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CAPÍTULO III
— SUZANA, você fala como uma idiota! — excla­mou Henrique paternalmente, depois da tagarelice da irmã. — Se encontrar antigas recordações ainda conservadas, quando eu tomar posse da casa dos Van Tuyl, só consentirei que você remexa nelas se não forem muito escandalosas. E, agora, encerremos o assumto dos amores de vovô. Escute o que me interessa. Eu chamei você unicamente para lhe transmitir a grande novidade, pois vovô deve chegar num minuto.

— E por que você desperdiçou tanto tempo? — retorquiu Suzana. É o seu grande defeito, pois nunca chega a uma conclusão. Que mais tem a me dizer?

O rapaz hesitou um momento. Agitou as pernas nervosamente, de um lado para outro, e esquivou-se ao olhar da irmã.

— Está bem. Eu já lhe disse que estou comprometido com Lucilla, não é exato? Já assentamos es­te ponto.

— Continuemos — disse Suzana.

— Eu sou um rapaz que não acredita nos noiva­dos prolongados. Papai casou-se rapidamente, antes dos vinte e um anos, como você sabe.

— Sim, e com isso ele afligiu imensamente o coração de vovô — retorquiu a moça com vivacidade. — Foi uma vergonha para vovô esse procedimento. Por isso jamais perdoei a papai inteiramente. Se pretender fazer a mesma coisa, não falarei mais com você, Henrique, porque bem sabe que, desde que ficamos orfãos, vovô nos quer mais bem do que se nós fosse­mos seus próprios filhos.

— Ora, não fique triste. Eu não vou desgostar o coração de vovô, novamente. Por isso, estou aqui esta noite; e também por isso vim falar com você antes de me entender com ele. Ai está por que desejo que você empregue sua diplomacia, a pouco e pouco, á medida que for surpreendendo vovô nos seus momentos de be­nevolência. O que eu queria dizer-lhe é o seguinte: Caso-me com Lucilla amanhã, ás quatro horas da tarde.

— Amanhã?! — exclamou Suzana, alçando-se nas pontas dos pés. — Você está doido, Henrique? Onde já se viu tamanha precipitação? Além disso, amanhã é dia de Ano-Novo. Oh, Henrique, você não deve fa­zer isso! Se revelar sua resolução a vovô esta noite, irá estragar o Ano-Novo dele. Esta é a única noite em que ele recorda o ano de 1912, um dos melhores de sua vida, justamente porque eu e você o passamos em companhia dele, ajudando-o a remoçar6. E, agora, você quer amargurar o 1913 de vovô fazendo uma lou­cura destas! Aliás, vovô sempre disse que o treze é o seu numero aziago. Acho que você será brutal se fizer o que pretende. Espere pelo menos até fevereiro. Dê a Lucilla tempo de fazer o enxoval. Se ela concorda com semelhante plano, o minimo que posso julgar a seu respeito é que é uma gatinha caprichosa.

— Faça o favor de retirar suas referencias sobre Lucilla! Tudo isto é plano meu — atalhou Henrique, ir­ritado. — Lucilla porta-se como um anjo. Ela já disse mesmo que só se consideraria compromettida depois que vovô consentisse...

— Está bem, confesso que fui indelicada com ela. Todavia julgo simplesmente abominável seu procedimento, Henrique! Já agora, não levantarei um de­do para auxiliá-lo. E não pronunciarei uma palavra para conciliar...

No auge da discussão, a porta do gabinete abriu-se silenciosamente e o velho bispo, curvado sobre sua bengala, estacou sorridente á frente de ambos.

— Que ha, meus jovens? — indagou carinhosamen­te. — Uma nova guerra nos Balkans ou um simples duelo entre os Armstrongs? Espero que não queiram bri­gar no Ano-Novo!

— Não é nada para alarmá-lo, vovô — respondeu a moça, precipitadamente. — Uma simples briguinha em família. Estamos discutindo sobre o presente de fes­tas que o Henrique quer dar-rne. No entanto, olhe a carranca dele! Parece que estamos discutindo coisas tremendas. Mas isso passa; quer ver?

E Suzana passou os braços pelo pescoço de Hen­rique. Depois, beijando o rosto do irmão, recomen-dou-Ihe:

— Agora você pode ir. Tenho um mundo de coi­sas para dizer a vovô, e ainda não li o Correio para ele.

— Eu não vou sair Suzana. Vou apenas telefonar ao Tyson mandando reservar-me duas entra­das de teatro para amanhã. Você sabe como ficam os teatros na noite de 31. Não ha outro remédio: te­mos que nos sujeitar aos cambistas, e quanto antes.

— Para amanhã á noite, Henrique? — perguntou Suzana, surpresa. — Oh! Eu pensei que você e Lucilla tivessem combinado outra coisa...

— Sim, mas isso é para a tarde. Você sabe muito bem: ás 4 horas. E é bom não se esquecer... — insi­nuou o jovem, dirigindo-se para a porta.

— Claro que não me esquecerei! Mas, espere um pouco; vou fazer-lhe outro favor, "seu" ingrato! — Dizendo-o, Suzana apanhou um jornal, folheou-o rapidamente e deteve-se na pagina de teatros e di­versões. Correu o indicador pela coluna teatral e indicou:

— Pronto! Aqui está um bom passatempo pa­ra você e Lucilla: Anos de discrição. . .

— Obrigado pelo conselho, "velhinha", — replicou Henrique caçoando. — Nós já escolhemos a peça. Va­mos ver O expresso da lua de mel.

Assim que Henrique terminou a frase e retirou-se, o reverendo Armstrong indagou da neta:

— Quem é esta Lucilla Anderson, de quem Hen­rique vive falando ultimamente?

A jovem hesitou em responder. O reverendo compreendeu o embaraço da neta, sorriu, e, apoiado na bengala, dirigiu-se para a sua cadeira de braços. Refestelado na poltrona, depois de suspirar um "uff!" de reumatico e cardíaco, perguntou a jovem:

— Você conhece essa moça, minha filha? — Suzana decidiu-se. E despejou de um jato, to­dos os elogios:

— Conheço-a, sim, vovô. É um anjo de peque­na! Não é atoa que o Henrique só fala dela. É lin­da, muito meiga e tem uma voz que é um amor, vovô! Só vendo que encanto de criatura! E eu acho que ela está exercendo uma otima influencia sobre o Hen­rique... Você não reparou como ele anda ajuizado, depois que se enrredou por ela? Pois repare. E tudo obra de Lucilla, que é uma moça de alto ideais e fi­lha de um dos melhores advogados do Canadá — de Toronto, se não me engano. O pai morreu de repen­te, depois de ter feito um mal negocio em que perdeu toda a fortuna, e a pobrezinha, que já era orfã de mãe, viu-se obrigada a sair pelo mundo para ganhar a própria vida!

— Uhm! — sussurrou o bispo, adivinhando o moti­vo dos encomios. Vamos ver se ela não se vai meter a sufragista! E, sorrindo — Você é uma menina pers­picaz, Suzana, e, porisso mesmo, receio que esteja em­prestando a essa jovem um pouco de suas próprias luzes...

— Não, vovô! Ela é realmente uma moça mui­to intelligente e muito criteriosa. Mas... Que é que você quer insinuar com isso?

— Eu não quero insinuar coisa alguma, minha filha. Mas, responda-me — proseguiu o velho com um sorriso sabido — Por que motivo você aconselhou o Henrique a assistir a essa peça Anos de Discrição?

— Ora, vovô! Simplesmente porque o titulo é sugestivo... e, além disso, porque é o primeiro car­taz da coluna...

Emquanto a jovem falava, o velho fixava-lhe atentamente a fisionomia. Procurando fugir ao seu olhar e ao assumto, que não sentia oportuno abor­dar, Suzana rematou:

— Mas vamos, vovô; eu ainda não li os jornais para você ouvir. Posso começar?

— Quando quizer — respondeu o ancião placidamente.

Suzana principiou a ler os títulos da pagina da frente. Telegramas do exterior e noticias oficiosas do paiz. "Regulamentação dos arranha-céos", "Me­didas drásticas tomadas pelo Presidente Taft", "Ter­remotos em Apia — Milhares de mortos", "Entregue á Commissão de Orçamento o relatório dos empreendimentos do Presidente Borough"...

— Chiii, vovô, como isto está lúgubre7! — comentou a jovem, observando o velho.

— Ai está o maior mal dos jornais, minha fi­lha. Eles são sempre desinteressantes, exceto a coluna social, ou quando descrevem uma fuga, algum caso de divorcio, ou de rapto e seqüestro. Além disso, nunca sabem coisa alguma a respeito de alguma coi­sa de todos conhecida...

— Pois é porisso que prefiro ler novelas. Nes­ses livros, como você sabe, a gente conhece todos os personagens intimamente, antes de chegar ao meio do volume. E, a propósito, que é que você me diz de Ouida, vovô?

— Ouida?! — repetiu o velho gentilmente ao mesmo tempo em que se esforçava por encontrar na memória al­guma lembrança. — Que é isso, querida? Um dentifricio8? Ah, não! já sei; espere um pouco. Não é aquele enxadrista mecânico, que nunca perdeu uma partida?

Suzana explodiu numa gargalhada.

— Que é isso, vovô? Você está misturando tudo! Esse boneco jogador chama-se Ajib. Ele ainda existe; está no "Museu Eden". Ouida é o nome de uma gran­de novelista — uma novelista famosa! É igual áquelas duas mulheres, cujos livros você me proibiu que lesse, lembra-se? A George Eliot e a George Sand. Ouida escreveu Sob duas bandeiras, em 1860 ou 70, não sei onde. E eu lhe falo a respeito dela, porque, naquele velho diário de vovó, que você me mostrou um dia destes, havia quase uma obra sobre ela. Vovó era evidentemente uma mulher de talento e de idéas largas. Eu sei de cór estas palavras que ela escreveu em certo lugar: "Já quase quatro horas da manhã, e eu terminei em segredo a leitura do livro Sob duas bandeiras, de Ouida. Considero esta obra o mais maravilhoso acontecimento literário de nossa época. Ela proporcionou-me a maior emoção senti­mental de minha vida. Agora, meu único desejo é per­suadir meu querido Tom a le-lo. Com toda certeza este livro ampliará sua maneira de ver".

— Sua avó era uma ledora insaciável, Suzana — explicou o bispo dando ás palavras um calor de reminiscências9. — Costumava entreter pequenas polemicas a respeito dos livros que lia. Eu, porém, jamais aprovei essas leituras, pois sempre me parecera um des­perdício de tempo. Mas, como já lhe disse sua avó sempre teve pontos de vista, sobre a vida, bem mais lar­gos do que os meus. Ela ficou orfã quase na in­fância, de modo que cresceu sob as vistas do velho tio Cornelio. Foi conduzida para a casa dele, onde Henrique deveria estar agora. O velho Van Tuyl, vo­cê sabe, era um personagem famoso no seu meio; um perfeito Ward McAllister de seu tempo, e, a meu ver, muito mais liberal que este. Sua casa era o ponto de reunião não somente da chamada sociedade, mas de todos os homens e mulheres notáveis da época. Ele acreditava na aristocracia da inteligencia, minha que­rida! Entre outros, eu me recordo de haver encontra­do freqüentemente Charles Dickens em casa dele. E, por falar em Dickens, eis aqui um verdadeiro novel­ista para você ler, minha filha. Sempre achei interessantissimos os livros dele; principalmente quando retratam os tipos Ínfimos da vida, sua obra tem sempre um cunho altamente moral e regenerador.

— Pois eu não desejaria muito um encontro com Dickens — replicou Suzana com arrogância. — Considero esses velhos barbaças, que ele pinta em todos os li­vros, simplesmente abomináveis. Mas, diga-me uma coisa, vovô: você que aprecia tanto as operas antigas não encontrava sempre grandes cantores e actrizes fa­mosas na casa de Van Tuyl?

— Um bom punhado deles, minha querida! Mas eu os encontrei relativamente poucas vezes. Lembre-se, Suzana — observou o bispo com um sorriso malicio­so — que eu nunca fui propriamente o que o povo consi­dera um homem de sociedade. Eu era reitor de St. Giles, nessa época, e vivia quase completamente absorvido por minha Igreja e minha missão, de sorte que, apenas uma vez ou outra, pensava em minha própria comodidade. Porisso, se me fosse dado viver de novo toda a minha vida, eu poderia olhar de relance, bem do alto, tanto os negócios como os homens. Mas, a gente vi­ve e aprende minha querida; vive-se e aprende-se... E agora posso verificar claramente que, em muitas occasiões, minha maneira de ver as coisas foi excessi­vamente acanhada.

— Mas, vovô — atalhou Suzana — você deve recor­dar-se do nome daquelas mulheres famosas que en­controu em casa de tio Cornelio. A Adelina Patti ia lá sempre. Você encontrou-a?

— Sim, encontrei-a freqüentemente. A casa de tio Cornelio era a única residência particular em Nova York onde ela se dignava cantar. Isso era uma grande honra, acredite! Recordo-me de certa noite muito bem. Sua avó fazia as honras da casa. Que dona de casa, minha filha! O velho Van Tuyl chamava-a, todo envaidecido, "minha pequena castelan". E era justo; recebendo visitas, vovó Su­zana era uma hospedeira encantadora. Às vezes, quan­do me ponho a observar sua maneira de presidir minha mesa de jantar, minha querida, lembro-me muito del­a. E agrada-me, sobremodo, que você tenha o nome dela — Suzana. Você tem muitos traços iguais a ela, se bem que — devo confessa-lhe, — proseguiu o velho com ar zombeteiro — você seja muito mais bella que a minha Suzana...

"Sua avó tinha os cabelos inteiramente lisos. Nunca foi propriamente uma beleza, mas era graciosa, minha flor, incomparavelmente encantadora. Como teria ela invejado estes seus cachinhos, Suzana! comentou o velho, a sorrir, ao mesmo tempo em que percor­ria com os dedos os cachos da neta. Isto — e o velho tocou seus cabelos brancos, sorrindo — foi sempre uma causa de tristeza para a pobre Suzana — meus cabelos crespos. Ela costumava caçoar dizendo que devia haver uma lei a respeito, uma lei que proibisse aos homens nascerem com cabelos naturalmente cres­pos, emquanto as infelizes mulheres eram obrigadas a gastar metade da noite fazendo papelotes. E, assim mesmo, os cabelos não ficavam frisados senão uma ou duas horas!

"Mas, isto é uma futilidade, recordação de velho, minha querida! — murmurou o bispo, a suspirar. — E a verdade é que me encantava o orgulho com que sua avó alisava meus cabelos, passando-lhes as mãos. Porisso eu deveria receber um castigo bem severo, deveria ter ficado calvo — concluiu o velho, a sorrir.




CAPITULO IV
SUZANA levantou-se e se aproximou do avô. Tinha os lindos olhos umidos de lagrimas quando se inclinou para beijar-lhe os cabellos alvos como a neve.

— Se vovó pudesse ve-los agora, ficaria orgu­lhosa, mais orgulhosa do que nunca, vovô! — observou a jovem. — Seus cabelos nunca foram tão bonitos. Eu desejaria, quando envelhecer, conservar meus cachos iguais aos seus.

— Pois eles são talvez a única coisa a que nun­ca dei importância — replicou o bispo, acariciando a fa­ce da neta. — Aliás, nunca fui, sob qualquer aspecto, um elegante. Sempre vivi tão preoccupado com meus trabalhos que jamais arranjei vagares para pensar em roupas. Era um desmazelado terrível! E isso aborre­cia muito a pobre Suzana. Lembro-me sempre do cui­dado com que ela limpava os ombros do meu paletó polvilhado de caspas. E quando, casualmente, eu me dava ao trabalho de fazer essa limpeza, deixava de propósito os cabelos sem pentear porque sabia que ela o percebia num relance e os alisava com suas mãos de fada... Que lindas mãos tinha sua avó, Su­zana! — exclamou o velho, enthusiasmado, alçando a voz. — Era o maior encanto dela! E, ainda ha pouco, quan­do você me tocou a fronte, tive um ligeiro sobresalto, querida. Porque sua voz, também, é igualzinha a dela...

— Está bem, vovô; fico muito vaidosa de saber essas coisas. Mas você me está lisonjeando para fugir á minha pergunta. Responda-me: você encontrava sempre alguma daquelas atrizes famosas em casa de tio Cornelio?

— Se encontrava minha flor, já esqueci o nome. Você sabe que nunca fui entusiasta por teatros. Hou­ve apenas um pequeno periodo de minha vida em que os freqüentei, e isso mesmo sob íntimos protestos. Ia unicamente para ser agradável a uma mulher encanta­dora, para quem o palco era uma fonte de consolo e distracção.

Suzana percebeu, alvoroçada, que atingia seu objectivo.

— Deixe-me, porém, responder primeiro á sua pergunta — proseguiu o velho com um sorriso evasivo. — Você me interrogava a respeito de teatros e sobre o que conheço desse assumto. Pois vou contar-lhe uma historiazinha do tempo em que freqüentei um dos tea­tros. Foi na galeria do "Niblo's Oarden", em... Deixe-me ver, deixe-me pensar... — E o velho bispo revol­veu a memória rapidamente — Ah! Em 66, 1866! Re­presentava-se, nessa occasião, uma peça famosa, inti­tulada O cajado negro.

Suzana sentou-se sobre o braço da poltrona do avô, esfregando as mãos, satisfeita. E exclamou sem poder disfarçar sua alegria:

— Como, vovô?! Você pensa em dizer-me, com seus próprios lábios, que era um pobre diabo que fre­qüentava o "gallinheiro"?! Ora, sempre ouvi dizer que o "Niblo" era um teatro enorme!... Ainda ha poucos dias li isso num livro de sua bibliotheca, cha­mado Luzes das sombras.

O velho bispo retomou a palavra:

— Estive lá apenas por uns momentos. Para ser exato, justamente quatro minutos. E estive, não por mera curiosidade, mas com uma louvável intenção. E retirei-me assim que aconteceu o fato. Descobrira, por acaso, numa tarde de sabado, que dois dos meus mais jovens e mais promissores rapazes do coro, cuja imaginação estava exaltada pela leitura de artigos inflamados nos jornais diários, que, ao invés de ata­carem, como parecia, estavam, ao contrario, fazendo propaganda de O cajado negro — ouvi dizer, repito, que os dois rapazes haviam gasto todo seu dinheiro em bilhetes desse espectaculo. Apesar de ter um encon­tro marcado para aquela tarde, na reitoria, com a diaconiza, despachei-a rapidamente e corri ao teatro. Se os dois rapazes estivessem no interior de um edi­fício em chamas, eu não teria acorrido a salva-los com maior celeridade. Precipitei-me pela escada da galeria, e, assim que entrei, vi, num relance, um raio de luz flutuando no proscênio.

"Preciso proclamar, para ser justo, que a cena que se apresentava a meus olhos era de rara beleza, e nada tinha de imoral. E, se o resto do desempenho, que naturalmente não presenciei, tiver o mesmo valor artístico daquela cena, devo confessar que O cajado negro havia sido mal julgado. Mas, segundo o que ou­vi dizer mais tarde, parece-me que eu chegara precisa­mente no trecho em que a peça não merecia censu­ras. O palco estava vazio, e nele apenas uma figura se movia — uma linda jovem, com uma saia de baila­do, muito curta, de tarlatana branca. Apoiada na ponta de um dos pés, leve como uma espiral, seus bra­ncos fluctuavam graciosamente no ar, acima de sua ca­beça. A beleza do quadro, a luz azulada, aquella fi­gurinha de fumaça, o silencio religioso — tudo isso, confesso, me deslumbrou. De pé, com os olhos fixos no palco, assisti a toda uma serie soberba de atitudes artísticas. lla era, descobri mais tarde, con­siderada "a primeira bailarina absoluta". Chamava-se Luiza Bonfanti.

— Como?! — interrompeu Suzana, estupefacta. — Vo­cê não conhecia essa gorduchinha, a velha professora italiana, que dá agora lições de bailados na cidade? Ora, vovô, eu a encontrei diversas vezes! E, ainda no ano passado, quando iamos ensaiar para o festival em beneficio do "Lar das Filhas do Trabalho", foi e­la quem dirigiu nossos bailados. Conheço-a muito bem.

— Ai está o motivo — continuou o bispo sorrindo para a neta, — ai está à razão por que lhe conto esta historia. Mas, deixe-me terminar; isto não é uma fá­bula de moral. Assim que encontrei os rapazes, levei-os para casa, passei-lhes uma seria advertência, e, co­mo castigo, deixou-os a ler Os contos, de vovô. E ago­ra, pensei, está liquidado o incidente. Mas, a ilusão não durou muito — continuou o velho, balançando a ca­beça, como que embalado pelas recordações. — Na manhã seguinte, para meu desgosto, os jornais relata­vam o episódio.

"Ainda me recordo de algumas manchetes, mi­nha querida. O Arauto avançava: "O jovem reitor, in­dignado, arrebata dois rapazolas do perigo". O 5o dizia: "O rev. Thomaz Armstrong desafia os deuses e salva dois adolescentes de seu coro das astucias da Bonfanti". E o próprio Correio da Tarde, que você tem nas mãos, minha flor, dedicou um par de linhas severissimas comentando o episódio, e foi o único jornal em toda Nova York que apoiou minha altitude. Os outros jornaes, em geral, preferiram defender os rapazes. E pessoas entendidas em assumtos teatraes — seu tio Van Tuyl, particularmente — asseveraram-me, mais tarde, que fora eu a causa do êxito de O cajado negro. Entretanto, acredito que exagerassem. Difficilmente esse crime pesará sobre minha consciência... Mas, pelo que leio hoje a respeito de entrechos teatraes, verifico, minha querida, que o pobre e esquecido O ca­jado negro seria, em confronto com os atuaes, inocente como um pássaro...

"Voltemos, todavia, á historia... A Sra. Bon­fanti grangeou reputação universal, como você sabe. Eu, porém, durante mais de trinta annos, nem sequer ouvi mencionar o nome dela. Ha questão de poucos mezes, entretanto, quando tomava parte numa reunião no "Lar das Filhas do Trabalho", aconteceu que pre­senciei um dos números do festival, que era represen­tado em beneficio não sei mais de que. Pareceu-me, desde logo, aos primeiros passos, que as jovens co­nheciam aquele gênero de bailados. Fiquei silencioso, a contemplá-las, quando, repentinamente, escutei uma delas gritar pelo nome da Sra. Bonfanti. Voltei-me e fixei-a attentamente. Não havia duvida: era ela. Re­conheci-a imediatamente. A mocidade e os saiotes de tarlatana10 haviam-se evaporado, mas, por traz dos óculos, continuavam brilhando aqueles mesmos olhos maravilhosos. Conservava ainda um luminoso e fugi­dio encanto. E muito embora, para ser sincero, reco­nheça sua atual corpulencia, a verdade é que seus movimentos ainda são cheios de graça. E seus gestos! Cada vez que ela movia sua mãozinha enluvada, com­punha um compêndio sobre a graça...

O velho tocou o braço da neta. E, sorrindo, proseguiu:

— Mas, nesse momento, minha querida, eu me lembrei da dor ciatica11 e das velhas juntas reumaticas do joelho, e lamuriei-me intimamente, dizendo-me: "Deve existir algum segredo profundo de mocidade, conhecido unicamente nos palcos, que torna seus cul­tores sempre jovens. É necessário que nós, míseros e estropiados cultores da Fé, desvendemos esse se­gredo".

— Mas você não falou com ela? Não explicou por que fez aquilo? Oh, vovô, que severidade, depois de tantos anos!

— Você precisa lembrar-se de que jamais nos havíamos encontrado. Como poderia eu falar a ela? Nunca foramos apresentados... Em todo caso, ela dirigiu-se a mim, enquanto as moças cochichavam a meu respeito. Veio a meu encontro, radiante, levan­tando ambas as mãos. A delicadeza com que ela se acercou de mim, Suzana, tinha algo de uma graça exótica. Pareceu-me, nesse momento, a sacerdotiza de uma arte perdida. E, emquanto alçava as mãos e sorria cheia de luz, foi-me falando, no seu encantador ingles carregado, esse ingles de que sempre fui apai­xonado... Quando o fala uma mulher de voz musical.

— "Meu caro bispo — disse-me ela — durante toda minha vida, a partir dos meus dezoito anos, quando representava O cajado negro, no "Niblo's Garden", sempre desejei e esperei a honra deste encontro. Acompanhei sua carreira com enorme interesse, e quan­do, muitos anos após, o senhor foi elevado a bispo, essa ascenção encheu-me de orgulho. Sem o senhor, meu caro bispo, a Bonfanti seria hoje, quando muito, uma recordação, ao invés do que é realmente — quase uma instituição".

"Depois, conversamos e tagarelamos durante uns momentos, e quando nos apertávamos a mão e dizia-mos "até logo", ela confessou-me a sorrir:

— "E lembre-se, bispo, eu ainda guardo aqueles jornais..."

CAPÍTULO V
— Conto-lhe este ligeiro incidente, minha queri­da, para que você reflita em como, apesar de suas melhores intenções, pode alguém julgar mal a ou bem. Meu encontro com a Sra. Bonfanti transformou in­teiramente o conceito que eu fazia dela. E, quanto a ela, provavelmente me julgara, durante toda a vida, um ma­níaco intolerante, um fanático religioso, ao passo que, a meus olhos, ela continuara sendo, sempre e sempre, a mesma criaturazinha diapana, com seu saiote de tarlatana, flutuando, sem cessar, sobre a ponta do pé... É possível que em minha intransigência a houvesse eu considerado uma alma perdida, mas, agora que nos encontramos, estou certo de que nos conhecemos melhor. Cada um de nós, provavelmente, corrigiu um pouco a opinião que formara a respeito do outro. É da idade, minha filha: a velhice abranda preconceitos e destroça intolerancias... Mas... O que me intriga, o que eu queria é saber como pode ela conservar-se tão moça!

— E os dois rapazes do coro da igreja? Que é feito deles? — interrompeu Suzanna. — Sobreviveram á leitura do Os contos de vovô, ou continuaram a viver, como desgraçados, depois que se depravaram com O cajado negro?

O velho sorriu da irreverência da neta. E, bem humorado, continuou:

— Por mais estranho que lhe pareça, dois anos mais tarde aqueles verdadeiros rapazolas, sem que eles próprios o soubessem, salvaram seu avô de um acontecimento desagradável, que lhe teria succedido se eles tivessem presenciado certo trecho da represen­tação de O cajado negro. Mas eles permaneceram calados no meu coro, em St. Giles, e, por uma gran­de singularidade, hoje é aniversario dessa occorrencia. Isso aconteceu na véspera de Ano-Novo, em 1868. Naquela época festejava-se a entrada do novo ano com mais tranquillidade do que atualmente. Os sinos soavam sem parar, na velha Trindade, e as ruas ficavam apinhadas de gente alegre, como ficam agora. Mas os apitos e as cometas de folha quase não eram utilizados, graças a Deus. Nós seguíamos mais rigo­rosamente os costumes da velha Inglaterra. Os coros das igrejas podiam caminhar atravez das ruas da ci­dade, cantando hinos. Era uma bela tradição, essa, que saudava a chegada do Ano-Novo com grande cerimonial de respeito e de reverencia.

— Mas, que aconteceu nessa noite, vovô?

— Minha querida — esclareceu o bispo um tanto severo — esta não é uma historia apropriada aos seus ouvidos de moça. Você me interrogou a respeito dos rapazes do coro, e eu lhe mencionei este incidente, propositadamente, para demonstrar-lhe a sabedoria do velho, naquelle versículo que diz: "Deus faz vir por caminhos misteriosos os milagres que quer rea­lizar". E, agora, vamos ouvir um pouco de musica...

A confissão está terminada, refletiu Suzana, com um suspiro. E, voltando-se para o avô, perguntou-lhe, em voz alta:

— Que disco vamos ouvir vovô? O Caro Nome?

— Qualquer um que você aprecie minha filha, contanto que não seja muito triste...

Suzana colocou o disco, e abriu ambas as portinholas da vitrola.

— Escute vovô: — Sustou a frrase, indecisa. E, mudando-lhe o rumo — Não é um disco esplendido?

— Sim; realmente é uma voz magnífica — concor­dou o velho gentilmente. — Quem é a cantora?

— Como, vovô? Você pretende dizer que não reconhece a voz?! É a Tetrazzini! — respondeu a mo­ça, com uma inflexão de respeito.

— Ela tem boa escola e algumas notas muito limpidas— comentou o avô improvisando-se critico de musica. — Mas, ah! Minha querida, você precisava ter ouvido a Adelina Patti, cantando na Academia, em 72. Que voz maravilhosa, a dela! E que artista magní­fica, a Patti! Feita uma exceção, é a mais estupenda cantora que já ouvi.

— Quem é a exceção? — indagou a neta, curiosa.

— Eu não quero que você julgue que estou di­minuindo a Patti levianamente — continuou o velho, ex­plicando sua resalva. — Sob o aspecto tecnico, acre­dito que seu canto seja perfeito, mas, para meu tem­peramento, faltam-lhe um pouco de doçura e de calor á voz, qualidades que sempre me tornaram incomparavel o canto de Margarida Cavallini.

— Ora, vovô! — protestou Suzana, empolgada. — Vo­cê não quer dizer a mim, jovem como sou que as nossas Melba e Farrar não são cantoras tão finas quan­to as suas Cavallini e essas Grisis! E, quanto a Caruso, ninguém ignora e você sabe perfeitamente, vovô, que nunca houve um tenor igual a ele, desde que o mundo é mundo! Toda a gente está de accordo neste prato.

O bispo sorriu. E, meneando a cabeça:

— Você precisa lembrar-se, minha flor, de que eu ouvi Mario!

Suzana, atarantada com a resposta, não encon­trou palavra para contestar. Por outro lado, a expe­riência lhe havia ensinado que era melhor não discutir certos assumtos com o avô. Porisso, tanto o velho como a moça ficaram calados, ouvindo em silencio o Caro Nome. O pêndulo da lareira soou um quarto de hora, depois das dez, e o velho bispo, tranquiilo em sua poltrona, soltou profundo suspiro, como se o bater do carrilhão lhe houvesse lembrado que 1912 estava prestes a terminar.

Como o disco acabasse durante este silencio, o velho suspirou de novo e comentou:

— Que pena, Suzana, que Thomaz Edison não houvesse nascido cinquenta anos antes! Imagine mi­nha querida, o numero de vozes inigualáveis que esta grande invenção teria tornado impereciveis, para toda a posteridade. No meu tempo existiram gigantes da voz, rouxinóes de ouro que emudeceram para sem­pre, que cairam no silencio eterno, ou — o que é mais trágico — que continuaram cegos pela gloria, a exibir uma voz corroída pela ferrugem do tempo, esque­cidos da velhice... Lembro-me de que outrora, quan­do o phonographo12 acabava de aperfeiçoar-se, li num jornal uma singela e encantadora historiazinha a res­peito de uma nova cantora — Emma Calvé, segundo creio. Tinha deixado o noivo em Paris, quando veio para aqui; e, toda semana, assim que chegava um navio, ela se fechava no apartamento do hotel pa­ra ouvir a voz dele. Isso porque, como você já per­cebeu, eles se correspondiam inteiramente por meio de discos; falavam e cantavam suas cartas de amor, um para o outro, de semana em semana.

"Toda a vez que eu lia aquele paragrafo do jornal, punha-me a pensar na inestimável alegria que representaria para os velhos como eu poder abrir as portinholas de sua vitrola e, ajustando o disco, tor­nar a ouvir as vozes queridas, já mortas, que nos en­terneceu a mocidade... Eu não desejaria ouvir apenas as grandes vozes emudecidas, desejaria ou­vir, também, as vozes mais intimas que me são mais caras — a voz de sua avó, por exemplo. Como eu gostaria de ouvi-la, precisamente neste momento, can­tando o hino de sua predileção! Cantando-o, com aquela voz muito doce, de contralto... Como gos­tava de cantar, a pobre!

— E qual era o hino vovô? — indagou Suzana carinhosamente.

O bispo aspirou profundamente, e começou a can­tarolar a meia voz, como se o fizesse para si próprio. Canto monótono, sem riqueza musical nem beleza verbal, cantava-o, o velho, tomado de emoção. Suzana contemplava-o, com silencio respeitoso. A voz do bis­po extinguiu-se vagarosamente. Dai a momentos, Suzana voltou-se para ele, perguntando, sem dis­farces:

— Quem eram esses Mercadores Madianitas, vo­vô? Ai está uma coisa desses hinos que eu não compreendo. Ensinaram-me ha tanto tempo, cantei-o tantas vezes, mas até agora ignoro o que estava can­tando. Explique-me. Que eram e quais foram os Mercadores Madianitas? Para lhe dizer a verdade, quando eu tinha uns nove anos, toda a vez que você me falava desse hino eu fazia a idéa de que os Madianitas foram uma espécie de companhia de opera córoica do Velho Testamento, com a qual Moisés, Matusalem ou qualquer outro antigo patriarca pen­sava preservar as colheitas.

O velho bispo estourou uma gargalhada, a despei­to da sua idade e da sua profissão. E confessou:

— Para ser-lhe franco, Suzana, essa era também minha opinião quando rapazote. Mais tarde, natu­ralmente, quando me tornei mais velho e mais beato — devo dizê-lo — os Madianitas começaram a afigurar-se-me um grupo de povo mundano ou, ainda, aqueles teologos cujo conceito religioso diverge do meu.

— Mais ou menos o que você julga de toda a gente que não é bispo, não é, vovô?

— Em certa época, talvez, minha querida — con­cordou o bispo. — A medida, porém, que fui envelhe­cendo e sofrendo, dia a dia, a influência de sua avó, comecei a ter um conceito mais amplo e mais indulgente.

— E agora, vovô, parece-me que é tempo de lhe fazer meu presente de Ano-Novo — disse Suzana, saltando alegremente. — Mas eu não sei o que en­contrar neste mundo, que lhe agrade. Adivinhe o que achei. E adivinhe por que motivo escolhi isso, vovô — continuou, fingindo pouco caso. — Tentei encontrar al­guma coisa que o deixe muito terno e sentimental — qualquer coisa que faça seu gênio ficar bonzinho co­mo um creme da Baviera.

— Minha querida criança — sorriu o velho — você sabe que é essa, sempre, a minha disposição de espi­rito... E agora mesmo, posso crer, eu me estava lembrando certa iguaria, minha Senhorita Século Vinte...

— Oh! Que apelido é esse? Por que está me chamando assim? — interrogou a neta, intrigada, esquecendo rapidamente a conversa sobre o presente de Ano-novo.

— Porque você sempre simbolizou para mim o século vinte. Foi esse o primeiro nome que lhe dei. Você, provavelmente, não se recorda deste fato, mas foi você o primeiro ser vivo que eu vi, na manhã de Ano-Novo, em 1900. Você era apenas uma crian­ça de quatro anos, mas uma criança que já sabia an­dar com os próprios pés e que veio ensinar ao seu ve­lho vovô a vereda que ele deveria seguir, neste novo século a que ele não parece mais pertencer.

— Isso quer dizer, vovô, que você nada sabia a meu respeito até esse momento? E Henrique? Ele já tinha nove anos nessa occasião! Quer dizer que você nunca viu nenhum de nós, quando éramos ainda bebês?

— Nunca. E foi esse o maior castigo de minha vida, Suzana: a perda da infância de vocês. Ai está à razão por que me foi tão penoso o trabalho de recompensá-los, desde então. E, se eu jamais toquei neste assumto, a nenhum de vocês, foi de medo que meus netos começassem a odiar-me. Às vezes, tenho a impressão de que Henrique suspeita da verdade. Mas vocês devem suportar-me e perdoar o pobre ve­lho, como puderem...

Em resposta a moça aninhou-se mais no espaldar da poltrona, e, abraçando o avô, beijou-lhe os cabellos brancos.

Comovido, o bispo pigarreou, e proseguiu pausadamente:

— Eu estava sentado nesta cadeira, Suzana, quando, certa noite, meu Henrique, o que viria a ser seu pai, irrompeu pela sala adentro, e, sem nenhum rodeio, me disse que ia embora, que ia casar-se. Fi­quei furioso. Travamos uma discussão durante a qual, bem o sei agora, me portei inteiramente errado. Hen­rique retirou-se do aposento, batendo a porta com for­ça e declarando que nunca mais poria os pés em mi­nha casa. E ele jamais insinuou o pobre, que a culpa também era minha... Junto com sua mãe, meu filho mudou-se para Nova Orleans, onde arranjou um emprego. Seu irmão nasceu lá, e, mais tarde, você. Mas, mesmo com o nascimento de vocês, não se der­retia a nevoa que se accumulara em meu coração. Du­rante uma epidemia de febre amarela morreram seu pai e sua mãe, uns tres dias após o outro e então eu rea­lizei a enormidade que havia premeditado: mandei buscar você imediatamente.

"Eu estava muito doente quando você chegou à véspera de Ano-Novo. O remorso, o arrependimento e a justa cólera do Todo-Poderoso haviam-me aba­tido. Naquela tarde, enfermo como estava, ordenei á enfermeira que me transportasse do quarto de dor­mir para aqui, para o escritorio, onde, desde meu ca­samento, eu assistia ao nascer da primeira aurora do novo ano. Improvisaram-me uma cama no sofá, e a enfermeira me deixou sozinho. Dormi profundamen­te, muito antes de se extinguir o ano velho, de sorte que, quando despertei, o sol brilhava nas janellas, e eram exatamente seis horas do novo século.

"Antes que pudesse mexer-me ou simplesmente saudar no meu espirito o século que nascia, ouvi uma leve pancada ali na porta. "Entre!"ordenei. A porta se abriu um pouquinho, e eu vi a mão da enfermeira em­purrando você para dentro. A porta fechou-se de no­vo, e então, minha filha, você ficou parada, em pé. Com um dedinho metido na boca. Durante um momen­to, nós dois nos olhamos silenciosamente, um para o outro. Havia como que um brilho inconsciente de misericórdia e de ternura em seus olhinhos... De­pois de contemplar-me, parece-me que você compreendeu tudo, intuitivamente, e, á guisa de perdão, apre­sentou-se:

— "Eu chou a Suzaninha"...

"Fraco como estava, coxeei da cama até junto de você e, carregando-a ao colo, gritei de satisfacção:

— "Você é o meu Século Vinte, minha querida! Senhorita Século Vinte!"

"Desde então, ha doze anos exatos — proseguiu o bispo — você tem guiado esta misera relíquia de um século extinto atravez do labirinto de seu novo século. Tateio como um intruso, prisioneiro de seus pórticos. Vi-a crescer e florir, minha querida, e agra­deço a Deus por me haver entregado ao seu dócil comando. Que posso fazer sozinho? Que posso fazer sem você, Suzana? Você é minha vista quando meus olhos se cansam de ler; é você quem acalenta meus ouvidos, durante a noite, com aquelas velhas canções que tanto amo; quando você mesma não as canta, pa­ra meu enlevo, maneja a vitrola melhor que ninguém. Mas é quando saio de casa, e percorro este colosso que é a Nova York de hoje, que sinto mais falta e ava­lio a necessidade de seu auxilio; é nesses momentos que me sinto perdido e inteiramente no ar. Os taxis põem-me nervoso, a multidão e o ruido da Broadway deixam-me inteiramente atarantado. Meu antigo marcos de orientação desapareceu todos, minha querida, todos!

"Observe a Praça União. O "Tiffany, o "Brentito" e o "Instituto Springler", desaparecidos; e o an­tigo "Edifício Everest", arrazado ha tanto tempo, a quatro ou cinco anos pelo menos, tempo suficiente para que os jovens de sua idade não mais se recordem do famoso hotel que havia nele, como estão esque­cidos da época em que a Praça União se blasonava13 de seu alto gradil de ferro. Ainda a dias, pouco antes do Natal, subia eu vagarosamente a Quinta Avenida quando me lembrei de que devia adquirir uns presen­tes. Dobrei a rua Quarenta, disposto a ir ao "Macy", onde eu comprava meus objetos a coisa de cinquenta anos. Quando cheguei ao prédio, querida, nem sinal da loja! Havia-me esquecido, inteiramente, de que o negocio fora transferido mais para o centro.

"Essa verificação produziu-me um abalo. Perce­bi que havia perdido outro velho amigo, e voltava para casa, desconsolado, quando a certa altura me deparei com a velha residência senhorial dos Van Buren, serena e tranquilla como uma viuva grande-senhora, inteiramen­te alheia á vizinhança comercial e aos seus sombrios arredores. Apertei seu gradil de ferro com toda a força. Foi como se eu desse um vigoroso aperto de mão em algum antigo camarada, que não visse desde a guerra. Mas, quando voltei os olhos para cima, os arranha-céus medonhos desvaneceram toda minha ado­rada visão. O campanário de St. Giles ainda ostenta sua sumtuosidade, mas, sua contemporânea, a igreja de São Jorge, superou, de muito, as duas vetustas tor­res escuras. Você já não pode verificar as horas, hoje em dia, na praça Stuyvesant, a não ser que possua um relógio. Quando me dirijo ao centro oficial, é a mes­ma historia. E era esse o único modo por que eu po­dia localizar o "Edifício do Comercio Exterior", outrora o prédio mais orgulhoso que havia em frente ao mar, e que se pavoneava sozinho, sem a florestava arranha-céos que o circumdam agora!

— Mas... Ali está a Estatua da Liberdade, vovô! Não se esqueça da Nossa Senhora do Facho Eterno!

— É verdade. Ela está socegada lá, minha que­rida — e o mar também... Deus abençoou o mar; dominou-lhe as iras e as coleras; porisso, ele está eternamente lá, em repouso, sem se importar com a novidade.

— Vovô, eu acho que não é bom você estar sem­pre "olhando para traz". Agora, vamos ver o presente que lhe comprei. Nós já nem nos lembrávamos dele. Olhe: é a Aria do Destino, em alemão. — E sorrindo— Vovô sabe, como acabei de lhe dizer, que tenho umas novidades para lhe contar, mas, antes que desabafe tudo, é preciso que você fique muito bonzinho...

Emquanto acertava o disco na victrola, Suzana começou a cantarolar, a meia-voz, Connais-tu le pctys. E então, como a victrola começasse a modular as pri­meiras palavras da versão alema desse canto, ela calou-se para observar o efeito da velha melodia so­bre os nervos do avô.

Kennst du so wohl?”

— Por favor, Suzana, pare esse disco! — gritou o velho meio irritado. — Não sei por que, ele esteve girando o dia todo em minha cabeça... Pare Suzana! Isso me entristece. Pode ser que eu pareça amalucado, mas prefiro não ouvir esse canto, agora á noite.

Suzana retirou o disco imediatamente.

— Sinto muito, vovô! Eu tinha a certeza de que você gostaria. Escolhi-o, com todo o cuidado, para lhe, fazer um presente, porque você vive dizendo que é fluido pela Mignon. Tive o trabalho de verificar, tam­bem, no "Álbum das Prima-Donnas" que tal é a ver­são ingleza desse canto. Mas... Achei as palavras tão idiotas! Você não acha vovô? E cantarolou:

"Knowest thou that fair land

Where the oranges grow,

Where the fruit is of gold

And so fair the rose?"

— Eu acho essas palavras terrivelmente prosai­cas e estúpidas. Porisso não me espanta que você fi­que melancolico... Mas... Diga-me— perguntou ata­balhoadamente— quem cantava isso em seu tempo, vovô? Conte-me! Como era o nome dela? Era aquela tal Cavallona, oh, desculpe-me — Cavallini? Ela era mesmo um prodígio, vovô?

— Sem igual. Incomparavel! — exclamou o bispo alvoroçado. — Mas suponha um momento que, para variar, nós possuíssemos uma gravação do Henrique... Como é que se chama?... Você sabe a quem me re­firo: o escossez.

— Henrique Lauder? Mas nós temos— respon­deu Suzana, a sorrir, ao mesmo tempo em que substituía o infeliz trecho da Mignon pela mais famosa canção do escossez. E este deve regalá-lo como um cocktail. — Ouça vovô.


"I love a lassie,

A bonnie, bonnie lassie,

She's as pure as the lily in the deli:

She's as sweet as the heather,

The bonnie purple heather,

Mary, my Scotch bluebell!"
A cadência do canto, seu ritimo harmonioso e as originais observações com que o cantor termina o disco operaram maravilhas contra o mau humor do bispo. A carranca desvaneceu-se de pronto, como a nevoa diante do sol.

Suzana suspirou satisfeita, como alguém que hou­vesse obtido um milagre, assim que viu a face do ve­lho resplandecendo num sorriso. O bispo acompa­nhava a musica com a bengala, e mesmo com o pé menos atacado pelo reumatismo. O velho enthusiasmou-se se associando ao coro de acompanhamento do disco. E, ao seu pedido, Suzana repetiu a peça.

— Sim, senhor! Você, um bispo da Igreja Epis­copal, aplaudindo um presbeteriano, hein! Qual, vovô, estou estupefata com você!

— Pois é um otimo canto e um esplendido can­tor! Eu gostaria de cumprimentar o autor, qualquer dia destes. Tenho a impressão de que ele deve ser um espirito muito liberal e um temperamento sempre jovial — o Tony Pastor da Escossia, eis o que ele é.

— Quem? Ai está uma novidade para mim. Jamais ouvi esse nome. Quem era esse tal Tony Pas­tor, vovô? Algum baixo, ou um palhaço?

O velho levantou os hombros, e, em tom de la­mento, disse a neta:

— Oh, minha filha! Você fala seriamente? Mas... Não faz dez anos que ele morreu! Será pos­sível que sua geração desconheça o nome de Tony Pastor?! O que é a fama!

CAPÍTULO VI
— Não se preocupe agora em falar a respeito dele — interrompeu Suzana, quando o avô se predis­punha a esclarecê-la. Tenho algo a lhe dizer — uma coisa que talvez não lhe vá agradar muito, vovô. Estou pensando somente em como contar-lhe com doçura, de um modo que não o desgoste.

O bispo sorriu e fitou Suzana, quase curioso.

— Qualquer coisa me agrada... É este meu maior defeito!

— Muito bem, é assim que eu gosto — gracejou a moça. — Que vamos ouvir do nosso Wagner?

— Ah, não! Tudo, menos Wagner! Você sabe muito bem disso. Wagner, eu não tolero!

— Está certo; mas eu duvido, também, que vo­cê possa ouvir a outra coisa...

— Pelo que vejo você me está experimentan­do... Alguma surpresa?

— Sim. É a respeito do Henrique.

— Do Henrique?! Que a com o Henrique?

— Ele vai fazer uma coisa...

Suzana resolveu precipitar o assumto. E entor­nou os pormenores, de um fôlego só, sem parar.

— Eu acho vovô, que, de fato, ele não vai fazer o que prometeu, porque naturalmente ele não pode fazer coisa alguma sem ela, e ela disse que na­da fará enquanto não obtiver o seu consentimento e vo­cê não lhes declarar que está tudo muito bem. É por isso que o Henrique deseja falar-lhe, esta noite. E você não dirá a ele uma palavra a respeito da nossa conversa, porque, como estamos vendo, ele quer agir inteiramente só! Mas... Eu pensei que seria melhor prevenil-o com cuidado...

Suzana deteve-se um instante para respirar, e, em seguida, interrogou precipitada:

— Você não acha que sou prudente, prevenindo-o, vovô?

O avô deu-lhe uma palmadinha na mão, e sor­riu de novo.

— Você não revelou coisa alguma, por enquanto. E eu não tenho a menor ideia do que você está di­zendo...

— Ora, vovô! — exclamou Suzana, contrariada. — Eu acabo de lhe contar! Henrique está comprometido com uma moça chamada Lucilla Anderson.

— Ah, eu devo estar ficando surdo! Por Deus, somente agora começo a compreender certas coisas! Foi porisso que você sugeriu que eles fossem ver Annos de discrição... Mas... Quem é essa Lucilla Anderson? Ela é tão jovem, em sua opinião, que não sabe ao certo o que quer?

— É isso mesmo! Ela é muito jovem — creio que tem a mesma idade que Henrique. Além disso, a outra coisa, vovô... Lucilla é artista!

— Artista?! Você quer dizer que ela é pintora, ou... ?

— Não; ela não é pintora... Você sabe vo­vô, que ha muitas qualidades e espécies de artistas. A... A arte de Lucilla é... É... É muito bonita! É a arte de... De...

— Que arte, querida?

— A arte de... De personificação... No palco!

— Uma atriz! — exclamou o velho, estupefacto. E, como se falasse consigo: — Mas... isto parece uma repetição!

Suzana ficou nervosa. Começou a estalar as jun­tas dos dedos e a pestanejar sem interrupção. E repli­cou, quase a chorar:

— Sim; ela é atriz, mas é uma moça direita, vovô! E, além do mais, isso não faz muita diferença, hoje em dia— proseguiu a jovem com voz mais firme. Muitas moças de boa família vão para o palco...

— Uma atriz! — repetiu o bispo, como quem reflete e recorda. — Como é caprichoso o destino...

O velho parou de súbito e, fitando a neta, in­quiriu-a:

— Você disse que gosta dela, minha querida?

— Gosto imensamente, vovô! — respondeu a neta sem hesitação. — E acho que o Henrique poderá fazer muito por ela. Não esqueça o que lhe disse agorinha mesmo: ela é encantadora, extremamente simpatica e... e a influencia dela sobre o Henrique é de fato a melhor possível, a melhor que já vi. É evidente que, agora, ele começa a refletir a serio em muitas coisas. E isso é devido a Lucilla — somente a ela, tudo, tudo! Ouça vovô: ela recusou-se terminantemente a se considerar comprometida com o Henrique enquanto você não concordar. — Alem do mais, proseguiu a jovem convencendo-o carinhosamente — mesmo que ela não tivesse nada do que desejaríamos para a mu­lher do Henrique (e eu acho que tem, e porisso gosto dela), ele tem paixão por Lucilla, e nós devemos apoia-lo, não devemos vovô? Ele é o "nosso" Hen­rique, não é? E você sabe, tão bem quanto eu, que ele é tudo que nós possuímos...

Esta defesa apaixonada abalou Suzana, que en­costou a cabeça no hombro do avô, e, repentinamente, contra sua própria vontade, começou a chorar alto. Quanto ao bispo — observava-o Suzana estupefata — nunca o velho lhe parecera tão plácido, tão suave e sereno. Esta atitude inesperada fez com que a jovem se contivesse, dominando o choro.

— Era disso mesmo que eu me recordava — disse o velho ternamente. — O Henrique sempre teve pouco senso...

Suzana retirou o lenço do rosto, e, com uma carinha zangada, censurou o avô:

— Ora, vovô! Eu não sei como você pode dizer uma coisa dessas sobre o Henrique! Estou admirada! — continuou admoestando-o. — Ele não é back de cestobol na Universidade? E não foi você mesmo quem disse que era preciso muita inteligencia para jogar nessa posição?

— Eu disse? — sorriu o velho, mimando Suzana, afetuosamente. — Se disse isso prova que eu estava enganado... Não prova minha filha? E, depois, po­demos ser inteligente e insensato, ao mesmo tempo...

— Bem, mesmo que não estivesse enganado, vo­cê não me vai repudiar agora e ficar furioso com o Henrique, vai? Você não pode fazer isso, vovô! Não é digno de você!

O velho puxou-a para junto de si:

— Repudia-lo? — exclamou, com lagrimas nos olhos. — Em nome do bom senso, minha Suzana, por quem me toma você? Que conceito faz você de seu avô?

E, carinhoso, mudando de tatica:

— Escute querida. Deixe-me fazer-lhe uma confissão. Eu não sou um velho tolo, como pareço. Você julga que eu já não andava vigiando "seu" Henrique? Você pensa que eu já não havia percebido todos os sintomas? Você acha que seu velho avô não tem um pouquinho de "bestunto14"?

Bateu a mão espalmada no braço da poltrona, fin­gindo bom humor.

— Eu adoro esta antiga palavrinha americana: - bestunto — murmurou o bispo, alterando o tom de voz e falando como quem fala a sós. — Pode ser giria — proseguiu — mas, ainda assim, a verdade é que não exis­te no idioma ingles um vocábulo que expresse tão bem quanto ela o que eu quero dizer. E não pense — vol­tou o velho ao assumpto — que, embora seja bispo tenha vivido setenta e dois anos, eu não conheço nada da vida! Não pense também, a despeito de tu­do, mesmo que Lucilla Anderson fosse uma verda­deira bruxa, que eu poderia abandoná-la agora, aban­donar você que é o meu pequenino cicerone15, você que é minha obra prima de prudência, e que me guiou, com suas mãos gentis, durante todos estes anos, atravez das armadilhas deste perigoso século vinte. . .

"Ora, era preciso que eu fosse um ingrato, Su­zana, um mal-agradecido, um Judas — alguém, em que devesse ser apanhado e eliminado, para poder repudiá-la agora! Não importa o que "seu" Henri­que fez, ou pretende fazer, porque, minha querida, nesse caso, eu faria a única coisa que me restava — penitenciava-me como um gentleman, como fez o ultimo rei Eduardo, e me conformaria de alma leve.

"Essa tendência particular para as quixotadas provém da família de sua avó, e não da minha. Mas eu acredito que, em circunstâncias muito especiais, também os imitaria — proseguiu o sacerdote com um sor­riso de ternura. — E digo isso porque, certa vez, ha muitos anos, minha flor, seu admirável tio-avô, Cornelio Van Tuyl, deu-me esplendido exemplo. Ouvi-o com estes mesmos ouvidos, e, desde então, mau gra­do as diferenças existentes entre nós, tenho seguido sempre a lição do rei Eduardo e de Cornelio Van Tuyl.


­­­­­­
CAPÍTULO VII
Suzana ficou atarantada. Seu avô, de cuja circunspeção e prudência ela tanto se vangloriava, falava-lhe "grego". Surpreendia-a imenso a impre­vista mudança do avô — o brilho que vira nos olhos do ancião, o entusiasmo e vigor que seus gestos e atitudes revelaram. Na sua excitação parecia-lhe que pelo menos dois decenios de tradição aluiam como um trapo. Pela primeira vez em sua curta existência, Su­zana sentiu-se completamente diminuída, como que es­magada.

— Ha ainda mais uma coisa que devo dizer-lhe e que você não quer compreender — continuou o bis­po. — Diz-se que a um único Shakespeare e jamais haverá outro. Pois ouça, minha flor, na família Armstrong nunca houve um Shakespeare, infelizmente. Ne­nhum de nós, exceto seu avô Van Tuyl, jamais foi considerado um literário. Se, entretanto, no cérebro humano jamais se repete um Shakespeare, a historia, minha filha, a historia repete fatos e episódios... Mas Deus foi bom para seu velho avô — continuou o bispo em tom animado. — Ele deu-lhe outro destino. "Tudo que aconteceu, acontece outra vez". Ai está um antigo provérbio, cuja verdade percebo esta noi­te, pela primeira vez. Houve outrora uma noite, mi­nha Suzana, em que seu pai, o meu Henrique, se di­rigiu a mim como o nosso Henrique vai fazer. Com uma diferença apenas: ele não esperou meu consentimento, resolveu seu problema amoroso com suas pró­prias mãos. O caso, porém, é praticamente o mesmo.

"Aqui estava eu, nesta cadeira, eu, o juiz — frio, impassível, satirico, quase onipotente nesse momen­to, e o pobre rapaz sentou-se ali, cheio de amor por sua jovem eleita, leal para com ela, apaixonado, im­petuoso, odiando-me porque eu a julgara mal, mas desejando ainda, com todo o ardor de sua alma, que eu lhe estendesse as mãos e protegesse a ambos. Mas... eu não procedi assim, Suzana! Valha-me Deus! eu não fiz isso... Então, ele transpoz aquela porta, e esse passo foi o final — o final de tudo entre nós dois, como você sabe... E, esta noite, mais de trinta anos depois, a mesma historia se repete aqui! É o bom Deus que me oferece oportunidade para me redimir. Não se arreceie pelo Henrique, Suzaninha. Ele é seu irmão; e, mais do que isso, ele é o filho do meu Henrique. E eu, avô dele, estou sob o peso de uma dupla obrigação. Confie em mim, mi­nha querida.

O velho apertou a mão da neta, como se estives­se confirmando um pacto com um homem de sua ida­de. E accentuou:

— Esteja ele certo ou errado, devo tratá-lo com muita doçura; devo ser político, também. Se puder salva-lo sem imposição, sem rudeza, é o que procura­rei fazer. Se verificar que é um casamento de incli­nação, minha querida, só me resta apoia-lo e dar-lhes a minha benção. Se, porém, perceber que ainda posso dissuadir Henrique de cometer uma loucura, então — confie em mim, querida! — jogarei um trunfo para consegui-lo — o único trunfo que possuo. Por amor a ele — e a você também — relatarei uma historia, que está fechada a chave, em meu peito, ha quarenta e quatro anos, uma pequena historia que jamais espe­rei revelar a ninguém.

Neste momento ouviu-se o ruido forte de uma porta do corredor. Era Henrique que regressava a casa. Ambos, o bispo e Suzana, conheciam de sobra este habito de Henrique, de bater a porta sempre que estava nervoso ou aborrecido.

— O Henrique está ai! — exclamou a moça agi­tada.

— Fuja meu bem — aconselhou o avô. E, sereno — E não se atormente. Volte daqui à meia hora e, nesse entretempo, lembre-se de que seu avô conseguirá que a historia não se repita...

— Aqui estou vovô! — disse Henrique, de repente, entrando no aposento, o que fez com que Suzana, que já se achava á porta, se voltasse rapidamente, para preveni-los:

— Não se esqueçam queridos. Estamos na vés­pera do Ano-Novo. Ha paz sobre a Terra e sobre todas as coisas. Não briguem! Vovô não quer, já sei; mas... Eu estou com medo de você, Henrique!

— Até que afinal você chegou Henrique. Viva! — saudou o ancião simulando satisfação, assim que Su­zana cerrou a porta. — Nós já perdíamos a esperança de ve-lo, Suzana e eu. Por que demorou tanto? Por causa das entradas de teatro?

— Não, vovô; não havia uma cadeira em toda a cidade. É uma exploração o que fazem esses cam­bistas em todos os feriados! — vociferou Henrique, um tanto nervoso. — Mas eu aproveitei o tempo, e fui fa­zer uma visitinha a Lucilla. Sinto muito te-lo feito es­perar, vovô.

— Nada disso, meu rapaz! — atalhou o bispo já de bom-humor. — Esse é um belo costume antigo, um tributo ao Ano-Novo, que todos pagam como você, com algumas horas de adiantamento. Eu receio que ele desapareça como aquela boa moda de se espe­rar o Natal jogando cartas. E estou satisfeito por saber que você está mantendo a tradição, Henrique.

Neste instante, alterando a voz, quase abrupta­mente, o velho interrogou:

— E... Que tal aquela nossa conversinha, Hen­rique?

Henrique estava nervoso, visivelmente nervoso.

— Você tem certeza, vovô, de que o reumatismo não o está atormentando muito, agora á noite? Amanhã, como sabe, poderá estar bom, se não come­çar a se apalpar com as mãos...

— Nada disso, rapaz! — exclamou o bispo. — Eu estou otimamente nunca me senti melhor em mi­nha vida. Sua irmã espantou meus padecimentos com o disco do Lauder. Ponha outra acha na lareira e... Vamos palestrar.

— Está bem — respondeu Henrique colocando o lenho no fogo. Súbito, voltou-se para o avô: — Vovô, — disse ao mesmo tempo em que suas mãos esquadrinha­vam nervosamente os bolsos de seu dinner-coat, eu te­nho uma coisa, eu quero...

O avô interrompeu-o gentilmente:

— Um momentinho, Henrique. Se você abrir a segunda gaveta de cima, do lado esquerdo de minha secretaria, creio que encontrará uma caixa de cha­rutos...

O rapaz atravessou o gabinete em direção á escri­vaninha e retirou a caixa.

— Obrigado, meu filho. Você quer um deles? Sei que não são bons como os seus — sorriu o velho— mas... Lembre-se de que não sou um mililonario em perspectiva, como você... Porisso, não posso oferecer as melhores qualidades.

— Agradecido, vovô, mas não tenho vontade de fumar, agora. E, você sabe, tenho um assumto muito importante. Vim procurá-lo com a intenção de...

— Perdão, Henrique — interrompeu o religioso. — Um momento: esqueci os fosforos.

— Desculpe-me, vovô! — respondeu Henrique, re­volvendo os bolsos á procura de fosforos. —Pronto! — E, enquanto lhe acendia o charuto, perguntou: — Está tudo bem, vovô? Agora, desejo dizer-lhe o que tenho na cabeça. Isto está aqui, ha tempos, e... E eu...

— Eu, que? — interrogou o avô num tom de bonomia16.

O embaraço de Henrique crescia, de momento a momento.

— Eu penso, eu acho que... Que devo confessá-lo agora... Isto me está preocupando ha tem­pos. Creio que tenho sido leal com você, vovô, por­que nada resolvi definitivamente, antes de lhe dizer...

— Está bem — replicou o velho, encorajando-o. — Parece-me justo, Henrique. Você agiu bem.

— O vovô compreende, esta é a solução... — co­meçou o rapaz. E estacou.

— Solução de que? — interrogou o avô com doçura.

— Calma vovô! Eu não sei, ao certo, como lhe dizer a verdade, mas... Mas...

Henrique levantou os olhos repentinamente e surpreendeu o avô a sorrir.

— Está bem! Vovô já sabe tudo, não é? Eu já estava desconfiado, desde o principio.

— Você adivinhou Henrique. Sua intuição é muita boa, e, porisso, você acertou. É isso mesmo, meu filho estou a par de tudo.

Henrique lançou um olhar colérico em direção á porta — uma olhadela visivelmente destinada a se vin­gar de Suzana, que tudo revelara.

— É isso! — rosnon o rapaz. — Mulher não pode guardar segredo!

— Mas a culpa é toda minha Henrique — inter­veio o bispo, conciliador. — A pobre Suzana está ino-cente, inteiramente inocente! Eu arranquei-lhe a con­fissão. Torci os braços dela, dei-lhe um pontapé nas canelas. Você não pode censurar Suzana. A culpa é minha!

O rosto de Henrique demonstrou profundo des­gosto.

— É! E agora vovô está caçoando de mim! Muito bem...


CAPÍTULO VIII
O rapaz levantou-se, endireitou o corpo e lançou um terrível olhar de desafio ao avô. Este se tornou subitamente terno, levantou a mão e segurou afetuosamente o braço do neto.

— Não; eu não estou zombando de você, meu rapaz. Longe disso! Julgo uma deferencia de sua parte esta confissão sincera, falando-me abertamente. Você me está fazendo relembrar certa noite, neste mes­mo quarto, quando seu querido pai, o meu Henrique, veio a mim com uma historia provavelmente muito se­melhante á sua. Eu fui bruto com ele. Porisso, nun­ca me perdoei. Eu...

— Mas... Espere vovô! Deixe-me falar de meu caso! — interrompeu o rapaz indelicadamente. — Sou eu quem está na berlinda, eu e Lucilla, e tudo que desejo, agora, é ser inteiramente franco com você. Preciso falar-lhe pessoalmente a respeito de Lucilla. Suzana não precisava preveni-lo. É um assumto particular, que diz respeito somente a mim. E eu não gosto que ninguém se intrometia em meus negócios particulares.

— Naturalmente eu sei que você está magoado, Henrique: mas, por favor, não acuse Suzana. Sou eu o culpado. Minha insaciável curiosidade arrancou-lhe a verdade. Mas... Fale-me de Lucilla. Você deve adorá-la, supponho.

— Claro... Está claro que eu a adoro — respon­deu o jovem ainda mal-humorado.

— Ela é muito bonita, hein? — O rosto do rapaz resplandeceu.

— Foi Suzana quem lhe contou?

— Não — respondeu o velho meneando a cabeça. — Fui eu que conjeturei — ai está.

— E é muito inteligente também! — exclamou Henrique, entusiasmado. — Franklin Sargent me con­tou que não teve uma aluna mais inteligente, desde que Helena Ware se diplomou. E ela deu inumeras provas de carater! É cheia de princípios; muito honesta. E, para falar com franqueza, ela é até boa demais para mim!

O velho inclinou-se para frente e deu outra pal­mada na mão do neto.

— Naturalmente — sentenciou, confirmando. — Natu­ralmente ela deve ser direita...

— Eu a encontrei em casa do Randall — vovô o conhece, o Randall, aquele pintor. E, agora, ela vive inteiramente só numa velha casa de hospedes da Décima Rua, e está sem trabalho porque eu não per-mitti que ela trabalhasse como flapper no "Winter Garden". Toda a família dela morreu, e, se ela não concluir o curso na escola de teatro, arruinará sua carreira artística. É porisso que penso dever desposá-la já. Vovô não pensa do mesmo modo? Não con­corda comigo?

O rapaz fez urna pausa e encarou ansiosamente o ancião.

— Não concorda? — insistiu.

— Um momentinho, Henrique; deixe-me interrompe-lo por um instante. E, curioso: Que é uma flapper?

— Ora, flapper — repetiu Henrique, irritado pela interrupção. — Uma flapper... Espere um pouco. —Re­volveu a memória rapidamente. — Bem, flapper é um termo do "London Gaiety Theatre" com o qual se designa uma... Vovô sabe uma moça bonita, muito moça, que saiba dançar qualquer coisa...

— Ah! Compreendo...

— Está claro que ela nunca desejou fazer um papel desses, mesmo que eu não interferisse e não batesse o pé protestando — explicou o jovem. — Mas, di­ga-me, acha que procedo bem, vovô, casando-me com ela?

O velho agitou-se com pequeno esforço e inclinou-se para frente da poltrona.

— Não estou bem certo, Henrique. Raciocine: você é muito jovem — vocês dois. Você está come­çando a viver, meu rapaz, e pode mudar de idéa, com o tempo — você ou ela. Quanto a você, pode chegar uma occasião em que sinta necessidade de algo mais, de alguma coisa que nenhuma atrizinha lhe poderá dar...

Henrique teve um desatencioso movimento de im­paciência.

— Já sei — proseguiu o bispo percebendo a atitude do neto. — Agora está tudo muito bem, muito bo­nito, porque você gosta dela; eu sei isso... Mas... Você tem certeza, Henrique, de que gostará sempre dela, sempre, como agora? Tem certeza de que não ha nada oculto no futuro, ou no passado, que possa modificar sua afeição por ela, que possa abatê-lo e amargurar seu coração?

— Não compreendo o que vovô insinua...

— É que você precisa ter toda a certeza, meu filho — continuou o avô, aconselhando. — Do contrario não seria leal para consigo, e, pior ainda, não o seria fiel com Lucilla.

— Oh, como é fácil falar! — explodiu o rapaz, irri­tado. — Eu já sabia que seria este o resultado! Ai está por que não tento proceder de accordo com minha fa­mília. Vocês são todos iguais — estreitos cheios de preconceitos, secos como pó!

Voltou às costas para o avô e começou a cami­nhar colérico, pelo aposento. E resmungou:

— Se papai e mamãe vivessem, eles me compreenderiam!

O velho estremeceu.

— Não diga isso, Henrique! Você não ignora que eu tenho feito tudo por vocês — por Suzana e por você!

— Mas eu não me refiro a isso, vovô! — replicou o rapaz, arrependido. — E, você sabe ha muito tempo que vovô foi moço, de sorte que lhe é penoso recordar e compadecer-se de semelhante. Eu sei que o vovô é muito prudente — proseguiu ele, afobado — que pode ver atraves das pessoas, conhecer a indole delas, que o vovô é um grande estudioso da natureza hu­mana, e... E tudo mais! Mas este caso é differente. Eu... Eu não posso acreditar que já tenha encontra­do a solução que ando procurando, e... Está bem! Não adianta falar! Obrigado pelo conselho, vovô... Não desejo tomar-lhe mais tempo.

O rapaz precipitou-se para a porta.

— Aonde vai você, Henrique?

— Vou casar-me!

— Agora á noite?

— Sim; hoje ou amanhã. Já retirei a licença esta tarde.

— Venha cá, Henrique - ordenou o velho, um tan­to ríspido. — E faça o favor de fechar a porta.

Henrique obedeceu sem dizer palavra e tornou a sentar-se na cadeira ao lado do avô.

E, pasmo, percebeu que o velho sorria.

— Que brincadeira é essa, vovô? Não vejo nada engraçado! — E, em tom de censura— Nunca estive em situado mais seria em minha vida!

— Desculpe-me, Henrique. Não estou escarne­cendo de você. Longe disso, eu estava apenas me lem­brando de um velho amigo meu bispo também, e que faleceu ha poucos anos, cheio de boas obras. Nobre homem, durante toda sua vida dedicou suas forças e prestimos á sua igreja e á sua gente. Não era o que consideram uma brilhante inteligencia, apesar de suas filantropias e de seus empreendimentos. Acredito, entretanto, que será lembrado na historia da igreja, devido a seus conselhos, seus perdões, suas palavras de paz. Um jovem parente dele, sobrinho se não me engano, desposou uma atriz. Todos esperavam que o bispo trovejasse e se enraivecesse. Mas, como um sábio, ele não fez nada disso. Ele era filosofo Henrique... Porisso, apenas sorriu, sacudiu os ombros e sentenciou: "As atrizes podem provir das fa­mílias mais bem constituídas, e constituir, por seu turno, famílias modelares". Pois é somente agora que me encontro nesta situação singular, que considero em to­da sua força a sabedoria das palavras de meu velho amigo — concluiu o velho prelado a sorrir.

— Sim, mas não percebo que é que isso tem a ver com o meu caso! — acudiu Henrique, mais irado do que antes, encaminhando-se de novo para a porta. — Se o vovô pretende zombar de Lucilla e de mim...

— Psiu, Henrique! — atalhou o avô energicamente. — Não seja doido, rapaz! Sente-se aqui. Não, nessa ca­deira — não, porque me obriga a voltar o rosto para olhá-lo. Sente-se aqui á minha frente, no banquinho para os pés, pois ficamos ambos com o rosto iluminado. Foi ai que se sentou seu pai, na ultima vez que o vi.

— Mas... Que mais há a dizer, vovô? — indagou o rapaz sentando-se no banquinho. — Já deu sua opi­nião, já disse o que pensa, já desabafou seu espirito. Eu já sei que você está contra nós...

— Não, não estou contra, Henrique. Não diga tolices. Seja justo. Você acabou de declarar, agora mesmo, que eu não poderia "olhar para traz" e recor­dar o que sentia quando era moço. Pois ouça, eu posso recordar Henrique; acredite que posso. Porque, por mais que se envelheça, saiba você, sempre perma­nece um resto de mocidade em nosso coração.

— Perdão, vovô — murmurou Henrique, contrito, arrependido. — Eu perdi a calma a pouco, vovô, mas não queria magoa-lo...

— Já sei rapaz; já sei... — sorriu o velho. — Mas, sem querer, você me fez lembrar uma aventura que eu acreditava inteiramente esquecida. Isso aconteceu ha muito tempo, meu filho, e, ainda hoje, para maior estranheza, estive a recordá-la durante o dia todo, após muitos anos de inteiro esquecimento. Possivel­mente o crepúsculo da velhice me torna sentimental; não o asseguro, mas, talvez, assim seja. Mas, seja lá como for, é algo que jamais revelei a quem quer que seja algo que eu acreditava devesse occultar. De fato, cheguei a fazer um juramento de guardar segre­do, mas... Ora, o tempo tudo modifica! Naquela epoca, eu não tinha um neto como você, Henrique, a quem pudesse tornar meu confidente. Mas... Eu de­sejo saber se você tem tempo para escutar esta historiazinha.

Henrique olhou o avô, um pouco desconfiado.

— Ficaria muito satisfeito de ouvir sua historia, vovô — respondeu Henrique. E acerescentou, seco e cruel — Mas... Se pensar que ela poderá modificar minha decisão de desposar Lucilla... Pode parar aqui mesmo!

O bispo ergueu-se da poltrona com dificuldade e manquejou vagarosamente em direção á escrivani­nha. Henrique precipitou-se para ele.

— Que é isso, vovô? Ficou magoado?

Uma dôr aguda, nas costas, fez com que o reumatico parasse no meio do aposento e soltasse um ge­mido pungente.

— O reumatismo piorou vovô? — indagou Henri­que, com voz terna, arrependido.

Apesar da dor, o velho fitou o neto com um sor­riso de indulgência. Depois, sentou-se na poltrona da secretaria e poz-se a apalpar os bolsos á procura de sua penca de chaves. E, á medida que procurava, semicerrando os olhos, preveniu o neto, com a voz mais baixa:

— Não se esqueça! Eu tinha somente vinte e oito anos, Henrique... Vinte e oito anos!

Afinal conseguiu abrir a gaveta de baixo, e, de­pois de remexer em seu interior, dela retirou um pe­quenino cofre de mogno.

— Você sabe o que contem este cofre, Henrique? — perguntou o ancião, acariciando o precioso objeto.

— Não, vovô... Que é? As jóias de familia?

— Não — respondeu o religioso com um sorriso radiante no rosto. — Coisa mais valiosa do que jóias, Henrique... E, principalmente, muito mais rara. Aqui está um romance, meu filho — o perfume do meu ro­mance, o perfume do passado!

— Como foi que vovô falou? Creio que não es­tou compreendendo nada.

— Veja! — disse o bispo, abrindo o cofrezinho e dele retirando, com mil cuidados, um trapinho de ren­da amarelada.

— É um lenço! — declarou Henrique, assombrado.

— Sim... Um lenço... — sussurrou o velho, con­firmando com um aceno de cabeça. — Um simples len­ço... E aqui está tudo!

Em seguida, abriu o lencinho, e, de suas dobras, gotejou sobre a mesa um punhado de florinhas rese-quidas. Apanhou algumas delas, aspirou-as com va­gar e emoção, suspirou e, á medida que meneava a cabeça branca, começou a guarda-las, com infinito ca­rinho, no lenço de onde as tirava. E observou, com voz cava, quase lugubre:

— Agora elas estão murchas e seccas... Foi-se-lhe a doçura... Sim, o colorido e o aroma... Tam­bém... Eu sou um valetudinario, agora... Mas... De qualquer modo, parece que isto aconteceu ontem!

— Que é que você está fazendo, vovô? — interro­gou o rapaz, assombrado.

O bispo suspendeu a lâmpada da escrivaninha e, abraçando o cofrezinho ternamente, levantou-se e foi accorrimodar-se na poltrona, ao pé do fogo.

— Ah! Aqui está o que lhe vou contar, agora. Sente-se, Henrique. Você está á vontade, ai? Muito bem. Então ouça...

"Isto aconteceu ha mais de quarenta anos, qua­renta e quatro, para dizer mais certo. Como o tempo voa! Nessa época, como você sabe, eu era o jovem reitor de St. Giles. Isso se deu antes que eu desposasse sua avó — que Deus a abençoe! — embora eu a conhecesse intimamente durante toda minha vida. Pois bem, Henrique, certa noite, em novembro, fui a uma reunião festiva em casa do velho Cornelio Van Tuyl, e foi lá, naquele turbilhão, naquele caleidoscopio mágico, de musica, beleza e elegâncias, que co­meçou a grande aventura de minha vida...



CAPÍTULO IX
“Ele era uma personalidade, eis aqui. Cornelio Van Tuyl é único. Ele nunca faz coisa alguma como os outros”, costumava-se dizer em todas as rodas. Nessa noite, porém, os freqüentadores que deixavam a apresentação de A rapariga de Lancashire, e se dirigiam aos lares atravez da Quinta Avenida, assim que avista­ram o docel na casa de Van Tuyl, não era a ele, o idolo político da cidade, o magnata magnífico, que se refe­riam os transeuntes. O nome que saia de todos os lábios, nessa noite memorável, era o de Margarida Cavallini — Cavallini, a jovem cantora italiana que seis semanas antes triunfara na Europa e que acabava de empolgar toda Nova York, cantando a Mignon, na Academia de Música.

Para os jornais que se porfiavam em proclamar-lhe o triunfo; para os críticos musicais que, a falta de expressões mais apropriadas, a saudaram como o "Rouxinol de Ouro" e outros epitetos17, assim como para todos os demais admiradores que a bombardeavam com flores toda a vez que pisava o palco — a todos eles a Cavallini menosprezou, voltando-lhes as costas. Re­cusou convites para encontros; recusou entrevistas aos jornais, e proibiu, terminantemente, a venda de suas fotografias. Seus aposentos no Hotel Brevoort eram guardados, dia e noite, por um empregado especial, e durante as seis semanas de seu contrato em Nova York, além do empresário, companheiros de teatro e seu empregado particular no hotel, ninguém teve oportunidade de lhe dizer mais que um simples e polido bom dia.

Porisso o público de que ela escarnecia com tanta persistência a adorava ainda mais. Havia um misterio em torno da grande entediada. E, na verdade, com exceção, talvez, da nossa atual Mary Garden, que outra artista poderia ter idealizado e conseguido uma reclame tão invulgar?

Nessa noite, a Cavallini seria hospede de honra de Cornelio Van Tuyl. Ele a preveniu, antecipadamente, que cantaria para os comensaes. Era, portanto, coisa de se estranhar o fato de o transeunte apontar com a cabeça a casa de Van Tuyl e piscar o olho para sua mulher, no mais silencioso e expressivo dos comentarios?

Os clubes e os cafés, as salas de visitas e os camarins andavam preocupados com os nomes de Ca­vallini e de Cornelio Van Tuyl. E, emquanto os bis­bilhoteiros tagarelavam e conjecturavam em todos os recantos da cidade, e os convidados davam os últimos retoques em seus vestuários, ao chegarem aos pés da ampla escadaria da casa — no seu interior permane­cia uma mulher de rosto meigo, cabelos castanhos muito bem ajustados, que, alvoroçada, ate dava uma ultima olhadela para as decorações das salas, ora, como se fosse uma experimentada dona de casa, espia­va a enorme sala de jantar, onde os empregados do Delmonico já se entregavam aos primeiros prepara­tivos para a grande ceia.

Ela vestia uma ioilette muito simples, em desacordo quase com a moda. Sua aparencia era a de uma criatura de vinte e sete anos, mas os anaes da família Van Tuyl lhe davam trinta e um. Todavia, Suzana Van Tuyl era tão simples e luminosa de índole, que jamais perturbava a paz de seu espirito com preocupações referentes à idade e a sua aparencia.

Nesse momento, Suzana sentia-se singularmente satisfeita consigo, e com o mundo em geral. Nunca, desde o dia em que, menina ainda, viera morar com o tio, nunca Suzanna achara aqueles salões tão gar­ridos, tão bonitos. Flores e folhagens por toda a parte. As decorações mereceram-lhe carinho todo especial, e, olhando-as, reconhecia Suzana que não poderia ter ficado melhor.

Entregue aos seus devaneios, ao mesmo tempo em que lamentava seus cabelos, que tei­mavam em não frisar, mas se alegrava por verificar que nada mais a aborrecia neste mundo, interrompeu-a uma voz de baritono, vinda do patamar da escada:

— Olá, minha amável castelhan! Onde você anda escondida? Como está?

O homem que assim falava era alto, magro, e beirava cinquenta anos. Seus cabelos, um tanto com­pridos, ao gosto da época, começavam a ficar gri­salhos; seu rosto, palido e bem tratado, diminuía vinte anos quando ele sorria afetuosamente para Suzana, ostentando um brilho moço no olhar. Era um gentil homem, pitoresco de atitudes, e que pare­cia ter saltado de algum velho da guerra o tipo, dependurado nas paredes. Trazia na mão uma longa tira de papel, cheia de nomes.

— Estive fazendo o calculo das bocas, Suzana — disse Van Tuyl em tom de galhofa. — Andei separando as ovelhas dos carneiros, e imaginando, ao mesmo tempo, o que eles vão achar da idéa. É um trabalho divertido, minha filha! São, ao todo, noventa e nove pessoas. Vamos ver se elas se comportam como pes­soas de respeito ou como ovelhas desgarradas...

— Não interessa, agora, esse negocio de ovelhas perdidas, titio — respondeu Suzana sorrindo. — Fale-me de seus leões. Quantos deles vêm urrar, hoje, aqui? E com que iguarias devo eu alimenta-los?

— Deixe-me ver... — E Cornelio Van Tuyl poz-se a cocar a cabeça, como quem se recorda. — Deve vir Ole Buli, o violinista. Mas ele não é enjoado: qual­quer viuva velha o diverte! E, por falar nisso, ai está um misterio que nunca compreendi Suzana: o moti­vo por que as mais respeitáveis e mais idosas senho­ras invariavelmente se apaixonam pelos musicos... Ficam doidas, as pobres! Mas, continuemos. A Sra. Scott Siddons também vem, na certa. Ela está um tanto pesada, mas ainda é bem decorativa. Indague dela, minha querida, quando vai representar Medéa. Ouvi dizer que ela não anda muito satisfeita com o grande successo da Bower, nesse papel. Quem mais? Ah! A Mathilde Heron também virá. E você sabe que­rida, que ela vale sozinha, um batalhão. Ah! A pro­pósito, antes que eu me esqueça, comprei um cama­rote para a véspera de Camilla, em que vai estrear a Agnes Ethel, uma discípula da Mathilde, uma ruivinha muito bonita. Quero ver, pois não posso ima­ginar outra pessoa que pretenda substituir Mathilde Heron na protagonista de Camilla.

— Ora, titio, ela era tão admirável!

— Admirável? Ela era assombrosa! Inigualá­vel! Deve fazer doze ou treze anos que a vi repre­sentar esse papel, pela primeira vez. Pois bem, em minha opinião, ela é, até hoje, a primeira e a única artista americana que pode desempenhar esse papel emocional dando-lhe um cunho tão humano.

— Pois você me surprehende, titio, depois do que o William Winter escreveu a respeito dela, criticando a Camilla, na Tribuna de hoje...

— Céus! — exclamou Van Tuyl em tom trágico, mas sorrindo. — Isto até parece brincadeica! O Winter também virá! Onde está o jornal? Quero ver o que ele diz.

Suzana mergulhou na penumbra de um quartinho de despejo, e voltou daqui a momentos, com o exem­plar da Tribuna.

— Escute só isto, titio... — E a moça começou a ler:

"A srta. Agnes Ethel, discípula de Mathilde Heron, fará no próximo sabbado, dia 10, no "Theatro S. Je-ronymo", uma exibição particular, que suas realiza­doras, diga-se de passagem, desejam ardentemente que se torne tanto quanto possível publica. A srta. Ethel poderá representar Camilla. A nosso ver, porém, é lamentável que a srta. Heron não tenha confiado sua disciplina a uma escola melhor que a sua.

A aplaudida atriz deveria estar mais que consciente de que a época de Camilla já está irrevogavelmente passada. A malícia franceza, essa sim, está na or­dem do dia, ao passo que as doenças dos pulmões, assim como os vicios secretos, já não constituem assumto que agrade ao publico. Eles forneceram, des­de o inicio de sua apresentação, entrechos bastante torpes, e — o que é pior — não se alteraram, não se atenuaram, não melhoraram no ultimo decenio.

A suposição de que ainda existe alguém que de­seje rever Camilla, neste ano da Graça de 1868, é a mais rematada das tolices, mormente quando se consi­dera que a nova atriz, aluna da Srta. Heron deve ter adquirido todos os grandes defeitos do estilo de sua professora. Os defeitos saberiam todos, destacam-se muito mais e são, pois, muito mais facilmente transmitidos do que os méritos.

Se a Srta. Agnes Ethel deseja fazer do proscênio sua profissão, deve, antes de tudo, ser prudente, ini­ciando sua carreira com um aprendizado racional, pois, a não ser assim, sua esperanças naufragarão, desde já, nos rochedos estéreis de uma sensação teatral inteira­mente demodé. A própria Srta. Heron sabe muito bem que o publico ainda tolera Camilla, exclusivamen­te em atenção á sua interprete e, porisso, ao que esta­mos informados, pretende dentro em breve, provavel­mente numa das noites de descanso de Edwin Forrest, levar esta peça á cena, mais uma vez, no palco do "Nibto".

Van Tuyl abandonou o matutino e explodiu numa grande gargalhada, virando a cabeça para traz.

— Chiii! Isto vae ser um aborrecimento para a pobre Mathilde! Também, ha treze anos ela repre­senta a Camila... Mas, pôde ser que ela não dê importância. E, ouça, é bem provável que os dois aca­bem a festa com um namoro. Eu vou ver se os coloco juntos, durante a ceia...

O velho fidalgo deu uns passos, sorrindo, e con­sultou o relógio:

— Ah! o Winter deve estar chegando... É ques­tão de minutos, pois ele apenas foi ver o Barney Wil-liamses, no Circulo de Família. E, como não é espetaculo de estreia, ele não pode demorar. Garan­tiu-me, aliás, que redigiria o "nariz-de-cera" no pró­prio teatro, e que viria em seguida para aqui e entre­garia a noticia ao Dan — aquele auxiliar dele. E, por falar nisso, que rapaz brilhante, o Dan! Esse diabinho não tem mais de quinze anos, e, no entanto, como observei ao Winter ha poucos dias, ele conhece essas coisas de teatro melhor que todos nós, jun­tos. Mas, voltando ás suas ovelhas, Suzana, acho que você não precisa fazer deferencias especiaes a nin­guém, esta noite, exceto, naturalmente, á Sra. Caval­lini. Você me alegrará se a tratar com bastante deferencia e cuidado. É a primeira vez que consigo arrancá-la da "casca": Apesar de todos seus triunfos, tenho a impressão de que ela é muito caseira. Terminada a representação, enterra-se no Brevoort, como um caramujo, e lá fica, entediando-se com a ve­lha Vannucci e com aquele raio de macaquinho, que tanto me aborrece. Procure alegra-la, Suzana. Será um ato de caridade... E, a propósito, eu me esque­cia de lhe contar que teremos um convidado extra, que não nos visita há um século: o Tom Armstrong.

— Tom? — repetiu Suzana, admirada. — Tom Arm­strong vem a uma festa aqui em casa?! Oh!... Que foi que aconteceu a ele?

— Ora, nada de mais... — respondeu o fidalgo, lançando um olhar significativo á sobrinha. — Eu des­confiava, aliás, que ele anda apaixonado. E, de fato, hoje de manhã, em frente a St. Giles, ele ficou todo confuso quando me veio dizer que precisava falar comigo. Disse que era um assunto muito importante, mas nesse momento a atabalhoada Sra. Rutherford acercou-se de nós... E não pudemos trocar mais uma palavra. Então sugeri a ele que viesse até aqui, pelo menos por meia hora, para terminarmos a pales­tra no escritorio. Como vê Suzana, você deve estar esta noite, mais graciosa do que nunca... Para hon­rar esta visita!...

— Mas... Que é que tenho a ver com esse assunto? — a indagou, fingindo a maior inocencia.

— Ora a belezinha! Você pensa que eu te­nho os olhos para dentro? O Tom é um finório, mas também muito criterioso e incapaz de gracejos. Mas você pode educá-lo, Suzana. Eu não duvido que você consiga transformar num companheirão o nosso jovem e sisudo18 reitor de St. Qiles. E já é tempo, minha fi­lha... Eu já tenho atrapalhado muito sua vida. E de outro modo posso agradecer e recompensar estes vinte anos que você passou comigo, sacrificando tudo por mim? Portanto, Suzana, quando o Tom se chegar a você, trate-o com carinho, como deseja...

— Você está enganado, titio! — gargalhou a moça. — Pelo que vejo você tomou o caminho errado... O que vou fazer isso sim é subir as escadas, correndo, assim que o Sr. Winter chegar, porque acho melhor esconder meu exemplar do Tricotrin, pois você sabe muito bem o que ele pensa de Ouida - uma "pestilenta e nociva", segundo ele disse ao criticar Sob duas bandeiras. Mas eu acho Tricotrin uma historia ado­rável! E, há poucos dias, soube, na livraria, que Tri­cotrin é mais conhecida e procurada do que A mão secreta, de Southworth.

— Pois aqui está uma opinião a respeito das novelas de sua tão querida e tão antiga Emma South­worth — sorriu Van Tuyl. — E certa, a meu ver. Já percebi que esses livros põem você esfomeada... E, quanto a mim, nunca consigo le-los bastante, de tanto que fa­lam em banquetes, jantares e chás aristocráticos. Dão-me indigestão!

Suzana, sorrindo, fazia menção de subir a esca­daria.

— Espere um momento — pediu-lhe o tio. — Deixe-me lembrar se não ha nada mais. Ah! Sim... O Daly tambem prometeu vir hoje, você conhece: aquele que escreveu A luz do lampeão. Ele me leu, há dias, uns trechos de sua próxima peça intitulada Horizonte. Considero-o um talento fora do comum. Ha, nesse trabalho, uma figura de moça do Oeste, que acho indicadissimo para a Agnes Ethel. Ela representará essa personagem com a maior perfeição. Junte os dois, se houver ocasião própria. Eu gostaria de arranjar uma boa oportunidade para essa moça, por causa da Mathilde.

Ouviram-se passos. Van Tuyl voltou-se e se apres­sou em saudar, com efusão, um dos convidados.

— General Sickles! Como está o amigo? Como tem passado? O tempo está esplendido, não é ver­dade? E você, Dan? Como vai, meu rapaz? — acrescentou o anfitrião dirigindo-se a um rapazote, ao qual apertou a mão. — Você veio buscar o artigo do Winter, não foi? Ele ainda não chegou. Mas... Venha comigo, meu caro! Vamos devastar a despensa, pois estou faminto como um caçador. Com esta trabalheira, ainda não pude engolir uma migalha de co­mida. Fique sabendo: é o que a de pior neste ha­bito de oferecer ceia aos outros — a gente sempre acaba sem comer. Mas, desta vez, quero ser preca­vido! Que é que vamos comer Dan? Sanduiches ou salada de lagosta?

Emquanto sugeria, o próprio Van Tuyl começou a devorar sanduiches, para vencer o acanhamento do rapazola e fazer com que ele se sentisse em casa.

— E que vamos beber, meu amigo? — perguntou Van Tuyl depois de encher um prato de lagosta para o rapaz. — Uma taça de champagne? Que tal?

— Não, senhor. Muito obrigado, eu não tomo álcool.

— Está bem, rapaz, está certo... Devo ficar en­vergonhado porque lhe acenei com a tentação. Mas... Conte-me as novidades. Você é minha autoridade chefe, você sabe. Ainda ontem, estive dizendo ao Winter que a Tribuna devia aumentar seu ordenado.

— O senhor já viu as novas belezas do "Ixion"? — indagou Dan, entusiasmado, com a bocca cheia.

— Qual delas? A Lydia Thompson ou a Paui Una Markham?

— Ora, nenhuma dessas, Sr. Van Tuyl. Eu falo de uma que está fazendo somente uma "pontinha" — coisa sem importância. No entanto, o senhor vai ver, ela tem uma voz que parece um órgão de igreja. Garanto que essa pequena será uma grande artista! Se eu fosse o Sr. Lester Wallack, contratava-a e fa­zia dela, imediatamente, uma primeira figura.

— Hora essa! Por que você não fala ao Winter sobre esse assunto! Ele é amigo do Wallack.

— Não adianta Sr. Van Tuyl. O Sr. Winter nun­ca concorda comigo nessas coisas! Ele defende a velha escola teatral, e eu... Ah! Por falar nisso... O senhor leu no Arauto, de ontem, um artigo intitu­lado "O realismo nos nossos palcos"?

Ao mesmo tempo em que fazia a pergunta, o rapazote tirou do bolso um jornal muito amarrotado. E esclareceu:

— É um artiguinho meu. Gostaria muito que o senhor lesse...

— Claro que vou ler — disse o mecenas, apanhan­do o exemplar do Arauto. E correu os olhos, rápidamente:

Ciente, por estas linhas insertas no grande matutino de Nova York, na edição de 22 de novembro de 1868:

"O vapor é anualmente muito utilizado nos nos­sos palcos, a exemplo do que se pratica na Europa. A estrada de ferro fumegante, que vemos no "Niblo", e o barco a vapor instalado no "Wallack" demonstram a eficiencia deste sistema de transporte, que conduz nos seus carros bagagens e pessoas.

A estrada de ferro, do "Niblo", poderia ser me­lhorada, mas o barco a vapor, do "Wallack", é a maior perfeição até hoje apresentada em palcos americanos. E, realmente, aquele grande barco autentico, atra­cando num porto bem imitado, onde desembarcam pas­sageiros ao som de seus apitos, e depois a cena da partida, com o barco navegando na agua de lona — tudo isso, convenhamos, é inteiramente novo para nós e é justo que empolgue, como sucede todas as noites, a enorme multidão de espectadores".

— Está otimo, Dan! É digno do próprio Win­ter este reparo. Mas... — e Van Tuyl sorriu, de no­vo, seu sorriso comunicativo e acolhedor — fale-me de sua nova deusa. Estou á espera do Sr. Wallack e... É possível que, com boas referencias, se dê um bom arranjo á sua divindade... Qual é o nome dela, Dan?

— Rosa Coghlan.

— É... Um nome bonito, Dan. — Depoz a lar­ga mão no hombro do rapaz, e tranquilizou-o, brin­cando— Eu me lembrarei dela. E, se o Wallack re­solver torná-la famosa... Não se esqueça, cobre seu quinhão pelo acontecimento!

— Muito grato Sr. Van Tuyl. E... — hesitou no pedido — e, caso o senhor tenha oportunidade, eu lhe ficaria mais grato ainda se falar com o Sr. Winter a respeito de meu ordenado. Não é por mim, pro­priamente, mas... O senhor sabe... Tenho um irmãozinho — o Carlos, e... E ele é muito gastador e am­bicioso!

— Confie em mim, rapaz; não me esquecerei. — Nesse momento, Van Tuyl ouviu vozes de novos convidados que chegavam. Colocou outra vez a mão sobre o hombro do jovem, e, a sorrir, para que o rapazola não se vexasse, indagou:

— E, a propósito, Dan, como é mesmo seu nome todo?

— Frohman, Daniel Frohman.

Quasi ao mesmo tempo ouviu-se a voz de um doméstico anunciando a chegada de outros convidados: Sr. Lester Wallack, Sr. William Winter, Sr. Au­gusto Daly!

Entravam os tres, juntos, palestrando cordialmen­te. Van Tyul avançou ao encontro deles. Segurou a destra do primeiro e disse-lhe com efusão:

— Wallack! Como vai você, meu velho? — Con­servando entre as suas a mão do convidado, que era um homem alto, imponente, corretissimo com seu monoculo e o bigode bem tratado, continuou: — Tenho um punhado de novidades para lhe contar. Mas... Falaremos logo mais, logo mais!... E você, meu caro Winter, — acrescentou Van Tuyl com inflexão afetuosa, apertando a mão ao amigo — como está o nos­so celebre critico teatral? Estive, ainda agora, per­guntando por você aquele rapazinho, seu auxiliar. E, por falar, nele... Que otimo empregado, meu caro! A Tribuna precisa augmentar o ordenadinho dele. — Dirigiu-se ao terceiro convidado: — Meu caro Daly estou encantado por ve-lo em minha casa! Você chegou a propósito homeníl... Parece incrível!

E assim falando, arrastou o amigo pelo braço, e lhe disse em tom confidencial:

— Você se recorda que lemos junto sua nova peça, Horizonte? Pois pasme, homem! Eu descobri a heroina que você procura! Ela aparecerá por aqui. — E, com um olhar de relance, — basta isso! — você vai ficar convencido de que ela fará o papel de Med como ninguém!

Emquanto os tres outros cavalheiros continuavam; sua palestra, o Sr. Winter dirigiu-se ao saguão, onde entregou ao jovem Frohman o original para compor.

— Depressa, Daniel! — recomendou o famoso cri­tico. — Estou desconfiado de que já não alcança a primeira edição.

O rapaz precipitou-se a correr.




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