Daniel goleman, PhD


parte desse aumento não se deve tanto a um declínio da inteligência emocional quanto à constante erosão das pressões sociais



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Pode-se argumentar que grande parte desse aumento não se deve tanto a um declínio da inteligência emocional quanto à constante erosão das pressões sociais.

O estigma que cerca o divórcio, ou a dependência econômica das esposas em relação aos maridos - que antes mantinham os casais juntos mesmo nos mais infelizes casamentos. Mas se as pressões sociais não são mais o cimento que segura um casamento, as forças emocionais entre mulher e marido são tanto mais cruciais se a união deve sobreviver.

Esses laços entre marido e mulher - e as linhas de falhas emocionais que podem separá-los - foram avaliados nos últimos anos com uma precisão jamais vista antes. Talvez a maior constatação na compreensão do que mantém ou desfaz um casamento tenha vindo do uso de sofisticadas medições psicológicas, que permitem uma identificação momento a momento das nuanças emocionais do encontro de um casal. Os cientistas agora podem detectar as ondas e saltos de adrenalina, de outro modo invisíveis, na pressão sanguínea de um marido, e observar passageiras mas reveladoras microemoções que cruzam o rosto da esposa. Essas medições psicológicas revelam um subtexto emocional oculto das dificuldades de um casal, um crítico nível de realidade emocional tipicamente imperceptível ou ignorado pelo próprio casal. Essas medições põem a nu as forças emocionais que mantêm um relacionamento ou o destroem. As linhas de falha têm seus mais antigos primórdios nas diferenças entre os mundos emocionais das moças e dos rapazes.

O CASAMENTO DELE E O DELA: RAÍZES DE INFÂNCIA

Quando eu entrava num restaurante, numa noite recente, um jovem saía danado pela porta, o rosto fechado numa expressão ao mesmo tempo pétrea e mal-humorada. Logo atrás, vinha uma jovem correndo, batendo desesperada com os punhos nas costas dele e gritando:

- Seu porra! Volte aqui e seja legal comigo!

Esse pedido pungente, incrivelmente contraditório, dirigido às costas que se afastavam, ebitoma o padrão mais comumente visto em casais cujo relacionamento está perturbado. Ela procura atrair, ele se retira. Os terapeutas conjugais há muito observaram que quando o casal chega ao consultório de terapia estão nesse padrão de atração-retirada, com ele se queixando das exigências e explosões “irracionais” dela, e ela lamentando a indiferença dele ao que ela diz.

O fim do jogo marital reflete o fato de que há, na verdade, duas realidades emocionais num casal, a dele e a dela. As raízes dessas diferenças emocionais, embora possam ser em parte biológicas, também podem ser identificadas na infância, e nos separados mundos emocionais que habitam meninos e meninas enquanto crescem. Há uma vasta quantidade de pesquisas sobre esses mundos diferentes com as barreiras reforçadas não só pelas diferentes brincadeiras que meninos e meninas preferem, mas pelo temor das crianças pequenas de serem gozadas por terem uma “namorada” ou “namorado”. Um estudo de amizades infantis constatou que crianças de três anos dizem que metade de seus amigos é do sexo oposto; para as de cinco anos, são cerca de 20 por cento; e aos sete quase nenhum menino ou menina diz ter um melhor amigo do sexo oposto.

Esses universos sociais separados pouco se cruzam até os adolescentes começarem a namorar.

Enquanto isso, ensinam-se a meninos e meninas lições bem diferentes sobre como lidar com as emoções. Os pais, em geral, discutem emoções - com exceção da ira mais com as filhas que com os filhos. As meninas recebem mais informação sobre emoções que os meninos: quando os pais inventam histórias para contar aos filhos pré-escolares, empregam mais palavras emocionais ao falarem com as filhas do que com os filhos; quando as mães brincam com seus bebês, demonstram uma maior gama de emoções às meninas que aos meninos; quando as mães falam com as filhas sobre sentimentos, discutem com mais detalhes o próprio estado emocional do que fazem com os filhos - embora com os filhos entrem em mais detalhes sobre as causas e conseqüências de emoções como a ira (provavelmente como uma história admonitória).

Leslie Brody e Judith Hall, que resumiram a pesquisa sobre diferenças de emoções entre os sexos, sugerem que como as meninas desenvolvem facilidade com a linguagem mais rapidamente que os meninos, isso as leva a ser mais experientes para explicar seus sentimentos e mais habilidosas que os meninos no uso de palavras para examinar e substituir reações emocionais como brigas físicas; em contraste, elas observam:

- Os meninos, para os quais se desenfatiza a verbalização de afetos, podem tornar-se em grande parte inconscientes dos estados emocionais, tanto em si mesmos como nos outros.

Aos dez anos, mais ou menos a mesma porcentagem de meninas e meninos é francamente agressiva, dada ao confronto aberto quando zangados. Aos treze anos, surge uma reveladora diferença entre os sexos: as meninas se tornam mais capazes que os meninos de ardilosas táticas agressivas como o ostracismo, a fofoca maldosa e as vinganças indiretas. Os meninos, em geral, simplesmente continuam briguentos quando zangados, ignorando outras estratégias mais disfarçadas Essa é apenas uma das muitas formas como os meninos - e, depois, homens - são menos sofisticados que o sexo oposto nos atalhos da vida emocional.

Quando as meninas brincam juntas, fazem isso em grupos pequenos, íntimos, com ênfase na minimização da hostilidade e maximização da cooperação, enquanto as brincadeiras dos meninos são em grupos maiores. com ênfase na competição. Pode-se ver uma diferença-chave no que ocorre quando as brincadeiras de meninos e meninas são interrompidas porque alguém se machucou Se um menino que se machucou fica irritado, espera-se que saia e pare de chorar para que a brincadeira recomece. Se o mesmo acontece num grupo de meninas brincando, a brincadeira pára e todas se reúnem em volta para ajudar a menina que chora. Essa diferença entre meninos e meninas brincando epitoma o que Carol Gilligan, de Harvard, aponta como uma desigualdade-chave entre os sexos:

os meninos se orgulham de uma independência e autonomia solitárias, durona, enquanto as meninas se vêem como parte de uma teia de ligações. Assim, os meninos são ameaçados por qualquer coisa que desafie sua independência, enquanto as meninas são mais ameaçadas por um rompimento em seus relacionamentos. E, como observou Deborah Tannen em seu livro YouJustDon ‘t Understand [Você simplesmente não entende], essas perspectivas diferentes significam que homens e mulheres querem e esperam coisas bastante diferentes de uma conversa, com os homens satisfeitos em falar de “coisas” e as mulheres buscando ligação emocional.

Em suma, esses contrastes no aprendizado das emoções promovem aptidões bastante diferentes, com as meninas tornando-se “capazes de ler sinais emocionais verbais e não-verbais, de expressar e comunicar seus sentimentos”, e os meninos tornando se capazes de “minimizar emoções que tenham a ver com vulnerabilidade, culpa, medo e dor”. As provas dessas diferentes atitudes são muito fortes na literatura científica. Centenas de estudos constataram, por exemplo, que em média as mulheres são mais empáticas que os homens, pelo menos quando se mede pela capacidade de ler os sentimentos não expressos de alguém na expressão facial, tom de voz e outros indícios não-verbais. Do mesmo modo, é geralmente mais fácil ler os sentimentos no rosto de uma mulher que no de um homem: embora não haja diferença na expressividade facial de meninos e meninas muito pequenos, à medida que passam pela escola primária os meninos se tornam menos expressivos, e as meninas mais. Isso pode em parte refletir outra diferença-chave: as mulheres, em média, sentem toda a gama de emoções com maior intensidade e mais volatilidade que os homens - nesse sentido, as mulheres são mais “emocionais” que os homens.

Tudo isso quer dizer que, em geral, as mulheres chegam ao casamento preparadas para o papel de administradora emocional, enquanto os homens chegam com muito menos apreciação dessa tarefa para ajudar uma relação a sobreviver. Na verdade, o elemento mais importante para as mulheres - mas não para os homens - na satisfação com seu relacionamento, comunicado num estudo de 264 casais, era a sensação de que o casal tinha “boa comunicação”.

Ted Huston, psicólogo da Universidade do Texas que estudou casais a fundo, observa:

_ Para as esposas, intimidade significa discutir tudo, sobretudo a própria relação Os homens, em sua maioria, não entendem o que as esposas querem deles. Dizem: “Eu quero fazer coisas com ela, e ela só quer falar.”

Huston constatou que, durante o namoro, os homens estavam muito mais dispostos a passar o tempo conversando de uma maneira adequada ao desejo de intimidade das futuras esposas. Mas, depois de casados, com o tempo os homens - sobretudo nos casais mais tradicionais - passavam cada vez menos tempo nessas conversas com as esposas, descobrindo mais senso de proximidade simplesmente em fazer juntos coisas como jardinagem do que em discutir os problemas.

O crescente silêncio da parte dos maridos pode se dever em parte ao fato de que, se se pode afirmar alguma coisa, os homens são meio polianescos em relação ao estado de seu casamento, enquanto as esposas estão sintonizadas com as questões problemáticas: num estudo de casamentos, os homens tinham uma visão mais cor-de-rosa que as esposas em praticamente tudo no seu relacionamento amor físico, finanças, ligações com parentes do outro cônjuge, como ouviam um ao outro, até onde suas falhas contavam. As esposas, em geral, são mais francas sobre suas queixas que os maridos, sobretudo em casais infelizes.

É só combinar a visão cor-de-rosa do casamento dos homens com sua aversão a confrontos emocionais, que fica claro por que as esposas tantas vezes se queixam de que os maridos tentam se esquivar da discussão de coisas perturbadoras no seu relacionamento. (Claro que essa diferença de gênero é uma generalização, e não se aplica a todo caso; um amigo psiquiatra se queixa de que no seu casamento a esposa reluta em discutir questões emocionais entre eles, e cabe a ele levantá-las.)

A lentidão dos homens em levantar problemas num relacionamento é sem dúvida agravada pela sua relativa falta de habilidade quando se trata de ler expressões faciais de emoções. As mulheres, por exemplo, são mais sensíveis a uma expressão triste no rosto de um homem do que os homens para detectar tristeza na expressão de uma mulher. Assim, a mulher tem de ficar ainda mais triste para o homem ao menos notar seus sentimentos, quanto mais para levantar a questão do que a está deixando tão triste.

Vejam as implicações desse abismo de gênero emocional para a maneira como os casais lidam com as queixas e discordâncias que qualquer relacionamento íntimo inevitavelmente gera. Na verdade, questões específicas como a freqüência com a qual o casal faz sexo, como disciplinar os filhos, ou com quanta dívida e poupança o casal se sente à vontade não são o que faz ou rompe um casamento.

Simplesmente chegar a um acordo sobre como discordar é fundamental para a sobrevivência conjugal; homens e mulheres têm de superar as diferenças de gênero inatas ao abordarem emoções pedregosas.

Sem isso, os casais são vulneráveis a rachaduras emocionais que acabam fazendo ruir o casamento. Como veremos, é muito mais provável essas rachaduras aparecerem se um ou os dois parceiros têm certos déficits de inteligência emocional.

FENDAS CONJUGAIS

Pred: você pegou minha roupa na lavanderia?

Ingrid: (Num tom de arremedo) você pegou minha roupa na lavanderia? Pegar a porra da sua roupa na lavanderia. Que é que eu sou, sua empregada?

Fred: Seria difícil. Se você fosse empregada, pelo menos saberia lavar.

Se esse diálogo fosse de uma comédia de situação, poderia ser divertido. Mas essa dolorosa e cáustica troca de palavras se deu entre um casal que (o que talvez não surpreenda) se divorciou nos poucos anos seguintes. O encontro deles teve lugar num laboratório dirigido por John Gottman, um psicólogo da Universidade de Washington, que fez talvez a mais detalhada análise do cimento emocional que une os casais e os sentimentos corrosivos que destroem os casamentos. Em seu laboratório, as conversas dos casais eram gravadas em videoteipe e depois submetidas a horas de microanálises, para revelar correntes emocionais subterrâneas em ação. Esse mapeamento das fendas que levam um casal a divorciar-se forma uma defesa convincente para o papel crucial da inteligência emocional na sobrevivência de um casamento.

Nas últimas duas décadas, Gottman acompanhou os altos e baixos de mais de duzentos casais, alguns recém-casados, outros casados há décadas. Ele mapeou a ecologia emocional do casamento com tal precisão que, num estudo, pôde prever o que casais vistos em seu laboratório (como Fred e Ingrid, cuja discussão sobre pegar a roupa na lavanderia foi tão acrimoniosa) se divorciaria dentro de três anos com 94 por cento de exatidão, uma precisão inaudita em estudos conjugais

O poder da análise de Gottman vem de seu método trabalhoso e da minunciosidade de suas sondagens. Enquanto os casais conversam, sensores registram o mais leve fluxo na psicologia deles; uma análise segundo a segundo das expressões faciais (usando o sistema de leitura de emoções criado por Paul Ekman) detecta a mais passageira e sutil nuança de sentimento. Após a sessão, cada cônjuge vem separadamente ao laboratório e vê um videoteipe da conversa, e narra seus pensamentos secretos durante os momentos quentes do diálogo. O resultado equivale a um raio X emocional do casamento.

Gottman constatou que um primeiro sinal de que um casamento está em perigo é a crítica pesada. Num casamento saudável, marido e mulher sentem liberdade de queixar-se. Mas, demasiadas vezes, no calor da raiva, as queixas são expressas de uma forma destrutiva, como um ataque ao caráter do cônjuge Por exemplo, Pamela e sua filha foram comprar sapatos, enquanto Tom, o marido, ia a uma livraria. Combinaram encontrar-se diante do correio dentro de uma hora e ir a uma matinê. Pamela foi pontual, mas não havia sinal de Tom.

- Por onde anda ele? O filme começa em dez minutos - queixou-se Pamela para a filha. - Se tem uma maneira de seu pai foder tudo, ele fode.

Quando Tom apareceu dez minutos depois, feliz por ter encontrado um amigo e desculpando-se pelo atraso, Pamela vergastou com sarcasmo:

- Tudo bem... isso nos deu uma oportunidade de discutir sua fantástica capacidade de foder tudo que é plano que fazemos. Você é tão irresponsável como egoísta.

A queixa de Pamela é mais que isso: é um assassinato de caráter, uma crítica à pessoa, não ao fato. Na verdade, Tom pediu desculpas. Mas por seu lapso Pamela o rotula de “irresponsável e egoísta”. A maioria dos casais tem desses momentos de vez em quando, em que uma queixa sobre alguma coisa que um dos cônjuges fez é expressa como um ataque mais à pessoa que ao fato. Mas essas ásperas críticas pessoais têm um impacto emocional muito mais corrosivo do que as queixas mais moderadas. E tais ataques, talvez compreensivelmente, se tornam mais prováveis à medida que marido ou mulher sentem que suas queixas não são ouvidas, ou são ignoradas.

As diferenças entre queixas e críticas pessoais são simples. Numa queixa, a esposa declara especificamente o que a irrita e critica a ação, não o marido, dizendo como a fez sentir-se: “Quando você esqueceu de pegar minhas roupas na lavanderia, me fez sentir que não liga para mim.” É uma expressão de inteligência emocional básica: assertiva, não beligerante nem passiva. Mas, numa crítica pessoal, ela usa a queixa específica para lançar um ataque global ao marido: “Você é sempre tão egoísta como indiferente. Isso só prova que não posso esperar que faça nada direito.” Esse tipo de crítica deixa a pessoa que a recebe sentindo-se envergonhada, desgostosa, censurada e defeituosa - e é mais provável que conduza a uma resposta defensiva que a medidas para melhorar as coisas.

E tanto mais quando a crítica vem carregada de desprezo, uma emoção particularmente destrutiva. O desprezo vem facilmente com a ira; é em geral expresso não apenas nas palavras empregadas, mas também no tom da voz e na expressão irada. Na forma mais óbvia, é gozação ou insulto - “babaca”, ‘megera, “incompetente”. Mas igualmente danosa é a linguagem do corpo que transmite desprezo, sobretudo o sorriso de escárnio, ou o franzir de lábios que são os sinais universais de repugnância, ou o revirar de olhos, como a dizer: “Oh, cara!”

A assinatura facial de desprezo é uma contração do músculo que repuxa os cantos da boca para o lado (em geral o esquerdo), enquanto os olhos se reviram para cima. Quando um cônjuge lança essa expressão, o outro, num intercambio emocional tácito, registra um salto nos batimentos cardíacos de dois ou três por minuto. Essa conversa oculta cobra seu preço; Gottman constatou que, se o marido mostra desprezo sempre, a esposa tenderá mais para uma gama de problemas de saúde, dos resfriados e gripes freqüentes a infecções na bexiga e por fungos, além de sintomas gastrintestinais. E, quando o rosto da mulher mostra repugnância, prima próxima do desprezo, quatro ou mais vezes numa conversa de quinze minutos, isso é um sinal silencioso de que é provável a separação do casal dentro de quatro anos.

Claro, uma demonstração ocasional de desprezo ou repugnância não vai desfazer um casamento. Ao contrário, essas rajadas emocionais ficam no mesmo nível do hábito de fumar e do colesterol alto como fatores de risco de males cardíacos quanto mais intensas e prolongadas, maior o perigo.

Na estrada para o divórcio, um desses fatores prediz o seguinte, numa escala crescente de infelicidade. A crítica e o desprezo ou repugnância habituais são sinais de perigo porque indicam que o marido ou a esposa fez um silencioso julgamento negativo do cônjuge. Em seus pensamentos, o outro esposo é motivo de constante condenação. Essas idéias negativas e hostis levam naturalmente a ataques que deixam o cônjuge do outro lado defensivo ou pronto para contra-atacar em resposta.

Os dois lados da reação lutar-ou-fugir representam maneiras como um cônjuge pode responder a um ataque. A mais óbvia é revidar,vergastando furioso. Essa rota,tipicamente, acaba numa infrutífera disputa de berros.

Mas a reação alternativa,fugir, pode ser mais perniciosa,sobretudo quando a fuga é uma retirada para um pétreo silêncio.

Fechar-se em copas é a defesa última. O que se fecha simplesmente se mostra vazio, na verdade retirando-se da conversa com uma pétrea expressão e silêncio. Essa atitude envia uma mensagem potente e desestimulante,assim como uma combinação de gélida distância,superioridade e nojo. Isso mostrou-se sobretudo em casais que se encaminhavam para o desastre a uma esposa que atacava com crítica e sarcasmo. Como reação habitual,isso é devastador para a saúde de um relacionamento: corta toda possibilidade de resolver desacordos.

IDÉIAS TÓXICAS

As crianças estão impossíveis, e Martin, o pai, já começa a irritar-se. Ele volta-se para a esposa, Melanie, e diz num tom ríspido:

- Querida, não acha que as crianças podiam ficar quietas?

O que está pensando de fato é: “Ela é mole demais com as crianças.”

Melanie, reagindo à ira dele, sente uma onda de raiva. O rosto fica tenso, as sobrancelhas se franzem numa carranca, e ela responde:

- Estão se divertindo. De qualquer modo, já vão pra cama.

Está pensando: “Lá vem ele de novo, só vive se queixando.”

Martin está agora visivelmente furioso. Curva-se para a frente ameaçadoramente, punhos cerrados, e diz num tom irritado:

- Ponho eles na cama agora?

Está pensando: “Ela me contradiz em tudo. É melhor eu assumir o comando.”

Melanie, de repente assustada com a ira de Martin, diz mansamente:

- Não, eu mesma ponho agora mesmo.

Pensa: “Ele está perdendo o controle - pode machucar as crianças. É melhor eu ceder.”

Essas conversas paralelas - as faladas e as silenciosas - são comunicadas por Aaron Beck, fundador da terapia cognitiva, como um exemplo dos tipos de pensamentos que envenenam um casamento. O verdadeiro intercambio emocional entre Melanie e Martin é moldado por seus pensamentos, e esses pensamentos, por sua vez, são determinados por outra camada, mais profunda, que Beck chama de “pensamentos automáticos” - suposições passageiras, de fundo, sobre a própria pessoa e as pessoas em sua vida, que refletem nossas mais profundas atitudes emocionais. Para Melanie, o pensamento de fundo é alguma coisa tipo: “Ele vive me atormentando com sua raiva.” Para Martin, o pensamento chave é: “Ela não tem o direito de me tratar assim.” Melanie sente-se uma vítima inocente no casamento, e Martin sente verdadeira indignação pelo que julga um tratamento injusto.

Pensamentos de que se é uma vítima inocente, ou de verdadeira indignação, são típicos de cônjuges em casamentos problemáticos, alimentando continuamente a ira e o ressentimento. Assim que pensamentos perturbadores, como a justa indignação, se tornam automáticos, se confirmam a si mesmos: o cônjuge que se sente vitimizado vive constantemente vasculhando tudo que o outro faz que confirme a visão de que o está vitimizando, ignorando ou descontando qualquer ato de bondade da parte do outro que contradiga ou não confirme essa visão.

Esses pensamentos são poderosos; disparam o sistema de alamme neural. Uma vez que o pensamento de ser vitimizado do marido dispara um seqüestro emocional, ele se lembrará na mesma hora e ruminará sobre uma lista de queixas que lhe lembram as maneiras como a mulher o vitimiza, esquecendo ao mesmo tempo tudo que ela tenha feito, em todo o relacionamento, que desminta a visão de que ele é uma vítima inocente. Isso põe a esposa numa situação de não ganhar nunca: mesmo coisas que ela faz e que são intencionalmente boas podem ser reinterpretadas quando vistas por uma lente tão negativa e descartadas como frouxas tentativas de negar que é uma vitimizadora.

Os cônjuges que não têm essas opiniões geradoras de angústia podem fazer uma interpretação mais benigna do que acontece nas mesmas situações, e assim é menos provável sofrerem um desses seqüestros emocionais, ou se os sofrem, tendem a recuperar-se mais prontamente. O modelo geral dos pensamentos que mantêm ou aliviam a angústia segue o padrão esboçado no Capítulo 6 pelo psicólogo Martin Seligman para as perspectivas pessimista e otimista. A opinião pessimista é que os cônjuges são inerentemente defeituosos, de uma maneira que não se pode mudar, e que causa infelicidade: “Ele é egoísta e absorvido em si mesmo; assim foi criado e é assim que será sempre; espera que eu faça tudo para ele, e não poderia estar ligando menos para o que eu sinto.” A opinião otimista contrastante seria alguma coisa assim: “Ele está sendo exigente agora, mas já foi atencioso antes; talvez esteja de mau humor - imagino se alguma coisa não o está preocupando no trabalho.” Essa é uma opinião que não cancela o marido (nem o casamento) como irredimivelmente comprometido e sem esperança. Ao contrário, vê um mau momento como devido a circunstâncias que podem mudar. A primeira atitude traz angústia contínua; a segunda alivia.

Os cônjuges que adotam uma visão pessimista são extremamente inclinados a seqüestros emocionais; ficam furiosos, magoados ou de outro modo perturbados com coisas que o outro faz, e assim continuam depois que o episódio começa.

A perturbação interior e a atitude pessimista deles, claro, torna muito mais provável que recorram à crítica e ao desprezo ao enfrentar o cônjuge, o que por sua vez aumenta a probabilidade de defensividade e do fechar-se em copas.

Talvez o mais virulento desses pensamentos tóxicos se encontre em maridos fisicamente violentos com as esposas. Um estudo desses homens por psicólogos da Universidade de Indiana constatou que eles pensam como os valentões da escola: vêem intenção hostil mesmo em atos neutros das esposas e usam essa interpretação errônea para justificar para si mesmos sua violência (homens sexualmente agressivos no namoro fazem coisa semelhante, encarando as mulheres com desconfiança e assim ignorando as objeções delas). Como vimos no Capítulo 7, esses homens são particularmente ameaçados pelo que vêem como ofensa, rejeição ou vexame público causados pelas esposas. Um típico cenário que provoca idéias “justificadoras” de violência nos espancadores de esposas: “Numa reunião social, você percebe que durante a última meia hora sua esposa esteve conversando e rindo com o mesmo homem. Ele parece flertar com ela.” Quando esses homens vêem as esposas como fazendo alguma coisa que sugere rejeição ou abandono, suas reações levam à indignação e à revolta.




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