pessoal do hotel não a conhece?

— Estudaram as gravações das câmeras de segurança. Não sabem quem ela é.

— E sua situação como estudante?

— Ela estudava na universidade no ano passado. Não se matriculou para este ano.

— Portanto, ela desapareceu.

— Isso mesmo — confirmou Dolly. — Ela, o cara de pele escura, os embriões. Tudo desapareceu.

— Eu gostaria de saber como tudo isso se junta.

— Talvez não se junte.

— Não seria a primeira vez.

Vasco avistou à frente o cartaz em néon de um restaurante à beira da estrada no deserto. Parou ali. Precisava de um drinque.




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