Desafios clínicos da histeria: desejo, gozo e algo de melancolia (1)



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DESAFIOS CLÍNICOS DA HISTERIA: DESEJO, GOZO E ALGO DE MELANCOLIA (1)

Miriam Nogueira Lima (2)






 

 

Inaugurado pela histérica desde o período pré-psicanalítico com o caso Anna O. tratada por Breuer, o campo da psicanálise continua a ter suas indicações pelo discurso da histeria.

Jovens, atraentes, ricas, verbais, inteligentes e sociáveis, como Bertha Pappenheim em seu tempo, YARVIS (3) contemporâneas sofrem do mesmo desejo insatisfeito de que sofriam as histéricas de outrora. Entretanto, se apóiam em modernas ortopedias corporais, possíveis substitutos das paralisias, contraturas, cegueiras e parestesias de antigamente, o que faz certa diferença. Enquanto seu gozo continua como sempre se disse excessivo e contraditório, sua tristeza anda mal compreendida, por confundir-se freqüentemente com a melancolia, por estar sendo criticada por uns e medicada por outros, como depressão. Para a clínica psicanalítica, são todos eles – o desejo, o gozo e a melancolia do sujeito histérico – renovados desafios.



I - Desejo.

Para Freud (1900) o sujeito histérico tem desejo de desejo insatisfeito e porta o caráter de desafio e de rivalidade.

Para Lacan (1958) o sujeito histérico não quer ser satisfeita unicamente em suas verdadeiras necessidades, quer outras, gratuitas, e para estar bem certo de que elas o são, não satisfazê-las.

Sua fórmula "o desejo é o desejo do Outro" sublinha a vertente simbólica da questão, mas não exclui a dimensão de rivalidade imaginária quando se escreve "o desejo é o desejo do outro", com "o" minúsculo. Tal rivalidade, já apontada por Freud (1900) é verificável na clínica psicanalítica e na psicopatologia da vida quotidiana do sujeito histérico constituindo, sem dúvida, um dos desafios clínicos da histeria.

Ao lado dele, outro desafio a escuta analítica testemunha. O sujeito histérico além de insatisfeito e demandante apresenta-se, quase sempre, bastante triste. A tristeza, dita em queixas e lamentações, revela cansaço, desalento, desistência. Pergunta-se qual a razão?

A leitura de alguns sublinha a questão do defrontar-se com o não saber sobre o sexo, com a falta de inscrição de qual é o objeto – uma falta que é própria da estrutura. Entretanto, não haver "o objeto" possibilita a eleição de "um objeto" qualquer que seja, mas o desejo histérico não quer saber de constituir nenhum permanecendo, como diz Serge André: "desejo de ter um desejo sem objeto, portanto destinado à insatisfação." (1987:140)

Outros sublinham a vertente da existência: "O que ela procura não é sua identidade sexual, é algo mais radical que isso: é sua existência [...] por isso a famosa insatisfação histérica é algo que, em minha opinião, Freud não captou inteiramente" diz, por exemplo, Alain Didier-Weill (1998:50).

No meu modo de entender, a duas questões são observáveis, mas ainda permanece a pergunta: o que determina a insatisfação e a dor na histeria, seu sofrimento, tanta agonia?



II - Gozo.

Desde 1920, no "Mais além do Princípio do Prazer", Freud abriu o campo do gozo para a psicanálise ao postular a pulsão de morte. Para além do prazer, está o gozo, desde que este é a satisfação que integra o desprazer, podemos dizer assim.

No Seminário Mais, Ainda (1982), Lacan propõe o Outro gozo, ex-sistente, suplementar, próprio da posição feminina da sexuação e testemunhado pela experiência do êxtase místico (1982:103). A raiz das duas palavras – êxtase e existência – é a mesma e significa, em grego, ficar do lado de fora, ficar a parte de alguma coisa. (4)

Se o gozo histérico é para além do falo, será que esse sujeito vive no anseio de um gozo maior? Quem sabe o gozo (in)ex-sistente próprio do feminino e facultado apenas aos verdadeiros místicos, à experiência do êxtase místico, como diz Lacan? Será que podemos dizer que "a histérica" – o sujeito histérico – pretende esse gozo? Posto que gozar falicamente não se quer, impossibilitando colocar alguma coisa no lugar de coisa alguma, desprezando este gozo que considera insuficiente, embora seja ele, que em algum lugar Lacan chamou de "gozo idiota", o gozo possível aos comuns mortais?!

Uma vez que não se é místico porque se quer, por se pretender esse gozo a mais e até poder se comprazer com ele – pois ao que parece o verdadeiro místico é passivo nesse gozo, submetido a ele, mas se alegra com isso – o sujeito histérico continua gozando de insatisfação e de tristeza, sem poder dizer como dez Santa Teresa com convicção: "Esta divina prisão/Do amor com que eu vivo/Faz a meu Deus meu cativo/E livre meu coração” (1977: 502).

III - Melancolia.

Assim como a insatisfação do sujeito histérico pode ser tomada como reveladora da verdade do desejo, isto é, a de ser relegado a um constante por-vir, e o excesso de seu gozo como indicador da verdade de que o gozo pode ser "mais, ainda", até a morte, também a tristeza que lhe acomete pode indicar outra verdade, a que se refere à pura e simples dor de existir.

Na clínica atual, é possível constatar que a tristeza, qualquer que seja sua causa, anda um tanto sufocada, seja pela medicação tão em voga atualmente, seja pelas inúmeras práticas modernas que visam o seu banimento.

Lacan ora relevou a tristeza, inspirado na "dor de existir" do Budismo, ao considerá-la própria da estrutura (Kant com Sade, 1963), ora a condenou (Television, 1974) no campo da ética considerando-a, a partir da filosofia de Dante e de Spinosa, como "covardia moral". "Covardia moral dos demissionários do dever de se orientar pelo inconsciente". (Quinet, A. 1999:88 e Soler, C. 1999: 101).

Em análise, o sujeito pode falar de sua tristeza sem temer a crítica. Mas me parece necessário estabelecer a distinção entre o enfado, o desassossego, o desgosto do histérico e aquele do melancólico propriamente dito.

Penso que um dos pontos desta distinção reside na relação com o objeto. Assim, enquanto o histérico desdenha um objeto, porque "não é isso!" como ele diz, traduzindo sua desilusão, o melancólico se encontra identificado com um objeto perdido, morto, e diz "eu sou isso! Um zero a esquerda".

Em "Luto e Melancolia" (1917), Freud afirma que a sombra do objeto (perdido) recai sobre o eu, havendo um prejuízo do próprio eu do melancólico. Este não sabe o que perdeu de si na perda do objeto que se foi. Diz Freud “A perda, causa da melancolia, é conhecida do enfermo, o qual sabe a quem perdeu, mas não o que com ele perdeu" (1973:2092, 2094). Isso tem como efeito o rebaixamento da auto-estima, a inibição, as acusações e culpas que o melancólico atribui a si próprio.

Este ponto, de haver um prejuízo do eu, também distingue a tristeza na histeria da tristeza na melancolia. Na primeira o eu está preservado, a auto estima menos rebaixada e a culpa, o que me parece uma importante distinção, é atribuída ao mundo que o sujeito histérico deplora porque não lhe serve, não lhe cabe, ao Outro da agressão – vilão sedutor – e da desilusão.

Podemos dizer, parafraseando Serge André, que enquanto o melancólico toma para si a miséria do mundo, o sujeito histérico se entristece por esse mundo ser tão miserável. Segundo ele

[...] na misericórdia, na paixão pela miséria própria da tristeza melancólica, o sujeito toma a miséria de outrem como um mal pessoal e tal tristeza é o inverso da inveja, na qual o sujeito considera o bem de outrem como seu próprio mal (1995:247).

Por exemplo, a analisante infeliz após um casamento desfeito, desde que o ex-marido constituiu nova família, diz o seu sentimento de abandono:

"Mesmo que eu reconheça o seu saber, não é isso, eu não sei... afinal, por que não me deixa você também?" (sic)

Nas sessões de análise ela se queixa até poder dizer, francamente, no confronto com a insistência do desejo analítico: "você não desiste nunca, não é?!".

A condução do tratamento tem seus altos e baixos, seja pela face insatisfeita e desistente do histérico, seja pela face da rivalidade invejosa na qual o bem dos outros é o seu mal, o que no meu entender se deve ao sentimento de inadequação vivido pelo sujeito, o sentir-se fora desse mundo que, aliás, ele deplora.

O sentimento de tristeza e desilusão é compatível com as diferentes estruturas clínicas, como afirma Colette Soler em seu texto "Um mais de melancolia". Diz ela:

A tristeza depressiva não é a angústia, um afeto-tipo da relação com um real inassimilável, ela é, ao contrário 'senti-mente' que engana sobre a causa [...] é um estado do sujeito submetido à flutuação e compatível com as diferentes estruturas clínicas [...] diz respeito à suspensão da causa do desejo (1999:102).



Em fim.

Uma análise, sustentada pelo desejo analítico, em que o analista faz semblante de objeto causa de desejo para o sujeito, pode conduzi-lo a uma satisfação possível, a gozar com algo além de sua insatisfação, saindo do regime da pura demanda e tornado-se capaz de ocupar, por sua vez, um lugar desejante. Menos gozo e mais desejo. Isto, certamente, lhe cobrará mais trabalho e menos lamentações. No mínimo tornará possível substituir sua miséria histérica por um sofrimento comum, como predisse Freud.

Sustentar o desejo analítico, a despeito dos desafios e avatares que se apresentam, é o x da questão. Particularmente em se tratando de certos percursos subjetivos em algumas estruturas clínicas. Em relação a estas, a experiência também mostra que não cabem diagnósticos à priori, mas a possibilidade de distinguir no transcurso do tratamento, a cada vez, qual será o passo seguinte. Na prática e na teoria.

Rio de Janeiro, Junho de 1999.





NOTAS

  1. Apresentado na Reunião Lacanoamericana de Rosário, 1999.

(2) Psicanalista membro da Intersecção Psicanalítica do Brasil.

(3) YARVIS = young, attractive, rich, verbal, intelligent, social. Sigla usada pelos norte-americanos. (Cf. Eric Laurent, Versões da clínica psicanalítica, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995).

(4) Nas traduções de Heidegger para o francês, apareceu pela primeira vez a palavra ex-sistência para a palavra grega ekstasis e a alemã ekstase, segundo Bruce Fink, O sujeito lacaniano, entre a linguagem e o gozo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, p.151. Se naquela língua esse termo era utilizado para dizer o estado de "extático", Lacan utiliza a palavra ex-sistência para dizer "uma existência separada de", do lado de fora, fora da estrutura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRÉ, S. A impostura perversa, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

________ O que quer uma mulher. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.

DIDIER-WEILL, A. Lacan e a clínica psicanalítica, Rio de Janeiro: Contra Capa, 1998.

FREUD, S. (1900) “A interpretação dos sonhos”. Obras Completas, Madrid: Biblioteca Nueva,1973.

LACAN, J. (1958). "A direção da cura e os princípios de seu poder". Rio de Janeiro: Tradução para circulação interna da Escola Letra Freudiana, 1988, (exemplar mimeo).

________ O Seminário Mais, Ainda, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982.

QUINET, A. "Atualidade da depressão e a dor de existir". In Extravios do desejo - depressão e melancolia. Rio de Janeiro: Marca d'Água Livraria e Editora, 1999.

SANTA TERESA DE JESUS (1571). Obras Completas. Madrid: Biblioteca de Autores Cristãos, 1977.

SOLER, C. "Um mais de melancolia" (1997). In Extravios do desejo - depressão e melancolia. Rio de Janeiro: Marca d'Água Livraria e Editora, 1999.







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