Daniel goleman, PhD



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Quando Ser Esperto é ser Burro

Mas a inteligência pessoal não seria ignorada, sobretudo porque faz ao mesmo tempo sentido intuitivo e comum. Por exemplo, quando Robert Stemberg, outro psicólogo de Yale, pediu a pessoas que descrevessem uma “pessoa inteligente, as aptidões práticas estavam entre os principais aspectos relacionados. Pesquisas mais sistemáticas de Stemberg o reconduziram de volta à conclusão de Thomdike: de que a inteligência social é ao mesmo tempo diferente das aptidões acadêmicas e parte chave do que faz as pessoas se saírem bem nos aspectos práticos da vida. Entre as inteligências práticas tão altamente valorizadas, por exemplo, no espaço profissional, está aquela sensibilidade que permite aos administradores eficientes captarem mensagens tácitas.

Em anos recentes, um grupo cada vez maior de psicólogos chegou a conclusões semelhantes, concordando com Gardner em que os antigos conceitos de QI giram em torno de uma estreita faixa de aptidões lingüísticas e matemáticas, e que um bom desempenho em testes de QI é um fator de previsão mais direta de sucesso em sala de aula ou como professor, mas cada vez menos quando os caminhos da vida se desviam da academia. Esses psicólogos - entre eles Sternberg e Salovey - adotaram uma visão mais ampla de inteligência, tentando reinventá-la em termos do que é preciso para viver a vida de um modo bem-sucedido. E essa linha de investigação retorna ao reconhecimento de como, exatamente, é crucial a inteligência “pessoal” ou emocional.

Salovey inclui as inteligências pessoais de Gardner em sua definição básica de inteligência emocional, expandindo essas aptidões em cinco domínios principais:

1. Conhecer as próprias emoções. Autoconsciência - reconhecer Um sentimento quando ele ocorre é a pedra fundamental da inteligência emocional.

Como veremos no Capítulo 4, a capacidade de controlar sentimentos a cada momento é crucial para o discernimento emocional e a autocompreensão. A incapacidade de observar nossos verdadeiros sentimentos nos deixa à mercê deles As pessoas de maior certeza sobre os próprios sentimentos são melhores pilotos de suas vidas, tendo um sentido mais preciso de como se sentem em relação a decisões pessoais, desde com quem se casar a que emprego aceitar.

2. Lidar com emoções. Lidar com os sentimentos para que sejam apropriados é uma aptidão que se desenvolve na autoconsciência. O Capítulo 5 vai examinar a capacidade de confortar-se, livrar-se da ansiedade, tristeza ou irritabilidade incapacitantes e as conseqüências do fracasso nessa aptidão emocional básica.

As pessoas fracas nessa aptidão vivem constantemente combatendo sentimentos de desespero, enquanto as boas nisso se recuperam com muito mais rapidez dos reveses e perturbações da vida.

3. Motivar-se. Como mostrará o Capítulo 6, pôr as emoções a serviço de uma meta é essencial para prestar atenção, para a automotivação e a maestria, e para a criatividade. O autocontrole emocional adiar a satisfação e reprimir a impulsividade está por trás de todo tipo de realização. E a capacidade de entrar em estado de “fluxo” possibilita excepcionais desempenhos. AS pessoas que têm essa capacidade tendem a ter mais alta produtividade e eficácia em qualquer atividade que empreendam.

4. Reconhecer emoções nos outros. A empatia, outra capacidade que se desenvolve na autoconsciência emocional, é a “aptidão pessoal” fundamental. O Capítulo 7 investigará as raízes da empatia, o preço social da ausência de ouvido do emocional, e os motivos pelos quais a empatia gera altruísmo. As pessoas empáticas estão mais sintonizadas com os sutis sinais sociais que indicam de que os outros precisam ou o que querem. Isso as torna melhores em vocações como as profissões assistenciais, ensino, vendas e administração.

5. Lidar com relacionamentos. A arte dos relacionamentos é, em grande parte, a aptidão de lidar com as emoções dos outros. O Capítulo 8 examina a competência e incompetência, e as aptidões específicas envolvidas. São as aptidões que reforçam a popularidade, a liderança e a eficiência interpessoal. As pessoas excelentes nessas aptidões se dão bem em qualquer coisa que dependa de interagir tranqüilamente com os outros; são estrelas sociais.

Claro, as pessoas diferem em suas aptidões em cada um desses campos; alguns de nós podemos ser bastante hábeis no lidar, digamos, com nossa ansiedade, mas relativamente ineptos no confortar os aborrecimentos de outra pessoa. A base por baixo de nosso nível de aptidão é sem dúvida neural, mas, como veremos, o cérebro é admiravelmente flexível, em constante aprendizado. Os lapsos nas aptidões emocionais podem ser remediados: em grande parte, cada um desses campos representa um corpo de hábitos e respostas que, com o esforço certo, se pode melhorar.

QI INTELIGÊNCIA EMOCIONAL: TIPOS PUROS

O QI e a inteligência emocional não são capacidades opostas, mas distintas.

Todos nós misturamos acuidade intelectual e emocional; as pessoas de alto QI e baixa inteligência emocional (ou baixo QI e alta inteligência emocional) são, apesar dos estereótipos, relativamente raras. Na verdade, há uma ligeira correlação entre o QI e alguns aspectos da inteligência emocional embora bastante pequena para deixar claro que se trata de duas entidades bastante independentes.

Ao contrário dos testes conhecidos de QI, não há ainda nenhum formulário único de teste com papel e lápis que produza “uma contagem de inteligência emocional e talvez jamais venha a haver. Embora seja ampla a pesquisa sobre cada um de seus componentes, alguns deles, como a empatia, são mais bem testados pela amostragem da aptidão de fato de uma pessoa na tarefa por exemplo, mandá-la ler os sentimentos de uma pessoa num vídeo de expressões faciais. Entretanto, usando uma medição do que chama de “maleabilidade do ego”, que se assemelha bastante à inteligência emocional (inclui as principais aptidões sociais e emocionais), Jack Block, psicólogo na Universidade da Califórnia em Berkeley, fez uma comparação dos dois tipos teóricos puros:

pessoas de alto QI versus pessoas de altas aptidões emocionais. As diferenças são reveladoras.

O tipo alto QI puro (isto é, separado da inteligência emocional) é quase uma caricatura do intelectual, capaz no domínio da mente mas inepto no mundo pessoal. Os perfis diferem ligeiramente para homens e mulheres. O homem de alto QI é tipificado o que não surpreende por uma ampla gama de interesses e capacidades. É ambicioso e produtivo, previsível e obstinado, e condescendente, fastidioso e inibido, pouco à vontade com a sexualidade e a experiência sensual, inexpressivo e desligado, e emocionalmente frio.

Em contraste, os homens de alta inteligência emocional são socialmente equilibrados, comunicativos e animados, não inclinados a receios ou ruminações preocupadas.

Têm uma notável capacidade de engajamento com pessoas ou causas de assumir responsabilidades e ter uma visão ética; são solidários e atenciosos em seus relacionamentos. Têm uma vida emocional rica, mas correta; sentem-se à vontade consigo mesmos, com os outros e com o universo social em que vivem.

As mulheres de alto QI puro têm a esperada confiança intelectual, são fluentes no expressar suas idéias, valorizam questões intelectuais e têm uma ampla gama de interesses intelectuais e estéticos. Também tendem a ser introspectivas, inclinadas à ansiedade, à ruminação e à culpa, e hesitam em exprimir sua raiva abertamente (embora o façam de maneira indireta).

As mulheres emocionalmente inteligentes, em contraste, tendem a ser assertivas e expressam suas idéias de um modo direto, e sentem-se positivas em relação a si mesmas; para elas, a vida tem sentido. Como os homens, são comunicativas e gregárias, e expressam de modo adequado os seus sentimentos (não, digamos, em ataques de que depois se arrependem); adaptam-se bem à tensão O equilíbrio social delas permite-lhes ir até os outros; sentem-se suficientemente à vontade consigo mesmas para ser brincalhonas, espontâneas e abertas à experiência sexual. Ao contrário das mulheres de puro alto QI, raramente sentem ansiedade ou culpa, e tampouco mergulham em ruminações.

Esses perfis, claro, são extremos - todos nós mesclamos QI e inteligência emocional em graus variados. Mas oferecem uma perspectiva instrutiva do que cada uma dessas dimensões acrescenta, separadamente, às qualidades de uma pessoa. Na medida em que a pessoa tem tanto inteligência cognitiva quanto emocional, essas imagens se fundem. Ainda assim, das duas, é a inteligência que contribui com um número muito maior das qualidades que nos tornam mais plenamente humanos.

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CONHECE-TE A TI MESMO



Um guerreiro samurai, conta uma velha história japonesa, certa vez desafiou um mestre Zen a explicar o conceito de céu e inferno. Mas o monge respondeu-lhe com desprezo:

- Não passas de um rústico... não vou desperdiçar meu tempo com gente da tua laia!

Atacado na própria honra, o samurai teve um acesso de fúria e, sacando da bainha a espada, berrou:

- Eu poderia matar-te por tua impertinência.

- Isso respondeu calmamente o monge, é o inferno.

Espantado por ver a verdade no que o mestre dizia da cólera que o dominara, o samurai acalmou-se, embainhou a espada e fez uma mesura, agradecendo ao monge a intuição.

- E isso - disse o monge - é o céu.

O súbito despertar do samurai para seu estado de agitação ilustra a crucial diferença entre alguém se ver presa de um sentimento e tomar consciência de que está sendo arrebatado por ele. A recomendação de Sócrates - “Conhece-te a ti mesmo” - dirige-se a essa pedra de toque de inteligência emocional: a consciência de nossos sentimentos quando eles ocorrem.

À primeira vista, pareceria que nossos sentimentos são óbvios; uma reflexão mais demorada nos lembra as vezes em que fomos demasiado indiferentes aos que de fato sentimos sobre uma coisa, ou despertamos para esses sentimentos tarde demais. Os psicólogos usam o termo um tanto pesado metacognição para referir-se à consciência do processo de pensar, e metaestado de espírito para a consciência de nossas emoções. Eu prefiro o termo autoconsciência, no sentido de permanente atenção a nossos estados interiores. Nessa consciência auto-reflexiva, a mente observa e investiga a própria experiência, intuindo as emoções.2

Esse tipo de consciência é semelhante ao que Freud descreveu como uma “atenção a pairar de modo bem distribuído”, e que recomendou aos que queriam fazer psicanálise. Essa atenção registra com imparcialidade tudo que passa pela consciência, como testemunha interessada mas não reativa. Alguns psicanalistas a chamam de “ego observante”, a capacidade de autoconsciência que permite ao analista monitorar suas reações ao que diz o paciente, e que o processo de livre associação alimenta no paciente.

Essa autoconsciência pareceria exigir um neocórtex ativado, sobretudo as áreas da linguagem, sintonizado para identificar e nomear as emoções despertadas. A autoconsciência não é uma atenção que se deixa levar pelas emoções, reagindo com exagero e amplificando o que se percebe. Ao contrário, é um modo neutro, que mantém a auto-reflexividade mesmo em meio a emoções turbulentas. William Styron parece descrever alguma coisa semelhante a essa faculdade da mente, ao escrever sobre sua profunda depressão, quando fala da sensação de “estar sendo acompanhado por um segundo eu - um observador fantasmagórico que, não partilhando a demência de seu duplo, pode ficar observando com desapaixonada curiosidade enquanto o companheiro se debate”.

No melhor de si, a auto-observação permite exatamente essa consciência equânime de sentimentos arrebatados ou turbulentos. No mínimo, manifesta-se simplesmente como um ligeiro recuo da experiência, um fluxo paralelo de consciência que é “meta”: pairando acima ou ao lado da corrente principal, mais consciente do que se passa do que imersa e perdida nele. É a diferença entre, por exemplo, sentir uma fúria assassina contra alguém e ter o pensamento auto-reflexivo: “O que estou sentindo é raiva”, mesmo quando se está furioso.

Em termos da mecânica neural da consciência, essa sutil mudança de atividade mental presumivelmente avisa que os circuitos neocorticais estão monitorando ativamente a emoção, primeiro passo para adquirir algum controle. Essa consciência das emoções é a aptidão emocional fundamental sobre a qual se fundam outras, como o autocontrole emocional.

Autoconsciência, em suma, significa estar “consciente ao mesmo tempo de nosso estado de espírito e de nossos pensamentos sobre esse estado de espírito”, nas palavras de ]ohn Mayer, psicólogo da Universidade de New Hampshire que, com Peter Salovey, de Yale, é um dos co-formuladores da teoria da inteligência emocional. A autoconsciência pode ser uma atenção não reativa e não julgadora de estados interiores. Mas Mayer acha que essa sensibilidade também pode ser menos equânime; os pensamentos típicos que revelam a autoconsciência incluem “Não devo me sentir assim”, “Vou pensar em coisas boas para me animar” e, numa autoconsciência mais restrita, o pensamento passageiro “Não pense nisso”, em relação a alguma coisa muitíssimo perturbadora.

Embora haja uma distinção lógica entre estar consciente dos sentimentos e agir para mudá-los, Mayer constata que, para todos os fins práticos, as duas em geral se combinam: reconhecer um estado de espírito negativo é querer livrar-se dele. Esse reconhecimento, porém, é distinto das tentativas que fazemos para evitar agir com base num impulso emocional. Quando dizemos “Pare com isso!”

a uma criança cuja raiva a levou a bater num companheiro de brincadeiras, podemos deter o espancamento, mas a raiva continua. Os pensamentos da criança ainda estão fixados na causa da raiva - “Mas ele roubou meu brinquedo!”

- e a raiva continua do mesmo jeito. A autoconsciência tem um efeito mais potente sobre sentimentos fortes, de aversão: a compreensão “O que estou sentindo é raiva” oferece um maior grau de liberdade - não apenas a opção de não agir com base na raiva, mas a opção extra de tentar se livrar dela.

Mayer constata que as pessoas tendem a adotar estilos típicos para acompanhar e manejar suas emoções.



  • Autoconsciente. Consciente de seus estados de espírito no momento em que ocorrem, essas pessoas, compreensivelmente, têm uma certa sofisticação em relação a suas vidas emocionais. A clareza com que sentem suas emoções pode reforçar outros traços de personalidade: são autônomas e seguras de seus próprios limites, gozam de boa saúde psicológica e tendem a ter uma perspectiva positiva da vida. Quando entram num estado de espírito negativo, não ruminam nem ficam obcecadas com isso e podem sair dele mais cedo. Em suma, a vigilância delas ajuda-as a administrar suas emoções.

  • Mergulhadas. São pessoas muitas vezes inundadas por suas emoções e incapazes de escapar delas, como se seus estados de espírito houvessem assumido o controle. São instáveis e não têm muita consciência dos próprios sentimentos, de modo que se perdem neles, em vez de ter alguma perspectiva.

Em conseqüência, pouco fazem para tentar escapar a esses estados de espírito negativos, achando que não têm controle sobre sua vida emocional. Muitas vezes se sentem esmagadas e emocionalmente descontroladas.

  • Resignadas. Embora essas pessoas muitas vezes vejam com clareza o que estão fazendo, também tendem a aceitar seus estados de espírito e, portanto, não tentam mudá-los. Parece haver dois ramos do tipo resignado: os que estão geralmente em bons estados de espírito e por isso pouca motivação têm para mudá-los e os que, apesar de verem com clareza seus estados de espírito, são susceptíveis aos maus e os aceitam com uma atitude de laissez-faire, nada fazendo para mudá-los, apesar da aflição que sentem - um padrão encontrado entre, digamos, pessoas deprimidas que se resignam ao seu desespero.

OS APAIXONADOS E OS INDIFERENTES

Imagine por um instante que você está num avião voando de Nova Iorque para San Francisco. É um vôo tranqüilo mas, quando se aproxima das Montanhas Rochosas, a voz do piloto vem nos alto-falantes.

- Senhoras e senhores, vamos entrar numa área de turbulência. Por favor retornem às suas poltronas e apertem os cintos.

Aí, o avião entra em turbulência, mais forte do que você já passou - jogado para cima e para baixo, para um lado e para outro, como uma bola de praia nas ondas.

A questão é: que faz você? É daquelas pessoas que afundam no livro ou revista, ou continuam vendo o filme, desligando-se da turbulência? Ou é mais provável que pegue o manual de instruções de emergência para rever as precauções, observe a equipe de bordo para ver se mostra sinais de pânico, ou apure o ouvido para os motores, para ver se há alguma coisa digna de preocupação?

A resposta, entre essas, que nos vem mais naturalmente é um sinal de nossa atitude predominante em situações de apuro. O próprio cenário do avião é um dos pontos de um teste psicológico criado por Suzanne Miller, psicóloga da Universidade Temple, para avaliar se as pessoas tendem a ser vigilantes, acompanhando cuidadosamente cada detalhe de uma situação angustiante, ou, ao contrário, lidam com esses momentos de ansiedade tentando distrair-se. Essas duas atitudes de atenção em relação ao apuro têm conseqüências bastante diferentes para a maneira como as pessoas sentem suas reações emocionais. Os que se ligam nos apuros podem, pelo ato mesmo de acompanhar com tanto cuidado, ampliar sem o saber a magnitude de suas reações - sobretudo se essa ligação é desprovida da equanimidade da autoconsciência. O resultado é que suas emoções parecem tanto mais intensas. Os que se desligam, que se distraem, notam menos coisas de suas reações e com isso minimizam a experiência de sua resposta emocional, se não as dimensões da própria resposta.

Nos extremos, isso significa que para algumas pessoas a consciência emocional é esmagadora, enquanto para outras mal existe. É só pensar no universitário que, uma noite, descobre um início de incêndio em seu dormitório, vai pegar um extintor e apaga o fogo. Nada de extraordinário - a não ser que, ao ir buscar o extintor e voltar, ele andou em vez de correr. Motivo? Não achava que havia qualquer urgência.

A história me foi contada por Edward Diener, psicólogo da Universidade de ILINOIS em Urbana, que estuda a intensidade com que as pessoas sentem suas emoções. O universitário figurava em sua coleção de estudos de casos como um dos menos intensos que ele já encontrara. Era, essencialmente, um homem sem paixões, uma pessoa que passa pela vida pouco ou nada sentindo, mesmo numa emergência como um incêndio.

Em comparação, vejam a mulher no outro lado do espectro de Diener. Uma vez, quando perdeu uma caneta preferida, ficou perturbada durante dias. Outra vez, ficou tão excitada, ao ver o anúncio de uma grande liquidação de sapatos femininos numa loja cara, que largou o que estava fazendo, saltou no carro e dirigiu três horas até a loja em Chicago.

Diener constata que as mulheres, em geral, sentem com mais força emoções positivas e negativas que os homens. E, diferenças de sexo à parte, a vida emocional é mais rica para os que observam mais. Entre outras coisas, essa maior sensibilidade emocional significa que, para tais pessoas, a menor provocação desencadeia vendavais emocionais paradisíacos ou infernais, enquanto as do outro mal experimentam qualquer sensação, mesmo nas circunstâncias mais angustiantes.

O HOMEM SEM SENTIMENTOS

Gary enfurecia a noiva, Ellen, porque, apesar de inteligente, atencioso e um médico bem-sucedido, era emocionalmente Ihano, completamente sem reação a qualquer demonstração de sentimentos. Embora falasse com brilhantismo de ciência e arte, quando se tratava de seus próprios sentimentos - mesmo por Ellen emudecia. Por mais que ela tentasse despertar-lhe alguma paixão, ele ficava impassivo, indiferente.

Eu não expresso naturalmente meus sentimentos disse Gary ao terapeuta a quem consultou por insistência de Ellen. quando se tratava da vida emocional, acrescentou Não sei o que dizer; não tenho sentimentos fortes, positivos ou negativos.

Ellen não estava sozinha em sua frustração com o distanciamento de Gary;

segundo ele confiou ao terapeuta, era incapaz de falar abertamente de seus sentimentos com qualquer pessoa em sua vida. Motivo: não sabia o que sentia, para começar. Até onde sabia, não tinha raivas, tristezas ou alegrias.

Como observa seu terapeuta, esse vazio emocional deixa Gary e outros como ele incolores, insípidos:

Entediam a todos. Por isso suas esposas os mandam tratar-se.

A Ihanura emocional de Gary exemplifica o que os psiquiatras chamam de alexitimia, do grego a (ausência), léxis (palavra) e thymós (emoção). Faltam a essas pessoas palavras para descrever seus sentimentos. Na verdade, parecem faltar-lhes sentimentos completamente, embora isso talvez se deva mais à sua incapacidade de manifestar emoção do que a uma completa ausência de emoção. Essas pessoas foram notadas pela primeira vez por psicanalistas intrigados por um tipo de pacientes intratáveis pelo seu método, porque não comunicavam sentimentos, fantasias, mas apenas sonhos incolores - em suma, nenhuma vida interior digna de nota. As características clínicas que assinalam a alexitimia incluem dificuldade para descrever sentimentos - os próprios ou os de outrem e um vocabulário emocional seriamente limitado. E além disso, tais pessoas têm dificuldade para discriminar emoções e distinguir entre emoção e sensação física, de modo que descrevem problemas estomacais, palpitações, suores e tontura mas não saberiam que estão ansiosos. “Dão a impressão de ser diferentes seres alienígenas, vindos de um mundo inteiramente diferente, vivendo no meio de uma sociedade dominada pelos sentimentos, é a descrição dada pelo Dr. Peter Sifneos, o psiquiatra de Harvard que em 1972 cunhou o termo alexitimia. Os alexitímicos raramente choram, por exemplo, mas quando o fazem, são lágrimas copiosas. Ainda assim, ficam perplexos quando perguntados por que choram. Uma paciente com alexitimia ficou tão perturbada ao ver um filme sobre uma mulher com oito filhos, que estava morrendo de câncer que chorou até dormir. Quando o terapeuta sugeriu que ela ficara tão perturbada porque o filme Lhe lembrara sua própria mãe, que estava realmente morrendo de câncer, ela ficou sentada imóvel, pasmada e calada. O terapeuta Lhe perguntou então o que sentia naquele momento, e ela respondeu que se sentia “péssima”, mas não conseguiu esclarecer seus sentimentos além disso. E, acrescentou, de vez em quando se descobria chorando, mas jamais sabia exatamente por que chorava.

E é esse o fulcro do problema. Não é que os alexitímicos não sintam, mas não sabem e sobretudo não podem expressar em palavras precisamente quais são seus sentimentos. Falta-lhes absolutamente a aptidão fundamental da inteligência emocional, a autoconsciência saber o que sentimos enquanto as emoções se revolvem dentro de nós. Os alexitímicos negam a idéia prática de que é perfeitamente evidente por si mesmo o que sentimos: eles não têm a mínima indicação. Quando alguma coisa ou mais provavelmente alguém lhes causa um sentimento, eles acham a experiência intrigante e arrasadora, uma coisa a evitar a todo custo. Os sentimentos Lhes chegam, quando chegam, como um desnorteante pacote de angústia; como disse a paciente que chorou no cinema, sentem-se “péssimos”, mas não podem dizer exatamente que espécie de coisa péssima sentem.

A confusão básica sobre os sentimentos muitas vezes parece levá-los a queixar-se de vagos problemas médicos, quando na verdade sofrem de angústia emocional fenômeno conhecido em psiquiatria como somatização, tomar por física uma dor emocional (e diferente da doença psicossomática, em que problemas emocionais causam doenças físicas autênticas). Na verdade, grande parte do interesse psiquiátrico pelos alexitímicos está em separá-los daqueles que procuram ajuda médica, pois tendem a uma extensa e infrutífera busca de diagnose e tratamento médicos para o que na verdade é um problema emocional.

Embora ninguém possa ainda dizer com certeza o que causa a alexitimia, o Dr. Sifneos sugere uma desconexão entre o sistema límbico e o neocórtex, sobretudo os centros verbais, o que se encaixa bem no que estamos aprendendo sobre o cérebro emocional. Os pacientes com severos derrames que tiveram essa ligação seccionada cirurgicamente para aliviar os sintomas, observa Sifneos, tornaram-se emocionalmente Ihanos, como as pessoas com alexitimia, incapazes de expressar em palavras seus sentimentos, e subitamente desprovidas de fantasia. Em suma, embora os circuitos do cérebro emocional reajam com sentimentos, o neocórtex não pode classificar esses sentimentos e acrescentarlhes a nuança da linguagem. Como observou Henry Roth, em seu romance Call it Sleep [Diga que é sono], sobre esse poder da linguagem: “Se você pudesse pôr em palavras o que sentiu, seria seu.” O corolário, claro, é o dilema do alexitímico não ter palavras para os sentimentos significa não tomar nossos esses sentimentos.




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