Curso de língua portuguesa módulo 4 leitura e produçÃo de textos


A História em Quadrinhos nasceu como gênero em 1895, com a publicação da primeira tirinha que convencionou a linguagem das HQs como conhecemos hoje



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A História em Quadrinhos nasceu como gênero em 1895, com a publicação da primeira tirinha que convencionou a linguagem das HQs como conhecemos hoje.


Enquanto a charge transmite sua mensagem, em geral, em uma única imagem, as histórias em quadrinhos (HQs) são uma arte sequencial, desenhos em sequência que narram uma história. A charge costuma ter conteúdo humorístico. As histórias em quadrinhos podem ou não ter o humor como efeito de sentido.
Na arte sequencial, a comunicação se faz por meio de imagens identificadas pelo emissor e pelo receptor. Para “ler" uma história em quadrinhos, é preciso interpretar imagens, relacioná-las com as palavras e perceber sequências de causa e efeito.

Os quadrinhos servem para entreter, mas podem veicular uma mensagem instrucional; podem ser usados para uma campanha de economia de água, alertar sobre riscos de doenças ou transmitir informativos de trânsito, por exemplo.


A história em quadrinhos em geral envolve várias técnicas narrativas através dos dois canais: imagens e texto. Para compreender a mensagem, o leitor precisa relacionar os elementos de imagem (icônicos) com os de texto (linguísticos).
O diálogo na história em quadrinho é apresentado na forma direta; no entanto, não é transcrito do mesmo modo que, por exemplo, não é transcrito do mesmo modo que, por exemplo, o diálogo em contos ou peças teatrais. As falas são indicadas, em geral, por meio de balões, estabelecendo-se uma comunicação mais imediata entre as personagens e o leitor, já que o texto é incorporado à imagem.
As histórias em quadrinhos mais famosas são aquelas que retratam a vida de super-heróis, eternizados na arte sequencial e transportados para a linguagem cinematográfica, ganhando projeção internacional e povoando o imaginário de leitores do mundo inteiro.
Conheça alguns elementos comuns nas histórias em quadrinhos.

  • Localização dos balões: indica a ordem em que se sucedem as falas (de cima para baixo, da esquerda para a direita).

  • Contorno dos balões: varia conforme o desenhista; no entanto, alguns são comuns, como os que apresentam linha contínua (fala pronunciada, em tom normal); linhas interrompidas (fala sussurrada); ziguezague (um grito, uma fala de personagem falando alto, ou som de rádio ou televisão).

  • Onomatopeias e sinais de pontuação: reforçam sentimentos e expressam a intensidade da voz da personagem.


http://sequenciadidaticadeportugues2014.blogspot.com.br



2. Tipologia textual
2.1. NARRAÇÃO – Desenvolvimento de ações. Tempo em andamento.
Narrar é contar uma história. A Narração é uma sequência de ações que se desenrolam na linha do tempo, umas após as outras. Toda ação pressupõe a existência de um personagem que a pratica em determinado momento e em determinado lugar.
Seis são os componentes fundamentais da narração: narrador, enredo, personagem, ação, espaço e tempo em desenvolvimento.
A narração é um relato centrado num fato ou acontecimento; há personagem (ns) atuando e um narrador que relata a ação. Pela própria característica da narração, predominam frases verbais, indicando um processo, uma ação. Ora, se falamos em processo, estamos nos referindo a uma sucessão de estados ou de mudanças. É exatamente isso que acontece num texto narrativo: uma sequência de acontecimentos (portanto há uma progressão temporal) que leva a uma transformação, a uma mudança.
Importante !!!

É comum encontrarmos na narração uma ou outra passagem descritiva, como por exemplo, a descrição de um personagem, do ambiente em que ocorre o fato, etc.



2.1.1. Elementos da narrativa
Nas narrativas de ficção, podemos perceber, além do narrador, alguns outros elementos fundamentais: enredo, personagens, ambiente, tempo.
a. Narrador
Dependendo do ponto de vista que o narrador assume em relação ao fato, a narrativa pode aparecer em primeira ou em terceira pessoas do singular.

Na narração em primeira pessoa, o narrador participa dos acontecimentos e, assim, temos um personagem com dupla função: o personagem-narrador. Ele pode ter uma participação secundária nos acontecimentos, destacando-se, desse modo, seu papel de narrador. Por outro lado, pode exercer papel fundamental nos acontecimentos, sendo mesmo o personagem principal. Neste caso, a narração em primeira pessoa permite ao autor penetrar no mundo psicológico do personagem e desvendá-lo com maior profundidade. É importante observar que, nas narrações em primeira pessoa, nem tudo o que o narrador afirma corresponde à ‘ verdade’, pois é sempre uma visão parcial individual, de quem participa. Veja, por exemplo, o caso de Bentinho no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis: sua mulher Capitu o traiu? Ele, personagem-narrador, acredita que sim. Nós, leitores, podemos desconfiar, uma vez que o fato é narrado pelo marido que se julga traído? Tudo o que sabemos nos chega filtrado pelos sentimentos de Bentinho:


Capitu, alheia a ambos, fitava agora a outra borda da mesa; mas dizendo-lhe eu que, na beleza, os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe, Capitu sorriu, abanando a cabeço com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras. As pessoas valem o que vale a afeição da gente, e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece. Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na terra. Aquele entrou-me pela alma dentro.
O fragmento acima exemplifica a unilateralidade de um personagem-narrador: observe como ele, ‘cego de amor’, fala de suas relações com Capitu; daí a oportuna e explicativa referência ao adágio popular “quem o feio ama bonito lhe parece”.
Já nas narrações em terceira pessoa, o narrador está fora dos acontecimentos, mas tem ciência de tudo o que acontece, daí ser chamado de onisciente (oni + sciente= “o que tem ciência de tudo”, “o que sabe tudo).

Observe este pequeno fragmento do romance Quincas Borba, de Machado de Assis.


Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram s metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja – primor de argentaria, execução fina e acabada.

Repare como o narrador “lê” os sentimentos, os desejos e mesmo o jogo de cena do personagem; sabemos, por exemplo, que Rubião mirava disfarçadamente a bandeja, que amava de coração os metais nobres. O narrador conhece as prováveis opções de Rubião: a preferência pela bandeja de prata aos bustos de bronze.



b. Enredo

O enredo é a própria estrutura narrativa, ou seja, o desenrolar dos acontecimentos. Como o próprio nome indica, enredar significa “tecer, entrelaçar os fatos”. Todos os enredos envolvem um conflito: o homem contra a natureza, ou o homem contra os outros homens, ou o homem lutando contra si próprio. Por isso, poderíamos afirmar que a “alma da narrativa é justamente esse conflito”.



c. Personagens

Os que participam do desenrolar dos acontecimentos, isto é aqueles que vivem o enredo, são os personagens (em português, a palavra personagem tanto pode ser masculina como feminina).

O personagem principal de uma narrativa é o protagonista (o principal ator ou lutador) e, dependendo do escritor e do estilo de época, pode ser apresentado de maneira mais idealizada(como os heróis românticos) ou mais próxima do real. O protagonista, via de regra, vai se defrontar com o antagonista – o que luta contra algo ou alguém. Observe que as palavras protagonista/antagonista já denunciam, em sua significação, o conflito.

Há personagens que não representam individualidades e sim tipos humanos, identificados primeiramente pela profissão, pelo comportamento, pela classe social, etc. É o caso, por exemplo, da maioria dos personagens de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, em que temos o Barbeiro, a Parteira, os Meirinhos, o Major, os ciganos, etc.

Pode haver personagens que tenham determinados traços ou comportamentos extremamente realçados: são os personagens caricaturais.

É interessante observar como os bons escritores preocupam-se com a relação personagem/nome próprio. Veja Graciliano Ramos, em Vidas Secas: Vitória é o nome de uma mulher, retirante nordestina, que alimenta pequenos sonhos, sempre frustrados; Baleia é o nome de uma cachorra que morre em consequência da seca, em pleno sertão nordestino Machado de Assis é outro exemplo brilhante; os nomes já denunciam características de seus personagens. Voltemos ao Dom Casmurro: o personagem-narrador chama-se Bento e tem sua vida em grande parte determinada pela carolice da mãe, que queria torná-lo padre.



d. Ambiente

O ambiente é o cenário por onde circulam os personagens e onde se desenrola o enredo. Em alguns casos, a importância do ambiente é tão fundamental que se transforma em personagem. Por exemplo: o Nordeste, em grande parte do romance modernista brasileiro; o colégio interno, em O Ateneu, de Raul Pompeia; o cortiço, em O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Observe como sempre há relação estreita entre o personagem, seu comportamento e o ambiente que o cerca; repare como, muitas vezes, através dos objetos possuídos podemos fazer um retrato perfeito do possuidor.

e.Tempo

Nos exemplos citados, você pode perceber que o narrador pode se posicionar de diferentes maneiras em relação ao tempo dos acontecimentos – ele pode narrar os fatos no tempo em que eles estão acontecendo; pode narrar um fato já perfeitamente concluído; pode entremear presente e passado, utilizando a técnica de flash-back. Em Senhora , José de Alencar trabalho o flash-back narrando o casamento de Aurélia e Fernando até a noite de núpcias, promovendo u corte e narrando fatos bem anteriores ao casamento, para finalmente retomar fatos acontecidos depois do casamento.

Para melhor análise dos elementos da narrativa, transcrevemos a seguir um pequeno conto de Marina Colasanti.

A honra passada a limpo

Sou compulsiva, eu sei. Limpeza e arrumação.

Todos os dias boto a mesa, tiro a mesa. Café, almoço, jantar. E pilhas de louça na pia, e espumas redentoras.

Todos os dias entro nos quartos, desfaço camas, desarrumo berços, lençóis ao alto como velas. Para tudo arrumar depois, alisando colchas de crochê.

Sou caprichosa, eu sei. Desce o pó sobre os móveis. Que eu colho na flanela. Escurecem-se as pratas. Que eu esfrego com a camurça. A aranha tece. Que eu enxoto. A traça rói. Que eu esmago. O cupim voa. Que eu afogo na água da tigela sob a luz.

E de vassoura em punho gasto tapetes persas.

Sou perseverante, eu sei. À mesa que ponho ninguém senta. Nas camas que arrumo mingúem dorme. Não há ninguém nesta casa, vazia há tanto tempo.

As sem tarefas domésticas, como preencher de feminina honradez a minha vida?


2.1.2. A gramática da narração
Num texto narrativo predominam os verbos de ação; há, em geral, um trabalho com os tempos verbais. Afinal., a narração, ou seja, o desenrolar de um fato, de um acontecimento, pressupõe mudanças; isto significa que se estabelecem relações anteriores, concomitantes e posteriores.

Ao optar por um dos tipos de discurso, organizamos o texto de forma diferente. Os verbos de elocução, os conectivos, a pontuação, a coordenação ou a subordinação passam a ter papel relevante na montagem do texto.


Ao transformar o discurso direto em indireto (ou vice-versa) realizamos uma grande mexida na arquitetura do texto.
Para organizarmos um bom texto narrativo temos de trabalhar a estrutura gramatical que o sustenta (isso sem contarmos que, em geral, deparamos com passagens descritivas no miolo de um texto narrativo, o que exige uma organização diferenciada).

2.2. DESCRIÇÃO - Retrato através de palavras. Tempo estático.
Descrever é pintar um quadro, retratar um objeto, um personagem, um ambiente. A descrição difere da narração fundamentalmente por não se preocupar com a sequência de ações, com o desenrolar do tempo. A descrição encara um ou vários objetos, um ou vários personagens, uma ou várias ações, em um determinado momento, em uma mesma fração da linha cronológica. É a foto de um instante.
Já sabemos que a descrição é o “retrato verbal” de seres (pessoas, objetos), paisagens ou situações; trabalha com imagens, permitindo uma visualização do que está sendo descrito.
Entretanto, a descrição exige algumas características a mais. Descrever não significa apenas fazer um relato das partes que compõem um todo; descrever uma sala informando que ela tem quatro paredes, um teto, uma porta e duas janelas não acrescenta nada. São apontadas características genéricas, comuns à maioria das salas; não há, portanto, o essencial da descrição:o traço distintivo, individual, particular. É necessário caracterizar o ser descrito, distinguindo-o de seres semelhantes, individualizando-o.
Repare como os bons escritores, ao descrever um personagem, valorizam detalhes, às vezes pequenos e aparentemente insignificantes, que justamente individualizam esse personagem: é o tipo de bigode ou de sobrancelha, o tipo de olho ou o modo de olhar, o vocabulário e o modo de falar, algum tique nervoso, etc.
Outro detalhe importante é que não apreendemos a realidade apenas por meio da visão; apesar de se falar em “retrato verbal”, uma boa descrição não pode prescindir das outras sensações. Nossa percepção da realidade se dá por meio da visão, da audição, do olfato, do tato, da gustação. Por isso mesmo, é comum encontrarmos sinestesias em textos descritivos. Exemplificando com um trecho de O Cortiço, de Aluísio Azevedo.
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade, de portas e janelas alinhadas.

Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. (...)

A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um fartum acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.

Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já , e lá de dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns quartos saíam mulheres que vinham procurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se à luz nova do dia.


2.2.1. A gramática da descrição
A descrição apresenta uma gramática muito particular: predominam as frases nominais, as orações centradas em predicados nominais (afinal, estamos descrevendo o “mundo das coisas”; falamos como as coisas são); os adjetivos ganham expressividade tanto na função de adjunto adnominal quanto na de predicativo; os períodos são curtos e prevalece a coordenação; quando há subordinação, predominam as orações adjetivas. Um recurso comum às descrições é a comparação (para que o interlocutor tenha mais elementos para montar a imagem do ser descrito); daí o emprego do conectivo como.
Por ser o registro de um objeto, de uma pessoa, de uma paisagem, a descrição não trabalha com a sucessão temporal (ao contrário da narração, por exemplo). Por isso, os versos aparecem ou no presente (como as coisas são no momento da fala) ou no pretérito, com o predomínio do imperfeito (como as coisas eram quando o observador as percebeu); quando há um marco temporal no passado, é possível o emprego do mais-que-perfeito.
2.2.2. Tipos de descrição
É normal distinguirmos dois tipos de descrição, dependendo da postura assumida pelo observador: a descrição subjetiva e a descrição objetiva.
a. Descrição objetiva

É aquela em que o observador se limita aos valores exteriores, aproximando-se o mais possível da realidade, sem emitir juízos de valor (que são, obviamente, valores subjetivos). O exemplo mais típico são as descrições técnicas ou científicas.


b. Descrição subjetiva

É aquela em que o observador emite juízos de valor, salienta determinadas características que o impressionam (portanto, o que está sendo descrito é filtrado pelo observador; interessa o que ele quer ver, como ele vê). É a descrição literária.

Observe os textos seguintes: são três fragmentos do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, nos quais o personagem-narrador se descreve em momentos distintos da obra.
Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor.

(...)


Hoje não canto nem rio. Se me vejo ao espelho, a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam.

(...)


Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. É um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.

2.3. DISSERTAÇÃO - Desenvolvimento de ideias. Temporais/atemporais
Dissertar diz respeito ao desenvolvimento de ideias, de juízos de pensamentos. Em geral no primeiro parágrafo está a ideia central da dissertação, no último a conclusão, nos intermediários a argumentação que leva da abertura à conclusão. A dissertação tem como objetivo expor, explicar ou interpretar ideias.
Já sabemos que dissertação é o estilo de composição em que predomina a defesa de uma ideia, de um ponto de vista, ou então um questionamento acerca de determinado assunto. Dessa forma, uma dissertação depende de análise, de capacidade de argumentação, de raciocínio lógico. O produtor de um texto dissertativo procura expor aos leitores uma determinada posição ou mesmo levantar elementos, com fatos, com dados, com testemunhos, os quais utiliza para sedimentar e solidificar o desenvolvimento de sua tese ou sua posição final.
2.3.1. A estrutura da dissertação
A dissertação exige um trabalho de preparação, um plano inicial, que se subdivide, via de regra, em três etapas: introdução, desenvolvimento ou argumentação e conclusão.
Ao se iniciar uma dissertação, é necessário tornar claro e explícito o tema que será abordado – daí a importância da introdução, o que não exclui a importância da conclusão. Perceber que, dependendo do encaminhamento dado ao texto, a conclusão pode até ser uma dúvida ou uma interrogação; também pode ser um apanhado geral das ideias expostas ou, ainda, a posição clara, categórica, do autor sobre o tema desenvolvido. O importante é dar um fechamento aos pontos levantados.

Analisemos o seguinte fragmento.


Como qualquer outro animal, o primeiro contato do homem com a realidade se dá pelos cinco sentidos. Na verdade, as cores dos objetos por nós percebidos resultam do bombardeio que particular do objeto, “viajando” em ondas, fazem sobre nossa retina. O som que ouvimos são ondas que deslocam o ar e impressionam nossos tímpanos. O calor e o frio dependem de movimentos mais ou menos acelerados de moléculas em contato com a superfície de nosso corpo. Isso equivale a dizer que visão, olfato, audição, tato e paladar “sentem” as propriedades dos objetos. Sentindo os objetos, conhecemos o verde da árvore, o ruído do avião, o cheiro da pipoca, o gosto do café, a maciez do algodão. O universo dos objetos físicos é, pois, conhecido pela sensação de suas características. (Cassiano Cordi et alli. Para filosofar)
A introdução apresenta a ideia principal, a tese que será defendida, e resume-se à primeira frase do texto: “Como qualquer outro animal, o primeiro contato do homem com a realidade se dá pelos cinco sentidos”.
O desenvolvimento ou argumentação se estende ao longo dos cinco períodos seguintes (de “Na verdade...” até “a maciez do algodão.”). O texto explica como percebemos o universo dos objetos físicos pela percepção de nossos cinco sentidos.
A conclusão (o último parágrafo) retoma a ideia apresentada na introdução (“o primeiro contato do homem com a realidade se dá pelos cinco sentidos”). O fragmento apresentado é muito didático e a conclusão é bastante concisa; o emprego do conectivo pois, posposto ao verbo, realça o caráter conclusivo da última frase.
Há uma outra forma de estruturarmos o texto dissertativo: assumindo uma “postura de filósofo”, ou seja, indagando tudo sobre tudo. As perguntas funcionam como prováveis questionamentos de um virtual interlocutor, mas na verdade servem para organizar o nosso pensamento, estimular nossas reflexões (por isso mesmo, o texto dissertativo é típico das ciências e da filosofia).
Atitude filosófica: indagar
Quando deixarmos de lado os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado. Essas características são:

  • perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a ideia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, uma ideia ou um valor;

  • perguntar como a coisa, a ideia, ou o valor, é. A Filosofia indaga qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma ideia ou um valor.

  • perguntar por que a coisa, ou o valor, ou a ideia, existe e é como é. A Filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma ideia, de um valor.

A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar.
Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao próprio pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar. A Filosofia torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia se realiza como reflexão. (Marilena Chauí. Convite à Filosofia.)
Observe, agora, a filósofa Marilena Chauí, ainda em Convite à Filosofia, desenvolvendo uma tese, exatamente pela utilização da atitude filosófica.
Resolvido esse problema, agora temos umque também tem ocupado muito os estudiosos. O novo problema pode ser assim formulado: a Filosofia nasceu realizando uma transformação gradual sobre os mitos gregos ou nasceu por uma ruptura radical com os mitos? O que é um mito?
O mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do bem e do mal, da saúde e d doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das raças, das guerras, do poder, etc.).
2.3.2. A gramática da dissertação
Quanto aos aspectos formais, a dissertação dispensa o uso abusivo de figuras de linguagem, bem como o valor conotativo das palavras. Por suas características, o texto dissertativo requer uma linguagem mais sóbria, denotativa, sem rodeios (afinal, convence-se o leitor pela força dos argumentos, não pelo cansaço); daí ser preferível o uso da terceira pessoa.
Ao contrário da narração, a dissertação não apresenta uma progressão temporal; os conceitos são genéricos, abstratos e, em geral, não se prendem a uma situação de tempo e espaço. Daí o emprego de verbos no presente. Ao contrário da descrição, que se caracteriza pelo período simples, a dissertação trabalha com o período composto, com o encadeamento de ideias; nesse tipo de construção, o correto emprego dos conectivos é fator fundamental para se obter um texto claro, coeso, elegante.



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