Dirige tuas preces ao corvo



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ARRIEN, Angeles. O caminho quádruplo: trilhando os caminhos do guerreiro, do mestre, do curador e do visionário. [2. ed.]. São Paulo: Ágora, 1997. 134 p. ISBN 8531604486.
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O CAMINHO QUÁDRUPLO
Trilhando os Caminhos do Guerreiro, do Mestre, do Curador e do Visionário
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Arrien, Angeles
O caminho quádruplo: trilhando os caminhos do guerreiro, do mestre, do curador e do visionário /Angeles Arrien 1 tradução Eleny C. HelIer 1 . — São Paulo Agora, 1997.
Título original: The four-fold way.

Bibliografia.

ISBN S5-7183-520-9
1. Antropologia 2. Arquétipo (Psicologia) 3. Povos indígenas 4. Relações interpessoais 5. Xamanismo 1. Título.
97-3785
CDD-306.08
Índices para catálogo sistemático:
1. Sabedoria indígena: Antropologia cultural: Sociologia 306.08
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O CAMINHO QUÁDRUPLO
Trilhando os Caminhos do Guerreiro, do Mestre, do Curador e do Visionário
Angeles Arrien
ÁGORA
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Do original em língua inglesa
The frur-fold way — Walking the paths of the warrior, teacher, healer and visionary

Copyright © 1993 by Angeles Arrien, publicado por acordo com Harper San Francisco, uma divisão da HarperCoilins, Publishers, mc.


Tradução: Eleny C. Heiler
Capa: Pinky Wainer/Rodrigo Cervifio Lopez
Editora ção eletrônica: Acqua Estúdio Gráfico
Todos os direitos reservados pela Editora Ágora Ltda.

Itapicuru, 613 - cj.82

05006-000 - São Paulo, SP

Telefone: (011) 3871-4569


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Dirige tuas preces ao corvo.

O corvo que é,

O corvo que foi,

O corvo que sempre será.

Dirige tuas preces ao corvo.

Corvo, dá-nos sorte.

— (do Koyukon, Ravensong.)
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A meu pai,

Salvador Arrien,


cujo espírito pioneiro o trouxe dos montes Pirineus da Espanha aos vales do Idaho. Sua profunda ligação com a natureza, como criador de ovelhas por mais de vinte anos, propiciou-lhe serenidade e uma inquestionável força de caráter. Foi um homem probo, cuja presença forte e inabalável integridade inspiravam respeito.
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SUMÁRIO
Apresentação à Edição Brasileira – 11

Agradecimentos – 13

Declaração – 17
Introdução – 19
O Caminho do Guerreiro – 27
Mostrando-se e Optando por Estar Presente – 29

Ferramentas de Poder do Guerreiro – 34

A Relação do Guerreiro com a Natureza – 36

Como o Guerreiro/Líder Latente se Revela: os Aspectos Sombra do Arquétipo do Guerreiro, a Criança Ferida do Norte – 38

Processos e Lembretes: Práticas Essenciais

Para o Desenvolvimento do Guerreiro Interior – 40

Sumário do Arquétipo do Guerreiro – 42
O Caminho do Curador – 47
Prestar Atenção ao que tem Coração e Significado – 49

Ferramentas de Poder do Curador – 51

A Relação do Curador com a Natureza – 55

Como o Curador/Líder Latente se Revela: os Aspectos Sombra do Arquétipo do Curador, a Criança Ferida do Sul – 56

Processos e Lembretes: Práticas Essenciais para o Desenvolvimento do Curador Interior – 59

Sumário do Arquétipo do Curador – 62

O Caminho do Visionário – 65
Dizer a Verdade, sem Culpar nem Julgar – 67

Ferramentas de Poder do Visionário – 69

A Relação do Visionário com a Natureza – 73

Como o Visionário/Líder Latente se Revela:

Os Aspectos Sombra do Arquétipo do Visionário, a Criança Ferida do Leste – 73

Processos e Lembretes: Práticas Essenciais para o Desenvolvimento do Visionário Interior – 77

Sumário do Arquétipo do Visionário – 79
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O Caminho do Mestre – 83
Estar Aberto e Não Preso Aos Resultados – 85

Ferramentas de Poder do Mestre – 88

A Relação do Mestre com a Natureza, 90

Como o Mestre/Líder Latente se Revela: os Aspectos Sombra do Arquétipo do Mestre, a Criança Ferida do Oeste – 90

Processos e Lembretes: Práticas Essenciais para o Desenvolvimento do Mestre Interior – 92

Sumário do Arquétipo do Mestre – 94


Conclusão – 97
Apêndices – 103

Apêndice A Carta da Declaração Universal dos Direitos Humanos

De Eleanor Roosevelt – 105

Apêndice B — Declaração de Princípios do Conselho Mundial dos Povos Indígenas, – 110

Apêndice C Haudenosaunee, ou Confederação das Seis

Nações Iroquesas — Declaração ao Mundo — Maio de 1979 – 112

Apêndice D — O Uso do Termo “Nativos Americanos” – 115

Apêndice E — A Jornada do Tambor – 116


Agradecimentos pelos Direitos de Uso – 125

Bibliografia – 127


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APRESENTACÃO

À EDIÇÃO BRASILEIRA


Você está começando a embarcar em uma viagem para o mundo das “Rodas e das Chaves”. Se você tem um pensamento linear, ajuste seu processo de pensar e engaje-se na criativa aventura de pensar em círculos...
As Rodas são uma maneira de recordar, compreender e decodificar conhecimentos que estão assentados como as camadas que se vê nos perfis das montanhas mais antigas de nosso Planeta. Elas nos levam a uma percepção do tempo, de maneira multidirecional, de um dado instante; são como mapas cognitivos e ferramentas que ampliam nossa compreensão.
As imagens de nossos sonhos, quer estejamos acordados ou dormindo, tornam-se claras e coloridas.
Quando utilizamos essas Rodas e Chaves para nosso crescimento pessoal e transformação, elas são como armas, que conquistam os inimigos que habitam dentro da gente, tais como o medo do desconhecido que às vezes nos impõe padrões e sistemas de educação e crenças para uma interpretação literária e intelectual do que se passa, tirando a força de nosso poder pessoal e levando-nos a uma velhice prematura. Algumas são como mapas, explicando qual a melhor maneira de viver a realidade de nosso cotidiano; outras são como pinceladas azuis em torno do quadro de nossa realidade espiritual.
Os conhecimentos contidos nas Rodas são as Chaves para a sabedoria e a iluminação, afastando ilusões, fantasias e pensamentos lentos, levando-nos direto à imaginação, ou seja, às imagens em ação. Não precisamos, então, aguardar um stress ou uma reação do mundo fenomenal para termos respostas.
A “arte do cerimonial” nos leva a resgatar o antigo e o verdadeiro sagrado de nossos atos, a experimentarmos dimensões do tempo, das quais estávamos completamente esquecidos, a vivenciarmos a ancestralidade das profundas raízes de nossa árvore da vida, recordando nosso “sonho real” sem nenhuma culpa, vergonha ou medo de caminharmos nosso destino e realizarmos a coreografia da dança universal que tem como percussão o pulsar de nossos corações num ritmo de quatro tempos.
O mundo em que vivemos é definido pelos poderes das quatro direções e estabilizado pelos quatro elementos; o estilo de vida, pelas quatro estações, refletido em nossos corações, mente, corpo e alma, seja interna ou externamente, manifestando seus poderes e beleza em todas as nossas relações.
A “Roda de Medicina”, “Roda da Vida”, “Mandala”, “A Grande Espiral” ou qualquer outro dos muitos nomes que lhe são atribuídos, se manifesta puramente em seus princípios básicos, comuns a todas as tradições, através dos “Poderes das Sagradas Quatro Direções” tocando-nos de maneira visível ou simplesmente oculta, em cada página de O caminho quádruplo.
Angeles Arrien nos conduz a uma jornada pessoal, trilhando os Caminhos do Guerreiro, do Mestre, do Curador e do Visionário para um espaço seguro e
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protegido onde podemos nos comunicar diretamente, ou seja, abrir e conversar com nossos corações. Hoje, em nosso tempo transcultural, além de todos os “ismos”, no “aqui e agora” que é formado por todos os “nossos ontens” e que será o nosso amanhã; na busca de nosso poder e do reconhecimento de quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que estamos fazendo aqui e como transformar todas as nossas relações equilibradas, corretas, belas e harmoniosas.
Em linguagem atualíssima da Civilização Ocidental, com gravuras, palavras sábias e, ao mesmo tempo, trazendo pinceladas do antigo, por intermédio de práticas de cerimônias e ritos de nossos antepassados, escritas e citadas respectiva- mente nesta obra, nosso sentimento de entrega é colocado cada vez mais em movimento, como as águas de um rio.
Trilhando esse caminho, dessa doce medicina, podemos vivenciar que nada está separado, que cada um faz parte do outro, o Guerreiro, o Mestre, o Curador e o Visionário, que cada um é uma roda, um espelho para o outro, que a roda é o próprio universo.
Que nesse tear de todas as nossas relações, a urdidura são nossas vidas, e os tons e cores que tecemos são nossos destinos.

Eu sou Zezíto Duarte, e eu falei. Ho!


José Duarte Filho

Engenheiro civil e homem-medicina, fundador do

Riachinho — Pesquisa das Energias Naturais.

Chapada Diamantina — Bahia


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AGRADECIMENTOS
Sou grata a meus ancestrais e à minha família por me haverem oferecido tão rica herança. Mediante suas contribuições e o pioneirismo de seu espírito basco, eles me inspiraram a me manter ligada à Natureza, e a estabelecer uma ligação entre a origem antiga e os tempos atuais.
Em razão dessa influência, meus treinamentos para O caminho quádruplo foram desenvolvidos no sentido de honrar a eterna sabedoria indígena de todos os continentes, para que o legado dos povos com vínculos com a terra não se percam, e possam ser resguardados para o posterior cultivo e cuidados da Mãe Terra.
Muitos se apresentaram para dar apoio aos programas de treinamento do Caminho quádruplo e a este livro. A essas pessoas e organizações que propiciaram condições para que eles pudessem se realizar em áreas naturais, meu profundo agradecimento: a Bob Mosby e Jo Norris, do Instituto Rim, e a Brugh Joy, médico da Casa de Campo Moonfire, no Arizona; a Nancee e Hugh Redmond, do Instituto de Artes Transformáticas de Redlands, na Califórnia; a Sylvia Lafair e Herb Kaufman, do Opções pela Energia Criativa, de Filadélfia, na Pensilvânia; a Fritz e Vivienne Rui! e Elizabeth Campbell, do Centro de Aprendizado Chinook de Whidbey Island, em Washington; a Susan Osborn, David Densmore e Donna Laslo, da Produções Casa do Som, de Eastsound, em Washington; a Kit Wilson e Greta Holmes, de Fênix, no Arizona; Dwight Judy e Bob Schmitt, do Instituto de Psicologia Transpessoal; às comunidades do Centro Monte Madonna e do Instituto Esalen, da baía de Monterey; e aos profissionais, colegas e amigos que apoiaram e inspiraram meu trabalho, especialmente Cristina e Stan Grof, Frances Vaughan e Roger Waish, Frank Lawlis e Jeanne Achterberg, Brooke Medicine Eagle, Leslie Gray, Luisah Teisch e Michael Harner.
A todos os meus alunos que participaram do treinamento do Caminho quádruplo, aos meus alunos graduados e colegas do Instituto de Estudos Integrais de São Francisco, na Califórnia, e do Instituto de Psicologia Transpessoal de Palo Alto, na Califórnia, cujos ensinamentos sempre enriqueceram nosso aprendizado e crescimento conjuntos. Sou especialmente grata a Phyllis Green por sua persistência em formar o primeiro grupo piloto para o Caminho quádruplo, e a Jim Dincalci pelo resumo das anotações e matérias de minhas aulas de Cura Transcultural, que forneceram a estrutura básica para o treinamento.
Eu não teria sido capaz de levar a efeito os treinamentos sem a ajuda de Twainhart Hill e Carolyn Cappai. Suas excelentes habilidades de administração, seu apoio e contribuição durante os quatro anos e meio em que se responsabilizaram pela supervisão de toda a logística relacionada ao programa de treinamento e às minhas fundamentais operações de escritório, tomaram tudo isso possível. Nancy Feehan e Kin Cottingham formaram a equipe de campo, essencial para os programas “solo” em áreas naturais, ligados aos treinamentos de um ano de duração. Além disso, Nancy explorou a área e suas dimensões para essas experiências, e Kim atuou como nosso cozinheiro de campo-base. Os programas de treinamento com alojamento tiveram suporte logístico de Jane McKean, e assistidos no local pela qualidade de trabalho, consultoria e contribuições do time de tambor e de apoio que se fez compor, em ocasiões variadas, por Mo Maxfield, June Steiner, Peter Lyon, Judy Ostrow, Nancy Feehan e Paul Hinckley.
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Este livro apresenta alguns dos princípios básicos que se encontram no treinamento do Caminho quádruplo. Sou profundamente grata a meu advogado para questões literárias, Brad Bunnin, e a meu editor na Harper San Francisco, Mark Salzwedel. Esses senhores reconheceram e apoiaram a visão desta obra. A outra equipe responsável da Harper, na qual cada um à sua maneira ajudou na realização deste livro, estendo meu agradecimento, de coração: a Michael Toms, Dean Burrel, Jeff Campbell, Jamie Sue Brooks, Adrian Morgan, Naomi Lucks, Robin Seaman, Judith Beck e Bill Turner.
Nos estágios iniciais dos escritos deste livro recebi a ajuda de Kathy Altman, que me ajudou a ver as possibilidades relacionadas ao trabalho. Além disso, fui aquinhoada pela paciência e diversividade de talentos de Diane Smith, que dedicou horas de concentração transcrevendo o material para mim, no computador. Connie King e seu excelente sentido de design me ajudaram a selecionar e inserir exemplos de arte rupestre encontrada em todo o mundo. Ela apresentou e sintetizou o material que se encontra nas tabelas circulares de cada capítulo. Twainhart Hill foi responsável pela junção dos múltiplos detalhes necessários à preparação desse material. Ela e Rosalyn MilIer gastaram horas intermináveis em busca de permissões.
Respeito a primeira e segunda gerações dos povos étnicos do mundo, porque são eles os que constroem as pontes. Tenho a esperança de que os que se utilizarem deste livro se sentirão inspirados para dar respaldo e honrar suas origens e motivados para deixar um rico legado às crianças da Terra e às gerações futuras.
Angeles Arrien

Sausalito, Califórnia.


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As ilustrações deste livro foram selecionadas entre exemplares de arte rupestre e gravuras antigas, porque essas formas de arte se apresentam em todos os continentes. Os desenhos, ao mesmo tempo tão antigos e tão modernos, servem para nos lembrar das origens mais remotas da humanidade.
Lauburu. Palavra/símbolo basco para expressar o termo “quatro cabeças”

(Cruz pré-cristã basca). Foto: Jane English, feita no país Basco


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DECLARAÇÃO*
Nós, os Povos Indígenas do mundo, unidos neste canto de Nossa Mãe Terra, em grande assembléia de homens de saber, declaramos a todas as nações:
Glorificamos nosso honroso passado:

quando a terra era a mãe que nos alimentava, quando o céu noturno era nosso teto comum, quando o Sol e a Lua eram nossos pais, quando todos éramos irmãos e irmãs, quando nossas grandes civilizações cresciam, sob o sol, quando nossos chefes e anciãos eram grandes líderes, quando a justiça ditava as regras da Lei e sua execução.


Então, os outros povos chegaram:

sedentos de sangue, de ouro, sedentos da terra e de toda sua riqueza, carregando a cruz e a espada, uma em cada mão, sem saber ou esperar para aprender os caminhos de nossos mundos, consideraram-nos como sendo menos que animais, roubaram nossas terras e delas nos arrancaram, e tornaram escravos os Filhos do Sol.


No entanto, nunca foram capazes de nos eliminar nem de apagar de nossas memórias aquilo que fomos, porque somos a cultura da terra e do céu, somos de antiga linhagem e somos milhões, e embora todo nosso universo possa ser dizimado, nosso povo ainda viverá por mais tempo ainda do que o reino da morte.

Agora, viemos dos quatro cantos da terra, protestamos diante do concerto das nações, que “somos os Povos Indígenas, nós, os que temos consciência da cultura e de tudo


Fonte: Douglas E. Sanders, The Fo,niation o/ the Workl Coumil o/ Indigenous People IWGIA (A Formação do Conselho Mundial dos Povos indígenas), Documento n° 29, de 1977. Esta declaração foi aprovada pelos delegados presentes à 1ª Conferência internacional dos Povos Indígenas, realizada em Port Alberni, Colúmbia Britânica, em 1975. a qual deu origem ao estabelecimento do “Conselho Mundial dos Povos Indígenas” (World Council of Indigenous People WCIP).
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o que diz respeito ao povo,

dos limites das fronteiras de cada país,



e marginais à cidadania de cada país”.
E levantando-nos, depois de séculos de opressão, evocando a grandeza de nossos ancestrais, em memória de nossos mártires indígenas, e em homenagem ao Conselho de nossos sábios anciãos:
Prometemos solenemente retomar o controle de nosso próprio destino e recuperar nossa completa humanidade e orgulho de sermos Povos Indígenas.
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INTRODUÇÃO
Os povos indígenas são uma das mais persistentes vozes da consciência mundial, aleitando a humanidade para os perigos da destruição ambiental. E enquanto o mundo busca por estratégias alternativas para lidar com problemas globais, com mais freqüência vem se voltando para os indígenas. Muito do seu respeito pela natureza, seus métodos de administração de recursos, organização social, valores e cultura estão encontrando eco nos trabalhos de cientistas, filósofos, políticos e pensadores.
— Julian Burger (The gaia atlas of first peoples: a future for the indigenous world)
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Hoje é imperativo que voltemos nossa atenção às questões ecológicas. Nosso planeta, a casa em que vivemos, está em perigo de tornar-se inabitável, graças, em primeiro lugar, à negligência de nossa própria sociedade industrializada. E claro que necessitamos agir para mudar isso, antes que seja tarde demais.
Nossa palavra ecologia vem do grego oikos, que significa “casa”. A medida que nos aproximamos do século XXI, é tarefa de todos os seres humanos cuidar da saúde de nossas casas: a “interior” e a “exterior”; a casa interior, de nossos “eus”, o infinito mundo íntimo, e a exterior, do mundo no qual vivemos nossa vida diária. Muitas pessoas, na sociedade contemporânea, percebem pouca ou nenhuma ligação entre esses dois planos, condição que os povos indígenas, do mundo todo, ligados às suas terras, e com culturas milenares, considerariam não apenas triste, mas incompreensível. Em sua obra Voices of the first day, Robert Lawlor cita as palavras de um ancião aborígene: “Eles dizem que estamos aqui há 60 mil anos, mas é muito mais. Estamos aqui antes dos primórdios dos tempos. Viemos diretamente do Tempo do Sonho do Criador Ancestral. Mantivemos a terra tal como ela se encontrava em seu Primeiro Dia”. E é aos povos nativos que pedimos orientação sobre a maneira de cuidar da terra tal como ela se encontrava em seu primeiro dia. Sua antiga sabedoria universal pode ajudar a restaurar o equilíbrio de nossa própria natureza, e nos assistir no reequilíbrio das necessidades do meio ambiente.
Vivemos uma época que pede por uma “nova ordem mundial”. Nosso mundo presente, na verdade, divide-se em quatro: (1) os países altamente industrializados do Primeiro Mundo, tais como os Estados Unidos e as nações da Europa Ocidental; (2) o bloco das nações socialistas do Segundo Mundo; (3) os países em desenvolvimento do Terceiro Mundo, tais como o Brasil e a Tailândia; e (4) o Quarto Mundo, que George Manuel, do Conselho Mundial dos Povos Indígenas, descreve no Gaia atlas of first peoples (Burger), como “o nome dado aos povos indígenas descendentes das populações aborígenes de um país, e que hoje estão completa ou parcialmente despojados do direito a seu próprio território e riquezas. Os povos do Quarto Mundo têm apenas limitada ou nenhuma influência sobre o Estado nacional ao qual pertencem”. As diferenças entre esses mundos podem ser estabelecidas de maneira muito simples: O Primeiro, Segundo e Terceiro Mundos acreditam que “a terra pertence ao povo”. O Quarto Mundo acredita que “o povo pertence à terra”. Uma nova ordem mundial pode ser criada desde que os quatro mundos criem uma ponte que seja realmente regenerativa. Talvez essa ponte possa ser a interface no ponto em que os quatro mundos venham a se encontrar para juntos curar e restaurar a Mãe Terra.
Para os habitantes dos três primeiros mundos, compreender e aceitar a existência do Quarto é o primeiro e mais crucial passo para a criação de uma “nova ordem mundial”, realmente nova. Isso pode parecer impossível, mas não é. A interface entre os mundos não é rígida e impenetrável. Como explica o notável psicólogo William Bridges, interface significa “o ponto em que a superfície de uma coisa encontra a superfície de outra. E menos que uma linha divisória, e mais que uma membrana permeável, e a ação na interface é o interplay, a comunicação, a influência mútua que perpassa entre as sociedades... que se encontram lado a lado. Na interface são estabelecidos os relacionamentos vitais que são necessários à sobrevivência num mundo de crescente interdependência”.
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TORNANDO-SE SENHORES DA MUDANÇA
Para muitas pessoas, os ideais da Revolução Industrial no sentido de mais progresso, mais desenvolvimento, maior riqueza já não mais parecem relevantes, embora tenhamos problemas em abrir mão deles. Mas se devemos sobreviver no século XXI, temos que reconsiderar nossas prioridades.
Em sua obra Drearning the dark (Sonhando com o escuro), Starhawk nos lembra que: “A energia dirigida provoca mudanças. Para termos integridade, devemos reconhecer que nossas escolhas trazem conseqüências, e que não podemos escapar da responsabilidade pelas conseqüências. Não porque estas últimas nos sejam impostas por alguma autoridade externa, mas porque são inerentes às próprias escolhas”. As culturas indígenas e orientais há muito reconhecem que a única constante é a mudança, e que o princípio da interdependência é essencial à sobrevivência. Entre os povos tribais, homens e mulheres da medicina, chefes, xamãs, mestres e videntes são os “os senhores da mudança”, termo que Rosabeth Moss Kanter introduziu em 1985, como título de sua obra. As tradições xamânicas, praticadas por grupos agrários e indígenas de todo o mundo, recordam-nos de que, durante séculos, os seres humanos vêm se utilizando da sabedoria da natureza e do ritual para dar suporte às mudanças e transições da existência, em vez de ignorar ou negar os processos vitais, como quase sempre fazemos.
Nossa sociedade, como tantas outras sociedades ocidentais, encontra-se separada de suas raízes mitológicas. Na introdução do livro Rites of passage de Arnold Van Gennep, Salon Kimbala sugere que “uma dimensão de doença mental pode se manifestar porque um número crescente de pessoas vem sendo forçado a dar cumprimento a suas tradições sozinhas, com símbolos privados”. Esse processo de alienação pode ser amenizado pelo reaprendizado dos caminhos de nossos ancestrais. David Feinstein, num artigo publicado no Amerüan Journal of Orthopsychiatiy. ressalta que a renovação demanda um retorno à fonte original da qual todos os mitos pessoais e culturais, em última instância, são criados: a psique humana.
Não importa em que mundo vivemos agora: somos todos povos da terra, ligados uns aos outros por nossa mútua humanidade. Quando damos ouvidos aos povos de cultura ligados à terra, damos ouvidos aos nossos “eus” mais velhos. As culturas indígenas aprovam a mudança e a cura, a transição e os ritos de passagem, por meio de estruturas míticas e pela incorporação da arte, da ciência, da música e da dramatização à vida diária. Todas as formas de cultura do planeta possuem cânticos, danças e histórias que são contadas, e a essas práticas todos temos acesso. Também temos acesso aos quatro arquétipos interiores ou marcas registradas de comportamento humano que estão presentes nas estruturas míticas de todas as sociedades do mundo.
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VIVENDO O CAMINHO QUÁDRUPLO



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