Do delirio ao sinthoma: uma saída possível



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Do delírio ao sinthoma: uma saída possível.

 
Maria Lia Avelar da Fonte

 

Trabalho apresentado do Simpósio - O sintoma e a direção do tratamento, promovido por Intersecção Psicanalítica do Brasil, realizado em 03 e 04 de setembro de 2004.



Trabalho apresentado na XI Jornada Freud – lacaniana, realizada em Recife, 2004.

Trabalho publicado nos Anais da XI Jornada Freud – lacaniana. Recife, 2005.

Médica, psicanalista membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil.

Do delírio ao sinthoma: uma saída possivel

“O conteúdo poético é o conteúdo da própria vida. Ninguém pode dá-los a nós. Talvez possam obscurecê-lo, mas não estragá-lo. Perguntem a cada poema se ele contém uma vivência, e se tal vivência os incitou. Assim que o poeta completou sua tarefa, num nó significativamente atado e valorosamente resolvido, o mesmo vai se passar no espírito do espectador. A confusão irá perturbá-lo, a solução esclarecê-lo, mas, ele não vai para casa melhorado: se fosse suficientemente atento e asceta, iria admirar-se consigo mesmo por se achar novamente em sua moradia tão descuidado quanto obstinado, tão impetuoso quanto fraco, tão amoroso quanto sem amor, do mesmo modo que era antes. (“Goethe”).

 

 A idéia de escrever esse trabalho surge da estreita relação entre a psicanálise e a criação literária. A literatura sempre despertou o interesse da psicanálise. Freud nos primeiros estudos sobre a histeria visualizou a mesma estrutura encontrada na ficção. Segundo ele, o neurótico reedita a fábula e estrutura sua fantasia, tal qual um romance. Comparou o trabalho do artista ao trabalho do inconsciente, e colocou a produção artística no mesmo patamar dos sonhos, sintomas e atos falhos - passíveis de interpretação. Considerando os artistas os verdadeiros precussores da psicanálise: “gente comum no conhecimento da mente, que se nutre, em fontes ainda não acessíveis a nossa ciência, um valioso aliado, que costuma conhecer uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia não nos deixou sonhar.”


Lacan apesar de reconhecer o quanto a psicanálise aprende com o artista e com a obra literária, recusa a idéia de tomá-los como objeto de análise. Reconhece que, se um romance evoca compreensão e sentido, é impossível ser desvelado o que se encontra no cerne do processo da criação. Toda obra comporta um enigma e as tentativas de interpretá-la tornam-se infrutíferas e inadequadas.
Se a leitura freudiana da criação literária exalta o simbólico, e portanto o significante, a escrita na perspectiva lacaniana articula-se ao Real, ao gozo e à letra. Para formalizar essa posição Lacan recorre à lingüística, promovendo uma ruptura entre a escrita e o significante.

 

Enquanto o significante forja equívocos e faz semblante, a escrita, em sua dimensão de letra, instala-se num mais além do que pode significar, mergulha no não- sentido, no fora de sentido, e “rebaixa o limite da palavra para dar forma e vida ao que se coloca inacessível e fora do limite da palavra.”


Pulverizar o significante é o que pretende o escritor com a sua criação, “romper com o semblante que o atormenta, desfazer com palavras, o forjado pelas palavras”.
Na criação literária, o escritor corta as palavras e desse corte faz cair a letra. Letra que rompe com o sentido e com a comunicação, que engendra o vazio, o silêncio, e a partir do nada, pode criar um novo significante e passar a uma outra escritura.

Lucia Castello Branco em seu texto, “Escrita Feminina”, afirma: “...assim como as palavras, o texto está buscando algo da ordem do impossível: tocar a coisa e apresentá-la sem mediação simbólica aos olhos do leitor. E é em torno desse impossível que como linhas que contornam o vazio, como veredas que margeiam o precipício, como absurdos adornos do nada, que a escrita se constrói.... aproximando-se dos balbucios, dos sussurros e do grito”.


Freud, diante das dificuldades encontradas na compreensão dos processos e do tratamento de psicóticos, e partindo do princípio de que um texto pode ser analisado e que os psicóticos revelam o que os neuróticos mantêm em segredo, interessa-se pelo relato de um juiz delirante e elabora o Caso Schreber, baseado em “ Memórias de um doente de nervos” em que Daniel Paul Schreber relata as suas experiências incompreensíveis, seus delírios atormentadores e seus pavores persecutórios frente ao Outro avassalador.
O que parece um discurso grotesco e ininteligível, transforma-se sob a pena de Freud, num discurso interessante e revelador. Se “Memórias” mostra um homem submetido ao gozo do Outro absoluto, no “Caso Schreber” ele introduz um sujeito, com a singularidade de sua história, sua implicação no gozo e no delírio que constrói.
Schreber adoece pela primeira vez em 1884 quando ocupa um cargo de juiz e concorre às eleições do Reichtag. Nessa ocasião é diagnosticada uma hipocondria grave que cede após seis meses de tratamento. Adoece novamente nove anos depois, ao ser indicado para o cargo de juiz presidente da Corte Superior de Apelação. Sonha inicialmente que sua antiga doença havia voltado e entre o sono e a vigília pensa em como seria bom ser mulher e submeter-se ao ato da cópula. Em seguida, é invadido por vozes alucinadas e acredita ser vítima de uma conspiração organizada por seu médico Flechsig: “ser confiado a um homem a quem sua alma seria entregue e seu corpo transformado em corpo feminino para fins de abusos sexuais, e, ao final deixado largado e portanto abandonado à putrefação”.
Schreber vivencia uma experiência de aniquilamento, seu mundo desaba e ele sente-se morrer a cada instante - vê seu corpo despedaçado ou transformado em “cadáver leproso que carrega um cadáver leproso”.
A indicação para o cargo de juiz presidente confronta-o inevitavelmente com a ausência do significante Nome-do-Pai, que deveria responder ao sujeito no lugar do Outro. E por estar forcluído da cadeia simbólica, ele retorna no Real, na figura de um Outro mortífero, fonte de dilaceramento e angustia, que lança Schreber num gozo anárquico, caótico e sem lei.
A primeira fase do delírio, denominado “tempo sagrado” equivale à dissolução imaginária: quebra das identificações imaginárias e queda do sujeito do lugar de falo materno.

A falta do significante Nome-do-Pai instala um furo na cadeia simbólica, dispara o gatilho para uma série de remanejamentos significantes que afetam a relação significante- significado, até que, a metáfora delirante venha instalar-se como um ponto de basta.

Flechsig inscreve-se no delírio como outro semelhante imprimindo-lhe uma tonalidade homossexualizante, ou melhor transexual, desde que Schreber encontra-se fora do sexo, fora da significação fálica. Flechsig não personifica o Outro para Schreber, nem apresenta significantes suficientes para suprir o Nome-do-Pai - portanto incapaz de induzir-lhe uma metáfora delirante..
No caso de Schreber, o advento da metáfora delirante ocorre quando Deus torna-se visível e lhe vocifera: “Luder”, um significante que dá provas de sua existência no Real, e engendra efeitos de significação. Após essa alucinação, inicia-se o segundo tempo do delírio, marcado por revolução nos céus: Deus toma o poder, exige que se transforme em mulher para gozar de seu corpo, e, gerar uma nova raça de homens. Schreber em nome de um sacrifício em benefício da humanidade, aceita a eviração e a transformação em “Mulher de Deus”. A partir desse momento, observa-se um esvaziamento progressivo das falas, dos milagres divinos, da catástrofe subjetiva a qual havia sucumbido. Schreber retorna às suas atividades , ao convívio social, escreve seu livro e faz apelo a Suprema Corte para sair do asilo.
Freud na conferencia XXVI, “A teoria da libido e o narcisismo”, ressalta que o quadro clínico da demência precoce não se deve exclusivamente à retirada da libido dos objetos e o seu subseqüente investimento no ego. Os fenômenos mais notáveis ocorrem, segundo ele, pelo esforço da libido em reinvestir os objetos, com o objetivo de reintegra-los.
O delírio surge como uma tentativa de cura, no sentido de delimitar o gozo absoluto que invade o sujeito e restabelecer a sua relação com a realidade.
O advento da metáfora “Mulher de Deus” permite uma certa circunscrição do gozo apesar de não barrar completamente o Outro. Deixar-se ser fecundado por raios divinos e originar uma nova raça de homens, transforma o despótico gozo sem lei, no gozo legalizado da erotomania divina.
Freud diz que o delírio é como uma peça que se cola no lugar onde houve uma falha na relação do sujeito com o mundo estruturado pelo simbólico.
A metáfora delirante visa restaurar o esfacelamento imaginário, introduzindo uma ordem significante, que permite ao psicótico ter acesso a uma significação não fálica. Schreber, diante de uma realidade impossível de suportar, reconstrói um mundo em que ele possa viver. No entanto, essa reconstrução revela-se frágil e ao invocar o significante paterno, seu mundo desaba novamente - o delírio não tem força suficiente para decompor o campo do Outro absoluto.
Enquanto Schreber elabora a metáfora delirante para suprir o Nome-do-Pai forcluído do simbólico, James Joyce frente à carência paterna, inventa um modo de ser pai, ao prescindir de seu nome à condição dele servir-se. Utiliza a sua arte e faz uma suplência, introduzindo em sua estrutura o quarto nó enquanto sinthoma.

No seminário XXIII, Lê Sinthome, Lacan indaga sobre a loucura de Joyce.



Nas leituras realizadas sobre ele não encontramos uma afirmativa incisiva e categórica sobre a existência de uma estrutura psicótica, nem tampouco uma referência clara e decisiva a respeito do mecanismo de forclusão do Nome-do-Pai.
Joyce revela-se à psicanálise como um enigma: deixa dúvidas quanto a questão de sua estrutura, contraria a propriedade do nó borromeu conforme Lacan vinha elaborando e aspira, através de seus escritos, dar trabalho aos estudiosos por mais de trezentos anos.
Para ilustrar a forma como se faz abordar, Joyce, na comemoração de seus cinqüenta anos e dos dez anos da publicação de Ulisses, fornece ao pintor César Albin, indicações bem precisas de como gostaria de ser retratado: “um ponto de interrogação, com um velho chapéu preto de onde penderia teias de aranha, uma etiqueta com o número treze colado no vestuário uma estrela na ponta de seu nariz, sua roupa deveria ser remendada, no bolso, um manuscrito da canção “ Deixe-me tombar como um soldado” e para representar o ponto que finaliza a interrogação, um globo com o mapa da Irlanda e no mapa somente Dublin.”
Penso que, mais do que desvendar seus enigmas e definir sua estrutura, seja ela psicótica ou não, importa o que Joyce e sua extraordinária criação literária vêm ensinar à psicanálise. Ao apontar-lhe limites e fracassos forçam Lacan refazer e elaborar conceitos que afetam a teoria e a abordagem clínica da psicose.
O encontro desses dois titãs proporciona aos psicanalistas, uma aventura tão rara e tão mais fascinante, quanto mais a literatura impõe à psicanálise o reconhecimento de seus limites.
Lacan hesita, fica inseguro e até mesmo duvida de suas próprias formulações teóricas. O nó borromeu de três, estrutura trinária à qual fizera sucumbir toda a sua reflexão sobre a psicanálise, desaba e não funciona para Joyce. Para entender o seu nó, Lacan evoca a evidência da carência paterna e diz que John Joyce “não preenche as condições que fazem com que um pai tenha direito ao respeito, aquelas da père-version”, que sua causa seja uma mulher, que ele a tenha adquirido para nela fazer filhos, e que destes, quer ele o queira ou não, ele se encarregue dos cuidados paternos”.
Ele se ocupa mais em cantar, fazer política e beber e impõe ao filho James que o substitua nos cuidados paternos com os irmãos. Exigência maior é atribuir-lhe a missão de reparar a falha marcada pela morte do filho primogênito. Essa falha provoca uma ruptura na tradição familiar: “substituir a si mesmo de modo exato, mágico e miraculoso” por um primeiro e único filho varão. Para encobrir essa falha, o pai oferta a Joyce, o berço do primogênito morto, um amor intenso e a sua voz.
A sonoridade das palavras paterna povoa a infância de Joyce e cristaliza-se num sinthoma que impõe limite a um gozo estranho a seu corpo. De fato, a retórica paterna inunda-o com palavras parasitas impostas cada vez mais a ponto de atacá-las e destruí-las até elas perderem a sua identidade fonatória.

Enquanto a decomposição da linguagem prevalece nos últimos escritos joyceanos, nos primeiros predominam as epifanias: uma súbita manifestação espiritual, obtida a partir de um fragmento do discurso comum, ao serem retiradas de um contexto, frases, palavras ou objetos, isolando-os como S1. Quando esse fragmento começa a revelar algo mais ou menos inefável, Joyce confunde seus comentadores, recolocando-o em outro contexto.


A epifania rompe com o sentido, com a linguagem de representação e aproxima-se do Real, enlaçando-o ao inconsciente, sem a mediação do imaginário. Embora a epifania evoque algo semelhante aos processos elementares da psicose, não se confunde com eles pelo fato de estar regida por uma técnica literária.
Em “Retrato do artista quando jovem”, encontramos um episódio epifânico que chama a atenção de Lacan e serve como paradigma para a argumentação do gozo localizado na escrita: “depois de ser alvo de pancadas, Stephen toma o rumo de sua casa, rasgado, afogueado e ofegante....meio cego pelas lágrimas”. Certamente fora afetado pelos golpes, mas, em seguida pergunta-se porque não guardava nenhum rancor contra aqueles que o haviam espancado: “algum poder estava lhe despindo daquela súbita raiva tão facilmente quanto um fruto é despido de sua pele madura e macia”.
O despojamento imaginário e a repugnância pelo próprio corpo refletem-se em toda obra de Joyce que insiste numa escrita fora de sentido, e fora dos efeitos de significação. O óbvio, o evidente e o que faz semblante tornam-se para ele “o inferno dos infernos.” Por isso que Lacan afirma que o ego de Joyce, longe de investir uma imagem narcísica, uma imagem especular, equivale a sua própria identidade textual, tecida numa escritura e com efeito de suplência à sua estrutura psíquica.
A medida em que Joyce progressivamente desinveste o inconsciente, desabona o inconsciente, as epifanias se exilam dos seus escritos e caem do texto como um resto, tal como a pele madura e macia de um fruto. Joyce percebe que ao tentar retê-las em sua fugacidade, transforma-as inevitavelmente em letra morta.

Para buscar nas letras o que elas têm de mais vivo, Joyce subverte a sintaxe e imprime a linguagem uma organização extremamente complexa. Desintegra as palavras até o limite do ininteligível, injeta equívocos, trocadilhos, neologismos e “lapida o cristal da língua para fazer irradiar ressonâncias, homofonias e balbucios”. Joyce coisifica as palavras, como diz Beckett num comentário sobre Finnegans Wake: “esse livro não está escrito de forma alguma, nem é para ser lido, porque é para ser contemplado e ouvido, não é sobre alguma coisa, é a coisa em si, quando o sentido é dormir, as palavras adormecem, quando o sentido é dançar, as palavras dançam.”


A escrita de Joyce conforme a tese de Lacan tem função de sinthoma. Ele sabe fazer uso do inanalisável do sintoma, do incurável do gozo que escapa a toda e qualquer interpretação.

Ele goza da letra sem fazer o significado vibrar e eleva o seu enigma à potência de uma escritura. Joyce vai além do que se espera de um fim de análise e dessa forma aponta para o limite da ação analítica.


Ao publicar sua obra, Joyce faz um nome, torna-se filho da sua criação e faz-se poeta de seu próprio poema.
Se a escrita, como diz Lacan, indica a possibilidade de “ir diretamente ao melhor do que se espera de um fim de análise”, a clínica da psicose lança o analista diante de impasses e limites quanto ao direcionamento da cura. O que pensar portanto da posição do analista em relação à transferência, à interpretação e ao seu desejo na clínica da psicose? Onde situar o analista se o lugar de Sujeito-suposto-Saber revela-se na psicose como Outro mortífero?

O que se pretende no tratamento com psicóticos?


São questões que se impõem à prática do analista com psicóticos que sozinho em seu desejo oferta ao psicótico um lugar e acolhe a sua fala para “introduzir um sujeito” e delimitar um gozo desenfreado. Longe de curar sintomas e aplacar delírios, o analista insere um discurso a fim de favorecer a construção de uma realidade onde o psicótico possa viver fora de um referencial fálico. Resta ser um tanto poeta e tentar fazer com as letras algo criativo no tratamento da psicose.







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