Daniel goleman, PhD



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Um juiz declarou Jason inocente, temporariamente insano durante o incidente um conselho de quatro psicólogos e psiquiatras jurou que ele estava psicótico durante a briga. Jason alegou que pensara em suicídio por causa da nota na prova e procurara Pologruto para Lhe dizer que ia se matar por causa da nota ruim. Pologruto contou uma história diferente:

Acho que ele tentou me matar mesmo com a faca pois estava furioso com a nota ruim.

Após transferir-se para uma escola particular, Jason formou-se dois anos depois num dos primeiros lugares da turma. Uma aprovação perfeita nos cursos regulares Lhe teria dado um A, com média 4, mas ele fizera muitos cursos avançados para elevar sua média a 4 614 muito acima do A+. Embora Jason se houvesse formado com o mais alto louvor, seu antigo professor de física, David Pologruto, queixava-se de que ele jamais Lhe pedira desculpas nem assumira responsabilidade pelo ataque.

A questão é: como alguém com uma inteligência tão óbvia faz uma coisa tão irracional tão burra mesmo? Resposta: a inteligência acadêmica pouco tem a ver com a vida emocional. Os mais brilhantes entre nós podem afundar nos recifes de paixões desenfreadas e impulsos desgovernados; pessoas com altos níveis de QI são às vezes pilotos incompetentes de suas vidas particulares.

Um dos segredos de Polichinelo da psicologia é a relativa incapacidade das notas, medições de QI ou contagens do SAT, apesar de sua mística popular, predizerem com certeza quem será bem-sucedido na vida. Claro, há uma relação entre o QI e as circunstâncias de vida para grandes grupos como um todo: muitas pessoas com índices de QI muito baixos acabam em empregos servis, e as de altos índices tendem a se tornar bem pagas, mas de nenhum modo sempre.

Há inúmeras exceções à regra de que o QI prevê o sucesso tantas (ou mais)

exceções quanto os casos que se encaixam na regra. Na melhor das hipóteses, o QI contribui com cerca de 20 por cento para os fatores que determinam o sucesso na vida, o que deixa 80 por cento a outras forças. Como diz um observador: A vasta maior parte da posição final de alguém na sociedade é determinada por fatores não relacionados com o QI e que variam de classe social a sorte.

Mesmo Richard Herrnstein e Charles Murray, cujo livro Tbe Bell Curve [A Curva do Sino] atribui importância básica ao QI, reconhecem isso; como observam:

“Talvez um calouro com uma contagem SAT total de 500 pontos em matemática fizesse melhor não pensando em ser matemático, mas se em vez disso quer ter seu próprio negócio, tornar-se senador dos Estados Unidos ou ganhar um milhão de dólares, não pode abandonar esses sonhos... A ligação entre essas contagens de pontos e aquelas realizações é reduzida pela totalidade de outras características que ele traz para a vida.

Minha preocupação é com um conjunto fundamental dessas “outras características”, a inteligência emocional: talentos como a capacidade de motivar-se e persistir diante de frustrações; controlar impulsos e adiar a satisfação; regular próprio estado de espírito e impedir que a aflição invada a capacidade de pensar; criar empatia e esperar. Ao contrário do QI, com seus quase cem anos de história de pesquisa com milhares de pessoas, a inteligência emocional é um conceito novo. Ninguém pode ainda dizer exatamente até onde responde pela variação de pessoa para pessoa no curso da vida. Mas os dados que existem sugerem que ela pode ser tão poderosa e às vezes mais quanto o QI. E embora haja quem argumente que não se pode mudar muito o QI com a experiência ou educação, mostrarei na Parte Cinco que as aptidões emocionais decisivas na verdade podem ser aprendidas e melhoradas nas crianças e nos dermos ao trabalho de ensiná-las.
INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E DESTINO

Lembro-me do camarada em minha turma na Universidade de Amherst que alcançara cinco perfeitos 800 no SAT e em outros testes que fizera antes de entrar. Apesar de suas formidáveis aptidões intelectuais, ele passava a maior parte do tempo sem fazer nada, ficando acordado até tarde e faltando às aulas por dormir até meio-dia. Levou quase dez anos para obter afinal seu diploma.

O QI pouco oferece para explicar os diferentes destinos de pessoas com mais ou menos iguais promessas, escolaridade e oportunidade. Quando se acompanharam 95 universitários de Harvard, das classes da década de 40 - época em que mais pessoas com maior índice de QI estudavam nas faculdades de elite do que acontece hoje até a meia-idade, os homens com as melhores notas nas provas não se mostraram particularmente bem-sucedidos, em comparação com os colegas de notas menores, em termos de salário, produtividade ou status em seu campo. Nem tinham maior satisfação na vida e tampouco eram mais felizes nas amizades, família e relacionamentos amorosos.

Acompanhamento semelhante até a meia-idade foi feito com 450 garotos, a maioria filhos de imigrantes, dois terços vindos de famílias que viviam da previdência social, criados em Somerville, Massachusetts, na época um “cortiço pestilento” a alguns quarteirões de Harvard. Um terço deles tinha QI abaixo de 90. Porém, mais uma vez, o QI pouca relação teve com o grau de sucesso que conseguiram no trabalho ou no resto de suas vidas; por exemplo, 7 por cento dos homens com QIs inferiores a 80 ficaram desempregados durante dez ou mais anos, mas também ficaram 7 por cento daqueles com QI acima de 100. Claro, havia uma ligação geral (como sempre há) entre QI e nível socioeconômico aos quarenta e sete anos. Mas aptidões de infância como capacidade de lidar com frustrações, controlar emoções e relacionar-se com outras pessoas contavam mais.

Vejam também dados de um estudo em andamento com oitenta e um oradores de turmas de 1981 em escolas de segundo grau de Ilinois. Todos, claro, tinham as mais altas médias de notas em seus ginásios. Mas embora continuassem a se sair bem na faculdade, com excelentes notas, ao beirarem os trinta anos haviam alcançado apenas níveis medianos de sucesso. Dez anos após a formatura do ginásio, só um em quatro se achava em nível mais alto entre os jovens de idade comparável na profissão que haviam escolhido, e muitos tinham-se dado bem pior.

Karen Arnold, professora de educação na Universidade de Boston, uma das pesquisadoras que acompanham os oradores, explica:

Acho que descobrimos as pessoas “certinhas”, as que sabem como vencer no sistema. Mas os oradores de turma, claro, têm de lutar tanto quanto todos nós. Saber que uma pessoa é um orador de turma é saber apenas que ela é muitíssimo boa no rendimento avaliado por notas. Nada nos diz de como ela reage às vicissitudes da vida.

E esse é o problema: a inteligência acadêmica não oferece praticamente nenhum preparo para o torvelinho ou oportunidade que trazem as vicissitudes de vida. Apesar de um alto QI não ser nenhuma garantia de prosperidade, prestígio ou felicidade na vida, nossas escolas e cultura concentram-se na capacidade acadêmica, ignorando a inteligência emocional, um conjunto de traços alguns chamariam de caráter que também tem imensa importância para nosso destino pessoal. A vida emocional é um campo com o qual se pode lidar, certamente como matemática ou leitura, com maior ou menor talento, e exige seu conjunto exclusivo de aptidões. E a medida dessas numa pessoa é decisiva para a compreensão do porquê uma prospera na vida, enquanto outra, de igual intelecto, entra num beco sem saída: a aptidão emocional é uma metacapacidade, determinando até onde podemos usar bem quaisquer outras aptidões que tenhamos, incluindo o intelecto bruto.

Claro, há muitos caminhos para o sucesso na vida, e muitos campos em que outras aptidões são recompensadas. Em nossa sociedade cada vez mais baseada no conhecimento, a aptidão técnica é sem dúvida uma delas. Há uma piada infantil: “Como se chama um chato daqui a quinze anos?” Resposta: “Chefe.” Mas mesmo entre os “chatos” a inteligência emocional oferece uma vantagem extra no local de trabalho, como veremos na Parte Três. Muitos indícios atestam que as pessoas emocionalmente competentes que conhecem e lidam bem com os próprios sentimentos, e lêem e consideram os sentimentos das outras levam vantagem em qualquer campo da vida, seja nas relações amorosas e íntimas, seja assimilando as regras tácitas que governam o sucesso na política organizacional.

As pessoas com prática emocional bem desenvolvida têm mais probabilidade de sentirem-se satisfeitas e serem eficientes em suas vidas, dominando os hábitos mentais que fomentam sua produtividade; as que não conseguem exercer algum controle sobre a vida emocional travam batalhas internas que sabotam sua capacidade de se concentrar no trabalho e pensar com clareza.

UM TIPO DIFERENTE DE INTELIGÊNCIA

Para o observador casual, Judy, de quatro anos, pareceria deslocada entre os coleguinhas mais gregários. Retrai-se na hora das brincadeiras, ficando mais à margem dos jogos do que mergulhando no centro. Mas Judy é na verdade uma perspicaz observadora da política social de sua turma no pré-primário, talvez a mais sofisticada dos meninos em seus discernimentos dos vaivéns dos sentimentos internos dos outros.

Essa sofisticação só se torna visível quando sua professora reúne as crianças de quatro anos em volta de si para brincar do que chamam de Jogo da Sala de Aula. Essa brincadeira uma réplica infantil da própria sala do pré-primário de Judy, colando figuras que têm como cabeças pequenas fotos dos alunos e professores é um teste de percepção social. Quando a professora de Judy Lhe pede que ponha cada menina e menino na parte da sala onde mais gostam de brincar o cantinho da arte, o de montar blocos, e assim por diante - , ela o faz com total precisão. E quando Lhe pedem que ponha cada menina e menino com as crianças com que mais gostam de brincar, ela mostra que sabe combinar os melhores amigos de toda a classe.

A precisão de Judy revela que ela tem um perfeito mapa social de sua turma, um nível de percepção excepcional para uma criança de quatro anos. Essas são aptidões que, na vida posterior, podem permitir a Judy desabrochar numa estrela em qualquer dos campos onde as “aptidões pessoais” contém, desde vendas e administração até diplomacia.

Que o brilho social de Judy tenha sido identificado, ainda tão cedo, deveu-se ao fato de ela ser aluna da Pré-Escola Eliot-Pearson, no campus da Universidade Tufts, onde o Projeto Spectrum, um currículo que intencionalmente cultiva vários tipos de inteligência, era então desenvolvido. O Projeto Spectrum reconhece o repertório humano de aptidões vai muito além da estreita faixa de aptidões com palavras e números em que se concentram as escolas tradicionais. Reconhece que aptidões como a percepção social de Judy são talentos que uma educação deve mais alimentar que ignorar ou mesmo frustrar. Encorajando as crianças a desenvolverem uma completa gama das aptidões a que na verdade recorrerão para o sucesso, ou usarão apenas para se realizar no que fazem, a escola se torna uma educação em aptidões para a vida.

O orientador visionário por trás do Projeto Spectrum é Howard Gardner, psicólogo da Escola de Educação de Harvard.

Chegou a hora ele me disse de ampliar nossa idéia do espectro de talentos. A maior contribuição isolada que a educação pode dar ao desenvolvimento de uma criança é ajudá-la a encaminhar-se para um campo onde seus talentos se adaptem melhor, onde ela será feliz e competente. Perdemos isso inteiramente de vista. Em vez disso, sujeitamos todos a uma educação em que, se você for bem-sucedido, estará mais bem capacitado para ser professor universitário. E avaliamos todos, ao longo do percurso, segundo satisfazem ou não esse estreito padrão de sucesso. Devíamos gastar menos tempo classificando crianças e mais tempo ajudando-as a identificar suas aptidões e dons naturais e a cultivá-los. Há centenas e centenas de maneiras de ser bem-sucedido, e muitas, muitas aptidões diferentes que as ajudarão a chegar lá.

Se alguém vê as limitações das velhas formas de pensar sobre a inteligência, é Gardner. Ele observa que os dias de glória dos testes de QI começaram durante a Primeira Guerra Mundial, quando dois milhões de americanos foram classificados por meio do primeiro formulário em massa do teste de QI, recém-criado por Lewis Terman, um psicólogo de Stanford. Isso levou a décadas do que Gardner chama de “modo de pensar do QI”:

Pensar que as pessoas são inteligentes ou não, que nasceram assim, que não se pode fazer muita coisa a respeito e que os testes podem dizer se a gente é um dos inteligentes ou não. O teste SAT para admissão em universidades baseia-se na mesma idéia de uma única aptidão que determina nosso futuro.

Esse modo de pensar impregna a sociedade.

O influente livro de Gardner, Frames of Mínd [Estados de Espírito], de 1983, foi um manifesto contestando a visão do QI; propunha que não havia um tipo único, monolítico, de inteligência decisiva para o sucesso na vida, mas antes um amplo espectro de inteligências, com sete variedades-chave. Em sua lista entram os dois tipos de inteligências acadêmicas padrão, a vivacidade verbal e a a matemático-lógica, mas ele vai adiante e inclui a aptidão espacial que se vê, digamos, num destacado pintor ou arquiteto; o gênio cinestésico exibido na fluidez e graça físicas de uma Martha Graham ou Magic Johnson; e os dons musicais de um Mozart ou YoYo Ma. Arrematando a lista, há duas faces do que Gardner chama de “inteligências pessoais”: aptidões interpessoais, como as de um grande terapeuta como Carl Rogers ou um líder de nível mundial como Martin Luther King, Jr., e a aptidão “intrapsíquica”, que pode surgir, de um lado, nas brilhantes intuições de Sigmund Freud, ou, com menos barulho, na satisfação interior que vem da sintonização de nossa vida com nossos verdadeiros sentimentos.

A palavra operacional nessa visão de inteligências é múltiplo: o modelo de Gardner vai muito além do conceito padrão de QI como um fator único e imutável. Reconhece que os testes que nos tiranizaram quando passamos pela escola desde a realização das provas de rendimento que nos classificavam entre os que seriam desviados para as escolas técnicas e os destinados à universidade, aos SATs, que determinavam qual faculdade, se fosse o caso, poderíamos freqüentar se baseiam numa noção limitada de inteligência, uma noção sem ligação com a verdadeira gama de talentos e aptidões que contam para a vida, acima e além do QI.

Gardner reconhece que sete é um número arbitrário para a variedade de inteligências; não há nenhum número mágico para a multiplicidade de talentos humanos A determinada altura, ele e seus colegas haviam esticado essas sete para uma lista de vinte aptidões diferentes. A Inteligência interpessoal, por exemplo, desdobrou-se em quatro aptidões distintas: liderança, a aptidão de manter relações e conservar amigos, a de resolver conflitos e a do tipo de análise social em que Judy, de quatro anos, era excelente.

Essa visão multifacetada da inteligência oferece um quadro mais rico da capacidade e do potencial de uma criança para o sucesso que o QI padrão.

Quando os alunos da Spectrum foram avaliados pela Escala de Inteligência Stanford-Binet outrora o padrão ouro dos testes de QI - e mais uma vez por uma bateria destinada a medir o espectro de inteligências de Gardner, não houve nenhuma relação significativa entre as contagens obtidas nos dois testes. As cinco com QIs mais altos (de 125 a 133) mostraram uma variedade de perfis nas dez forças medidas pelo teste Spectrum. Por exemplo, das cinco crianças “mais inteligentes” segundo os testes de QI, uma era forte em três áreas, três tinham forças em duas áreas, e uma criança “inteligente” tinha apenas uma força Spectrum. Essas forças eram espalhadas: quatro das forças dessas crianças eram em música, duas em artes visuais, uma em compreensão social, uma em lógica, duas em linguagem. Nenhuma das cinco crianças de alto QI era forte em movimento, números ou mecânica: movimento e números foram na verdade pontos fracos para duas das cinco.

A conclusão de Gardner foi que “a Escala de Inteligência Stanford-Binet não previu desempenho bem-sucedido de ponta a ponta ou num subconjunto consistente de atividades Spectrum”. Por outro lado, as contagens Spectrum dão aos pais uma rara orientação sobre os campos nos quais essas crianças terão um interesse espontâneo e onde se sairão bem o bastante para desenvolver paixões que poderão um dia conduzi-las além da eficiência, até a maestria.

O pensamento de Gardner sobre a multiplicidade da inteligência continua a evoluir. Uns dez anos após ter publicado sua teoria pela primeira vez, ele fez os seguintes sumários das inteligências pessoais:

Inteligência interpessoal é a capacidade de compreender outras pessoas: o que as motiva, como trabalham, como trabalhar cooperativamente com elas. Pessoal de vendas, políticos, professores, clínicos e líderes religiosos bem-sucedidos provavelmente são todos indivíduos com altos graus de inteligência interpessoal. A inteligência intrapessoal... é uma aptidão correlata, voltada para dentro. É uma capacidade de formar um modelo preciso, verídico, de si mesmo, e poder usá-lo para agir eficazmente na vida.

Em outra versão, Gardner observou que o âmago da inteligência interpessoal inclui “a capacidade de discernir e responder adequadamente aos estados de espírito, temperamentos, motivações e desejos de outras pessoas”. Na inteligência intrapessoal, chave do autoconhecimento, ele incluiu “acesso a nossos próprios sentimentos e a capacidade de discriminá-los e usá-los para orientar o comportamento.

SPOCK VS. DATA: QUADO A PERCEPÇÃO NÃO BASTA

As teorizações de Gardner contêm uma dimensão da inteligência pessoal que é amplamente apontada, mas pouco explorada: o papel das emoções. Talvez isso se dê porque, como me sugeriu ele próprio, seu trabalho é fortemente informado por um modelo mental de ciência cognitiva. Assim, sua visão dessas inteligências enfatiza a percepção a compreensão de si e de outros nas motivações, nos hábitos de trabalho e no uso dessa intuição na própria vida e na relação com outros. Mas, como acontece com o campo cinestésico, onde o brilho físico se manifesta não verbalmente, o campo das emoções também se estende além do alcance da linguagem e da cognição.

Embora haja amplo espaço nas suas descrições das inteligências pessoais para a intuição no jogo das emoções e no domínio de seu controle, Gardner e os que com ele trabalham não investigaram com muitos detalhes o papel do sentimento nessas inteligências, concentrando-se mais na cognição sobre o sentimento. Essa concentração, talvez não intencionalmente, deixa inexplorado o rico mar de emoções que torna a vida interior e os relacionamentos tão complexos, tão absorventes, e muitas vezes tão desconcertantes. E deixa por sondar tanto o sentido em que há inteligência nas emoções quanto o sentido em que se pode transmitir inteligência às emoções.

A ênfase de Gardner nos elementos perceptivos nas inteligências pessoais reflete o Zeitgeist [espírito da época] da psicologia que formou suas opiniões. A excessiva ênfase da psicologia na cognição mesmo no campo das emoções deve-se, em parte, a um acidente na história dessa ciência. Durante as décadas de meados deste século, a psicologia acadêmica foi dominada por behavioristas nos moldes de B. F. Skinner, para os quais só o comportamento, que podia ser visto objetivamente, de fora, podia ser estudado com precisão científica. Os behavioristas decretaram toda a vida interior, inclusive as emoções, interditada à ciência.

Depois, com a chegada, em fins da década de 60, da “revolução cognitiva”, o foco da ciência psicológica voltou-se para como a mente registra e armazena informação, e a natureza da inteligência. Mas as emoções continuaram sendo uma zona proibida. O saber convencional entre os cientistas cognitivos afirmava que a inteligência implica um processamento frio e duro dos fatos. É hiper-racional, mais ou menos como o Mr. Spock de Jornada nas estrelas, o arquétipo de secos bytes de informação não confundida pelo sentimento, encarnando a idéia de que as emoções não têm lugar na inteligência e apenas confundem nosso quadro de vida mental.

Os cientistas cognitivos que abraçaram essa opinião foram seduzidos pelo computador como modelo operacional da mente, esquecendo na realidade que os úmidos programas e peças cerebrais bóiam numa poça pegajosa e latejante de produtos neuroquímicos, em nada semelhante ao silício ordenado e sanitizado que gerou a metáfora orientadora da mente. Falta aos modelos predominantes, entre os cientistas cognitivos, de como a mente processa informação, o reconhecimento de que a racionalidade é guiada e pode ser gerada pelo sentimento. O modelo cognitivo é, nesse aspecto, uma visão empobrecida da mente, uma visão que não explica o Sturm und Drang [Tempestade e Ímpeto, movimento romântico alemão de sentimentos que dão sabor ao intelecto. Para persistir nessa opinião, os próprios cientistas cognitivos tiveram de ignorar a importância, para seus modelos da mente, de suas esperanças e medos pessoais, suas disputas conjugais e ciúmes profissionais a inundação de sentimento que dá à vida seu sabor e suas urgências e que a cada momento distorce exatamente a maneira como (e até onde bem ou mal) se processa a informação.

A distorcida visão científica de uma vida mental emocionalmente chã - que orientou os últimos oitenta anos de pesquisa sobre a inteligência - está mudando aos poucos, à medida que a psicologia começa a reconhecer o papel essencial do sentimento no pensamento. Mais ou menos como a spockiana personagem Data em Jornada nas estrelas a geração seguinte, a psicologia começa a apreciar a força e virtudes das emoções na vida mental, assim como seus perigos. Afinal, como vê Data (para sua própria consternação, se pudesse sentir consternação), sua lógica não traz a solução humana certa. Nossa humanidade é mais evidente em nossos sentimentos; Data procura sentir, sabendo que alguma coisa essencial está faltando. Ele quer amizade, lealdade; como o Homem de Lata de O mágico de Oz, falta-lhe um coração. Na falta do senso lírico que traz o sentimento, Data ta pode tocar música ou escrever poesia com virtuosismo técnico, mas não sente sua paixão. A lição do anseio de Data pelo próprio anseio é que faltam inteiramente à fria visão cognitiva os valores mais elevados do coração humano fé, esperança, devoção, amor. As emoções enriquecem; um modelo mental que as ignora se empobrece.

Quando perguntei a Gardner sobre sua ênfase mais nos pensamentos sobre sentimentos, ou metacognição, do que nas próprias emoções, ele admitiu que tendia a ver a inteligência de uma maneira cognitiva, mas me disse:

Quando escrevi pela primeira vez sobre inteligências pessoais, eu estava falando de emoção, sobretudo em minha idéia de inteligência intrapessoal: um dos componentes é o sintonizar-se emocionalmente consigo mesmo. Os sinais de sentimento-visceral que recebemos é que são essenciais para a inteligência interpessoal. Mas ao se desenvolver na prática, a teoria da inteligência múltipla evoluiu e se concentrou mais na metacognição - ou seja, a consciência que se tem do próprio processo mental - que em toda a gama de aptidões emocionais.

Ainda assim, Gardner reconhece como essas habilidades emocionais e relacionais são cruciais no corpo-a-corpo da vida. Ele ressalta:

Muitas pessoas com QIs de 160 trabalham para outras com QIs de 100, se as primeiras têm baixa inteligência intrapessoal e as últimas, alta. E no mundo do dia-a-dia, nenhuma inteligência é mais importante que a intrapessoal. Se não a temos, faremos escolhas errôneas sobre quem desposar, que emprego arranjar, e assim por diante. Precisamos treinar as crianças em inteligências intrapessoais na escola.

PODEM AS EMOÇÕES SER INTELIGENTES

Para se ter uma compreensão mais plena de exatamente como poderia ser esse exercício, temos de nos voltar para outros teóricos que seguem o caminho intelectual de Gardner - mais notadamente um psicólogo de Yale, Peter Salovey, que estabeleceu com bastantes detalhes os modos como podemos transmitir inteligência às nossas emoções. Esse esforço não é novo; com os anos, mesmo os mais ardentes teóricos do QI tentaram às vezes introduzir as emoções no domínio da inteligência, em vez de ver “emoção” e “inteligência” como uma inerente contradição em termos. Assim, E.L. Thorndike, um destacado psicólogo que também foi influente na popularização da idéia do QI nas décadas de 20 e 30, sugeriu em artigo na Harper’s Magazine que um dos aspectos da inteligência emocional, a inteligência “social” a própria capacidade de entender os outros e “agir com sabedoria nas relações humanas” era em si um aspecto do QI de uma pessoa. Outros psicólogos da época adotaram uma visão mais cínica da inteligência social, encarando-a em termos de capacidade de manipular outras pessoas levá-las a fazer a nossa vontade, querendo ou não. Mas nenhuma dessas formulações de inteligência social exerceu muita influência entre os teóricos do QI, e em 1960 um influente livro didático sobre testes de inteligência cia considerou a inteligência social um conceito “inútil”.




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