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CAPÍTULO X
A esta altura já se formavam rodas estranhas na residência de Van Tuyl. Em cada grupo se ostenta­vam homens e mulheres notáveis, uns por sua arte, outros pela fortuna, outros ainda devido ao prestigio político. Mas, entre todas as personalidades que pavoneavam nessa noite, pelos salões de Van Tuyl, não havia, possivelmente, duas figuras que viessem a desempenhar na historia teatral da America o papel de relevo que desempenhariam, anos depois, aquele rapazola que saiu correndo para levar um artigo á redação e "seu irmãozinho Carlos".

De instante em instante chegavam convidados. Mas a Cavallini não aparecia, o que era natural alias, pois ela cantava nessa noite, no recinto da Acade­mia, a opera que lhe grangeara renome: Mignon. A fim de evitar a aclamação da multidão estacionada á frente de sua residência, o próprio Van Tuyl recomendara ao cocheiro da diva que viesse por uma rua lateral, onde havia uma pequena porta, quase oculta, de que se serviam somente o magnata e seus do­mésticos.

Enquanto aguardava, numa saleta, a chegada de Margarida Cavallini, um ligeiro ruido, na porta, cha­mou a atenção de Van Tuyl. Voltando-se, divisou no umbral da porta, parado, e a sorrir, um rapaz alto, de menos de trinta annos, que envergava um surrado habito de pastor, quasi oculto numa longa capa de religioso. Extremamente simpathico, segurava o chapéo na mão, e seus cabelos castanhos, muito crespos, demonstrava sua nenhuma faceirice. Van Tuyl pre­cipitou-se para ele, muito satisfeito:

— Tom! Até que emfim, meu rapaz! — E, en­quanto abraçava o recém-chegado, que era o reveren­do Thomaz Armstrong, de St Giles, o fidalgo acrescentou — Suba por esta escada particular, se você de­seja escapar a esta multidão. Você deve encontrar a Suzana, que está atarefada, lá em cima. Eu irei procurá-lo daqui a minutos.

— Sinto muito que tenha chegado tarde, Sr. Van Tuyl. Espero que me desculpe o desalinho, pois fiquei retido na reunião da "Missão Bowery", e não tive tempo de ir até a casa trocar de roupa...

— Ora, deixe-se de explicações, Tom! Você está muito bem. Suba.

O jovem subiu rapidamente a escada. Ao chegar topo, parou de repente porque ouviu pronunciarem seu nome. Suzana Van Tuyl estava num salãozinho próximo, palestrando numa rodinha formada de um senhor e duas senhoras maduras. Com uma rápida, olhadela, Tom descobriu, nesse grupo, diversos membros de sua congregação.

— A Srta. Van Tuyl pensa como bem entende! Mas eu discordo inteiramente de seu modo de pensar— cacarejava uma senhora corpulenta, vestida de seda negra. — Em minha opinião, o nariz do Sr. Armstrong não tem nada de grego!

— Pois sim, Sra. Frothingham — respondeu Suzana, irônica — mas será que a senhora só repara no nariz dos sacerdotes?

— Eu estou de pleno acordo com a Sra. Fro­thingham — interveio uma viuva alta, a Sra. Rutherford. — Ele tem não sei o que desagrada. É muito solene, muito mandão, e... No entanto seu avô materno é de origem muito duvidosa, pois, como vocês sabem, era um provinciano irlandez que desembarcou aqui em 1805, de saco nas costas.

Suzana franziu as sobrancelhas, fazendo uma ca­reta de espanto. E, fleugmatica, fulminou a sabichona:

— Que maravilha, Sra. Rutherford! — olharam-na curiosos. E ela acrescentou a rir sarcástica:

— Que prodígio de memória!

De Puyster Putnam poz fim ao incomodo silen­cio, com esta frase de lamento e de protesto:

— E pensar... E pensar, minhas senhoras, que nós, os mais antigos parochianos de St. Giles somos obrigados a ouvir os sermões impertinentes desse moço.

Ainda agora, no ultimo domingo, surpreendi esse peralvilho19 a me fazer as alusões mais torpes!

— Eu não soube de nada, Sr. De Puyster... — ata­lhou a corpulenta Sra. Frothingham, visivelmente in­teressada. — Não pude ir á igreja, no domingo, por cau­sa de uma nevralgia20 terrível. Mas... Que foi que ele disse a seu respeito?

— Eu lhe conto o que ele disse — interveio Su­zana interrompendo propositalmente o venenoso dia­logo. — Ele disse que, no caminho em que vão, pro­curando somente divertir-se, não duvidava que alguns de seus paroquianos acabassem modernizando o Pa­raíso, com a fundação de algum clube dansante para os anjos!

— É abominável! — comentou a Sra. Frothingham.

— E eu chamo a isso de blasfemia! — acrescentou a Sra. Rutherford com um geito de quem põe pon­to final num assunto.

— Isso, ao que me parece, não é de cavalheiro — proseguiu De Puyster Putnam.

— Mas ele nunca foi cavalheiro! — exclamou a Sra. Frothingham. — Que é que se pode esperar dele?

— Bem, isso é fato — concordou Putnam. — Aliás, basta olhar para as roupas dele... Que sujeira! Pa­rece um graxeiro!

— E vocês sabem que ele vive metido com ope­rários? — interrogou vivamente a Sra. Rutherford. — Putnam cofiou as suíças — e voltou-se para Suza­na, certo de que a fulminaria:

— Minha cara senhorita, a uma coisa que eu nunca pude comprehender: é a proteção carinhosa que seu excellente tio dispensa a esse jovem...

— Pois é muito simples o motivo. É apenas por­que meu tio sabe discernir os homens! — E proseguiu, quase exaltada — Veja o que fez, nestes dois annos, es­se moço que o senhor detesta. Levantou a congrega­ção do nada, pode-se dizer, e tornou-a a mais pode­rosa de Nova York. Creou o "Club Atletico" para os rapazes e a "Escola de Hygiene" para moças. Além disso, fundou uma escola para os filhos dos paroquianos pobres, construiu um "play ground" para as crian­ças, organizou uma biblioteca circulante e arranjou um grande salão para leitura e audições musicais! É porisso que ele é tão estimado da gente pobre do Bowery, como é estimado e respeitado aqui, nas melho­res casas da Quinta Avenida... Exceto na sua e na destas senhoras. É por isso...

Neste momento, o reverendo Thomaz Armstrong resolveu acabar aquele bate-boca. E, com o melhor sorriso do mundo, muito suavemente, começou a en­trar na saleta onde Suzana continuava a defendê-lo, de costas para a porta. De Puyster Putnam foi o pri­meiro a avista!-o. Atalhou o discurso de Suzana, ga­guejando, e com o rosto muito vermelho:

— Po... Pois sim, Srta. Van Tuyl. Eu... Eu estou de pleno accordo...

— Seus esforços são muito louváveis... — acrescentou a Sra. Frothingham, quasi ao mesmo tempo em que a Sra. Rutherford, que também ja tinha visto o re­verendo, apoiava:

— Ah! É... Muito louváveis!

Suzana, estupefata com a mudança, olhou para a porta de entrada. Assim que viu Tom, caiu nua gargalhada, e, com a mão estendida, dirigiu-se a ele.

— Tom, você chegou bem na hora! Nós estávamos-mos falando a seu respeito...

— É exato, eu ouvi — respondeu ele sorrindo meigamente. — Obrigado, Suzana. Você é uma otima propagandista!

— Mas, meu caro Sr. Armstrong — interveio a Sra. Rutherford — nós fazíamos as melhores referencias a seu respeito...

— Realmente, reverendo, as melhores possíveis — confirmou a Sra. Fronthingham. — E retirando-se, com um sorriso forçado — Estou admirada de ver que suas orelhas não estão queimando...

— Naturalmente, naturalmente — confirmou Put­nam com cinismo. — As mais lisonjeiras...

Tom não lhe deu ouvidos, e, sorrindo para as se­nhoras, propoz-lhes á guisa de galanteio:

— Permitam-me que as conduza minhas se­nhoras.

— Agradecida, reverendo, mas, eu preciso ver a minha Mabel, — descupou-se a Sra. Frothingham. — O se­nhor comprehende, com a casa cheia de celebridades, não se sabe quem pode penetrar sem convite. E a mi­nha Mabel é muito impulsiva e... e pode censurar is­so, durante o chá...

— Eu ia propor á Sra. Rutherford que ceássemos algo — proseguiu De Puyster Putnam. — É preciso não se esquecer que esta é uma das poucas casas onde os vi­nhos legítimos correm como agua... — Fez ligeira curvatura de homenagem e despediu-se: Au revoir, Srta. Van Tuyl. Seu criado...

— Ora, mas ninguém se retira antes de chegar a Sra. Cavallini — preveniu Suzana, quando os tres já desciam a escada. Ela prometeu cantar para nós. E todos sabem o que isso significa...

Assim que as matronas e o falso gentleman desapareceram, Suzana voltou-se para Tom e comentou:

— Hipocritas! Todos tres! — E com raiva — Duas gralhas e um velho tonto! — Abrandou a voz — Você ouviu o que eles disseram Tom?

— Um pouquinho... — respondeu o jovem, sorrindo. E continuou— Mas que importância tem isso? Eles, por si, já não têm importância alguma, os coitados!

— Pode ser... Mas eu não admito que venham criticar você, desse modo, aqui em casa!

Tom não respondeu. Continuou a sorrir, com in­dulgência. Então Suzana o examinou dos pés á ca­beça e, segurando-o pelo braço, censurou com meiguice:

— Oh, Tom! Você veio com sua roupa mais usada! Por que você não poz aquela nova?

— Bem... Eu pretendia trocar de fato — escla­receu Tom sorrindo do próprio trocadilho, signal de que estava bem humorado. — Mas, precisava ir ao "Club Athletico", você sabe, e, justamente ás 10 horas, quan­do me retirava, o Jimmy Baxter, aquele garoto que você conhece, veio procurar-me, todo afobado, e disse que Sullivan, o boxeur, estava bebedo e queria matar a mulher. Então, tive que ir acalmá-lo e, quando repa­rei, já era muito tarde para ir a casa e vir depois pa­ra cá...

Emquanto se desculpava, Tom observou que Su­zana o olhava fixamente. E começou então, negligen­temente, a passar a mão sobre a lapella e os ombros de seu paletó, pensando que estivessem polvilhados de caspa e que Suzana, como sempre, lhe censurasse o incorrigivel desleixo. Mas, desta vez, por um milagre, o surrado paletó estava bem escovado, de sorte que foi a rir que Suzana disse:

— Não é isso, Tom. É o cabelo, o cabelo!

— Que é que tem? — interrogou o religioso, com ar de espanto, ao mesmo tempo em que alisava o cabelo com a mão.

— Tem que ele não vê pente ha muito tempo! — E, sorrindo ainda, para atenuar a admoestação: Abaixe a cabeça. Eu vou pentear este carneirinho...

Tom obedeceu. E, visivelmente satis­feita com a própria solicitude feminina, bem maternal, á medida que arranjava os cabellos de seu preferido reeditava Suzana a velha queixa com que o divertia:

— Que injustiça, santo Deus! Você com esses cachos tão bonitos, que não ornam nada, e eu com es­tes fios escorridos que não ficam crespos nem cinco minutos! É o cumulo da injustiça! — reforçou, e acrescentou com uma carranca prazeteira — Devia ha­ver uma lei, está ouvindo? uma lei que considerasse criminosos todos os homens que nascessem com cabellos cacheados!

— Ora!... Vamos, vamos, Dalila! — replicou Tom, brincando por sua vez. — Não seja tão malvada com este pobre Samsão... Você sabe que, se eu pudesse, fi­caria sem um fio de cabelo, e lhe daria todos os ca­chos. — Timido, encabulado, encerrou, porém, a brinca­deira e voltou a falar no esmurrador—Sabe uma coisa, Suzana? Eu achei o Sullivan muito abatido. Creio que ele não readquirirá a "forma" antiga e, o que é pior, está desconfiado de que a senhora dele vai ter ou­tro nenê.

— Céus! — exclamou Suzana. — Coitada! Vai ser o sexto filho, não é? — Libertou os cabelos do reveren­do do "martirio" daquela toilette e rematou — Amanhã cedo, a primeira coisa que vou fazer é ver como ela está passando...

Neste momento, uma voz de homem gritou lá em baixo, pelo nome de Suzana. A moça debruçou-se so­bre o corrimão da escada e avistou um jovem elegante que subia os degraus, todo risonho, com um prato de salada de lagosta numa das mãos e uma travessa de macarrão na outra.

— Oh, Sr. Livingstone, que amabilidade é essa? — E sorrindo — Mas que exaggero! Será possível que o senhor pense que eu vou comer tudo isso?

— Está claro, Srta. Van Tuyl! Esta salada está deliciosa. E agradeça ao "Rouxinol de Ouro", porque, se não fosse ela, eu não estaria aqui com este prato de maná!...

— Como asim? O senhor está gracejando?

— Absolutamente — respondeu o jovem. — Todas as notabilidades artísticas e literárias de Nova York esta­vam lutando como um bando de demônios em redor da mesa de ceia; mas, graças a Deus, alguém anunciou o nome da Cavallini, que acabara de chegar, e o bando se dispersou, imediatamente. Dois segundos depois, sem exagero, a única pessoa que ficou na sala de jantar fui eu. Aliás, sempre me interessei mui­to mais por uma boa ceia do que por qualquer prima dona deste mundo. Por mim elas poderiam ficar sempre nos camarins, ou, se preferissem, nas suas gaiolazinhas douradas, como fazem os canários. Mas... Elas provavelmente fariam estardalhaço no poleiro. E é bem provável que os próprios carcereiros que as deve­riam vigiar fossem tolos como todos e morressem de amores por uma olhadela da "divindade" prisio­neira...

— É provável — sorriu Suzana. — Eu, por exemplo, vou descer já para cumprimentar a ilustre convi­dada...

Assim que a jovem começou a descer os degraus, Tom lhe pediu que informasse ao tio onde ele se achava.

— Está bem, Tom, eu aviso... E o senhor não desce, sr. Livingstone?

— Não... Perdão, Srta. Van Tuyl... Se a senhorita me permitte, prefiro ficar aqui. Preciso dar uma palavrinha aqui ao nosso Tom...

— Fique á vontade, Sr. Livingstone.

Assim que Suzana desceu a escada, Livingstone de súbito mudou de atitude. Enguliu o sorriso "so­cial”.

— Você quer saber uma coisa? — disse. E, com inflexão de raiva. — É a ultima vez que trago minha es­posa a esta casa!

Tom encarou-o, surpreso. E indagou com curio­sidade:

— Mas... Por quê? Que foi que aconteceu?

— Porque este homem está fora de si! Está doido!

— Quem? Que homem? — interrogou Tom, estu­pefacto.

— o Van Tuyl! Quem mais havia de ser?

— Mas... — Tom hesitou; não encontrava pala­vras. — Que aconteceu? Que fez ele?

— Deus do céo, homem! Você ignora quem está lá em baixo? Ignora quem andou percorrendo os salões pelo braço do Van Tuyl? Você não sabe, por acaso, quem foi que ele apresentou ás respeitáveis se­nhoras que cometeram a loucura de vir aqui esta noite?

— Não... — respondeu o sacerdote ainda inteira­mente atarantado. — Quem foi?

— Pois é a Cavallini, homem de Deus! A Cavallini!

Tom ficou perplexo. Examinou bem o linguarudo, e inquiriu, ingenuamente, sem compreender nada:

— Você se refere a essa cantora de opera? Que... Que foi que ela fez?

— Claro que me refiro a ela. Não se faça de inocente, meu caro! Será possível que você não saiba que ela é amante do Van Tuyl?

— Como?! — insistiu Tom surpreso, já com uma ponta de cólera.

— Oh, eu não diria isso a você, um religioso, se ele não a houvesse exibido aqui, perante a socieda­de. Eu sou um homem do mundo e, porisso, muito to­lerante. Mas... Enganei-me, meu caro, enganei-me porque acreditava que o Van Tuyl vivesse inteiramente só... Como manda a decência!

Tom cerrou os punhos. Palido de odio, não po­dia articular palavra. Livingstone, que soltara a lín­gua de vez, proseguia, embriagado pela peçonha das próprias palavras, sem atentar na transformação de Tom:

— E escute Tom: já que você é reitor e amigo dele, eu acho que deve interpela-lo sobre esse inci­dente. Creio que você pode salva-lo desse abismo...

— Era isso que você queria dizer-me? — interro­gou Tom, procurando conter-se.

— Sim.


Tom aproximou-se da Livingstone e, junto dele, o rosto quase encostado ao do "lingua-de-sogra", fi-tando-lhe firme os olhos, respondeu pausada e vagarosamente:

— Pois eu também tenho que lhe dizer certas coi­sas. E, para principiar, começo dizendo o que você é: um miserável bisbilhoteiro, um reles intrigante!

Livingstone empalideceu. E, livido de raiva, es­ticando o corpo, desafiou:

— Repita! Que foi que você disse?

— Eu disse que você é um miserável, compreendeu? Um miserável que não pode ouvir uma torpeza sem sair a contá-la a toda a gente! Se você fosse homem, sabe o que faria? Lembrar-se-ia de que é hospede da casa de um gentleman, que comeu os ali­mentos que ele lhe ofereceu, que bebeu os vinhos que ele lhe deu, que apertou a mão dele com falsa ami­zade, e que, agora, está falando mal dele pelas costas, mentindo sem pudor!

— Não é mentira! — interrompeu Livingstone, branco de susto. — Toda a gente sabe que ele vive com a Cavallini ha vários anos! Ele deu a ela uma casa, na Riviera, chamada "Ville Millefleurs"! O Jack Mor­ris viu os dois juntos, lá, na Cote d'Azur!

— Cale-se!

Livingstone, acovardado diante da atitude de Tom, recuou uns passos, disfarçando, em direção de um sofá. Afastado, continuou, entretanto, dando infle­xão de lamento ao que dizia:

— Eu queria calar-me, queria estar enganado... Mas, desgraçadamente, a não ser você que é um re­ligioso, ninguém ignora quem é Margarida Cavallini. Pergunte ao Fisk: ele conhece o compositor francez que a conheceu outrora, cantando debaixo das janelas dos hotéis de Veneza; ele lhe contará, também, como foi que ela deu um pontapé no musico que a protegeu, para ir viver com um grão-duque russo em S. Petersburgo... Até que o príncipe de Joinville a carregou para Paris. Toda a Europa conhece e odeia essa mu­lher, porque arruinou famílias inteiras, desbaratou for­tunas sobre fortunas, e jogou na lama rapazes das melhores famílias. Foi por causa dela que um jovem e famoso poeta ingles se suicidou; que certo impera­dor teve de recorrer aos Rothschilds para lhe comprar diamantes e que o rei de Nápoles...

— Pare Livingstone! Pare, do contrario lhe parto a cara!

O "mexeriqueiro" encarou Tom, com certo cinismo, e, ao mesmo tempo em que se dirigia á escada, jogou o ultimo veneno:

— E, quanto ao Van Tuyl... Ora, toda a gente conhece o papel que ele está fazendo...

Tom precipitou-se sobre Livingstone.

— Cachorro, miserável...

Não pôde concluir a offensa nem executar a amea­ça fisica. Justamente nesse momento, surgiu no saguão vizinho á saleta a figura de Van Tuyl.

— Salve meus amigos! Que é que ha? Pare­ce que vocês discutiam...

O— Ora, não era nada de mais — apressou-se Li­vingstone a dizer. — Tom e eu discutíamos idéas, nada mais. — Atrapalhado com o inesperado, consultou o re­lógio, á procura de pretexto. — Céos! Meia-noite! O senhor não sabe em que sala está minha senhora, Sr. Van Tuyl?

— Mas... Você não vai retirar-se. A festa ain­da não começou. Será possível que você não queira ouvir a Sra. Cavallini?

— Muito obrigado, Sr. Van Tuyl — respondeu Li­vingstone. — Eu prefiro que minha esposa ouça a Sra. Cavallini, no teatro... Talvez seja um preconceito meu, talvez... Mas, espero que o senhor me desculpe. Boa noite, senhores.


CAPÍTULO XI
— Muito bem, Tom; aqui estamos afinal! — exclamou Van Tuyl carinhosamente, depondo a larga dextra sobre o ombro do jovem protegido. — Sou todo ouvidos para o que você tem a me dizer.

— Eu não desci para lhe falar lá em baixo mes­mo porque, como o senhor vê, não tive tempo de trocar de roupa.

— Que disparate, meu jovem! Você está muito bem, assim como está.

O ministro de Deus nada respondeu. Van Tuyl percebeu-lhe o embaraço, e, com muito tato, começou a fazer tempo, falando de outros assuntos banaes. Porisso apanhou de sobre um movel uma pequenina estatueta de terra-cota, e, enquanto a revirava entre as mãos, com um ar de entendido, ia explicando:

— Você que aprecia trabalhos de terra-cotta de­ve ter examinado este. É uma vendedora ambulante, do tempo de Pericles. Observe a graça grega, a leveza e a frescura destes traços. É um instantâneo admirá­vel; o artista imortalizou-lhe a atitude mais habi­tual. — E, sorrindo, repetiu a filosofia sediça— O po­der da arte, hein, "seu" Tom? Custa crer que as mãos que modelaram esta maravilha, ha dois mil anos, já "reverteram ao pó"!

— É... É... Realmente... É muito interessante.

Van Tuyl tornou a colocar a estatueta no seu lu­gar, e proseguiu por proseguir, porque percebera a confusão de Tom:

— Dois mil anos! Onde estaríamos nós, nessa época, Tom?

Concentrado, o jovem não ouviu as perguntas. O filantropo, diante desse mutismo, elevou a voz, mu­dando de assunto:

— Pelo que vejo você se interessa mais pela pin­tura; do que por estes trabalhos. Venha ver esta tela de Millet, que comprei ha dias. É tão alegre, tão ma­tinal, que mandei pendura-la no meu quarto para ser a primeira visão de cada manhã, ao despertar. Va­mos até lá.

O fidalgo segurou-o pelo braço para conduzi-lo. Tom, porém, rompeu seu mutismo e disse-lhe, já mais desembaraçado:

— Não, Sr. Van Tuyl. Muito obrigado, mas ago­ra não. Acho preferível ficarmos aqui, porque pre­ciso falar-lhe sobre um assunto muito sério...

Bastante acanhado, o jovem começou, reticenciando as frases:

— Bem... Eu nem sei como começar, por que... Porque, como o senhor verá, o assunto é mui­to importante e... E muito delicado... É delicado... Mas... Será que eu não o estou furtando aos seus hos­pedes?

— Ora! Deixe de cerimonias, Tom... Que é que ha?

— Bem... É um assunto que eu penso que... Sim... Eu acredito que devo que é minha obrigação dizer-lhe...

Van Tuyl sorria, disfarçadamente, daquela ines­perada gagueira de Tom. Acudiu-o, porém, para pre­cipitar o desabafo e para diminuir a tensão nervosa do jovem. Com a mão direita no hombro dele, sorrindo, atalhou certo de que acertava:

— É a respeito de Suzana, não é?

— Sim, também..., em parte...

— Pois está muito bem, Tom — proseguiu Van Tuyl. Apertou a mão do religioso, bem forte, olhando-o fir­me, e accrescentou — Estou de pleno accordo, muito satisfeito.

— Bem... Mas eu não estou compreendendo; creio que o senhor se enganou...

— Como? — interrogou Van Tuyl, intrigado por sua vez. E fixando o olhar do amigo: — Você não se refere à Suzana? Você não me ia pedir...

— Sim, mas...

— Mas que, Tom? Desembuche homem! — Tom decidiu-se. E desabafou:

— Eu preciso dar-lhe um conselho!

— Conselho?!

— Sim — confirmou Tom, inabalável. E continuou — Lamento muito, mas julgo-o meu dever.

Van Tuyl contemplou-o, intrigado, sem atinar com o que poderia justificar esse conselho. Deixou-se cair numa cadeira e dirigiu-se ao amigo:

— Nesse caso... Faça o favor, sente-se também. — Enquanto o fidalgo acendia um charuto, o jovem começou:

— Pode ser que não seja eu a pessoa indicada para lhe fazer esta advertência, pois que muito lhe de os St. Qiles e eu...

Van Tuyl desprendeu a primeira baforada do cha­ruto e, mais calmo, vendo a solenidade do jovem, ata­lhou-o com seu eterno sorriso:

— Tom, você sabe que seu olhar está ficando ca­da vez mais parecido com o de sua mãe?

Ao ouvir falar em sua mãe, o rosto de Tom desa­nuviou-se. E foi quasi bem-humorado, simples, natural, que ele respondeu:

— Não; não sabia... — E sorriu, satisfeito. Mas, logo em seguida, readquirindo aquele geito que Su­zana qualificava, por troça, de "a pose de pregador", Tom continuou: — Entretanto, antes do mais, eu sou seu reitor, e, porisso, acredito...

— Pois sim, Tom — interveio o Mecenas que come­çou a pescar o difficil "conselho". — Eu acato seus melindres... Pode falar.

— O senhor sabe, Sr. Van Tuyl — e Tom entrou resoluto na advertência — sabe que está em sua casa uma mulher cuja reputação é muito duvidosa, para não dizer coisa pior?

— Onde quer que eu esteja Tom, ela será mi­nha hospeda, se me der essa honra...

A íleugma de Van Tuyl surpreendeu o religioso, que, contudo voltou á carga:

— Mas o senhor tem certeza de que o procedi­mento dela...

— Tom!...

Van Tuyl fixou o jovem, com indulgência, prevenindo-o apenas.

— Perdoe-me, Sr. Van Tuyl, mas eu lhe falo co­mo reitor de St. Giles.

O fidalgo meneou a cabeça, deplorando, e adivi­nhando tudo que o jovem lhe ia censurar:

— Já sei Tom; já sei...

Sem que ele o percebesse, "a pose de pregador" tomou conta de Tom. E o jovem continuou, com in­flexão de anatema de púlpito:

— Uma figura que desgraça a estéril e semi-gasfa civilização de que procede, e que, graças a Deus, pouco floresce em nosso país.

— Ora, Tom...

E o fidalgo continuou meneando a cabeça grisa­lha, emquanto Tom apertava a admoestação:

— O senhor tem pecados, Sr. Van Tyul! E eu os conheço muito bem. Mas, vá lá, que os vicios pululem na pobreza e na escuridão de espirito, ou que medrem sob as luzes do palco. Mas nós não podemos consentir que essas presas do vício ousem erguer sua viseira e devassar a intimidade de nossos lares, que elas toquem as mãos puras de nossas espo­sas e de nossas irmãs!

— E das sobrinhas também?

Tom não percebeu o motejo do aristocrata. Inflamado, arrebatado pelo fogo do próprio verbo, proseguiu, patetico:

— Também! Será crivei que, após tantos anos de honesta decência, devamos abrir, agora, nossas portas, de par em par, para dar passagem ás Du Barry? Para saudar as Messalinas no recesso de nossos lares?

— Hoje não é domingo, Tom! — atalhou Van Tuyl, mas chamando a atenção do jovem para o sermão que improvisava. Mas este, mergulhado em si mes­mo, nada ouvia, de sorte que continuou:

— Sr. Van Tuyl, eu lhe falo como amigo e sa­cerdote: é justo, é correto, é prudente que seu solar severo agasalhe essa Sra. Cavallini?

Silencio. O aristocrata fixou tranquillo, os olhos de seu amigo. Hesitou como quem sente a responsa­bilidade e a inanidade da palavra, em certos momen­tos. Afinal desabrochou seu sorriso compassivo, de senhor e de indulgente, e perguntou ao jovem:

— Que idade tem você, Tom?

— Vinte e oito anos!

— Pois ai está uma de minhas tristezas, uma fraqueza minha, Tom: invejo os seus vinte e oito an­nos... E, sorrindo: — Ah, como é fácil, como é simples e boa a vida, quando se têm vinte e oito anos!

— Sim... Quando se tem um objetivo, é ver­dade — respondeu Tom, calmo e humano.

— Objetivos?

— Sim, certos ou errados. O necessário é nos impormos uma finalidade...

— Finalidade. . . Eu acreditei, certa vez, que ti­nha uma finalidade... Mas, depois, a Vida, que é muito confusa, baralhou todas as minhas convições, e, o que eu julgava certo, ela asseverou que era errado, e o que eu acreditava errado as convenções afirmaram que era certo. Porisso — balanceou a fronte — hoje eu nem sei mais em que pé fiquei...

— Ora, senhor...

Van Tuyl não lhe deu ouvidos. Continuou como se falasse comsigo:

— Agora, eu tenho cinquenta e um ano. — Pigarreou. Bateu as mãos nos joelhos. E suspirou — E, ago­ra, creio que já não posso acertar as coisas de acordo com a Vida.

— Não diga isso, Sr. Van Tuyl. Eu conheço sua força de vontade e sua honrra, e sei que o senhor se reerguerá.

O fidalgo cortou a frase do jovem:

— Escute Tom. Apesar de tudo, tenho que agradecer á Vida. Ela é a mestra por excelencia. E ela me incutiu duas convições, meu jovem, duas con­vições que são o leme de minha existência. A primei­ra é crer nos bons; ainda os bons sobre a terra, e é porisso, meu caro, que você é o nosso reitor. A se­gunda é ter piedade dos tolos, dos que não são bons...

— Dos maus?

— Não, meu rapaz; não existe ninguém propria­mente mau. São apenas fracos, meu caro, pobres fra­cos que não descobriram a "maneira" de ser bom, co­mo você, por exemplo...

— Que doido fui eu! — exclamou Tom, arrependi­do. — Eu deveria ter percebido que não havia uma pa­lavra de verdade no que aquele tolo me falou.

— Que tolo?

— Um intrigante que saiu daqui ha pouco. E eu fui tão imbecil que acreditei no que ele disse, e re­solvi censura-lo como um Catão. Perdoe-me, Sr. Van Tuyl. Eu me admiro de o senhor não me haver enxo­tado de sua casa.

— Você é meu pastor — respondeu Van Tuyl pensando.

— Mas, o senhor me perdoa?

— Ora, não ha nada que perdoar, meu rapaz! — respondeu Van Tuyl, alteando a voz e levantando-se da cadeira para ocultar sua emoção. — Vamos-nos daqui. Vá lá para baixo e peça a Suzana que lhe arranje um bocado de ceia.

— Eu não mudei de roupa, Sr. Van Tuyl...

— Isso não tem importância, Tom! Mas, se vo­cê prefere, entre ali na bibliotheca que Suzana lhe trará a ceia. E não me diga que está sem apetite... Você tem vinte e oito anos, e, nessa idade... Que é isso?

Van Tuyl não pôde terminar a frase. Um coro de vozes crescia pela escada, próximo já da saleta em que ambos estavam. Misturados com a algazarra do grupo, ouviam-se farrapos de acordes musicais. Era uma valsa de Strauss, então muito em voga. Instantes depois, uma voz de mulher, puríssima e harmoniosa, se destacou do vozerio. Num inglez estropiado, dizia es­sa voz:

— Não, não... Por favor, não me sigam. Pre­ciso ficar sozinha, uns minutos, antes de cantar.

Era Margarida Cavallini.

Ela parou um momento, ofegante, no topo da escada, rindo daquele bando de homens de todas as idades, que a disputavam para dansar. Era uma en­cantadora moreninha italiana, tipo meridional, vivo e brejeiro. Ostentava soberbo vestido de gaze guarne-cido de rosas. O cabelo negro pendia em cachos gros­sos por todos os lados e era preso, ao alto, por uma grinalda de rosinhas. Dois solitários enormes brilha­vam dependurados em suas orelhas; ao redor de sua garganta faiscavam os diamantes de um colar, combi­nando com as cintilações das pedrarias que trazia nos pulsos e nos dedos de ambas as mãos.

Uma corrente de ouro, muito fina, enrolada no antebraço, mantinha no ar um leque custoso, e a mão direita comprimia delicado bouquet de violetas bran­cas. Tinha uma voz de timbre muito doce, e articula­va as palavras, sincopadas com a mesma ligeireza la­tina de gestos. Ao vê-la, assim saltitante, trefega, aligera, a primeira imagem comparativa que acudiu ao cérebro de Tom Armstrong foi a de que um colibri hu­mano, esquivo e luminoso, acabava de adejar sobre o patamar da escada da casa de Cornelius Van Tuyl.

— Mas esta é a minha valsa, senhora! — gritava um jovem parado num degrau da escada.

— É engano dele, senhora! — retrucava um rival. — Foi a mim que prometeu a primeira valsa...

— Ora, cavalheiros, por que tamanha discussão? — interveio a cantora.

— Porque a senhora nos maravilhou, — explicou uma voz rouca. — E fique sabendo: nós queremos dançar com a senhora! Estamos doidos!

— Por minha causa? Oh, pobrezinha de mim! Os senhores são muito maus! Estão fazendo... come se dicce?... estão fazendo caçoada de mim!

— Não, senhora! — respondeu o grupo em coro. — Nós estamos loucos, de verdade; loucos de uma vez!

— Cavalheiros, cavalheiros, — atalhou a Cavallini quase gargalhando, — por que não fazem a corte ás lin­das patrícias que estão lá em baixo?

— Porque eu desejo fazer a corte á senhora — respondeu um galanteador.

— E eu também! Eu também! Também eu! — gritaram outros.

— Dio buono! — respondeu a cantora. — Os senho­res todos não podem fazer-me a corte! Vamos fazer uma combinação...

Assim que a Cavallini enunciou esta idéa, viu-se cercada de homens. Ela continuou:

— Nenhum dos senhores devia fazer-me madrigais21. Eu quero ficar aqui, com o Sr. Van Tuyl, até a hora de cantar. Mas... Olhem — e a artista apa­nhou uma camelia pregada á sua cintura — quem me trouxer esta camelia, pode acompanhar-me até o hotel...

Voltaram-se todos os olhares para a flor que a diva sustinha na mão. Margarida atirou-a longe, em direção á escada. Houve um atropelo nos degraus e a cantora, contemplando-o, batia palmas pela home­nagem e os incitava na original corrida:

— Depressa! Depressa! Mas, cuidado não vai machucar-se. Que loucos! Molto bene, muito bem, o senhor, esse senhor de bigode grande, me leva pa­ra casa.

Mal o vencedor acabou de beijar-lhe a mão e ela de confirmar sua promessa, a cantora virou as cos­tas ao grupo, e dirigiu-se a Van Tuyl:

— Mas são malucos, estes patrícios seus! Jovens e malucos...

Não concluiu o que ia dizer. Neste instante, pe­la primeira vez, Margarida Cavallini vislumbrou Tom Armstrong. Ele estava em pé, sereno, calado — contemplando-a embevecido, desde que a silhueta da cantora puzera o pé no patamar superior da escada.

Ao vê-lo, assim sereno, a cantora deteve-se. E o reli­gioso, por sua vez, ficou embaraçado diante do olhar da artista.

— Eu... Eu peço-lhe perdão — balbuciou Tom.

— Perdão? Mas... Por quê?

— Por ter permanecido aqui...

E, mal terminava a frase, Tom dirigiu-se á es­cada. Margarida Cavallini, intrigada, debruçou-se no corrimão e acompanhou com o olhar a estranha figu­ra que se afastava. Depois, dirigindo-se a Van Tuyl, indagou:

— Quem é este ragazzo?

— Tom Armstrong — respondeu Van Tuyl. E, lacônico — É o nosso pastor.

— Pastor?! Que é isso? — perguntou a atriz.

— É um sacerdote.

— Sacerdote? Que é isso? Não compreendo...

— Um padre, um religioso — explicou Van Tuyl.

— Ah! Sim... — respondeu a cantora. E, como quem fala a si próprio — Então é ele!

— Como?! — inquiriu Van Tuyl.

— Sim — respondeu a Cavallini, reticenciando... — ele tem qualquer coisa no olhar que, molto, sim, mui­to diferente dos outros...

— Margarida... — e Van Tuyl sorriu para abran­dar a declaração — eu creio que ele nunca viu uma mulher como você!

— Não? Que tristeza! Poverino!

Dizendo isso ela correu de novo ao corrimão, se debruçou para ver Tom. Depois, voltou-se

— Que é que você está dizendo? — interrompeu Margarida.

Van Tuyl respondeu com um sorriso triste:

— Que, agora, eu tenho cinquenta e um ano, querida...

Margarida recuou um pouco, com um gesto de espanto. Van Tuyl, sorrindo, continuou:

— Assusteia-a, não foi? É... Fui estúpido! Eu sei o que você está sentindo...

Calaram-se os dois, pensativos. Van Tuyl rom­peu de novo o silencio:

— Margarida suponha que nossa amizade termine aqui, esta noite...

— Hoje? — indagou ela.

— Sim — respondeu o fidalgo procurando escon­der sua emoção. — Sente-se aqui, mais perto. E... Dê-me sua mãozinha. Assim; agora podemos conver­sar, ouviu? Pois, então, escute mais, Margarida. Vo­cê sabe que eu sou louco por você, não sabe?

Vendo o sorriso do velho amigo, Margarida res­pondeu que sim, abanando a cabeça de cima para baixo e fazendo uma careta infantil. Van Tuyl proseguiu:

— Pois eu gostarei de você sempre, sempre! Mas, agora, é preciso que eu modifique o "modo" de querer bem a você. Comecei a desiludi-la, eu sei. E, o que é pior, é que, cada vez mais, quanto mais o tempo corra, maiores serão as desilusões. Vamos poupar-nos esta dôr: afastemo-nos. Olhe, repare no meu cabelo. Viu como está branco? E, ainda no anno passado, em "Millefleurs", ele estava todo. Já comecei a ficar um pouco surdo e dorminhoco. Nestes últimos tempos, assim que termino o jantar, sento-me numa poltrona, e cochilo... Cochilo, meu bem, recordando minha vida. E o reumatismo vol­tou, na semana passada, mais forte do que nunca. En­velheço, eis aqui!

Margarida estremeceu e retirou a mão que Van Tuyl afagava.

— Não me repudie assim, querida... Você sa­be que eu não posso deter a velhice. . .

— Não, não fale assim! — gritou Margarida, ner­vosa.

— Deus sabe que eu não me queixo — continuou o fidalgo. — Eu vivi a Vida — e vivi-a bem. Trabalhei um pouco, fui bom sempre que pude, e bastante inteligente para gozar, quanto possível, as coisas boas e belas que a neste mundo. E entre elas, minha que­rida, eu soube descobrir você e sua voz. Vivi a Vi­da. Agora, mergulho no crepúsculo. Dentro em pou­co a penumbra ficará mais escura e mais prolongada, e, quando o ultimo clarão de sol se for, e a noite vier definitiva e pesada... Então eu deverei dormir. Mas você, Margarida, você começa a vida agora. Veja, você é uma aurora brilhando no orvalho, uma aurora que brilha mais que seus preciosos brilhantes...

Van Tuyl segurou novamente a mão de Marga­rida, contemplou seus dedos cheios de anéis e, com um sorriso úmido (amarelo), acrescentou:

— Você é uma manhã luminosa, coroada por um sol de saúde. Vá, Margarida; viva a Vida. Não dis­sipe sua primavera com este outono sem sol.

Margarida fitou os olhos de Van Tuyl. Olhos sábios e de bom. Retirou novamente a mão, levantou-se, virou as costas ao amigo e, dominando sua emoção, comentou:

— Está bem! Está muito bem... Mais um!

— Mais um quê? — interrogou Van Tuyl. Margarida voltou-se, sacudindo as espaduas.

— Mais uma — como é que se diz? — amizade acabada. Mais uma! — Balanceou os ombros com mais força, levantou um pé e girou no chão sobre o sal­to do outro sapato. Depois, senhora de si, atirou-lhe uma frase, de fingido desdém, em italiano: Má... Che tríimporta! Ce ne sono altri22!

Apanhou o ramo de violetas, e aspirou-as. Gar­galhou alto. Van Tuyl, estupefacto, interrompeu-a:

— Margarida...

— Que é, Van Tuyl?

— Você já amou alguém, Margarida?

— Que pergunta? Eu não amei você, dois ou tres anos?

— Não é isso, Margarida... Eu pergunto se não existe, em sua memória, alguém que lhe seja mui­to, muito querido, alguém cuja lembrança lhe queime o coração...

— No! — respondeu ela com um monosilabo amargo e rispido.

— Lembre-se, minha flor, lembre-se — insistiu o fi­dalgo com meiguice. — Não existe alguém cuja lem­brança lhe dá vontade de rir e de chorar, ao mesmo tempo? Alguém que você recorde com dor e alegria, que você desejasse ter sempre, sempre, a seu lado? Alguém...

— Basta! Basta! — interrompeu Margarida, ner­vosa.

Van Tyul calou-se. Após segundos de silencio, foi ela quem falou, indagando:

— E você? Tem alguém no seu passado... — Ele abanou a cabeça, confirmando.

— Quem é ela?

— Era quase uma menina. E não tinha nada de maravilhoso, de lindo, de irresistível. E, entretanto... Ela foi todo o mundo que eu desejei.

— E que aconteceu?

Van Tuyl respondeu, com acento lugubre na voz:

— Ela morreu, antes que eu lhe dissesse quanto a queria...

— Que sorte teve essa moça! — observou a Ca­vallini. Van Tuyl encarou-a, surpreso. Mas ela pro-seguiu, antes que ele a interrogasse: — Às vezes, eu tambem queria ter morrido, cedo assim. Morrer antes que meus ouvidos conhecessem a ladainha: "Io ti amo!". "Eu gosto de você".

— Que quer dizer com isso, Margarida?

Ela sorriu e respondeu-lhe, pondo toda sua vin­gança na inflexão irônica da pergunta:

— Eu nunca lhe contei a historia do meu primei­ro e lindo romance de amor? Não? É porque rara­mente o recordo, pois ele me convence de quanto eu era idiota. Mas, ouça. Foi em Veneza. Eu tinha dezeseis anos, e, como você sabe, vivia do que me rendiam as serenatas em que cantava ao som de gui­tarras.

"Ah, Madonna! Come sembra lontano! — comentou Margarida, em voz mais alta, escarnecendo. Ma... andiamo! Em certa ocasião entrou para o nosso grupo de serenatistas um belo rapaz, Beppo Aquilone, que cantava com bastante sentimento e possuia uma voz muito doce. Começou a fazer duetos comigo, e eu reparei que, quando ele cantava, olhava muito pa­ra mim. Depois... não sei como foi... comecei a pensar na maneira com que ele me olhava e, uma noite, quando ele me disse "ia ti amo"... não sei... senti que meu rosto ardia em fogo. Mais tarde, quando os outros foram dormir, ficamos, eu e ele, na gondola. Beppo me disse uma porção de coisas que eu achei bo­nitas, beijou-me e, depois, encostou a cabeça no meu ombro — e dormiu!

"Mas eu não dormi. Fiquei pensando a noite in­teira, pensando uma porção de bobagens, imaginando como seria bom viver numa casinha com ele, e per­guntando a mim mesma, muito intrigada, se era aquilo que eu sentia o que o povo chama de amor. Sim, porque, emquanto ele dormia, eu passava a mão no cabello dele, no rosto, e, muito devagar, com medo que ele acordasse, beijei-lhe o cabelo e o rosto.

"Passei muito preocupada o dia seguinte inteiro, pensando "no meu amor". Fiz mil castelos no ar, imaginei todos os sacrifícios que estava disposta a fa­zer por ele, durante toda a vida, quando... quando, logo que caiu a noite, ele veio procurar-me junto á gondola, onde eu esperava meu amado e os compa­nheiros de profissão. Vinha com um senhor bem vesti­do, a quem me apresentou dizendo que eu deveria acompanha-lo, pois era um viajante ingles, um lord, molto distinto!, que me gratificaria muito bem para cantar só para ele. Fui. Mas o lord não me queria para can­tar. Porisso, quando ele me segurou por aqui, no ho­tel, dei um terrível schiaffo — como se diz? — bofetão na cara dele. Ele ficou muito espantado, e me contou, num italiano arrevezado, que o Beppo me ha­via vendido a,ele por cinquenta liras!

"Ah, como eu chorei! Chorei, chorei, fugi dos companheiros, até que compreendi que eu era uma estúpida - e que a vida era assim mesmo! E o amor... ora, é uma mentira esse amor que os poe­tas cantam, porque o amor é uma luta cruel e doce, cheia de loucuras, de segredinhos, de cochichos e de suspiros. O amor é uma febre — eco!

— Mmha pobre Margarida — interrompeu Van Tuyl, como você deve ter sofrido, minha criança!

— Sofri, sim, porque acreditava em uma men­tira, numa simples mentira! — acrescentou Margarida, quase gritando, visivelmente nervosa. Mas, perceben­do sua excitação, ela mesma se dominou, e voltou-se para o gentleman — Ora, por que estamos falando es­tas coisas? São tristes, não são? Mas elas já desaparecem. Olhe!

E Margarida, num gesto infantil e garoto, soprou entre o polegar e o indicador:

— Puf! Está pronto! Viu?

Van Tuyl nada respondeu. Ficou triste, pensativo. Penalizada, Margarida decidiu pôr fim ás cismas do nababo23. Desafiou-o:

— Se for capaz, adivinhe o que estou pensando.

— Nunca fui adivinho querida, e nunca descobri exatamente o que você pensa...

— Pois é muito fácil. Estou pensando que nós não vamos terminar já a nossa amizade.

Van Tuyl sorriu feliz. Ela chegou-se mais per­to dele, e, com o indicador em riste, sacudindo-o junto o nariz do fidalgo, acrescentou:

— Estou pensando também que o Sr. Cornelio Van Tuyl vai buscar-me amanhã, á tarde, para dar um passeio de carro...

Ainda a sorrir, Van Tuyl gracejou:

— A honra é toda minha...

— E sabe que mais? Você anda muito mauzinho, mas... Eu ainda gosto muito do meu velhinho!

Van Tuyl beijou a mão de Margarida. Nesse ins­tante uma onda harmoniosa invadiu a saleta onde pa­lestravam. Era uma valsa.

— Céos! — exclamou Van Tuyl. — Eu me esqueci dos outros convidados!

— Quando devo cantar?

— Deixe-me ver. — Van Tuyl consultou uma listazinha. Prestou attenção aos acordes. — Depois des­ta valsa, — informou — vão cantar um dueto da Traviata. Em seguida, haverá um sexteto da Lúcia, depois um ligeiro intervalo e, emfim, a grande sensação: o "Rouxinol de Ouro"!

— Muito bem — replicou Margarida estendendo-se num sofá. — Agora, o "Rouxinol de Ouro" quer ficar sózinho, descansando até a hora de cantar. Ah! Man­de trazer-me um pouco de vinho tinto e sueco de limão.

— Que mistura! Você não quer comer nada?

— Não! Só um copo do nectar dos rouxinoes! — Van Tuyl contemplou-a, depois lhe disse com ar de madrigal:

— Você está linda, Margarida! — Margarida sorriu. E respondeu-lhe:

— E por que não havia de estar? Minha estrela é Venus, não sabe? Eu nasci para o amor!




CAPÍTULO XII
Van Tuyl retirou-se. Margarida, reclinada no divan, ficou a ouvir o ritmo lento da valsa. Poz-se a acompanhá-la, assobiando em surdina, e regendo a musica com o indicador transformado em batuta. So ergueu o corpo para escutar melhor. Mas, segundos de­pois, sentindo o cansaço da noitada no teatro, tornou a reclinar-se e cerrou os olhos, como uma "bela ador­mecida".

Neste instante ela ouviu atraz de si, o ruido de passos abafados. Descerrou as palpebras levemente, nitando-as. Um jovem penetrava na saleta, chaman­do pelo Sr. Van Tuyl. Ao vê-la, parou de súbito e se dirigiu a ela:

— Perdão. Eu pensei que o Sr. Van Tuyl esti­vesse aqui. Eu lhe peço desculpa por have-la impor­tunado...

— Como? Que foi que o senhor disse? — interro­gou a Cavallini no seu ingles cômico, levantando o corpo rápido com um esquilo.

Tom ficou mais embaraçado, seu rosto enrubesceu. Sem saber o que dizer, resolveu retirar-se.

— Como? O senhor vai-se embora e... Não me responde?

A confusão do religioso aumentou. E foi gaguejante que ele tornou a lhe pedir perdão, ao mesmo tempo em que se dirigia á porta.

— Não — disse a Cavallini — não vá embora! — E, sorrindo, accrescentou com audácia, gozando a pertur­bação de Tom — Eu estava tão — como é que se diz? — tão sozinha, e, de repente, aparece um jovem tão simpatico...

Tom ficou atrapalhadissimo. Aquele sorriso agil, aquele modo de falar, aquela voz... Positivamente ele não sabia o que fazer. Porisso insistiu:

— Mas... Mas a senhora está certa de que não sou um importuno... Um intruso? — perguntou baixi­nho, como que segredando.

— Má non! Venha aqui, e... — como é que se diz? — fique á vontade. Vamos. Sente-se aqui.

— Mu... Muito obrigado — gaguejou Tom, emquanto se sentava numa cadeira, a uns cinco metros distantes do sofá.

— Ora, por que foi sentar-se tão longe? Tem medo de mim? Venha aqui perto. Eu não lhe farei mal, por­que adoro os jovens.

Tom sentou-se numa cadeira, que estava ao pé do sofá. Ao sentar-se agradeceu a deferencia:

— A senhora é muito gentil...

Margarida caiu numa gargalhada, e apontando-lhe o rosto com o dedo, num gesto de grande intimi­dade, perguntou:

— Por que seu rosto está tão vermelho?

— Eu? Eu... Eu não percebi!

— Ah! Não? Pois ouça: é o rosto mais vermelho que eu já vi na minha vida!

— Talvez seja o calor — balbuciou Tom, encabulado.

— Calor?! O senhor está com calor? É extraor­dinário, pois eu estou gelada!

— É curioso! E... Eu temia, eu... Eu tenho a honra de me apresentar. Eu me chamo Armstrong...

— Armstrong! Mas... Não é todo o seu nome, é? Creio que ouvi dizerem Tony, não foi?

— Não é Tony! — protestou o jovem. — É Tom.

— Tomm — repetiu a Cavallini esforçando-se por apanhar a prosódia.

— Não; não é Tom; é Tom, com um M só.

— Tom — corrigiu ela. — Meu Deus, que nome difficil!

— Esse não é meu nome propriamente — esclare­ceu o jovem. — É uma abreviação, uma corrutela de Thomaz.

O rosto de Margarida resplandeceu. E, caçoan­do, comentou:

— Ah! Thomaz... Si, si! Agora compreendo. Eu tive um amiguinho com esse nome: Thomaz. Mas faz muito tempo. O coitado tinha uma perna só, só uma! Mas... Ele era muito bom; era — como se diz? — tra... Trapeiro!

— Trapeiro? — indagou Tom, encafifado.

Margarida confirmou com a cabeça. Depois, exa­minou Tom detidamente, contendo uma gargalhada, e acrescentou:

— E o senhor se parece muito com ele.

— Pareço-me? — indagou Tom, assombrado, ar­rependido de ter vindo com o paletó velho.

Ela insistiu, provocando-o:

— O senhor também não será algum belo tra­peiro americano?

— Senhora, eu sou reitor de St. Giles! — atalhou Tom, solene, quase irritado.

— Reitor?

— Sim; sou um ministro, um sacerdote!

— Ah! Desculpe-me. Eu tinha esquecido... — E brejeira de novo — St. Giles... Quem era St. Giles? Algum santo americano?

Tom sentenciou grave e severo: — St. Giles, minha senhora, é uma das mais al­tas figuras da historia da Igreja da Inglaterra!

— Ah!... Era sacerdote, também? É interes­sante! Nunca ouvi falar dele, na Itália.

— Na Itália? A senhora vive na Itália? — interro­gou Tom subitamente desconfiado. E olhou-a espe­rando a resposta.

— Sim. Tenho uma casa em Florença e uma Vila no Lago de Como.

Tom, socegado, sorriu pela primeira vez. E acrescentou:

— Muilo bem... Muito bem... A senhora sa­be o que eu pensei ha pouco?

— Não...

— Eu desconfiei que a senhora fosse a Cavallini, Cavallini, ou que nome tenha. A senhora conhece-a? Uma cantora de operas...

Margarida riu. E, com os olhos umidos de rir, com grandes gestos de latina, voltou-se para o ingênuo religioso:

— O senhor está doido, homem de Deus!

— Desculpe-me, minha senhora; eu não pensei... — Ela continuou a rir, interrompendo-o, e acrescentou:

— É preciso estar doido, para confundir! E, calma, inquiriu: O senhor nunca viu a Cavallini?

— Não, senhora. Eu... Eu nunca a vi.

Margarida inclinou-se para ele, intimamente, como quem vai fazer uma confidencia.

— Quer saber uma verdade? O senhor não per­deu muito por não ver a Cavallini! Ella está uma bo­la de gorda, assim! — e Margarida fez um largo circulo com os braços, e inflando as bochechas.

— A senhora tem certeza? — indagou Tom, com ar de duvida.

Margarida confirmou balançando a cabeça. E continuou:

— Também... Não é para menos. Ela come todos os dias, tres kilos de spagueti!

— Não pode ser!

— Sim, senhor — continuou Margarida enthusiasmada com o interesse de Tom. — E é feia, oh, Madonna! Que mulher horrorosa! Dá até medo de olhar de perto!

— Mas... Toda a gente diz...

Margarida interrompeu-o, sacudindo-lhe o pulso.

— De longe, parece. Mas, escute, ela tem um olho de vidro, e o nariz, meu Deus, o nariz!. ..

— Que importância tem o nariz? E, além do mais, eu creio que a senhora está enganada, confun­dindo. — Nada, nada disso! Vá ver, vá ver que cara! — Tom estava atonito. Percebendo-o, Margarida modificou a inflexão da voz, e adiantou, com geito de quem deplora:

— A coitada!... E não é só isso, Sr. Tom. A infeliz é "carcunda"!

— Como?


— "Carcunda"! — repetiu Margarida com acento de compaixão. — Tem uma "carcunda" nas costas!

— A senhora quer dizer uma corcunda?

— Si, si! Foi à costureira dela quem me contou, em Paris.

Tom levantou-se da cadeira, e encarou-a, serio.

— Que é que o senhor está pensando?

— A senhora deseja realmente saber?

— Mas... Claro. Faça o favor de dizer...

— Eu penso, compreendeu que a senhora es­tá dando provas de sua crueldade!

— Como?

Em pé, fulminando-a nos olhos, Tom proseguiu:



— Sim, de sua crueldade, repito! Para que uma mulher como a senhora, favorecida pelas prendas di­vinas, escarneça desse modo de uma irmã menos fe­liz — porque, senhora, ela é sua irmã no seio de Deus! — é preciso, compreendeu, é preciso ser mui­to perversa! A senhora merece uma admoestação se­vera. E eu estou em condições de fazel-o, por que...

Margarida não podia mais conter o riso. A brin­cadeira estava ficando muito séria. Para disfarçar, cobriu o rosto com seu lencinho, emquanto Tom proseguia, com sua "pose de pregador":

— Que sofrimentos não curtirá essa infeliz mu­lher devido á sua exagerada gordura? Sob essa gor­dura talvez se abrigue o mais terno coração de mu­lher. Que importa que um dos olhos seja de vidro? O outro será, sem duvida, a janela de uma alma nobilissima. E, embora ela suporte uma corcunda ás costas, ai está um valor para nos recordar, a todos nós, que Cristo carregou a cruz ás costas!

— Basta, basta! — interrompeu Margarida com o rosto encoberto. — Eu não suporto mais!

Tom calou-se. Comtemplou a diva de cabeça abai­xada, com o rosto tapado, e, acreditando-a arrependi­da, sentenciou:

— Eu estou, satisfeito de verificar que minhas humildes palavras comoveram seu coração. Agora, esqueçamo-las. Mas, se a tentação voltar, lembre-se de que a piedade é um dos mais elevados ornamentos da alma humana.

Margarida apertou o lenço na boca. Só então Tom notou que ela ria. Indignado, rilhou os dentes. E vociferou:

— Senhora, não compreendo sua atitude!

Em seguida juntou as mãos no alto, voltou as costas a Margarida, e caminhou em direção á porta. Pouco antes de alcançá-la, entrou um empregado com uma bandeja de prata, em que havia copos, um frasco de vinho e uma garrafa com agua. Tom afastou-se para deixar espaço ao doméstico, que cumprimentou a Cavallini, cheio de mesuras, sem, entretanto, lhe de­clinar o nome. Ela ordenou-lhe que depuzesse a ban­deja sobre uma mesinha, ao que o criado obedeceu perguntando:

— Só isso, senhora?

— Só.

Assim que o servidor se retirou, Tom disse de longe:



— Boa-noite, minha senhora.

— O senhor vai retirar-se?

— Depois do occorrido, creio que não me resta outra coisa a fazer.

— Está bem — disse ela levantando-se e co­meçando a preparar a mistura de agua, vinho e caldo de limão.

Tom hesitou. Margarida fingiu não prestar atenção, e continuou a misturar os ingredientes. Afinal, ele se decidiu e perguntou:

— A senhora não está arrependida de haver zom­bado de mim?

— Estou; estou muito arrependida — respondeu Margarida num arroubo de sinceridade.

— Fez mal. A senhora não devia proceder des­sa maneira...

— Ah... É? Então, até logo — disse ela calma­mente.

Diante desta resposta, Tom dirigiu-se de novo, pausadamente, até o topo da escada. Margarida ficou a observá-lo em silencio. Percebendo que ela o acom­panhava com o olhar, ele voltou devagar e tornou a séntar-se na cadeira.

— Senhora!

Ela voltou-se fleumatica:

— Que susto! Eu pensei que o senhor se tinha retirado!

— Antes que a senhora fique sinceramente com­pungida — disse Tom gravemente — antes que a senhora esteja realmente arrependida, creio que não me devo retirar!

Margarida fingiu que não ouviu. E toda entregue ao preparo de sua exquisita mistura, dirigiu-se a Tom, sorrindo:

— Olhe! Veja como eu faço isto direitinho.

E, sorrindo, despejou do alto o conteúdo de um copo no outro, repetindo, a seguir, o manejo. Tom en­carou-a, com um ar de quem não comprehendia aquela criatura, lisonjeada com a curiosidade do jovem, Margarida acrescentou:

— Foi um apaixonado que me ensinou a fazer isto...

Tom contemplava-a embevecido, como que hipnotizado. Ela encheu os dois copos, e entregou um a ele:

— Tome. Este é seu.

— O... Obrigado — respondeu ele, como se des­pertasse subitamente. — Eu não tomo estimulantes.

— Ora! E se eu lhe pedir? — interrogou Margari­da, sorrindo bem junto ao rosto dele, dominando-o.

— Bem... Nesse caso...

Ele estendeu a mão e segurou o copo.

— Bravo! — exclamou Margarida batendo as mãos. — E agora... Agora vamos beber á saúde de quem? Ah, já sei! Vamos beber para eu ler seus pen­samentos nos seus olhos, e você ler no meu o que eu estou pensando!

Ela puxou uma cadeira para frente da delle, sen­tou-se e olhou-o firme. Olhos contra olhos, pupillas bem próximas, Margarida passou seu antebraço pelo de Tom, levaram os copos aos lábios e beberam.

Tom, que nunca vira nem fizera essas coisas, es­tava espantado, intrigadissimo. Afinal, não se conte­ve e perguntou dominado pelo estranho fascínio daquela mulher:

— Mas... Quem é você? Diga-me! Eu não compreendo nada! Quem é você?

E o pobre Tom tinha toda a razão. Por mais estropiada que fosse a pronuncia do ingles da Cavallini, era evidente que não se tratava de uma ignorante. Ao con­trario, percebia que ela estudara ingles, longamente, com professores inglezes, como o revelavam os acentos. Sua amplitude mental parecia boa, sua brejeirice denotava estudos. Porisso atirara aquele desabafo: "Quem é você?" e ficou á espera da resposta.

Esta veio lenta, num inglez "cantado", de ritmo tipicamente italiano:

— Eu sou uma taça; uma taça cheia de vinho capitoso! Uma taça que permanece em pé, no alto de um pedestal de ouro e de pérolas, que custou sangue e lagrimas de homens! O halo de perfume, que flutua ao meu redor, recorda a inspiração que produzi nos corações poéticos; e as flores delicadas, que fene­cem a meus pés, representam os lindos sonhos desfei­tos dos jovens que me quizeram! Minhas portas estão escancaradas para o mundo! Eu brilho, na escuridão da Vida, como uma estrela luminosa, e, onde quer que esteja, toda a vez que os homens ouvem minha voz, eu lhes dirijo meu convite: "Vinde, vinde, seden­tos, que eu tenho vinho para todos vós!"

Tom aproximou-se mais de Margarida.

— Mas quem é você? Qual é seu nome?

— Ora, para que saber?

Sem despregar os olhos da figurinha que o fas­cinava, Tom respondeu:

— Para que eu torne a vê-la, outra vez, e outra vez! Eu preciso falar com você! Eu preciso co­nhecer...

— Ah! Meu jovem, meu jovem... Isso é impossível! Não posso!

— Mas... Eu preciso! Tem que ser! — interrompeu Tom, exaltado.

— Sssh! — interveio Margarida, pondo o dedo nos lábios dele. — Não faça tanto barulho! Segurou-o pelo pulso. — Venha cá!

Tom sentou-se na cadeira ao lado do sofá.

— Não; aqui! Ajoelhe-se aqui! Assim, juntinho. Agora, sim, nós podemos conversar.

Margarida apanhou o ramo de violetas.

— Você está vendo estas violetas — tão bonitas, tão frescas, tão suaves? Quanto tempo você pensa que elas vivem?

— Muito tempo, se você as tratar com cuidado.

— Não; repare...

Margarida arrancou um punhado de violetas do buquê. Tom olhava-a, sem compreender.

— Olhe: aperto-as contra meu rosto, contra meu nariz. A frescura delas penetra meus olhos e meus cabelos. Bebo a doçura delas, como bebo um vinho bom...

— Você vai destruí-las! — advertiu Tom.

— E... Que importa? Eu já as beijei... E e­las nasceram para morrer!

Agarrou outro punhado e atritou-as ao rosto. Fixou Tom, e vendo-o penalizado consolou-o:

— Não lamente a morte delas; elas já não sor­riem e já não amam. É esse o destino das violetas!

Escolheu as mais bonitas. E com vagar, como se hesitasse:

— Tome! Tome estas; e estas. Mais! Fique com todas!

Jogou as outras para o alto. As pequeninas flo­res subiram e caíram aos pés de Margarida, como uma homenagem.

— Agora — disse ela mostrando o pedúnculo das violetas — não sobra nem uma para eu levar para casa. E é assim que deve ser, compreende?

— Não, não percebo seu intuito.

— O nosso encontro, hoje, nesta casa — que foi ele senão um encontro rápido de duas violetas, num mesmo ramo, duas violetas que, pouco depois, se sepa­rarão para sempre? Nós somos duas flores que se per­fumaram que se amaram, e que depois desaparecem, uma da outra. Por que motivo levá-las agora para uma casa e encerrá-las juntas até morrer? É melhor que se separem e fiquem sendo, uma para outra, uma pequenina lembrança amável, uma lembrança branca e suave...

— Mas... Eu não posso apanhá-las mais uma vez, pelo menos? — perguntou Tom, levantando-se.

A Cavallini sorriu.

— Não ha mais nenhuma por colher. Todas e­las morrerão hoje.

— Eu sei — balbuciou Tom — mas... Eu gostaria de experimentar!

Ela olhou-o, a rir, e sacudiu-lhe a cabeça com ambas as mãos, pois ele se ajoelhara de novo, para implorar.

— Seu teimoso! Bem se vê que é um rapaz.

Margarida colheu umas violetas que estavam es­palhadas pelo chão e começou a colocá-las na lapela do paletó de Tom. Enquanto as enfiava, disse:

— Assim! Agora, eu quero... — Hesitou.

Tom acudiu:

— Que é que você quer? Diga!

Margarida respondeu-lhe a rir, fazendo gestos infantis:

— Eu quero... Eu desejo conhecer alguma flor que nunca morra!

Tom reteve uma das mãos dela, e pôs-se a beijá-la furiosamente. Margarida fazia esforços para re­tirar a mão. Como ele não a largasse, ela disse alto, quase a gritar:

— Não! Pare com isso! Que é que você... — Nesse instante Van Tuyl surgiu no umbral da porta. Ao ver a cena inesperada sobresteve. Margarida, percebendo o perigo do silencio, rompeu-o imediatamente:

— Oh, que momento próprio para chegar!

E sorriu satisfeita, demonstrando seu esplendido autodomínio. Van Tuyl fixou os dois, e, com uma li­geira curvatura de busto, indagou:

— A senhora já está pronta?

— Quase, quase pronta! — respondeu ela olhan­do Tom, que lhe soltou a mão. E, com a mesma sere­nidade, dirigindo-se ao jovem ainda ajoelhado: — Muito obrigada, senhor! Estou grata pela sua delicadeza! Até logo...

Em seguida, diante dos dois homens mudos, mui­to calma, colheu o leque e as luvas.

— Mas eu preciso tornar a vê-la! — implorou Tom, com voz rouca, sem se incomodar com a presença de Van Tuyl, assim que percebeu que ela se retirava.

— Precisa mesmo? — perguntou ela, com um sor­riso que estendeu até Van Tuyl. E, sentindo-se senho­ra da situação, acrescentou: — Então venha amanhã ao meu hotel, ás quatro da tarde. Não se esqueça! É o Brevoort!

— Ótimo! — respondeu Tom. — Esplendido! — Comovida com a alegria do jovem, acrescentou:

— Eu quero convidá-lo para dar uma volta pela sua formosa Quinta Avenida...

Van Tuyl não resistiu mais. Interveio:

— E o nosso compromisso? Fica adiado? — Margarida olhou o fidalgo, e respondeu-lhe reticenciando:

— De-fi-ni-ti-va-men-te!

E, dizendo, dirigiu-se, com passos rápidos, em direção á escada. Van Tuyl curvou-se, em mesura, dando-lhe passagem. Ouviu-se um murmúrio confuso que subia lá de baixo. Tom, que não despregara os olhos da silhueta de Margarida, hipnotizado, gritou-lhe quando ela atingia a escada:

— Um momento! Ainda não me disse seu nome!

— Oh, que estúpida. Foi distração. Mas... o sr. Van Tuyl lhe dirá, não é verdade?

E continuou a dirigir-se para a escada, acenan­do as mãos, agradecendo as palmas dos convivas pos­tados nos degraus. Assim que alcançou o topo, pa­rou como um beija-flor nervoso, sorrindo para a mul­tidão de convidados que a vivavam lá em baixo, gri­tando por seu nome. Olhou novamente para a saleta onde tinham ficado Tom e Van Tuyl, e deixou cair um lencinho de rendas ao seu pé. Tom correu a apanhá-lo. Mas era tarde: Margarida já estava no hall, rodeada de gente que a aplaudia. Com o lenço na mão, cabisbaixo, Tom retornou á saleta. Passos tar­dos veio examinando a pecinha de renda. Notou um monograma em relevo; M. C. E, mudo incapaz de pronunciar palavra, acercou-se de Van Tuyl.

O fidalgo olhou o jovem, longo tempo, calado também. Finalmente, senhor de si, tocou o ombro de Tom Armstrong com a larga destra acolhedora, e lhe perguntou, sorrindo com malícia:

— Você pretende dizer-me que não sabia quem era ela?

Tom sacudiu a cabeça. Fixou o velho amigo com ar de espanto. E respondeu-lhe, quase melindrado com a duvida:

— Palavra de honra! Eu não fazia à menor ideia! — Nesse instante ouviu-se uma voz melodiosa que cantava lá em baixo. Os dois puseram-se a escutar. Voz sem par, maravilhosa, era o "Rouxinol de Ouro" quem gorjeava:

"Non conosci il bel suol

Che di porpora ha ha il ciei?

II hei sunl i de' re

Son piu tersi i colori

Ove l'aura e piu dolce Piu lieve l'angel..."

Tom precipitou-se para o patamar. Debruçou-se no corrimão, e lá ficou, estático, embevecido. Van Tuyl olhou-o demoradamente. E, nesse instante, quem ob­servasse os olhos do fidalgo, neles descobriria uma nevoa de tristeza. Tristeza e remorso. Tristeza de se sentir envelhecer, e remorso... remorso por haver du­vidado da lealdade de Tom Armstrong.


CAPÍTULO XIII
A Cavallini cantou três vezes. Foi um sucesso estrondoso. Ao terminar o ultimo numero, os convidados, tomados de delírio, promoveram uma tem­pestade de aplausos, ovacionando-a. Tom Arm­strong aproveitou esse tumulto para se retirar. Despe­diu-se apenas de Suzana, a quem saudou com um rá­pido boa noite, e de Van Tuyl a quem estendeu a mão, mudo e envergonhado. Esta atitude era, aliás, bem característica de Tom: sempre que se punha nervoso, encabulado, ou se sentia diminuído em seu amor pró­prio, perdia suas boas maneiras, e reagia por impulso, como todos os tímidos. Por isso, fugiu.

Durante todo o tempo em que a Cavallini cantou, Tom permaneceu no topo da escada., debruçado sobre o corrimão, possuído da beleza daquela voz. Absor­to, nem se recordava, ao ouvi-la, do solene "sermão" que havia passado na cantora, até que, afinal, o "Rou­xinol de Ouro" calou-se, e Tom recuperou o raciocínio. Procurou Van Tuyl, que ainda julgava ali perto, mas o Mecenas ha muito se retirara, para atender a seus convidados, depois de lançar um derradeiro olhar, de piedade e de inveja, para o êxtase de Tom.

Vendo-se sozinho, o jovem apanhou a capa e o chapéu, deslizou pela escada sem fazer ruído, e, de­pois de cumprimentar Van Tuyl e Suzana, esgueirou-se pela porta particular. Uma vez na rua, pôs-se a vagar a esmo, sem rumo, e sem objetivo definido, recordando, recordando... Ao rememorar o incidente, os seus por-menores, examinando retrospectivamente a intenção oculta daquela mulher, que escarnecera e zombara de sua boa fé, esquecia, de quando em quando, sua qualidade de sacerdote, e amaldiçoava-a com raiva, ferido no seu orgulho.

Nestes momentos, ao proferir o anátema, estudava o passo, caminhava para a frente, para a fren­te... Para onde? Nem o próprio Tom saberia dizê-lo. Mas, o que é certo, indubitável, é que, ao evocar todo o episódio, mal acabava de amaldiçoar a impudicícia24 e a maldade daquela mulher, descerrava o sobre-cenho e sorria, banhado pela luz de uma certeza — a certeza de que, no dia seguinte, ás quatro horas da tarde, reeditaria o dialogo delicioso com a mulher diabólica.

­

Van Tuyl acompanhou Margarida até a carrua­gem. Ela não consentiu que ele lhe fizesse compa­nhia até o hotel, despedindo-se do fidalgo com um frio adeus de dedos.



Já era tarde, de sorte que os convidados come­çavam a retirar-se aos grupos, deixando os salões desertos. Mas a sala de refeição ainda estava cheia, e Suzana fazia as vezes de hospedeira, pois Van Tuyl, assim que voltou da rua, subiu rapidamente a escada, dirigindo-se para a biblioteca, onde estava formada sua "rodinha" de Íntimos. Para estes, a noite ainda estava começando. Numa mesinha de jogo, Lester Wallack e a srta. Heron disputavam uma partida de jogo. Ao redor deles, um grupinho de cavalheiros e de senhoras "torcia" acompanhando os lances. Lá esta­vam o sr. Winter, a sra. Scott Siddons, Ole Buli e mais alguns.

Junto á cadeira da srta. Heron, uma linda moça, de cabelos ruivos, acompanhava seu jogo, dando pal­pites. Era Agnes Ethel. Próximo a ela, Agostinho Daly palestrava muito animado. Aliás, quase todos falavam ao mesmo tempo. Principalmente um homem magrinho, de olhinhos muito vivos, e que ostentava no peito da camisa uns botões enormes, de brilhantes.

— Quem é este magricela? — perguntou Agnes, co­chichando, á srta. Heron.

— Minha filha — respondeu a atriz, olhe bem para ele; é o Allston Brown. Trate de convencê-lo de que você só tem quinze anos, porque, apesar de cava­lheiro, ele é um demônio nesse negocio de datas! Ele é a "asa negra" dos editores e escritores. Pergunte ao Carlos Dana e ao Horacio Greeley — eles conhe­cem bem o magricela que lhes tornou a vida um in­ferno. Esse homem é um diabo! Ele escreve, enquanto come, um artigo para um jornal e responde ao ataque de um outro. Conhece o momento exato em que Cleopatra engoliu a primeira pérola, e pode dizer-lhe quando foi que a Esfinge quebrou o dente do sizo. E o pior é que ele sabe essas coisas de ver­dade, de sorte que ninguém tem coragem de negar. E não se importa com as conseqüências do que escreve sobre os outros, nem tem medo de que, depois de mor­to, a gente vá puxar-lhe as pernas e chamá-lo de men­tiroso.

Em seguida voltou-se para o "retratado" e cha­mou-o, com carinho, adulando-o:

— Allston, meu velho! Faça o favor, um momentinho.

Ele aproximou-se e ela fez a apresentação:

— Eu quero apresentar-lhe minha jovem discípula, a srta. Agnes Ethel. Você virá ao nosso vesperal de Camilla, no sábado, não é verdade? Eu conto, na certa, com a presença de você e do Winter— acrescentou a srta. Heron sorrindo e voltando o olhar significativamente para o lado do critico teatral.

Enquanto o sr. Brown, todo cerimonioso, cum­primentava a futura atriz, Agostinho Daly confidenciou á srta. Heron:

— É uma pequena encantadora, Mathilde. Em que esconderijo você a descobriu? Estou mesmo com idéia de experimentá-la. Será uma oportunidade magnífica... Creio que ela poderá desempenhar a "garota do Oeste" na peça que vou lançar — Horizonte.

— Aquele cabelinho ruivo vai levá-la longe, meu caro! — respondeu a srta. Heron, satisfeita. — E isso, para não falar da beleza da pequena. Está claro que, por enquanto, ela não entende quase nada de técnica e isso vai prejudicá-la um pouco, no sábado. Mas ela tem graça, tem charme, e, mais que isso, meu velho, tem o que nós dois estamos perdendo de todo — mocidade. E você sabe muito bem que isso é o princi­pal — mocidade!

— Minha cara Mathilde — acudiu o jovem diretor, gracejando — você sabe que nunca fui curandeiro. Mas, francamente, não compreendo por que motivo você não faz um pouco de ginástica, ou, se acha muito cacete, por que não pratica essa nova dança de Bos­ton? Ouvi dizer que é ótima como exercício e que a sra. Lander já perdeu mais de dez quilos, dançando, durante quatro horas, todas as manhãs. Você deve saber como os jovens apreciam esta dança infernal; é um furor, uma verdadeira mania! Se o teatro não reagir já, não sei, tomara que eu erre, mas tenho a impressão de que a mocidade desertará das platéias. Somente nós, os velhos, ficaremos sentados nas cadei­ras, porque as moças-e os rapazes preferem ir ao "Del-tnonico" ou a qualquer outro restaurante de luxo, ou ainda a qualquer dancing barato... onde dance a tal dança. Observe esse fenômeno, principalmente nas vésperas. Gente moça não ha, porque está toda nes­ses tais "chás dançantes", que duram a tarde in­teira...

— Fazem eles muito bem! — replicou a srta. He­ron. — São moços, divirtam-se. E, por que condenar essa distração se ela constitui, como você mesmo disse, um exercício saudável? Além do mais, a dança afasta a juventude de outros perigos, de tentações más. E, já que você faz tão boa propaganda das virtudes anti-obesas dessa dança, creio que vou aprende-la... Agora, quanto a essa ausência de mocidade nas nos­sas platéias, admira-me, Daly, que você, inteligente como é, atribua á pobre dança. A culpa é nossa, isso sim, dos escritores, dos empresários e dos ar­tistas. Escrevam vocês algo que mereça ser visto, no­vo, vivo — e veremos os teatros regurgitando, outra vez, de gente nova. Mas agora, quando ainda hoje o sr. Winter escreveu que minha pobre Camila já está morta e enterrada; quando você mesmo, Agostinho, tem que reconhecer que a sua Leah já está mais que vista, velha, batida — que é que a mocidade pode ver em nossos teatros?

— Ah!... — respondeu Agostinho Daly, suspirando — se eu tornasse a conceber um tema do valor de Leah... Que sorte, minha amiga! Só assim eu me mudaria da "rua da amargura"...

— Se você continuar nessa expectativa, não se mudará nunca! — interveio Guilherme Winter fazendo gracejo. — E eu lhe explico o motivo. É porque somente uma vez na vida um homem encontra, como você, um tema em que a compaixão e o terror estejam tão bem jogados.

— Por falar em temas — perguntou Lester Walack intervindo na palestra — algum de vocês já soube do êxito extraordinário que o Dion Boucicault obteve em Londres? Eu estive fazendo as contas hoje de manhã. Aquele finório, danado de sorte, já obteve oito grandes sucessos, um atrás do outro, seguidos.

— Oito?! — indagaram, a uma voz, vários incré­dulos.

— Oito — confirmou Wallack começando a contar nos dedos. Cada peça foi um "tiro"! Só no "Gaiety" ele montou Arrúhnapogue, Dentro da noite, As ruas de Londres, A presa de caça, Fuga pelo ar, e... etc. Foram todas um sucesso! Não me admira que esse diabo experto se ponha nas pontas dos pés, e nos diga no rosto, como ele gosta de dizer: "Eu não compreendo como é que o publico vem ver as peças de vo­cês, se meu nome não estiver no meio. Desse modo eu acabo abastecendo o mundo!" Isso é genial, conve­nhamos, absolutamente genial!

— Gênio! Que exagero! — retorquiu a srta. He­ron. — A não ser que você entenda por gênio a capaci­dade de produzir, uns sobre outros, enredos de amar­gura. Eu explico o sucesso de Boucicault de um mo­do muito diferente. Ele é um lingüista, vocês sabem, um poliglota. E o erro de vocês todos, do Agosti­nho e de todos os dramaturgos americanos, é apren­der demasiado tarde um bocado de francês e de alemão. O Dion foi mais prudente que vocês, porque ele absorveu todas as línguas da Babel quando haurida25 ainda o leite materno.

Dois jovens aproximaram-se, um tanto acanha­dos, da srta. Heron.

— Desculpe-me, srta. Heron — balbuciou um deles, mas... nós fizemos uma aposta e desejamos que a senhora seja o arbitro. Meu amigo afirma que Dou­glas Stuart foi o nosso primeiro interprete de "Armand Duval"; e eu que o nosso primeiro "Armand" foi Eduardo Sothern.

— Cavalheiros — sorriu a atriz, levantando-se — os dois ganharam. Douglas Stuart era Eduardo Sothern! A mesma pessoa com dois nomes. Mas, como não ti­nha coragem de surgir com seu verdadeiro nome, an­tes de seu esplendido êxito no papel de "Lord Dundreary" ao lado de Laura Keene, na peça O primo da Ameri­ca, ele adotou o nome de Stuart. Aliás, isso é coisa comum. Meu "vis-à-vis", por exemplo?— e ela apon­tou, sorrindo, a figura do.sr. Wallack — é igualmente um criminoso, nesse sentido. Com toda a certeza, quando vocês eram meninos, tiveram ocasião de aplaudir o grande cômico chamado João Lester. Pois bem, aqui está ele! Não foi senão recentemente, após a morte de seu notável progenitor, que o cômico aplaudido se permitiu usar seu ilustre nome — Lester Wal­lack. Quanto a mim, nunca achei motivos para pro­ceder desse modo. Atriz, não senti, graças a Deus, obrigação de ocultar meu nome. E Heron, que é um velho e respeitável nome aqui na America, foi o nome que eu ostentei no palco!

Um senhor de cabelos grisalhos, que acabara de entrar no aposento, acercou-se do jovem Winter, que parecia a personalidade de maior relevo do grupo.

— Meu caro senhor — começou o cavalheiro idoso — muito embora eu não tenha o prazer de lhe haver si­do apresentado, permita-me felicitá-lo pelo seu es­plendido artigo na Tribuna de hoje.

— Céus! — cochichou a srta. Heron ao ouvido de Agostinho Daly. — O velho está elogiando o Winter por ter desancado a minha pobre Camilla!

— Refiro-me ao artigo inserto na seção "Bas­tidores", prosseguiu o velho. Na ultima quinzena, apro­veitando a ausência de minha família, tentei inutil­mente assistir a uma representação da srta. Lydia Thompson. Nessas quatro vezes, como eu não con­seguisse reservar localidade na bilheteria, fui assal­tado, á entrada do teatro, por um verdadeiro bando de cambistas, que sobraçavam pacotes de entradas, e que desejavam, á viva força, que eu lhes adquirisse os bilhetes por um preço extorsivo. Mas, apesar de gran­de entusiasta do teatro, julgo-me um cidadão livre e não me sujeito a essa exploração sem limites. Se é exato o que o senhor assegura em seu artigo, que, doravante, esses gatunos têm de se conservar pelo me­nos a dez metros das bilheterias, já amanhã á noite voltarei ao teatro, porque, só assim, se poderá che­gar á bilheteria ou conseguir que nos reservem locali­dades. Eu lhe agradeço, meu caro senhor, esse ótimo serviço que prestou ao publico.

— Céus! — exclamou a srta. Heron intervindo na conversa. — Será possível que vão ressuscitar a velha guerra aos cambistas, Winter? E que falta de imagi­nação! Ha treze anos, quando interpretei a Camilla pela primeira vez, sempre que nos chegavam reclama­ções do publico contra os cambistas, nós não tínhamos duvida — no dia seguinte os jornais publicavam essa noticia dos dez metros de distancia, mas... tudo con­tinuava como antes. Isso é velho como aquela ve­lha desculpa para os insucessos: ha excesso de tea­tros. Eu li, a dias, uma noticia a esse respeito, no­ticia que me divertiu imenso. Teatros demais! An­tes de escreverem essas coisas, esses jornalistas devem lembrar-se de que, contando os dois circos, nós pos­suímos apenas vinte casas de espetáculos, para uma cidade que cresce dia a dia!

— Ai está uma observação exata — interpôs Van Tuyl. — Vou contar-lhes um episódio, para vocês verem como a historia se repete. Ha poucos dias o Carlos Dana me levou ao escritório do Horacio Greeley. Como o Horacio demorasse a chegar, nós nos pusemos a examinar uns pacotes de jornais antigos, que estavam nas prateleiras. Abri um deles, por passa­tempo, e retirei um exemplar. Era um numero do Espelho, um vespertino ha muito morto e desapare­cido. Pois bem, esse exemplar tinha a data de 1826, e, sabem vocês qual era o titulo do artigo de fundo? "O excesso de teatros". E sabem quantos teatros havia então? Quatro!

Um vozeirão grosso intrometeu-se na conversa:

— Todo o transtorno da situação teatral vem dessa abundância de novelas dramatizadas. Com A mão secreta de lady Southworth, O segredo de lady Audley da srta. Braddon, e todas essas velharias me­losas e sentimentais de Dickens, o teatro americano está indo por água abaixo...

Quem assim falava era Rankin McKee, que fazia o papel de herói no melodrama de Boucicault — Dentro da noite, que nessa ocasião constituía o grande êxi­to teatral de Nova York.

— Eu acabo de ver a srta. Thompson — disse Bronson Howard, jovem jornalista e escritor teatral. —Que criatura alegre, meus amigos! Mas, ainda agora, ela ficou furiosa, e ameaçou voltar para a Inglaterra. E ninguém pode censurá-la, essa é a verdade. Vocês calculam o que o idiota do empresário desejava? Pois, não contente com as multidões que a srta. Thompson tem levado ao seu teatro, o empresário queria sim­plesmente organizar um espetáculo extra, em que os artistas nada ganhavam, com o pretexto de que ele vai instalar á porta do teatro uma grande figura de animal do deserto. A srta. Thompson — prosseguiu o jovem orgulhoso dessa demonstração de confiança e intimidade— mostrou-me a resposta que ia mandar ao empresário. Que resposta, meus amigos! Aquilo é que se chama um legitimo ultimato! Eu me recordo bem do final, que é assim: "Não faço a menor objeção ás intenções de elevar o nível do palco americano ao mais alto possível, mas, ao mesmo tempo, eu lhe asseguro, meu caro senhor, que não permitirei, ja­mais, que minha pessoa ou a de qualquer dos meus companheiros de elenco seja dirigida por um técnico que se revela técnico em estrebarias"!

"E, a propósito — continuou o jornalista — vocês co­nhecem a ultima do Barnum? Ele está construindo um vasto prédio na cidade, como vocês sabem; ou me­lhor, ele não — a mulher. Pois bem, Barnum dera "carta branca" para ela gastar quanto quisesse. Por isso, entre outras coisas, ela contratou um pintor na Europa para vir decorar os três quartos de banho da casa. E ele pintou no teto dos banheiros uns cupidozinhos esquisitos, inteiramente nus. Quando a casa ficou pronta o Barnum foi inspecioná-la. Era a pri­meira vez que pisava lá. Assim que viu os tais cupidos, ficou furioso, e mandou buscar três latas de tinta. Trepou numa escada, e zás! pintou em cada cupido um par de calcinhas, umas amarelas, outras verdes e outras azuis. A pobre senhora quase desmaiou, natu­ralmente, quando reparou na toilette dos anjinhos. Mas a explicação do Barnum foi ótima. Depois de pregar uma lição de moral na mulher, concluiu que não po­deria consentir, de modo nenhum, que sua reputação fosse destruída por um bando de criancinhas, que não tinham uma fralda sobre o corpo...

Assim que o jornalista terminou, as srtas. Heron e Ethel levantaram-se para se retirar. Agostinho Daly pediu permissão para assistir a um ensaio de ambas, e os três começaram a descer a escada. A jovem es­treante aproveitou a ocasião e dirigiu-se ao famoso empresário:

— Sr. Daly, preciso agradecer-lhe a generosida­de de me oferecer o papel de protagonista de Hori­zonte. Mas preciso dizer-lhe uma coisa antes de prosseguirmos. E a srta. Heron nada deve saber, porque discorda inteiramente de mim, a este respeito. Trata­-se do seguinte: se meu papel é o de uma ingênua do Oeste, uma caipirinha, eu usarei de boa vontade qual­quer vestidinho barato, de algodão ou estampado; mas se, mais tarde, em qualquer outra peça, me for entre­gue um papel de princesa, de grande dama ou mesmo de alguma americana "nova rica", estou disposta a pagar os vestidos que devo usar, e, nesse caso, previno-o de uma coisa: se a peça indicar um vestido de seda ou algum brocado fino, comprarei coisa legitima, recusando-me a usar essas imitações que tenho visto por ai. Reconheço que sou uma novata e que não entendo nada de teatro, sob um critério profissional. Mas, como moça que freqüenta os teatros assiduamente, devo dizer-lhe, sr. Daly, que o que choca ter­rivelmente os espectadores, desgostando principal­mente as senhoras, são os péssimos e horríveis vesti­dos que as nossas maiores atrizes apresentam.

Agostinho Daly sorriu satisfeito. Era o primeiro sorriso que se lhe via naquela noite, e foi sor­rindo que respondeu.

— Minha querida criança, deixe-me contar-lhe um segredo. Eu também tive meus sonhos de teatro — sonhos que não revelei a ninguém, até agora. Você tem toda a razão de criticar as toiletes das artistas. Nada valem os trapos e fustões ordinários. Por isso — e aqui está meu sonho, minha querida — pretendo formar uma grande companhia, com ótimo elenco, cenários e guarda-roupas, que obedeça absoluta e in­teiramente ao meu próprio controle. Assim que a com­panhia estiver constituída, quero montar uma peça de grande luxo, com aposentos verdadeiros, portas autenticas, de madeira ou do que for, mas nunca esses panos e papeis remendados, cuja pintura, quase gasta, o pobre publico vem suportando ha anos.

— Que conversa é essa, de portas autenticas? — perguntou a srta. Heron voltando-se para ambos.

Já estavam os três na calçada e Agostinho Daly dispunha-se a ajudar as atrizes a subirem ao cabriolé.

— Pelo que vejo, você continua com os seus de­vaneios — prosseguiu a srta. Heron numa pose de quem encarna toda a experiência. — Lembre-se de que, na vi­da, poucas coisas são cacetes como uma porta fecha­da. E uma porta que se fecha, com estrondo, no nariz da gente, diz muito mais injurias e desaforos que qual­quer dicionário avantajado... No palco acontece a mesma coisa. Ha situações em que os perjúrios, os im­propérios não dramatizam suficientemente. Recorre-se á porta, nesse caso. Portanto, Agostinho, concluiu a grande trágica sorrindo, quando você apresentar esta pequena, use mesmo as suas portas verdadeiras...

E disse-lhe adeus com um gesto da mão. Seu rosto estava iluminado por um de seus raros, maravilhosos sorrisos. E, á guisa de despedida, lançou este ultimo gracejo ao renovador teatral:

— Deus abençoe você e suas portas autenticas, meu velho. E até á vista, no seu Horizonte.

Agostinho Daly estendeu galantemente a mão á jovem que se assentara junto á portinhola do cabriolé. E, bem humorado, preveniu a futura grande atriz dos palcos norte-americanos:

— Lembre-se, srta. Ethel, de que é um dos ele­mentos de relevo da Companhia Agostinho Daly; a senhorita exibirá os vestidos verdadeiros, que reclama, e eu me encarregarei de embasbacar o publico com portas verdadeiras...

O ultimo convidado que se retirou da casa de Cornelio Van Tuyl, nessa noite, foi Floyd Jones, um rapaz simpático; fora ele que apanhara a flor que Margarida Cavallini atirara, prometendo uma contra dança ao vencedor. Com a flor na mão, cansado de espe­rar que a diva cumprisse a promessa, o rapaz dor­mira numa poltrona, em uma saleta que havia ficado deserta, desde logo.

— A festa terminou, felizmente — disse Van Tuy a Suzana, ao fechar a porta da frente por onde acabava de sair o ultimo convidado, ao mesmo tempo que lançava um rápido olhar sobre os salões vazios, ainda ha pouco regorgitantes.

A jovem encarou o tio e achou-o, nesse momento, mais velho do que nunca. E foi por senti-lo triste envelhecido, que fingiu aceder de boa vontade ao convite do tio para que não fosse deitar-se.

O fidalgo abriu uma janela, e nela apoiou os cotovelos, pensativo, aspirando o ar da manhã. Suzana sentou-se ao piano e, automaticamente, se pôs a executar acordes dispersos. Ouvindo-a, Van Tuyl mergulhou o corpo numa poltrona.

— Bravo, minha querida! Toque alguma coisa. Ou melhor ainda, cante, cante algo bonito...

— Cantar?! Cantar agora, depois que ouvimos a voz da Cavallini?! Ora, titio, isto até parece um sacrilégio!

— Não fale assim, minha filha — respondeu o Mecenas com um sorriso melancólico. — As árias de opera cansam a gente depressa. Eu, por exemplo, fiquei com uma terrível dor de cabeça e com os nervos em pandarecos. Sua voz diminuirá minha dor, porque é alegre. Cante aquela canção que você cantou para o Tom, no domingo.

— Você se refere ao Christão, titio? — indagou Su­zana, surpresa com o pedido, pois bem sabia quanto o tio detestava os hinos religiosos.

— Sim, isso mesmo...

Suzana correu os dedos pelo teclado, ao mesmo tempo que começou a cantar, a meia voz, quase em sussurro:


Well I know thy trouble,

0 my servant true. Thou wast very weary,

1 was weary too.

But this toil shall make thee Some day all my own, And the end of sorrow Shall be near, My Throne!
— Eu não aprecio muito estes versículos — comentou Van Tuyl quando a sobrinha se calou. —Eles ape­nas encerram uma promessa vaga, você não acha?

Em seguida, mudando subitamente de assunto, indagou:

— E que houve com o Tom, minha flor? Adi­vinhei... ou ele não lhe falou nada do que esperá­vamos?

Suzana sorriu.

— O Tom? Ora, ele nem teve tempo de falar comigo. Esteve tão ocupado... E além disso, co­mo já lhe disse, ignoro o que ele terá para me dizer...

— Escute, minha filha... — E Van Tuyl colheu a mão de Suzana e começou a afagá-la. — Você não de­ve zangar-se com o Tom somente porque ele andou dando olhadelas para uma outra mulher bonita, esta noite.

— Zangar-me?! Ora, querem ver que o meu ve­lhinho já está caducando? — tornou a moça com um sorriso forçado. E continuou — Que é que eu tenho a ver com isso? Faz ele muito bem; é o melhor que tem a fazer na vida. Uma desenxabida, como eu, não poderia dar a ele um mundo cheio de maravilhas. E ela... pode ser que ela o transforme num ser huma­no, vulgar e feliz. Não, titio, não é o Tom que eu lamento, mas sim a sra. Cavallini!

— Por que, minha filha?

— Por uma razão muito simples, titio. Porque eu gosto dela por certos motivos, e porque minha intuição feminina já me preveniu que ela corre o perigo de se apaixonar pelo Tom.

— Não é nela que eu estou pensando, mas em você, Suzaninha — disse Van Tuyl um pouco nervoso. — Se eu imaginasse que, trazendo-a aqui, eu acarretaria, sem querer, qualquer dor para você...

— Que idéia! Nem pense nisso, titio — atalhou a jovem, beijando-o para se retirar. — Isso durará pouco tempo. Ela parte para a Europa no dia primeiro de janeiro. E, nesse entretempo, eu ajudarei a dar ao Tom um conceito mais liberal sobre a Vida.

Suzana segurou, com as mãos, a lapela do paletó do tio, e acrescentou, sacudindo-o, como uma criança:

— E você não tem que ficar triste por minha causa. Vamos; está na hora de ir dormir, meu velhinho! — Suzana encaminhou-se para a escada. Van Tuyl ficou a olhá-la, penalizado, e não pôde conter nos lábios esta exclamação:

— Meu Deus, que embrulhada medonha eu fiz!



CAPÍTULO XIV
A tarde de 30 de dezembro de 1868 extinguia-se lentamente, quando Suzana penetrou na biblioteca do reitor de St. Giles. Sua chegada intempesti­va espantou a srta. Elizabeth Armstrong, uma tia solteirona de Tom, puritana e um tanto ranzinza.

— Suzana! Que prazer! — exclamou a velha se­nhora, interrompendo a tarefa a que estava entregue, isto é, a arrumação de um enorme molho de rosas, ha­via pouco recebido das mãos de um mensageiro.

— Eu subi um instantinho apenas para lhe de­sejar feliz Ano Novo, Elizabeth — disse Suzana sacudin­do a barra do vestido e o casaco salpicados de neve.

— Você não se estará apressando? — respondeu a solteirona procurando fazer espírito. — Olhe que ainda estamos na antevéspera do ano... — E mudando de assunto repentinamente: — Que ótimas cores, Suzana! Você está corada...

— Devo estar, pois acabo de caminhar léguas. Estou hoje num destes dias em que a gente dá graças a Deus por ter nascido. O Tom me pediu que viesse aqui, porque ele deseja que eu o auxilie nos últimos preparativos para a noite.

— Hoje? — interrogou a srta. Armstrong, surpresa.

— Sim, você sabe... É a festa dos órfãos e desamparados. O Tom faz questão este ano de muita pompa. Ele arranjou uma charanga, muitos archotes e o coro de meninos para percorrer as ruas an­tes da cerimônia na igreja — como faziam os antigos ingleses. E o percurso de hoje vai ser muito maior que o dos outros anos. Imagine que o cortejo tem de sair de St. Giles, descer até a rua Oitava, atravessar a praça Washington e, depois, subir a Quinta Aveni­da, na volta.

— Quer dizer que passa pela porta do Hotel Brevoort, não é? — sorriu a srta. Armstrong, com sarcas­mo. — Suzana, ele já lhe falou a respeito dessa tal?

— Ontem, no circo...

— No circo?! Meu sobrinho, o reverendo Thomas Armstrong, no circo?! Que é que ele foi cheirar por lá? Pois... ai está uma novidade incrível! Es­pero que você não seja cúmplice dessa leviandade, Suzana...

— Não. Eu já estava lá, numa roda muito gran­de. Fomos apreciar um peão excelente que monta animais em pêlo. É um tal Merville, um belo ra­paz, estupendo! E encontrei Tom, por acaso, pois ele estava acompanhando a sra. Cavallini.

Suzana parou um instante e, depois de observar a interlocutora, prosseguiu, esforçando-se por pare­cer sincera:

— Nós nos encontramos no meio da uma multi­dão. Se ele quisesse, poderia fingir que não me viu. Mas eles vieram cumprimentar-me, e a sra. Cavallini nos convidou para tomar chá no hotel. Ela é um en­canto, srta. Armstrong. Ainda ha poucos dias, como sabe, ela cantou no "Educandário de Moças", e as pequenas ficaram doidas por ela! Possui uma macaquinha, de nome Adelina, que é um amor! Você ha­via de gostar de Adelina. E, ainda hoje, a sra. Caval­líni me mandou um camarote para a recita de despe­dida, na Academia. Não é uma delicadeza da parte dela?

Suzana contemplou a solteirona, que ouvia, im­passível, os elogios que ela fazia á consagrada can­tora. Encabulada, a jovem mudou de assunto:

— E... por falar nisso, onde está o Tom, Eli­zabeth? Lá em cima?

— Não, ele ainda não voltou. Saiu, logo de­pois do lanche, para fazer não sei que visita.

— No Hotel Brevoort? — indagou Suzana, a sor­rir, simulando não ter ciúmes.

— Ignoro, querida. O Tom não me diz mais nada, ultimamente. Mas, ele deve chegar dentro de alguns minutos. Vai haver uma reunião de diaconisas aqui, ás cinco menos um quarto. E eu sei que ele não faltará!

— Bem; vejamos...

Suzana sorriu com malícia. Depois, reparou nas flores:

— Que lindas rosas, Elizabeth!

A solteirona não conteve um largo, derramado sorriso de satisfação. E com ar de mistério, adiantou:

— Chegaram agorinha mesmo, pouco antes de você. Vieram sem cartão. É curioso! Eu não consi­go imaginar quem teria tido esta gentileza...

— Uhm! uhm! — caçoou Suzana. — Algum admira­dor anônimo, heim?

— Que tolice, Suzana! — cortou a solteirona, rubo­rizada, com a atitude de quem admoesta, mas visivel­mente satisfeita. — É um tanto esquisito, confesso, misterioso mesmo! Ha tanto anos que não me man­dam flores...

Sobre uma escrivaninha, Suzana viu um envelope. Já estava fechado e a tinta ainda fresca. Curiosa, a moça não se conteve e leu o destino: "Horacio Greeley. Redação d'A Tribuna. Nova York". E observou:

— Creio, Elizabeth, que você não vai desconfiar do sr. Greeley. São velho amigos...

— Claro que não! — atalhou a outra, ranzinza. — E mesmo que fosse ele o misterioso galanteador, eu não teria nada para agradecer-lhe! Acabo de escrever a ele ordenando que cancele minha assinatura d' A Tribuna. Se eu tivesse algo a dizer a Greeley, diria que não admito que esse pasquim continue a sujar esta casa!

— Oh! Que foi que a pobre A Tribuna lhe fez?

— É um assunto que não posso revelar-lhe, por enquanto, Suzana; um assunto que me deixou indignada. E que me convenceu de que meus receios em relação a você eram inteiramente desnecessários. Pois bem; vou contar, por alto. Não faz ainda meia hora, Suzana, que daqui saiu um repórter daquele jornal atrevido. Você é capaz de imaginar o que foi que ele teve o topete de me perguntar? A mim, tia única de Tom Armstrong?

A srta. Armstrong não podia disfarçar sua irri­tação. Seus lábios tremiam e o rosto estava vermelho de indignação. Suzana fitou-a, estupefata. E ela, estalando os dedos, inclinou-se para a jovem e desabafou.

— Pois o pelintra me perguntou se era verdade que Tom pretendia anunciar seu noivado com essa italianinha de teatro, antes do embarque dela, amanhã, para a Europa!

— Mas... Elizabeth — ponderou Suzana — você não deve censurar o pobre rapaz que lhe fez essa pergun­ta. E nem deve amaldiçoar a Tribuna somente porque procura dar as novidades... Mesmo porque, por mais absurdo que lhe pareça, muita gente me tem perguntado a mesmíssima coisa, de uns quinze dias para cá...

— Que petulância! Que desaforo! — apontou a solteirona. E inquiriu, nervosa — Que foi que você respondeu a essa gente, Suzana?

— Eu não disse nada, nem uma palavra. Apenas sorri, de um modo enigmático, dando a entender que nada sabia. E posso gabar-me de ser entendida em sorrisos; ficaram todos no ar... Mas, acredite-me, Elizabeth... não ha motivo para nos apoquentarmos por isso. A sra. Cavallini não se casará com o Tom. Ela não é nenhuma insensata, como você está pen­sando.

— E o Tom, Suzana? Eu nunca falei isto a nin­guém, é claro, mas... essa mulher está desmoralizan­do o Tom! Ela o levou ao teatro, convenceu-o a que a introduzisse no Educandário, e, agora, como você me disse, o arrastou como um tonto para o circo...

— E que tem isso? — perguntou a moça. — Não vejo mal nenhum! Eles não se divertiram com o espetáculo? E o espetáculo não tem nada de impró­prio, toda a sociedade vai vê-lo... Saiba, Elizabeth, que "aquela mulher", como você designa a sra. Ca­vallini, fez mais pelo Tom e ensinou-lhe muitas coi­sas úteis, em poucos dias, do que nós duas e todas essas diaconisas poderíamos fazer numa existência inteirinha. Se, algum dia, eu tiver de me casar com o Tom, só o farei quando ele for bispo; e um bispo de verdade, Elizabeth, um bispo eficiente e consciente é preciso ter sido, pelo menos durante algumas sema­nas de sua vida, um verdadeiro homem do mundo, profano e pecador! Portanto, não deplore a sorte do Tom; não é um infortúnio, mas uma felicidade. O que acontece é que ele está deixando seu estado de chisaflida. Este ligeiro desvio, controlado pela fé que o ilumina, vai torná-lo menos intolerante e mais indulgente para com as fraquezas alheias.

Neste instante o criado entrou para comunicar a chegada de Van Tuyl. Suzana levantou-se, e expli­cou, satisfeita, que o tio lhe prometera vir buscá-la para um passeio na nova carruagem, comprada ha dias.

— Como vai, srta. Armstrong? — irrompeu Van Tuyl pela sala. E continuou, ao mesmo tempo que tirava o casaco de peles e as luvas de guiar — Que tempinho de Ano Novo, heim? — Voltou-se para a so­brinha, sorridente — E você, Suzana? Eu estava certo de encontrar você e o Tom, gesticulando, afinando a voz no ensaio para a procissão desta noite.

— Tom não está! — sorriu Suzana significativamen­te. — E eu vou deixá-lo aqui, conversando com Elizabeth, enquanto o Ralph me leva para casa.

— Boa idéia! Você sabe que eu não gosto de deixar os cavalos parados.

Van Tuyl dirigiu-se á janela e olhou, satisfeito, para a rua.

— Já viu minha nova carruagem, srta. Armstrong? E os animais? Ah, creio que fiz um bom negocio! São os mais fogosos que já vi em Nova York... Observe aquele á direita. É o mais alto da cidade, ligeiro, e macio de boca como nenhum...

— No mínimo estão achando Nova York pouco civilizada — replicou a srta. Armstrong, lançando uma olhadela desinteressada para os animais. E, voltando-se para Suzana, depois de beijar-lhe o rosto —Até logo, querida. Diga ao Ralph que tenha muito cuidado com os cavalos.

— Até logo, Elizabeth. E não se aborreça. Eu tenho queda para adivinha, você sabe, e acho que isso não passa de uma tempestade de inverno, de véspera de Ano Novo. Estou certa de que ainda vamos ter uma. Páscoa deliciosa...

Assim que Suzana se retirou, a solteirona aproxi­mou-se do fidalgo, chorando convulsamente :

— Oh, sr. Van Tuyl, eu não, aguento mais esta aflição!

— Mas, de que se trata? Que é que a angustia?

— Tenho vergonha de falar sobre este assunto, mas... não posso! Não suporto esta dor sozinha!

— Ora, srta. Elizabeth — animou-a Van Tuyl, ca­rinhoso. — Fale, desabafe! Pode confiar em mim...

— O senhor é o melhor amigo de Tom. Foi ami­go dos pais dele, e é o paroquiano mais intimo — o protetor da paróquia.

— Já sei, já sei...

— Salve-o, sr. Van Tuyl! Salve-o dessa mulher diabólica!

— Já fiz o que pude — respondeu o fidalgo. — Ele me procurou, no sábado, para falarmos a respeito do ginásio. Aconselhei-o, então, como faria com um filho.

— E... que foi que ele respondeu?

— Aceitou meus conselhos com muita docilidade, mas... parece-me que não era o verdadeiro Tom quem eu ouvia. Ele mesmo parecia estar alheio a tu­do que eu ponderava...

— Eu sei o que o senhor está pensando. Já per­cebi também. E... não adianta imaginarmos onde ele está agora. Ele não está nem no púlpito, nem na missão; está com ela!

— Ora, vamos, vamos! Não é necessário alar­mar-se — tranquilizou-a Van Tuyl, apaziguador. — Ela em­barca amanhã cedo para a Europa. Eles têm ape­nas um dia...

Van Tuyl calou-se de repente. A srta. Armstrong encarou-o, interrogativamente:

— Que é que ha? — perguntou a assustadiça sol­teirona.

— Uma carruagem — respondeu ele olhando pe­la vidraça. E, atônito — É ela! Parou na sua porta!

— A tal Cavallini?

— Sim... Pelos modos, parece que vem fazer-lhe uma visita.

Elizabeth Armstrong ficou atônita. Apanhou a sineta e ia vibrá-la, quando Van Tuyl se precipitou:

— Que vai fazer?

— Prevenir o criado para dizer que não estou em casa.

— Não faça isso, minha amiga... Deixe, deixe que ela entre. Talvez seja conveniente eu falar com ela...

— Muito bem. O senhor a obrigará a prometer que não mais escreverá a Tom.

— Farei tudo que puder.

— Devia haver uma lei contra essas mulheres! — imprecou a solteirona. — Se eu soubesse desta visita, havia de ter um tigre faminto nesta sala.

— A sra. Cavallini — anunciou o criado.

— Como está, minha cara senhorita? — embarafustou Margarida, sala adentro. — Subi apenas por um minuto para dizer-lhe adeus...

Margarida Cavallini trazia um magnífico vesti­do de veludo negro, e sobre ele um casaco de arminho. As mangas do casaco, muito largas, escondiam qualquer coisa. A srta. Armstrong notou e, fingin­do grande susto, recuou com um grito:

— Oh, que bicho é esse?

— Ah! eu trouxe meu nenêzinho para cumprimentá-la também — respondeu a cantora, sem cerimônia, apesar da má vontade da dona da casa. — Chamo-o assim porque, como vivo sozinha... Enfim, a senho­rita também não tem filhos, e compreende...

Neste momento, notando a presença de Van Tuyl, dirigiu-se a ele, noutro tom de voz:

— Oh, como está, sr. Van Tuyl? — Apertaram-se as mãos. O aristocrata tomou a palavra:

— Como está, minha senhora? Ha quanto tem­po não nos vemos!

— É verdade. Desde a noite de sua linda festa...

— E Adelina? — Van Tuyl cocou com os dedos a cabeça da macaquinha. — Comment çá vá, mademoiselle?

— Adelina? — perguntou a srta. Armstrong.

— Sim — respondeu a Cavallini. — Batizei-a com esse nome, porque ela se parece muito com a Patti, na Traviaía. — E voltando-se para Van Tuyl — Pensei que ela não o conhecesse mais...

— Era bem possível. É mulher...

— Ah, é assim? As vezes, seria muito bom que os homens soubessem esquecer!

Margarida retirou a macaquinha do regalo e co­meçou a dizer-lhe caricias em italiano:

— Tesoruccio mio, sei quasi gelaíd! Non im­porta, che ci fa caldo.

A srta. Armstrong olhou o animalzinho. E não conteve uma exclamação de espanto:

— Mas... o bicho está vestido!

— Claro que está! — afirmou Margarida, com desfaçatez. E irônica — Ela também é senhorita... Não podia apresentar-se — como é que se diz? — desnuda.

— Que animalzinho horrível! — exclamou a soltei­rona, mal humorada.

— Grazie, grazie. A senhorita ofendeu os sen­timentos dela. Veja: está querendo gritar. — E, sem mais se incomodar com a presença da solteirona, tor­nou a agasalhar a macaquinha. — Beleza mia, dormi, dormi...

Van Tuyl e a solteirona observavam a falta de cerimônia da cantora.

Por fim, ela dirigiu-se ao fidalgo e perguntou-lhe:

— Não é verdade que ela se parece comigo? A pobrezinha não se sente feliz onde não é apre­ciada...

Voltou as costas aos dois que continuavam de pé, despiu seu magnífico casaco, estendeu-o sobre uma poltrona e deitou a macaquinha sobre o custoso abrigo.

— É melhor que ela fique aqui, perto do fogo, porque dorme logo. — Afagou o animal. — Dormi, dor­mi, bambina mia. Tu non faresti male a nessuno.

Nesse instante, muito á vontade, ela virou-se para a srta. Armstrong e lhe disse — Madona! Ia-me esquecen­do... Tenho um recado do sr. Tom para a senhorita.

— A senhora o encontrou?

— Claro! Nós demos um passeio juntos. E eu o deixei no... no — como é que se diz?

— Educ... Educandario, eco.

— E ele não vem para casa?

— Sim; ele disse que vinha logo. Mas como tenho pressa, vim antes para me despedir.

A solteirona fingiu não ver a mão que Marga­rida lhe estendia; e disse, voltando-se para Van Tuyl:

— Quando a sra. Cavallini se retirar, eu o esta­rei esperando na copa para tomarmos uma chávena de chá.

O aristocrata inclinou-se cavalheirescamente, em sinal de assentimento. Margarida não se deu por achada. Ao contrario, estava decidida a caçoar dos preconceitos da solteirona. E, para retê-la por mais alguns instantes na sala em que a quisera ofender, a Cavallini tornou a dirigir-se a ela, que já se achava próximo á porta:

— Ah! srta. Armstrong, chegaram bem as rosas?

— Que rosas?

— Estas. Fui eu mesma que as escolhi, com to­do o carinho...

— Então foi a senhora... quem mandou?

— Sim, tomei essa liberdade. É uma pequena lembrança de quem parte para muito longe.

Elizabeth Armstrong caiu das nuvens. Desva­neceram-se, num sopro, as secretas esperanças da "tia", que já havia imaginado um possível pretendente. Por isso, foi balbuciando que ela gaguejou um "muito obrigada". E, colérica, arrancou as rosas do jarro e espalhou-as sobre o móvel, dizendo ao fidalgo estu­pefato:

— Sr. Van Tuyl, faça o favor de mandar levar estas flores á sua carruagem! — E, para Margarida— Passe bem, senhora. Desejo-lhe boa viagem!

E retirou-se.

Margarida e Van Tuyl fitaram-se atônitos. Depois de alguns segundos, quase ao mesmo tempo, sacudiram os ombros num gesto de indiferença, e puseram-se a rir. Afinal, o fidalgo disse á atriz:

— Sente-se aqui, miquinha. Perto de mim. Vou ser seu confessor durante cinco minutos.

— Você quer censurar-me?

— Não sei; isso depende das respostas. Mas, ouça: o Tom pediu-a em casamento?

— Não.


— E se pedisse?

Ela vacilou um pouco, mas respondeu:

— Eu não aceitaria. Não quero casar-me com um religioso americano, pois ele exigiria que eu abandonasse o canto, e... por melhor que ele seja, sim... eu não posso viver aqui, nesta horrível Nova York, a cidade mais desagradável que conheço. Ah, não. Dentro de dois ou três meses a pobrezinha da Adelina morreria... E eu não poderia mais ir a Paris quando precisasse de um vestido... Isso me aborre­ceria... Eu ficaria doente também e... e talvez morresse, para satisfação de certas pessoas... — Margarida passou o lencinho nos olhos e con­cluiu, aos arrancos:

— Não, meu amigo. Sossegue que eu não me ca­sarei com ele. Diga, diga a toda a gente... para ficarem alegres! Eu não me casarei, porque seria um grande erro... e um mal para o Tom.

— Então, por que motivo está desencaminhando o rapaz?

— Desencaminhando?!

— Sim, virando a cabeça dele. Lembre-se de que ele não é igual a essa rapaziada que lhe faz a corte. Ele não é um barão Vigier, ou aquele seu capitão Ponsomby...

— Já sei, já sei! — gritou Margarida.

— E com que direito você se está divertindo á custa da ingenuidade dele?

— Divertindo? Quem foi que lhe disse isso? — Interrompeu Margarida com energia. E séria — Escute: Ha quanto tempo ele me conhece? Dois meses, não é? Pois fique sabendo que, até agora, ele não me disse uma palavra de amor, uma única sequer!

— Como assim? — interrogou Van Tuyl, incrédulo.

— Pois é isso. A principio, você sabe, eu pre­tendia fazer uma brincadeira com ele. Depois... não sei como foi... percebi que não podia brincar, e que talvez ele pudesse caçoar de mim!

— Pobre Margarida! — exclamou o fidalgo pesaroso.

Ela continuou, compenetrada de que devia con­fessar-se :

— As vezes eu dizia a mim mesma: "Mulher cega, não veja o Tom hoje, quando ele vier! Mande dizer a ele que você está dormindo, e que não recebe ninguém".

— E então?

— Eu disse ninguém, não foi? Pois bem, quan­do eu dava ordem á Vannucci, eu dizia "ninguém, nin­guém deste mundo... exceto o sr. Tom"! O' Dio come é dura la vita! suspirou Margarida.

— Sim, senhora, que belo resultado! — Observou Van Tuyl.

Margarida fitou-o com um olhar interrogativo. O velho amigo sorria, compadecido, fitando-a também. Então Margarida juntou as mãos em gesto de prece e suplicou ao fidalgo:

— Não se ria. Não caçoe de mim!

— Eu não estou caçoando, minha amiga!

E emudeceram, cabisbaixos, pensativos. Por fim Margarida recomeçou:

— Ah, meu caro, que grande tola que sou! E eu que sempre acreditei que era muito experta...

— Isso não é nada, minha filha; isso passa... Lembre-se de que você nos deixa amanhã.

— E você acha que ele me esquece, logo?

— Claro que sim... contanto que você nos ajude.

Margarida fixou os olhos no teto. Absorta, com os dedos das mãos entrelaçados sobre o joelho, a grande cantora suspirou:

— Eu acho que não o esquecerei nunca... Ou, pelo menos, que hei de lembrar-me dele durante mui­to, muito tempo!

— Ora, lembre-se do que a espera: Roma; a pri­mavera em Florença; o Lago de Como, todo azul, ro­deado de montanhas de penacho branco de neve... E Paris! Você verá florescerem as primeiras acácias no Boulevard St. Gèrmain. Aspirará o perfume de lilases, quando passear no Bois... Lá estará Gounod... e Rossini, seu velho amigo Rossini! Lembre-se dos jantares na "Maison Dorée". Pense nas ceias que Cora Pearl lhe oferecerá!

Margarida meneou a cabeça, sucumbida. E ga­guejou:

— Não; eu só vou pensar numa coisa...

— Em que?

— Que eu o amo! E amo Tom! — gritou, soluçando. Van Tuyl comoveu-se. Margarida estava sendo sincera, percebia-o. Por isso, mau grado sua calma e presença de espírito, o próprio fidalgo emudeceu, e foi a custo que ponderou, já sem energia para impor sua vontade, apenas querendo persuadir:

— Você vai fazer o Tom sofrer muito!

Sem saber o que responder, Margarida levantou-se e despregou um ramo de violetas preso ao vestido. Hesitou um pouco, mas decidiu-se. E, num ímpeto, es­tendendo as flores a Van Tuyl:

— Quando ele perguntar por mim, dê-lhe este ramo de violetas. São o meu adeus. Diga isso a ele!

E levou as violetas aos lábios, beijando-as sofregamente, como se desejasse deixar um pouco de sua alma com as pequeninas flores. Nesse momento abriu-se a porta, e Tom apareceu. Vinha alegre, com um grande sorriso infantil a iluminar-lhe o rosto e tam­bém os olhos.

— Pronto! Você pensava que eu nunca... — Interrompeu a frase de súbito, assim que viu

Van Tuyl. E, muito vermelho, confuso como um colegial, dirigiu-se ao velho amigo: — Oh, eu não o esperava! Como está, sr. Van Tuyl?

E estreitou na sua a mão amiga do fidalgo. Logo a seguir, voltou-se para Margarida, dizendo-lhe:

— Estou satisfeito de ver que você não me es­perou sozinha. Uff, como está frio lá fora! Estou ge­lado, e vim para casa a correr. Com licença. Vou atiçar o fogo, e, depois, vamos todos conversar e...

— Tom — interveio Van Tuyl — a sra. Cavallini es­tava-se retirando...

— Retirando-se? — interrogou o religioso angus­tiado.

— Sim — acorreu Margarida — eu preciso repousar um pouco, antes do espetáculo. Você compreende, é a ultima vez, de sorte que preciso estar muito bem disposta...

E dirigiu-se vagarosamente em direção á porta.

— Fique mais um instantinho! Não vá ainda! — suplicou Tom retendo-a pela mão e trazendo-a de novo para a poltrona.

— Mas, Tom... E o espetáculo? — gaguejou Mar­garida, obedecendo.

— Qual! É a Mignon, e você a conhece de cór e salteado...

Margarida sentou-se e olhou para Van Tuyl, descusando-se. O aristocrata, comovido, indicou com as mãos que nada mais poderia fazer. Enquanto isso Tom reavivava ò fogo da lareira e só se voltou ao ouvir a voz do criado comunicando a Van Tuyl que a srta. Armstrong mandava avisar que o chá esta­va servido e que ela o esperava. Ignorando a desfei­ta da tia, Tom o despachou, dizendo-lhe:

— Está muito bem. Avise que nós subiremos da­qui a pouco.






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