ComunicaçÃo digital, uma mídia recente, a intranet



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Comunicação digital, uma mídia recente, a intranet:

sua formação e configuração na comunicação e informação
André Quiroga Sandi1

quirogasandi@hotmail.com



Resumo:

Esta comunicação, ao iniciar com uma contextualização social e teórica, localiza o movimento que a tecnologia de informação e comunicação tem gerado na sociedade, hoje vista e entendida como uma rede. Estas modificações sociais têm seu impacto nas organizações, aqui entendidas como empresas, que buscam estar ´em dia´ com os avanços tecnológicos de forma a se manterem competitivas. Através de um recorte mais especifico e do posicionamento histórico da intranet, o texto aponta para a trajetória e impacto que os instrumentos tecnológicos trazem às organizações e aos profissionais envolvidos em sua utilização. A intranet, por se tratar de um instrumento recente, ainda não tem um modelo de uso. Dada a dinamicidade que as tecnologias de informação e comunicação têm, provavelemente, nunca iremos ter um modelo, tornando o nosso futuro sempre imperfeito.



Palavras-chave: Implantação de intranet, Comunicação organizacional, redes de informação


1 - Uma aproximação do tema

As questões trabalhadas nesta comunicação são um recorte de uma análise maior apresentada pelo autor em sua dissertação de mestrado2.

O levantamento dos dados aqui apresentados foi realizado, além da pesquisa bibliográfica, através de 10 entrevistas com profissionais de comunicação social, em suas diversas habilitações - Relações Públicas, Jornalismo, Publicidade e Propaganda - todos envolvidos com a implantação, estratégia e utilização de dispositivos tecnológicos de comunicação, mais especificamente a intranet.

Por ser um instrumento recente nas organizações, há poucas pesquisas consolidadas sobre o tema, e elas ainda não contemplam sua importância e potencial de contribuição para modificar profundamente a cultua organizacional e a própria atividade do profissional de comunicação social. A busca realizada por literatura sobre o tema e, mais especificamente, sobre a intranet e a Comunicação Social mostrou uma lacuna existente no âmbito nacional. Muitos dos livros acessados ainda reduzem a uma página os usos da intranet, abordados de uma forma técnica. Esta situação tende a mudar, pois alguns livros editados recentemente já trazem uma discussão mais ampliada. Contudo a junção da literatura técnica sobre intranet, o acesso à literatura nacional e a alguma estrangeira, que já debate largamente a questão, e as entrevistas realizadas propiciaram um panorama ampliado sobre o tema.

Embora a terminologia, freqüentemente referida na literatura, denomine os instrumentos tecnológicos como “novos”, a exemplo do uso generalizado da sigla NTIC - Novas Tecnologias de Informação e Comunicação -, no presente trabalho este uso é evitado. Referir-se a um instrumento tecnológico como “novo” significaria identificá-lo com algo descoberto bem recentemente, correndo o risco de uma desatualização imediata com a atualização, o surgimento de outro instrumento e/ou a comparação com outras tecnologias.

Considerando a dinamicidade da evolução e substituição destas tecnologias, é difícil estabelecer parâmetros com relação ao que seria, realmente, considerado “o novo”. Assim, evitando cair em uma classificação generalista e pouco precisa do que é considerado NTIC, optou-se, primeiro, ao referir-se a estas tecnologias e no caso específico a intranet, por fazer uma contextualização histórica da mesma, sempre que possível com uma marcação cronológica de tempo, mostrando o momento preciso do surgimento dos fenômenos analisados. Segundo, estes fenômenos observados e analisados propiciaram e propiciam um reconhecimento de questões que, tendo a ver com o tempo de sua emergência, vão mais além do critério meramente temporal. Isso significa que o enfoque dado à compreensão das tecnologias de informação e comunicação, mesmo respeitando o critério de tempo presente nas diferentes etapas de sua evolução, quer chamar a atenção para a necessidade de vê-las em seu movimento constante de renovação, o que exige do profissional uma postura de atenção e vigilância permanentes, gerando a necessidade de atualização e ampliação de conhecimentos de forma continuada.

A análise aqui realizada, não sendo generalizável enquanto padrões gerais universalizantes, aponta tendências de entendimento do complexo universo existente. A partir de situações e exemplos trazidos pelos profissionais entrevistados e envolvidos com a intranet, mostra questões que podem ocorrer em diversas situações de implantação/utilização de tecnologias de informação.
2 - Tecnologias de comunicação e informação: contextualização social e teórica
Pode-se dizer que a história das transformações da sociedade e do trabalho passou por três grandes eras que impulsionaram mudanças significativas: “a introdução da agricultura... a revolução industrial... e a revolução na tecnologia de processamento da informação” (SIMON, 1990 apud LIPNACK E STAMPS, 1992:236). Essas revoluções, na metáfora trabalhada por Michel SERRES (s.d.), na verdade seriam correspondentes a grandes eras, num sentido de período de tempo extenso, que tem início com um fato significativo e marcante, gerando uma ordem distinta, com características próprias, enfim, um período histórico novo. Assim teríamos “a era dos carregadores, na revolução agrícola, representada por Atlas e Hércules; a era dos transformadores, na revolução industrial, por Vulcano e Prometeu e, na revolução informacional, a era dos mensageiros, anunciada por Hermes” (DUDUS, 2002:9). SERRES (s.d.) recorre a deuses das mitologias grega e romana cheios de significados correspondentes às eras que representam, em que Hermes está vinculado à era informacional. Hermes é o deus dos caminhos, com cabeça e pés alados. Estes três elementos da metáfora, no que eles podem conter de simbólico para a era informacional, expressam o recente desta era, presente na figura de um jovem belo; a velocidade implícita como componente da mesma, simbolizada pelos pés alados; a multiplicidade de conexões, de armazenamento, de processamento, como possibilidades das tecnologias de informação/comunicação, tendo como uma de suas expressões os computadores, potencializadas pela velocidade dos mesmos, sugeridas pela imagem do cérebro alado.

O desenvolvimento da sociedade, historicamente, em todas as suas eras, esteve marcado por avanços tecnológicos que sempre incorporaram como elementos cruciais a informação e o conhecimento. São transformações significativas nos modos de produção e circulação que afetam a própria organização das sociedades. Nesses intrincados processos de ruptura, a informação e o conhecimento contribuíram e contribuem para o desenvolvimento tecnológico que, por sua vez, faz avançar as possibilidades de ampliação e aprofundamento do conhecimento e da informação. Hoje, a relação entre o desenvolvimento da sociedade e do tecnológico não foge a essa dupla entrada, influenciando-se mutuamente, sendo que, cada vez de modo mais intenso, este último se confunde com o próprio movimento da sociedade, ou seja, “a tecnologia é a sociedade e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas” (CASTELLS, 2000:25).

Nas últimas décadas do século XX, as mudanças ocorridas contaram com significativo aporte das tecnologias digitais, por sua vez as correspondentes tecnologias de informação e comunicação contribuíram para a emergência de novas formas e processos sociais.

Enquanto o ‘microchip’ pisca e abre seu caminho na vida de todo mundo, a experiência comum de trabalho e lazer passa para a pista de alta velocidade da embrionária economia da informação. Mudar de ‘indústria’ para ‘informação’ afeta claramente a natureza do trabalho e certamente afeta o lar e as condições de lazer que cercam o trabalho (LIPNACK e STAMPS, 1992:235).

No entanto, não podemos nos deixar “fascinar” pelas tecnologias, no caso as tecnologias de informação (TI), agigantando o seu significado, a ponto de esquecer o principal objetivo de sua existência, ou seja, a informação que se veicula através dela e a possibilidade de ampliação das condições de conhecimento e comunicação. “Todos os computadores do mundo de nada servirão se seus usuários não estiverem interessados na informação que esses computadores podem gerar” (DAVENPORT, 2000:11) e na potencialidade maior de comunicação que trazem consigo.

Estas tecnologias, de certo modo, têm dado um aporte para garantir as formas atuais que a sociedade vem assumindo num processo crescente de mundialização. Assim referenciais históricos como capital-trabalho vêm sendo ampliados e revistos com o crescimento dos referentes informação-conhecimento, desse modo o mero saber técnico não mais supre as demandas geradas pelas organizações, tendo por base novos fatores de produção, que são principalmente o conhecimento e o saber (GARCÍA, 1997 e DRUCKER,1997).

No centro de tudo isso podemos enxergar uma sociedade complexa e dialética, impregnada por essa “nova cultura” (da informática, da rapidez, da simplificação das coisas), que provoca mudanças no nível macro (sistema social global), no nível micro (organizações) e no homem individual (KUNSCH, 1997:136).

A última década, de modo intenso, desencadeou essa transformação e ampliação no campo tecnológico, que apontam na direção de uma sociedade informacional, no sentido dado por CASTELLS (2000), cujo entendimento “indica o atributo de uma forma específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas ...” (p. 46). Em todas as áreas a tecnologia trouxe grandes contribuições. Segundo MIRABITO (1998),



las nuevas tecnologías de la comunicacíon y las tecnologías complementárias de los ordenadores y de la información afectaron profundamente nuestra estructura social. Existe una creciente interdependencia entre la tecnología, la informacíon y la sociedad (p. 23).

Muitas dessas transformações têm por base computadores e redes de comunicação que possuem, como elementos catalíticos, fatores como a digitalização, a compressão de dados, a multimídia e a hipermídia (SANTAELLA, 2001 e MORAES, 2001). Dentro do campo da comunicação, a entrada das tecnologias de informação trouxe demandas de várias ordens para os profissionais da área.


3 - Redes técnicas e sociais: contextualização
Pode-se dizer, como foi apontado, que as últimas décadas têm sido marcadas por significativa transformação e ampliação no campo tecnológico com repercussões diretas no modo como a sociedade se configura. As organizações em seu interior fazem parte deste processo e vêm se transformando como parte deste conjunto social.

Muitas das tecnologias que emergem trazem em seu conceito uma concepção de rede3, expressiva da configuração presente hoje nas relações sociais. Esta concepção também está expressa no interior das organizações e tem nas tecnologias de informação e comunicação um elemento de contribuição para a sua constituição.

A chegada de novos meios e instrumentos vem auxiliar na disseminação da informação e da comunicação interna e fazem parte da estratégia de comunicação organizacional. A entrada destes instrumentos nas organizações tem gerado modificações nos processos de comunicação junto ao público interno das mesmas. As estruturas organizacionais, hoje, convivem com vários níveis de desenvolvimento tecnológico, colocando a demanda da coexistência de, por um lado, processos impulsionados pelas tecnologias de ponta e, por outro lado, uma comunicação estruturada a partir de instrumentos tradicionais.

Entre as tecnologias de ponta na atualidade, a intranet pode ser destacada por sua crescente inserção nos contextos de trabalho profissional. A intranet, não só pelo seu sentido de entrelaçamento físico, mas por sua estruturação interna, incorporando a idéia de nós, de interligações em links, estabelecendo uma infinidade de interconexões caleidoscópicas, propicia uma intercomunicação integrada e interconectada que constitui uma expressão de rede.

Até hoje pouco explorada em toda a sua potencialidade como ferramenta de informação/comunicação, a intranet pode ser inicialmente definida como “uma rede de computadores conectados que ‘conversam’ entre si usando os mesmos protocolos4 utilizados na Internet. As intranets são redes particulares configuradas para serem utilizadas por empresas(...). Em essência, as intranets são miniversões da Internet, mas de caráter privado” (FRONKOWIAK, 1998:319/322). Nessa linha, e ainda de forma restritiva em sua definição, o Dicionário de tecnologia nos aponta que (2003) “o principal propósito de uma intranet é compartilhar informações e recursos computacionais da empresa entre os funcionários. Uma intranet também pode ser utilizada para facilitar o trabnalho em grupo e para teleconferência” (p. 446).

A implantação de uma estratégia moderna de comunicação interna incorpora a intranet como um canal significativo, que vem responder ao “mercado interno de informação” que constituem as organizações. A implementação da intranet passa pela compreensão de uma série de questões, entre elas as motivações, pressões internas e externas e as resistências encontradas em sua trajetória de criação e existência. Conhecer algumas trajetórias de implantação faz-se necessário para poder entender quais as dinâmicas que influenciaram e influenciam as proprostas e estruturas de uma intranet.


4 - Reconhecendo o instrumento tecnológico: a intranet
Nesta última década, as empresas começaram a ouvir falar em um novo conceito - intranet - que, de forma geral, iria alterar não somente as rotinas de produção mas, especificamente, iria influenciar o modo como a comunicação interna era vista e gerida.

Segundo BENETT (1997), “o termo ‘intranet’ começou a ser usado em meados de 1995 por fornecedores de produtos de rede para se referirem ao uso dentro das empresas privadas de tecnologias projetadas para a comunicação por computador entre empresas” (p. 4).

O uso inicial da intranet foi muito vinculado à área de processamento de dados (CPD), hoje também conhecida como tecnologia da informação (TI), a respeito da qual pode ser encontrada uma diversificada literatura técnica. Essa literatura, ainda que sempre técnica, aponta bons exemplos de utilização de redes, inclusive no âmbito da Comunicação Social (ver FRONKOWIAK, 1998; BENETT, 1997; GRALLA, 1996, entre outros). Esse primeiro movimento de uso vem justamente da própria evolução das ligações de computadores, como indica a entrevistada 3 - Jornalista, “o primeiro estágio foi a área de rede, foi o corpo técnico mesmo(...). Porque, na realidade a década de 80 foi marcada por aplicações em mainframe5, que eram terminais burros6 acessando um computador central. A plataforma da micro-informática veio na década de 90. Então, esses técnicos estavam pensando: como a gente vai ligar em rede tantos equipamentos agora?”

Mesmo com a mudança da tecnologia e da lógica de rede do mainframe para o uso de computadores individuais, antes de ser conhecida como intranet, a utilização de computadores em uma rede de área local, simplesmente denominada LAN (do termo inglês Local Area Network), dentro das organizações ainda ficava limitada ao armazenamento de dados estáticos e a poucos processamentos de informações, tais como análise de projetos de produtos e testes de desenvolvimento.

A rede LAN numa visão mais técnica tem, geralmente, como suporte o protocolo TCP/IP, que foi extremamente difundido com a sua utilização na Internet, “e está restringida a uma área física limitada, como um escritório ou grupo de escritórios, conectando os PC com o propósito de intercambiar, compartir informações e equipamentos” (MIRABITO, 1998:97).

O uso inicial da LAN era reservado a alguns setores da empresa, dado o alto custo de instalação e manutenção, pela interface7, que demandava programação de códigos e digitação de todos os comandos. “Um estágio em que, realmente, só o corpo técnico altamente especializado conseguia entender aquele ambiente. Ele não tinha uma interface gráfica amigável; as pessoas não conseguiam navegar, porque tinha comando de navegação diferente, não era simplesmente ‘clicar’” diz a entrevistada 4 - Relações Públicas/Jornalista.

Por conseqüência, havia a necessidade de comandos complexos, normalmente só conhecidos por um grupo de pessoas do setor de processamento de dados, e levavam com que

las empresas tenían que decidir la forma en que la información había de introducirse en el ordenador, formular las instrucciones concretas sobre el destino de los datos, el modo y lugar donde almacenarlos y cómo controlarlos. Al final la información quedaba dispersa, repetida y armazenada de modo arbitrario y sólo el programador conocía la situación (GARCIA JIMÉNEZ, 1998:234).

Com o progressivo rebaixamento dos custos de implantação dos computadores, houve uma primeira expansão do uso de redes locais nas organizações. Ainda com uma complexidade grande, os computadores traziam uma série de restrições em seu uso. “Quando eu tive o primeiro computador na empresa, era aquele da tela preta com letrinha verde cheio de comandos que a gente tinha que decorar. Para completar a complicação, a empresa ainda tinha um programa próprio, com comandos diferenciados; para fazer um negrito, tinha que digitar negon ‘palavra’ negoff. Não tinha fonte, não tinha cor, não tinha nada e a impressora era matricial. (...) Estas coisas são tão incríveis que tem mais de 15 anos e eu ainda guardo”, conta a entrevistada 7 - Relações Públicas.

Com o avanço tecnológico dos computadores, o aumento do uso dos mesmos nas organizações, a evolução das interfaces (conhecidas hoje pelo nome de GUI8) e, principalmente, com a entrada da Internet e do desenvolvimento da word wide web (WWW)9, é que foi possível utilizá-los de uma maneira mais ampliada. Os dados, que antes eram acessados por linhas de comando, agora são visualisados por comandos gráficos, através de uma iconografia que facilita o seu entendimento. Contudo seu uso continua sendo, muito, o de armazenamento de dados estáticos.

Isso se deve, na percepção da entrevistada 4 - Relações Públicas/Jornalista, pois “a informática, acompanhando as tendências do mercado dela, achou que a intranet seria uma opção interessante de comunicação para a empresa, e a partir daí ela mesma é que encabeçou o projeto e, de certa forma até, esses primeiros anos, a responsabilidade sobre o veículo era dela. A comunicação era uma das fontes. Não nasceu como uma expectativa de lá”, mostrando que o setor de comunicação social não teve a preocupação de estar envolvido nesse processo inicial e dai a visão de uma ferramenta de armazenamentos de dados.

Passado esse período, e com a evolução da concepção de intranet, por parte dos estudiosos, passou-se a ver que ela era “muito mais que uma mera interligação de servidores que executam tarefas semelhantes - é um sistema cooperativo que envolve computadores e pessoas”, sendo em sua essência “um ambiente dinâmico e ativo que difere de tudo o que as pessoas conhecem” (BENETT, 1997:XXI).

Atualmente, utilizando os mesmos protocolos da Internet, a intranet não pode ser vista ou entendida como uma versão corporativa da Internet. Esta confusão entre os termos, no senso comum e na linguagem coloquial, muitas vezes ainda ocorrem, contudo as estratégias de uso e funções são bem diferenciadas entre elas. O autor LAFRANCE (2001) nos indica algumas diferenças básicas ao dizer que a “intranet está exclusivamente consagrada a la organización interna de la empresa, mientras que el sitio Internet está más bien dedicado a su imagen y sirve de interfaz com el mundo exterior” (p. 17).

Pode-se considerar que Internet não tem limites10, é uma rede de livre acesso e abrange um público extremamente diferenciado; representa forças difusas e seu conteúdo é público; sua gestão é complexa, não controlada por uma única organização. Já a intranet, é limitada, no sentido das conexões estabelecidas, sendo, portanto, uma rede fechada em seu acesso, o que impede a entrada11 de pessoas alheias à organização; possui um público conhecido e está centrada em uma organização que a controla, com sua cultura, crenças e sistemas próprios.

As intranets são filhas de corporações, que possuem cultura singular e ambiente controlado; já a ‘grande rede’, como o nome indica, não conhece fronteiras. Vale também lembrar que a Internet cresceu libertária e anárquica, enquanto as ‘intra’ estão diretamente associadas à produtividade e ao lucro desde o seu nascedouro (SALDANHA, 2002).

Com pode ser notado a década de 90 marcou o início das preocupações com a introdução da intranet nas empresas cujos profissionais foram entrevistados. Na maioria dos casos, foi principalmente na segunda metade dessa década que a sua criação efetivamente se deu. A consolidação da intranet, e em algumas situações sua entrada e contribuição mais concreta da Comunicação Social é um acontecimento muito recente, próximo ao ano 2000. Isto significa que são processos muito atuais.


5 - Comunicação organizacional e intranet: o futuro imperfeito

Os instrumentos tradicionais vêm sendo complementados e, por vezes, substituídos pelos que utilizam a via eletrônica - correio, e-mails, informativos eletrônicos, e outros, entre eles, a Intranet. Os movimentos de convivência dos dois tipos de instrumentais - o tradicional e o eletrônico emergente, ou a substituição de um pelo outro, apresentam-se como processos diversos nas empresas pesquisadas, pois dependem de uma série de fatores, entre eles, o acesso ao equipamento.

Ao mesmo tempo que é importante contemplar estes diferenciais, a comunicação precisa ser integrada, garantindo que todos recebam a informação necessária. Na fala do entrevistado 8 - jornalista, isto fica evidente: “a gente tenta sempre integrar a comunicação para que todos recebam a mesma informação, de forma diferente, às vezes até com uma linguagem diferente, mas a gente tenta manter uma linguagem padrão.(...) Assim o mural atende muito bem o público de fábrica e também o administrativo. Temos hoje uma intranet que também começa a atender melhor o público administrativo. Temos e-mails que são mensagens enviadas para as caixas postais das pessoas desta área e os cientistas, pois quase todo mundo tem um equipamento, um computador na mesa.” E completa, apresentando um panorama maior e, talvez, mais condizente com a realidade de muitas organizações no Brasil, ao dizer que “para atender a demanda corporativa, a gente usa os veículos que avaliou e que são os mais eficientes dentro dos recursos que temos, tanto de orçamento quanto de logística. Quer dizer, se a gente tem mais da metade dos funcionários em fábrica, então a gente não pode pensar em trabalhar só de forma digital, sabe que vai precisar de papel e o suporte dos gestores, que seria através da comunicação face a face.” Até porque “o face a face ainda é fundamental. Não existe tecnologia que o supere - mesmo que enviemos várias informações e/ou democratizemos o acesso a elas, tudo deve vir acompanhado de uma informação mais individualizada, que só o contato entre as pessoas pode fornecer”, reafirma a entrevistada 5 - Jornalista.

Para a comunicação, um dos primeiros atrativos da intranet foi “o fato de você poder entrar com uma informação a qualquer hora, a qualquer instante, o que não acontece nos outros veículos” diz a entrevistada 4 - Relações Públicas e Jornalista. Assim o ponto principal, em relação aos outros instrumentos de comunicação, é a agilidade não só na renovação como também na periodicidade e na forma como esse conteúdo pode ser transmitido.

Conforme já foi mencionado, dentre as organizações estudadas, o processo de implantação da intranet, no formato que hoje é conhecido, teve o seu início já no ano de 1995, quando começou a ser usado o termo em si. Porém sua difusão só ocorreu um pouco mais tarde, quando os projetos realmente começaram a ser implantados.

Hoje, as intranets já sofreram várias adaptações e muitos projetos estão na segunda ou terceira versão, com mudanças vindas das próprias demandas dos usuários e dos avanços que foram surgindo no campo tecnológico, que potencializaram as possibilidades de seu uso. Mesmo com essa evolução, muitas empresas ainda continuam usando sua rede, reduzida a armazenamento de dados, como podemos notar na fala da entrevistada 7 - Relações Públicas e consultora de comunicação -, que, ao conversar com seus clientes e indagar sobre a existência da intranet nas empresas escuta como resposta: “tem aquela mais voltada para business. Então qual é o conteúdo dessa intranet que eles chamam de ‘mais voltada para business’? Tem estratégias de vendas, tem preços, tem produtos, só que não tem a informação gerencial, (...) a informação institucional”.

As novas versões tendem a querer incorporar, mas nem sempre conseguem, o potencial de informação/comunicação da intranet, baseado, entre outras questões, no estabelecimento de relações não lineares, com sua extensão, atualização e agilidade ampliadas, em que uma outra visão de espaço e tempo estão presentes, distintas das subjacentes aos instrumentos tradicionais internos presentes nas organizações. Na intranet, nestas suas versões atuais, o usuário pode, cada vez mais: transitar de modo pessoal pelas informações em uma rede ampliada, fazendo um percurso próprio selecionado por ele, dentro da complexidade de tipo “fractal” que hoje é oferecida pelo instrumento. Os variados percursos escolhidos vão estabelecer relações horizontais e verticais, contribuindo para gerar uma maior dinâmica nos fluxos; acessar um volume de dados em permanente trânsito pelo instrumento, e disponibilizado de modo mais extenso no interior das organizações, significativamente maior do que o repassado através dos meios tradicionais de comunicação interna; receber conteúdos em atualização permanente e rápida, acompanhando as demandas constantes de informação/comunicação.

A redução do uso da intranet, ainda muito presente nos dias de hoje, como banco de dados elimina uma das potencialidades mais inovadoras que este instrumento traz consigo, ou seja, o intercâmbio comunicativo. Idealmente, este instrumento de informação/comunicação tem a possibilidade de uma utilização ativa, uma perspectiva relacional, isto é, tem a capacidade de comunicação de mão dupla. Nesta, o receptor constitui, ao menos idealmente, um usuário que participa do processo de produção de sentido do texto, pois o conjunto do enunciado pode incorporar o retorno dado pelo mesmo, através da pluridimencionalidade do repasse de informações. Além do mais, no caso da intranet o usuário vai atuar de forma ativa num sistema que, mesmo com possibilidades pré-ordenadas e anteriormente definidas de modo bastante preciso, ainda assim irá gerar um resultado não totalmente previsível, dado que ele pode percorrer vários caminhos, criando uma leitura não linear. E, ainda, tem a possibilidade de gerar um ritmo de comunicação considerado próximo ao “tempo real”12. Em última instância, as reduções presentes no uso da intranet têm prejudicado a sua possibilidade de “interactividad propiamiente dicha como un diálogo hombre-máquina que haga posible la producción de objetos textuales nuevos, no completamente previsibles ‘a priori’ ” (BETTETINI e COLOMBO, 1995:17).

Muitos tem sido os caminhos que as organizações utilizam para a migração / evolução de seus instrumentos de trabalho para os meios digitais. Na realidade observada, o que se viu foi que, em algumas situações, a intranet foi criada e gestada dentro de um planejamento estratégico maior e, em outras, foi sendo vivida e testada no dia-a-dia. Essa diversidade de meios tem sua base na própria história do instrumento e a variedade de usos possíveis.

É plausível afirmar que não há uma formula pronta para a implantação / utilização destes instrumentos. Cada organização possui um modo particular (normalmente indicada pela cultura organizacional) de participar e assimilar as mudanças trazidas e necessárias para que um projeto tecnológico tenha êxito. A necessidade de aprofundar o tema e a não existência de modelos perfeitos faz com que a relação comunicação organizacional e intranet tenha, ainda, um futuro imperfeito, no sentido de que não está finalizado.



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1 Professor de Relações Públicas na FEEVALE-RS. Mestre em Ciências da Comunicação pela UNISINOS-RS

Graduado em Relações Públicas pela PUC-MG.



2 Sandi, André Quiroga. “No limiar da comunicação organizacional: a intranet e o redirecionamento da ação profissional”. São Leopoldo: Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação-Unisinos, 2003.

3 A palavra rede aparece com reiterada freqüência em quase todos os campos da ciência. Seu primeiro uso (do termo em inglês network) data de 1560 e tem como significado “um trabalho (work) no qual fios, arames ou assemelhados são arrumados na forma de uma rede (net)” (Oxford Universal Dictionary apud LIPNACK e STAMPS, 1992). Atualmente escutamos a palavra rede todos os dias. Rede de televisão, rede de telefonia, rede de solidariedade, rede fluvial, rede ferroviária, entre outras. Estas duas últimas mostram que a estruturação da sociedade em rede de comunicação não é algo recente. Já fizeram parte do século XVIII, quando a criação de um sistema de comunicação nacional (por trem, navios, etc) tornou-se realidade na França e na Inglaterra (MATTELART, 1995). Para CASTELLS (2000) a organização social em redes, também existente em outros momentos da história, como se configuram hoje é que traz a sustentação para sua expansão dentro das complexas estruturas sociais que se estabelecem. Este autor entende que a disseminação das lógicas em rede, na atual configuração da sociedade, transforma de maneira profunda o modo como esta opera e, assim, uma série de noções, como a de experiência, de poder e de cultura. Neste sentido, a noção de rede está na base da compreensão não apenas da rede em si mas de todo um movimento que está presente na sociedade, expresso no modo como se configura a vida social, de um modo geral, e as organizações em seu interior. “Embora o trabalho pessoal em redes de conexões seja tão antigo quanto a história da humanidade, foi apenas nas últimas décadas que as pessoas o usaram conscientemente como uma ferramenta organizacional, e só agora estão começando a lhe dar um nome” (LIPNACK e STAMPS, 1992:4).

4 O protocolo é um conjunto de normas e especificações técnicas que visam padronizar a troca de dados entre computadores, mesmo com diferentes sistemas e/ ou fabricantes. A origem da palavra “vem do grego ‘protocollon’ que era uma folha de papel colada a um volume de manuscrito descrevendo seu conteúdo” (Dicionário de tecnologia, 2003:688).

5 O mainframe é um computador de grande porte, central e responsável por todo o processamento e armazenagem de dados e informações. Foi muito utilizado por grandes organizações nas décadas de 70 e 80.

6 O termo “terminal burro” refere-se a terminais que eram formados apenas por vídeo (tela) e teclado, não possuíam unidade de armazenamento e nem poder de processamento, ficando interconectados a um computador central, chamado de mainframe.

7 “Dispositivo que posibilita la comunicación entre la computadora y sus usuarios, o entre dos elementos informáticos que permiten un intercambio de información entre ambos” (JOYANES AGUILAR, 1997:113). Para uma ampliação do entendimento sobre esta questão, ver LAUREL, Brenda. Computers as theatre. Reading : Addison-Wesley, 1998

8 GUI – Graphical User Interface “Interfaz gráfica de pantalla completo que permite a los usuarios ejecutar programas y órdenes, así como interactuar con el ordenador, mediante el dispositivo ratón” (JOYANES AGUILAR, 1997:113).

9 Normalmente usados como sinônimos, Internet e WWW são dois conceitos distintos, por mais que um esteja vinculado ao outro. A Internet é a interligação de várias redes de informática para troca de dados, baseada em protocolos comuns. Já a WWW é um sistema criado que permite criar, editar e visualizar documentos, de forma simples, combinando texto, imagens e som, através da Internet e sem barreiras de sistemas operacionais (BENETT, 1997; JOYANES AGUILAR, 1997).

10 Apesar de ser uma rede finita, dado que o número de conexões possíveis é limitado, esse valor é tão grande e com ligações que crescem a cada dia que é usual considerar que ela é ilimitada.

11 As formas de controle de acesso (normalmente conhecida como firewall) nem sempre impedem a entrada nos sistemas de computadores das organizações, há pessoas “especializadas”, chamadas de hackers, que têm a habilidade de invadir estes sistemas, por hobby ou “profissionalmente”, estes últimos, se tem o intuito de causar algum dano, são denominados crackers.

12 Considera-se que a intranet gera uma comunicação próxima ao ‘tempo real’, pois está efetivamente mais próximo deste, se comparado, por exemplo, às possibilidades do jornal mural, e é ainda distante do ritmo de ‘tempo real’ presente em uma vídeo conferência.






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