Do mestre, com carinho



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Afetividade - Do mestre, com carinho
Clayton Levy
Texto extraído do site: www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/julho2006/ju329pag12.html

Já dizia Paulo Freire que mal se imagina a importância de um simples gesto do professor na vida do aluno. Mestre por excelência, o educador sabia muito bem o que estava dizendo, embora para muita gente suas palavras estivessem mais para reflexão filosófica do que para argumentação científica. Por falta de uma investigação objetiva, a relação professor-aluno sempre esteve relegada ao campo da cognição. Mas este quadro está mudando. Pela primeira vez no Brasil, realizou-se uma pesquisa para examinar concretamente até que ponto a dimensão afetiva influi no processo da aprendizagem. Os resultados do trabalho revelam que a atuação do professor determina a qualidade da relação que o estudante manterá com o objeto de estudo.

As pesquisas realizadas pela Unicamp revelaram que o afeto, apesar de ser um aspecto subjetivo na relação professor-aluno, pode ser objeto de pesquisa. “Quando falamos em mediação estamos falando de ações muito concretas, presentes na sala de aula”, observa Sérgio Leite. O psicólogo refere-se a diferentes formas de manifestação da afetividade: as práticas pedagógicas, as posturas e os conteúdos verbais do professor. “São linguagens que podem ser interpretadas e portanto repercutem positiva ou negativamente no aluno. Quase sempre, aquilo que o estudante vivencia afetivamente de forma positiva facilita o desenvolvimento cognitivo”, afirma.

Sérgio Leite chama a atenção, porém, para a necessidade de a palavra “afeto” não ser mal interpretada. Avesso a teorias ingênuas, em geral pouco fundamentadas, ele faz questão de afirmar que professor afetuoso não é o mesmo que professor “bonzinho”. Do ponto de vista das práticas pedagógicas, a dimensão afetiva segundo ele, transparece na organização da aula, na metodologia adotada e no planejamento das atividades. “Isso tem um efeito enorme na auto-estima porque o aluno percebe que o professor está interessado no seu sucesso”. Já as aulas mal planejadas, afirma, levam o aluno ao fracasso e, por conseqüência, à baixa auto-estima.

Em relação às posturas e conteúdos verbais, destaca-se a linguagem adotada (verbal e não-verbal). “As pesquisas revelaram a importância de o professor dar feedback ao aluno”, diz Sérgio Leite. Outros dois aspectos também impressionam positivamente os estudantes, facilitando sua relação com o objeto de estudo. Um deles é a segurança do professor em relação ao tema abordado, ou seja, o conhecimento que ele demonstra sobre o conteúdo. “Isso gera confiança e o aluno se envolve na relação pedagógica sem medo. O outro fator é a relação que o professor mantém com o tema estudado. “Se o professor demonstrar paixão pelo seu objeto de ensino, acaba contagiando o aluno”.

Pontos intrigantes – As pesquisas envolveram alunos da pré-escola e do ensino fundamental e médio. “Ao problematizarem situações cotidianas em sala de aula e ao privilegiarem nas análises as experiências relatadas de alunos e professores, os textos apresentados levantam intrigantes pontos de discussão”, escreve a professora da Faculdade de Educação Ana Luiza Bustamante Smolka, que assina o prefácio do livro.

De fato, todo o trabalho está fundamentado nas experiências vivenciadas em sala de aula. Cristina Tassoni, por exemplo, realizou sua pesquisa em três classes de uma escola, envolvendo alunos de seis anos de idade. No estudo, identificou que a interpretação que os alunos fazem do comportamento dos professores em situações de ensino-aprendizagem é de natureza afetiva. A análise de dados se deu pelo levantamento de categorias, a partir dos comentários dos alunos feitos ao assistirem a cenas videogravadas de inúmeras interações ocorridas em sala de aula.

“As crianças comentavam sobre os comportamentos da professora, os quais eram permeados por sentimentos”, afirma a autora do artigo. “Falavam do que gostavam no comportamento dela e indicavam pistas sobre quando esses comportamentos influenciavam o desempenho e a aprendizagem”, completa. Os comentários dos alunos foram organizados em dois conjuntos de categorias: posturas e conteúdos verbais.”

No conjunto “posturas”, os aspectos mais valorizados foram as subcategorias “proximidade” (referindo-se a presença física do professor) e “receptividade” (referindo-se a uma postura em que o professor volta-se fisicamente aos alunos para atendê-los e ouvi-los). “Os relatos dos alunos sugerem que ambas foram interpretadas como uma forma de ensinar, ajudar, assim como tranqüilizar e criar vínculos permeados de sentimentos de cumplicidade”, destaca Cristina. No conjunto “conteúdos verbais”, o que mais se evidenciou foram as verbalizações dos professores que encorajavam os alunos a avançarem na execução das atividades bem como as que apontavam caminhos para possíveis soluções diante de dúvidas e dificuldades.

Dados semelhantes foram apresentados por Fabiana Aurora Colombo, que estudou uma classe de alfabetização. Os dados foram organizados em dois núcleos temáticos: verbais e não-verbais. Os resultados sugerem que as interações em sala de aula são constituídas por um conjunto complexo de variadas formas de atuação que se estabelecem entre as partes envolvidas. Uma maneira de agir está intimamente relacionada à atuação anterior e determina o comportamento seguinte. “O que se diz, como se diz, em que momento e por que, afeta profundamente as relações professor-aluno”, afirma Fabiana.

Os inesquecíveis – As pesquisas também demonstraram que alguns professores ficam para sempre na memória dos alunos. “Isso ocorre não apenas porque o professor é uma pessoa ‘simpática’, mas sobretudo porque sua aula é organizada e sua postura demonstra interesse pelo sucesso do aluno”, diz Daniela Cavani Falcin, que entrevistou estudantes do ensino médio. Esse interesse, segundo depoimento dos alunos, é evidenciado desde a forma como o professor organiza o espaço físico da sala de aula até a maneira como desperta o interesse para o tema estudado. “Quando o professor explicita aos alunos a relação entre os conteúdos escolares e o seu cotidiano, aumentam as chances de interação saudável com o objeto de conhecimento”, explica.

Segundo a mesma metodologia, Ariane Roberta Tagliaferro focalizou o trabalho de um professor de Língua Portuguesa que marcou várias gerações num pequeno município do interior de São Paulo. O “professor inesquecível” surge nos relatos como alguém “muito envolvido” com o objeto de estudo e que “dava espaço para o aluno dizer o que estava sentindo. Várias pessoas com aversão aos livros apaixonaram-se pelo hábito da leitura após as aulas do referido professor. “Fui pegando cada vez mais gosto pela leitura e, conforme lia, sentia o cheiro, imaginava cenas concretas, sorria, chorava, enfim, eu saia do mundo real e entrava no livro”, relata uma das pessoas entrevistadas.



Apesar de a pesquisa revelar dados concretos sobre a importância do aspecto emocional no processo cognitivo, o coordenador do trabalho diz que o objetivo não é oferecer subsídios para a formulação de uma nova corrente, do tipo “pedagogia do afeto”. “Esse tipo de pensamento em relação à afetividade acaba banalizando o conceito e dando a idéia de que isso é mágico”, pondera. Para Sérgio Leite, seria um grande perigo transformar a questão afetiva num projeto pedagógico isolado. “Não se trata de uma revolução, mas de reconhecer cientificamente a importância desse aspecto em qualquer processo de aprendizagem”.




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