Difusão científica: novos padrões de circulação



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Modos de produção e padrões de circulação do conhecimento científico.
Antero Silveira de Oliveira Filho1.
Grupo de Trabajo Nº01 - Ciencia, tecnología e innovación: recreación, nuevos saberes y prácticas científicas.

Línea temática: Difusión de conocimientos científicos. Redes globales y locales.



Resumo:

Esse trabalho pretende discutir a produção e difusão do conhecimento científico na sociedade contemporânea, sob a luz das abordagens de autores como Terry Shinn, Bruno Latour e Michael Gibbons, dentre outros. A capacidade de circulação do conhecimento está ligada ao caráter universal (dissociado do local de sua produção), entretanto, a ciência é feita em determinados locais (em contextos práticos e com específicos recursos). Destarte, o conhecimento conta com outros elementos para circular na rede tecnocientífica, como a capacidade de aplicação em contextos distintos. Isso depende do modo e regime de produção do conhecimento, cujo enquadramento teórico-conceitual foi tema de diversas investigações sociológicas (GIBBONS, 1994; SHINN, 2008). Tendo como referência empírica as pesquisas científicas sobre o tema das mudanças climáticas, esse trabalho tem por objetivo identificar os modos e regimes de produção que são predominantes nessas pesquisas.


PALAVRAS-CHAVE: produção do conhecimento científico, difusão científica, mudança climática, sociologia do conhecimento científico.
Introdução.

A capacidade de circulação de conhecimento científico está intimamente ligada ao fato desse conhecimento ser considerado universal ou, em outras palavras, não estar associado ao local de sua produção. No entanto, a ciência é feita num determinado local, com específicos recursos e sob determinado contexto prático, mesmo que os grupos de pesquisa constituam redes, cujo alcance possa ser global. Além do caráter universal, que possibilita o reconhecimento de sua validade, a produção de conhecimento (dependendo do modo e regime de produção e difusão do conhecimento) conta com outros elementos para poder circular pela rede tecnocientífica como, p.ex., a capacidade de ser aplicável socialmente - como solução de problemas específicos e de curto prazo - em contextos específicos e a potencialidade desse conhecimento ser incorporado em outras pesquisas, ou seja, permitir a produção de novos conhecimentos.

Dentre os regimes de produção do conhecimento, segundo Terry Shinn (2008), destacam-se o regime disciplinar e o utilitário. A Ciência feita sob o regime disciplinar (SHINN, 2008), além de reproduzir o conhecimento disciplinar-padrão entre os estudantes, está voltada para a produção de pesquisa original no interior da disciplina. Esse regime constitui seu próprio ‘mercado” e seus praticantes são os consumidores de suas próprias produções (economia cognitiva fechada). Nesse regime (disciplinar) predomina o que Gibbons, Limoges, Nowotny, Schwartzman, Scott e Trow (1994) chamam de Modo 1 de produção do conhecimento científico. Por sua vez, o conhecimento produzido no regime utilitário está enraizado no local e no aspecto prático, onde seu parâmetro é a solução de problemas específicos e de curto prazo. Os produtos/resultados freqüentemente correspondem às demandas da ‘clientela’, possuindo um caráter bastante específico. Esse regime (utilitário), por suas características, pode ser identificado com o Modo 2 de produção de conhecimento.

Esse trabalho se debruça sobre o conhecimento científico, em especial sobre mudanças climáticas, e pretende situá-lo dentro dos emergentes modos e regimes de produção do conhecimento.



Modos e regimes de produção do conhecimento.

Para Michel Gibbons et al. (1994), a sociedade contemporânea passa por mudanças nos modos de produção do conhecimento. Existem, portanto, um modo tradicional e disciplinar (Modo 1) e um modo gerado em um contexto amplo, transdisciplinar e econômico (Modo 2). O Modo 2, em contraste como o Modo 1, é caracterizado por ser heterogêneo, não-hierárquico, fazer uso de uma vasta gama de critérios no julgamento do controle de qualidade, onde ‘contextos de aplicação’ acrescentam critérios de controle. Já o Modo 1 conta com a revisão por pares como critério de qualidade (que expressam as preocupações e interesses da disciplina). Portanto, no Modo 2, qualidade e controle se reforçam mutuamente. Além de ser reflexivo, o Modo 2 não é institucionalizado e, segundo Michael Gibbons et al. (1994, p.07), é socialmente mais responsável.

O sociólogo Terry Shinn (2008), ao abordar a questão da (des)unidade da ciência, apresenta os regimes de produção e distribuição científica2: disciplinar, utilitário, transitório e transversal. Dentre os regimes de produção do conhecimento, segundo Terry Shinn (2008), destacam-se o regime disciplinar e o utilitário. A Ciência feita sob o regime disciplinar, além de reproduzir o conhecimento disciplinar-padrão entre os estudantes, está voltada para a produção de pesquisa original no interior da disciplina (SHINN, 2008, p.16). Esse regime constitui seu próprio ‘mercado” e seus praticantes são os consumidores de suas próprias produções (formando uma economia cognitiva fechada). Ele é circular, portanto, na lógica. Cabe salientar que nesse regime (o disciplinar) predominam as características que Gibbons et al. chamam de Modo 1 de produção do conhecimento científico. Já o conhecimento produzido no regime utilitário3 está ancorado no contexto local e na dimensão prática (SHINN, 2008). Os produtos desse regime frequentemente correspondem às demandas da ‘clientela’, possuindo um caráter bastante específico.

Por sua vez, Thomas F. Gieryn e Christopher R. Henke (Hackett, 2008) apontam que a ciência vive uma era de evidente globalização, onde cientistas, amostras, instrumentos e inscrições percorrem o mundo em jatos e através de comunicações digitais, em grande parte, sem restrições em relação às distâncias ou localização física. Nesse sentido, pereceria anacrônico sugerir que o ‘local’ continua a manter uma grande importância nas práticas e realizações da ciência. No entanto, Gieryn e Henke (Hackett, 2008) demonstram que ciência globalizada é, ao mesmo tempo, ciência localizada (ligada a um contexto local) e como esse fato possibilita, tanto o reconhecimento quanto a circulação do conhecimento científico. Na verdade, a padronização global de instalações de investigação mostra como a infra-estrutura material, bem como os entendimentos simbólicos, privilegiam alguns lugares como locais confiáveis ​​para a construção do conhecimento, portanto, permitindo a mobilidade da ciência (HACKETT, 2008, p.353). Local, ironicamente, atinge a aparência de não-local, segundo Gieryn e Henke (HACKETT, 2008).

Acrescenta-se a isso que a ciência está ligada a um contexto prático, cujas potencialidades locais se traduzem em objetos de pesquisa/epistêmicos, com pretensões de universalidade. No entanto, essa universalidade pode ser entendida como prática, especialmente quando os trabalhos científicos estão baseados em ‘tecnologias de pesquisa’ (regidas por princípios genéricos, para Terry Shinn (2008), que serão abordados adiante), bem como epistêmica, quando as pesquisas científicas visam apenas à obtenção de leis e descobertas universalmente válidas.

Embora pesquisas científicas feitas no Modo 1 não pretendam produzir resultados contextualizados (ou seja, indexados ao contexto de sua produção, como o Modo 2), é possível investigar os traços locais - ou sua indicialidade - onde a investigação foi engendrada, uma vez que, para Gieryn e Henke (HACKETT, 2008), o contexto local estabelece, se não os próprios objetos de pesquisa, ao menos as condições e potencialidades da pesquisa científica.

Para Terry Shinn (2008), existe uma aproximação entre os regimes de produção e circulação do conhecimento científico, especialmente entre o regime disciplinar e o regime utilitário4. No entanto, essa aproximação ocorre no sentido da incorporação, pelos praticantes do regime utilitário (p. ex., pelas engenharias), dos padrões de publicação do conhecimento característicos do regime disciplinar (marcado pela formalização e matematização). Essa incorporação ocorre justamente como estratégia, por parte dos pesquisadores no chamado Modo 2 (transdisciplinar e de ampla distribuição social, segundo Gibbons et al.), visando à circulação do conhecimento pela rede tecnocientífica, assim como buscando a legitimidade desse conhecimento.

Importante ressaltar que, assim como as relações entre os regimes de produção de conhecimento são marcadas por oscilações, a transição do Modo 1 para o Modo 2 talvez nunca se complete e que, da mesma forma, esses dois modos coexistam por muito tempo, uma vez que regimes de produção de conhecimento não podem prescindir de conhecimento codificado (característico do Modo 1). Além disso, a estabilização das controvérsias científicas depende da instituição de uma linguagem franca (formalizada e provisoriamente unívoca) entre os partícipes de uma contenda científica.

Dentro desse quadro de mudanças nas ciências, os novos modos de produzir conhecimento têm despertado a atenção dos estudos sociais de ciência e tecnologia, sobretudo a emergência desses modos nos centros da ciência. Exemplos que ilustram essa forma de produção e difusão de conhecimento (Modo 2) são as discussões científicas sobre temas controversos 5. No entanto, não se deve descuidar dos estudos dos modos e regimes (de produção do conhecimento) considerados canônicos, ainda predominantes na periferia da ciência. Sobretudo, por que muitos aspectos do fazer científico não foram suficientemente abordados pela antropologia e sociologia do conhecimento científico.
A produção de conhecimento e as mudanças climáticas.

Tomando como exemplo os estudos sobre mudanças climáticas, percebemos que grande parcela dessas pesquisas (como sugerem os relatórios e informes dos Grupos de Trabalho do IPCC)6 ocorrem sob o Modo 1 de produção e difusão do conhecimento científico, ou seja, em instituições de pesquisa, feito por cientistas renomados. No entanto, essas pesquisas também carregam as marcas contextuais e contingentes das decisões e escolhas feitas em laboratório. Assim, é possível investigar sob quais critérios se constroem objetos de pesquisa, bem como quais estratégias são adotadas, para que estes tenham maior circulação na rede sociotécnica.

É importante considerar que nas pesquisas sobre mudanças climáticas (embora estejam ancoradas no Modo 1) existe um apelo aos usos potenciais dos resultados, tanto em outras pesquisas, quanto usos para além dos muros da academia. Através da análise de conteúdo7 dos artigos científicos é possível esquadrinhar os elementos que indicam o modo de produção do conhecimento, além de apontar para as condições dessa produção. Nesse sentido, os artigos científicos, já na seção Introdução, apresentam sua relevância social, baseando seu objeto de pesquisa nas demandas sociais por conhecimento sobre os efeitos (particularmente, em uma esfera local) das mudanças climáticas. Muitos artigos tratam dos efeitos das mudanças climáticas sobre as pessoas, direta ou indiretamente (p.ex., através de ameaças às fontes de recursos vitais). Dessa forma, a simples menção aos riscos à sociedade coloca um trabalho científico em um notável patamar8 dentro da rede sociotécnica, respaldado pelo termo ‘social’9. Dessa forma, como aponta o sociólogo Ulrich Beck (2011, p.99), as ameaças que as mudanças climáticas oferecem para as pessoas representam transformações sociais e epistêmicas importantes, dentro do que Beck denomina de sociedade de risco, onde as ameaças à natureza convertem-se em ameaças sociais, políticas, econômicas.
Difusão do conhecimento produzido na periferia.

Os novos modos de produzir conhecimento têm despertado a atenção dos estudos sociais de ciência e tecnologia, sobretudo a emergência desses modos nos centros da ciência, como citado anteriormente. Entretanto, não se devem negligenciar os estudos dos modos e regimes (de produção e difusão do conhecimento), ainda hegemônicos na periferia da ciência.

Nas últimas décadas, a produção de conhecimento científico e tecnológico feita no Brasil, bem como em outros países em desenvolvimento da América Latina, foi colocada sobre estreita supervisão dos governos e desenvolvidas para fins militares, com poucos benefícios para o bem-estar geral da população, segundo Gibbons et al.(1994, p.133). Esses são os contornos institucionais (típicos do Modo 1) que marcaram também o processo de produção do conhecimento em países periféricos, ou seja, pesquisas guiadas por interesses econômicos e políticos de determinados grupos (mediados pelos Estado) e longe das demandas sociais mais imperativas. No entanto, temas como as mudanças climáticas, por seu impacto social, tem alterado a forma de se produzir e divulgar a ciência (incorporando aspectos de distintos regimes).
Estratégias e formas de comunicação.

A ciência moderna (tanto nos centros quanto na periferia) tem um interesse na busca por princípios gerais e essa busca não foi abandonada. Entretanto, segundo Gibbons et al. (1994, p.44), parece que a natureza é mais sutil do que é permitido pelos modelos físico-matemáticos. Então, a ciência usa qualquer técnica, ideia ou método que produza um entendimento sobre a natureza. Nesse sentido, Gibbons et al. apontam para a emergência de novas formas de comunicação entre os cientistas e a sociedade, que se expressam, p.ex., no uso de imagens, modelos e novas técnicas para abordar problemas, ligados a contextos e demandas específicas. Há, para tanto, um pluralismo de abordagens, combinando dados/métodos/técnicas para atender às exigências de contextos específicos. Esse é, justamente, o cenário que condiciona a produção de conhecimento científico sobre mudanças climáticas.

Dentro desse contexto, como ressalta Pierre Bourdieu (1976), os cientistas lançam mão de estratégias para assegurar os interesses, dentro da luta por autoridade científica, que orientam suas práticas e que, assim, podem fortalecer suas posições dentro do campo científico10. Considerando as estratégias11 adotadas pelos pesquisadores para promover a difusão dos objetos investigados, através da rede sociotécnica, cabe alguns breves apontamentos sobre os estilos de escrita dos artigos e os significados que essas configurações denotam.

É possível constatar que a produção de conhecimento científico (sobre mudanças climáticas) na periferia é marcada por duas fases: inicialmente, a confecção de artigos para revistas locais (muitos artigos e sintéticos, no começo da atividade científica) e, posteriormente, pela produção de artigos para periódicos internacionais (em uma fase de maior maturidade acadêmica). Dessa forma, o que se percebe é que, inicialmente, os cientistas são encorajados a produzir trabalhos científicos para publicação em revistas ‘locais’ (muitas vezes ligadas aos programas de pesquisa da própria instituição do pesquisador) e, posteriormente, lançar-se em voos academicamente mais elevados (periódicos internacionalmente reconhecidos)12. Outra razão seria a pretensa facilidade de aceite em revistas locais13.

Uma das características (formais) dos artigos dirigidos para revistas locais é o fato de serem sintéticos (resumidos em 4 páginas, em média, onde apenas as seções Introdução, Resultados e Conclusões estão presentes). Outra característica, é que uma gama substancial do total da produção científica (na forma de artigos) está publicada nessas revistas. Já artigos publicados em periódicos de renome internacional contêm uma estrutura canônica (possuem maior nº. de seções: Introdução, Desenvolvimento, Metodologia, Resultados e Conclusão) e são mais detalhados, em termos de informações, dados, teoria e metodologia adotada14.

Circulação do conhecimento.

Além de basearem-se em princípios transcendentais (que fornecem um caráter supostamente universal ao conhecimento, como a busca por leis e explicações dos fenômenos, como referido anteriormente), os cientistas lançam mão do princípio genérico, ao construírem seus objetos de pesquisa. Este princípio permitiria, segundo Shinn (2008, p.32), que certos aspectos do instrumento/técnica fossem efetivamente redesenhados para aplicação no nicho local, sem desorganizar a lógica tecnológica e a divisão de trabalho na variedade de ambientes nos quais ele opera. Dessa forma, as pesquisas baseadas nesse princípio têm como referente primário os esforços de instrumentação e isso permite a circulação dentro da rede tecnocientífica. Em outras palavras, a instrumentação genérica promove a comunicação no interior da academia (e entre a ciência, a indústria, os serviços estatais, o complexo militar, etc.), especialmente nos centros da ciência.

No entanto, na periferia da ciência, onde impera o Modo 1 de produção do conhecimento, grupos de pesquisa também constroem seus objetos de investigação tendo como referente o caráter genérico (e a necessidade de promovê-los através de potenciais usos instrumentais dos resultados de pesquisa). Diante disso, os trabalhos científicos utilizam-se de ‘tecnologias de pesquisa’, segundo Shinn (2008, p.33), como mecanismo para expandir o conhecimento técnico e científico. O objetivo é introduzir convergência entre muitas tecnologias e diversos domínios de pesquisa científica e, nesse sentido, os artefatos instrumentais genéricos da tecnologia de pesquisa são um desses mecanismos centrais.

Na medida em que se usa com sucesso um grande nº de aparelhos (ou modelos computacionais, como no caso das pesquisas sobre mudanças climáticas), por diversos grupos, reforça-se a confiança nesses aparelhos/técnicas. Esse é um elemento de coesão, fruto da prática instrumental, no interior da ciência. Para o antropólogo Bruno Latour (2000, p.53), na ciência, a construção de fatos e máquinas é um processo coletivo. Esse processo envolve associações entre entes heterogêneos (humanos e não-humanos) e tem como resultado um texto científico, sustentado por instrumentos (LATOUR, 2000, p. 112), ou seja, por recursos mobilizados para fornecer uma exposição visual ao artigo científico. Assim, Latour (2000, p.415) informa que a história da tecnociência é, em grande parte, a história desses recursos (instrumentos e invenções) espalhados ao longo das redes para acelerar a mobilidade, a fidedignidade, a combinação e a coesão dos traçados que possibilitam a ação15.

Outro elemento que está presente na (e torna possível a) circulação do conhecimento é a controvérsia sobre determinados temas de pesquisa. Nesse sentido, as controvérsias envolvendo a mudança climática é outra fonte inesgotável de discussões científicas e produção de conhecimento16. E, dessa forma, há um apelo por parte de instituições e fóruns de pesquisa para que os cientistas participem das discussões sobre temas de interesse social. Tomemos como exemplo, desse apelo, o documento ‘Fundamentos científicos das Mudanças Climáticas’ (promovido pela Rede CLIMA e Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas), que convoca os cientistas da seguinte forma:

Cientista por definição não é advogado. [...] Só que hoje estamos vendo a necessidade de ter o que chamaríamos de advocacia responsável. Não se trata de uma advocacia de posições políticas ou de movimentos organizados da sociedade civil, que são legítimos na sociedade. [...] No entanto, o cientista não pode mais se isolar. Ele tem de sair, e este debate de hoje é um perfeito exemplo disso. O cientista não pode mais se furtar de participar desse debate, sempre levando em conta a sua metodologia, que é a busca da verdade científica. Então, é um ambiente novo e até certo ponto hostil para muitos cientistas, principalmente o ambiente da blogosfera. E muito desse debate acerca dos erros do IPCC foi aumentado exponencialmente pela blogosfera.” (NOBRE, 2012, p.28)

Percebe-se que a circulação do conhecimento na rede não depende somente dos canais tradicionais (artigos, relatórios,...), mas também da participação dos cientistas nos mais diversos espaços de discussão, onde suas pesquisas interferem objetivamente, seja promovendo debates ou esclarecendo erros e dúvidas. Assim, a difusão do conhecimento necessita da constante mobilização dos mais diversos atores sociais na divulgação e promoção dos objetos de pesquisa, na rede tecnocientífica e em outros espaços de uso do saber científico.

No que tange a comunicação entre ciência e sociedade, os debates públicos sobre as controvérsias científicas fizeram surgir, e aumentar, a pressão por responsabilidade social dos cientistas. Gibbons et al. (1994, p.36) destaca que os domínios mais sensíveis até agora tinham centrado-se em cima de tecnologias de risco, nomeadamente as relacionadas com a energia nuclear e outras grandes instalações técnicas perigosas. Somam-se a esses riscos, as incertezas sobre os impactos das mudanças climáticas. Nesse sentido, Ulrich Beck (2011) também ressalta o papel dos riscos produzidos tecnológica e cientificamente, dentro da sociedade moderna, e que assumem o centro dos debates públicos envolvendo a ciência.


Considerações finais.

A produção de conhecimento científico sobre mudanças climáticas ocorre, predominantemente, sob o Modo 1 e dentro do regime disciplinar, no entanto, carrega as marcas/traços do Modo 2, uma vez que os contextos locais e práticos influenciam a delimitação dos objetos de pesquisa sobre esse tema (mudanças climáticas) e pelo fato de vincular-se com demandas sociais locais (contextualizadas e contingentes em sua gênese), como ocorre no regime utilitário.

Considerando as incorporações de aspectos entre distintos regimes de produção científica (disciplinar e utilitário), bem como a transição incompleta entre os Modos 1 e 2 de produção do conhecimento e sua correspondente coexistência (mencionada anteriormente), é possível apontar que o tema das mudanças climáticas, com um caráter per se transdisciplinar e forte ligação com demandas sociais, opera como um híbrido no processo de produção do conhecimento. Isso ocorre mesclando-se características de distintos regimes e modos de se fazer ciência. Esse período transitório da ciência moderna torna-se visível pelas estratégias adotadas pelos pesquisadores, tanto na produção quanto na difusão do conhecimento, sobre o tema das mudanças climáticas.

Embora muitos estudos destaquem que existem mudanças no processo de produção de conhecimento, especialmente visível na relação entre investigação científica e setores produtivos (e que estas mudanças apontam para o Modo 2 de produção do conhecimento), ao menos nas pesquisas sobre mudança climática, essa mudança é ainda incipiente.



Referências:
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1979. 229 p.
BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução: Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2ª ed., 2011. 384p.
GIBBONS, Michael et al. The new production of knowledge: The Dynamics of Science and Research in Contemporary Societies. London: SAGE Publications Ltd, 1994.
Gieryn, Thomas F. and Henke, Christopher R. Sites of Scientific Practice: The Enduring Importance of Place. in: Hackett, Edward J. et al. The handbook of science and technology studies. 3rd ed. The MIT Press: Cambridge, Massachusetts/London, England, 2008.
LATOUR, Bruno. Ciência em Ação: Como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo, UNESP, 2000.

_____________. Reensamblar lo Social: Uma Introducción a la Teoría del Actor-Red. Buenos Aires, Manantial, 2008.


Nobre, Carlos A. Fundamentos científicos das mudanças climáticas / Carlos A. Nobre, Julia Reid, Ana Paula Soares Veiga. – São José dos Campos, SP: Rede Clima/INPE, 2012. 44p.
ORTIZ, Renato (org.). 1983. Bourdieu – Sociologia. São Paulo: Ática. Coleção Grandes Cientistas Sociais, vol. 39. p. 122-155. Reproduzido de BOURDIEU, P. Le champ scientifique. Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales, n. 2/3, jun. 1976, p. 88-104. Tradução de Paula Montero.
Shinn, Terry. Regimes de produção e difusão de ciência: rumo a uma organização transversal do conhecimento. In: scientiæ zudia, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 11-42, 2008.


1 Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Rio Grande do Sul, Brasil.

2 Cada regime possui também sua divisão específica de trabalho, sistema organizacional, regras e hierarquia internas, universo de emprego, formas de produzir resultados, clientela e seu sistema particular de circulação entre produção e mercado.

3 Importante destacar que o regime utilitário possui muitos elementos que caracterizam também o Modo 2 de produção de conhecimento. No entanto, a fusão entre as práticas do regime disciplinar e utilitário se expresse no chamado regime transitório (SHINN, 2008, p.30), através da figura do cientista-empresário.

4 Entretanto, Terry Shinn (2008) também aponta que existem, certamente, contrastes significativos entre os regimes disciplinar (de pesquisa e divulgação científica) e utilitário, quanto aos seus fins e epistemologias: “Enquanto o regime da ciência busca por proposições de uma ordem (universal) que transcendam tempo, espaço, cultura e particularismos de todos os tipos, as produções do regime utilitário estão enraizadas no local e no prático. Seu parâmetro é a solução de problemas específicos e de curto prazo.”(SHINN, 2008, p.23)

5 Em dezembro de 2010 a Agência Espacial Americana (Nasa) causou apreensão ao anunciar a divulgação de um estudo com relação à busca de vida fora da Terra. O estudo, divulgado por Felisa Wolfe-Simon, sob o títuloA Bacterium That Can Grow by Using Arsenic Instead of Phosphorus’ [cf. em: http://www.sciencemag.org/content/332/6034/1163], na Nasa e publicado posteriormente na revista Science, dizia que havia sido descoberta uma nova forma de vida, uma bactéria que usaria arsênio no lugar de fósforo em sua composição. Rapidamente cientistas realizaram estudos e demonstraram que se tratava de um engano. Para isso abriram seus laboratórios, através dos blogs e videoblogs, para discutir a pretensa descoberta, culminando com a resposta sobre a questão em 2012, presente no artigo: Absence of detectable Arsenate in DNA from arsenate-grown GFAJ-1 cells. Disponível em: http://arxiv.org/ftp/arxiv/papers/1201/1201.6643.pdf E em: http://www.sciencemag.org/content/337/6093/470.abstract Outro texto que tratou da questão: http://www.nature.com/news/arsenic-loving-bacterium-needs-phosphorus-after-all-1.10971

6 IPCC, 2007: Cambio climático 2007: Informe de síntesis. Contribución de los Grupos de trabajo I, II y III al Cuarto Informe de evaluación del Grupo Intergubernamental de Expertos sobre el Cambio Climático [Equipo de redacción principal: Pachauri, R.K. y Reisinger, A. (directores de la publicación)]. IPCC, Ginebra, Suiza, 104 págs. Especialmente o Anexo IV – lista dos autores – e V – lista dos revisores -, pertencentes a instituições de pesquisa ou órgãos governamentais.

7 O objetivo da análise de conteúdo, segundo Laurence Bardin (1979, p.39), é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção das mensagens. Nesse sentido, após a descrição sistemática e objetiva das mensagens, no intuito de chegar à interpretação dessas, faz-se necessário proceder com a inferência, permitindo a passagem da descrição à interpretação.

8 Dentro da lógica de produção e distribuição dos riscos civilizacionais na sociedade moderna, segundo Ulrich Beck (2011, p.67), a ciência encontra-se envolvida em um processo de conscientização desses riscos que, primeiro, se desdobra através da intensificação da cientificização dos riscos e, segundo, - reflexivamente - a comercialização do risco se intensifica. Ou seja, os impactos/ameaças civilizacionais convertem-se em um fator de fomento econômico de primeira ordem.

9 Bruno Latour (2008, p.19) postula, a partir de sua perspectiva antropologicamente simétrica, que o ‘social’ é um termo que deveria designar uma sucessão de associações entre esses entes heterogêneos. Para ser fiel à etimologia da palavra ‘social’, a Sociologia deveria ser não a ‘ciência do social’, mas o rastreamento de associações. Esse adjetivo designaria um tipo de relação entre elementos que não são sociais em si mesmos.

10 O campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social (Bourdieu, 1976, p.02).

11 Tendo o devido cuidado com o uso, por parte de Bourdieu (1976), do termo ‘estratégias’ e seu vínculo com as relações objetivas, onde o autor esclarece que não se pode reduzir as relações objetivas que são constitutivas do campo ao conjunto das interações, no sentido do interacionismo, isto é, ao conjunto das estratégias que, na realidade, ele determina.

12 Uma das possíveis razões dessa estratégia é a exigência – implícita, por parte dos revisores e avaliadores - de certo nº. de publicações anteriores para que um artigo seja aceito.

13 Embora a publicação em periódicos locais venha sendo desestimulada, justamente para evitar que as revistas contenham apenas pesquisas da própria instituição e, outrossim, para promover a dispersão do conhecimento.

14 Isso não significa que os artigos dirigidos aos periódicos locais sejam menos rigorosos cientificamente, apenas denota um estilo formal distinto daqueles dirigidos às publicações mais bem avaliadas por bases indexadoras.

15 Nesse sentido, mapear tendências (como os padrões de circulação do conhecimento científico) é também revelar as associações dentro da rede tecnocientífica. Então, para entender como operam os mecanismos que permitem a circulação de conhecimento na rede - como as “tecnologias de pesquisa” mencionadas por Shinn (2008) - é necessário, segundo Bruno Latour (2008), saber quem são os atores que compõem a rede tecnocientífica, e como se constroem fatos e objetos de investigação científica.

16 Ulrich Beck (2011), ao tratar dos riscos na sociedade moderna, aponta que as ameaças civilizatórias (como as mudanças climáticas) também são oportunidades de lucro, por parte das empresas, e de problemas de pesquisa, por parte dos cientistas. Essas ameaças, dentro da superespecializada divisão do trabalho científico, geram uma série de solução-geração de problemas, tendo como referência os ‘efeitos colaterais’ da industrialização (BECK, 2011, p.271).






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