Daniel goleman, PhD



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cada onda vem na esteira das anteriores, elevando rapidamente o nível de estimulação fisiológica do corpo. Um pensamento que venha depois nessa acumulação provoca uma intensidade de ira muito maior que um que venha no início. A ira se alimenta da ira; o cérebro emocional esquenta. A essa altura, a ira, não tolhida pela razão, facilmente explode em violência.

Nesse ponto, as pessoas não perdoam e estão além do alcance da razão; seus pensamentos giram em torno de vingança e represália, indiferentes às conseqüências. Esse alto nível de excitação, diz Zillmann, “promove uma ilusão de poder e invulnerabilidade que inspira e facilita a agressão”, à medida que a pessoa irada, sem orientação cognitiva”, recai na mais primitiva das reações. O surto límbico está em ascensão; as mais cruas lições da brutalidade da vida tornam-se guias para a ação.

Bálsamo para a raiva

Diante dessa análise da anatomia da ira, Zillmann vê duas maneiras de intervir.

Uma maneira de desarmá-la é avaliar e contestar as idéias que disparam o seu surto, uma vez que é a avaliação original de uma interação que confirma e encoraja a primeira explosão de ira, e as avaliações posteriores que atiçam as chamas. A cronologia conta; quanto mais cedo no ciclo da ira, mais efetivo. Na verdade, a ira pode ser completamente interrompida se a informação mitigante vier antes que se dê vazão a ela.

O poder da compreensão para desinflar a ira fica claro em outra das experiências de Zillmann, em que um rude auxiliar (um cúmplice) insultou e provocou voluntários que pedalavam uma bicicleta de ginástica. Quando se deu aos voluntários a oportunidade de retaliar contra o rude sujeito (mais uma vez, fazendo uma avaliação que eles julgavam seria usada para decidir sua candidatura a um emprego), eles o fizeram com furiosa alegria. Mas numa versão da experiência outra cúmplice entrou depois que os voluntários haviam sido provocados, e pouco antes da oportunidade de retaliação; ela disse ao cúmplice provocador que o estavam chamando ao telefone no fim do corredor. Ao sair ele dirigiu uma observação sarcástica a ela também. Mas ela levou a coisa numa boa, explicando, depois que o homem saiu, que ele se achava sob uma terrível pressão, perturbado por seus próximos exames orais. Depois disso, os irados voluntários, quando tiveram a oportunidade de retaliar contra o rude sujeito preferiram não fazê-lo; em vez disso, manifestaram solidariedade com sua dificuldade.

Essa informação mitigante permite uma reavaliação dos fatos que provocam ira. Mas há uma janela de oportunidade específica para essa desescalada.

Zillmann constata que funciona bem em níveis moderados de ira; em níveis altos, não faz diferença, por causa do que ele chama de “incapacitação cognitiva”-em outras palavras, as pessoas não mais podem pensar direito. Depois que já estão altamente iradas, descartam a informação mitigante com “Mas que pena!”

ou “as mais fortes vulgaridades que a língua inglesa tem a oferecer”, como observou delicadamente o pesquisador.

Esfriando

Certa vez, quando eu tinha uns treze anos, num acesso de raiva, saí de casa jurando que jamais voltaria.

Era um belo dia de verão e fui muito longe por entre belas alamedas até que aos poucos a quietude e a beleza me acalmaram e tranqüilizaram, e após algumas horas voltei arrependido e quase derretido. Desde então, quando estou furioso, faço isso se posso, e acho a melhor cura.

A história é de um participante de um dos primeiros estudos científicos da ira, feito em 1899. Ainda permanece como um modelo da segunda maneira de desescalar a ira: esfriar psicologicamente, esperando que passe o surto adrenal, num cenário não provável de alimentar mais a ira. Numa discussão, por exemplo, isso significa afastar-se da outra pessoa no momento. No período de esfriamento, a pessoa irada pode aplicar o freio no ciclo de crescente pensamento hostil, buscando distrações. Zillmann constata que a distração é um poderosíssimo artifício moderador do estado de espírito, por um simples motivo: é difícil continuar zangado quando estamos nos divertindo. O segredo, claro, é fazer a ira esfriar a ponto de a pessoa poder divertir-se, em primeiro lugar.

A análise de Zillmann das maneiras como a ira aumenta e diminui explica muito das constatações de Diane Tice sobre as estratégias que as pessoas comumente dizem usar para aliviar a ira. Uma dessas estratégias, bastante eficaz, é sair para ficar só, enquanto esfria. Uma grande proporção de homens traduz isso como sair para dar uma volta de carro - uma constatação que nos faz parar para pensar quando dirigindo (e que, disse-me Diane, a inspirou a dirigir mais defensivamente). Talvez uma alternativa mais segura seja sair para uma longa caminhada; o exercício ativo também ajuda em casos de ira. O mesmo fazem métodos de relaxamento como inspirar fundo e relaxamento muscular, talvez porque mudam a fisiologia do corpo, da alta estimulação da ira para um estado de baixa estimulação, e talvez também porque distraem do que quer que tenha provocado a ira. O exercício ativo pode esfriar a ira por algo do mesmo motivo:

após altos níveis de ativação fisiológica durante o exercício, o corpo recai para um baixo nível assim que pára.

Mas um período de esfriamento não funcionará se esse tempo for usado para seguir o trem de pensamento indutor da ira, uma vez que cada um desses pensamentos é em si um disparador menor de outras cascatas de ira. O poder de distração está em parar esse trem de pensamento irado. Em sua pesquisa sobre as estratégias das pessoas para controlar a ira, Diane Tice constatou que as distrações em geral ajudam a acalmá-la: TV, cinema, leitura e coisas assim interferem com os pensamentos furiosos que alimentam a ira. Mas ela constatou que entregar-Se a prazeres como fazer compras para si e comer não tem muito efeito; é demasiado fácil continuar com um trem de pensamento indignado enquanto se cruza um shopping center ou se devora uma fatia de bolo de chocolate.

A essas estratégias, acrescentam-se as criadas por Redford Williams, um psiquiatra da Duke University que buscou ajudar pessoas hostis, que correm maior risco de doenças cardíacas, a controlar sua irritabilidade. Uma de suas recomendações é usar a autoconsciência para pegar pensamentos cínicos ou hostis quando surgem e anotá-los. Assim que os pensamentos irados são captados dessa forma, podem ser contestados e reavaliados, embora, como constatou Zillmann, esse método funcione melhor antes que a raiva se torne fúria.

A falácia da vazão

Quando me instalo num táxi da cidade de Nova Iorque, um jovem que atravessa a rua pára na frente do carro para esperar uma abertura no transito. O motorista,impaciente,buzina e gesticula para que ele saia da frente. A resposta é uma cara feia e um gesto obsceno.

Seu filho da puta! - berra o motorista, com arrancos ameaçadores, usando o acelerador e o freio ao mesmo tempo.

Diante dessa ameaça letal, o rapaz afasta-se mal-humorado e esmurra o carro, que avança aos centímetros no transito. O motorista berra-lhe uma feia litania de palavrões.

Quando nos afastamos, o taxista, ainda visivelmente agitado, me diz:

Não se deve aceitar desaforo de ninguém É preciso berrar de volta... pelo menos isso faz a gente se sentir melhor.

A catarse dar vazão à raiva é às vezes louvada como um meio de controlar a ira. A teoria popular diz que “faz a gente se sentir melhor”: Mas, como sugerem as constatações de Zillmann, há um argumento contra a catarse. Tem sido usado desde a década de 50 quando psicólogos começaram a testar experimentalmente os efeitos da catarse e, repetidas vezes, descobriram que dar vazão à ira pouco ou nada fazia para eliminá-la (embora, devido à natureza sedutora do sentimento, possa dar a sensação de satisfação). Pode haver uma condição específica na qual soltar a raiva funcione: quando ela é expressa diretamente à pessoa visada, quando devolve o senso de controle ou corrige uma injustiça, ou quando inflige o “dano certo” à outra pessoa e faz com que ela modifique alguma atividade ofensiva sem retaliar. Mas, devido à natureza incendiária da ira, isso pode ser mais fácil de dizer do que de fazer.

Diane Tice constatou que dar vazão à raiva é uma das piores maneiras de esfriar: as explosões de ira tipicamente inflam o estímulo do cérebro, deixando as pessoas mais iradas, não menos. Ela descobriu que quando as pessoas falavam das vezes em que haviam descontado sua raiva na pessoa que a provocara, o efeito mesmo era mais um prolongamento do estado de espírito que o seu fim.

Muito mais efetivo era quando as pessoas primeiro esfriavam, e depois, de uma maneira mais construtiva ou assertiva, enfrentavam a outra para acertar a desavença. Como uma vez ouvi responder Chogyam Trungpa, um mestre tibetano, quando Lhe perguntaram como melhor controlar a ira:

- Não a elimine. Mas não aja com base nela.

ANSIEDADE TRANQUILIZANTE; COMO, EU, ME PREOCUPAR

Oh, não, o silencioso está com um som estranho... E se eu tiver de levá-lo pra oficina?... Não posso arcar com a despesa... Teria de tirar o dinheiro do fundo pra universidade de Jamie... E se eu não puder pagar a educação dele?... o boletim escolar ruim na semana passada... E se as notas dele caírem e ele não conseguir entrar na faculdade?... O silencioso está com um som estranho...

E assim a mente preocupada continua a girar num interminável círculo de baixo melodrama, um conjunto de preocupações levando ao seguinte e voltando ao começo. O espécimen acima é apresentado por Lizabeth Roemer e Thomas Borkovec, psicólogos da Universidade do Estado da Pensilvania, cuja pesquisa sobre preocupação núcleo de toda ansiedade elevou o tópico da arte do neurótico à ciência. Evidentemente, não há mal quando a preocupação funciona; meditando-se sobre um problema ou seja, empregando a reflexão construtiva, que pode parecer preocupação talvez surja a solução. Na verdade, a reação por trás da preocupação é a vigilância para detectar perigos potenciais, que sem dúvida tem sido essencial para a sobrevivência no curso da evolução.

Quando o medo dispara o cérebro emocional, parte da ansiedade resultante fixa a atenção na ameaça direta, forçando a mente a obcecar-se em como tratá-la e a ignorar tudo mais por enquanto. A preocupação é, num certo sentido, um ensaio do que pode dar errado e como lidar com isso; a tarefa da preocupação é apresentar soluções positivas para os perigos da vida, prevendo-os antes que surjam.

O problema é com as preocupações crônicas, repetitivas, daquelas que se reciclam eternamente e jamais se aproximam de uma solução positiva. Uma análise cuidadosa da preocupação crônica sugere que ela tem todos os atributos de um seqüestro emocional de baixa intensidade: as preocupações parecem surgir do nada, são incontroláveis, geram um rumor constante de ansiedade, são imunes à razão e prendem o preocupado numa única e inflexível visão do tópico que o preocupa. Quando esse mesmo ciclo de preocupação se intensifica e persiste, beira o limite de seqüestros neurais completos, as perturbações da ansiedade fobias, obsessões e compulsões, ataques de pânico. Em cada uma dessas perturbações, a preocupação se fixa de um modo distinto; para o fóbico, as ansiedades giram em torno da situação temida; para o obsessivo, fixa-se em prevenir alguma temida calamidade; nos ataques de pânico, a preocupação se concentra num medo de morrer ou na perspectiva de ter o próprio ataque.

Em todas essas condições, o denominador comum é a preocupação desenfreada. Por exemplo, uma mulher em tratamento de uma perturbação obsessivo compulsiva tinha uma série de rituais que duravam a maior parte do seu tempo desperta: banhos de chuveiro de quarenta e cinco minutos várias vezes ao dia, lavar as mãos durante cinco minutos vinte ou mais vezes por dia. Não se sentava sem antes esfregar o assento com álcool para esterilizá-lo. Tampouco tocava numa criança ou animal ambos eram “sujos demais”. Todas essas compulsões eram causadas por um subjacente medo mórbido de germes; ela se preocupava constantemente pensando que, sem essas lavagens e esterilizações, pegaria uma doença e morreria.

Uma mulher em tratamento do “distúrbio de ansiedade generalizada”-nomenclatura psiquiátrica para o preocupado constante - respondeu ao pedido para preocupar-se em voz alta por um minuto da seguinte maneira:

Talvez eu não faça direito. Talvez saia tão artificial que não seja uma indicação do verdadeiro problema, e a gente precisa chegar ao verdadeiro problema... Pois se a gente não chegar ao verdadeiro problema eu não vou ficar boa. E se não ficar boa eu não vou nunca ser feliz.

Nessa virtuosística exibição de preocupação com a preocupação, o simples pedido de preocupar-se por um minuto elevou-se, nuns poucos e breves segundos, à previsão de uma catástrofe para o resto da vida. “Eu não vou nunca ser feliz. As preocupações seguem, tipicamente, essas linhas, uma narrativa para nós mesmos que vai saltando de preocupação em preocupação, e na maioria das vezes inclui catastrofização, a imaginação de alguma tragédia terrível. As preocupações quase sempre se expressam ao ouvido mental, não ao olho mental - quer dizer, em palavras, não imagens um fato importante para o seu controle.

Borkovec e seus colegas começaram a estudar a preocupação em si quando tentavam obter um tratamento para a insônia. A ansiedade, observaram outros pesquisadores, surge em duas formas: cognitiva ou idéias preocupadas, e somática, os sintomas psicológicos da ansiedade, como suor, coração disparado, tensão muscular. Borkovec constatou que o principal problema dos insones não era o estímulo somático. O que os mantinha acordados eram os pensamentos intrusos. Eram preocupados crônicos, e não podiam parar de preocupar-se, por mais sono que tivessem. A única coisa que os ajudava a dormir era afastar as preocupações da mente, concentrando-as em vez disso nas sensações produzidas por um método de relaxamento. Em suma, as preocupações podiam ser detidas desviando-se a atenção delas.

A maioria dos preocupados, porém, parece não poder fazer isso. O motivo, acredita Borkovec, tem a ver com uma vantagem parcial da preocupação que reforça muitíssimo o hábito. Parece haver alguma coisa positiva nas preocupações: são maneiras de lidar com ameaças potenciais, com perigos que podem surgir em nosso caminho. A tarefa da preocupação - quando funciona - é ensaiar quais são esses perigos e pensar em maneiras de lidar com eles. Mas não funciona tão bem assim. Novas soluções e formas de ver um problema não surgem, tipicamente, da preocupação, sobretudo da preocupação crônica. Em vez de produzir soluções para esses problemas potenciais, os preocupados, tipicamente, ruminam sobre o próprio perigo, imergindo de uma maneira discreta no pavor a ele associado, sem sair do buraco de pensamento. Os preocupados crônicos se preocupam com uma ampla gama de coisas, a maioria das quais não tem a menor possibilidade de acontecer: vêem perigos na jomada da vida que outros jamais notam.

Contudo, os preocupados crônicos dizem a Borkovec que a preocupação os ajuda e se autoperpetua, um interminável ciclo de pensamento prenhe de angústia. Por que se tornaria a preocupação o que parece equivaler a um vício mental? Curiosamente, como observa Borkovec, o hábito de preocupar-se é reforçante, como o são as superstições. Como as pessoas se preocupam com um bocado de coisas que têm uma muito baixa probabilidade de acontecer realmente uma pessoa amada morrer numa queda de avião, ir à bancarrota, coisas assim há na preocupação, pelo menos para o cérebro límbico primitivo, alguma coisa de mágico. Como um amuleto que afasta um mal previsto, a preocupação ganha psicologicamente o crédito de prevenir o perigo com que está obcecada.

A tarefa da preocupação

Ela mudara-se do Meio-Oeste para LOS Angeles, atraída por um emprego numa editora. Mas a editora foi comprada por outra logo depois, e ela ficou desempregada. Voltando-se para o trabalho de escritora free lance, um mercado irregular, ela se via ou inundada de trabalho, ou sem condições de pagar o aluguel. Muitas vezes tinha de racionar os telefonemas, e pela primeira vez estava sem seguro saúde. Essa falta de cobertura era particularmente angustiante: ela se via catastrofizando sobre sua saúde, certa de que toda dor de cabeça era sinal de um câncer no cérebro, imaginando-se num acidente sempre que tinha de ir de carro a algum lugar. Muitas vezes se descobria perdida num longo devaneio de preocupação, uma salada de angústia. Mas dizia que achava suas preocupações quase viciantes.

Borkovec descobriu outra inesperada vantagem da preocupação. Enquanto as pessoas estão mergulhadas em tais pensamentos, parecem não notar as sensações subjetivas da ansiedade que tais preocupações despertam - o coração disparado, as gotas de suor, os tremores e à medida que a preocupação continua, na verdade parece eliminar parte dessa ansiedade, pelo menos a que se reflete nas batidas cardíacas. Presume-se que a seqüência se dá mais ou menos assim: o preocupado nota alguma coisa que cria a imagem de uma ameaça potencial de perigo; essa imaginada catástrofe, por sua vez, causa um brando ataque de ansiedade. O preocupado então mergulha numa longa série de pensamentos angustiados, cada um dos quais prepara mais um tópico de preocupação; enquanto a atenção continua a ser levada por esse trem de preocupação, a concentração nesses mesmos pensamentos tira a mente da imagem catastrófica original que provocou a ansiedade. Borkovec constatou que as imagens são disparadores mais potentes de ansiedade psicológica do que os pensamentos, de modo que a imersão em pensamentos, com a exclusão de imagens catastróficas, alivia em parte a experiência da ansiedade. E, nessa medida, a preocupação também se reforça, como um meio antídoto para a própria ansiedade que despertou.

Mas as preocupações crônicas também são autofrustrantes, tomando a forma de idéias estereotipadas, rígidas, e não aberturas criativas que na verdade levam à solução do problema. Essa rigidez se mostra não apenas no conteúdo manifesto do pensamento preocupado, que simplesmente repete, sem parar, mais ou menos as mesmas idéias. Mas, num nível neurológico, parece haver uma rigidez cortical, cortical um déficit na capacidade do cérebro emocional de reagir com flexibilidade às mudanças das circunstâncias. Em suma, a preocupação crônica funciona de algumas formas, mas não de outras, mais consequentes: alivia um pouco a ansiedade mas nunca soluciona o problema.

A única coisa que os preocupados crônicos não podem fazer é. seguir o conselho que com mais frequência Lhes dão: Pare de se preocupar” (ou pior:

“Não se preocupe - seja feliz). Como as preocupações crônicas parecem ser episódios amigdalíticos, surgem sem ser chamadas. E, por sua própria natureza, persistem assim que surgem na mente. Mas, após muita experimentação, Berkovec descobriu alguns passos simples que podem ajudar mesmo o mais crônico preocupado a controlar o hábito.

O primeiro passo é a autoconsciência, pegar os episódios preocupantes o mais perto do início possível o ideal seria tão logo ou pouco depois que a passageira imagem catastrófica dispara o ciclo de preocupação-ansiedade. Borkovec treina pessoas nesse método primeiro ensinando-lhes a monitorar os indícios de ansiedade, sobretudo aprender a identificar situações que provocam preocupação, ou os pensamentos e imagens passageiros que iniciam a preocupação, assim como as conseqüentes sensações de ansiedade no corpo. Com prática, as pessoas identificam as preocupações num ponto cada vez mais perto do início da espiral de ansiedade. As pessoas também aprendem métodos de relaxamento, que podem aplicar nos momentos em que reconhecem o início da preocupação, e praticam-nos diariamente, para poderem usá-los na hora em que mais precisem.

Mas o método de relaxamento, em si, não basta. Os preocupados também precisam de contestar ativamente os pensamentos preocupantes; sem isso, a espiral de preocupação continuará voltando. Assim, o passo seguinte é assumir uma posição crítica em relação às suas suposições: é muito provável que o fato temido ocorra? Trata-se, necessariamente, de haver apenas uma ou nenhuma alternativa para que aconteça? Há medidas construtivas a tomar? Adianta, mesmo, percorrer esses mesmos pensamentos ansiosos sem parar?

A combinação de atenção e saudável ceticismo atuaria, presumivelmente, como um freio na ativação neural por trás da baixa ansiedade. A geração ativa desses pensamentos prepara os circuitos que inibem o impulso límbico de preocupar-se; ao mesmo tempo, a indução ativa de um estado de relaxamento contrabalança os sinais de ansiedade que o cérebro emocional envia para todo o corpo.

Na verdade, observa Borkovec, essas estratégias estabelecem um trem de atividade mental incompatível com a preocupação. Quando se deixa uma preocupação repetir-se sempre e sempre sem ser contestada, ela adquire poder de persuasão; contestá-la, pensando numa gama de pontos de vista igualmente plausíveis, impede o pensamento preocupado único de ser ingenuamente tomado como verdadeiro. Mesmo algumas pessoas com preocupações suficientemente sérias para merecer um diagnóstico psiquiátrico têm sido aliviadas com isso do hábito de preocupar-se.

Por outro lado, para pessoas com preocupações tão severas que se tornaram fobia, distúrbio obsessivo-compulsivo ou de pânico, talvez seja prudente na verdade, um sinal de autoconsciência recorrer a medicação para interromper o ciclo. A contenção dos circuitos emocionais por meio de terapia ainda é necessária, porém, para reduzir a probabilidade de que os problemas de ansiedade retornem quando se parar a medicação.

CONTROLE DA MELANCOLIA

O estado de espírito individual do qual as pessoas em geral mais se esforçam para se livrar é a tristeza; Diane Tice constatou que elas são mais inventivas quando se trata de fugir à depressão. Claro, nem toda tristeza deve ser evitada;

a melancolia, como todos os outros estados de espírito, tem suas vantagens. A tristeza trazida por uma perda tem alguns efeitos invariáveis: trava nosso interesse por diversões e prazeres, fixa a atenção no que se perdeu e mina nossa energia para iniciar coisas novas pelo menos por algum tempo. Em suma, impõe uma espécie de retiro reflexivo das atividades da vida, e deixa-nos num estado suspenso para chorar a perda, meditar sobre seu significado e, finalmente, fazer os ajustes psicológicos e novos planos que nos permitirão continuar com nossas vidas.

O luto é útil; a depressão total, não. William Styron faz uma eloqüente descrição das “muitas e pavorosas manifestações da doença”, entre elas o ódio por si mesmo, o senso de inutilidade, uma “úmida ausência de alegria”, com “a tristeza acumulando-se sobre mim, um senso de pavor, alienação e, sobretudo uma ansiedade sufocante”. Depois há os sinais intelectuais: “confusão, falta de concentração mental e lapsos de memória”, e, num estágio posterior, a mente “dominada por distorções anárquicas”, e “uma sensação de que meus processos de pensamento estavam envoltos numa maré tóxica e inominável que obliterava toda reação prazerosa ao mundo vivo”. Há os efeitos físicos: não dormir, sentir-se apático como um zumbi, “uma espécie de dormência, desalento, porém mais particularmente uma curiosa fragilidade”, juntamente com uma “agitação nervosa”. Depois vem a perda de prazer: “A comida, como tudo mais no âmbito da sensação, era absolutamente insípida. Por fim, havia o desaparecimento da esperança, à medida que “a cinzenta garoa do horror” chegava a um desespero tão palpável quanto uma dor física, uma dor tão insuportável, que o suicídio parecia uma solução.

Nessas grandes depressões, a vida é paralisada; não surge nenhum novo início.

Os próprios sintomas da depressão revelam uma vida em suspenso. Para Styron, não adiantou nenhum medicamento ou terapia; foi a passagem do tempo e o refúgio num hospital que acabaram varrendo a desolação. Mas, para a maioria das pessoas, sobretudo as com casos menos severos, a psicoterapia ajuda, como ajuda a medicação - o Prozac é o tratamento da moda, porém mais de uma dúzia de outros oferecem alguma ajuda, sobretudo para a grande depressão.

Eu me concentro aqui na muito mais comum tristeza, que nos seus limites Superiores se torna, tecnicamente falando, uma ‘depressão subclínica” - ou seja a melancolia comum. Trata-se de uma gama de desolação que as pessoas podem controlar por si mesmas, se tiverem os recursos interiores. Infelizmente, algumas das estratégias a que mais freqüentemente se recorre podem funcionar ao contrário e deixar as pessoas sentindo-se pior do que antes. Uma dessas estratégias é simplesmente ficar só, o que muitas vezes é atraente quando as pessoas se sentem deprimidas; na maioria das vezes, porém, isso só acrescenta à tristeza uma sensação de solidão e isolamento. Isso talvez explique em parte porque Diane Tice constatou que a tática mais popular para combater a depressão é fazer vida social sair para comer fora, ir a um jogo ou cinema; em suma, fazer alguma coisa com os amigos ou a família. Dá certo se o efeito final é afastar a mente da pessoa de sua tristeza. Mas simplesmente prolonga o estado de espírito se ela usa a ocasião apenas para ruminar sobre o que a deixou nessa situação.




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