Diagnóstico microbiológico de infecção urinária em gestantes atendidas em um Laboratório de Goiás entre 2012 e 2013



Baixar 169.07 Kb.
Encontro08.07.2018
Tamanho169.07 Kb.


INFECÇÃO URINÁRIA EM GESTANTES ATENDIDAS EM UM LABORATÓRIO CLÍNICO DE GOIÂNIA-GO ENTRE 2012 E 2013

URINARY TRACT INFECTION IN PREGNANT WOMEN AT A CLINICAL LABORATORY OF GOIÂNIA-GO BETWEEN 2012 AND 2013

Aline Alves Borges¹, Larissa Gomes Magalhães¹, Alessandra Marques Cardoso²



Resumo

A infecção do trato urinário é uma complicação no período


gestacional. Nosso estudo objetivou elucidar os principais
microrganismos envolvidos e seus perfis de suscetibilidade, coletando dados
em um laboratório clínico de Goiânia-GO entre 2012 e 2013. Das 264
gestantes estudadas, 63 (23,8%) apresentaram urocultura positiva, sendo Escherichia coli prevalente (28,6%) com cepas multirresistentes (50,0%) e produtoras de ESBL (11,1%).

Palavras-chave: infecção urinária, gestantes, antimicrobianos.

Abstract: The urinary tract infection is a complication during pregnancy. The aim of this study was to elucidate the microorganisms involved and verify the susceptibility profiles. Data was collected in a clinical laboratory of Goiânia-GO between 2012 and 2013. Among 264 pregnant women studied, 63 (23.8%) had positive urine culture, Escherichia coli was prevalent (28.6%) with multiresistant (50.0%) and ESBL (11.1%) strains.

Keywords: Urinary infection, pregnant women, antimicrobials.

Introdução

A infecção do trato urinário (ITU) é uma enfermidade que prevalece em mulheres, principalmente no período gestacional. Na gravidez, ocorrem mudanças anatômicas e fisiológicas que provocam maior suscetibilidade às infecções do trato urinário (DUARTE et al., 2008). A ITU pode prejudicar o trato urinário baixo (cistite) ou afetar o trato urinário superior, sendo que neste caso, utiliza-se o termo infecção urinária alta (pielonefrite) (DUARTE & ARAÚJO, 2012).

O trato urinário (bexiga, ureteres e rins) é estéril. A contaminação com a microbiota intestinal, por via ascendente, constitui a forma mais frequente de infecção urinária, segundo KOCH & ZUCCOLOTTO (2003). O aumento nas taxas de estrogênio e progesterona pode levar à diminuição da resistência do hospedeiro frente à invasão bacteriana, facilitando a ocorrência de quadros infecciosos (FIGUEIRÓ-FILHO et al., 2009).

A ITU se estabelece devido à multiplicação de microrganismos com possível invasão por via ascendente. Consiste em uma doença infecciosa prevalente durante o período gestacional, com frequência variando entre 5% e 10% (GOIS et al., 2009). Pode afetar indivíduos de qualquer faixa etária e sexo, sendo mais frequente em mulheres, uma vez que a uretra feminina é mais curta, em relação à uretra peniana, localizando-se próxima ao ânus (VICEDO & ULRICH, 2007).

A maioria das ITU é causada por espécies da família Enterobactericeae, principalmente Escherichia coli, que é um microrganismo recorrente em infecções comunitárias não complicadas. A E. coli coloniza o cólon, a região perianal e a vagina. Para o diagnóstico de ITU, a urocultura é o exame confirmatório, porém depende da coleta adequada do jato médio urinário. A contagem de colônias bacterianas com número igual ou superior a cem mil (105) unidades formadoras de colônias (UFC) por mL de urina é fundamental para confirmar diagnóstico laboratorial de ITU (HEILBERG & SCHOR, 2003).

As complicações maternas envolvem hipertensão, alteração da função renal, pré-eclâmpsia, corioamnionite, anemia e endometrite. As consequências da ITU nos perinatais vão desde o nascimento prematuro até o óbito perinatal (PEREIRA & BORDIGNON, 2011).

A antibioticoterapia em gestantes é complexa e deve ser conduzida com cautela (FIGUEIRÓ-FILHO et al., 2009). É recomendado acompanhar o tratamento periodicamente, realizando anamnese para obter informações que implicarão uma terapia antimicrobiana adequada e segura. O uso inadequado de antimicrobianos pode elevar a resistência bacteriana causando maiores complicações (BRAOIOS, et al., 2009).

Microrganismos multirresistentes (MDR) são aqueles resistentes a diferentes classes de antimicrobianos avaliadas em laboratório (ANVISA, 2010). Um dos métodos utilizados para caracterizar microrganismos como MDR baseia-se no encontro de resistência a três ou mais classes de antimicrobianos, quando executados testes de suscetibilidade antimicrobiana in vitro (MAGIORAKOS et al., 2012).

Têm sido relatados muitos casos de enterobactérias MDR que produzem enzimas beta-lactamases de espectro ampliado (ESBL). Tais cepas possuem habilidade para inativar antibióticos beta-lactâmicos, incluindo os monobactâmicos e as cefalosporinas (JAIN et al., 2003).

Para evitar complicações em decorrência de ITU nas gestantes é importante destacar o diagnóstico precoce. O diagnóstico com antecedência é essencial para a identificação do microrganismo, seu perfil de suscetibilidade, o tratamento correto e a prevenção de complicações (POLETTO et al., 2004). Sugere-se também maior atenção médica quanto às infecções assintomáticas, bem como utilização de tratamento antimicrobiano eficaz e cauteloso (DUARTE et al., 2008).

O presente estudo objetivou avaliar a população de gestantes atendidas em um laboratório clínico de Goiânia-GO, entre 2012 e 2013, com base nos dados disponíveis em relação ao exame de urocultura, obtendo informações referentes aos microrganismos isolados e seus perfis de suscetibilidade frente aos antimicrobianos, bem como a ocorrência de cepas MDR e produtoras de ESBL.
Material e Métodos

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, conforme Protocolo nº 82.542 CEP-PUC Goiás. Realizou-se um levantamento de dados referentes ao período de agosto de 2012 a setembro de 2013 em um laboratório clínico de Goiânia-GO. A fonte dos dados foram os resultados dos exames de urocultura contidos em fichas e no arquivo digital, armazenados no referido laboratório.

Para esse trabalho foram coletados os dados de pacientes do sexo feminino, incluindo as gestantes, tais como: nome completo, idade, número de abortos, medicamentos utilizados, indicação clínica, período gestacional e resultado da urocultura (contagem de colônias, microrganismo identificado e perfil de suscetibilidade aos antimicrobianos).

As amostras foram constituídas de urina de jato médio, com prévia higienização da área genital com água e sabão, sendo desprezado o primeiro jato. As amostras de urina foram coletadas em frascos estéreis e encaminhadas para a seção de Microbiologia do laboratório clínico referido.

A urocultura foi processada de acordo com as normas apresentadas no Procedimento Operacional Padrão (POP) do laboratório em estudo, utilizando a análise quantitativa. As amostras foram semeadas com alça calibrada 0,01ml (10 microlitros) em biplaca contendo Ágar CLED e Ágar MacConkey. As placas semeadas foram incubadas pelo período de 18h a 24h, à temperatura de 36ºC ± 1ºC. Foram consideradas positivas as amostras que apresentaram crescimento de microrganismos com contagem de colônias igual ou superior a 105UFC/mL. Após isolamento primário, procedeu-se a identificação dos microrganismos e a realização dos testes de suscetibilidade aos antimicrobianos por meio de painéis automatizados (PC33 e/ou NUC55), sendo realizada a leitura no aparelho MicroScan (AutoScan-4/Siemens). A correlação dos antimicrobianos foi executada de acordo com o Clinical and Laboratory Standards Institute - CLSI (2012; 2013).
Resultados e Discussão

Foram coletados dados referentes a 2.562 mulheres com idade entre 10 e 98 anos, sendo 264 (9,5%) gestantes com idade entre 14 e 56 anos, predominantemente dos 21 aos 30 anos (tabela 1), sendo a média de idade das gestantes 24,7 anos. A tabela 2 revela o número de mulheres gestantes e não gestantes que realizaram urocultura no período do estudo.

Tabela 1: Distribuição por faixa etária de gestantes que realizaram urocultura em um laboratório clínico de Goiânia-GO, no período de agosto/2012 a setembro/2013.


Faixa etária

Nº absoluto de gestantes

Nº relativo de gestantes (%)

14-20

65

24,6

21-30

158

59,8

31-40

37

14,1

41-50

03

1,2

56

01

0,3

TOTAL

264

100

Tabela 2: Distribuição de mulheres gestantes e não gestantes que realizaram urocultura em um laboratório clínico de Goiânia-GO, no período de agosto/2012 a setembro/2013.

Mulheres

Gestantes

Não gestantes

2.562

264

2.298

100%

10,3%

89,7%

A disponibilidade de informação sobre o período gestacional esteve presente em 36 (14%) gestantes, com resultado variando do 1º ao 3º trimestre. Em 95 (36,3%) gestantes constatou-se o relato de uso de medicamentos, entre eles ácido fólico, sulfato ferroso, cefalexina, neutrofer materno, cloridrato de bupropiona, enalapril, hidroclorotiazida, metildopa, paracetamol, bromoprida, buscopan, cefadroxila, azitromicina, norfoxacina, nifedipina, amoxicilina e natele.

Em 78 (29,9%) gestantes foi possível obter a informação de indicação clínica, sendo nove (3,45%) de ITU. A informação da quantidade de abortos foi inexistente para 100% das pacientes. Das 264 gestantes estudadas, 63 apresentaram urocultura positiva, adotando como critério a contagem de colônias igual ou superior a 105UFC/mL, segundo KONEMAN, et al. (2001), ressaltando que, assim que diagnosticada a ITU, o tratamento deve ser iniciado imediatamente para evitar complicações, tais como sepse, abortamento e parto prematuro.

Em relação aos microrganismos envolvidos, as enterobactérias foram recuperadas em 32 (50,8%) uroculturas (tabela 3), sendo a E. coli prevalente (28,6%). TRABULSI & ALTERTHUN (2008) afirmam que a E. coli uropatogênica (UPEC) possui adesinas que permitem a adesão e invasão bacteriana nas células do trato urinário e com isso se tornam os principais fatores de virulência. Além disso, as adesinas ativam as vias de sinalização nas células bacterianas e no hospedeiro, facilitam a liberação de proteínas nos tecidos e por fim, promovem a invasão do microrganismo, o que pode explicar a alta prevalência da E. coli nas ITU.

Tabela 3: Uroculturas positivas e negativas de gestantes atendidas em um laboratório clínico de Goiânia-GO, no período de agosto/2012 a setembro/2013.



Amostras

Total

%

Negativas

201

76,1

Positivas/

Microrganismos isolados




Enterobactérias

32

62

23,5

Cocos Gram positivos

30

Leveduras

01

01

0,4

Total de amostras

264

100

A tabela 3 evidencia também o isolamento de Candida spp. em uma amostra (1,6%), bem como o isolamento de cocos Gram positivos em 30 amostras, sendo 17 (26,9%) Staphylococcus coagulase negativa, cinco (7,9%) Staphylococcus aureus, cinco (7,9%) Staphylococcus haemolyticus, um (1,6%) Staphylococcus saprophyticus e dois (3,2%) Streptococcus agalactiae. A tabela 4 apresenta a relação completa dos microrganismos recuperados. Segundo CORDEIRO (2007), S. coagulase negativa se tornou agente causal de ITU em pacientes comunitários. Em nosso estudo, esse microrganismo representou 26,9% das ITU por Gram positivos.

A frequência dos microrganismos causadores de ITU varia de acordo com o ambiente onde se adquire a infecção (comunitárias ou hospitalares). Em infecções comunitárias, os microrganismos mais frequentes são os entéricos, sendo mais prevalentes E. coli, em seguida Klebsiella spp., Enterobacter spp., Acinetobacter spp., Proteus spp., Pseudomonas spp., dentre outros (HEILBERG et al., 2003). Confirmando os relatos de HEILBERG et al. (2003), nosso estudo evidenciou Klebsiella spp. como a segunda enterobactéria prevalente na qualidade de agente de ITU comunitária. As infecções urinárias causadas por Klebsiella spp. não podem ser distinguidas das infecções causadas por outros microrganismos pela apresentação clínica (frequência e dor na micção, dor e peso supra-púbico) (MENDO et al., 2008).

Dentre as enterobactérias recuperadas em nosso estudo, ressaltamos a presença de dois isolados de E. coli expressando o fenótipo de produtora de enzima beta-lactamase de espectro ampliado (ESBL), conforme mostra a tabela 4. As ESBLs são diferenciadas entre si, por substituições na sequência de aminoácidos, e como exemplo de antimicrobianos que sofrem inativação por essas enzimas temos: ceftazidima, cefotaxima, cefuroxima e aztreonam (KNOX JR., 1995).

As cepas de E. coli produtoras de ESBL evidenciadas em nosso trabalho são também MDR. Em gestantes, microrganismos MDR produtores de ESBL constituem uma situação bastante preocupante, devido ao fato de esses microrganismos estarem diretamente relacionados a quadros de sepse e infecções neonatais em maternidades. Sabe-se que, durante a gestação, o trato gênito-urinário sofre modificações anatômicas e estruturais, e isso poderia favorecer a evolução de uma ITU para um quadro infeccioso mais grave, levando em consideração também a dificuldade de tratamento e a terapêutica limitada (BLOMBERG et al., 2005).

Observamos isolados de Staphylococcus spp. em 28 uroculturas, possivelmente microrganismos componentes da microbiota autóctone do organismo humano. Enterococcus spp. e S. aureus são responsáveis por aproximadamente 10% a 15% de todas as ITU (ARAÚJO et al., 2012). O S. saprophyticus é frequentemente considerado como a segunda causa de ITU em mulheres jovens adultas, representando 10% a 20% dos casos, enquanto que outros microrganismos Gram positivos são relativamente raros, podendo-se incluir estreptococos dos grupos B e D (SATO et al., 2005; ARAÚJO, 2012). A infecção por S. saprophyticus nesse estudo representou somente 3,2% discordando dos resultados encontrados pelos autores anteriormente citados.

Tabela 4: Relação de microrganismos isolados, cepas MDR e cepas produtoras de ESBL em uroculturas de gestantes atendidas em um laboratório clínico de Goiânia-GO, no período de agosto/2012 a setembro/2013.



Microrganismos isolados

Número

MDR

ESBL

Absoluto


Relativo (%)

Sim

Não

Sim

Não

Citrobacter freundii

1

1,6

1

0

0

0

Candida spp.

1

1,6

-

-

-

-

Enterobacter aerogenes

1

1,6

1

0

0

0

Enterobacter agglomerans

1

1,6

1

0

0

0

Enterobacter cloacae

4

6,4

2

2

0

0

Escherichia coli

18

28,5

9

0

2

0

Escherichia fergusonii

1

1,6

1

0

0

0

Klebsiella pneumoniae

4

6,4

4

0

0

0

Klebsiella oxytoca

1

1,6

1

0

0

0

Proteus mirabilis

1

1,6

1

0

0

0

Staphylococcus coagulase negativa

17

26,9

15

2

0

0

Staphylococcus aureus

5

7,9

5

0

0

0

Staphylococcus haemolyticus

5

7,9

3

2

0

0

Staphylococcus saprophyticus

1

1,6

1

0

0

0

Streptococcus agalactiae

2

3,2

0

2

0

0

Total

63

100

45

17

2

0

Legenda: MDR= bactérias que apresentam resistência a múltiplos antibióticos, conhecidas como bactérias multirresistentes (COTRIM et al., 2012); ESBL= mecanismo enzimático de resistência frente aos antimicrobianos beta-lactâmicos (SANDERS et al., 1992); (-) Não realizado/não se aplica.

Foram isolados dois (3,17%) Streptococcus agalactiae. Em gestantes uma infecção urinária por esse microrganismo é motivo de preocupação, pois ele causa danos tanto à gestante quanto ao recém-nascido. Na gestante pode provocar além de ITU, amnionite, endometrite e bacteremia. No recém-nascido, pode ser responsável por infecções sistêmicas ou focais, como a meningite e a pneumonia. Em 75% dos casos provoca infecção precoce já na primeira semana de vida, mas também pode ser tardia entre a 1ª e a 4ª semanas de vida. O recém-nascido infectado intraútero é o que tem maiores fatores de risco para desenvolver a doença neonatal precoce (AREAL et al., 2010).

Em relação ao isolado de Candida spp. (1,58%), sabe-se que em indivíduos hígidos são raros os casos de candidúria. Até a metade do século XX, eram escassos os casos de infecções invasivas por leveduras do gênero Candida. Já nas últimas décadas, Candida albicans e outras espécies estão se tornando importantes agentes causadores de infecção em indivíduos imunossuprimidos e pacientes hospitalizados (GOMES et al., 2010). O isolamento de Candida spp., a partir de amostras comunitárias, é quase sempre explicado por coleta e processamento inadequados, com consequente contaminação da cultura (COLOMBO et al., 2007).

O tratamento da ITU visa a erradicar o microrganismo causador da infecção, aliviar os sintomas, prevenir possíveis lesões renais e a diminuir a possibilidade de progressão da infecção. O tratamento deve ser feito com antimicrobianos que atinjam níveis terapêuticos adequados, tanto no sangue quanto na urina (MAZILI, et al., 2011).

Vale ressaltar, neste estudo, a ocorrência de vários microrganismos MDR (tabela 4), ou seja, 45 (71,4%) microrganismos que apresentaram resistência a várias classes de antimicrobianos (tabela 5). Durante as últimas décadas, tem-se observado diversas doenças causadas por bactérias MDR (COTRIM et al., 2012). Vários são os fatores envolvidos na disseminação de cepas MDR, como o uso abusivo de antimicrobianos, procedimentos invasivos e a habilidade desses microrganismos em transmitir a outros seu material genético com a informação de resistência a antimicrobianos (DIENSTMANN et al., 2010; FONTANA et al., 2010).

Os antimicrobianos mais utilizados no tratamento de ITU incluem beta-lactâmicos, sulfametoxazol-trimetoprim (SMX-TMP), fluorquinolonas e aminoglicosídeos (LOPES, et al., 2004). Nas infecções não complicadas, em pacientes que não desenvolveram ITU nos últimos três meses, e em regiões onde a taxa de resistência da E. coli seja inferior a 20%, o SMX-TMP é o antimicrobiano de primeira escolha, a exemplo nos EUA e na Europa (LOPES et al., 2004; GUPTA et al., 2010).

Para a construção da tabela 5, foi adotado um parâmetro: quando a espécie de um determinado microrganismo apresentou resistência maior que 50% a uma classe de antimicrobiano, consideramos essa espécie resistente a esse determinado antimicrobiano. Dentro do grupo das enterobactérias, as classes que obtiveram maior nível de resistência bacteriana foram as cefalosporinas (1ª, 2ª, 3ª e 4ª gerações), as penicilinas conjugadas e a nitrofurantoína.

Os microrganismos que apresentaram resistência às cefalosporinas foram Citrobacter freundii, Enterobacter aerogenes, Enterobacter agglomerans, Enterobacter cloacae, E. coli, Escherichia fergusonii, Klebsiella oxytoca e Proteus mirabilis. Os microrganismos que foram resistentes às penicilinas conjugadas foram C. freundii, E. aerogenes, E. agglomerans, E. coli, E. fergusonii e K. oxytoca. E por fim os microrganismos que apresentaram resistência à nitrofurantoína foram C. freundii, E. aerogenes, E. cloacae, E. coli, K. pneumoniae, K. oxytoca e P. mirabilis.

Em relação aos cocos Gram positivos, nosso estudo evidenciou 100% de resistência às penicilinas conjugadas e à meticilina. Em todos os gêneros de enterobactérias foram detectados microrganismos MDR. Entre os Gram positivos, somente o gênero Streptococcus não apresentou isolado MDR.

O Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) é a causa principal de infecção hospitalar em todo o mundo. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, houve um surto de infecções causadas por S. aureus multirresistente em ambientes hospitalares. Este aumento estava associado a uma difusão internacional de linhagens clonais bem definidas. A capacidade de S. aureus para estabelecer infecções parece ser dependente da expressão de fatores de virulência que permitem a colonização bacteriana das superfícies mucosas ou pele (AMARAL et al., 2005). No presente estudo obtivemos cinco (7,9%) isolados de S. aureus, sendo mais que 50% destes MDR. Ressaltando a problemática do surgimento e disseminação de cepas multirresistentes, ROSSI et al. (2014) relataram o surgimento de um novo microrganismo MDR isolado de um paciente hospitalizado, no Estado de São Paulo, Brasil, tratando-se de uma cepa de Staphylococcus aureus, resistente à vancomicina e à meticilina, nominada BR-VRSA.

Tabela 5: Perfil de suscetibilidade de microrganismos MDR isolados em uroculturas de gestantes em um laboratório clínico de Goiânia-GO, no período de agosto/2012 e setembro/2013.

Microrganismos



Classes de antimicrobianos

A

B

C

D

E

F

G

H

I

J

L

M

N

O

Citrobacter freundii

S

R

-

S

-

S

R

R

-

-

S

S

-

S

Enterobacter aerogenes

S

R

-

S

-

S

R

R

-

-

S

S

-

S

Enterobacter agglomerans

R

R

-

S

-

S

R

S

-

-

S

S

-

S

Enterobacter cloacae

S

R

-

S

-

S

S

R

-

-

S

S

-

S

Escherichia coli

S

R

-

R

-

S

R

R

-

-

R

S

-

S

Escherichia fergusonii

S

R

-

S

-

S

R

S

-

-

R

S

-

S

Klebsiella pneumoniae

S

S

-

R

-

S

S

R

-

-

S

R

-

S

Klebsiella oxytoca

S

R

-

S

-

S

R

R

-

-

S

S

-

S

Proteus mirabilis

R

R

-

S

-

S

S

R

-

-

S

R

-

S

Staphylococcus coagulase negativa

S

R

S

R

R

R

R

S

R

R

R

R

S

-

Staphylococcus aureus

R

S

R

S

R

R

R

R

R

S

R

R

S

-

Staphylococcus haemolyticus

S

R

S

S

S

S

R

S

R

R

S

S

S

-

Staphylococcus saprophyticus

S

R

S

S

R

S

R

S

R

S

S

S

S

-

Legenda: (A) aminoglicosídeos; (B) cefalosporinas (1ª,2ª,3ª e 4ª gerações); (C) rifampicina; (D) quinolonas; (E) penicilinas; (F) macrolídeos; (G) penicilinas conjugadas; (H) nitrofurantoína; (I) meticilina; (J) sinercid; (L) sulfas; (M) tetraciclinas; (13) vancomicina; (14) tigeciclina; (R) Resistência in vitro; (S) Sensibilidade in vitro;

(-) Não avaliado.


Conclusão

As 264 gestantes desse estudo apresentaram faixa etária de 14 a 56 anos, sendo 63 (23,8%) delas com urocultura positiva, caracterizando laboratorialmente quadro de ITU. A E. coli foi o microrganismo mais prevalente, sendo recuperado em 18 (28,6%) das uroculturas positivas, sendo 50% delas MDR e 11,1% produtoras de ESBL. O diagnóstico de ITU pela urocultura é padrão-ouro, e o laboratório clínico é responsável pelo diagnóstico fidedigno, capaz de conduzir ao tratamento adequado, evitando complicações para a gestante.


Referências bibliográficas

AMARAL, M. M.; COELHO, L. R.; FLORES, R. P.; SOUZA, R. R.; SILVA-CARVALHO, M. C.; TEIXEIRA, L. A.; FERREIRA-CARVALHO, B. T.; FIGUEIREDO, A. M. S. The predominant variant of the Brazilian epidemic clonal complex of methicilin-resistant Staphylococcus aureus has an enhanced ability to produce biofilm and to adhere to and invade airway epithelial cells. Jounal of Infectious Diseases, v. 192, n.5, p. 801. 2005.

ANVISA. Medidas para identificação, prevenção e controle de infecções relacionadas à assistência à saúde por microrganismos multirresistentes. Nota técnica 1/2010. Acesso em: 29 de março. 2014.

ARAÚJO, A.C.O.; MIRANDA, E.P.; MEDEIROS, F.C. Infecção do Trato urinário. Protocolos de Conduta, capítulo 10, p. 84. 2012.

AREAL, A.; NUNES, S.; MOREIRA, M.; FAUSTINO, M.A.; CARDOSO, L.; SÁ, C. Infecção perinatal por Streptococcus agalactiae pode ser evitada: Prevalência da colonização em parturientes no Hospital São Marcos, fatores de risco e a sua relação com a infecção perinatal. Sociedade Portuguesa de Pediatria, v. 41, n.1, p. 16-21. 2010.

BLOMBERG, B.; JUREEN, R.; MANJI, K.P.; TAMIM, B.S.; MWAKAGILE, D.S.M.; URASSA W.K.; FATAKI, M.; MAULIDI, F.; MSANGI, V.; TELLEVIK, M.G.; MASELLE, S.Y.; LANGELAND, N. High rate of fatal cases of pediatric septicemia caused by gram negative bacteria with extended-spectrum beta-lactamases in Dar es Salaam, Tanzania. Journal of Clinical Microbiology, v. 43, n. 2, p. 745-9. 2005.

BRAOIOS, A.; TURATTI, T. A.; MEREDIJA, L. C. S.; CAMPOS, T. R. S.; DENADAI, F. H. M. Infecções do trato urinário em pacientes não hospitalizados: etiologia e padrão de resistência aos antimicrobianos. Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina laboratorial, v. 45, n.6, p. 449-456. 2009.

CLINICAL AND LABORATORY STANDARDS INSTITUTE. Performance Standards for Antimicrobial Susceptibility Testing; Twenty-Second Informational Supplement. CLSI document M 100-S22, v. 32, n. 3. 2012.

CLINICAL AND LABORATORY STANDARDS INSTITUTE. Performance Standards for Antimicrobial Susceptibility Testing; Twenty-Third Informational Supplement. CLSI document M 100-S23, v. 33, n. 1. 2013.

COLOMBO, A.L.; GUIMARÃES, T. Candidúria: Uma abordagem clínica e terapêutica. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 40, v.3, p. 332-337. 2007.

CORDEIRO, D. N. G. Significância clínica da presença de Staphylococcus coagulase-negativo isolados de recém-nascidos de uma unidade de terapia intensiva neonatal em Brasília-DF (Tese de mestrado, Universidade de Brasília, Faculdade de Medicina, Núcleo de Medicina Tropical). 2007.

COTRIM, E. R.; ROCHA, R. D. R.; FERREIRA, M. F. R. Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase – KPC em Enterobacteriaceae: o desafio das bactérias multirresistentes. Revista do Centro Universitário Newton Paiva, v. 5, n. 1. 2012.

DIENSTMANN, R.; PICOLI, S. U.; MEYER, G.; SCHENKEL, T.; STEYER, J. Avaliação fenotípica da enzima Klebsiella pneumoniae carbapenema­se (KPC) in Enterobacteriaceae de Ambiente Hospitalar. Jornal Brasileiro Patologia Médica, v. 46, n. 1, p. 23-27. 2010.

DUARTE, C. D. I.; ARAÚJO, C. B. Prevalência de Microrganismos em Infecções do Trato Urinário de Pacientes Atendidos no Laboratório Hospitalar de Patos de Minas, MG. NewsLab, v. 113, p. 140-151. 2012.

DUARTE, G.; MARCOLIN, A. C.; QUINTANA, S. M.; CAVALLI, R. C. Infecção urinária na gravidez. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 30, n. 2, p. 93-100. 2008.

FIGUEIRÓ-FILHO, E. A.; BISPO, A. M. B.; VASCONCELOS, M. M.; MAIA, M. Z.; CELESTINO, F. G. Infecção do trato urinário na gravidez: aspectos atuais. FEMINA, v. 37, n.3, p. 165-171. 2009.

FONTANA, C.; FAVARO, M.; SARMATI, L.; NATOLI, S.; ALTIERI, A.; BOSSA, M.C.; MINELLI, S.; LEONARDIS, F.; FAVALLI, C. Emergence of KPC-producing Klebsiella pneumoniae in Italy. BMC Research Notes, v. 3, n. 40, p. 1-5. 2010.

GOIS, A. L. C.; CRAVO, E. O.; MENDES, R. B. Infecção do trato urinário e trabalho de parto prematuro: a realidade em uma maternidade referência para alto risco em Aracaju (SE). Cadernos de Graduação - Ciências Biológicas e da Saúde, v.11, n.11, p. 65-80. 2009.

GOMES, C. L.; CAVALCANTE, J. E.; CUNHA, F. A.; AMORIM, L. N.; MENEZES, E. A. Identificação e perfil de sensibilidade de Candida spp. isoladas de urina de pacientes com Candidúria em Iguatu-Ceará. RBAC, vol. 42, n. 3, p. 223-225. 2010.

GUPTA, K.; HOOTON, T. M.; NABER, K. G.; WULLT, B.; COLGAN, R.; MILLER, L. E.; MORAN G. J.; NICOLLE, L. E.; RAZ, R.; SCHAEFFER, A. J.; SOPER, D. E. International Clinical Practice Guidelines for the Treatment of Acute Uncomplicated Cystitis and Pyelonephritis in Women: A 2010 Update by the Infectious Diseases Society of America and the European Society for Microbiology and Infectious Diseases. Clinical Infectious Diseases, v. 52, n. 5, p. 103-20. 2011.

HEILBERG, I. P.; SCHOR, N. Abordagem Diagnóstica e Terapêutica na Infecção do Trato Urinário - ITU. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 49, n. 1, p. 109-116. 2003.

KNOX J. R. Extended-spectrum and inhibitor-resistant TEM-type beta lactamases: mutations, specificity, and three-dimensional structure. Antimicrobial Agents and Chemotherapy, v. 39, n. 12, p. 2593-601. 1995.

KOCK, V. H.; ZUCCOLOTTO, S. M. C. Infecção do trato urinário. Em busca das evidências. Jornal de Pediatria, v. 79, n.1, p. 97-106. 2003.

KONEMAN, E. W.; ALLEN, S. D.; JANDA, W. M.; SCHRECKENBERGER, P. C.; WINN, W. C. J. Diagnóstico Microbiológico, v. 5, p. 1465. 2001.

JAIN, A.; ROY, I.; GUPTA, M. K.; KUMAR, M.; AGARWAL, S. K. Prevalence of extended-spectrum beta-lactamase-producing Gram-negative bacteria in septicaemic neonates in a tertiary care hospital. Journal of Medical Microbiology, v.52, p. 421-5. 2003.

LOPES, H. V.; TAVARES, W. Infecções do trato urinário não complicadas: diagnóstico. Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Urologia. Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. 2004.

MAGIORAKOS, A. P.; SRINIVASAN, A.; CAREY, R. B.; CARMELI, Y.; FALAGAS, M. E.; GISKE, C. G.; HARBARTH, S; HINDLER, J. F.; KAHLMETER, G.; OLSSON-LILJEQUIST, B.; PATERSON, D. L.; RICE, L. B.; STELLING, J.; STRUELENS, M. J.; VATOPOULOS, A.; WEBER, J. T.; MONNET, D. L. Multidrug-resistant, extensively drug-resistant and pandrug-resistant bacteria: an international expert proposal for interim standard definitions for adquired resistance. Clinical Microbiology Infection, v. 18, n. 3, p. 268- 281. 2012.

MAZILI, P. M. L., CARVALHO, A. P. J.; ALMEIDA, F. G. Como diagnosticar e tratar infecção do trato urinário. Revista Brasileira de Medicina, v. 68, n. 12, p. 74-81. 2011.

MENDO, A.; ANTUNES, J.; COSTA, M. J.; PEREIRA, P. M.; MONTEIRO, C.; GOMES, C. F.; GOMES, J. F. Frequência de Infecções Urinárias em Ambulatório – dados de um laboratório de Lisboa. Rev. Lusófona de Ciências e Tecnologias da Saúde, v. 5, n. 2, p. 216-223. 2008.

PEREIRA, A. C.; BORDIGNON, J. C. Infecção Urinária em Gestantes: Perfil de Sensibilidade dos Agentes Etiológicos de Gestantes Atendidas pelo SUS na Cidade de Palmas -PR. RBAC, v. 43, n. 2, p. 96-99. 2011.

POLETTO, K. Q.; REIS, C.; CAMPOS, A. C. C. Perfil de Suscetibilidade aos Antimicrobianos em bactérias isoladas de mulheres com infecção urinária (Goiânia-GO). Revista de patologia tropical, v. 33, n. 3, p. 277-289. 2004.

ROSSI, F.; DIAZ, L.; WOLLAM, A.; PANESSO, D.; ZHOU, Y.; RINCON, S.; NARECHANIA, A.; XING, G.; GIOIA, T. S. R.; DOI, A.; TRAN, T. T.; REYES, J.; MUNITA, J. M.; CARVAJAL, L. P.; HERNANDEZ-ROLDAN, A.; BRANDÃO, D.; HEIJDEN, I. M.; MURRAY, B. E.; PLANET, P. J.; WEINSTOCK, G. M.; ARIAS, C. A. Transferable Vancomycin Resistance in a Community-Associated MRSA Lineare. The New England Journal of Medicine, v. 370, n. 16, p. 1524-31. 2014.

SANDERS, C. C.; SANDERS, W. E. J. Beta-Lactam resistance in gram-negative bacteria: global trends and clinical impact. Clinical Infectious Diseases, v. 15, n. 5, p. 824-39. 1992.

SATO, A. F., SVIDZINSKI, A. E., CONSOLARO, M. E. L., BOER, C. G. Nitrito urinário e infecção do trato urinário por cocos gram-positivos. Jornal Brasileiro de Patologia Médica e Laboratorial, v.41, n. 6, p. 397-404. 2005.

TRABULSI, L. R.; ALTERTHUN, F. Microbiologia. 4. ed. e 5. ed. São Paulo: Atheneu. 2008.

VICEDO, L.; ULRICH, S. Avaliação de Infecção Urinária em Gestantes no Primeiro Trimestre de Gravidez. RBAC, v. 39, n. 1, p. 55-57. 2007.



1. Acadêmicas do curso de Biomedicina da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), alinealvesborges@hotmail.com, larigusa@gmail.com

2. Doutora e Mestre em Medicina Tropical e Saúde Pública - Microbiologia, Biomédica, Professora Adjunta da PUC-GO, alemarques5@yahoo.com.br





: files -> journals
journals -> Medidas de dureza vickers na superfície de blocos de resina fenólica com canais endodônticos simulados
journals -> Relação entre ritmo acentual e escrita nas sessões de chat Resumo
journals -> Título do artigo (Arial 26)
journals -> Inativação dos fatores antinutricionais que compõem o grão de soja e perdas no processo de extrusão Resumo
journals -> Obtenção de hidrolisados de concentrado proteico de soro de leite com atividade inibitória da enzima conversora de angiotensina: Ação das proteases do Bacillus licheniformis e do Aspergillus oryzae
journals -> Modelo de Formação dos Artigos para o tic'2005
journals -> O desenvolvimento motor e benefícios das crianças de 06 Á 08 anos que praticam karate
journals -> ObtençÃo de hidrolisados protéicos de feijão com baixo teor de fenilalanina
journals -> Considerações sobre as regras fundamentais da sucessão legítima
journals -> Modelo para elaboraçÃo e formataçÃo de artigos científicos




©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal