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CAPITULO XV
Van Tuyl subiu. Assim que se viu apenas em companhia da linda mulher que o maravilhava, Tom teve um largo sorriso e dirigiu-se á poltrona on­de ela se repotreara. Debruçou-se sobre os bra­ços do fauteuil, e disse-lhe como que embriagado de alegria:

— E então? Não é esplendido? Até parece um sonho.

— Um sonho?

— Sim... Você aqui, em minha poltrona, dian­te de minha lareira, dentro de meu escritório... Isto é um sonho, Margarida, o melhor sonho de minha vida!

Ela olhou-o enternecida. Gostava daquele sor­riso de criança, sorriso dos que são puros e são bons. Por fim falou, devagar:

— Não, não... Isto não é um sonho; o sonho sou eu. Um pequenino sonho insignificante, que per­deu seu caminho e veio pousar em você, mas que se desfará quando seu coração acordar.

— Que se desfará?

— Sim, que se desfará... Amanhã, quando vo­cê acordar — puff! o sonho já se desfez...

— Não! Não pode ser...

Margarida ficou pensativa. Tom contemplava-a, embevecido, até que ela perguntou, muito meiga

— Você foi feliz, nestas ultimas semanas, não foi?

— Você sabe que fui — respondeu Tom fitando-a nos olhos.

— E eu também...

— Pois é por isso que você não deve ir amanhã, Margarida.

— É impossível.

— Não, fique até a primavera.

— Mas... desculpou-se ela — eu não lhe disse que tenho de cantar em Roma, no mês que vem? E que devo estar logo em Veneza, por causa da nova opera de Verdi, a Aida? Não lhe contei que tenho de alcan­çar Mapleson, em Londres? E que minha tourne á Rússia tem de começar em maio? E que, em S. Petersburgo, tenho de ensaiar uma opera chamada Boris Godunoff, que Moussorgsky me dedicou? E o pobre do Arrigo Boito, que me espera com Mephistopheles?

— Eu não quero saber quantas operas escolhe­ram para você... O que sei, Margarida, é que não sei dizer-lhe adeus!

O rosto de Margarida iluminou-se de súbito. Acudiu-lhe ao cérebro uma dessas idéias insensatas e belas, que somente a grande paixão produz.

— Então... venha comigo, Tom! Venha...

— Como? — perguntou ele, sem compreender bem.

— Vamos! Depressa! Compre a passagem an­tes que se esgotem! — confirmou Margarida, firmemente decidida.

— Passagem?

— Sim; e imediatamente! E amanhã, quan­do estivermos no navio, você, eu e Adelina, saudare­mos toda essa gente com os lenços, despedindo-nos desta terra. Oh, Dio mio, como vamos rir da estupefação destes estúpidos! Heim? Que tal? Vamos logo!

— É uma esplendida idéia, Margarida, mas... amanhã, ás onze horas, ha uma reunião do "Comitê de Caridade". E, ao meio-dia, o enterro de Patrício Crowley. Depois do almoço, a grande reunião anual do Conselho da paróquia...

Margarida observava a fleugma com que Tom so­brepunha os deveres de sua missão aos arroubos de seu amor. Magoada, cortou a explicação com uma frase de censura e de ironia:

— Desculpe-me... esqueci-me de que você é um santo!

Tom sorriu:

— E eu.. . não me esqueci de que você vai ser uma santa!

Margarida levantou-se e deu uns passos para dis­farçar o desapontamento. Afinal, decidiu-se:

— Bem, embarco amanhã!

Tom olhou-a triste e perguntou, muito calmo:

— Mas você volta no próximo ano?

— Ora, para que falar de coisas tão distantes?

— Na minha profissão deve-se refletir muito, mesmo nas coisas que estão distantes.

— Tom, você é um tolo, ouviu? Um grande ta­lo! Escute: eu já vivi e conheço a Vida. Faça o que lhe digo. Você deve lembrar-se sempre de que o ontem é o sonho que esquecemos. O amanhã a esperan­ça de uma grande alegria, uma alegria que nunca vem. E, entre eles, que estão ocultos entre as nuvens, as estrelas e as sombras, ha o Nada, o Nada real, isto é, esse momento fugitivo que se chama hoje.

— Mas... o hoje é tão curto! — objetou Tom com amargura.

Margarida sorriu para ele, com um ar experimen­tado, de quem se julga muito mais velho que o outro.

— Ah, você é ainda muito moço, meu amigo! Vinte e oito anos... Tempo virá em que ha de fi­car satisfeito por ter tido este minutinho tão satisfeito que você não pensará em repeti-lo.

Tom ficou fora de si.

— Margarida... eu...

E cresceu sobre ela. Margarida recuou, tomada de medo, implorando-lhe que se contivesse. Um órgão desafinado começou, nesse instante, a remoer os acordes de Bacio.

— Parem esse realejo! — gritou o religioso.

— Acho que ele apareceu no momento oportuno — sorriu Margarida supondo que Tom se acalmara.

Mas Tom continuava possesso. Escancarou a janela e olhou para a rua. Lá em baixo, em frente á casa, um pobre diabo dava á manivela dum realejo. Tom desabafou sua raiva sobre o misero musico ambulante:

— Vamos! Vá-se embora! — A valsa continuou, porém.

— Olá! você ai! Pare esse barulho! Pare imediatamente!

O instrumento calou-se. Mas Tom continuou, furioso:

— E tire esse macaco de meu portão!

Ouvindo falar em macaco, Margarida precipitou-se para a janela. Viu o símio que já pulara para o ombro do dono, ambos enxotados, e deteve-os, fa­zendo um gesto com a mão, ao mesmo tempo que gritava.

— Espere! Um minuto!

Levantou Adelina nas mãos e trouxe-a para a ja­nela. A macaquinha e o macaco começaram a olhar-se, guinchando, ao mesmo tempo que Margarida con­versava em italiano, muito á vontade, com o pobre to­cador de realejo. Minutos depois fechou a janela, e, rindo alto, satisfeita, desacatou o mau humor do re­ligioso:

— Que engraçado, Tom! O macaquinho do rea­lejo também se chama Thomaz. E é mais engraçadinho que você!...

Ainda zangado, ele repreendeu-a:

— Onde já se viu isso Margarida? Você conversa com esse homem, como se o conhecesse desde criança!

— E que tem isso? Nós dois somos músicos... ambos vendemos musica!

E voltou-lhe as costas, fingindo amuo. Então seus olhos divisaram sobre a escrivaninha um daguerreotipo26. Margarida aproximou-se, pôs-se a olhá-lo e perguntou curiosa:

— Quem é esta moça?

— Mamãe.

— Quem?


— Minha mãe, Margarida; minha mãezinha — res­pondeu Tom já inteiramente calmo e meigo.

— Naturalmente.

Margarida examinou atentamente o retrato. Sor­ria. Depois comentou:

— Ela era linda, Tom!

— Era, sim. Mas esse trabalho foi feito depois da morte dela. Eu me recordo muito bem. Tinha quinze anos, e foi o primeiro inverno que passei no colégio. Mamãe veio visitar-me poucos dias antes de morrer, e me trouxe este presente.

Tom apanhou de cima da escrivaninha um Novo Testamento. Olhou-o com afeição e prosseguiu, sor­rindo:

— Posso ver?

— Eu esperava uma torta de frutas... Imagi­ne minha tristeza quando mamãe me entregou este livro, que é, agora, o objeto que mais estimo!

Margarida, que continuava a examinar o retrato, observou:

— Ela tem o olhar parecido com o seu, Tom. Não sei, mas parece que este olhar, olhar de quem se sente intimamente feliz, exprime virtude. Talvez, não sei, talvez ela já se sentisse feliz adivinhando o que o filho viria a ser, um dia...

Tom sorriu com o madrigal e encaminhou-se pa­ra um móvel que estava num canto da sala. Enquanto abria uma gaveta e dela retirava uma caixinha, Mar­garida beijou o retrato, sorriu e murmurou, contrita:

— Perdão.

— Aqui está outra coisa que eu desejo mostrar-lhe — disse Tom abrindo a caixinha sobre a mesa. — Con­servo-a nesta caixinha, junto com os pequeninos objetos que pertenceram a mamãe.

Retirou da caixa um pacote embrulhado. Quando desfez o laço que prendia o papel, caiu sobre a mesa um cartãozinho. Margarida pôs-se a soletrar o manuscrito já apagado: "Primeiro sapato usado por meu filho Tom. Seis de junho de 1840".

O religioso, um pouco encabulado, explicou:

— Meu primeiro sapato. Eu devia ter uns três meses...

Não pôde continuar. Margarida retirou o sapatinho de suas mãos e beijou-o com os olhos mareja­dos de lagrimas.

— Que cuidado de mãe! Sua mãe era muito boa...

Enternecidos, procurando ocultar um ao outro a emoção que os dominava, Margarida voltou o rosto para o lado, enquanto Tom se pôs a desembrulhar ou­tro pequenino pacote.

— Olhe, Margarida; isto é que eu quero que vo­cê veja — disse levantando o braço para esticar uma correntinha.

— Um colar!

— Sim, o presente de casamento que meu pai es­colheu. Não é delicado? Olhe aqui — e mostrou-lhe uma medalha dependurada ao meio do fio de ouro, que sustinha pequeninas pérolas.

— É muito bonito — disse Margarida.

— E veja isto — acrescentou Tom, abrindo a me­dalha também de ouro.

E entregou a ela o colar com a medalha aberta. Dentro desta havia um retrato de criança. Margarida olhou atentamente o retrato, olhou para o rosto de Tom e desandou numa risada.

— Que é? — indagou Tom desconfiado.

— Como você era gordo!

Vendo que ele não compreendia o riso, ela in­chou as bochechas, abriu os braços em arco e con­tinuou:

— Assim, olhe, você era assim! — Riu de novo. — Você era o nenê mais engraçado que já vi!

— Ora, minha pajem não pensava do mesmo modo! — respondeu Tom pondo as mãos nos bolsos e virando-lhe as costas.

— Ah! não? — continuou Margarida sem dar im­portância ao amuo. E rindo — Vai ver que ela era mais gorda ainda!

— Está bem. Se eu soubesse, não lhe teria mos­trado. Eu não poderia adivinhar...

— Deixe-se de tolices. Não fique zangado.

— Eu não estou zangado — resmungou Tom ainda de costas.

— Então, vire-se para mim.

Ela segurou-o pelos ombros e fê-lo voltar-se. Depois, com o indicador em riste, sacudindo-o junto ao nariz de Tom, gracejou:

— Vou-me embora amanhã, lembre-se! Talvez nunca mais volte. E fique sabendo que acho você a criança mais bonitinha do mundo!

Em seguida fez uma careta cômica olhando o retratinho, e beijou-o dizendo:

— Até logo, meu gorduchinho, até logo...

— Obrigado — disse Tom.

— Nada tem a agradecer. O beijo foi para ele, e não para você!

Margarida devolveu o colar a Tom. Este a olhou com ar de surpresa:

— Você recusa? Não aceita um presente meu?

— Presente? — interrogou ela, admirada por sua vez. — Você quer dar-me o colar?

— Sim! E com a medalha... e o retrato...

— Mas, Tom, isso era de sua mãe!

— Eu sei. É por isso mesmo que tem valor e eu lhe dou.

Margarida ficou confusa. Aquele gesto, mais que outro qualquer, definia a natureza e a força do sentimento que ela despertara no religioso. Tentou recusar:

— Tom, eu não sei se sua mamãe gostaria...

— Claro que sim! — E, ingênuo, sorrindo, á guisa de desculpa: Eu sei... é... é muito justo que você não queira aceitar jóias de um homem, mas, neste caso...

A frase ficou incompleta. Tom a olha a sor­rir, pedindo perdão. Margarida decidiu-se, e, muito calma, começou a retirar o grande colar de pérolas, que lhe dava varias voltas no pescoço.

— Que está fazendo, Margarida?

— Arranjando lugar para meu novo colar.

Margarida depôs seu sautoir sobre a escrivani­nha, e recebeu das mãos de Tom o levíssimo fio de ouro, constelado, aqui e ali, de pequeninas pérolas, bem como o medalhão. Enquanto prendia sua nova jóia, exultava de satisfação.

Desapareciam os últimos clarões do dia. O aposento em penumbra recebia luz unicamente das chamas da lareira. Por isso Margarida demorou um pouco a acertar o fecho, e Tom, absorto em contemplá-la, não reparava na escuridão. Afinal, presa a corrente, ela ergueu a cabeça, e alegre como uma criança indagou:

— Está bem? Combina comigo?

Embevecido, Tom não percebeu a pergunta. Mar­garida o interrogou, intrigada:

— Tom, em que está você pensando?

Ele respondeu pausadamente, com voz emocio­nada:

— Eu estava pensando como mamãe havia de gostar de você...

— Sim?

— É verdade. Mamãe amava tudo que era belo, suave e bom. E você, Margarida, alem de tudo isso, tem sua voz, sua musica — e a musica era a paixão de mamãe.



Margarida bebia-lhe as palavras. Sentia que uma onda de ternura a percorria toda, banhando-lhe o co­ração como um balsamo. E, enlevada, ouvia-lhe as pa­lavras macias:

— Foi por isso que sempre conservei aquele pia­no, onde mamãe passava suas melhores horas. E man­dei colocá-lo aqui, na minha sala de estudos, para que, quando escrevo meus sermões e as idéias me fo­gem ou se baralham, olhando o velho piano eu regres­se á luminosidade de meus oito anos, e veja ali, sen­tada atrás das teclas mortas, a figura muito suave de mamãe, cantando, com seu fio de voz tão puro, as estrofes meigas de Annie Laurie...

— Annie Laurie?

— Sim, Margarida, era essa a canção predileta de mamãe. Ah, se você quisesse cantá-la, ao menos uma vez, antes dessa viagem!...

— Não — tornou Margarida vivamente, colocando as mãos nos ombros de Tom. — Eu não canto porque nunca ouvi essa canção. Mas, vamos fazer uma com­binação.

— Qual?


— Onde está essa musica? Neste livro?

— Não; no álbum grande, aqui em baixo. Pagina vinte e sete.

Margarida retirou o pesado álbum da estante e começou a folheá-lo. Tom olhava-a, surpreso.

— Bem... Agora acenda as luzes, e venha cá. Escute: eu vou "tirar" a musica e você canta.

— Eu? Mas eu não tenho voz! E, depois, cantar junto do "Rouxinol"...

— Ora! — atalhou Margarida. — Deixe-se de histo­rias! Venha cá.

Tom postou-se-lhe ao lado, em pé, enquanto Margarida corria os dedos ágeis experimentando o te­clado. Bateu um dó.

— Aqui? Está bom?

— Não... Acho muito alto.

— Está bem; então é aqui. Vamos começar.

— Espere um pouquinho — disse ele sorrindo. — Deixe-me limpar a garganta. Ha muito tempo que ela não canta...

Neste momento abriu-se a porta e apareceu o criado para avisar que as diaconisas haviam chegado.

— Livre-me delas! — respondeu Tom, quase irri­tado.

O criado ficou perplexo.

— Co... como, senhor?

— Já disse. Livre-me dessas beatas! — O criado retirou-se, estupefato.

Tom começou a cantar Annie Laurie, a meia voz. Quando a letra repetiu o estribilho, Margarida inter­veio, fazendo o dueto. A voz maravilhosa alcançou as luzes do gás, os moveis austeros, deu vida e beleza áquela atmosfera de recolhimento e de "censuras". Quando se calou, Tom não sabia o que dizer. Possuído da magia daquela voz, tinha uma sensação metafísica de calma, de doçura, de abstração. Foi Margarida quem quebrou o silencio estático de Tom e das coisas inertes, comentando, a sorrir:

— É uma canção de amor, Tom.

— É... é isso mesmo! De amor! — E, já des­perto, acrescentou — Mas eu nunca havia percebido.

— Percebido que?

— Que é uma canção de amor!

Ela sorriu, um daqueles sorrisos infantis que se escondem sob os desenganos do adulto, e perguntou, muito meiga, pondo as mãos na mão de Tom:

— Por que?

— Porque, até agora, eu não sabia o que é o amor.

— E... que é o amor, na sua opinião?

— O amor?... Uma sensação de mansuetude e de suavidade. .. É a descoberta da mulher que que­remos, para toda a vida, como companheira... Da mulher que nos apontará o caminho do dever, e que nos seguirá através dele, lado a lado, ombro a ombro, tornando-nos as coisas boas ainda melhores, trans­formando as más em quase boas... É a mulher que nos quererá sempre, como nós havemos de lhe querer... A que ha de chegar conosco á velhice, e, quando estivermos trôpegos, sentindo que falhamos, ainda será ela o consolo e a coragem, porque saberá dizer-nos, a sorrir: "Está cumprida nossa finalida­de, meu amigo; e, graças a Deus, nós a cumprimos da melhor maneira que pudemos".

Margarida, escondendo os olhos úmidos, desa­bafou:

— É isso mesmo. Tom. Mas nem todos terão esse amor. Ha criaturas que não merecem esse prêmio.

— Não compreendo.

— Ora — replicou a diva, dominando-se — você quer saber o que é o amor, para mim? É uma luazinha rá­pida que se acende na escuridão da vida, uma chamazinha que brilha e desaparece. É uma estrela que surge, e é tão bonita, tão bonita que os olhos da gente se enchem de lagrimas. Mas, assim que a gente acaba de enxugar os olhos — adeus, a estrela sumiu para sempre! É um instante muito doce que entre­laça dois braços amorosos, um instante que se de­ve esquecer, meu amigo, porque ele não se repete nunca mais!

Ao ouvir estas palavras, Tom obedeceu ao seu im­pulso e abraçou Margarida com os dois braços, um abraço apertado, natural, instintivo, de dois seres que sentem o apelo primitivo da espécie. Ao mesmo tem­po que a abraçava, Tom balbuciou, tremulo:

— Querida.

Margarida esforçou-se por se desvencilhar.

— Que é isso, Tom? Que é que você, está fa­zendo?

Ele apertou-a mais e sussurrou-lhe ao ouvido:

— Eu quero a você!

— Não!

— Sim! Eu quero a você mais que á vida. Pre­ciso confessar: eu gosto de você!



— Não... — repetia Margarida, sem energia.

— É verdade. Juro! E você também me quer, Margarida!

— É verdade, Tom. Eu... io ti amo! E, agora que estamos sozinhos, escute: não ha nada, não ha ninguém no mundo senão nós dois. Chegou a nossa hora, o instante que nunca mais voltará! Feche os olhos, Tom, e... abrace-me, beije-me.

Ela alçou-se nas pontas dos pés, passou os bra­ços atrás do pescoço de Tom e seus lábios se uniram.

Mas, nesse instante, ouviu-se o som monótono de um hino. Era o coro da paróquia, que iniciava seu ensaio numa sala vizinha. Os meninos cantavam A fundação de nossa igreja, salmo que deferiam exe­cutar na cerimônia dessa noite, no templo.

— Que é isso? — indagou Margarida, surpresa.

— É o coro que está ensaiando. — E arrebatado — Eu a amo Margarida. Quando nos casaremos?

Ela fitou-o, admirada.

— Não sei... Nunca pensei que você me quisesse... para casar.

— Quando, Margarida? Pelo amor de Deus, res­ponda-me: quando?

— Não sei! Pergunte-me mais tarde; não, não me pergunte mais, Tom. É impossível!

— Mas... por que, Margarida? Eu não compreendo...

— Por que tanta pressa? Você não pode esperar?

— Sim. Esperarei a vida toda, se você me der uma esperança!

Margarida afastou-se do apaixonado. E ro­gou-lhe :

— Por favor, não se aproxime de mim!

— É essa a esperança que você me dá?

— Não, Tom, não fale assim! — Eu cometi um grande erro.

— Erro?!

— Sim. Eu fiquei louca, durante um minuto. Não posso casar-me com você. Adeus.

E dirigiu-se para a porta. Tom a deteve pelo braço.

— Margarida, por que não? Por que não pode? Diga-me!

— Mas você não compreende, Tom, o que é tão claro, tão simples? O que todos os seus amigos, o que toda a gente sabe? Você não reparou, naquela noite da festa, de que modo os homens me olham?

Tom ficou petrificado. Somente diante destas palavras sua ingenuidade começou a se desfazer, e uma suspeita leve nasceu-lhe no cérebro.

— Pois esses homens todos, compreendeu? — e Margarida quase gritava — todos eles sabem que não posso casar-me com você!

Ela abrandou a voz, e terminou soluçando:

— E agora que você compreendeu, creio que devo retirar-me...

— Não querida, espere um pouco... Eu sei que você quer contar-me alguma coisa.

— Não. Não quero dizer nada; não me pergun­te nada!

— Eu não vou perguntar. Apenas vou sentar-me a seu lado, afagar sua mão e ouvi-la.

Ele segurou a mão de Margarida e pro seguiu, muito calmo, com a inflexão habitual:

— É esta a minha missão: amparar os que estão em desespero e precisam de um amigo; ouvir e absor­ver, aconselhar.

— Você é muito bom.

— Não; apenas sou indulgente. Ainda na ulti­ma semana, na terça-feira, veio procurar-me uma jovem aflita, que tinha seu casamento marcado para o dia seguinte. A pobrezinha, depois de hesitar, revelou-me, a chorar, toda sua desdita: gostava do ho­mem com que ia casar-se, um carpinteiro, mas não sa­bia o que fazer pois, até aquele dia, véspera do casa­mento, não tivera coragem de revelar ao noivo que fo­ra conspurcada, quando criança, por um bruto que a surpreendera. Estava atarantada, com medo de con­tar a verdade ao noivo, e com medo, ao mesmo tem­po, de casar-se sem o prevenir.

— E que foi que você aconselhou?

— Aconselhei-a a ser leal para com o noivo. Se o desejasse, poderia mandá-lo a mim, que eu revelaria a ele o infortúnio da pobrezinha. Mas era preferível, acentuei, que ela mesma o fizesse, sem temer conse­qüências, pois que não compreendem o valor da leal­dade somente as almas mal formadas.

— E então?

— Ela seguiu meu conselho, contou tudo ao noi­vo, e, como ele é um homem direito e gosta muito dela, eu os casei na quarta-feira, pela manhã; hoje eles constituem um dos casais mais felizes de Nova York.

— E você faria o mesmo que o carpinteiro?

— Eu?


— Sim. Se alguém que você amasse — não me olhe assim. Tom! — se alguém a quem você quisesse muito, mas muito, chegasse a você e lhe dissesse: "Eu não sou boa, e devo confessá-lo agora porque nós nos amamos, porque você é o primeiro homem que eu amo, você é o primeiro homem a quem digo isto"...

— Continue.

— Você perdoaria a essa mulher?

— Minha criança infeliz! — disse Tom, com ternu­ra, passando a mão sobre os cabelos de Margarida.

— Tom, você não me está compreendendo! — volveu ela, subitamente decidida. — Essa mulher sou eu, ouviu? Eu não sou boa, não presto!

— Calma, minha querida...calma!... Não se exaspere, não grite. Você é pura, corajosa e honesta. Você já me falou nisso e eu lhe perdoei de todo o co­ração.

— Mas eu não compreendo como isso seja pos­sível, Tom!

— Por que não, minha flor? Isso já faz muito tempo, não faz? Foi quando você era pobre e luta­va, sozinha, contra a vida e contra a fúria dos homens, não foi? Você não conhecia o mundo e precisava vi­ver, não é verdade?

— É... É verdade.

— Portanto... você não deve pensar mais nisso. Você deve lembrar-se, isto sim, de que depois você se reergueu sozinha, por seu esforço, por merecimento próprio, e pode dizer agora a todo o mundo: "Eu pe­quei, sim, mas quando era fraca e desamparada, e ago­ra vou ser uma mulher boa. Vou dedicar o resto de minha existência a um objetivo elevado. E não sossegarei enquanto não o realizar, enquanto não sentir orgulho de minha perseverança!" Ah, querida, estou tão alegre por ver que você pode dizer isso!

— E é por isso que você me perdoa?

— Por isso, como?

— Porque aconteceu ha muito tempo? — insinuou Margarida, intimidada.

Tom sentenciou:

— Todo pecador arrependido deve ser perdoa­do por todo o verdadeiro cristão.

— Eu sei, eu sei — suspirou Margarida, que se le­vantou pondo-se a andar de um lado para outro.

Percebendo-a agitada, Tom também deixou sua poltrona, e, como um rapazola, tonto de alegria, reteve Margarida pelas mãos falando-lhe ternamente:

— Muito bem. Agora que tudo está esclarecido entre nós, adivinhe o que vamos fazer.

— Não sei. Diga! — Tom sorriu.

— Vamos lá dentro comunicar a tia Elizabeth e ao sr. Van Tuyl que acabamos de ficar noivos.

— Não, Tom; por favor, agora não!

— Mas... por que?

— Espere um pouco... Amanhã, amanhã nós comunicaremos!

Ele olhou-a com ar de espanto.

— Margarida, você... Não disse que parte ama­nhã?

— Disse. E é por isso mesmo...

— Que capricho, meu bem! Desse modo, começo a pensar que você está arrependida! Vamos! — insistiu Tom, enlaçando-a pela cintura e arrastando-a para a porta.

— Tom, espere um pouco! — implorou Margarida, desvencilhando-se. — Nós estamos sendo muito precipi­tados. Espere. É preciso...

— Esperar? Mas... esperar o que? Por que?

— É muito repentino. E eles podem não gostar.

— Meu amor — disse Tom abraçando-a e afagando-lhe os cabelos — eu já sei o que você pensa... Não se preocupe com tia Elizabeth. Ela...

— Não é isso, Tom! Eu não estou preocupada com ela. Mas...

Margarida engoliu o resto da frase. Intrigado, Tom fixou-a com olhar interrogativo. Um silencio incomodo pairou entre os dois apaixonados. E foi Tom que reagiu contra a opressão, avançando vagamente desconfiado:

— Eu... eu creio que não ha de ser por causa do sr. Van Tuyl... Ele é o meu maior amigo, quase um pai... E foi também um grande amigo de papai e de mamãe... Ele pertence á família, pode-se dizer. Por­tanto, tenho obrigação de avisá-lo.

— Não. Eu comunicarei tudo ao sr. Van Tuyl, esta noite. Vou procurá-lo sozinha, e explicarei. Por favor, Tom, deixe que eu...

Tom ficou perplexo. Atarantado, nada compreendia.

— Mas... por que? Que é que ha, Margarida? — interrogou ele, angustiado, com a fronte vincada.

— Porque, se nós lhe falarmos agora, sei que e­le ficará aborrecido.

— Nada disso, minha querida. Se ele não gostar, paciência!

— E se ele começar a dizer por ai coisas des­agradáveis a meu respeito? Se ele fizer intrigas?

— Margarida — interveio Tom com inflexão de suplica e sorrindo — ele não é o que você está pensando! É um homem direito, um cavalheiro! E, depois... que é que ele sabe a seu respeito?

— Sim... eu sei... mas, uma noite, eu disse a ele, em Paris...

— Que foi que você disse?

— Oh, Tom! Eu não me lembro bem... mas... foram coisas que eu não devia... confissões...

— Ora, minha querida! Agora mesmo você aca­bou de me dizer que eu sou o único homem a quem vo­cê disse tudo, tudo, porque sou o único que você amou.. .

— Sim... mas eu esqueci... Já faz dois, ou três anos.

— Qual! Você esta cismando a toa! Ainda sabado, quando fui procurá-lo a respeito do novo ginásio, ele me falou francamente a seu respeito.

— Que foi que ele disse?

— Tentou dissuadir-me, mas não disse coisa al­guma contra você.

— É justo. E, depois, eu não contei tudo a ele...

— Já sei. Mesmo porque ele não tomaria sua de­fesa contra mim... se me prejudicasse.

— Sim... Não tomaria, mas... você não pode ter certeza!

— Por que não?

— Por que?

— Sim, deve haver um motivo para você afirmar isso!

— E você ignora o motivo?

— Ignoro. Qual é?

— Ora!... É porque, ha muito tempo, compreende?, ele gostou um pouco de mim... um pouqui­nho, creio.

Tom olhou-a estupefato. Receando perguntas, Margarida apressou-se em atenuar o que acabava de revelar.

— Mas... eu não tenho culpa disso, Tom! Você compreende que eu não posso impedir que...

— Quando foi isso?

— Não sei ao certo, Tom. Ha uns dois ou três anos. Fiz o possível para convencê-lo do absurdo, e afastá-lo de mim.

— E ele quis casar-se com você?

— Não, nada disso! Ele gostava de me mandar flores e...

— E ha quanto tempo terminaram essas gentile­zas dele?

— Oh, Tom! Eu não sei, não me lembro... — Tom recuou um pouco e encarou Margarida. Seu olhar penetravá-a, na ânsia de tudo desvendar. Afinal, com voz angustiada, ainda interrogou:

— Você acha que ele ainda gosta de você? — Margarida tentou escapar ao interrogatório. E usou de subterfúgio:

— Não falemos mais nisso, Tom! Vamos, abra­ce-me e dê-me o beijo de reconciliação.

Ele repeliu a insinuação. E prosseguiu:

— Margarida, pelo amor de Deus, diga-me: não houve nada de mais entre o sr. Van Tuyl e você?

— Não.

— Então jure!



Margarida cambaleou. Com a mão na fronte, olhos súplices, balbuciou o nome dele, implorando:

— Tom....

— Jure!

— Pois bem...Juro.



— Jure aqui!

Tom segurou a mão de Margarida e colocou-a sobre o Novo Testamento. Margarida abandonou a mão tremula.

— Agora, olhe nos meus olhos e repita minhas palavras.

Margarida aquiesceu, sucumbida, meneando a cabeça. E foi repetindo:

— Juro... que não houve nada de mal.. . entre mim e o sr. Van Tuyl... e...

Margarida calou-se, depois gritou:

— Oh, Madonna!...

— Jure! — insistiu Tom.

— Mas... eu já jurei — acudiu Margarida descerrando os olhos.

— Não. Jure direito!

Ela abandonou-se á vontade férrea do apaixo­nado.

— Pois bem, juro que não houve nada... nada de mal entre mim e o sr. Van Tuyl.

Comovido, Tom abraçou-a. E, ao mesmo tem­po que a beijava no rosto, nas mãos, nos cabelos, era ele quem suplicava agora:

— Meu amor, perdoe-me! Fui um bruto, duvi­dando de você. Perdoe-me. Eu... Que é isso, Mar­garida, que é isso?

Ela pendeu a cabeça para traz e desfaleceu nos braços dele. Tom, afobado, carregou-a nos braços, deitou-a num canapé e trouxe um copo com água pa­ra ela beber quando tornasse a si. Margarida, porém, assim que o delíquio se foi, dirigiu-se a Tom severa­mente:

— Vou-me embora! Você não me pode perdoar e nós não nos podemos casar assim.

— Perdão, Margarida! Perdôo tudo que você fez, e nós nos vamos casar.

— Não! Você me obrigou a jurar não sei o que! Eu não quero mais! Não me caso com você! Adeus.

Ele segurou-a pelos braços, tentando beijá-la. Margarida esquivou-se, ao mesmo tempo que Tom lhe dizia, quase em sussurro:

— Querida, o que nós vamos fazer agora é par­ticipar nosso noivado.

— Não!

Tom não lhe deu ouvidos e puxou o cordão da sineta. O criado apareceu:



— Deseja alguma coisa, senhor?

— Sim. Diga ao sr. Van Tuyl que venha até aqui. Explique que desejo dizer-lhe uma palavra.

Assim que a porta se fechou Margarida advertiu:

— Pois bem, eu me retiro.

Tom plantou-se diante da porta, disposto a impedi-la. Margarida notou a decisão dele, e, sem ener­gia, confiou os acontecimentos ao acaso; sentou-se ao piano e começou a tocar, baixinho, uma valsa de Chopin.

Van Tuyl surgiu. Vinha alegre, bem humorado, como sempre. Ao ver os dois no escritório, não pô­de conter seu espanto:

— Ainda aqui, sra. Cavallini? Nós julgávamos... Bem, que é que ha, amigo Tom?

Margarida imobilizou as mãos sobre o teclado. E Tom, esforçando-se por aparentar calma, respondeu aos arrancos:

— É... eu mandei chamá-lo, sr. Van Tuyl, por­que... porque desejo, isto é, desejamos que o senhor seja o primeiro a saber uma boa noticia.

— Boa noticia? De que se trata?

— É que... a sra. Cavallini acaba de comprometer-se comigo.

Van Tuyl encarou Tom, sem nada compreender. Olhou Margarida, mas encontrou apenas um olhar súplice, que implorava piedade, e nada esclarecia. Foi Tom, afinal, quem retomou a palavra para concluir:

— Nós estamos noivos!

O fidalgo aproximou-se do jovem, estendeu-lhe a mão, e, apertando a de Tom, disse pausadamente:

— Felicito-o, meu amigo.

Retendo na sua a mão do amigo, fitou a cantora e, com voz segura e firme, disse-lhe sem sorrir:

— E, quanto á sra. Cavallini, quero adiantar-lhe que me lisonjeia sua atitude, elegendo seu noivo um dos meus melhores amigos, um dos meus mais ilustres conterrâneos...

— Então... o senhor aprova? — perguntou Tom, muito alegre.

— Naturalmente, meu rapaz! Você sabe que sempre contará comigo para a realização do que jul­ga sua felicidade...

— Mas... — balbuciou Tom — eu não contava com sua aprovação imediata, neste caso. Ainda no sábado, aconselhou-me a afastar-me definitivamente da sra. Cavallini...

Van Tuyl embaraçou-se.

— Ora, meu amigo, mas isso foi no sábado!

— Está muito bem — redarguiu Tom. E acrescentou — Desejo agora fazer-lhe uma pergunta, na presença de Margarida, e espero de seu cavalheirismo a maior franqueza possível.

— De que se trata?

— Desejo saber, sob sua palavra, se o senhor conhece impedimentos ou se tem objeções a fazer con­tra o nosso enlace.

— Tom, eu não compreendo o que você quer in­sinuar.

— Nada insinuo, sr. Van Tuyl. Apenas lhe peço, em nome de Deus, que revele algum possível empeci­lho, e que o faça já, mesmo porque, se não o fizer, terá sua futura paz de consciência perturbada.

Van Tuyl emudeceu. Que fazer? Que decisão tomar? E, enquanto em seu cérebro se desencadeava essa tormenta moral, o fidalgo sustinha ao mesmo tem­po, ambos dardejando sobre ele, o olhar súplice de Margarida Cavallini e o olhar inquiridor de Tom Armstrong.

— Bem, Tom — gaguejou Van Tuyl — o que eu tinha a objetar, já lhe disse sábado. Não retiro uma pala­vra, um único argumento. E, por outro lado, nada te­nho a acrescentar. Reflita, raciocine e tome sua de­cisão...

— O senhor disse que não retira nada?

— Claro que não, meu caro. O que afirmei, fi-lo de plena consciência. Não aconselho o casamento. Mas... come já lhe disse, também não me compete condená-lo — respondeu Van Tuyl, contrafeito.

Tom voltou as costas e se pôs a dar passadas len­tas pelo escritório. Margarida fez menção de intervir na palestra, mas Van Tuyl a deteve com o olhar. Fi­nalmente o religioso pediu a Van Tuyl que se assentasse, ao que o fidalgo aquiesceu. Sentado, sucumbido pelo chumbo do drama moral que se desen­rolava em seu intimo, mesmo assim Van Tuyl conseguiu dissimular sua angustia, e fixou Tom com um olhar fleumático.

— Bem — disse Tom de repente — preciso justi­ficar-me antes de dizer o que devo. Sei que estou pro­cedendo de modo indelicado, mas... não me posso con­ter. O senhor tem sido o meu melhor amigo, de modo que espero que me compreenda... — E, dirigindo-se ríspido a Margarida — E você, você é a mulher que eu tenciono tornar minha esposa, e, portanto, estou certo de que você também me desculpará, se eu ultrapassar os limites...

— Naturalmente, Tom — atalhou Van Tuyl. — É ló­gico que nós compreendemos...

Tom fitou firmemente, tanto o amigo como a mu­lher, e prosseguiu, derrubando, uma a uma, de sua boca, estas palavras de pedra:

— Margarida foi muito franca comigo, e con­fessou-me o que julgou de seu dever. Por isso não igno­ro seu passado um tanto tortuoso, mas o perdôo como prêmio á sua lealdade e porque, confessor de almas, co­nheço, como ninguém, os antolhos que se deparam na vida a uma mulher jovem, fascinante, desamparada e premida pela miséria. Apagarei esse passado em mi­nha memória, de todo o coração, mas. ..

Tom interrompeu a frase. Tornou a fitar, demoradamente, tanto o amigo como a mulher. Encostou-se na escrivaninha e prosseguiu, impávido, de braços cru­zados:

— ...sob uma condição: antes que eu perdoe tu­do, para sempre, preciso estar certo de que o senhor não foi mais que um admirador de Margarida, admira­dor intimo, digamos, mas apenas admirador.

Van Tuyl lançou um olhar desesperado para a Ca­vallini. Tom explodiu:

— Pelo amor de Deus, não olhe agora para ela! Consulte sua consciência, e me responda se não houve nada entre Margarida e...

— Tom! — atalhou Van Tuyl.

Tom acalmou-se um pouco e acrescentou:

— Já interroguei Margarida a esse respeito, e ela negou. Acreditei, naturalmente, mas... o senhor compreende, o senhor me compreende... eu preciso ou­vir de sua boca... sim, o senhor compreende, é uma simples formalidade, um capricho, talvez... mas, pre­ciso que também confirme essa negativa.

Van Tuyl fitou Margarida. Depois Tom. E, aparentemente calmo, senhor de seus nervos, disse:

— Bem, ha um fato que jamais negarei: realmen­te nutri, e nutro, uma afeição muito profunda e muito sincera pela sra. Cavallini. Mas é um sentimento es­pontâneo e isolado, sem reciprocidade da parte dela, sentimento de que me orgulho e alimentarei enquanto viver. E, quanto ao resto de sua pergunta, Tom, quan­do você cair em si e estiver apto a ponderar, será o primeiro a concordar comigo em que não merece res­posta.

Van Tuyl levantou-se. E, resoluto, finalizou:

— E até logo.

Voltou-se para Margarida, fazendo uma curvatura:

— Até logo, senhora. Faço votos por sua felici­dade.

Solene, passos duros, o fidalgo encaminhou-se para a porta. Tom deteve-o pela mão, e, comovido, balbuciou:

— Não, senhor, não se retira antes de me descul­par. Eu estava louco, sr. Van Tuyl, completamente louco, e espero que me perdoe!

— Tom, não é a mim que você deve pedir per­dão; peça-o á sra. Cavallini.

Atônito, o jovem dirigiu-se a Margarida. Segurou a mão da cantora entre as suas, levou-a aos lábios e tartamudeou, emocionado:

— Margarida, eu não sabia o que estava fazendo. Você me perdoa, querida? Você me perdoa?

Margarida desvencilhou-se de Tom. Fez uma ca­reta de choro e gritou:

— Não, é demais! Eu não suporto mais.

— Como?! — interrogou Tom, estupefato,recuando.

— Eu o amo, Tom. Preciso falar a verdade.

— Deixem de criancices! — atalhou Van Tuyl, pre­vendo o perigo.

Margarida, porém, estava decidida. E, num ar­roubo, confessou:

— É tudo mentira, o que nós dissemos tudo mentira! Eu fui amante dele, compreende? Amante até a noite que conheci você!

— Sr. Van Tuyl! — apostrofou Tom, colérico.

— Tom, por favor, escute-me um instante — sugeriu o fidalgo.

— Escuta-lo, "seu" mentiroso?

Van Tuyl empalideceu. Mas, dominando-se, pediu:

— Pelo amor de Deus, Tom...

Não pôde terminar. Cego de ódio, Tom dirigiu-se para ele, tentando agredi-lo. Veloz como um raio, Margarida interpôs-se entre os dois amigos, apartando-os.

— Ele mentiu por mim! — gritou ela. E, com os braços distendidos entre os dois homens, confirmou so­luçando — Mentiu para me salvar!

Os braços de Tom caíram como dois frangalhos, ao longo do corpo. E, com a voz rouca e seca:

— Façam o favor de retirar-se. Re-ti-rem-se! — Tom apanhou do chão a pequena Bíblia, que caíra. Passos lentos, cabisbaixo, encaminhou-se para a escrivaninha, onde depôs o livro. Van Tuyl aproximou-se dele.

Nesse meio tempo Margarida vestiu o casaco e di­rigiu-se, vagarosamente, á lareira, em cujo topo depôs o colar, e o medalhão que pertenceram á mãe de Tom. Esqueceu de recolher seu colar de pérolas e a cruz de brilhantes. E, angustiada, lançou um derradeiro olhar para Tom, que afundara em sua poltrona, tapando o rosto com as mãos. Depois, retirou-se, passos lentos, dolorosos.

Ao chegar á porta, tateou o trinco, com a mão tre­mula, e, com a voz tremula também, balbuciou:

— Signor Tom... — Tom descobriu o rosto.

— ...eu agradeço o amor que o signor teve por mim...




CAPITULO XVI
A signora Vannucci, que era ao mesmo tempo dama de companhia, secretaria, camareira e guarda-costas da cantora, deixou o recinto da Academia, nes­sa noite, quando a opera ia em meio, e desabalou para o Hotel Brevoort. Nessa tarde, quando Margarida re­tornou ao hotel, mais pálida do que nunca, com os olhos injetados, e se atirou sobre a cama, vestida, so­luçando, a velha camareira percebera, em silencio, que algo de grave sucedera á sua patroa e protetora.

Mas, bem no intimo, a velha se rejubilou, pois adivinhara, de pronto, a causa daquele drama, e sa­bia que, de agora em diante, sua patroa voltaria a se consagrar exclusivamente á sua arte e não teria jamais a pureza artística de sua intimidade ameaçada pelo puritanismo do reverendo Thomaz Armstrong. E também porque, diga-se a verdade, entre a velha ar­tista aposentada e o intolerante religioso nascera, as­sim que se viram, uma grande e recíproca antipatia.

Van Tuyl, esse sim, sempre fora o preferido da Vannucci, e por isso doía-lhe o coração presenciar a frieza com que Margarida começara a tratar o impecável gentleman, desde o dia em que conhecera Tom. Para vingar-se, pois não se atrevia a atacar Tom em conversa com a patroa, a velha amaldiçoava-o pelas costas, praguejando na meia dúzia de idiomas que se atropelavam na ponta de sua língua. E Adelina, com a perversidade da sua espécie, parecia regozijar-se com essas pragas, pois que a velha as pronunciava fazendo cócegas na macaquinha, que, como prova de aliança, soltava guinchos toda vez que Tom passava perto de seu bercinho.

Mas a macaquinha detestava igualmente Van Tuyl, e se punha furiosa sempre que ele a cutucava com o dedo, o que fazia por habito, incapaz de desco­brir outra "gracinha" para acariciar o animal. Por isso sua antipatia pelo reverendo, a velha e a macaquinha entendiam-se as mil maravilhas.

Certa tarde, por sugestão de Margarida, Tom presenteou a sra. Vannucci com um buquê de rosas. Furiosa com o presente, a velha atirou as flores a um canto do apartamento. Margarida, que ignorava a procedência das rosas, assim que as viu, belas e des­prezadas, procurou a Vannucci a fim de perguntar-lhe por que motivo as flores estavam jogadas ali. Mas a velha havia saído, e ocorreu, então, a Margarida a idéia de fazer uma gentileza á rabugenta srta. Armstrong. E, sem mais refletir, chamou um mensageiro e despachou-o com as flores para o endereço de tia Elizabeth.

A noitinha, ao regressar da rua, a sra. Vannucci notou que as rosas haviam sumido. "Onde teriam ido parar?" conjeturava a velha, pois sabia que os empre­gados do hotel não limpavam os aposentos áquela ho­ra. Uma rápida olhadela bastou para descobrir o mistério. Margarida estava largada sobre uma poltrona, na pequena saleta de espera do apartamento, com os olhos visivelmente vermelhos de tanto chorar. A brin­cadeira saira melhor do que sua maldade imaginara. A velha esgueirou-se sem ruído, trancou-se em seu quarto, e, a sós na alcova, reconstituindo na imaginação o que havia sucedido, babava-se de gozo, gozo religioso e racial, monologando alto, enquanto batia o punho fechado na palma da mão:

— Benissimo! Allora qaesto inglese, questo fal­so prefe non tornerá mais piu!

Quando o pano de boca se levantou para dar inicio ao ato final da opera, a Vannucci, que não ou­vira até aquele momento uma palavra amigável de sua patroa, fugiu do teatro, confiando Margarida á própria camareira da empresa. A velha estava teme­rosa, pois conhecia o gênio impulsivo da Cavallini. Uma vez no apartamento do Brevoort apanhou uma caçarola, e enquanto preparava no fogo da lareira um molho de spaghetti bem picante, de acordo com o gosto da patroa, á medida que remexia o tempero revolvia a cachola á procura das explicações que teria de dar.

A mesa já estava arranjada para a ceia, de sorte que Adolpho, o obeso copeiro particular de Margarida Cavallini, imponente e posem, contemplava a tarefa da Vannucci, trocando impressões com a velha, á espera do momento solene em que deveria levar a travessa para a mesa e servir a patroa. Era esse seu serviço habitual, que ela desempenhava como um rito religio­so, fazendo mesuras de "diplomata em disponibilida­de". Por isso, pouco se lhe dava o desarranjo dos cômodos do apartamento, atulhados de malas aber­tas, cadeiras atopetadas de vestidos, peles, chapéus, — essas mil miudezas, enfim, que completam o guarda-roupa feminino. Depois de tudo fechado nas malas — ai, sim, restava-lhe ainda tarefa importantíssima, por causa de sua gordura: etiquetar e despachar as malas, adquirir passagens, contratar carruagens, em re­sumo: pôr sua patroa, a velha Vannucci, Adelina e to­dos os pertences a bordo, rumo ao novo porto onde de­veriam descer.

— A senhora vem com muito fome esta noite — disse Adolpho.

— Si, si... Ela não comeu nada, antes de ir para o teatro. Só um copinho di vinho e uma taça de café— respondeu a velha.

— Ach! Nenhum grande artista come antes de cantar! Era assim que eu fazia quando era pri­meiro tenor da Opera de Steichenblatter. Você não deve esquecer...

A Vannucci interrompeu a prosa fiada:

— Si... Que você esqueceu o queijo!

— Du lieber Gott! — Exclamou o ex-tenor, indo bus­car o parmezão.

Quando voltou, o rosto da velha resplandecia num sorriso. Esquecida do aperto em que se metera, ela, por seu turno, começou a recordar seus triunfos no belcanío:

— Ah! quando io era prima dona e fiz o meu debut em Bolonha, com a Linda de Chamonix... Ah, Adolpho, que espetacolo! S. Exceilenza, il Duca di Mo-dena, se puz em pé, e batia palmas e gritava: "Bravo, Vannucci! Bravíssimo!"

— O molho está fervendo — observou Adolpho.

E, enquanto a velha remexia a caçarola, o tenor retomou a palavra, para sentenciar:

— Ach! Os bons dias já se passaram!. . .

— A opera! Que é a opera, hoje? — E a velha con­cluiu, irretorquível — Una porcheria, eccol una vera porcheria!

Adolpho sacudia a cabeça, confirmando. E, com menosprezo:

— Estes Fausto, Mignon.. .

— Porcheria! — repetiu a velha — tutti una porcheria! — Mas... La Favorita! — insinuou Adolpho, revi­rando os olhos.

E, fazendo-se galanteador, levou aos lábios uma das mãos da velha que, envaidecida, afirmou:

— Belissima!

— Wunderschon!

Prosseguiram nessa palestra, cada um relembran­do suas glorias pessoais, e desfazendo, de onde em on­de, o valor dos grandes nomes, seus contemporâneos. Mario e Guiglini, os dois gigantes da voz, mereceram de Adolpho somente um "bah!" desdenhoso, enquanto a Vannucci classificara a Grisi e a Adelina Patti de "gri­los". Interrompeu-os, finalmente, um toque na porta. Era um mensageiro portador de um cartão.

A Vannucci, com a maior sem-cerimônia, despachado o rapazote, abriu o envelope. Leu de um fôlego o que estava escrito, e, radiante, voltou-se para Adolpho:

— É de my lord. Ele voltou. Santi benedetti! — E, resoluta: — Presto! Un posto per il signore! E una bottiglia di champagne! (Presto! Um lugar para as senhoras! E uma garrafa de champagne!)

Minutos depois, pronta a mesa, chegou Van Tuyl. Vinha impecável, trajes sóbrios, de verdadeiro elegan­te. Um autentico aristocrata. Logo á entrada, corres­pondeu ás saudações da velha, fazendo-lhe um galan­teio que a pôs num mar de rosas:

— Salve, Sra. Vannucci. Ha bastante tempo que não a vejo. E, sabe?, acho-a mais jovem do que nunca...

— Oh, my lord! O signor sempre brincando... Mas não faz mal. Io estou molto contente de tornar a ver o signor.

— Obrigado — respondeu o fidalgo. E olhando um casal de periquitos, que cochilavam em sua gaiola, in­dagou — Como vai a mênagerie? — Estalou o dedo mé­dio no polegar, despertou os pássaros, e caçoou — Como tem passado, Madame? Ainda se lembra de mim?

— Eles estão loucos de saudade de my lord!... — Acercou-se da gaiolinha— Eh! Madame: o sr. Van Tuyl quer beijar a sua mão!

— E a Adelina, como vai ela? — perguntou Van Tuyl aproximando-se do bercinho onde a macaquinha dormia.

Ouvindo a voz do fidalgo, Adelina começou a sal­tar em sua cama, soltando guinchos furiosos. A velha encabulou com a hostilidade do bichinho, e procurou desculpá-lo atribuindo sua agitação ao banquete que fizera pouco antes.

— Seis azeitonas, geléia de morangos, um cacho de passas, não foi?

— Oh, my lord! O signor se ricorda de tudo! Mas ela tomou também uma xícara de chocolate.

Van Tuyl, só então, reparou na caçarola tampa­da. E perguntou:

— Que é que estava preparando? Ô seu famoso tempero?

A velha sorriu e, satisfeita com o elogio, esclareceu:

— Si, signor Van Tuyl. A signora não comeu na­da, hoje. Eu vim do teatro mais cedo, e preparei esta surpresa para ela.

— E... que tal a representação?

— Un trionjo enorme! Parecia a noite que eu cantei a Lucrezia Borgia, e 5. Excellenza, il Duca di Modena...

Van Tuyl sorriu. Conhecia de cor aquele memo­rável entusiasmo do titular... Por isso, cortou a frase, consultando seu relógio:

— Sim; eu me recordo... Mas... ela está demo­rando!

— Ela ia dizer adio ao signor Strakosch e aos outros artistas, e receber uns presentes — explicou a velha.

— Presentes?

— Si! Una... porte-plume, com grandes rubis, um bracelete de pérolas e uma coroa...

Nesse momento ouviram-se sons longínquos de uma banda de musica. E, com eles, o alarido confuso de vozes humanas. Van Tuyl levantou-se e abriu a janela, que dava para a rua. A Vannucci, que tam­bém correra á janela, levantou as mãos num gesto de prece, descruzou-as, e, tomada de uma alegria de ado­lescente, começou a bater palmas, exclamando em ita­liano:

— Santi benissimi! Santi benissimi!

Era uma charanga que descia a rua Quarenta. Grande multidão, empunhando tochas, gritando, soltan­do foguetes, rodeava a bandazinha que guinchava pra­tos, bumbos, trombones. Van Tuyl, contagiado pelo entusiasmo, falou em gíria á velha:

— Puxa! Que baita manifestação!. . .

A Vannucci, que dependurava o corpanzil na janela, nem lhe deu ouvidos, e só comentava, numa ânsia de contar a multidão:

— Mais gente! Mais gente!

A multidão estacionou á porta do Brevoort. Quase todas as janelas do hotel e as residências da Quinta Avenida estavam apinhadas de gente. E foi por entre um alarido ensurdecedor de vivas, de rojões que espocavam e das notas estridentes da charanga, que Marga­rida Cavallini desceu da carruagem, puxada por admi­radores, á porta do hotel onde viveria sua derradeira noite de Nova York.

Era o triunfo na mais alta expressão da palavra. Moços e velhos, comerciantes e universitários, homens do povo e homens da sociedade, ali estavam, irmana­dos pela admiração, rendendo a mais eloqüente e rui­dosa homenagem á ex-cantorazinha de Veneza, o glo­rioso "Rouxinol de Ouro".

Entusiasmado, dominado por um lírico regiona­lismo até então desconhecido, Van Tuyl exclamou:

— Eu me orgulho de você, Nova York! Você aplaude uma das majores artistas do mundo, com o entusiasmo dos jovens. Deus a abençoe, minha terra, porque você sabe demonstrar seus sentimentos, com a pureza e a exaltação dos que são bons. E eu agradeço á Providencia por me haver feito nascer aqui, nesta Nova York irmã de todas as raças e de todos os países, nesta Nova York que será amanhã a maior me­trópole e o maior porto de todo o mundo.

O alemão arregalou os olhos, surpreso da "tira­da" patriótica do fidalgo. E ficou a olhá-lo estupefato, ajudando a Vannucci a chegar a mesa e as cadeiras junto ao fogo, quando Van Tuyl concluiu com uma ento­nação triste na voz:

— Agradeço por me haver feito nascer nesta No­va York sensível e artística, e não na Nova York de amanhã, utilitária, egoística e orgulhosa!

Depois de haver aproximado a mesa da lareira, a Vannucci, afobadíssima, dirigiu-se ao quarto de Mar­garida, de onde voltou com um peignoir de seda branca dependurado no braço e um par de chinelas finíssimas, forradas de arminho. Colocou as chinelas junto ao fogo, para aquecê-las, e, enquanto depunha a peça de vestuário sobre o espaldar de uma cadeira, também perto do fogo, indagou do fidalgo, desejosa de ser-lhe agradável:

— Si ricorda, my lord, deste peignoir, em "Mille-fleurs"? Ah! que bons tempos, my lord, que bons tempos!

Ouviu-se uma pancada na porta. Como ninguém atendesse, abriram-na de repente, e por ela penetrou, importante, imponente, o balofo Adolpho carregando um balde com gelo e uma garrafa de champagne. Se­guia o solene servidor uma chusma de rapazolas, que traziam cestos, corbeilles, braçadas de flores, quase to­das entrelaçadas com fitas de seda, reproduzindo as co­res das bandeiras italiana e norte-americana.

Um dos rapazotes, assim que colocou a corbeile no local que a velha indicou, arrancou o boné da cabeça, e, coçando-a, pôs-se a rir para Van Tuyl, para quem observou no seu linguajar pitoresco:

— Puxa! Até parece que nós ganhamos uma guerra!

O fidalgo sorriu. Enfiou a mão na algibeira á pro­cura de níqueis para a gorjeta. Percebendo-lhe o ges­to, outro mensageiro elogiou:

— Parece até que o Príncipe de Galles voltou!

Enquanto Van Tuyl distribuía propinas, Adolpho, Vannucci e a garotada falavam todos ao mesmo tempo. O gordo alemão proferia "achs!" e "bahs!" de se­gundo em segundo; os garotos comentavam, entre si, o vulto das gorjetas, e a Vannucci, atatantada, ia e vi­nha, do quarto para a saleta de espera, da saleta para a sala de refeições, nervosa como um ministro amea­çado por um parlamento intempestivo... E a própria Adelina, que despertara com o vozerio e aquele ines­perado corre-corre, saltava em seu bercinho, rabo em pé, a soltar guinchos.

Vinham vozes do corredor. Entre elas distinguiu-se, nítida, a fala anazalada do gerente do hotel, que vi­nha junto de Margarida, e que lhe dizia no seu francês impecável :

— Ah, madame, nous sommes infiniment heureux de prendre part dans le triomphe d'une artiste si céle­bre — et, si je ouse dire, une cliente si esquise27.

— Merci, trisiur, merci, mille fois! — respondia Mar­garida, enervada, no momento em que entrava nos seus aposentos, segurando a cauda de sua toilette. Vendo a Vannucci, a diva gritou-lhe exasperada: — Per amor di Dio! mettili fuori!... Non posso piu...28

O regozijo, lá fora, tornou-se mais forte, quase fu­rioso. Apesar de fechadas as janelas, o barulho da multidão chegava até ali. Margarida pôs as mãos na cabeça, num gesto de dor, fazendo carranca. Depois ficou quieta enquanto a Vannucci enxotava os mensageiros, e, de pé, prestou atenção ao alarido da rua.

Margarida Cavallini parecia desanimada e tinha um ar de cansaço. Alem disso, o diadema de brilhan­tes que trazia á cabeça e que lhe fora entregue, nessa noite, pelas esposas dos empresários de Nova York, envelhecia-a bastante. Ostentava uma deslumbrante toilette de noite e segurava numa das mãos uma coroa de louro enlaçada por uma fita dourada. Com a outra mão apertava contra o peito uma esplendida braçada de rosas brancas. Estava pálida, muito pálida, mas era visível que a preocupava e talvez envaidecesse, no fundo, a manifestação que continuava á porta do hotel.

Van Tuyl aproximou-se dela, retirou a coroa e as flores de suas mãos, e lhe disse, com voz meiga e amiga:

— Senhora, o povo quer aclamá-la. Não se re­tirará antes de ouvir sua voz. Diga-lhe umas palavras de despedida.

— Eu vous prie, madame! — acudiu o gerente, mesureiro. — Pelo bem do Hotel!

Margarida zangou-se com a subserviência interesseira do francês. E respondeu-lhe bem no rosto, irri­tada:

— Non! Je refuse, entendez-vous? E refuse absolumentt. (Não! Eu me recuso, você ouve? E me recuso absolumente)

— É o seu publico que deseja vê-la — interveio Van Tuyl, com voz terna e firme.

E, sem acrescentar palavra, passou-lhe o braço pelo ombro, levando-a para a janela.

— Não, eu não falo! — gritou Margarida.

O fidalgo fitou-a nos olhos e disse, a sorrir:

— Fale. É preciso.

E abriu, de par em par, as folhas da porta-janela.

Margarida obedeceu sem protesto. Sucumbida, in­clinou-se na grade da sacada e contemplou a turba festiva. O espetáculo comoveu-a. Num ápice seus olhos brilharam, readquiriram energia e vigor, toma­dos do mesmo entusiasmo que crepitava lá em bai­xo, a seus pés, em homenagem á sua voz. A um gesto seu, tudo emudeceu. A Quinta Avenida intei­ra, em todos os pontos que sua voz pudesse alcançar, ficou suspensa, estática, á espera da voz do "Rou­xinol".

— Mie signore, cavalheiros, povo querido que tem sido tão bom para mim — começou Margarida. —Eu não conheço seus nomes, nem seus rostos — e por isso não posso ir ás suas casas, agradecer esta mani­festação. Apenas posso vê-los indistintamente e pe­dir aos meus santos que minha voz possa dizer a to­dos... que eu os amo, que eu amo a todos. O publi­co é tudo que tenho para amar neste mundo imenso. Oxalá me compreendam os que me ouvem — todos os que são felizes com suas esposas, seus maridos, seus filhinhos.

Margarida fez uma pausa. Estava nervosa, visi­velmente emocionada. Olhou o oceano de rostos vol­tados para cima, para ela, e sorriu — um sorriso lar­go, de gratidão e de amizade. E prosseguiu, como quem fala a amigos, sem pompas de oração:

— Pois bem... Eu nem sei como vou falar que quero. "Eu desejo fazer a todos um ultimo pedido. — A multidão imóvel parecia ter emudecido em um silencio religioso. Margarida continuou —Amanhã... amanhã, parto para muito lon­ge! Talvez eu torne a cantar para este publico, e tal­vez não. Quem sabe? Mas saibam que da felicidade de todos, eu tirei um pouco de felicidade para mim. Que, em qualquer lugar onde eu esteja, quando me sentir triste, — porque não tenho ninguém, no fundo de minha memória, meus amigos — eu irei buscar mi­nha felicidade na lembrança desta manifestação.

O oceano humano agitou-se. Vozes isoladas tenta­ram comentários, mas foram abafadas pelo "pst" enér­gico dos demais. Margarida sorriu de novo, inclinou-se mais sobre a sacada, e concluiu:

— Na minha terra temos um pequeno ditado, um pequeno ditado que dizemos aos outros, ao nos despedirmos: "Che le rose floriscano nei vostri cuori fin ch'io ritorno a coglierle"!. Vou traduzir e despe­dir-me: "Que as rosas floresçam em vossos corações até que eu volte para colhe-las!"

Van Tuyl ajudou-a a descer do degrau do balcãozinho. Lá fora a charanga recomeçou, e a multidão, dispersando-se, dava vivas á Cavallini. O gerente do hotel, que não se retirara apesar do pedido da Vannuc­ci, não se conteve e segurou a mão de Margarida, beijando a repetidas vezes e exclamando:

— Merveilleux, Madame! Merci, merci. Et... à demain!

Assim que a porta se fechou, Margarida tornou a fazer um rosto de choro, e levou as mãos á cabeça queixando-se de dores. Em seguida, retirou o diadema que lhe apertava a fronte, e, pensativa, mergulhada em cismas, começou a retirar, um a um, devagar, desanimadamente, o colar de brilhantes, os braceletes e pulseiras, os brincos e os anéis, colocando-os sobre a mesa. E, enquanto a Vannucci guardava as jóias com todo o cuidado, colocando-as no escrínio, Mar­garida sentou-se num banquinho duro, um tamborete marroquino, em frente á lareira. Depois, apoiou os cotovelos nos joelhos, passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos, e suspirou:

— O' Dio! Dic! Che cosa...

Van Tuyl, que estava encostado ao piano, acendeu um cigarro, aproximou-se e, tocando-lhe a mão, com um sorriso amigo, pôs o cigarro entre os de­dos dela, ao mesmo tempo que lhe interrompia a la­múria. Comovida com a delicadeza, Margarida sor­riu para Van Tuyl. Era o ultimo sorriso de Marga­rida Cavallini, na noite de 30 de dezembro de 1868.


CAPITULO XVII
— Ele não me disse uma palavra sequer — nessuna!

O Mecenas, afundado numa poltrona, mergulhou os olhos nas pupilas de Margarida. Sentiu o desalen­to, a angustia, a derrocada tremenda que elas tradu­ziam. E, em silencio, ouviu Margarida concluir sua lamentação:

— Eu disse: "Signor Tom, eu agradeço o amor que o signor teve por mim"... Assim mesmo! Então esperei, mas ele não respondeu, e... eu vim embora.

Atônito, o próprio Van Tuyl, que também fora rudemente insultado por Tom, não sabia o que dizer. Toda sua experiência e toda sua cultura de nada lhe va­liam naquela emergência singular. Por isso, á guisa de resposta á pergunta e á reticência silenciosa que ficou boiando entre ambos, o fidalgo sugeriu, quase em suplica:

— Ora, minha criança, não fale mais sobre esse assunto!

Ela não prestou atenção. E continuou, como se monologasse em voz alta:

— Quanto tempo levará para ele esquecer? Poverino! Ele chorou como um menino! É a primei­ra vez que viu a maldade do mundo...

Margarida levantou-se do tamborete. Deu uns passos, a esmo, pelo aposento. Viu um baralho sobre uma mesinha. Apanhou-o, misturou bem as cartas e começou a dispô-las sobre o móvel, com a habilidade e a fé de uma cartomante. Atenta aos caprichos do azar, comentava as profecias das cartas.

— Três paus. Isto significa viagens. Si, uma viagem muito longa...

— Está claro — interveio Van Tuyl, satisfeito com o pretexto para distraí-la da obsessão. Você já está com as malas quase prontas para essa viagem...

— É... Quer dizer que eu parto mesmo.

— E depois, que é que se sucederá? — indagou Van Tuyl fingindo acreditar nas cartas.

Margarida continuou a espalhar as cartas em montinhos. Refletiu e declarou:

— Aqui fala em dinheiro e em sucesso. Grande fama — como se diz. — Mas eu devo viajar como uma ci­gana...

— É o ideal de muita gente: viajar e ter for­tuna.

— Ah! che m 'importa? Fama... fortuna...

Continuou a deitar as cartas, enquanto falava. De repente, levantando a voz:

— Veja! Aquele moço louro, veja como ele es­tá longe de mim! — Baixou a voz e, triste — É ele, ele...

— Naturalmente que está longe...

Margarida olhou-o. Van Tuyl arriscou um troca­dilho, para observar o resultado:

— Você é a rainha de ouros que não dá confian­ça a todos estes "paus"!

Ela não prestou atenção e continuou, dispondo as cartas:

— Olhe, você está aqui. E os outros também. É a minha sorte magnífica, minha sorte... — ah, Santa Madonna! — eu dei tudo a vocês... E, agora, quan­do o amor me chega e me estende os braços... — oh, sorte cruel! — eu não tenho nada, vocês me tiraram tudo, tudo!

Margarida jogou as cartas, que voaram pa­ra o chão. Escondeu o rosto entre as mãos e prague­jou em dialeto veneziano. Comovido, ansioso por modificar aquela situação, Van Tuyl pôs a mão no ombro de Margarida e disse:

— Margarida, a ceia está na mesa.

— Eu não tenho fome.

— Mas, por favor, querida! Ao menos por deli­cadeza. A Vannucci veio correndo para preparar o spaghetti...

Após muitos esforços, o fidalgo conseguiu fazê-la sentar-se á mesa. Para distraí-la dobrou o guardanapo sobre o antebraço e, imitando garçom, ser­viu-lhe uma salada de lagosta e perguntou:

— Que toma, senhora? Chianti ou Champagne? — Retirou a garrafa que estava no balde, leu alto o rotulo: "Roznay et Perrault, 1852. Not too dry".

Fez saltar a rolha e, á medida que enchia a taça de Margarida, brincava com ela:

— Perdão, mas com esta magnífica salada, só champagne. Demi sec, voilà!

Margarida, entretanto, não sorria nem se decidia a comer. A Vannucci veio ajudar Van Tuyl a convencê-la. A muito custo, depois de o fidalgo afirmar que estava faminto e que não podia comer antes que ela começasse, Margarida levou á boca um pouco de lagosta. A Vannucci bateu palmas, satisfeita. Van Tuyl percebeu a sinceridade do júbilo e interveio a favor da velha:

— Vamos, vamos, minha criança! Desfaça essa carranca e diga á signora que vá deitar-se. Vamos, di­ga boa noite a ela.

Margarida obedeceu e a velha retirou-se para o quarto. Novamente a sós, vendo-a mais tranqüila, co­mendo, Van Tuyl levantou o copo e saudou:

— Margarida, pelo esplendor de seu futuro!

— Não. Eu não bebo pelo que posso ser, mas por um sonho que não posso sonhar outra vez. Bebo pelo sonho de uma salinha quente e iluminada; ele es­tudando na escrivaninha, e eu em frente da lareira, cos­turando com um nenê no colo...

Van Tuyl levantou-se e veio sentar-se no braço da poltrona de Margarida. E perguntou á diva, sem cal­cular as respostas:

— Minha querida, que acha você deste meu pla­no? Sigo em abril, pelo Alaska, e irei buscá-la em Pa­ris para irmos para "Millefleurs"...

— Mas... e a minha tournée pela Rússia?

— Ora, eles mandam a Patti em seu lugar.

— A Patti?!

— Sim, minha flor. Ela ficará contentíssima de substituir o "Rouxinol de Ouro".

— Não; isso não é justo, não é direito!

— Para quem?

— Para os pobres russos.

— Oh, você está com ciúmes, Margarida!

— Da Adelina? Eu? — E, com um sorriso de vai­dade e desdém — Dio mio! Com ciúmes...

— Então, que importa que ela vá? Pense em "Millefleurs", querida... Como "Millefleurs" estará linda em maio... Ela está, agora, adormecida e va­zia, esperando a brisa de maio, esperando a primavera, esperando por nós, para florir de novo e abrir suas ro­sas ao luar.

— Não. Você me disse, ha poucos dias, que já está velho para amar "Millefleurs".

— Disse, querida. Mas... seus encantos me tor­narão jovem, outra vez. Vamos passar a primavera no nosso palácio encantado, pois lá, no meio de todas aquelas belezas, nós poderemos esquecer...

— Não. É impossível! Você não compreende?

— Compreender o que? — indagou Van Tuyl seria­mente.

— Que eu não farei mais isso, nunca mais...

O fidalgo ficou sucumbido. Amor próprio e amor ao próximo entrechocavam-se dentro dele. Venceu a generosidade.

— Perdão, Margarida... Você não me compreendeu. Eu seria apenas seu hospede, em "Mille­fleurs"...

— Ah! — suspirou Margarida. — Nestas ultimas sema­nas, eu aprendi uma coisa nova, muito linda: a do­çura da vida. Ela surgiu como uma grande luz, que queima, que cega, e que me abateu. Ela me mostrou o que eu sou e o que eu desejaria ser. Ah, Santo Dio! Eu sei o que é essa luz! Mas, agora, eu não posso ser o que fui, não posso esquecer e não posso ir satisfeita como antes... Oh, Dio! E ainda menti, aqui, esta noite, quando disse até logo. Eu devia morrer, esta noite, por essa mentira.

— Não fale em morrer, Margarida! Que loucura! Se você realmente ama o Tom, como pensa, por que não vive por ele? Distante, mas vigiando-o; distante, mas acompanhando a vida dele...

— Não me peça isso, Van Tuyl. É demais!

— Eu sei, Margarida, eu sei que é duro. Mas is­so não justifica a renuncia, o suicídio... Está em suas mãos o poder de transformar esse sonho em realidade. O Tom não a repudiou para sempre, acredite! Ele per­doará. ..

Nesse instante bateram á porta.

— Quem é? — indagou Margarida, assustada...

— Um groom, senhora. Está lá em baixo um ho­mem que deseja vê-la.

Margarida precipitou-se para a porta. Arrancou um envelope das mãos do groom, que explicava, enquanto ela devorava as linhas de um cartão:

— Nós dissemos que era muito tarde e que a se­nhora já estava deitada. Mas ele não quis ir embora, e mandou esse bilhete...

Margarida voltou-se para Van Tuyl, com o cartão entre os dedos. Pela fresta da porta, o groom espiava.

— É de Tom? — perguntou o fidalgo.

— É.

— Você não deve recebê-lo agora. Não fica bem e, além disso, é perigoso...



— Não. Eu preciso, eu quero que ele saiba o que fez por mim e... que não pense mal de nós.

Ordenou ao rapazola que fizesse Tom subir. Enquanto dava uma gorjeta ao pequeno, Van Tuyl leu o lacônico bilhete, escrito em evidente exaltação nervosa:



Necessito vê-la. Questão de vida ou de morte.

Em seguida, ela correu para Van Tuyl e, nervosa, segurou-o pelo braço:

— Por aqui! Saia por aqui, senão você se en­contra com ele na escada!

E empurrou-o para uma portinha que dava para outro corredor. Fora da porta, com os olhos úmidos, voz mole, Van Tuyl perguntou:

— Você me perdoa?

— Perdoar o quê?

— Tudo, Margarida, tudo...

Van Tuyl não esperou resposta. Afastou-se, cambaleante, prostrado pela intensidade do próprio drama. Angustia de repudiado, angustia do começo de velhice. E, vencendo-a, vencendo o instinto, vencen­do o amor próprio revoltado, a atitude do gentleman, flor de civilização, mais forte que os impulsos primiti­vos, mais forte que o animal domado...

Quando o vulto de Van Tyul desapareceu, he­róico de renuncia, Margarida fechou a porta, correu a abrir as janelas. Assim que as abriu, flocos de neve penetraram no aposento. Bateram á porta. Ela cerrou as vidraças e virou-se para a porta. Bateram de novo, com mais força. Só então conseguiu falar, uma voz de espinhos que saiu arranhando-lhe a garganta.

— Entre!


Tom empurrou a porta. Margarida estremeceu ao vê-lo. Seus cabelos estavam despenteados e os olhos vermelhos, injetados. Não trazia sobretudo, nem luvas, e estava todo molhado. Com um ges­to indeciso, fechou a porta e ficou parado, olhan­do Margarida fixamente, com um olhar estranho, que tinha algo do êxtase do fanático, algo da estupi­dez do bebedo. Amedrontada, Margarida gaguejou:

— Você... Você... Veio ver-me?

— Sim — respondeu Tom com voz rouca e triste. Ao ouvir a voz do homem que amava, voz amarga, voz lúgubre de quem muito sofrera, desvaneceu-se to­do o receio de Margarida. E, amorosa, no impulso humano de proteger e agasalhar o homem que seu co­ração escolhera, segurou-o pelo braço, trouxe-o para junto do fogo.

— Santi benissimi! Você está todo molhado! Ti­re os sapatos, Tom.

Arrastou uma poltrona para a frente da lareira, fez Tom sentar-se e abaixou-se para descalçá-lo. E, ao mesmo tempo que empregava este carinho, esta solicitude maternal para com o amado, Margarida per­guntava, com inflexão de censura:

— Mas, Tom, você esteve passeando debaixo da neve?

— Estive... durante todo o tempo que você es­teve cantando.

— E por que saiu com uma noite assim? Sem sobretudo, sem luvas...

Tom contemplou-a, comovido. E respondeu com voz rouca, pausada:

— Estive pensando em você. Estive orando por você, durante toda a tarde, durante toda a noite. Re­zava e perambulava. E, enquanto fazia as preces, sen­ti que uma mão me tocava aqui, no braço. Era uma mão invisível, que me pedia auxilio. Essa mãozinha era você, era você que me pedia auxilio e socorro.

— Eu?

— Sim. Eu reconheci sua voz. Por isso corri pa­ra procurá-la e, enquanto corria, distinguia nitidamente sua voz, chamando-me. Depois vi muitas luzes e sons. Era uma multidão ruidosa, com archotes na mão, e uma banda que tocava. Diminui o passo, pen­sando em retroceder. Mas vi um mendigo, tiritando de frio, e dei-lhe uma esmola. Quando ele me agrade­ceu — por Deus, Margarida! — era sua voz que me fa­lava...



— Eu?

— Sim, você. Então continuei a andar. Em to­das as janelas, havia senhoras olhando a rua. Quan­do eu as olhava, era você, Margarida, era você quem eu via! Começou a nevar, e eu agradeci a Deus por­que não poderia vê-la mais. Mas não; cada floco de neve tinha uma fisionomia, e eu prestei atenção e vi que era você, que eram milhares de rostos seus, que caiam sobre mim... Então compreendi: era você quem me chamava, que me pedia que conduzisse sua alma a Deus, antes que fosse tarde. Gritei por seu nome. Gritei varias vezes. Você sorriu para mim e desapareceu; eu criei coragem outra vez, afrontei a tempestade, vim procurá-la.

— Pobre do meu Tom!

— O homem e a mulher foram feitos um para o outro — prosseguiu ele. Devem ajudar-se porque é mandamento de Deus. Mas, além de homem, você sabe que sou ministro de Deus e que você é uma criatura humana em perigo de morte, necessitada de consolo.

— Não fale assim — atalhou Margarida. — Você me torna triste, veja... E, além disso, você vai resfriar-se — disse cobrindo-o com um casaco, pois não conse­guira descalçá-lo.

— Você não sabe que está num abismo, entre a vida e a morte? É preciso decidir.

— Está bem, depois...

— Não — respondeu Tom levantando a voz — esco­lha, decida agora mesmo!

— Oh, Tom! Por que veio?

— Por que? Para salva-la! Ouça: á meia-noite eu preciso conduzir meus paroquianos através das ruas da cidade. E, amanhã, você vai-se embora. Mas eu ainda tenho esta noite. E não a abandonarei ao des­amparo, enquanto você não me der sua alma!

— Ah! se você soubesse...

Tom interrompeu a frase tocando-a no braço. Olhos arregalados, atitude de quem se põe á escuta, ele continuou:

— Ouça! — E nervoso, apertando o braço de Mar­garida — Está ouvindo?

— Ouvindo o que? — perguntou Margarida, assus­tada.

— O som das águas!

— Como?


— A voz... o ruído das azas... dos anjos! — Margarida olhou-o, estupefata. E, apavorada:

— Não. Eu ouço o vento. E meu coração que bate.

Como doido, Tom se pôs a sorrir e a gritar, arre­batado de alegria:

— Vós estais aqui! Sinto-o! Oh, Deus do céu, estais me dando forças para conquistá-la!

— Conquistar?!

Margarida tomou-se de súbito terror. E se pôs a gritar, por sua vez:

— Você quer bater-me! Você que magoar-me, Tom!

— Não. Você não me compreendeu, Margarida. Eu quero conquistá-la para Deus. Eu lhe ofereço amor; não a paixão bestial dos homens, mas a com­paixão, o amor do Todo-Poderoso.

— O amor de Deus?

— Sim, Margarida. A infinita ternura d' aquele que move as estrelas e compreende as orações das criancinhas...

— Não compreendo, Tom...

— Alma perdida, estou pronto a levá-la pa­ra minha casa... Coração cansado, sedento de ale­gria, siga-me e eu a ajudarei a encontrar Aquele que tudo perdoa...

— Eu não compreendo — repetiu Margarida, transida de terror, certa de que Tom estava louco.

— Eu pensei — explicou ele — que nosso encontro fosse obra do Acaso. Mas não. Deus encaminhou-a pa­ra mim, atravez das terras e dos mares, para que eu possa ser o instrumento de seus desígnios. Você é uma noiva — mas não minha!

— Noiva, eu? Impossível!

Os olhos de Tom faiscaram. Sua "pose de prega­dor" apareceu, mais imponente do que nunca:

— Você não ouve o canto da meia-noite: "Ei-lo aqui; o noivo dos céus; vinde vê-lo"? Você não o vê, descendo dos céus, numa cluma de fumo, perfuma­da de incenso e de mirra? Seus olhos são uma chama de fogo; sua cabeça está coroada de estrelas. Ve­ja; veja o vestuário manchado de sangue, e aqueles dizeres: "Deus dos deuses, Rei dos reis"! Ouça: Ele está ali fora, batendo á sua porta...

Margarida olhava-o, hebetízada, sem compreender ao certo aquela linguagem simbólica, de fanático. Tom concluiu:

— Querida, abra seu coração. Deixe que Deus penetre nele.

Tom tentou segurar-lhe o braço. Aterrorizada, Mar­garida desvencilhou-se e pôs-se a soluçar:

— Não! Não me toque! Deixe-me sozinha! Eu tenho medo!

— Medo? Miserável pecadora! Como pode vo­cê viver com o horror pairando nos seus olhos? Não a assusta a visão do dia terrível em que o sol será destruído, e a lua...

— Eu não acredito nisso, Tom!

— Não acredita? Não acredita no Juízo Final?

— Não! — respondeu Margarida, firme.

Tom deixou-se cair numa poltrona. Tapou o rosto com a mão, e ficou silencioso. Vendo-o mais cal­mo, Margarida quebrou o silencio:

— Tom, estou certa de que esta é a ultima vez que o vejo. Por isso, quero dizer-lhe uma pequena coisa e, depois, talvez eu lhe possa dizer até logo.

Ela aproximou-se dele e prosseguiu:

— Foi muita bondade sua pensar em mim, depois do pesar que lhe causei. Agora, você pode es­quecer-me...

— Como?!


Ela continuou, serena:

— Eu quero transformar minha vida, ser boa co­mo você. Eu sei que é difícil, mas Deus me ajudará.

— "Seus lábios destilam mel; sua boca é mais suave que o óleo; mas seus pés vão para a morte..."

Margarida sentiu a ofensa. Levantou-se, e, sem temer Tom, invectivou-o:

— Não fale em nome de Deus! Ele me perdoa­rá, compreende? Não foi Ele quem me deu este rosto para os homens amarem? Não foi Ele quem me deu esta voz para alegrar o mundo?

Tom levantou-se, por sua vez. E, imperioso:

— Prometa-me uma coisa!

— O que?


— Prometa nunca mais se entregar a homem al­gum.

— Prometo!

Solene, Tom segurou-lhe as mãos, ordenando-lhe que o fixasse nos olhos e repetisse, palavra por pala­vra, a promessa. Margarida repetiu, com voz firme.

— Você jura? — indagou Tom, ainda não satisfeito.

— Juro!

— Ah! — gritou Tom, repentinamente.



E puxou-a com um gesto brutal para junto de si.

— Que é? — indagou Margarida, sem compreender.

— Você jurou em falso! Você jurou...

— Cale-se! Agora não é a mesma coisa.

— E você mentiu! Mentiu quanto foi preciso!

— Mas agora é diferente! Eu já disse que que­ro ser boa. Vou parar de cantar, vou deixar o palco. Ha um convento de freiras, em Gehova... Eu vou diretamente a Nápoles saber como posso ajudá-las, e esperar que minha carne perca o pecado...

— Você vai fazer isso para mostrar-me que é sincera?

— Eu farei tudo que você quiser. Acredite em mim... caso contrario, prefiro morrer!,

— Está bem. Se você fizer o que eu desejo... — Os olhos de Tom encheram-se de lagrimas. Re­petiu:

— Se você fizer o que eu desejo, Deus a aben­çoará. Adeus!

Tom encaminhou-se para a saleta, em passadas lentas, cabisbaixo. Ao chegar á porta meteu a mão no bolso do paletó, para retirar o lenço. Apalpou uns objetos que havia esquecido de devolver. E, com o mesmo vagar, voltou, dirigindo-se ao piano a fim de depositar sobre ele o colar de pérolas e a cruz de bri­lhantes de que se esquecera. Ao fazê-lo, deu um grito:

— Margarida! — e apontava um cartão de visitas. — Este homem esteve aqui, hoje?

Ela aproximou-se para ver o cartão. Depois, res­pondeu, calmamente:

— Esteve.

— Agora á noite?

— Sim.


— Quando?

— Pouco antes de você chegar.

Tremendo de raiva, Tom apanhou o cartão e amassou-o.

— Que idiota, que tolo, que cego que sou!

— Que é isso? — perguntou Margarida, atônita de novo. — Que foi que aconteceu? Que é que você está pensando — oh Dio mio! Que é que você pensa?

— Não pense em me enganar outra vez! Sei o que aconteceu nesta sala, esta noite. Enquanto eu an­dava pelas ruas, orando por você, você estava aqui, na bachanál, rindo nos braços de seu amante!

— Tom, isso é mentira! Você está louco!

— E agora eu voltei para ser enganado outra vez. Enquanto você jurava que estava arrependida, sorria no intimo. Diga-me, como é que você fica tão séria, quando mente?

— Por favor, Tom, eu juero...

— Eu acreditei em você! Acreditei... Mais uma brincadeira esplendida para contar a Van Tuyl, e rir-se, rirem-se ambos! Como ele achará engraçado!

Tom dobrou a cabeça para traz e gargalhou.

— Que engraçado! O idiota do Tom!

— Não fale assim, Tom!

Ele segurou-a pelo pulso e, a sorrir, modificando a voz:

— Ora, vamos! Vamos falar com ele, juntos! Olhou a mesa posta. — Ah! vá chamá-lo. Temos ceia, temos champagne...

O religioso calou-se. Margarida chorava. E foi chorando que balbuciou:

— Não seja injusto, Tom! Pode ser que eu não seja boa, e ele também. Mas ele veio aqui para se despedir, e porque estava muito triste por sua causa...

— E não fez propostas?

— Sim; mas eu recusei. E ele foi nobre, foi ele­gante. Queria passar a primavera em "Millefleurs". Mas concordou, quando eu disse que nunca mais...

— Você é capaz de negar que Van Tuyl é seu amante?

— Nego! Eu não quis mais. Pensei que era por­que eu queria ser boa, mas enganei-me. Eu não quis porque amo outro!

— Outro? Quem?

Margarida fitou o religioso, e respondeu, reso­luta:

— Você!


Baixou a cabeça e continuou, hesitante:

— E, agora, é quase meia-noite, você tem sua pro­cissão... e eu preciso deitar-me para dormir um pou­quinho... para partir...

Ela levantou a cabeça, esboçou um sorriso for­çado e concluiu:

— Portanto... boa-noite! Eu espero...

Não conseguiu terminar seu pensamento. A fisionomia de Tom alterara-se inteiramente.

— Que é isso? Por que me está olhando assim?

— A toa; eu vou-me embora; sim, vou-me embo­ra. Mas, antes, nós devemos fazer uma coisa — que é mesmo? Ah! sim, vamos orar juntos. É isso. Va­mos orar pela salvação de sua alma.

— Não. Agora vá. Eu estou nas mãos de Deus. Ele tomará conta de mim.

— Venha cá — ordenou Tom, segurando-a pelo braço. — Aqui. E dê-me suas mãos...

Ela obedeceu. Tom levantou os braços de Mar­garida, junto ao seu peito, e abraçou-a repentinamente. Beijou-a no rosto, e, abraçado ainda, apertando-a com força contra seu corpo, foi-lhe dizendo:

— Que louco eu tenho sido! Eu pensava que de­sejava salva-la, mas vejo agora...

— Tom! — gritou Margarida, debatendo-se. — Por favor, largue-me! É porque o amo que lhe peço. Não seja como os outros homens, não queira meu corpo. Ajude-me a ser pura, ajude-me! Escute, eu estou sozi­nha aqui. Não tenho forças para o repelir. Mas, antes que seja tarde, por favor, escute-me, lembre-se de que este é o grande momento de minha vida. Você deci­dirá a espécie de mulher que eu serei daqui por diante. Não me torne fraca, Tom. Você é um enviado de Deus para ajudar aos fracos. Ajude-me, Tom!

Neste momento ambos ouviram o som de cânti­cos. Tom afrouxou o abraço, recuperando o raciocí­nio. Margarida escapuliu e correu á janela que abriu amplamente. Um vento frio assobiava na noite, chicoteando o refrão monótono de vozes humanas.

— Tom! — gritou Margarida. — São os seus rapazes! Veja, eles o chamam! Ouça o que eles estão can­tando.

Tom prestou atenção. Sinos bimbalhavam e su­bia da rua até aquelas alturas a estrofes sagradas:

"From heaven He carne -and sought her To be His Holy Bride. With His own Blood He bought her And for her life He died".

Tom baixou os olhos para o chão. Arrependido, envergonhado de sua fraqueza, prostrou-se de joelhos. Sem dizer palavra, contrito, cabisbaixo, apanhou a barra do vestido de Margarida, e beijou-a. Correu pa­ra a rua. Três minutos depois, do ultimo an­dar do Hotel Brevoort, Margarida Cavallini via um jovem, de cabeça descoberta, cantando á frente de um grupo de meninos.

Era o coro de St. Giles, conduzido, Quinta Ave­nida acima, pelo reverendo Thomaz Armstrong.



EPÍLOGO
— Assim que eu a vejo sempre — terminou o bispo, com voz triste: — pálida, os cabelos em desalinho, os olhos voltados para o alto, creio que re­zando. Fugi como um louco, impelido por uma for­ça invencível. E quando dei acordo de mim, estava de pé na calçada, cabeça descoberta, esperando meu coro de St. Giles que dobrava a rua Oitava e subia a Avenida, iluminado pela fé, ao compasso desta mu­sica que estamos ouvindo agora, e que essa banda alemã está "assassinando"... — O velho sorriu.

— Que horror, Henrique! Dê uns níqueis a es­ses pobres diabos, e peça que se retirem.

Henrique abriu a janela e atirou um punhado de níqueis á rua.

— Olá! Psiu! Chega por hoje, basta de musica!

A melodia cessou. Fez-se silencio nas proximi­dades do casarão, mas de longe chegavam, esgarça­dos, trêmulos, sons festivos da cidade. Apoiado no bordão, o velho bispo levantou-se da cadeira, cruzou a sala lentamente e depositou no cofrezinho de mo­gno, depois de os olhar com infinita ternura, as vio­letas secas e o lencinho desbotado. Guardou o cofre, fechou a gaveta da escrivaninha e, enquanto tateava o bolso para recolher o molho de chaves, concluiu pa­ra o neto:

— Pois era isso que eu queria contar-lhe, Hen­rique. Quando voltei para casa, naquela noite, eu era um velho e era um homem melhor...

— E a sra. Cavallini?

— Sua fama aumentou mais e mais, até que, um dia, em pleno triunfo, ela abandonou a carreira. Mas isso você sabe.

— E onde ela vive agora? Onde está?

— Não sei, ao certo. Acredito que esteja na Itá­lia, vivendo quietinha, praticando o bem. Ela e a Patti foram as únicas que abandonaram a carreira mara­vilhosa. E nunca mais eu a vi, Henrique!

Henrique aproximou-se do avô. Inclinou-se sobre os braços da poltrona em que o velho tornara a mer­gulhar, e, sorrindo, bem junto ao rosto do ancião, caçoou:

— Vovô, você me desculpe, mas... eu acho que você foi um bobo.

O velho sorriu. E protestou por protestar, sem forças para persuadir:

— Nada disso, rapaz! Mas agora você vê que eu não esqueci de todo o que a gente sente quando é mo­ço. E, toda a vez que eu leio o Correio da Tarde, te­nho esperança de que ele me traga uma nova alviçareira.

— Eu já percebi, vovô. E Suzana também...

— Henrique — continuou o bispo com ar solene — enquanto seu amor não for bastante grande, não lhe parecer maior que o mundo, e não lhe lembrar as deli­cias do céu, você não têm o direito de tornar essa moça sua esposa!

Henrique enfiou as mãos nos bolsos do smoking e deu uns passos agitados.

— Vovô, eu também fui um idiota! — O velho sorriu, limpando os óculos.

— Não, vovô! Você não me está compreendendo! Eu fui idiota porque, a principio, hesitei em me ca­sar com Lucilla. Mas agora você me convenceu com sua historia...

— Convenci de que?

— De que só o amor vale, somente o amor não perece...

O bispo olhava-o espantado. Henrique terminou:

— ...vou casar-me quanto antes!

— Está bem. Deus os abençoe — a você e a Lu­cilla. Mas... não foi para isso que eu lhe contei mi­nha historia. Fi-lo para ver se tirava dessa cabecinha...

— Ora, vovô! Meu caso é diferente. E eu não terei o seu estoicismo para sofrer toda a vida por ha­ver renunciado... Mas, escute, você tem algum com­promisso para amanhã á tarde?

— Para amanhã? Não sei, pergunte a Suzana...

— Não. Nesse caso seu compromisso será comigo; comigo e Lucilla. As quatro e meia, está bem?

— Mas... que compromisso é esse? — O jovem sorriu. E, brejeiro:

— Ora, vovô! Compromisso na igreja! Lucilla faz questão de que você celebre nosso casamento. E nós nos vamos casar ás quatro e meia da tarde. Ah, vovô, que alegria para a Lucilla!

— Está bem, está bem. Eu...

Nesse momento a porta abriu-se e Suzana entrou correndo, a sorrir.

— Feliz Ano Novo, vovô! Feliz Ano Novo, Hen­rique!

Os dois olharam-na admirados. E trocaram sor­risos pelo pretexto forjado por Suzana para entrar na sala. A moça beijou o velho e o rapaz. E, em seguida, curiosa, indagou:

— E então? Que foi que aconteceu?

Ambos, o jovem e o velho, continuavam a rir daquele "Feliz Ano Novo", no dia 30.

— Suzana — disse o avô — eu preciso que você me arranje umas flores e um bolo de casamento para amanhã...

— Para amanhã, ás quatro e meia? — gritou Su­zana agarrando-se ao pescoço do avô. E, beijando-o: Oh, o velhinho bonzinho! Mas eu já sabia! Eu sabia que o Henrique havia de convencer você...

O velho sorriu com ternura. E, passando a mão pelo cabelo da neta, repetiu seu estribilho carinhoso:

— "Estes cachos são meus, Suzaninha. Mas a voz e estas mãozinhas macias são de sua vovó, Suza­ninha"... — E prosseguiu, alterando a voz — Então você já sabia, heim, "sua" finória? Bem, agora que vocês conseguiram o que queriam, onde está meu jornal, Su­zana?

A moça levantou-se e abraçou o irmão, segredando-lhe qualquer coisa ao ouvido. Enquanto Henrique se retirava, ela apanhou o jornal, sentou-se junto do avô e começou a ler os títulos em voz alta: "Nossas relações comerciais com a Inglaterra", "A primavera em Portugal", "Novo empréstimo para a China", "Morte de uma cantora de opera".

— Cantora? Quem foi que morreu? — perguntou o velho.

Suzana leu alto:

"Milão, Dez. 30 (H.) — Margarida Cavallini faleceu, esta manhã, em sua vila no Lago de Como".

— Só isso?

— Não. Tem uma coluna inteira. Você quer ouvir?

O velho confirmou com a cabeça. A jovem, irrefletida, começou a ler, salteando, a N. da R.:

"Estreou em Milão em 1859. Fez papeis de prima-dona em Paris, sob a direção de Rossini. Sucesso em Londres. Foi trazida ao nosso país por Strakosch. Cantou a Mignon na antiga Academia de Musica. Gran­de triunfo. Nova York carregou-a em delírio".

— É verdade, vovô?

— É... Ficamos loucos por ela...

Suzana continuou:

"Fez tournées por todo o mundo civilizado. Em­polgou todas as platéias. Abandonou o palco em 1889. Fundou e mantém em Paris um lar para as moças po­bres que estudam musica. Em 1883 criou a Marquesa de Torrebranca para o rei Humberto I. Foi amiga in­tima de Rubinsteín, Grieg e Paderevvsky. Nunca se casou".

Suzana bocejou.

— É engraçado, não, vovô? Mas, apesar do que você diz, eu não acredito que ela fosse melhor que a nossa Geraldine...

A jovem levantou os olhos do jornal. Afundado na poltrona, a mão direita tapando os olhos, o velho cismava.

— Está pensando, vovô?

— Não... Estou cochilando. Vá dormir, minha filha, vá dormir.

Suzana dobrou o jornal e levantou-se, leve como um pássaro. Beijou a fronte do ancião e lhe disse cari­nhosamente:

— Ah, vovô, você é um velhinho muito bonzinho! Por isso vai deitar-se daqui a pouco, e não se esqueça de apagar as luzes antes de subir, ouviu?

O velho respondeu com um sorriso triste. Quando Suzana subia a escada ele levantou-se, apoiado no seu tremulo bordão, diminuiu a luz do gás e foi remexer na vitrola. Escolheu um disco. Deu corda ao aparelho, voltou trôpego para sua poltrona, e nela mergu­lhou de novo, tapando os olhos com a mão.

Uma voz quente cresceu no aposento em penum­bra. As primeiras estrofes desprenderam-se, oleosas, de uma garganta de mulher: Kennst da so wohl? Era a Aria do Destino que boiava, balsâmica, enquanto dos olhos de um velho escorriam, lentamente, duas lagri­mas dolorosas...



FIM.
Santos — maio de 1936.

1 Estoico – senhor de si mesmo, inabalável, impassível.

2 Introspecção – exame do interior, estudo da consciência por si mesmo.

3 Aluada - Influenciada pela lua; lunática, adoidada, amalucada.

4 Atabalhoada - Feito à pressa, atrapalhada.

5 Austeridade - Qualidade do que é duro, penoso. Severo

6 Remoçar - Tornar mais moço; rejuvenescer.

7 Lúgubre - Que exprime ou inspira sombria, tristeza

8 Dentifricio - Que ou o que serve para limpar os dentes

9 Reminiscências - recordação, memória, lembrança.

10 Tarlatana - Tecido de fios de algodão grossos

11 Ciática - Anatomia. Relativo aos quadris ou ao ísquio: artéria ciática. Medicina.

12 Phonographo - Instrumento, que conserva e reproduz os sons ou vibrações sonoras.

13 Blasonava - Exibir com alarde; ostentar

14 Bestunto - cabeça de pouco juízo.

15 Cicerone - Guia de estrangeiros numa cidade.

16 Bonomia - Modo de ser ou de proceder que demonstra bondade e simplicidade.

17 Epitetos – palavra que qualifica um substantivo; qualificação, cognome

18 Sisudo – que tem sisu, que tem juizo, sensato.

19 Peralvilho – homen que tem ridiculas pretensões a alegante; peralta.

20 Nevralgia – dor aguda que se sente no trajeto dos nervos.

21 Madrigais: Pequena composição poética que encerra um pensamento delicado, terno ou galante.

22 Má... che tríimporta! ce ne sono altri: Mas... o que importa isso! Há outros!

23 Nababo - Indivíduo muito rico.

24 Impucícia - Caráter de uma pessoa ou de uma coisa impudica.

25 Haurida - Aspirar, sorver. Esgotar.

26 Daguerreotipo - Uma das primeiras formas de reprodução fotográfica.

27 Ah, minha senhora, estamos extremamente satisfeitos em participar no triunfo de uma artista tão celebre - e se eu ousar dizer que se um cliente quiser.

28 Obrigada, trisiur, obrigada, muito obrigada! - respondia Mar­garida, enervada, no momento em que entrava nos seus aposentos, segurando a cauda de sua ioilette. Vendo a Vannucci, a diva gritou-lhe exasperada: - Pelo amor de Deus! colocá-los para fora! ... Eu não posso mais.



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