EBookLibrisodisséia homero em Verso Português por manoel odorico mendes eBooksBrasil



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eBookLibrisODISSÉIA


HOMERO

Em Verso Português


por
MANOEL ODORICO MENDES


eBooksBrasil

* * *


Odisséia
Homero

Tradução de


Manoel Odorico Mendes (1799-1864)
Prefácio de
Prof. Silveira Bueno

Fonte digital


Digitalização da 3ª edição
Biblioteca Clássica
sob a direção de
G. D. Leoni
e
Paulo R. Teixeira
Atena Editora
São Paulo

Imagem da Capa


Ulisse e le sirene. Mosaico pavimentale romano al Museo del Bardo a Tunisi. II secolo d.C.
Foto: Giorces
Fonte: Wikipedia

Versão para eBook


eBooksBrasil

© 2009 Homero

USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL

ÍNDICE



eBooksBrasil:
  Nota Editorial
Prof. Silveira Bueno:
  Prefácio

Homero traduzido por Odorico Mendes:
ODISSÉIA
Livro I
Livro II
Livro III
Livro IV
Livro V
Livro VI
Livro VII
Livro VIII
Livro IX
Livro X
Livro XI
Livro XII
Livro XIII
Livro XIV
Livro XV
Livro XVI
Livro XVII
Livro XVIII
Livro XIX
Livro XX
Livro XXI
Livro XXII
Livro XXIII
Livro XXIV

Nota Editorial

Começo compartilhando com o eventual leitor uma curiosidade que sempre tive: como na Odisséia o herói é Ulisses e não Odisseu? É bem certo que Odorico Mendes utiliza para os deuses e heróis os equivalentes latinos, o que já foi observado por mais de um.

No caso, é interessante notar como Odisseu (’Οδυσσευ´σ) se tornou Ulisses. Como nos informa a Wikipedia no verbete Odysseus: “O nome tem diversas variantes: Olysseus (’Ολυσσευ´σ), Oulixeus (Ου´λιξευ´σ), Oulixes (Ου’λιξησ) e foi conhecido como Ulisses em Latim ou Ulixes na mitologia Romana”. — Refere-se ainda ao verbo como odussomai (οδυ'σσομαι), com o significado que lhe empresta a nota ao Livro XIX da fonte digital.

Agora, às notas desta edição, referentes às modificações feitas em relação ao livro digitalizado e o que foi mantido quando alguns poderiam recomendar que atualizações fossem feitas. Prefiro indicar o que foi feito, deixando ao leitor concordar ou não com elas. De antemão alerto que a maioria refere-se ao uso do diacrítico, tão útil, mas cada vez mais desprezado a cada reforma ortográfica. Dia chegará em que, para esclarecer um texto, só mesmo indo às fontes antigas. Uma pena!

Agamemnon, Agamêmnon, Agamémnon ou Agamenon? Em grego, Αγαμε´μνων, o que, transliterado, seria Agamémnon. Na fonte digitalizada aparece como Agamenon. Mantendo consistência com a edição feita da Ilíada no eBooksBrasil, substituído por Agamemnon. Fica aqui a ressalva. O mesmo ocorreu com Clitemnestra, Clitenestra na fonte digitalizada.



Substituído embubescida por enrubescida (I,343). Conservado dextra em vez de destra. Conservado o diacrítico em pêlo. Diacrítico mantido em “Bons espetos sustêm qüinqüedentados” (II,361). No Livro IV, 103: “Em maravilhas celebre” — Odorico usou o original latino celebre em vez de grafar célebre, talvez pelo ritmo poético. Talvez seja apenas erro tipográfico. Na dúvida, mantive celebre, como na fonte digitalizada, com a presente ressalva.

Conservado o diacrítico em vôlto. Por exemplo, no Livro V,20, deixa claro que fala dirigindo a Mercúrio e não que retorna a Mercúrio. No Livro VIII,191, sem ligeiros foi substituído por sim ligeiros pelo sentido do que se segue. No Livro VIII,264: tresdôbro (conservado o diacrítico), pois pode ser que Odorico queria se referir não a três vezes o dobro, mas sim à parte tresdobrada da coberta. No Livro VIII,320: libe à Jove, conservada a crase, de acordo com a fonte digital, mas libe a Jove pareceria mais exato, uma vez que libar significa beber em homenagem a alguém e Jove é masculino. Livro IX,188: fôrmas, conservado o diacrítico para deixar mais que claro que coloca em fôrmas e não em formas diversas. Conservada a forma dous, em vez de dois. No Livro IX:429: a aqueles bravos substitui por e aqueles bravos. Poderia, como se fez em outras edições, simplesmente eliminar o a e dizer à parte, mas significaria que, além da parte que lhe coube na partilha, recebera Ulisses mais a ovelha em que fugira. Deixando como está na fonte digital, a parte pode significar que entre as ovelhas recebidas na partilha coube-lhe como parte a ovelha em que fugira. Nas Notas ao livro IX: Cicones, mantido, mas Cícones em outros lugares. No Livro X,19, contêm, mantido, em vez de contém. No Livro X,215: escondrijo, substituído por escond’rijo. A elisão fica assim explicitada e a métrica preservada. No Livro XV,406: “Vôlto ao filho de Clito”, mantido o diacrítico em vôlto, deixando explícito que fala voltando-se em direção ao filho de Clito e não que retorna ao filho de Clito. Vôlto foi preservado em outros lugares. No XVI,162: apôsto mancebo, conservado o diacrítico. No Livro XVIII,73: Calculando se exâmine o prosterne, substituído por Calculando se exânime, evidente erro tipográfico. No Livro XVIII,235: sêca lenha, conservado o diacrítico. No Livro XVIII,301: “Que alvorôto lamentável!”, conservado o diacrítico. No Livro XIX,13: Na fonte digital “Eia, as mulheres/Retêm, ama, lá dentro” Preservar ou não Retêm? Muda totalmente o sentido. Mudado para Retém, mas poderia ser Retêm no sentido de Retenham. No Livro XIX,426: Iminente é dos príncipes e perda, evidente erro tipográfico. Mudei para Iminente é dos príncipes a perda. No Livro XX,93: Anuncio é para alguém, mudado para Anúncio é para alguém. No Livro XX,226: anôjo, preservado o diacrítico de anojo do verbo anojar. No Livro XX,301: E um monteja a Telêmaco. Substituído por moteja. No Livro XXI,103: Exprimentai, foi explicitada a elisão: Exp’rimentai. No Livro XXI,175: vaquerio na fonte digital. Substituído por vaqueiro, embora a forma vaquerio, como consta na fonte digitalizada também pudesse ser apropriada. No Livro XXI,240: fôra, conservado o diacrítico. No Livro XXII,210: “o peio vara” substituído por “o peito vara”. No Livro XXIII,183: “do colo do sonsorte” substituído por consorte. No Livro XXIII,220: “a cama afôfa e mórbida estendiam” mantido o diacrítico. Em Nota ao Livro XXIII, substituído José por Josué, por ser evidente o erro tipográfico na fonte digitalizada. No Livro XXIV,214: “capaz doze” substituído por capas doze.

É isso. Boa leitura!

Teotonio Simões
eBooksBrasil

PREFÁCIO



A crítica de todas as épocas reteve sempre que entre a Ilíada e a Odisséia mediou largo tempo, atribuindo a primeira, inegavelmente, superior à segunda, aos anos de maior energia criadora de Homero. A Odisséia, produto dos últimos tempos do Poeta, embora de tão grande valor que outra nenhuma se lhe poderia comparar em toda a literatura clássica, se diferenciava, em muitos pontos, da obra-prima do grande e incomparável cantor da Grécia. Era a Ilíada um poema militar, guerreiro, tendo por escopo principal a narração do que fora essa guerra que terminara com o extermínio de todo um povo, de toda uma cidade, a famosa Ílion. Como devia ser, traz o poema movimentação extraordinária, descrições que nos conservaram as emoções das grandes batalhas travadas entre heróis, tão grandes e tão fora dos moldes humanos que os próprios deuses, como se fossem homens, nelas tomaram parte ativa e decisiva. Tudo na Ilíada respira militarismo, feitos bélicos, devotamentos e sacrifícios heróicos como nunca mais voltaria a raça humana a apresentá-los na face do mundo. O céu e a terra, os homens e os deuses se confundem ou se aproximam grandemente: o Olimpo não é uma região abstrata, colocada simplesmente no alto, no céu, mas uma real montanha da Tessália, posta entre a terra e o céu, porque os deuses deviam estar próximos dos homens e estes daqueles, de tal modo que as qualidades e até os defeitos se comunicassem de uns para os outros. Muito ao contrário, é a Odisséia um poema de paz, uma criação dos tempos posteriores à tremenda ação guerreira de Ílion, quando todo o povo heleno se refazia da grande empresa e vivia para si exclusivamente, voltado para objetivos puramente sociais e domésticos. Os heróis, como navegantes que retornam de suas longas viagens, reúnem-se nas largas salas dos palácios, das casas ricas, dos chefes de valor inconteste, e aí, num ambiente de tranquilidade, rememoram as vencidas tempestades, os obstáculos superados, e narram, cheios de emoções, as novidades que encontraram, os costumes diferentes que puderam ver, contrastando-os sempre com os modelos da pátria e da gente helena, protótipos e exemplares da perfeição humana. Desaparece aquela tonalidade bélica e a imaginação do Poeta adorna de tons românticos as cenas que poderiam reavivar passadas angústias. Cessa aquela ação guerreira dos próprios deuses: o Olimpo deixa de ser aquela montanha material, geograficamente conhecida, para tomar aspectos de abstração, de espiritualidade, transformando-se apenas no Céu, nessa região imprecisa e impalpável, acima da terra, que até hoje vive em nossos conceitos modernos. Não descem os deuses, transformados em homens, a combater pela sua gente, mas lá do alto, dirigem, com o pensamento e com a vontade, os destinos dos gregos. O ambiente geográfico é muito mais vasto na Odisséia do que na Ilíada: para esta a região era apenas aquela em que se travava a guerra; para aquela, poema de viagem, poema de aventuras marítimas, estendia-se o mundo para além do Egito, entrava pelo Mediterrâneo além da Sicília. O conceito social amplia-se também, com novas interpretações do direito, da posse da terra, das leis que já regulam de outro modo as relações dos cidadãos. O homem já não é aquele super-homem da Ilíada, o guerreiro amparado pelos deuses ou transformado em verdadeiro deus: humanizou-se, vive para a família, para o campo, sabe apreciar os momentos deliciosos do trato social, dos instantes em que os narradores reúnem toda a família para ouvir as suas façanhas.

A antiguidade clássica, mormente, a alexandrina e ainda mais especialmente a romana, toda feita de belicosidade, de expedições guerreiras, tendo por mais alto ideal a guerra, o militarismo, não poderia ter deixado de dar maior apreço à Ilíada do que à Odisséia. Por isto vemos que desde Pisístrato, que desde os famosos filólogos de Alexandria, de Pérgamo até Virgílio, em pleno século de Augusto, todos tomaram em primeira plana, com interesse sem limites, a Ilíada e não a Odisséia. Reflete-se esta preferência até na maneira pela qual os sábios de Alexandria dividiram e classificaram os dois poemas imortais: deram a ambos o mesmo número de “livros”, numerando-os com as letras do alfabeto, letras que valiam também por números. Mas aos vinte e quatro livros da Ilíada, apuseram as letras maiúsculas do alfabeto grego; aos vinte e quatro livros da Odisséia apuseram as letras minúsculas. Virgílio, quando quis escrever a Eneida, não tomou por modelo a Odisséia, mas a Ilíada: ele devia narrar, fantasticamente, os feitos militares da gente romana, as suas conquistas, a força da sua espada, a coragem dos seus heróis: não poderia procurar, para tamanho quadro bélico, outro modelo que não fosse o da Ilíada. A Odisséia representava uma época posterior à das guerras, das convulsões, da conquista do mundo: ficaria para modelo dos que, mais tarde, quisessem narrar os feitos de civilização romana quando o mundo conhecido fosse apenas o “mundo romano”, dirigido e governado pelas leis de Roma, falando até a mesma língua latina.

Para nós, gente que o cristianismo civilizou e domou, que temos horror à espada e só aspiramos às batalhas do espírito, a Odisséia é o poema preferível, que mais dentro se encontra do nosso ideal, descontados os séculos e levados em conta os modos diferentes da interpretação social. Por isto, desapareceu, pouco a pouco, o interesse que a antiguidade devotou à Ilíada e foi sempre crescendo o valor da Odisséia. O poema de Virgílio, embora calcado no poema de Homero, por tal maneira o eclipsou em toda a Idade-Média, que ninguém mais se deu ao trabalho de o ler diretamente em grego, contentando-se com as referências latinas dos famosos e formosos hexâmetros virgilianos. Nem mesmo o Renascimento conseguiu restabelecer o prestígio da Ilíada porque o valor quase mítico de Virgílio cresceu ainda mais nessa época em que todas as inteligências se voltavam a Atenas e a Roma.

A Odisséia, com as suas narrativas fabulosas, com os dados de conhecimento geográfico e social da antiguidade, passou a ocupar a primeira plana no interesse europeu. Basta lembrar as inesquecíveis aventuras de Telêmaco, ainda mais depois que foram postas em francês pela pena admirável de Fénelon: fizeram as delícias dos príncipes e dos plebeus, foram a leitura essencial de todas as escolas da Europa, chegando até nós no Brasil.



Odorico Mendes, certamente, um caso raro nas letras nacionais, o maior humanista que já tivemos em nossa pátria, quase fabuloso por ter conhecido tão perfeitamente a literatura e a língua grega, ao ponto de verter para o nosso idioma os dois poemas que embalsamaram para a eternidade a Grécia, não conseguiu fugir aos preconceitos do seu tempo, e melhor ainda, à formação intelectual da sua personalidade. Traduziu primeiro a Ilíada e somente nos seus últimos tempos, a Odisséia. Como aconteceu ao próprio Homero, a sua primeira tradução, obra dos seus dias mais jovens, foi mais esmerada que a segunda, quando já o seu valor físico declinava. Nem por isto a Odisséia desmerece da Ilíada, na pena de Odorico Mendes. Traduziu-a em versos portugueses, escolhendo, como era da praxe literária, o decassílabo heróico. Traduziu-a em versos e por que não o fez em prosa, como têm preferido os tradutores mais modernos? Era ainda a um preceito literário do tempo a que obedecia o humanista brasileiro: não se concebia um poema e da fama da Odisséia, em prosa, veste menos digna das grandes criações do gênio épico. E daqui procedem todos os obstáculos encontrados pelo tradutor: como encerrar, na exiguidade do decassílabo português, a majestosa extensão do hexâmetro grego, do metro homérico? Tinha o poeta maranhense de comprimir, em dez sílabas, as quatorze, as dezesseis do verso clássico. Para tanto, teve de sacrificar muitas palavras, de recorrer a expressões mais sintéticas, para que o limite imposto pela exigência do decassílabo português não fosse transgredido. Nesse trabalho, encontrou ainda Odorico Mendes outro óbice não menos difícil de vencer: o vocabulário, as expressões técnicas, os modismos gregos de que tanto se valeu Homero para tornar-se universalmente famoso. Neste ponto, houve-se o tradutor maranhense com a mesma habilidade com que se houveram os italianos, os franceses: não só traduziu, mas, especialmente, colaborou, num grande esforço de adaptação vocabular. Como já havia feito Camões, passou diretamente do grego para o português palavras e palavras, sem a menor adequação fonética. Outras vezes, compôs, com elementos gregos, vocábulos que correspondessem ao termo intraduzível por não encontrar correspondente nos dicionários da língua portuguesa. Nunca o fez, porém, irrefletidamente: procurou sempre apoiar-se nos clássicos do nosso idioma e quando estes falharam, nos tradutores que o haviam precedido, principalmente, no italiano Ippolito Pindemonte. Basta ler as notas apostas a cada um dos cantos para que se veja com que cuidado procurou explicar e defender a introdução dos termos que teve de forjar. Como antes de traduzir Homero já havia traduzido Virgílio, serviu-se Odorico Mendes, nas suas dificuldades vocabulares, do tesouro latino que a Eneida lhe oferecia e também do grande exemplo que lhe deixara Camões. Assim, aproveitou-se largamente dos latinismos camonianos, ou digamos mais corretamente, dos latinismos do Renascimento, comuns ao épico português e aos demais autores europeus. Logo no primeiro canto enumeramos: equóreo ponto, claro Hiperiônio, prole, sevo, cava gruta, deidades,, ilha circúnflua, nemorosa, salso abismo, holocaustos, celícolas, olhicerúlea, ínsula, fexípides bois, ovelhas pingues, érea afiada ponta, metuenda, crateras (taças), deiforme, dedáleo, cítara ebúrnea, negropélago vaso (navio), ilha circunfusa, áugur, numes, arcano, carmes, ledos, inultos, prosápia, etc. Sempre cingido aos ditames da escola clássica, usa o tradutor de expressão elevada e poética, de ordem inversa e tono altivo, como se fosse ele próprio o declamador dos versos. O verso branco, destituído de rima, não porém o verso livre, duas espécies que muitos freqüentemente confundem, dá ao poeta maior liberdade, mantendo-se apenas o ritmo que é a essência mesma da poesia. Para os nossos ouvidos modernos, haverá, na Odisséia de Odorico Mendes, encontros de consoantes, seqüências de vogais menos harmoniosas: devemos, entretanto, ler esta obra dentro do tempo em que foi feita. Somente Gonçalves Dias e muito mais tarde Fagundes Varela, e mais tarde ainda Vicente de Carvalho levam superioridade sobre o maranhense no manejo deste verso branco. Difícil é, contudo, a sua linguagem, dirão outros, difícil pelo vocabulário especial de que usa, difícil pelas inversões da frase: é verdade e disto dou um testemunho de meus anos já bem idos: quando estudante de grego, traduzindo exatamente a Ilíada, tinha por professor o maior helenista que já conheci, o Cônego Macário Sars, da ordem premonstratense, homem que sabia Homero de cor e meditava em grego, muitas vezes, para entender a tradução de Odorico Mendes, recorríamos ao texto original. Para o meu professor, talvez porque fosse holandês, era mais fácil entender Homero em grego do que Homero no português de Odorico Mendes. A causa já ficou acima explicada: o vocabulário renascentista que empregou, as criações neologísticas de que teve necessidade de usar. Claro está que obra como esta não se põe em mãos de principiantes, nem sob os olhos dos que ainda se deleitam com histórias em quadrinhos ou com romances policiais. Homero será sempre, seja lá a língua em que for vertido, um manjar de exigências finas, leitura de poucos eleitos, daqueles que já se alçaram além da craveira comum e podem, do alto, retroceder a vista para os tempos gloriosos da cultura clássica.

A reedição de obra de tal valia, o reaparecimento desta Odisséia onde palpita o sopro de um talento que o Brasil vivificou, vem comprovar, com grande alegria para todos nós que envelhecemos sobre as páginas da civilização antiga, que a nossa juventude brasileira já se vai incorporando a esses escolhidos de Jedeão, cujos joelhos não se curvam perante as facilidades improvisadas e efêmeras das produções literárias de somenos, mas galhardamente enfrentam, de pé, as dificuldades oferecidas pelas obras-primas do gênero humano. Não malbaratam os jovens o seu precioso tempo nessas frivolidades que bem marcam a decadência intelectual do mundo, nesses romances, nessas poesias que duram tanto quanto podem durar os sons das palavras ocas, mas todos se voltam aos monumentos da genialidade antiga, aos pilares da arte clássica, pilares eternos, sempre firmes e inabaláveis embora as águas tumultuosas dos séculos tentem corroer-lhes as bases. Por que hei de ler fulano e beltrano, gente de hoje, que comigo cresceu, que não sabe mais do que aquilo que também eu pude aprender, que não produziu nada que também eu não pudesse produzir, quando ainda não li Camões, Cervantes, Dante, Shakespeare, Milton; quando ainda não conheço Virgílio e lá, no fundo das idades, esse divino Homero? Eis o raciocínio que já fazem os nossos jovens estudantes e, acertadamente, pensam que sem o conhecimento desses pináculos da criação literária, jamais poderão, também eles, aspirar a alturas que se avizinhem desses píncaros da genialidade humana. Mas como ler Homero se não o temos ao alcance dos nossos olhos? Já muitos podem lê-lo diretamente em grego, auxiliados pelos comentários literários e filológicos, e agora todos o poderão ter, nesta Odisséia de Odorico Mendes, em sua língua materna, em português.



Este é um dos sintomas felizes desse verdadeiro Renascimento por que vai passando o Brasil, mercê da criação das Universidades, e, especialmente, das Faculdades de Letras. Criada que foi a primeira dentre todas, primeira pela cronologia, primeira pelos trabalhos de valor já publicados, a nossa de São Paulo, imediatamente começou a operar-se o milagre da renovação cultural. Até então, eram as livrarias de obras usadas os repositórios dos melhores livros de literatura: na umidade dos porões, na esterilidade da poeira das estantes, jaziam, esperando pelo seu vale de Josafá, as melhores criações européias e nacionais. Quem desejava um bom livro, um autor clássico, ia procurá-los nesses cemitérios da inteligência ou nesse purgatório dos grandes escritores, salvando hoje esta alma, salvando amanhã aquela, trazendo à luz da vida um Camões, um Horácio, um Virgílio que lá dormitavam há séculos. Percorra-se hoje uma dessas livrarias: não se encontrará nada de valor para adquirir. Mais ainda: já não existem tais livrarias de livro usado: na falta da mercadoria, tiveram de transformar-se, comprando e vendendo livros novos. Ao lado destas transformações, criaram-se outras puramente científicas, especializadas, onde só se vendem obras de valor, as coleções dos clássicos, os grandes poemas das literaturas mais antigas. Quem possui um bom autor, um livro de valor, não o vende, não se desfaz dele: guarda-o como um tesouro. Eis a grande conseqüência das Faculdades de Letras. Saber latim, saber grego, já deixou de ser mistério dos cursos de seminário. Há já um grande número de rapazes, de meninas, que pode competir com os reverendos padres no conhecimento de Cícero, de Virgílio, de Homero ou de Demóstenes. Esgotam-se as remessas de livros didáticos, de gramáticas e de manuais, como se esgotam as coleções dos clássicos, levando todos em mira o ter o melhor texto, as melhores edições, conhecendo muito bem o valor deste e daquele comentador. Que prazer não é para nós entrarmos numa classe de letras e vermos aí essas frontes jovens, curvadas, atentas, pesquisando uma passagem de Tácito, discutindo a métrica dos versos arquílocos, procurando saber se a cesura pode cair ou não no quarto pé de um troqueu, como fez Homero na Odisséia, ou se o decassílabo camoniano, com a cesura na quinta sílaba está errado ou se pertence a outra versificação, a lemusina, diferente da renascentista italiana. Para completar este prazer, eis que aparece esta nova edição do grande poema homérico, na tradução de Odorico Mendes. Podem agora os eruditos, os estudiosos das nossas Faculdades de Letras, comparar o trabalho do grande maranhense com o texto original, vendo e apreciando as dificuldades vencidas pelo tradutor e também as deficiências do seu trabalho feito numa época em que os problemas da filologia clássica ainda não haviam chegado ao Brasil. Tenho a esperança de ver, dentro de pouco tempo, edições de Homero, não com um prefácio modesto qual este meu, mas com introduções filológicas, onde se discutam os grandes problemas da existência real e pessoal do divino Poeta, da unidade arquitetural da Ilíada, da Odisséia, da comprovação histórica de tais poemas pelos descobrimentos arqueológicos mais modernos, pelo estudo acurado da língua de Homero, da metrificação por ele usada, dos versos meramente supranumerários e dos verdadeiros interpolados, aparato científico e necessário para edições realmente filológicas. Já estamos em condições de executar tal trabalho de alta filologia clássica? Perfeitamente: dispomos de materiais mais do que necessários, conhecendo as grandes edições como a de Victor Bérard, de Ernesto Drerup, de Laurand, de André Lang, Leaf, Monro, Blass, Bréal, para citar apenas alguns dos mais importantes estudiosos da questão homérica. Se ainda há alguns retardatários que repetem as defuntas idéias de Wolf e as já falecidas teorias de Croiset, a juventude que está saindo da nossa Faculdade de Letras já pode repetir com Bérard:

“J’ai connu le temps où le dernier du ridicule, pour un homérisant, était de croire à l’existence d’un auteur dont on lisait les ouvrages. On est aujourd’hui le dernier des ignorants si l’on ose mettre en doute que 1’Iliade et 1’Odyssée, de leur premier vers au dernier, ont été rédigées par le Poéte aveugle et par lui seul”. (L’Odyssée d’Homère-Préface — pg. 10).

Com os meus parabéns aos editores desta reedição da Odisséia de Odorico Mendes ficam estas minhas esperanças dessa edição crítica e anotada que eles poderão fazer e que a mocidade estudiosa do Brasil espera em seu renascido gosto a estas obras imortais do espírito humano, do trovador grego tão grande e tão extraordinário que foi chamado por todos os séculos mais gloriosos da Grécia e de Roma, simplesmente o Poeta,com p maiúsculo, acrescentando-lhe depois a cultura humana o epíteto de Divino, — HOMERO.

Junho de 1954, quarto centenário de São Paulo.

Prof. Silveira Bueno

HOMERO


ODISSÉIA

Em Verso Português


por
MANOEL ODORICO MENDES

* * *


LIVRO I

 

Canta, ó Musa, o varão que astucioso,


Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
5 Por segurar a vida e aos seus a volta;
Baldo afã! pereceram, tendo insanos
Ao claro Hiperiônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.
10     Da guerra e do mar sevo recolhidos
Os que eram salvos, um por seu consorte
Calipso, ninfa augusta, apetecendo,
Separava-o da esposa em cava gruta.
O céu, porém, traçou, volvendo-se anos,
15 De Ítaca reduzi-lo ao seio amigo,
Onde novos trabalhos o aguardavam:
De Ulisses condoíam-se as deidades;
Mas, sempre infenso, obstava-lhe Netuno,
Este era entre os Etíopes longínquos,
20 Do oriente e ocidente últimos homens,
Num de touros e ovelhas sacrifício
A deleitar-se; e estavam já no alcáçar
Do Olimpo os habitantes em concílio.
O soberano, a recordar Egisto
25 Do Agamenônio Orestes imolado,
Principia: “Os mortais ah! nos imputam,
Os males seus, que ao fado e à própria incúria
Devem somente. Contra o fado mesmo,
Do porvir não cuidoso, há pouco Egisto,
30 Em seu regresso o Atrida assassinando,
Esposou-lhe a mulher, bem que enviado
O Argicida sutil o dissuadisse:
— De o matar foge e poluir seu leito;
Senão, tem de vingá-lo, adolescente
35 Sendo investido no seu reino Orestes. —
Mercúrio o amoestou, mas surdo Egisto,
Os delitos por junto expia agora”.
     A quem Minerva: “Sumo pai Satúrnio,
Jaz com razão punido esse perverso;
40 Todo que o imitar, com ele acabe!
Mas a aflição de Ulisses me compunge,
Que, há tanto longe dos amenos lares,
Em ilha está circúnflua e nemorosa,
Lá no embigo do mar; onde é retido
45 Pela filha de Atlante onisciente,
Que o salso abismo sonda, o peso atura
Das colunas que a terra e o céu demarcam.
A deusa com blandícias o acarinha;
De Ítaca ele saudoso, o pátrio fumo
50 Ver deseja e morrer. Não te comoves?
Irritou-te faltando, em sua amada
E em Tróia, com ofertas e holocaustos?”
     E o Junta-nuvens: “Que proferes, filha,
Do encerro dessa boca? eu deslembrar-me
55 Do mortal mais sisudo, o mais devoto,
Aos celícolas pio e dadivoso!
Da terra o abarcador é quem o avexa,
Por ter do olho privado a Polifemo,
O mor Ciclope, que, num antro unida
60 A Netuno, pariu Toosa, estirpe
De Fórcis deus do pego insemeável.
O Enosigeu d’então lhe poupa a vida,
Mas de Ítaca o arreda. Provejamos
Na vinda sua; aplaque-se Netuno:
65 Só contra todos contender não pode”.
     A Olhicerúlea: “Ó padre, ó rei supremo,
Se vos praz que à família torne Ulisses,
Da ínsula Ogígia à ninfa emadeixada
Mercúrio o intime, o herói prudente parta.
70 A Ítaca baixo a confortar o filho:
Os comantes Argeus convoque ousado;
Suste aos vorazes procos a carnagem
De flexípedes bois e ovelhas pingues.
Dali, na Esparta e na arenosa Pilos,
75 Do amado genitor se informe e indague,
E entre humanos obtenha ilustre fama”.
     Já liga alparcas de ouro incorruptíveis,
Que a propelem como aura pelas ondas
Ou pelo amplo terreno; a lança empunha
80 De érea afiada ponta e desmedida,
Com que turmas de heróis desfaz metuenda,
Progênie de tal pai. Do Olimpo frecha;
Em Ítaca, ao vestíbulo de Ulisses
Tem-se, e de hasta na destra, parecia
85 O hóspede Mentes campeão dos Táfios.
Ao pórtico acha intrusos pretendentes
Sobre coiros de bois que morto haviam,
Os dados a jogar. Servos e arautos
Misturam nas crateras água e vinho,
90 Ou com povosa esponja as mesas pulem,
E partem nelas abundantes carnes.
Distante a vê Telêmaco deiforme:
No meio, taciturno e consternado
No genitor pensava, que expulsá-los
95 E reger venha o leme do governo.
Entrementes a avista, e não sofrendo
Por mais tempo de fora um peregrino,
Corre, aperta-lhe a mão, sua arma toma:
“Hóspede amigo, salve; o que precisas,
100 Depois do teu repasto o saberemos”.
     Ei-lo encaminha a déia, e já na sala
Ante celsa coluna encosta a lança
À nítida hastaria, onde em fileira
As de Ulisses valente em pé dormiam.
105 Num trono a põe dedáleo de alcatifa
E de escabelo aos pés, senta-se perto
Em variegada sela; à parte ficam,
Para que, à bulha e ao trato com soberbos,
O hóspede o apetite não perdesse,
110 E do pai ele a folgo o interrogasse.
De gomil de ouro às mãos verte uma serva
Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
Que enche a modesta afável despenseira
De pães e das presentes iguarias;
115 Escudelas de várias novas carnes
O trinchante apresenta e copos de ouro,
Que arrasa de almo vinho arauto assíduo.
     Suspenso o jogo, os feros pretendentes
Ocupam já cadeiras e camilhas;
120 Dão água às mãos arautos, pão comulam
Servas em canistréis; atiram-se eles
Aos regalados pratos, e as crateras
Lhes coroam mancebos. Farta a sede,
Farta a fome, em prazer os embriagam
125 Música, dança, adornos de banquetes:
Cítara ebúrnea entrega um dos arautos
A Fêmio, que forçado ali tangia
E o cântico ajustava ao som das cordas.
     Inclinou-se Telêmaco a Minerva,
130 Dizendo à puridade: “Hóspede caro,
Vou talvez enfadar-te? Eles só curam
De cantigas e danças, porque impunes
Comem do alheio, os bens do herói consumem.
Cuja ossada ou jaz podre em longes terras,
135 Ou rola entre maretas; ah! se o vissem
Cá reaparecer, mais que ouro e galas,
Planta leve amariam. Fado acerbo
Urge-o porém, e embora algum terrestre
A volta sua afirme, as esperanças
140 Murchas estão, nem luzirá tal dia.
Ora, quem és? de que família e pátria?
Com que gente vieste e em que navio?
Vindo a pé não te creio. Uses franqueza,
Hóspede me és recente ou já paterno?
145 A muitos nosso teto agasalhava,
E meu pai atraía os forasteiros”.
     A de azuis claros olhos: “Não duvides,
Mentes sou, de ser nado me glorio
De Anquíale belaz, e os Táfios mando
150 Náuticos hábeis. Vim, com meus remeiros
Sulcando o negro pélago, a Temeses
De estranha língua permutar meu ferro
Pelo seu cobre: o vaso tenho surto
No Retro porto, fora da cidade,
155 Junto ao Neio frondoso. Antigo hospício
Me une a teu pai, e o diga o bom Laertes;
Herói que, é fama, a corte mesto esquiva
Em campo solitário, onde ama idosa
Lhe apresta a mesa, ao vir cansado e lasso
160 De amanhar fertilíssimos vinhedos.
Cuidei, corria voz, tornado Ulisses;
Mas os deuses o impedem, que inda vive
Em ilha de mar vasto circunfusa,
Por bárbaros detido e involuntário.
165 O que o Céu sugeriu-me, eu to assevero,
Se bem áugur não seja ou grã-profeta:
Não tardará; que, embora o tenham ferros,
Ardis cogita. Sê sincero; os olhos
E a cabeça tens dele, és tu seu filho?
170 Como agora freqüentes conversávamos;
Desde que para Tróia, entre os mais cabos,
Se embarcou, nunca mais nos avistamos”.
     E o príncipe modesto: “Hóspede, é certo
Que minha mãe de Ulisses me diz prole;
175 Por si mesmo ninguém seu pai descobre.
Oh! gerado fosse eu de um mais ditoso,
Que em suas possessões envelhecesse!
A porvir de um herói, já que o perguntas,
Esse é desgraçadíssimo dos homens”.
180     E Palas: “Deu-te o Céu preclaro berço,
És da casta Penélope nascido.
Mas, dize, que festim, que turba é esta?
Para que a tens? são núpcias? é banquete?
Por escote o não fazem. Que insolência!
185 Qualquer homem de siso há de irritar-se
De os ver assim”. — Telêmaco prudente:
“Hóspede, honesta e rica era esta casa,
Quando aquele varão conosco estava;
Mas obscuro ocultá-lo aprouve aos deuses.
190 Menos dor fora se acabasse em Ílion,
Ou no meio de amigos triunfante:
Erigindo-lhe a Grécia um monumento,
Ao filho seu legara imensa glória.
As Harpias cruéis mo arrebataram;
195 Sem brilho algum morreu, só lutos, herdo.
Outros prantos o fado nos suscita:
Os chefes de Dulíquio ambiciosos,
De Ítaca rude e Samos e Zacinto
Pretendem minha mãe, que os não repulsa,
200 Bem que fiel tais himeneus deteste;
Famélicos o haver me dilapidam,
E malvados a morte me aparelham”.
     Palas com dó: “Precisas de que Ulisses
A mão carregue sobre audácia tanta.
205 Oh! de seu paço à entrada aparecesse
De elmo, adarga e hastas duas, qual chegando
O vi de Éfira e de Ilo Mermérida,
Aonde fora numa nau veleira
Comprar veneno para ervar as setas;
210 Mas, como Ilo o negou temendo os numes,
Lho deu meu pai, que amigo em nossa casa
O regalou de saborosos vinhos:
Surdisse, e a boda amargaria aos procos.
Se cá deva o Laércio ou não vingar-se,
215 Arcano é divinal; tu considera
De enxotá-los o modo, eu to aconselho:
Em assembléia aos teus amanhã fala,
Atesta o Céu, despede esses intrusos;
A desejar Penélope outro esposo,
220 Torne a seu pai, que as núpcias lá celebre,
E um dote para a filha haja condigno.
Se outro cordato aviso adotar queres,
Navegues, a indagar de Ulisses novas,
Em ótimo baixel de vinte remos:
225 Talvez alguém te informe, ou soe o brado
Com que Jove aos mortais gradua a fama.
Interroga a Nestor primeiro em Pilos,
Na Esparta ao louro Atrida, que o postremo
Dos lorigados reis entrou na Grécia.
230 Vivo Ulisses, paciente um ano esperes;
Morto, regressa, um monumento exalça
E consagra-lhe exéquias dignas dele;
De ti novo marido a mãe receba.
Isto acabado, às claras ou por fraude,
235 Sério dos procos desfazer-te busca:
De brincos pueris não é mais tempo.
Ouves de Orestes o renome honroso,
Por ter vingado o pai no infame Egisto?
Sê no valor qual és no garbo e talhe;
240 Gabem-te, filho, as gerações futuras.
Vou-me à inquieta nau por minha ausência:
Tudo observes, amigo, e nada esqueças”.
     E o moço: “Hóspede, os sábios teus conselhos
Preceitos são de pai, que eu n’alma guardo.
245 Mas demora-te ainda, a fim que um banho
O coração te alegre, e prenda exímia
Aceites hospital, que tu conserves,
Doce memória da amizade nossa”.
     “Não me estorves, replica, ansioso parto.
250 A tua oferta para a volta aceito;
A Tafo hei de levá-la, e dignamente
Retribuir”. Eis voa a gázea deusa,
Águia Anopéia, infunde-lhe coragem,
Na alma avivando o pai. Crendo-a celeste,
255 O deiforme assombrado aos mais se agrega.
Mudos a Fêmio atendem, que o de Tróia
Triste regresso dos Aqueus modula,
*Pom Minerva disposto. A nobre Icária
Penélope a divina cantilena
260 Do alto percebe, e desce pela escada.
Não só, com duas servas; ante os procos,
À porta, o véu de pejo ao rosto abaixa,
Entre as servas lágrima, ao vale fala:
Fêmio, outros carmes e trabalhos sabes
265 De homens e deuses, da poesia assunto;
Escolhe um que a beber te escutem ledos:
Suspende esse cantar, que amargo sempre
O coração me rala e mo entristece,
À lembrança do herói, cuja alta glória
270 Por toda Hélade e Argólida ressoa”.
     “Reprovas, minha mãe, contesta o filho,
Que nos deleite a impulsos do seu gênio?
Os poetas não culpes, culpa a Jove
Que a prazer os inspira e o estro acende.
275 Não peca em celebrar de Aqueus os males,
E se é nova a canção, mais prende os homens:
Reforça o ânimo teu para sustê-la.
Se luz não teve para a volta Ulisses,
Em Tróia outros heróis também ficaram.
280 Mas dentro as servas atarefa, intende
Na roca e no tear: varões discorram,
E eu mormente que sou da casa o dono”.
Recolheu-se com pasmo, na prudência
Do filho meditando, pela escada,
285 Mais as fâmulas duas, vai carpindo
O amado ausente esposo, até que em sono
Boa Minerva as pálpebras lhe fecha.
     De compartir seu leito ávidos eles,
Na escurecida sala tumultuam;
290 A quem Telêmaco: “O alarido cesse
De Penélope amantes ultrajosos:
Ora à mesa o cantor saboreemos,
Na harmonia parelho às divindades.
Amanhã sem rebouço, em parlamento,
295 Exporei meu desejo de expulsar-vos:
Mutuando os festins, comei do vosso.
A preferirdes consumir sem termo
Os bens de um só, recorro aos Sempiternos:
Júpiter o castigo vos fulmine,
300 E nestes paços expireis inultos”.
     Aqui, mordendo os beiços, da ousadia
Pasmavam do mancebo; a Antino, garfo
De Eupiteu, rebentou: “Do Olimpo, certo,
A sublime linguagem te ensinaram;
305 Se és audaz, é que de Ítaca circúnflua
Oh! destinam-te o cetro hereditário”.
     Mui ponderoso o príncipe: “O que ajunto
Não te exaspere, Antino: eu de vontade
Granjeara de Júpiter o cetro.
310 Mau reputas reinar? quem reina goza
Opulenta morada e as mores honras.
Na ilha há jovens e anciãos que aspiram,
Morto Ulisses, ao mando: quero apenas
O rei ser desta casa, e dos meus servos
315 Pelo braço paterno conquistados”.
     E Eurímaco de Pólibo: “Quem seja
De Ítaca rei, no grêmio está dos numes:
Senhor és do palácio, e enquanto a pátria
For habitada, príncipe, não temas
320 Que da riqueza tua alguém te esbulhe.
Mas conta-nos, amigo, donde veio,
Que herdades o teu hóspede cultiva,
Qual é sua prosápia. Anunciou-te
Perto Ulisses, ou dívida reclama?
325 Foi-se rapidamente e se encobria;
Porém no aspecto seu nobreza inculca”.
     “Eurimaco, responde o cauto moço,
Ah! não verei meu pai, nem creio anúncios,
Nem curo de adivinhos que na régia
330 Consulta minha mãe. Aquele é Mentes
Hóspede meu paterno, que se jacta
Filho do ilustre Anquíale; é de Tafo,
Governa os Táfios navegantes hábeis”.
Fala assim, mas conhece a divindade.
335     Na dança e melodia eles se enleiam,
Té que Vésper assoma, e fusca a noite
Vão-se à casa lograr do mole sono.
Cuidados cem Telêmaco rolando,
Um pátio busca interno, onde aposento
340 Soberbo tinha; avante, aceso um facho
Ia a castíssima Euricléia, filha
De Opes de Pisenor, que, enrubescida,
Por vinte bois comprada, igual da esposa
A estimava Laertes, mas honesto
345 Nem lhe tocou, para forrar ciúmes;
De Telêmaco a serva era dileta,
Porque infante o pensara. Esta é quem abre
O camarim formoso: ele na cama
Despe a macia túnica; dobrada
350 Em cabide a pendura junto ao leito
A boa velha, que ao sair, a porta
Por um anel de prata a si puxando,
Corre da aldrava o loro. De ovelhuna
Lã coberto, a cismar despende a noite
355 Na viagem que a deusa lhe ordenara.

NOTAS AO LIVRO I

43-88 — Circúnfluo quer dizer cercado de ondas, e já é nosso. — Embigo do mar, versão literal do grego, significa o lugar mais elevado do mar: não quis diminuir a força do texto. — Pesoissi, interpretado calculis, indica o xadrez, que, segundo a tradição, pouco havia que Palamedes o tinha inventado, e devera ser o jogo da moda; mas parece que o termo grego indica antes o jogo de dados.

104-114 — A expressão em pé dormiam, aplicada às lanças, é de Pindemonte, e parece-me ter lido em Francisco Manuel cousa parecida. — Das palavras a que faço corresponder presentes iguarias, vê-se que a serva pôs à mesa de Minerva alguns dos pratos que estavam na dos príncipes, e ao depois veio o cozinheiro trinchante com outros quentes: os primeiros deviam ser daqueles que, ainda entre os modernos, se costumam guardar, v. g. fiambres, doces, etc. Assim opinam comentadores, mas em várias traduções omite-se esta circunstância, que aliás mostra um uso da antiguidade.

221 — Não é claro se o dote seria dado pelo pai ou pelo noivo preferido: há diferentes opiniões, e eu sou mais da segunda.

274 — Diz M. Giguet: “Les poètes ne sont pas coupables; mais Jupiter, qui dispose à son gré du sort des humains.” Penso que o sentido é que Penélope não culpe a Fêmio o cantar aqueles versos, porque Júpiter é que inspira os poetas a seu prazer.

302-311 — Digo Antino e não Antinôo, assim como Camões dizia Alcino e não Alcinôo. — Do verso 308-311, opina-se que o reinar não é um mal; o meu bom Ferreira, numa cena belíssima da Castro, é de voto contrário: a experiência contudo favorece o do poeta grego. Se fosse mau o reinar, não se teriam cometido tantos crimes para se obter um cetro. Ao momento de escrever isto, os próprios gregos lutam atrapalhados com a candidatura de muitos que aspiram a carregar sobre eles o mesmo cetro que o trágico lusitano qualifica de pesado para os que o trazem; e os três animais ferozes da Europa estão vibrando o olhar sangüíneo, uns contra os outros, por causa da presa.

LIVRO II



Veste-se, à luz da dedirrósea aurora,
Sai da alcova o amadíssimo Ulisseida
Ao tiracolo a espada e aos pés sandálias,
Fulgente como um deus, expede arautos
5 A apregoar e reunir os Gregos.
De hasta aênea, ao congresso alvoroçado,
Não sem dous cães alvíssimos, se agrega;
Minerva graça lhe infundiu celeste.
Seu porte e ar admira o povo inteiro;
10 Cedem-lhe os velhos o paterno assento.
     Egípcio ergueu-se, de anos curvo e sábio,
A lembrar-se de Antifo, que audaz indo
Com Ulisses a Tróia, do Ciclope
Foi na seva espelunca última ceia;
15 O herói carpia o filho, e bem que houvesse
Três outros, um dos procos Eurínomo,
Dous nas lavouras ocupados sempre,
Concionou lagrimando: “Nunca, atentos
Cidadãos, em congresso nos sentamos,
20 Desde que Ulisses embarcou divino:
Que provecto ou mancebo o ajunta agora?
Que urge? anúncio há exército inimigo?
Ou tratar vem de público interesse?
Nas justas intenções o assiste Jove”.
25     O Ulisseida não mais fica em seu posto;
Ledo, orar cobiçando, em pé recebe
Do arauto Pisenor sisudo o cetro,
Por Egípcio começa: “Eis-me, tens perto
Quem, ancião, convoca esta assembléia;
30 Nem há novas de exército inimigo,
Nem trato hoje de público interesse,
Mas do meu próprio. Hei duas graves penas:
Falta-me o pai, que o era do seu povo;
O pior é que amantes importunos,
35 Filhos dos principais aqui presentes,
Minha mãe vexam, minha casa estragam.
A Icário temem ir, que a filha dote
E escolha o genro que lhe for mais grato;
Em diários festins, meus bois tragando,
40 Cabras e ovelhas, minha adega exaurem.
Nem outro Ulisses que remova o dano,
Nem forças tenho e militar perícia;
Mal seria tentá-lo: oh! se eu pudesse!
Da ruína e infâmia, cidadãos, salvai-me,
45 Os vizinhos temei, temei que os deuses
Em vós a indigna tolerância punam:
E vos rogo por Júpiter, por Têmis,
Que demite ou congrega as assembléias,
Socorro, amigos; só me reste a mágoa
50 Do extinto pai. Se dele ofensas tendes,
E contra mim os instigais, mais vale
Vós os móveis e imóveis consumirdes:
Assim, tinha o recurso de que a tempo
Em Ítaca meus bens vos reclamasse,
55 Compensações recíprocas fazendo.
Ora, insanável dor me infligis n’alma”.
     De cólera chorando, o cetro arroja;
Comisera-se o povo. À queixa amarga,
Em roda emudeceram, mas Antino,
60 Rompe o silêncio: “Altíloquo e impotente
Da ignomínia o ferrete em nós imprimes?
A ninguém mais, Telêmaco, a mãe cara
Somente arguas, que de astúcias mestra,
Quatro anos quase, nos contrista, ilusos
65 De promessas, recados e esperanças,
E al tem no coração. Com novo engano,
Nos disse, ao predispor fina ampla teia:
— Amantes meus depois de morto Ulisses,
Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
70 Sem que do herói Laertes a mortalha
Toda seja tecida, para quando
No longo sono o sopitar o fado:
Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
Manto rico não ter quem teve tanto. —
75 Esta desculpa ingênuos aceitamos.
Ela, um triênio, desmanchava à noite
À luz da lâmpada o lavor diurno;
Ao depois, avisou-nos uma escrava,
E a destecer a teia a surpreendemos:
80 Então viu-se obrigada a concluí-la.
Saibas nossa resposta, e a saibam todos:
Penélope de Icário ao paço envies,
Marido a sabor dela o pai lhe escolha.
De indústria, engenho e ardis, a ornou. Minerva,
85 Quais não dera às mais célebres Aquivas,
Tiro e Alcmena e Micena emadeixadas;
Mas dos dotes abusa em que as supera,
A príncipes da Grécia atormentando.
A insistir na repulsa, na vontade
90 Que os imortais no peito lhe puseram,
Terá glória perene, embora sintas
Esgotados rebanhos e tesouros;
Pois, o assevero, a empresa não largamos,
Antes que ela um consorte a gosto eleja”.
95     Logo Telêmaco: “A expulsar, Antino,
Quem me pariu e amamentou me instigas?
Viva Ulisses ou não, se tal cometo,
A meu avô dar cumpre estreita conta;
Aflito pelo pai, depois que as Fúrias
100 Penélope, este lar deixando, impreque,
Me incitará mau gênio humanos ódios:
Não, não proferirei tamanho crime.
Mutuando os festins, comei do vosso,
A casa despejai-me. A preferirdes
105 Gastar os bens de um só, recorro aos deuses:
Júpiter o castigo vos fulmine,
E nestes paços expireis inultos”.
     Aqui despede o próvido Satúrnio
110 Do alto águias duas, que, de pandas asas
Pelas auras a par, ante o congresso
Mirando em giro e sacudindo as penas
Sobre as cabeças, prometiam mortes;
Lacerando-se à unha a testa e o colo,
Da cidade por cima à destra voam.
115 No anúncio a refletir, pasmaram todos.
     Ergueu-se o herói Mastórida Haliterse,
Agoureiro o melhor entre os coevos,
E orou de grado: “Cidadãos, ouvi-me,
Risco iminente pressagio aos procos:
120 Não tarda Ulisses, que vizinho traça
Deles o exício e de outros Itacenses.
De os refrear o modo averigüemos,
Ou se abstenham por si, que é mais cordato.
Inexperto não sou; predisse aos Gregos,
10 No embarcar para Tróia o astuto Ulisses,
Que sem nenhum dos seus, após vinte anos
E transes mil, ignoto aqui viria:
Quanto prenunciei vai ser cumprido”.
Eurímaco retorque: “Eia, a teus filhos
130 Corre a vaticinar, para que um dia
Sério desastre, ó velho, não padeçam:
Profeta eu sou maior; nem quantas aves
Ao sol adejam, pronosticam males.
Como Ulisses, ao longe oh! pereceras,
135 Áugur falaz; com olho só no lucro,
O ódio nunca em Telêmaco excitavas.
Mas, se de teu prestígio e idade abusas
Irritando o mancebo, eu te asseguro,
Funesto lhe serás, sem nada obteres,
140 E a ti multa imporemos, que te grave
E ao vivo doa. Mande, eu lho aconselho,
A Icário a mãe: as núpcias lhe aprontemos,
E um dote para a filha haja condigno.
Cesse a porfia assim; pois ninguém medo,
145 Nem o loquaz Telêmaco, nos mete.
Predições desprezamos, cujo efeito
Único é detestarmos o adivinho.
A desfalcar seus bens continuaremos,
Enquanto ela indecisa entretiver-nos:
150 Todos rivais, pela virtude sua,
Longos dias passamos na esperança,
Outras nobres senhoras enjeitando”.
     Dissimula Telêmaco: “Não quero
Nisto, Eurímaco e ilustres pretendentes,
155 Falar mais: tudo os Céus e os Gregos sabem.
Mas dai-me ágil baixel de vinte remos,
No qual, o instável pélago sulcando,
Eu vá, na Esparta e na arenosa Pilos,
Do suspirado pai colher notícias:
160 Talvez alguém me informe, ou soe o brado
Com que Jove aos mortais gradua a fama.
Vivo Ulisses, paciente um ano espero;
Morto, aqui volto, e um monumento exalço
E consagro-lhe exéquias dignas dele;
165 De mim novo marido a mãe receba”.
     Mal toma o seu lugar, Mentor ergueu-se,
Sócio do grande Ulisses que à partida
Confiou-lhe interesses da família,
Que ao velho obedecia; este prudente
170 Orou de grado: “Cidadãos, ouvi-me,
Cetrígero nenhum benigno seja,
Nem precatado e bom, sim duro e injusto,
Já que o povo deslembra o divo Ulisses,
Rei homem, rei e pai, senhor e amigo.
175 Aos cegos procos a violência passo,
Porque, a seu risco devorando a casa,
Pensam que Ulisses nunca mais ressurja;
Ardo só contra o povo, que estais mudos,
Que, tantos sendo, ao menos com palavras,
180 Não reprimis o orgulho de tão poucos”.
     Bradou Leócrito Evenório: “Bronco
E insolente Mentor, nós desistirmos!
Disputar-se o festim será difícil
Dos príncipes à flor: se o próprio Ulisses
185 Maquinasse expelir de casa os procos,
Não folgava de o ver a amante esposa;
Crua morte os convivas lhe dariam.
Fútil arenga. Ao trabalho, ó povo;
Naliterse e Mentor, muito há paternos
190 E amigos seus, dispunham-lhe a viagem.
Falho o projeto, longamente, eu creio,
Tem de inquirir em Ítaca estrangeiros”.
Ei-lo, solve o congresso; os mais às próprias,
De Penélope à casa os procos foram.
195 Telêmaco da praia ao longo parte;
No alvo mar banha as mãos, suplica a Palas:
“Socorro, ó nume que a meu lar vieste,
E ontem mandaste que, talhando as vagas,
De Ulisses fosse em busca; obstam-me os Gregos,
200 E sobretudo os feros pretendentes”.
     Palas à prece acorre, em voz e em corpo
A Mentor semelhando: “Siso e esforço,
Ó mancebo, terás, se em ti se instila
O ânimo de teu pai em dito e em feitos,
205 Nem baldarás teus passos: a não seres
De Penélope sangue e do Laércio,
Que lograsses o intento eu duvidara.
Muitos filhos do tronco degeneram,
Raros o imitam, raros se avantajam;
210 Pois de Ulisses herdaste o gênio e o brio,
O teu projeto conseguir esperes.
Desses loucos e injustos não te importes;
Sem previdência, ignoram que atra morte
Para um só dia lhes comina o fado.
215 Não mais o teu propósito retardes:
Mesmo agora aparece aos pretendentes;
Vitualhas apresta e acondiciona,
Em ânforas o vinho e em densos odres
Mete a farinha, dos barões medula.
220 Paterno sócio, te serei companha,
Em baixel que te esquipe: ondicercada
Ítaca abunda em naus de toda a sorte;
A melhor se aparelhe e ao mar se deite”.
     À voz da filha do Satúrnio, à casa
225 Dirige-se o Ulisseida angustiado;
Os soberbões encontra a esfolar cabras,
A assar no pátio suculentos porcos.
Rindo lhe ocorre Antino e a mão lhe trava:
“Fraco e loquaz Telêmaco, desterra
230 Mau pensamento; investe, como dantes,
Ao comer e ao beber, valente e guapo.
Gregos te escolherão navio e remos,
Onde a Pilos divina, ao som da fama,
Tu vás de Ulisses indagando novas”.
235     Sério o príncipe: “Antino, com soberbos
Folgar não devo ou conviver forçado.
Não basta que os meus bens dilapidásseis
Na infância minha? Alerta e mais crescido,
Aconselhei-me, e a ira em mim referve:
240 Seja em Pilos ou Ítaca, procuro
Vossa ruína; os passos meus não frustro.
Passagem pagarei, pois vos aprouve
De embarcação privar-me e de remeiros”.
E a mão da mão de Antino arranca fácil.
245     Rompe o festim, e a charlear um deles:
“Hui! Telêmaco a perda nos prepara!
Ou da arenosa Pilos ou de Esparta
Vingadores trará, se é que de Éfira
Não nos trouxer letíficos venenos,
250 Que na cratera a todos nos propine”.
E outro a zombar: “Quem sabe se naufrague
E longe expire, como o errante Ulisses?
Seria um grã trabalho o dividirmos
Tamanhas possessões, à mãe deixando,
255 Ou a quem a esposasse, este palácio”.
     Ele à paterna estância ampla e sublime
Corre, onde amontoavam-se ouro e cobre,
Óleo odorífero e de vestes arcas;
Dentro, em redor envelheciam pipas
260 De almo divino baco, se inda Ulisses,
Depois de tanta angústia, ao lar voltasse.
Desperta as portas bífores cerradas
Guardava a ecônoma Euricléia, filha
De Opes de Pisenor; chamou-a e disse:
265 “Em ânforas bom vinho, ama, embotelha,
Do mais suave que a tornada espera
Do infeliz nobre herói, se a morte o poupa,
Delas enche uma dúzia e arrolha todas;
Alqueires vinte em odres bem cosidos
270 Vaza de grãos de elaborada Ceres.
Tudo arruma em segredo; à noite venho,
Mal Penélope a câmara procure.
A Esparta e a Pilos arenosa vou-me,
Do pai dileto a recolher notícias”.
275     Clama Euricléia, debulhada em pranto
“Filho, que insânia a tua! ires sozinho
Por esse mundo! É morto o grande Ulisses,
Ai! longe do seu ninho, em terra ignota:
Fica entre nós; para teus bens gozarem,
280 Se partes, eles te armarão ciladas;
Ao cruel vago mar não te confies”.
     “Ama, responde o príncipe, sossega;
Isto não é sem deus. Jura à mãe cara
Onze dias ou doze encobrir tudo,
285 Salvo se o tenha ouvido ou queira ver-me:
Não deforme chorando as faces belas”.
Firma a velha um solene juramento,
E enquanto o vinho em ânforas transfunde
E despeja nos odres a farinha,
290 O jovem se reúne aos pretendentes.
     Mais excogita Palas: disfarçada
No régio garfo, as ruas percorrendo,
Incitava um por um a achar-se prestes,
Ao lusco e fusco, ante um baixel veleiro
295 Ao de Frômio pedido egrégio filho,
Que o prometeu benévolo e previsto.
Obumbrava a cidade o Sol no ocaso:
Do porto à boca, a mesma Olhicerúlea,
Em nado posta a nau bem petrechada,
300 Congrega e exorta a pontual maruja.
Depois anda ao palácio; os pretendentes
Entre o vapor do vinho em sono enleia,
Turba-os, das mãos os copos lhes sacode:
Eles para dormir, da mesa erguidos,
305 Carregadas as pálpebras, se espargem.
Retoma a forma de Mentor a deusa,
Fora chama a Telêmaco: “Nos bancos
Te aguardam prontos os grevados Gregos;
Não demoremos a partida, vamos.”
310     Já caminha, e Telêmaco após ela.
Chegados ao baixel, na praia encontram
Comantes nautas, a quem fala o moço:
“Os víveres, amigos, transportemos
Que hei no aposento: exceto uma cativa,
315 Nem minha mãe conhece este segredo.”
Ei-los, colocam tudo na coberta:
Embarca o príncipe, adiante Palas,
Que a par o assenta à popa. Safam cabos
E abancam-se remeiros, bem que a deusa
320 Mande favônio Zéfiro, que aleia
E encrespa o turvo ressonante pego.
A vozes de Telêmaco, manobram:
De abeto o mastro levantado encaixam
Em sua base e o ligam de calabres,
325 Com táureas cordas brancas velas içam.
Venta em cheio; a fremir, purpúreas vagas
O buco açoutam, que as retalha e voa.
Finda a mareação, do mais estreme
Em pé crateras coroando, libam
330 Aos imortais, principalmente à prole
De Júpiter Minerva, que da noite
À nova aurora viajou com eles.



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