Ciências mo Brasil Monárquico



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CIÊNCIAS NO BRASIL MONÁRQUICO

(um ensaio)1
l. QUESTÕES METODOLÓGICAS PRELIMINARES: CULTURA E CIÊNCIA
Para a compreensão de como se foi constituindo a cultura científica no Brasil no período de 1820 a 1870, propõe-se aqui explorar em que extensão as transformações ocorridas nessas décadas, em termos econômicos e sociais, repercutiram na super-estrutura cultural e, inversamente, de que forma os elementos de cultura afetaram a vida produtiva do país. Muito embora um estudo completo dessa interação economia-cultura seja rico de determinação, neste trabalho o foco de atenção centrado, sobretudo na cultura científica. A intenção é procurar certificar se a cultura científica é tanto elemento determinante quanto determinado da estrutura econômica e da vida social de um país. Nesse sentido a investigação, de um lado, é conduzida para encontrar, no limite, esses condicionantes sociais e econômicos da cultura, e por outro, considerar uma autonomia relativa da esfera cultural, e então trabalhar no sentido de perceber seus reflexos no sistema produtivo e nas relações de produção de uma dada sociedade.

A história da ciência no Brasil pode adquirir maior consistência quando vista sob essa abordagem, sobretudo porque, no caso brasileiro e no período mencionado, os aspectos oriundos do sistema sócio-econômico assumem um peso ainda maior. Ao contrário do que ocorreu em alguns países europeus (França e Inglaterra principalmente), onde a pesquisa e a descoberta científica tiveram contornos nítidos, no Brasil o evolver científico foi muito difuso. Embora em ambos os casos sejam possíveis conduzir estudos balizados pelos pressupostos acima explicitados, o desenvolvimento científico europeu - desde o Renascimento - forneceu uma quantidade enorme de dados para que alguns historiadores pudessem fundar seus estudos em bases "internalistas", ou seja, foi possível para eles, face às informações de que dispunham, pensar as transformações da ciência considerando apenas as mudanças operadas no interior das teorias científicas. Afinal de contas a física, a química, a matemática, a biologia que estão largamente difundidos pelo mundo tem seus maiores representantes, fundadores e continuadores, homens europeus.

No Brasil, este tipo de enfoque (internalista), por certo, conduziria somente a uma cronologia de eventos precariamente científicos assim como esparsos, de pouca valia para a elucidação das tramas culturais trilhadas por esta sociedade. Portanto, tal forma de encarar o avanço científico, além de não se coadunar com a metodologia levada a cabo neste trabalho, é de impossível execução, já que não se assistiu no período o germinar de idéias originais, suficientes para sustentar minimamente esse tipo de abordagem. A história da ciência brasileira, sobretudo no século XIX, assume um perfil eminentemente social, ou seja, é difícil concebê-la sem se atentar para fatores de órbita econômica e política.

A ausência de descobertas científicas, adotando-se como marco científico dos países mais adiantados da época, é testemunha pela inexistência, neste país, de cientistas que se aproximassem de figuras como. Maxwell, Lagrange, Lavoisier, Darwin, Joule, etc. Este fato, porém, não impede a condução de um exame de fenômenos relacionados à evolução científica brasileira. Ao contrário, um estudo de natureza social da ciência em países como o Brasil, pode contribuir perfeitamente para um entendimento mais completo da relação do desenvolvimento do capitalismo e a cultura nos países periféricos, ou então, de como o desenvolvimento desigual do capitalismo afeta a cultura em tais países.

Quando possível e considerando-se a autonomia do campo cultural, e aqui incluso o científico, não abandonamos a hipótese de se realizar estudos confinados às determinações próprias das teorias científicas. Contudo, há um outro tipo de observação que se pode fazer neste caso: tal tipo de enfoque não é capaz de apreender, na sua totalidade, as mudanças operadas mesmo no interior das ciências. A ciência, assim como qualquer outra atividade humana, está presa a uma série de fatores externos ao seu conjunto, os quais exercem efetivas influências na escolha de áreas a serem estudadas na aplicação de seus resultados e em menor grau, mas não imperceptível, nos limites do instrumental usado (teoria e métodos).

Para ficar apenas num caso bem característico e polêmico, evoca-se aqui o do aparecimento da geometria não-euclidiana. Na leitura existente a respeito desse assunto há unanimidade em afirmar que essa nova teoria surgiu como obra de alguns matemáticos de talento, quando refutaram o quinto postulado de Euclides. Aparentemente, esta negação do postulado se deu apenas ao nível das idéias, como se este fosse um mundo à parte de outros segmentos da realidade. Mas, para o entendimento mais global desse caso, faz-se necessário levar em conta a dinâmica do desenvolvimento da matemática ocorrida no século XVIII e no início do século XIX, que tinha como referencial, na sua globalidade, as movimentações da realidade econômica e social. A princípio poder-se-ia pensar que já na Idade Média algum pensador estivesse apto a construir tal refutação. Todavia, é perfeitamente visível que a estrutura social e ideológica da época não respaldava essa novidade, como também não oferecia condições para um desenvolvimento mais vigoroso da matemática, tal como se deu no século XIX.

Em outras palavras, a realidade social põe limites ao desenvolvimento das ciências: os objetos de estudo, o instrumental (métodos), a ideologia, a produção e o perfil da comunidade de cientistas e intelectuais da época são referenciais de futuros desdobramentos do saber científico. É evidente que para se entender, em termos puramente matemáticos, a passagem da geometria Euclidiana para não-Euclidiana não se precisa saber que ela ocorreu em tempo de Revolução Industrial. Pode-se compreendê-la à parte deste fato. Porém, esse fenômeno foi datado a isto exige uma explicitação do porque ocorreu naquele momento e local.

A extensão da inovação - tanto o seu ritmo e profundidade - foi função do contexto econômico e social. Ou seja, o fato de se refutar o 5o postulado foi obra de uns poucos matemáticos inseridos nas preocupações dominantes do meio à época. Não foi exclusivamente a genialidade desses homens responsável pela introdução de uma nova matemática e sim toda a ambiência cultural presente àquele tempo.

Assim, todo o conhecimento, incluindo científico, será considerado neste trabalho como histórico, prático e social. A desvinculação dessas três características de qualquer conhecimento provoca lacunas no entendimento do saber constituído.

Mesmo reconhecendo a necessidade de firmar o presente estudo num conjunto mais completo de relações, afloram uma série de problemas que impõe limites a esse empreendimento. A questão da exigüidade de fontes, de tempo e de espaço demarca muito o propósito deste ensaio. Nesse sentido, apenas alguns pontos que mais diretamente forjaram os contornos da cultura científica brasileira, serão examinados.

Conseqüentemente, ao abordar a problemática da cultura nos seus aspectos superestruturais somente as formas científicas, literárias e políticas serão objetos de considerações. Não se fará menção à cultura popular ou à cultura implícita.2 Não se trata, porém, neste caso, de uma demonstração de desinteresse pela matéria, senão que para o objetivo do estudo empreendido, os exames preliminares conduziram a determinações muito tênues das relações entre a cultura científica e a cultura popular (ou cultura implícita). Duas observações a mais, certamente, serão suficientes para justificar a opção escolhida.

Em primeiro lugar, a ciência é modernamente uma forma bem erudita de conhecimento cujo avanço só se deu, sobretudo, a partir do século XIX - através de treinamento, organização, educação e aprimoramento dos homens. O conhecimento prévio de atividades e teorias desenvolvidas no passado foi - século XIX, senão sempre, pré-condição para qualquer originalidade, Mesmo tendo sido obra de autodidatas e amadores, a ciência exigiu um condicionamento de seus praticantes que estava muito além do senso comum. Além disso, a preocupação deste ensaio orienta-se na determinação de fatores que mais diretamente afetaram o desenvolvimento científico. Não se pode dizer que o trajo, o tipo de morada, as diversões, o hábitos alimentares, as formas de religiosidade tenham substancialmente auxiliado ou obstaculizado a evolução da ciência. Talvez se possa dizer que a indústria desses bens e das formas de lazer, desde que desenvolvidas, dão um vigor ao desenvolvimento científico, e são uns poderosos indicadores da dinâmica de uma formação social. Contudo, como já foi apontado, o sistema produtivo brasileiro era por demais atrasado, e isto colaborou para que a cultura científica tivesse um desenvolvimento lento.

O que está em jogo neste trabalho é a investigação de como certos ramos do saber, nomeadamente: a Física, a Química, a Matemática, a Biologia e assemelhados se enraizaram nos meios sociais brasileiros. Para esse conjunto de disciplinas, os estudos iniciais mostraram que foram de pouca valia os costumes identificados com a alimentação, danças, vestuários, etc, na explicação da evolução dessas ciências em terra brasileira. Já não é o caso de outros setores do saber, não propriamente científicos, mas que guardam estreitas ligações com eles, que sofreram influências bem sistemáticas das vivências do cotidiano, sobretudo nas primeiras décadas do século XIX, exatamente por estarem mais entranhadas na cultura implícita. Trata-se, por exemplo, da medicina e do direito, e em menor grau da economia. Estes campos de conhecimento ganharam desenvolvimentos próprios e circunstancialmente genuínos por se acharem emaranhados com as preocupações imediatas expressas pelo meio social. Mas mesmo nesses ramos, com o passar do tempo, é discernível uma aproximação cada vez maior do seu corpo de conhecimentos com as teorias desenvolvidas no mundo europeu.

Maria Beatriz Nasa da Silva, estudando aspectos da cultura brasileira durante a permanência da Corte de D. João VI no Brasil, mostra preferência em estudar as disciplinas que mais imbricavam na vida cotidiana da sociedade, como a filosofia, a economia, o direito, a história natural e a medicina. Esta, segundo sua apreciação, era a mais "social" de todas as ciências. Quanto às demais, ela afirma: "Não me referirei detidamente a todas as ciências que constituíam, no início do século XIX a cultura científica da sociedade carioca, pois algumas delas, como as denominadas ciências exatas eram cultivadas principalmente nas suas aplicações práticas".3 Distinguiam-se então, as matemáticas puras das matemáticas mistas, isto é, aplicadas à arte militar, ao comércio etc, e eram estas últimas que ocupavam as elites culturais, como veremos mais adiante.

Sem entrar na discussão de que se a filosofia, direito e medicina - deixando de lado as outras disciplinas apontadas acima - sejam ciências propriamente ditas, ou se na época eram tidas como tal, a pretensão do presente estudo é diverso. Busca-se aqui, exatamente verificar como a física, a matemática, a biologia, a química, a mineralogia, que estavam em plena consolidação no continente europeu, e eram consideradas indubitavelmente como ciências, foram penetrando em território brasileiro. De resto, não se despreza a importância do direito, da filosofia e da medicina na formação da nossa cultura científica.

A idéia de ciência que se tem neste trabalho é a de que ela é um reflexo da realidade. Não de um reflexo passivo: o conhecimento humano se torna, cada vez mais científico à medida que reproduz em um grau de aproximação cada vez maior a "coisa em si", retirando do objeto examinado, os acréscimos estranhos à sua natureza. Para o cumprimento deste objetivo, a ciência deve ultrapassar o nível do senso comum e adquirir formas apropriadas de apreensão do real. Formas que englobam, mas superam a pura intuição. A ciência por isso adquire uma tessitura mais complexa, capaz de penetrar mais agudamente nos aspectos da realidade. Ele se apresenta como uma construção humana, não arbitrária, vinculada à história e à prática social, conseguindo unir essência e fenômeno através de explicações sistemáticas e procurando uma reprodução mais fiel da estrutura do real. Nesse sentido e neste ensaio, serão consideradas ciências as formas do conhecimento que tradicionalmente se enquadram no esquema acima e que através da história foram adquirindo o poder de se apropriar da realidade natural. Entre elas, já anteriormente citadas, inscrevem-se a física, a química, a matemática e a biologia, para ficar nas que mais detidamente serão objetos de estudo neste trabalho. Não serão objetos de estudo as ciências denominadas sociais. Portanto, ao se mencionar o conceito ciência a preocupação precípua é com as ciências naturais.

A cultura científica por sua vez é identificada com o conjunto de fenômenos que de uma forma ou de outra estão relacionados com atividades científicas: o ensino e divulgação das ciências naturais, o uso ideológico das conquistas científicas, aplicação prática dos conhecimentos, a publicação de livros e revistas científicas, a criação de sociedade e instituições dedicadas à ciência.

Com base nas reflexões feitas acima, este estudo será encaminhado no sentido de: a) indicar ao leitor, ainda que de forma breve, as principais determinações da ciência no "velho continente", dado que a cultura científica em gestação no Brasil, no início do século XIX, teve uma articulação direta com o desenvolvimento científico europeu, sobretudo com a ciência francesa; b) mostrar o perfil, ao longo do tempo, da comunidade de intelectuais que realizaram o saber científico brasileiro; c) traçar um breve quadro das instituições dedicadas ao ensino e desenvolvimento das ciências; e, d) detectar as diversidades dos movimentos de cada ramo do saber aqui instituído. Não se tem, nem de longe, pretensão de esgotar esse assunto, assim, apenas serão esboçadas as diferentes articulações entre o geral e o particular, ressaltando-se, porém as especificidades intrínsecas às atividades científicas que, no Brasil-Império, eram levadas a cabo.

Dentro deste escopo são necessárias referências às obras mais importantes sobre o assunto e que já são de domínio público. Não se trata, neste caso, de fazer um balanço crítico ou, tampouco, um resumo dos trabalhos sobre a historiografia científica: intenta-se exclusivamente, registrar a importância dos mesmos e utilizá-los esporadicamente no corpo deste ensaio. O livro organizado por Fernando Azevedo, As Ciências no Brasil, e os três volumes organizados por Mário Guimarães Ferri e Shozo Motoyama, História das Ciências no Brasil4, são leituras básicas e essenciais. Todos eles discorrem sobre o avanço dos diferentes ramos do saber, tendo sido elaborados por estudiosos especialistas em cada disciplina abordada. Tanto um quanto outro, fornecem, em boa medida, um apanhado da produção científica brasileira, ressalvando-se, como é próprio, de trabalhos desse cunho, a diversidade qualitativa e analítica de cada artigo nele contido. Entre outros estudos que também merecem menção pode-se citar: O Progresso das ciências no Brasil, artigo de Juliano Moreira; A Biologia no Brasil, de C. de Mello Leitão; A Cultura Brasileira, de Fernando de Azevedo (capítulo sobre a cultura científica); Formação da Comunidade Científica no Brasil, de Simon Schwartzman; Gênese e Evolução da Ciência Brasileira, de Nancy Stepan e os dois livros de Othon Henry Leonardos sobre Geociências no Brasil (contribuição germânica e a britânica respectivamente).5 Mais recentemente, em grande parte de trabalhos monográficos, em instituições universitárias que passam a conter grupos de estudos em história da ciência, aparecem vários estudos interessantes enriquecendo a historiografia sobre o assunto. Destaco aqui os trabalhos que abordam de formas variadas questões sobre cultura científica no Brasil Império: Sílvia Figueiroa, As ciências geológicas no Brasil: uma história social e institucional (1875-1934) ; Clovis Pereira da Silva, Uma história social do desenvolvimento da Matemática superior no Brasil, de 1810 a 1920; Maria Margaret Lopes, com o seu trabalho As Ciências Naturais e os Museus no Brasil no século XIX; DOMINGUES, Heloisa Maria Bertol, Ciência: um caso de Política: As relações entre as ciências naturais e a agricultura no Brasil-Império; EDLER, Flávio Coelho, As Reformas do Ensino Médico e a Profissionalização da Medicina na Corte do Rio de Janeiro. 1854-1884.


2. RAÍZES DA CULTURA: CIENTÍFICA: ASPECTOS INTERNOS E EXTERNOS
O período em pauta abarca, em termos mundiais, o fim da "Revolução Industrial" (1780-1840), os primórdios da chamada "Revolução Técnico-Científica" (1870) e a época da estruturação do mercado mundial. Internamente, abrange a crise da economia colonial e sua constituição, a partir da independência, em bases nacionais, com três atributos essenciais: ser escravagista, mercantil e estar com sua dinâmica fundada na produção de café.

Essa apreciação geral poderá ser agrupada em dois conjuntos, para facilitar a visualização do processo, já que na realidade eles são integrados. De um lado, pode-se atentar para as determinações específicas da Europa, e de outro para as condições endógenas do Brasil. No primeiro caso, importa destacar os traços significativos da ciência e da técnica européias que influíram no Brasil. No segundo caso, será esboçado um quadro das condições sócio-econômicas para se entender tanto o processo de absorção dos novos conhecimentos como para compreender os limites e as potencialidades do crescimento endógeno.


2.1. A INFLUÊNCIA EUROPÉIA
Quanto ao aspecto externo constata-se que a cultura científica que foi se formando no Brasil, no início do século XIX, teve uma articulação direta com o desenvolvimento científico europeu, sobretudo com a ciência francesa. Neste sentido, há que se examinar, ainda que de forma breve, as principais determinações da ciência no "velho continente".

É evidente que neste exame, os aspectos eminentemente científicos serão contemplados com mais detalhes, embora se procure não perder de vista as caracterizações mais gerais do sistema econômico-social predominante no velho mundo, pois são as relações econômicas, em últimas instâncias, as responsáveis pelo ritmo e pela irradiação dos conhecimentos científicos através dos países que mantinham vínculo com a Europa. A profundidade da penetração do saber científico no Brasil, e mesmo o porte das produções autóctones dependeram, segundo o ponto de vista adotado neste trabalho, da dinâmica interna de seu sistema produtivo. Este lado interno da questão será visto mais adiante.

As décadas finais do século XVIII e as iniciais do século XIX foram palco de grandes transformações na Europa, que repercutiram, substancialmente, na evolução da ciência. Entre os mais importantes acontecimentos destacam-se a Revolução Francesa e a Revolução Industrial.

Com elas, o capitalismo adquiriu uma forma consolidada, tanto no plano econômico quanto no político, embora resquícios de antigas formas de produção ainda se fizessem presentes. E aqui, seria prudente alertar que as repercussões desses acontecimentos não se fizeram sentir de forma efetiva e abrupta em todos os países, o que implica dizer que alguns deles se opuseram às mudanças por mais tempo. É o caso, por exemplo, de Portugal, que teve um papel relevante na formação cultural brasileira, e que não acompanhou as transformações ocorridas na Inglaterra e França. O desdobramento desses fenômenos (as revoluções) para a ciência tem sido objeto de numerosos trabalhos. É nessas décadas que a ciência adquire mais um traço marcante: nas áreas aonde o capitalismo vai se consolidando mais rapidamente ela inicia sua função de eficiente colaboradora na consubstanciação desse próprio capitalismo até que, no final do século XIX, ela se torna um apêndice do capital, ou seja, um agente indispensável na promoção do desenvolvimento econômico. Isto não ocorreu por mero acidente, embora seja difícil descobrir nos seus detalhes como a apropriação capitalista desse patrimônio cultural foi se estabelecendo, mesmo assim, é possível identificar algumas particularidades do envolvimento da ciência pelos interesses do capitalismo.

Na base dessa ocorrência - a função da ciência como auxiliar de produção - está a maior divisão manufatureira do trabalho, a especialização das tarefas assim como a melhor organização do trabalho, a maior complexidade da distribuição dos bens e da alocação mais racional dos recursos, todas a exigir maior precisão, métodos mais eficientes e materiais mais adequados, que a ciência estava apta a fornecer e assim o fez, integrando desta forma, ciência e técnica. Embora a técnica tenha desempenhado, no caso da Revolução Industrial, um papel mais efetivo, vez ou outra recorria aos conhecimentos científicos para dar seqüência ao seu irrefreável movimento, ou seja, a ciência pouco forneceu de si para esta etapa significativa da história da humanidade. Em contraste, a Revolução Industrial abriu as portas para que a ciência se tornasse uma força indispensável no processo de produção, desde o fim do século XIX e por todo o século XX. As transformações operadas na indústria facilitaram e forçaram a captura do saber científico em seu interesse. Harry Braverman, discutindo essa questão, observa argutamente.
Assim em contraste com a prática moderna, a ciência não tomou sistematicamente a dianteira da indústria, mas freqüentemente ficou por trás das artes industriais e surgiu delas. Em vez de formular significantemente novos enfoques das condições naturais de modo a tornar possíveis novas técnicas, a ciência, em seus inícios sob o capitalismo, no mais das vezes, formulou suas generalizações lado a lado com o desenvolvimento tecnológico ou conseqüência dele.6
As alterações que sofreu a ciência, com a nova indústria, foram complementadas pela recorrência cada vez maior da ciência e da técnica a novos instrumentos de experimentação para angariar novos conhecimentos - contrapondo-se à contemplação da natureza ainda, desde a Grécia Antiga, executada por homens de saber da época.

Estes foram também elementos significativos para a mudança de comportamento dos que praticavam atividades científicas, assim inserindo-as, ainda mais, no mundo da produção. A conexão entre ciência e indústria durante a Revolução Industrial era difusa e indireta, mas com o passar do tempo o capitalismo em seu próprio interesse foi organizando a produção científica, custeando a educação e a pesquisa. Nesse sentido, foi a Revolução Industrial a chave que norteou o avanço científico posterior aos meados do século XIX e transformou a ciência de propriedade social generalizada, feita em grande parte ainda por amadores, em um sistema amplamente organizado e financiado pelo Estado e pela Indústria.

Se, de um lado, a ciência não teve um papel essencial na configuração da Revolução Industrial, cabendo mais às transformações técnicas, às invenções e organização do trabalho tal tarefa, de outro, a Revolução Industrial foi indiscutivelmente um viveiro de conhecimento científicos. Não se quer dizer com isso, que as conquistas da humanidade, em termos das próprias ciências naturais, não prepararam o caminho para a era das máquinas. Antes da ocorrência das profundas alterações na produção, já a ciência havia contribuído para mudar o modo de pensar, os hábitos e paulatinamente tanto ela quanto a técnica vinham se adaptando às necessidades do dia-a-dia do homem. Estas considerações constituem o cerne das idéias importantes que influíram no modo de ver a ciência como dotada de um caráter prático/utilitário que incontestavelmente repercutiram, mesmo que de formas modificadas, no Brasil.

Contudo, mesmo afirmando que o século XIX foi o palco da vinculação da ciência com o sistema produtivo, não se pode deixar de lado, apesar dessas conexões da ciência à produção, o caráter do saber científico como forma de conhecimento que se empenha em descobrir e formular leis, refletindo os fenômenos naturais. Esse caráter importante da ciência, como saber desinteressado, não perde seu posto, embora tenha sofrido, ao longo das gerações, retrocessos e abalos. Apenas se quer dizer que a ciência, agora também auxiliar do capital, passa a ter conotações diferentes da ciência praticada no tempo de Galileu. Foi exatamente essa nova conformação da ciência que contribuiu para consolidar a sua institucionalização e fazer com que ela passasse a ser financiada tanto pelas indústrias nascentes quanto mais tarde, pelo Estado. Mas, devido às características da ciência, de suas ligações com a filosofia e de não poder prescindir de seu aspecto essencial - de ser uma forma de conhecimento da realidade objetiva - ela não deixou de conter o impulso do homem em criar concepções cada vez mais adequadas ao entendimento do real. Assim, seu veio como saber desinteressado não se volatilizou. São exatamente essas duas visões sobre a ciência que vigoram na entrada do século XIX, sendo que o seu caráter experimental e prático-utilitário ganhou uma dimensão mais segura.

No Brasil, como se irá ver, a ciência como forma de apreensão do real, adquiriu contornos próprios, no que tange às disciplinas a serem abordadas neste trabalho. Além de sofrer uma evolução muito lenta nesse sentido, sofreu uma degeneração: ela foi mais utilizada ideologicamente em forma de discurso. Muito se falava na época em ser a ciência capaz de tudo solucionar todos os problemas, ser uma verdadeira panacéia. Com isso os cientistas ficavam em posição de destaque, porém no âmbito da pesquisa científica pouco, ou nada fizeram.

Mesmo na Europa, a ciência apesar de ter trilhado caminhos em direção a uma autonomia cada vez maior desde o Renascimento, não rompeu com as formas e pensamentos oriundos da Idade Média. As universidades, até o século XIX ainda conservavam um tipo de ensino tradicional, e não incluíam a pesquisa e mesmo as ciências nascentes em seu seio. Isso só viria a ocorrer na Alemanha de forma significativa nas últimas décadas do século XIX, entretanto, pouca influência exerceu na cultura brasileira no período monárquico e por isso não é objeto de exame por este trabalho. Porém, é importante anotar que o pensamento tradicional que procurava submeter as "verdades" da ciência à razão especulativa ainda se encontrava entrincheirado e permaneceu por longo tempo influindo no meio social. Mas o que interessa, no momento, é ver sua outra face. Na Europa, desde o Renascimento, a nova ciência tipificada pela inclusão da experimentação em seu corpo, foi um elemento de combate às velhas estruturas. Os seus executores e divulgadores se alinhavam, grosso modo, em favor da burguesia ascendente, de seus projetos econômicos e políticos.

Falando sobre a criação "Royal Society", Simon Schwartzman fez um relato sobre um grupo de nove cientistas, fortemente politizados, que no século XVIII envidaram esforços para desenvolver a nova "filosofia experimental" e conclui:
Essa breve narrativa serve para ilustrar duas coisas. Primeiro, que a "Royal Society" foi uma instituição criada a partir de um grupo de cientistas que tinha uma posição definida no quadro social e político da época, ligados que estavam a todo movimento de reforma social que precedeu a Revolução Industrial. Segundo, que, ainda que ela se definisse como um grupo voltado para as coisas "práticas" da vida, suas pretensões eram muito mais amplas, já que, esta perspectiva prática e experimental era a própria filosofia nova que se articulava, em contraposição à cultura tradicional das universidades de então".7
A Academia de Ciências de Paris tinha também, desde de sua criação em 1666, fins práticos como, o de permitir, através de suas ações, a expansão da indústria e do comércio na França. Portanto, já no século XIX, o desempenho de alguns cientistas visava a mostrar ao governo a utilidade prática de suas atividades. O combate entre a nova ciência e a cultura tradicional desembocou, com o relativo sucesso da primeira, no Iluminismo do século XVIII. Seu ideário se ajustava às necessidades do capitalismo pela exigência de racionalidade na produção. Nesse estágio, os métodos racionais utilizados pelos cientistas não punham em xeque a nova ordem social. O que não coadunava com ela era o saber proveniente da autoridade e da revelação. É Werner Plum que observa: Os cientistas modernos buscavam outros caminhos para ampliar seus conhecimentos, trocar experiências e organizar-se em comunidade de um mesmo setor. Eles escreviam enciclopédias, editavam periódicos e livros científicos, e procuravam reunir-se em novos tipos de sociedades, dentro dos quais poderia ser discutido sobre "filosofia experimental".8 O mais comum, porém, era identificar o progresso não pelas posições explícitas dos homens de ciência em favor do sistema capitalista em formação, mas sim pelos descobrimentos e inovações que introduziam na sociedade. A ciência, em si, apresentou-se como um novo componente na luta contra as tradições medievais. Foram muito mais as idéias científicas de Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Kepler e Isaac Newton que trouxeram novas luzes para a civilização, do que propriamente suas posturas políticas individuais. Até o século XIX, pode-se afirmar que opositores das velhas estruturas feudais se alinharam em favor da ciência. Já o inverso nem sempre foi verdadeiro. Boa parte dos cientistas, mesmo os que se enquadravam numa linha de crítica moderada ao sistema foram através dos séculos, sobretudo nas novas nações, cooptados a ocupar cargos públicos, comprometendo-se com a política dominante.

Isto significa que não se pode traçar uma correspondência rígida entre os produtores de ciência e sua participação no movimento social. Muitos dos cientistas podiam até ter um posicionamento em favor da manutenção do "status quo", mas suas obras tiveram, por vezes, significado inteiramente oposto. Durante a Revolução Francesa, ainda que seus realizadores formalmente dessem muita importância à ciência, homens como Lavoisier, Condorcet e Bailly foram perseguidos e até condenados à morte pelos revolucionários vitoriosos. Os que subiram ao poder não deixaram, porém, de lhes imputar importância, convidando cientistas como Monge, Lázaro e Carnot a ocupar postos na administração econômica, militar e em trabalhos educativos e científicos, contribuindo assim para a nova ordem social. O fato de cientistas participarem do governo foi mais importante para o governo do que para a ciência propriamente dita. No Brasil, o processo de cooptação pelo estado dos bacharéis em ciência e matemática, no século XIX, trouxe mais benefícios aos interesses constituídos do que à evolução da ciência nacional.




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