Daniel goleman, PhD



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A maldade de Martin, em lugar da empatia, é típica de outras crianças como ele, já nessa tenra idade marcadas por severos maus-tratos físicos e emocionais em casa. Martin fazia parte de um grupo de nove dessas crianças, de um a três anos, observadas durante um período de duas horas em sua creche. As crianças maltratadas foram comparadas com outras nove, numa creche para famílias igualmente pobres e de grande tensão, mas que não sofriam maus-tratos físicos.

As diferenças no modo como os dois grupos reagiam quando outra criança se machucava ou perturbava eram nítidas. De vinte e três desses incidentes, cinco das nove crianças não maltratadas reagiram à perturbação de uma criança ao lado com preocupação, tristeza ou empatia. Mas em vinte e sete casos onde as crianças maltratadas podiam ter feito isso, nenhuma mostrou a mínima preocupação; ao contrário, reagiram à criança a chorar com manifestações de medo, ira, ou, como Martin, com um ataque físico.

Uma menina maltratada, por exemplo, armou uma expressão feroz, ameaçadora, para outra que caíra no choro. Um certo Thomas, de dois anos, outra das crianças maltratadas, ficou paralisado de terror quando ouviu uma criança chorando do outro lado da sala; quedou-se completamente imóvel, o rosto tomado de medo, as costas rigidamente eretas, a tensão aumentando à medida que o choro continuava como preparando-se para sofrer um ataque ele próprio. E Kate, de dois anos e quatro meses, também maltratada, foi quase sádica: escolhendo Joey, um menino menor, derrubou-o no chão com os pés e, uma vez ele caído, olhou-o e pôs-se a dar-lhe delicados tapinhas nas costas apenas para intensificar os tapas cada vez com mais força, ignorando o desespero do coleguinha. Continuou a atacá-lo, curvando-se para esmurrá-lo até ele afastar-se, arrastando-se.

Essas crianças, claro, tratam as outras como elas próprias foram tratadas. E a desumanidade dessas crianças maltratadas é simplesmente uma versão mais extremada vista em crianças cujos pais são críticos, ameaçadores e severos em seus castigos. Essas crianças também tendem a não se preocupar quando os coleguinhas se machucam ou choram; parecem representar um extremo de uma progressão de frieza que culmina na brutalidade das crianças maltratadas. No caminho pela vida, como grupo, elas têm mais probabilidade de apresentar problemas cognitivos no aprendizado, ser mais agressivas e impopulares com os colegas (o que não admira, se sua brutalidade no pré-escolar é um prenúncio do futuro), mais inclinadas à depressão, e, como adultos, a meter-se em encrencas com a lei e cometer mais crimes violentos.

Essa ausência de empatia repete-se às vezes, se não freqüentemente, nas gerações seguintes, com pais brutais tendo sido eles próprios brutalizados pelos pais na infância. É um dramático contraste com a empatia em geral apresentada por filhos de pais protetores, que encorajam os filhos pequenos a mostrar interesse pelos outros e compreender como a maldade faz as outras crianças se sentirem Não tendo tais lições de empatia, essas crianças parecem não aprendê-la de modo algum.

O que talvez mais perturba nas crianças maltratadas é como parecem ter aprendido cedo a reagir como versões em miniatura de seus pais brutais. Mas em vista dos espancamentos que receberam às vezes como uma dieta diária, as lições emocionais são demasiado claras. Lembrem-se de que é nos momentos em que as paixões se exacerbam ou estamos em crise que as tendências primitivas dos centros límbicos do cérebro assumem um papel mais dominante. Nesses momentos, os hábitos que o cérebro emocional aprendeu repetidas vezes irão dominar, para melhor ou pior.

Ver como o próprio cérebro é moldado pela brutalidade pela força sugere que a infância representa uma janela especial de oportunidade para lições emocionais. Essas crianças espancadas tiveram uma dieta inicial e constante de trauma. Talvez o mais instrutivo paradigma para entender o aprendizado pelo qual passaram essas crianças maltratadas esteja em ver como o trauma pode deixar uma marca duradoura no cérebro e como mesmo essas marcas bárbaras podem ser sanadas.

Trauma e Reaprendizado Emocional

Som Chit, uma refugiada cambojana, recusou quando os três filhos Lhe pediram que comprasse metralhadoras AK47 de brinquedo para eles. Os garotos de seis, sete e nove anos queriam as armas para participar da brincadeira que alguns dos colegas de escola chamavam de Purdy. Na brincadeira, Yurdy, o vilão, usa uma submetralhadora para massacrar um grupo de crianças, e depois a volta contra si mesmo. Mas às vezes as crianças dão um final diferente: são elas que o matam.

Purdy era a macabra reencenação, por alguns dos sobreviventes, dos catastróficos acontecimentos de 17 de fevereiro de 1989, na Escola Primária Cleveland, em Stockton, Califórnia. Ali, durante o recreio do meio-dia para crianças da primeira, segunda e terceira séries, Patrick Purdy que tinha ele próprio estudado na Cleveland uns vinte anos antes postou-se à beira do pátio e disparou rajadas e mais rajadas de balas 7,22 mm sobre as centenas de crianças que brincavam. Durante sete minutos, espalhou balas pelo pátio, depois encostou uma pistola na cabeça e matou-se. Quando a polícia chegou, encontrou cinco crianças mortas e vinte e nove feridas.

Nos meses seguintes, o jogo Purdy apareceu espontaneamente nas brincadeiras dos meninos e meninas da Cleveland, um dos muitos sinais de que aqueles sete minutos e seu resultado ficaram marcados na memória das crianças. Quando visitei a escola, que fica apenas a uma pequena corrida de bicicleta do bairro vizinho da Universidade do Pacífico onde eu próprio fui criado, fazia cinco meses u Purdy transformara o recreio num pesadelo. Sua presença ainda era palpável embora os mais horríveis dos sangrentos restos do tiroteio, enxames de buracos de balas, poças de sangue, pedaços de carne, pele e couro cabeludo houvessem desaparecido na manhã seguinte após o incidente, lavados e pintados.

Aquela altura, as mais profundas marcas na Cleveland não estavam no prédio, mas na psique das crianças e do corpo docente, que tentavam continuar a vida de sempre Talvez mais impressionante fosse como a lembrança daqueles poucos minutos era revivida repetidas vezes por qualquer pequeno detalhe que tivesse a mínima semelhança. Um professor me disse, por exemplo, que uma onda de medo varrera a escola com o anúncio de que se aproximava o Dia de São Patricio; algumas crianças, de algum modo, conceberam a idéia de que o dia era em homenagem ao assassino, Patrick Purdy.

Sempre que ouvimos uma ambulância a caminho do asilo de velhos rua abaixo, tudo pára - disse-me outro professor. As crianças ficam todas à escuta para ver se ela pára aqui ou segue adiante.

Durante muitas semanas, muitas crianças ficavam aterrorizadas com os espelhos dos banheiros; correra na escola o boato de que a “Sangrenta Virgem Maria”, uma espécie de monstro de fantasia, escondia-se ali. Semanas após o tiroteio, uma menina correra frenética à diretora da escola, Pat Busher, berrando:

- Estou ouvindo tiros! Estou ouvindo tiros!

O som era da corrente balançando num poste de teterball.

Muitas crianças tornaram-se supervigilantes, continuamente em guarda contra uma repetição do terror; alguns meninos e meninas passavam o recreio rondando perto das portas da sala de aula, não se atrevendo a sair para o pátio onde haviam ocorrido os assassinatos. Outros só brincavam em grupos pequenos, colocando uma determinada criança de vigia. Muitos continuaram durante meses a evitar as áreas “más”, onde as crianças haviam morrido.

As lembranças continuaram, também, como sonhos perturbadores, invadindo as mentes desprotegidas das crianças no sono. Além de pesadelos que repetiam o próprio tiroteio, elas eram invadidas por sonhos de ansiedade que as deixavam com apreensões de que também iriam morrer breve. Algumas tentavam dormir de olhos abertos para não sonhar.

Todas essas reações eram bem conhecidas dos psiquiatras como os sintomas chave do distúrbio da tensão pós-traumática (PTSD - do inglês post-traumatic stresS disorder) No centro desse trauma, diz o Dr. Spencer Eth, psiquiatra infantil especializado em PTSD nas crianças, está “a intrusa” lembrança da ação violenta central o golpe final com o punho, a faca entrando, o disparo de uma espingarda.

As lembranças são experiências perceptivas intensas - a visão, o som e o cheiro dos tiros:

os gritos ou o súbito silêncio da vítima; o espadanar do sangue; as sirenes da polícia”.

Esses momentos vívidos, aterrorizantes, dizem hoje os neurocientistas tornam se lembranças impressas nos circuitos emocionais. Os sintomas são, na verdade sinais de uma amígdala superestimulada impelindo as vívidas lembranças do momento traumático a continuar invadindo a consciência. Como tal, as lembranças traumáticas tornam-se gatilhos sensíveis, prontos para soar o alarme ao menor sinal de que o momento temido está para acontecer mais uma vez. Esse fenômeno de gatilho sensível é uma marca característica de todos os tipos de trauma emocional, incluindo os repetidos maus tratos físicos na infância.

Qualquer fato traumatizante pode gravar essas lembranças disparadoras na amígdala: um incêndio ou acidente de carro, uma catástrofe natural como terremoto ou furacão, estupro ou assalto. Centenas de milhares de pessoas todo ano sofrem essas tragédias, e muitas ou a maioria saem delas com o tipo de ferimento emocional que deixa sua marca no cérebro.

Os atos de violência são mais perniciosos que catástrofes naturais como os furacões porque, ao contrário das vítimas de um desastre natural, as de uma violência se sentem intencionalmente escolhidas como alvos de uma maldade.

Esse fato despedaça as crenças sobre a confiabilidade das pessoas e a segurança do mundo interpessoal, crenças que as catástrofes naturais deixam intatas. Num instante, o mundo social torna-se um lugar perigoso, em que as pessoas são ameaças potenciais à nossa segurança.

As crueldades humanas gravam na memória de suas vítimas um modelo que encara com medo qualquer coisa vagamente semelhante ao próprio ataque. Um homem que foi golpeado na nuca, sem ter visto o atacante, ficou tão amedrontado depois, que tentava andar na rua pouco à frente de uma velha, para sentir-se seguro de que não seria de novo atingido na nuca. Uma mulher assaltada por um homem que entrou num elevador com ela e a obrigou a sair a ponta de faca num andar desocupado ficou durante semanas com medo de entrar não só em elevadores, mas também no metrô ou qualquer outro espaço fechado onde pudesse sentir-se acuada; saiu correndo de seu banco quando viu um homem enfiar a mão no paletó como tinha feito o assaltante.

A marca do horror na memória e a supervigilância resultante podem durar a vida inteira, como constatou um estudo de sobreviventes do Holocausto. Quase cinqüenta anos depois de terem sofrido fome, o massacre de seus entes queridos e o terror constante nos campos de morte nazistas, as lembranças que os perseguiam continuavam vivas. Um terço dizia sentir um medo generalizado Quase três quartos disseram que ainda ficavam ansiosos com coisas que lembravam a perseguição nazista, como a visão de um uniforme, uma batida na porta, cães latindo, ou fumaça subindo de uma chaminé. Cerca de 60 por cento disseram que pensavam no Holocausto quase diariamente; mesmo meio século depois, até oito em dez ainda sofriam de pesadelos recorrentes. Como disse um sobrevivente:

Se você passou por Auschwitz e não tem pesadelos, você não é normal.

O HORROR CONGELADO NA LEMBRANÇA

Palavras de um veterano do Vietnã, de quarenta e oito anos, cerca de vinte e quatro anos depois de passar por um momento horrorizante numa terra distante:

Não consigo afastar a lembrança da mente! As imagens voltam como uma inundação em vívidos detalhes, provocadas pelas coisas mais inconseqüentes, como uma porta batendo, a visão de uma oriental, o contato com um tapete de bambu ou o cheiro de costeleta de porco frita. Ontem à noite eu fui para a cama, dormir bem para variar. Aí, de madrugada, veio uma tempestade e um trovão.

Acordei no mesmo instante, gelado de medo. Estou de volta ao vietnã, no meio da estação das monções, em meu posto de sentinela. Estou convencido de que vou ser atingido na próxima rajada e morrer. As mãos geladas, mas suando pelo corpo inteiro. Sinto cada fio de cabelo da nuca eriçar-se. Não consigo respirar, o coração martela. Sinto um cheiro úmido de enxofre. De repente, vejo o que restou de meu companheiro Troy... numa bandeja de bambu, mandada para nosso acampamento pelos vietcongues... o relâmpago e o trovão seguintes me abalam de tal modo que caiu no chão.

A lembrança horrível, vividamente nova e detalhada apesar de mais de duas décadas passadas, ainda tem o poder de causar nesse ex-soldado o mesmo medo que ele sentiu naquele dia fatídico. O PTSD representa um perigoso rebaixamento do ponto de alarme, deixando a pessoa reagir aos momentos comuns da vida como se fossem emergências. O circuito seqüestrador discutido no Capítulo 2 parece crítico no deixar uma marca tão poderosa na memória: quanto mais brutais, chocantes e horrendos os fatos que disparam o seqüestro da amígdala, mais indelével a lembrança. A base neural dessas lembranças parece ser uma generalizada alteração na química do cérebro posta em movimento por um único exemplo de terror arrasador.4 Embota as constatações do PTSD se baseiem tipicamente no impacto de um episódio, resultados semelhantes podem vir de crueldades infligidas num período de anos, como acontece com crianças sexual, física ou emocionalmente maltratadas.

O mais detalhado trabalho sobre essas mudanças no cérebro está sendo feito no Centro Nacional do Distúrbio da Tensão Pós-Traumática, uma rede de locais de pesquisa com base em hospitais da Administração dos Veteranos, onde há grandes concentrações dos que sofrem de PTSD entre veteranos do Vietnã e outras guerras. Foi de estudos sobre veteranos como esses que veio a maior parte do nosso conhecimento do PTSD. Mas essas intuições também se aplicam a crianças que sofreram severo trauma emocional, como as da Escola Cleveland

As vítimas de um trauma devastador talvez jamais voltem a ser as mesmas biologicamente disse-me o Dr. Dennis Chamey.S Psiquiatra de Yale, ele é diretor de neurociência clínica no Centro Nacional. Não importa se foi o incessante terror do combate, da tortura ou dos repetidos maus-tratos na infância ou uma experiência única, como ver-se preso num furacão ou quase morrer num acidente de carro. Toda tensão incontrolável pode ter o mesmo efeito biológico.

A palavra-chave é incontrolável. Se as pessoas sentem que podem fazer alguma coisa numa situação catastrófica, exercer algum controle, por menor que seja, saem-se melhor, em termos emocionais, do que as que se sentem absolutamente impotentes. O elemento de impotência é que torna um determinado fato subjetivamente arrasador. Como me disse o Dr. John Krystal, diretor do Laboratório de Psicofarmacologia Clínica do centro:

- Digamos que alguém que é atacado com uma faca sabe se defender e age, enquanto outra pessoa na mesma situação pensa: “Estou morto.” A pessoa impotente é a mais susceptível de PTSD depois. É a sensação de que a vida da gente está em perigo e a gente não pode fazer nada para escapar: é esse o momento em que começa a mudança no cérebro.

A impotência como o coringa na provocação do PTSD foi demonstrada em dezenas de estudos sobre pares de ratos de laboratório, cada um numa gaiola diferente, cada um recebendo leves mas, para um rato, bastante tensionantes choques elétricos de idêntica severidade. Só que um dos ratos tem uma alavanca em sua gaiola; quando ele a empurra, o choque cessa nas duas gaiolas.

Durante dias e semanas, os ratos recebem precisamente a mesma quantidade de choques. Mas o que tem o poder de desligar os choques sai sem sinais duradouros

de tensão. Só no rato impotente é que ocorrem as mudanças no cérebro induzidas pela tensão. Para uma criança que é alvejada no pátio de uma escola, que vê os coleguinhas sangrando e morrendo ou para um professor ali, incapaz de deter a carnificina a impotência deve ter sido palpável.

O PTSD COMO DISTÚRBIO LÍMBICO

Fazia meses que um enorme terremoto a jogara para fora da cama e a fizera sair gritando em pânico pela casa às escuras à procura do filho de quatro anos. Os dois passaram horas abraçados na fria noite de Los Angeles, sob a proteção de um vão de porta, presos ali sem comida, água ou luz, com as sucessivas ondas de tremores posteriores revolvendo o solo a seus pés. Hoje, meses depois, ela já recuperou em grande parte do pânico imediato que se apoderava dela nos primeiros dias depois, quando o bater de uma porta a fazia começar a tremer de medo. O único sintoma que ficou foi a impossibilidade de dormir, um problema que só a ataca nas noites em que o marido está ausente como na noite do terremoto.

Os principais sintomas desse medo aprendido inclusive o tipo mais intenso, o PTSD podem ser explicados por mudanças nos circuitos límbicos que se concentram na amígdala. Algumas das mudanças-chave se dão no locus ceruleus, uma estrutura que regula a secreção pelo cérebro de suas substâncias, chamadas catecolaminas a adrenalina e a noradrenalina. Esses produtos neuroquímicos mobilizam o corpo para uma emergência; a mesma onda de catecolamina grava lembranças com uma força especial. No PTSD, esse sistema torna-se hiper-reativo, secretando doses extragrandes desses produtos químicos do cérebro, em resposta a situações que apresentam pouca ou nenhuma ameaça, mas que de algum modo são lembretes do trauma original, como as crianças da Escola Primária Cleveland que entravam em pânico quando ouviam uma sirene de ambulância semelhante às que tinham ouvido na escola após o tiroteio.

O locus ceruleus e a amígdala estão estreitamente ligados, junto com outras estruturas límbicas como o hipocampo e o hipotálamo: os circuitos das catecolaminas estendem-se até o córtex. Julga-se que as mudanças nesses circuitos estão por trás dos sintomas do PTSD, que incluem ansiedade, medo, hipervigilância, fácil irritação e provocação, disposição para lutar-ou-fugir, e indelével codificação de intensas lembranças emocionais.8 Um estudo constatou que os veteranos do Vietnã com PTSD tinham 45 por cento menos receptores para deter a catecolamina do que homens sem esses sintomas o que sugere que o cérebro deles sofrera uma mudança duradoura, com mal controle da secreção de catecolamina.

Outras mudanças se dão no circuito que liga o cérebro límbico à glandula pituitária, que regula a liberação de CRF, o principal hormônio de tensão que o corpo secreta para mobilizar a resposta lutar-ou-fugir numa emergência. As mudanças levam a uma supersecreção desse hormônio - sobretudo na amígdala, hipotálamo e locus ceruleus alertando o corpo para uma emergência que na verdade não existe.

Como me disse o Dr. Charles Nemeroff, psiquiatra da Universidade Duke:

- O excesso de CRF faz a gente reagir com exagero. Por exemplo, se você é um veterano do Vietnã com PTSD e ouve o estampido do cano de descarga de um carro no estacionamento do shopping center, é o disparo de CRF que o inunda com os mesmos sentimentos do trauma original: você começa a suar, fica com medo, tem arrepios e tremores, pode ter flashbacks Nas pessoas que hipersecretam CRF, a reação de susto é superativa. Por exemplo, se você chegar sorrateiramente por detrás de alguém e bater as mãos de repente, verá um pulo de susto na primeira vez, mas não na terceira ou quarta. Mas as pessoas com excesso de CRF não se habituam: reagem tanto à quarta palma quanto à primeira.

Um terceiro conjunto de mudanças ocorre no sistema opióidico do cérebro que secreta endorfinas para amortecer a sensação de dor. Também ele se torna hiperativo. Esse circuito neural também envolve a amígdala, desta vez em combinação com uma região do córtex cerebral. Os opióides são produtos químicos do cérebro, poderosos agentes entorpecentes, como o ópio e outros narcóticos, seus primos químicos. Quando com altos níveis de opióides (“a morfina própria do cérebro”), as pessoas têm uma maior tolerância à dor um efeito que foi observado em campos de batalha por cirurgiões que descobriram que soldados seriamente feridos precisavam de doses mais baixas de narcóticos para agüentar a dor do que civis com ferimentos muito menos sérios.

Alguma coisa semelhante parece ocorrer no PTSD. Mudanças na endorfina dão uma nova dimensão à mistura neural pela reexposição ao trauma: um entorpecimento de certas sensações. Isso parece explicar um conjunto de sintomas psicológicos “negativos” há muito notados no PTSD: anedonia (incapacidade de sentir prazer) e um embotamento emocional generalizado, a sensação de estar isolado da vida ou do interesse pelos sentimentos dos outros. Os íntimos dessas pessoas podem sentir essa indiferença como ausência de empatia. Outro possível efeito é a dissociação, incluindo a incapacidade de lembrar minutos, horas ou mesmo dias cruciais do fato traumático.

As mudanças gerais do PTSD também parecem tornar a pessoa mais susceptível a outras traumatizações. Vários estudos com animais constataram que mesmo expostos a uma tensão branda quando jovens, eram muito mais vulneráveis que os animais não tensos a mudanças no cérebro provocadas por um trauma mais adiante na vida (o que sugere a necessidade urgente de tratar crianças com PTSD).

Esse parece ser um dos motivos pelos quais, expostas a uma mesma catástrofe, uma pessoa fica com PTSD e outra não: a amígdala é preparada para descobrir perigo, e quando a vida Lhe apresenta mais uma vez um perigo concreto, seu alarme sobe ao mais alto volume.

Todas essas mudanças neurais proporcionam vantagens a curto prazo para lidar com as emergências sinistras e aflitivas que as causam. Sob pressão, a amígdala adapta-se para ficar altamente vigilante, estimulada, pronta para qualquer coisa, indiferente à dor, o corpo preparado para demandas físicas constantes, e no momento indiferente ao que poderiam de outro modo ser fatos intensamente perturbadores. Essas vantagens a curto prazo, porém, tornam-se problemas duradouros quando o cérebro muda tanto que elas se tornam predisposições, como um carro emperrado em perpétua marcha alta.

Quando a amígdala e as regiões a ela ligadas no cérebro adotam um novo ponto de partida num momento de trauma intenso, essa mudança de excitabilidade essa acrescida prontidão para disparar um seqüestro neural - significa que toda a vida está na iminência de tornar-se uma emergência, e mesmo um momento inocente pode causar uma explosão de medo desenfreado.

REAPRENDIZADO EMOCIONAL

Essas lembranças traumáticas parecem permanecer como pontos fixos da função cerebral porque interferem no aprendizado posterior especificamente, no reaprendizado de uma resposta mais normal a esses fatos traumatizantes. No medo adquirido como o PTSD, os mecanismos de aprendizado e memória se desorientam; também aqui, é a amígdala que é a chave entre as regiões do cérebro envolvidas. Mas na superação do medo adquirido, o neocórtex é fundamental.

Medo condicionado é o nome que os psicólogos empregam para o processo pelo qual uma coisa nem um pouco ameaçadora se torna temida por estar associada na mente de alguém a uma outra assustadora. Quando tais pavores são induzidos em animais de laboratório, observa Charney, os medos podem durar anos. A região-chave do cérebro que aprende, retém e age com base nessa resposta medrosa é o circuito entre os tálamos, amígdala e lobo pré-frontal a rota do seqüestro neural.

Em geral, quando alguém aprende a assustar-se com uma coisa por medo condicionado, o medo passa com o tempo. Isso parece se dar por um reaprendizado natural, à medida que o objeto temido é de novo encontrado sem nada ele realmente assustador. Assim, uma criança que adquire medo de cachorro porque foi perseguida por um rosnante pastor alemão vai aos poucos e naturalmente perdendo o medo se, digamos, se muda para a vizinhança de alguém que tem um pastor alemão simpático, e passa tempo brincando com o cachorro.

No PTSD espontâneo, não se dá o reaprendizado. Charney sugere que isso talvez se deva às mudanças do PTSD no cérebro, que são tão fortes que, na verdade, o seqüestro da amígdala ocorre toda vez que aparece alguma coisa mesmo vagamente reminiscente do trauma original, fortalecendo a rota do medo.




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