DisfunçÃo hormonal na sepse hormone Dysfunction in Sepsis



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DISFUNÇÃO HORMONAL NA SEPSE

Hormone Dysfunction in Sepsis
Graça Maria Ferreira de Souza1; Geraldo Alberto Sebben2
Trabalho apresentado para obtenção de título de Mestre Profissionalizante em Terapia Intensiva à Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva
1.Médica especialista em Terapia Intensiva;

2.Mestre em Clínica Cirúrgica, titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, especialista em Terapia Intensiva e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.



RESUMO
Contexto: Sepse, reconhecida como uma resposta inflamatória sistêmica secundária a um quadro infeccioso tornou-se um problema de saúde pública, sendo a principal causa de óbito nas unidades de terapia intensiva. A glândula hipofisária é o órgão pivô na homeostasia, tornando-se a junção do sistema nervoso autônomo e os tecidos endócrinos periféricos. Significativa disfunção neuroendócrina no eixo hipotálamo-hipofisário ocorre em adultos com doenças graves.

Objetivos: Este estudo tem como objetivo revisar os fatores envolvidos nas alterações da sepse, destacando principalmente o avanço no entendimento dos processos que culminam com a disfunção do eixo hipotálamo-hipofisário.

Metodologia: Trata-se de uma investigação teórica, e de uma pesquisa descritiva e segundo o modelo conceitual de uma pesquisa documental. Foi utilizado como método de abordagem o método hipotético-dedutivo e como método de procedimento empregou-se o método comparativo.

Desenvolvimento: Os fatores que mais explicam a resposta da hipófise frente à sepse incluem os danos anatômicos, a inflamação aguda e a disfunção celular, resultando em diminuição da síntese dos hormônios hipofisários induzida pelos danos no hipotálamo ou na hipófise, geralmente dos hormônios glicocorticóides, tireoidianos, do crescimento e da vasopressina. Níveis baixos de ACTH e de vasopressina são as principais conseqüências da resposta anormal da hipófise. A fase aguda da sepse é caracterizada pelos altos níveis de GH com perda na atividade de pulso e baixos níveis de IGF-1. Níveis de T3 estão diminuídos e os níveis de T3 inativos (rT3) estão aumentados, os níveis séricos de T4 diminuem em 24 a 48h, enquanto os níveis de TSH permanecem inalterados. O grau da supressão do eixo gonadotrófico se mostra paralelamente à severidade da sepse. A medida dos hormônios tireoidianos é um preditor de resultados quando combinado com índices de prognósticos (APACHE II). Tratamento com hormônios tireoidianos tem sido tentado através da reposição.

Conclusões: As taxas de mortalidade ainda permanecem altas restando muito a ser feito para que avancem os nossos conhecimentos e o tratamento deste problema. A manipulação da função hipofisária durante a sepsis é a maior mudança para a próxima década.
Descritores: Sepse; Hormônios; Hipófise; Hipotálamo.
ABSTRACT
Context: Sepsis recognized as a systemic inflammatory response secondary to an infection has become a public health problem; it is the leading cause of death in intensive care units. The significant neuroendocrine dysfunction in the hypothalamic-pituitary occurs in adults with serious diseases. The pituitary gland is the pivot body homeostasis, becoming the junction of the autonomic nervous system and peripheral endocrine tissues.

Objective: This study aims to review the factors involved in the alterations in sepsis, particularly focusing on the advancement in understanding the processes that lead to the dysfunction of the hypothalamic-pituitary.

Methodology: This is a theoretical investigation. It is a descriptive and conceptual model according to a research document. The theory utilizes the hypothetical-deductive method as a means of approach and the comparative method as a procedural guideline.

Design: The factors that explain the response of the pituitary front of sepsis include: the anatomical damage, acute inflammation and cellular dysfunction, which result in decreased synthesis of pituitary hormones inducing irreversible damage to the hypothalamus or pituitary gland, usually of glucocorticoid hormones, thyroid, the growth and vasopressin. Low levels of ACTH and vasopressin are the major consequences of the abnormal response of the pituitary. The acute phase of sepsis is characterized by high levels of GH activity with loss of pulse and low levels of IGF-1. T3 levels decrease and the levels of inactive T3 (rT3) increase. Serum levels of T4 decrease in 24 to 48 hours, while TSH levels remain unaltered. The degree of suppression of the gonadotropic axis is shown in parallel with the severity of sepsis. The measurement of thyroid hormones is a predictor of outcome when combined with prognostic indices (APACHE II). The treatment with thyroid hormones has been tried by resetting.

Conclusions: The mortality rates remain high leaving much to be done to advance our knowledge and treatment of this problem. The manipulation of pituitary function during sepsis is the biggest change for the next decade.
Key words: Sepsis; Hormones; Pituitary gland; Hypothalamus.

INTRODUÇÃO

Sepse, atualmente reconhecida como uma resposta inflamatória sistêmica secundária a um quadro infeccioso, iniciada através dos efeitos de um ou mais componentes de um microorganismo invasor, tornou-se um problema de saúde pública.

Apesar do avanço médico em todos os campos as taxas de mortalidade continuam praticamente inalteradas e inaceitavelmente altas, sendo a principal causa de morte em unidades de terapia intensiva; sendo que 10% dos leitos dessas unidades estão ocupados por pacientes sépticos. No Brasil, cerca de 20% dos leitos são ocupados por pacientes com sepse grave e a taxa de mortalidade é de 60%, ao passo que a média mundial é de 40%.

Como sepse representa uma resposta inflamatória descontrolada e, se este processo persistir, surgirá inexoravelmente disfunção de múltiplos órgãos, cabe aos pesquisadores entender os processos fisiopatológicos, procurando atenuar os efeitos deletérios da inflamação sistêmica o que, em última análise, pode diminuir o número de óbitos.

O grande alvo deste processo inflamatório é o endotélio. Desta forma, os fenômenos microcirculatórios devem ser melhores entendidos, uma vez que eles são responsáveis, em grande parte, pela hipoperfusão tecidual observada nestes pacientes. Hipoperfusão esta que, se persistente, levará à disfunção de múltiplos órgãos.

Jean Louis Vincent e colaboradores(4) sugeriram que alterações na microcirculação estão presentes em pacientes com sepse e estão presentes naqueles pacientes com pior prognóstico.

Sabe-se que o sistema endócrino e o nervoso autônomo controlam a homeostasia(7). O stress causado pelo quadro da sepse atuando de maneira perturbadora nos sistemas biológicos depende da integridade da resposta neuroendócrina. A glândula hipofisária é o órgão pivô na homeostasia, tornando-se a junção do sistema nervoso autônomo e os tecidos endócrinos periféricos(7).

A repercussão da sepse é avassaladora, causando depleção de vasopressina na neurohipófise e diferentes disfunções neuroendócrinas em adultos e crianças.

O proposto deste estudo é revisar os fatores envolvidos nas alterações da sepse ou do choque séptico, destacando principalmente o avanço no entendimento dos processos que culminam com a disfunção do eixo hipotálamo-hipofisário.
METODOLOGIA

Sistematicamente procuramos os artigos relevantes no Medline nos sete anos retrospectivos. Trata-se de uma pesquisa descritiva de acordo com os objetivos, conforme ALVES(1) e conforme LAKATOS(10) e, segundo o modelo conceitual, de uma pesquisa documental. Foi utilizado como método de abordagem o método hipotético-dedutivo e como método de procedimento empregou-se o método comparativo.


Resposta Anormal da Hipófise Frente à Sepse:

A resposta neuroendócrina é variada e complexa em pacientes críticos mostrando uma significativa disfunção neuroendócrina no eixo hipotálamo-hipofisário nestes pacientes.

Os fatores que mais explicam a resposta da hipófise frente à sepse incluem os danos anatômicos, a inflamação aguda e a disfunção celular, resultando em diminuição da síntese dos hormônios hipofisários induzida pelos danos no hipotálamo ou na hipófise, geralmente dos hormônios glicocorticóides, tireoidianos, do crescimento e da vasopressina.

Durante a sepse, a hipófise é estimulada pelas citocinas pró-inflamatórias através da barreira hematoencefálica e também através de uma complexa interação entre o sistema nervoso autônomo e as células imunológicas. Estes mediadores inflamatórios chegam aos capilares hipofisários, na parte intermediária, através da artéria hipofisária anterior.

Em humanos, a sepse induz a manifestação hipotalâmica através do fator de necrose tumoral e da interleucina-1β sem os núcleos parvocelulares e supraóticos. Alternadamente, os neurônios das parvocélulas e dos núcleos arqueados deverão ser projetados para a parte intermediária e os receptores lipossacarídeos na sua superfície devem ser estimulados.

As citocinas, via ativação do ácido µ aminobutírico induzem a liberação plasmática do ACTH, FSH, GH e da prolactina, mas inibem a liberação dos hormônios luteinizantes e do TSH. Agem, também, diretamente na hipófise anterior, particularmente na síntese e na liberação do ACTH.

Níveis baixos de ACTH e de vasopressina são as principais consequências da resposta anormal da hipófise. Isto se deve ao fato de contribuírem para o choque e a progressão da inflamação, levando à falência múltipla dos órgãos e óbito.

O óxido nítrico (NO) é a chave para mediar a ativação do eixo hipotálamo-hipofisário e seu excesso é o principal fator para a resposta hipofisária anormal.

A hipófise, por não ser protegida pela barreira hematoencefálica, fica exposta a toxicidade dos mediadores pró-inflamatórios circulantes. A exposição aos lipossacarideos induz a manifestação das citocinas pro-inflamatórias pelas células hipofisárias. Estas citocinas, IL-1 e o fator de necrose tumoral estão associados com uma exagerada síntese de NO através do aumento da atividade do iNO. O excesso de NO dispara o desequilíbrio hormonal, diminuindo a síntese dos hormônios hipofisários

A regulação da ação do NO é mediada pela combinação da ativação da granulociclase, ciclooxigenase e da lipooxigenase.

A necrose e a hemorragia hipofisária são uma complicação bem conhecida do colapso cardiovascular, também relatados em casos de sepse, sendo correlacionada com a duração da hipotensão ou da severidade dos distúrbios de coagulação.

Hormônios adenocorticotróficos: as glândulas adrenais produzem três hormônios esteróides utilizando o colesterol como substrato: glucocorticóide (cortisol), minerolocorticóide (aldosterona) e androgênios (diidroepiandosterona). A atividade estimulante do ACTH é regulada pelo CRH e em menor grau pela arginina. Ambos agem sinergeticamente.

A sepse está associada com um aumento imediato da amplitude do pulso dos hormônios hipotalâmicos, principalmente do CRH e da vasopressina, resultando na perda do ritmo cardíaco.

A resposta anormal na sepse é caracterizada pelos níveis altos de ACTH e cortisol circulante, o qual permanece no patamar até a recuperação do quadro séptico.

Infelizmente, as conseqüências clínicas da insuficiência de glicocorticóides e mineralocorticoides não são bem compreendidas no contexto da sepse resultando na vasopressina como o principal indicador da insuficiência da adrenal.



Vasopressina: vasopressina é o ácido 9-aminopeptídico sintetizado a partir de um precursor contendo neurofisio II, produzida pelos neurônios do núcleo supraóptico e periventricular, na hipófise posterior.

Regula a osmolaridade plasmática e a volemia via receptores da vasopressina 2 a nível do rim, e do tônus da musculatura vascular a nível dos receptores 1a arterial.

A resposta inicial da sepsis é uma tremenda liberação de vasopressina na circulação sistêmica através das vesículas hipofisárias posteriores.

Hormônio do crescimento: a síntese do GH diminui com a idade e é inibida pela somatostatina e estimulada pelo hormônio de liberação do GH. O TRH, a dopamina e a hipoglicemia também modulam a síntese do GH.

A fase aguda da sepse é caracterizada pelos altos níveis de GH com perda na atividade de pulso e baixos níveis de IGF-1.

O último estágio da sepse é caracterizado pela redução da fração de pulso do GH com alta freqüência e elevação da fração não pulsátil. Entretanto, contrário à fase aguda da sepse, a liberação reduzida da IGF-1 tem origem hipotalâmica.

Hormônio Estimulante da Tireóide: a síntese do hormônio estimulante da tireóide (TSH) é relativamente estável e controlada pelos hormônios tireoidianos, pelos neuropeptídios e pelos neurotransmissores.

TRH é o principal fator estimulante da síntese do TSH e seus efeitos são aprimorados pelas catecolaminas. Somatostatina e dopamina também são os principais inibidores do TSH. Hormônios tireoidianos periféricos, como tireoxina, T3 e T4 são os hormônios biologicamente ativos.

Na fase inicial da sepse, os níveis de T3 estão diminuídos e os níveis de T3 inativos (rT3) estão aumentados. Os níveis séricos de T4 diminuem em 24 a 48h, enquanto os níveis de TSH permanecem inalterados, exceto pela perda do ritmo circadiano. Os mecanismos para que isto ocorra são: diminuição da conversão do T4 e T3 nos tecidos extra-tireoidianos através da enzima 5’monodeiodase hepática; prevenção da fixação do T4 em proteínas através da inibição das proteínas de transporte; disfunção do feedback negativo no eixo hipotálamo-hipofisário; inibição da atividade do centro tireotrófico e/ou inibição da manifestação dos receptores nucleares dos hormônios tireoidianos pelas citocinas e inibição direta do TSH pela dopamina.

A última fase da sepse está associada com a indução central do hipotireoidismo pela restauração do pulso de T3 e T4 através da infusão exógena do TRH.



Hormônios Folículo Estimulante e Hormônio Luteinizante: o hormônio de liberação da gonadotrofina hipotalâmica é o principal fator de estimulação do FSH e do hormônio luteinizante.

O grau da supressão do eixo gonadotrófico se mostra paralelamente à severidade da sepse.

Em resposta à sepse temos um aumento do ACTH plasmático e da prolactina logo após o insulto inicial, e uma rápida inibição do hormônio luteinizante e do TSH. Ocorre, também, estimulação da secreção do hormônio do crescimento, mas não da secreção do FSH.
Sepse e Hormônio Estimulante da Tireóide:

Alterações pronunciadas no eixo tireóide-hipófise-hipotálamo ocorrem sem que ocorra nenhuma evidência de doença tireoideana prévia durante o processo da sepse.

A produção local de citocinas exerce um importante feedback negativo na regulação da liberação do TRH pela tireotrofina na hipófise. Citocinas pró-inflamatórias produzidas perifericamente por pacientes com sepse, trauma e doenças autoimunes devem agir diretamente na tirotrofina hipofisária para aumentar a liberação do TSH. A IL-6 apresenta particularmente potente supressão do TSH no plasma.

Síndrome de Doenças Não-Tireoidianas (NTIS) é comumente usada para descrever as mudanças típicas na concentração da liberação de hormônios tireoidianos em doenças agudas ou graves que não causam uma anormalidade intrínseca da função tireoidiana.

Essas mudanças incluem modificações no eixo hipotálamo-hipofisário, alteração nos hormônios tireoidianos circulantes aderidos às proteínas, modificação na captação tecidual, e metabolismo dos hormônios tireoidianos e nos receptores tireoidianos.

Durante a sepse e o trauma existe um aumento da desiodase tipo II (D2), na célula glial, responsável pelo processo ascendente hipotalâmico, a qual termina o comando do aumento do T3 para T4.

Em pacientes graves, a diminuição de T4 e de T3 está inversamente relacionada com a freqüência de óbitos. Estas variáveis nos níveis séricos dos hormônios tireoidianos também resultam nas mudanças das concentrações teciduais livres e na diminuição da bioatividade do hormônio tireoidiano.

Existe a controvérsia se a redução do T3 sérico é uma adaptação benéfica resultando em uma proteção contra o catabolismo ou se a má-adaptação contribui para a piora da adaptação. É incerto se os hormônios tireoidianos estão diminuídos e metabolizados nos tecidos quando os pacientes são tratados com T4 e/ou T3.

Enquanto a glândula tireóide estabelece somente a origem do T4 para os tecidos periféricos, a fina regulação dos hormônios tireoidianos no meio tecidual extrapiramidal é possível pela expressão tecidual diferenciada da iodotironina desiodase. Estas enzimas são responsáveis pela metabolização do T4 para forma biologicamente ativa do T3 ou bio-inativa (rT3) e T2. É claro que a expressão destas desiodases é modificada por doenças graves e cada modificação pode ter uma manifestação altamente orgânica específica resultando em modificações teciduais específicas para status tireoidiano.

Concentrações de iodotironina no fígado estão substancialmente altas quando comparadas com o músculo esquelético. A relação entre a concentração dos hormônios tireoidianos séricos e tissular está enfraquecida para T4 hepático comparada com iodotironina no fígado e músculo esquelético.

A diminuição nos níveis séricos de T3 e o aumento nos níveis de rT3 podem, particularmente, serem explicados pela ativação reduzida do T4 pelo tipo I desiodase (D1) ou tipo II desiodase (D2), mas também por um aumento na inativação do tipo III desiodase (D3).

Em pacientes críticos a manifestação do D3 ocorre nos músculos estriados e no fígado, tecidos os quais geralmente não expressam a desiodase no adulto. A manifestação de D3 está relacionada positivamente com rT3 sérico e negativamente com o T3 sérico. Se D3 manifestar-se no fígado e no tecido celular haverá uma importante contribuição para a diminuição do T3 em NTIS crônico em humanos.

O T3 tem um importante feedback de ação inibitória na produção do TRH, mas os neurônios do TRH carecem a habilidade de produzir T3 do T4.

O T3 plasmático está diminuído e rT3 plasmático está aumentado durante doenças gravemente críticas, sendo que a magnitude destas variações está relacionada com a severidade da doença.

O declínio no T3 e no T4 sérico em modelos de doenças agudas precede a falência no D1 hepático, sugerindo que muito da falência inicial destes hormônios deve ser atribuída à resposta da fase aguda, causando a redução dos hormônios tireoidianos ligados na capacidade plasmática.

Processos infecciosos induzem ao mesmo tempo uma liberação de procalcitonina (PTC) dos tecidos parenquimatosos, sendo considerados como indicador de prognóstico da sepse e demonstrado que níveis de PTC plasmáticos podem provir informações na avaliação da resposta ao tratamento.

A vantagem de ter as medidas do PTC como marcadores de infecção é que são relativamente específicos para infecções bacterianas e fúngicas e minimamente influenciados por trauma cirúrgico.
DISCUSSÃO

Foram feitos grandes avanços em termos de compreender os eventos extras e intracelulares que contribuem para a disfunção de sistemas de órgãos.

Progresso na conduta também tem sido observado em vários estudos demonstrando uma redução das taxas de mortalidade em decorrência de melhora na conduta de suporte e farmacológica para pacientes em estado crítico.

A glândula hipofisária é o órgão pivô na resposta da sepse. Ativada pelas citocinas pró-inflamatórias via hematoencefálica e através de uma complexa interação entre o sistema nervoso autônomo e as células imunes.

A resposta à sepse, pela secreção dos hormônios tireoidianos, tem um modelo padrão com ACTH plasmático e prolactina aumentando em poucos minutos após o insulto, rápida inibição do hormônio luteinizante e do TSH, porém não da secreção do FSH e estimulação do hormônio do crescimento.

O óxido nítrico é a chave mediadora na ativação do eixo hipotálamo-hipofisário, sendo o seu excesso o principal fator para a resposta hipofisária.

Baixos níveis de ACTH e de vasopressina, decorrentes da resposta anormal da hipófise, são os principais responsáveis pela deterioração que ocorrem em pacientes com quadro de sepse. Isto se deve ao fato de contribuírem para o choque e a progressão da inflamação levando à falência de múltiplos órgãos e conseqüentemente a morte.

Este estudo mostra a variada e complexa resposta neuroendócrina que ocorre em pacientes críticos.

Quando o paciente se recupera das doenças graves, anormalidades na concentração sérica do TSH e dos hormônios tireoidianos eventualmente se revolvem.

Nos estudos prospectivos de Hamblin e colaboradores(8) em 1986, evidenciou-se que pacientes críticos com queimaduras, sepse e falência renal aguda mostraram que o aumento do TSH durante a recuperação precede a elevação de T3 e T4 sugerindo que a elevação do TSH é essencial para que os pacientes retornem a hemostasia hormonal durante a recuperação.

No nível da glândula hipofisária evidencia-se a diminuição dos níveis de T3 e T4 plasmáticos com o aumento do nível de rT3. Os níveis de T3, T4 e rT3 plasmáticos tem uma forte correlação positiva com a concentração destes hormônios a nível hepático. Similarmente, as concentrações do iodotironina no músculo esquelético têm correlação positiva com as concentrações de iodotironina sérica.

Outro dado observado nos estudos de Peeters e colaboradores(15) em 2005 é que a diminuição dos níveis de T3 e T4 sérico durante doenças críticas também resultam em diminuição do T4 e T3 no fígado e músculo esquelético.

A diminuição da expressão do D1 hepático durante os quadros de sepse suporta que o D1 é um marcador sensitivo do estado dos hormônios tireoidianos tecidual.

Pode-se concluir que níveis séricos de T3 em pacientes que receberam terapia substitutiva de hormônios tireoidianos eram acompanhados de altos níveis de T3 no fígado e no músculo esquelético.

Chega-se a conclusão, ainda baseado nos estudos de Peeters(15), 2005, que os níveis séricos da iodotironina estão positivamente correlacionados com os níveis de iodotironina hepática e muscular, indicando que a diminuição do T3 e T4 durante a sepse também resulta na diminuição dos níveis teciduais de T3 e T4.

De acordo com Ray e colaboradores(16) nas Unidades de Terapia Intensiva a prevalência de disfunção tireoidiana é extremamente alta com mais de 70% dos pacientes mostrando T3 total baixo e cerca de 50% tem T4 total baixo.

Observa-se que pacientes críticos com hipotireoidismo têm uma conhecida causa de falência ventilatória dependente de ventilador.

Controversas cercam a necessidade de terapia de reposição dos hormônios tireoidianos na NTIS. Estudos clínicos demandam o uso de T3 e T4, porém alguns argumentam que estas variações representam uma adaptação fisiológica, devendo ficar atento ao restaurar os níveis dos hormônios tireoidianos para evitarmos efeitos adversos no resultado final.

Observamos que em Unidades de Terapia Intensiva, pacientes hipertireoidianos tem paradoxalmente baixos níveis de hormônios tireoidianos antes de se recuperarem das doenças críticas e paciente com hipotireoidismo primário é insuficiente para aumentar o TSH.

Entretanto testes da função tireoidiana em todos os pacientes admitidos nas Unidades de Terapia Intensiva são impraticáveis na nossa realidade. O uso de T3, T4 e TSH sérico como um método de screening é insuficiente para definir a natureza das várias anormalidades que ocorrem na função tireoidiana.

O controle da infecção tornou-se mais sofisticado depois que melhoraram as técnicas de imagem e de cultura, possibilitando uma determinação mais precisa do local da infecção, melhorando o tratamento precoce.

O benefício do tratamento durante o processo inflamatório sistêmico na sepse é caracterizado pela rápida e substancial redução dos mediadores pro-inflamatórios circulantes, da adesão molecular, da ativação celular e da migração dos fatores de inibição.

Também é claro que a administração exógena de catecolamina ou vasopressina pode restaurar a estabilidade hemodinâmica na sepse, conforme relatado por Maxime e colaboradores(12), nos seus estudos datados de 2007.

Ao contrário, a combinação de baixas doses de glicocorticóides e de minerolocorticóides melhoram a sobrevida em pacientes com choque séptico que demonstraram falência no eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal.

A mais nova aproximação para a reposição em pacientes críticos tem sido sugerido por Van den Berghe e colaboradores(23), em 1998. Eles usam uma infusão contínua de TRH junto com o hormônio do crescimento secretado, restaurando a concentração do TSH e hormônios tireoidianos melhorando os parâmetros catabólicos.

CONCLUSÕES

A medida dos hormônios tireoidianos é um preditor de resultados em pacientes admitidos na Unidade de Terapia Intensiva quando combinado com índices de prognósticos (APACHE II).

Observaram-se, nos estudos pesquisados, que a mortalidade nas Unidades de Terapia Intensiva está significativamente mais alta em pacientes com níveis séricos baixos de T3 quando comparados com aqueles pacientes que apresentam níveis normais do hormônio.

Hormônios tireoidianos têm efeitos significativos na função cardíaca. Sugere-se que T3 deve ser benéfico para a estabilização e melhora da função cardíaca em doador no transplante cardíaco. Recomenda-se que o T3 seja incluso nos painéis dos hormônios que são o propósito da ressuscitação cardíaca, quando a fração de ejeção é menor do que 45%.

Tratamento com hormônios tireoidianos tem sido tentado na sepse, através da reposição hormonal, melhorando o status hemodinâmico, porém, tratamento de pacientes críticos com hormônio do crescimento está associado com o aumento da mortalidade. Sugere-se que a ativação combinada do GH e eixo tireoidiano com o tratamento com peptídeo de liberação do GH, TRH e hormônio de liberação da gonadotrofina elucidam os benefícios metabólicos em pacientes críticos.

Em resumo podemos concluir que durante o processo da sepse, o eixo hipotálamo-hipofisário sofre uma resposta anormal com o aumento plasmático dos hormônios adrenocorticotrópico, da prolactina, do FSH e do GH, bem como a diminuição do hormônio luteinizante e do TSH.



As taxas de mortalidade ainda permanecem inaceitavelmente altas e fica evidente que ainda resta muito a ser feito para que avancem os nossos conhecimentos e o tratamento deste problema médico importante. A manipulação da função hipofisária durante a sepsis é a maior mudança para a próxima década.


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