Daniel goleman, PhD



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A descoberta notável, porém, foi um teste de varredura PET mostrando que os pacientes em terapia de comportamento tinham uma redução tão significativa na atividade de uma parte-chave do cérebro emocional, o núcleo caudato, quanto os pacientes bem-sucedidamente tratados com o medicamento fluoxetina. A experiência deles mudara a função cerebral e aliviara os sintomas tão eficazmente quanto a medicação.

JANELAS CRUCIAIS

De todas as espécies, somos nós, os seres humanos, que levamos mais tempo para nossos cérebros amadurecerem plenamente. Embora cada área do cérebro se desenvolva em ritmo diferente durante a infância, o início da puberdade assinala um dos períodos mais abrangentes de poda em todo o cérebro. Várias áreas cerebrais críticas para a vida emocional são as de mais lento amadurecimento. Embora as áreas sensoriais amadureçam durante a primeira infância, e os sistemas límbicos, na puberdade, os lobos frontais sede do autocontrole emocional, compreensão e hábil resposta continuam a desenvolver-se até o fim da adolescência, até algum ponto entre os dezesseis e os dezoito anos.

Os hábitos de controle emocional repetidos vezes sem conta na infância e na adolescência ajudam eles próprios a moldar esses circuitos. Isso torna a infância uma janela crucial de oportunidade para moldar tendências emocionais de toda a vida; os hábitos adquiridos na infância tornam-se fixos na fiação sináptica básica da arquitetura neural, e são mais difíceis de mudar mais tarde na vida. Em vista da importância dos lobos pré-frontais no controle da emoção, a muito longa janela para a escultura sináptica nessa região do cérebro bem pode significar que, no grande desenho do cérebro, as experiências da criança com os anos moldam ligações duradouras nos circuitos reguladores do cérebro emocional.

Como vimos, entre as experiências críticas estão até onde os pais são confiáveis e respondem às necessidades da criança, as oportunidades e orientação que a criança tem no aprendizado de como lidar com sua perturbação e controlar o impulso, e a prática da empatia. Pelo mesmo motivo, o abandono ou mau trato, a falta de sintonia de um pai voltado para si mesmo ou indiferente ou uma disciplina brutal deixam sua marca nos circuitos emocionais.

Uma das mais essenciais lições emocionais, aprendida primeiro na infância e durante toda ela aprimorada, é como consolar-se quando perturbado. Para os bebês muito novos, o consolo vem de quem cuida deles: a mãe ouve o bebê Chorar, pega-o no colo e balança-o até acalmá-lo. Essa sintonia biológica, sugerem alguns teóricos, ajuda a criança a aprender a fazer o mesmo sozinha.

Durante um período crítico entre dez meses e um ano e meio, a área orbitofrontal o córtex pré-frontal está formando rapidamente as ligações com o cérebro I Claro o cérebro permanece maleável durante límbico que o transformarão numa chave liga-desliga para a perturbação. O bebê medida espetacular vista na infância que, em incontáveis episódios em que é consolado, recebe ajuda para aprender no cérebro o fortalecimento de uma ligação a acalmar-se, diz a especulação, terá ligações mais fortes nesse circuito para dos pacientes com perturbações obsessivo-compulsivas controle da perturbação, e assim, por toda a vida, será melhor em consolar-se emocionais são maleáveis durante toda quando perturbado. mesmo no nível neural. O que acontece Claro, a arte de consolar-se é dominada em muitos anos, e com novos meios à medida que o amadurecimento do cérebro oferece à criança, progressivamente ferramentas emocionais mais sofisticadas. Lembrem, os lobos pré-frontais, tão Algumas das mais reveladoras dessas importantes no controle do impulso límbico, amadurecem na adolescência. hábitos emocionais diferentes instilados Outro circuito-chave que continua a formar-se na infância centra-se no nervo necessidades emocionais de uma criança vago, que numa ponta regula o coração e outras partes do corpo, e na outra disciplina inclui empatia, de um lado, envia sinais das adrenais para a amígdala, levando-a a secretar as catecolaminas, ignoram a aflição da criança ou a disciplinam que preparam a resposta lutar-ou-fugir. Uma equipe da Universidade de Grande parte da psicoterapia é, num certo Washington que avaliou o impacto da criação dos filhos descobriu que pais parao quefoi distorcido ou completamente emocionalmente capazes levavam a uma mudança para melhor na função do não fazermos o que podemos para prevenir nervo vago. a proteclo e odenlaoão que culhvam aa Como explicou John Gottman, o psicólogo que chefiou a pesquisa: Ç Os pais modificam o tom vagal dos filhos (uma medida da facilidade com que o nervo vago é disparado), treinando-os emocionalmente: conversando com eles sobre seus sentimentos e como compreendê-los, não se mostrando críticos nem julgadores, solucionando problemas de provação sentimental, ensinandoLhes o que fazer, como as alternativas para bater, ou retirar-se quando se está triste.

Quando os pais faziam isso bem, as crianças eram mais capazes de suprimir :

a atividade vagal que mantém a amígdala preparando o corpo com hormônios :

para lutar ou fugir e assim eram mais bem-comportadas.

É racional que as aptidões-chave da inteligência emocional tenham, cada uma, períodos críticos que se estendem por vários anos na infância. Cada período representa uma janela para ajudar a criança a absorver hábitos emocionais benéficos ou, se perdida a oportunidade, torná-la tanto mais difícil de receber lições Corretivas a terapia esses padrões tendem a permanecer como tendências subjacentes, embora com uma sobrecamada de novas intuições e respostas reaprendidas.

Claro, o cérebro permanece maleável durante toda a vida, embora não na medida espetacular vista na infância. Todo aprendizado implica uma mudança no cérebro, o fortalecimento de uma ligação sináptica. As mudanças no cérebro dos pacientes com perturbações obsessivo-compulsivas mostram que os hábitos emocionais são maleáveis durante toda a vida, com algum esforço constante, mesmo no nível neural. O que acontece com o cérebro no PTSD ( ou terapia, aliás) é um análogo dos efeitos trazidos por todas as experiências emocionais repetidas ou intensas para melhor ou para pior.

Algumas das mais reveladoras dessas lições são de pai para filho. Há muitos hábitos emocionais diferentes instilados pelos pais cuja sintonia significa que as necessidades emocionais de uma criança são reconhecidas ou satisfeitas, ou cuja disciplina inclui empatia, de um lado, ou pais voltados para si mesmos, que ignoram a aflição da criança ou disciplinam severamente, gritando e batendo. Grande parte da psicoterapia é, num certo sentido, um remédio orientacional para o que foi distorcido ou completamente perdido antes da vida. Mas por que não fazemos o que podemos para prevenir essa necessidade, dando às crianças a proteção e orientação que cultivam as aptidões emocionais essenciais, para começar?

PARTE CINCO ALFABETIZAÇÃO EMOCIONAL 15 O PREÇO DO ANALFABETISMO EMOCIONAL

Começou como uma briguinha, mas cresceu. Ian Moore, ultimanista no Ginásio Jetferson, em Brooklyn, e Tyrone Sinkler, primeiranista, tinham brigado com um colega de quinze anos, Khalil Sumpter. Depois passaram a provocá-lo e a fazer-lhe ameaças. Então a coisa explodiu.

Khalil, com medo de que Ian e Tyrone fossem bater-lhe, trouxe uma pistola calibre 38 para a escola uma manhã, e, a uns três metros do guarda do ginásio, matou os dois garotos com tiros disparados à queima-roupa no corredor.

O incidente, por mais arrepiante que seja, pode ser interpretado como mais um sinal da desesperada necessidade de lições sobre como controlar as emoções, resolver disputas em paz e simples convivência. Os educadores, há muito perturbados com as notas baixas dos alunos em matemática e leitura, começam a compreender que existe uma deficiência diferente e mais alarmante: o analfabetismo emocional. E embora se estejam fazendo esforços louváveis para elevar os padrões acadêmicos, essa nova e perturbadora deficiência não está sendo abordada no currículo escolar padrão. Como disse um professor de Brooklyn, a atual ênfase nas escolas sugere que “nos preocupemos mais com a qualidade da leitura e escrita dos alunos do que em saber se eles vão estar vivos na semana que vem”.

Podem-se ver sinais dessa deficiência em incidentes violentos como os tiros em Ian e Tyrone, que se tornam cada vez mais freqüentes nas escolas americanas.

Mas esses são mais que simples incidentes isolados; pode-se ler o aumento da turbulência da adolescência e problemas da infância nos Estados Unidos um arauto de tedências mundiais em estatísticas como as seguintes.

Em 1990, em comparação com as duas décadas anteriores, os Estados Unidos de 70 e no fim tiveram a mais alta taxa de prisões de jovens por crimes violentos; as prisões de uma piora constante de adolescentes por estupro dobraram; as taxas de assassinato por adolescentes quadruplicaram, em sua maioria devido ao aumento de tiroteios. Durante as se saindo de modo mesmas duas décadas, a taxa de suicídios de adolescentes triplicou como e Retraiment aconteceu tom o número de crianças de menos de quatorze anos vítimas de amuar-e muito assassinato. t dente Mais,e mais jovens,adolescentes engravidam Em 1993, a taxa de nascimentos entre meninas de dez a quatorze anos aumentara constantemente durante cinco i i id anos seguidos - alguns falam em “bebês que têm bebês” como aconteceu e d p com a proporção de gravidezes indesejadas em adolescentes e a pressão de · Prohlemas de colegas para fazer sexo. As taxas de doenças venéreas triplicaram nas últimas agir sem pensar;

três décadas. de escola; mcapaz Embora esses números sejam desencorajadores, se se olha a juventude · Delinqüente afro-americana, sobretudo nos centros urbanos, eles são absolutamente sombrios tl mentir e trapacear;

todas as taxas são muito mais altas às vezes triplicadas ou mais ainda Por t destru r as exemplo, o uso de heroína e cocaina entre a juventude branca subiu cerca de 00 por cento nas duas décadas antes da de 90, para os afro-americanos, saltou assombrosas 13 vezes a taxa de vinte anos antes. IE Embora cada A maior causa de invalidez entre adolescentes é a doença mental. sintomas I como grupo são de depressão, maiores ou menores, afetam até um terço dos adolescentes; nas toxicidade vazando garotas, a incidência de depressão dobra na puberdade A freqüência de doabrangentesdéficitsdeaptidõesemo problemas de gula nas adolescentes foi para o espaço. ser um preço universal Finalmente, a menos que as coisas mudem, as perspectivas a longo prazo de paracão com os as crianças de hoje casarem-se e terem uma vida proveitosa e estável juntas do mesmo nível tornam-se cada vez mais lúgubres a cada geração Como vimos no Capítulo 9, 80, professores enquanto nas décadas de 70 e 80 a taxa de divórcio era por volta de 50 por mais ou menos no cento ao entrarmos na de 90 a taxa entre recém-casados previa que dois em cada três americanaS em 1976.

três casamentos de jovens acabariam em divórcio.

UM MAL-ESTAR EMOCIONAL

Essas estatísticas alarmantes são como o canário no túnel do mineiro, cuja morte avisa que há pouco oxigênio. Além desses números advertentes, a situação das crianças de hoje pode ser vista em níveis mais sutis, em problemas do dia-a-dia que ainda não desabrocharam em crises mesmo.

Talvez os dados mais reveladores de todos, um barômetro direto da queda nos níveis de competência emocional, venham de uma amostra nacional de crianças americanas de sete a dezesseis anos, comparando sua condição emocional em meados da década de 70 e no fim de 80. Com base em avaliações de pais e professores, houve uma piora constante. Nenhum problema se destacou todos os indicadores se arrastaram para o lado errado. As crianças, em média, estavam se saindo de modo mais medíocres nos seguintes pontos específicos:

Retraimento ou problemas sociais: preferir ficar só; ser cheio de ser segredos; amuar-se muito; falta de energia; sentir-se infeliz; ser demasiado dependente.

-ansioso e deprimido: ser solitário; ter muitos medos e preocupações; necessidade de ser perfeito; sentir-se desamado; sentir-se nervoso ou triste e deprimido.

-Problemas de atenção ou de pensar: incapaz de prestar atenção; devaneio; agir sem pensar; nervoso de mais para concentrar-se; sair-se mal no trabalho de escola; incapaz de afastar pensamentos.

-Delinquente ou agressivo: andar com garotos que se matem em encrencas;mentir e trapacear;discutir muito; ser mau com os outros;

exigir atenção;destruir as coisas dos outros; desobedecer em casa e na escola;ser teimoso e macambúzio; falar demais; ser esquentado.

Embora cada um desses problemas, isolado, não cause estranheza, tomados como grupo são barômetros de uma mudança de maré, um novo tipo de toxidade vasando e envenenando a própria experiência da infância, significando déficits de aptidões emocionais . Esse mal-estar emocional parece ser um preço universal da vida moderna para as crianças. Embora os americanos denunciem seus problemas como particularmente ruins, em comparação com o de outras culturas estudos em todo o mundo constatam taxas do mesmo nível ou piores que nos Estados Unidos. Por exemplo, na década de 80 professores e pais na Holanda ,China e Alemanha classificavam as crianças mais ou menos no mesmo nível de problemas constatados para as crianças americanas em 1976. E alguns países tinham crianças em piores condições que os atuais níveis americanos, incluindo Austrália, França e Tailândia. Mas isso talvez não continue assim por muito tempo. As forças maiores que empurram para baixo a espiral descendente em competência emocional parecem estar velocidade nos Estados Unidos em relação a muitos outros países desenvolvidos.

Nemhuma criança rica ou pobre, está livre de riscos; esses problemas são universais e ocorre em todos os grupos étnicos, raciais e de renda.

Assim, as crianças na pobreza tenham o pior registro em indicadores emocionais, sua taxa de deterioração com o correr das décadas não foi pior que a das crianças da classe média ou rica: todas mostram a mesma queda constante.

Também houve um triplo aumento correspondente no número de crianças que receberam ajuda psicológica (talvez um bom sinal, mostrando que se pode contar com mais ajuda), além de uma quase duplicação do número de crianças com bastantes problemas emocionais para que devessem receber essa ajuda, mas que não a recebem (um mau sinal) - de cerca de 9 por cento em 1976 para 18 por cento em 1989.

Urie Bronfenbrenner, o eminente psicólogo da Universidade Comell que fez uma comparação internacional do bem-estar das crianças, diz:

Na falta de bons sistemas de apoio, as tensões externas tornaram-se tão grandes que mesmo famílias fortes estão desmoronando. A febre, instabilidade e inconsistência da vida diária grassam em todos os segmentos de nossa sociedade, incluindo os bem-educados e ricos. O que está em jogo é nada menos que a próxima geração, sobretudo os homens, que ao crescerem são especialmente vulneráveis a forças desintegradoras como os efeitos devastadores do divórcio, pobreza e desemprego. O status das crianças e famílias americanas está mais desesperado que nunca... Estamos privando milhões de crianças de sua competência e caráter moral.

Não é só um fenômeno americano, mas global, com a competição mundial para empurrar os custos da mão-de-obra para baixo criando forças econômicas que pressionam a família. Vivemos tempos de famílias economicamente acossadas, em que os dois pais trabalham longas horas, de modo que os filhos são deixados a seus próprios recursos ou à TV como babá; em que mais crianças do que nunca são criadas na pobreza; em que a família de um só dos pais se torna cada vez mais comum; em que mais bebês e crianças pequenas são deixados em creches tão mal operadas que equivalem a abandono. Tudo isso significa, mesmo para pais bem-intencionados, a erosão dos incontáveis pequenos e protetores intercambios entre pai e filho que constroem as aptidões emocionais.

Se as famílias não mais funcionam eficientemente para dar a todas as nossas crianças uma base firme na vida, que vamos fazer? Uma olhada mais cuidadosa na mecânica dos problemas específicos sugere como determinados dados sobre aptidões emocionais ou sociais deitam as fundações para graves problemas e como corretivos ou preventivos bem orientados podem manter mais crianças na linha.

DOMANDO A AGRESSÃO Em minha escola primária, o garoto valentão era Jimmy, quartanista quando entrei na primeira série. Era o garoto que roubava o dinheiro da nossa merenda, tomava nossa bicicleta, preferia bater-nos a conversar conosco.

Era o arruaceiro clássico,partindo para a briga à menor provocação, ou sem provocação. Todos tínhamos medo dele e mantínhamos distância. Todos o detestavam e temiam; ninguém queria brincar com ele. Era como se a toda parte que ele fosse no pátio um invisível guarda-costas afastasse as crianças da frente.

Garotos como Jimmy são visivelmente perturbados. Mas o que talvez seja menos óbvio é que uma agressividade tão flagrante na infância é um sinal de perturbações emocionais e outras futuras. Jimmy já estava na cadeia por agressão aos dezesseis anos.

O legado para toda a vida da agressividade na infância de garotos como Jimmy tem surgido em muitos estudos. Como vimos, a vida familiar dessas crianças agressivas inclui, tipicamente, pais que alternam abandono com castigos severos e arbitrários, um padrão que, talvez compreensivelmente, torna a criança meio paranóica ou combativa.

Nem todas as crianças iradas são valentões; algumas são marginalizados sociais retraídos, que reagem com exagero às provocações ou ao que encaram como ofensas ou injustiças. Mas a falha perceptiva que une essas crianças é que vêem ofensa onde não há, imaginando que os colegas Lhe são mais hostis do que na verdade são. Isso as leva a tomar atos neutros como ameaçadores um inocente esbarro é visto como uma vingança e a atacar em retribuição. Isso, claro, leva as outras crianças a evitá-las, isolando-as mais ainda. Essas crianças zangadas, isoladas, são muitíssimo sensíveis a injustiças e a serem tratadas sem isenção.

Vêem-se, tipicamente, como vítimas e podem recitar uma lista de exemplos em que, digamos, os professores as culpam por terem feito alguma coisa que na verdade não fizeram. Outra característica dessas crianças é que, uma vez no calor da raiva, só pensam num modo de reagir: na porrada.

Vêem-se essas distorções perceptivas em ação numa experiência em que valentõe são combinados com crianças mais pacíficas para uma sessão de vídeos.

Num dos vídeos, um garoto deixa cair os livros quando outro esbarra nele, e as crianças em redor riem; o garoto que deixou cair os livros se zanga e tenta bater num dos que riram. Quando os garotos que viram o vídeo conversam sobre ele depois, o valentão sempre vê o garoto que bateu como certo. Mais revelador ainda, quando têm de classificar a agressividade dos garotos durante a discussão do vídeo, os valentões vêem o garoto que esbarrou no outro como mais combativo e a raiva do menino que bateu como justificada.

Essa pressa em julgar denuncia uma profunda distorção perceptiva nas pessoas em geral agressivas: agem com base na presunção de hostilidade ou ameaça, dando muito pouca atenção ao que de fato se passa. Assim que presumem ameaça saltam em ação. Por exemplo, se um garoto agressivo joga xadrez com outro que mexe uma pedra fora de hora, ele interpreta a jogada como trapaça”.

sem parar para descobrir se foi um erro inocente. Sua suposição é mais de maldade que de inocência; e a reação, de hostilidade automática. Juntamente com a percepção reflexa de um ato hostil, vem uma agressão igualmente automática; em vez de, digamos, indicar ao outro garoto que ele cometeu um engano, ele salta para a acusação, berrando, batendo. E quanto mais essas crianças fazem isso, mais automática se torna para elas a agressão, e mais o repertório de alternativas a polidez, o gracejo se reduz.

Essas crianças são emocionalmente vulneráveis, no sentido de que têm um baixo limiar de perturbação, irritando-se muitas vezes com mais coisas; uma vez perturbadas, ficam com o pensamento confuso, de modo que vêem atos benignos como hostis e recaem no superaprendido hábito de bater.

Essas distorções perceptivas para a hostilidade já estão a postos na primeira série. Enquanto a maioria das crianças, e sobretudo os meninos, é bagunceira no jardim de infância e na primeira série, as mais agressivas não aprenderam um mínimo de autocontrole na segunda série. Quando outras crianças já começaram a aprender a negociar e chegar a um acordo nas disputas do pátio, os valentões confiam cada vez mais na força e no grito. Eles pagam um preço social: em duas ou três horas do primeiro contato no pátio de recreio com um valentão, as outras crianças já dizem que não gostam dele.

Mas estudos que acompanharam crianças desde os anos do pré-escolar até a adolescência constatam que até metade dos alunos que na primeira série eram perturbadores, incapazes de se dar com os outros, desobedientes com os pais e resistentes com os professores, se torna delinqüente na adolescência. Claro, nem todas essas crianças agressivas estão na trajetória que leva à violência e à criminalidade na vida posterior. Mas de todas as crianças, são essas as que correm maior risco de acabar cometendo crimes violentos.

A tendência para o crime aparece surpreendentemente cedo na vida dessas crianças. Quando as crianças de um jardim de infância de Montreal foram classificadas pela hostilidade e criação de casos, as de maiores índices aos 5 anos já tinham dado muito mais provas de delinqüência apenas cinco a oito anos depois, no início da adolescência. Tinham cerca de três vezes mais probabilidades que as outras crianças de admitir ter batido em alguém que não Lhes fizera nada, furtado lojas, usado uma arma numa briga, arrombado ou roubado peças de carro, e se embriagado - tudo isso antes de chegarem aos quatorze anos.

O protótipo do caminho para a violência e a criminalidade começa com crianças agressivas e difíceis de lidar na primeira e segunda séries. Tipicamente desde os primeiros anos de escola seu mal controle de impulsos também contribui para serem maus estudantes, vistos e vendo-se como “burros” - um julgamento confirmado pelo fato de serem mandados para classes de educação especial (e embora possam ter um maior nível de “hiperatividade” e problemas de aprendizado, nem todas os têm). As crianças que, ao entrarem na escola, já aprenderam em casa um estilo “coercitivo” ou seja, ameaçador também são descartadas pelos professores, que têm de passar muito tempo mantendo os alunos na linha.

O desafio das regras da sala de aula que acompanha naturalmente essas crianças significa que elas gastam tempo que de outro modo seria usado em aprender; o futuro fracasso acadêmico fica óbvio por volta da terceira série. Embora os meninos a caminho da delinqüência tendam a ter contagens de QI mais baixas que os colegas, a impulsividade deles está mais diretamente em causa: a impulsividade em meninos de dez anos é quase três vezes mais poderosa como fator de previsão de sua posterior delinqüência que o QI.

Na quarta ou quinta séries, esses garotos a essa altura vistos como arruaceiros, ou apenas “difíceis” são rejeitados pelos colegas e incapazes de fazer amigos com facilidade, quando fazem, e já se tornaram fracassos acadêmicos. Sentindo-se sem amigos, gravitam para outros marginalizados sociais. Entre a quarta série e o segundo grau, ligam-se ao seu grupo marginalizado e a uma vida de desafio à lei; apresentam um aumento de cinco vezes em gazetas, consumo de bebidas e drogas, com o maior impulso entre a sétima e a oitava séries. No secundário, junta-se a eles outro tipo de “atrasados”, atraídos por seu estilo contestador; esses atrasados muitas vezes são meninos completamente sem supervisão em casa, e começaram a vagar pelas ruas por conta própria ainda na escola primária. Nos anos de ginásio, esse grupo marginalizado, tipicamente, abandona a escola, numa deriva para a delinqüência, dedicando-se a pequenos delitos como furtos em lojas, roubos e tráfico de drogas.

Uma diferença reveladora surge nessa trajetória entre meninos e meninas.




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