Centro espírita nosso lar



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CENTRO ESPÍRITA NOSSO LAR
GRUPO DE ESTUDO DAS OBRAS DE ANDRÉ LUIZ E
MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA
21o LIVRO: “LOUCURA E OBSESSÃO” - 1988 - 10 REUNIÕES.
1a. REUNIÃO
(Fonte: prefácio e capítulos 1 a 3.)
1. A obsessão é uma forma de loucura de natureza diferente - No prefácio deste livro, seu autor diz que no estudo da etiopatogenia da loucura não se pode mais descartar as incidências da obsessão, ou predomínio exercido pelos Espíritos desencarnados sobre os homens. O intercâmbio entre as mentes que se encontram na mesma faixa de interesse é muito maior do que imaginamos. Atraindo-se pelos gostos e aspirações, vinculando-se mediante afetos doentios, sustentando laços de desequilíbrio decorrente do ódio, assinalados pelas paixões inferiores, exercem os Espíritos constrição mental e, às vezes, física nas pessoas que lhes concedem as respostas equivalentes, resultando daí variadíssimas alienações de natureza obsessiva. O Espiritismo não nega a loucura e as causas detectadas pelos pesquisadores; antes as confirma, reconhecendo nelas mecanismos necessários para o estabelecimento de matrizes, através das quais a degenerescência da personalidade ocorre, nas múltiplas expressões em que se apresenta. Ocorre que nos episódios da loucura, ora epidêmica, a obsessão deve merecer um capítulo especial, a requerer a consideração dos estudiosos. Largos passos já foram dados para a compreensão da loucura, suas causas e sua terapêutica; contudo, a doença mental permanece ainda como um grande desafio para todos os que se empenham na compreensão de sua gênese, sintomatologia e conduta. Kardec, o extraordinário psicoterapeuta que melhor aprofundou a sonda da investigação no desprezado capítulo das obsessões, demonstrou que nem toda expressão de loucura significa morbidez e descontrole dos órgãos encarregados do equilíbrio psicofísico do indivíduo, e que o Espírito é o herdeiro de si mesmo, dos seus atos anteriores, que lhe plasmam o destino futuro, do qual não consegue evadir-se. Provando que a morte biológica não aniquila a vida, o Codificador facultou ao entendimento a penetração e a solução dos enigmas desafiadores que passavam, genericamente, como sendo formas de loucura -- loucura que, certamente, são, mas de natureza diversa do conceito acadêmico conhecido. (Loucura e Obsessão, prefácio, pp. 11 a 13.)
2. A cura das obsessões é difícil e nem sempre rápida - O homem -- afirma Miranda, autor desta obra -- não pode ser examinado parcialmente, mas sob o aspecto pleno e total de Espírito, perispírito e matéria. Através do Espírito participa da realidade eterna; pelo perispírito vincula-se ao corpo e, graças ao corpo, vive no mundo material. O perispírito é o órgão intermediário pelo qual experimenta a influência dos demais Espíritos, que pululam em sua volta, aguardando o momento próprio para o intercâmbio em que se comprazem. Quando esses Espíritos são maus e encontram guarida que as dívidas morais agasalham na futura vítima, nascem aí as obsessões, no início sutis, quase despercebidas, a se agigantarem depois, até assumir a gravidade das subjugações lamentáveis e, às vezes, irreversíveis. O conhecimento do Espiritismo propicia os recursos para a educação moral do indivíduo, ensejando-lhe a terapia preventiva contra as obsessões, bem como a cura salutar, se o processo já se encontra instaurado. Ainda mesmo nos casos em que reconhecemos a presença da loucura nos seus moldes clássicos, deparamo-nos sempre com um Espírito, em si mesmo doente, que plasmou um organismo próprio para redimir-se, corrigindo antigas viciações e crimes que, ocultos ou desconhecidos, lhe pesam na economia moral, exigindo liberação. Nos comportamentos obsessivos, as técnicas de atendimento ao paciente, além de exigirem o conhecimento da enfermidade espiritual, impõem ao atendente outros valores preciosos que noutras áreas da saúde mental não são vitais, embora a importância de que se revestem. São eles: a conduta moral superior do terapeuta (o doutrinador encarregado da desobsessão), bem como do paciente, quando este não se encontre inconsciente do problema; a habilidade afetuosa de que se deve revestir, não esquecendo jamais o agente desencadeador do distúrbio, que é igualmente enfermo e vítima desditosa, que procura vingar-se; o contributo das suas forças mentais, dirigidas aos litigantes da pugna infeliz; a aplicação correta das energias e vibrações defluentes da oração; e, por fim, o preparo emocional para entender e amar tanto o hóspede invisível, quanto o hospedeiro... A cura das obsessões, como ocorre no caso da loucura, é de difícil curso e nem sempre rápida, e depende de múltiplos fatores, especialmente da renovação do paciente, que deve envidar esforços máximos para granjear a simpatia daquele que o persegue, adquirindo mérito através da ação pelo bem desinteressado em favor do próximo, o que, em última análise, acaba revertendo em benefício pessoal para si mesmo. (Loucura e Obsessão, prefácio, pp. 13 a 15.)
3. Os benefícios da desobsessão não são exclusivos do Espiritismo - Vulgarizando-se cada vez mais a obsessão, torna-se necessário, mais generalizado e urgente um maior conhecimento da terapia desobsessiva. Esse o objetivo desta obra, em que Miranda reuniu diversos casos relacionados com o assunto, dentre eles um de comportamento sexual especial, atendidos todos dentro de um Núcleo do sincretismo afro-brasileiro, onde o autor pôde sentir a presença do amor de Deus e a abnegação da caridade cristã, conforme os ensinamentos de Jesus. A experiência mostra-nos que não se podem negar os benefícios que se haurem em todas as células religiosas de socorro, não só nos Centros Espíritas, especialmente naquelas onde o intercâmbio mediúnico e a reencarnação demonstram a imortalidade da alma e a justiça divina, passo avançado para conquistas mais ricas de sabedoria e de libertação. Diz Miranda que, tendo-se dedicado na Terra, durante décadas, às experiências mediúnicas, pudera constatar a excelência da terapêutica desobsessiva dirigida a Espíritos profundamente enfermos, e acompanhara complexos problemas da loucura, que defluíam de conúbios obsessivos de longo curso, cujas origens remontavam a reencarnações anteriores, quando se instalaram as matrizes da justa infeliz. Mas, ao mesmo tempo, sempre lhe despertaram a atenção as comunicações de Entidades que se apresentavam com modismos singulares, atadas às lembranças do sincretismo religioso que viveram, assumindo posturas que lhe pareciam então esquisitas, preservando, nos diálogos, os vocábulos africanistas e tomando atitudes que eram remanescentes dos atavismos animistas de que procediam. (Loucura e Obsessão, prefácio, pp. 15 e 16, e cap. 1, pág. 17.)
4. O Espírito encarnado é o agente responsável pelos distúrbios que padece - Após desencarnar, passado o período de adaptação a que foi submetido, Miranda procurou colher uma soma maior de informações e experiências que lhe permitissem apreciar de modo mais justo os mecanismos dos cultos afro-brasileiros e de certas crendices e superstições tão do gosto das gentes de todos os países. “Com a Doutrina Espírita eu aprendera -- diz ele -- que a revelação da verdade é sempre gradativa, e que, de período em período, missionários do amor e da sabedoria se reencarnam com o objetivo de promover o progresso cultural, científico, social e, especialmente, religioso dos homens, procurando libertá-los das amarras com a retaguarda, com a ignorância...” Imbuído desse propósito, Miranda pôde realizar investigações in loco, em variadas escolas de fé religiosa, convicto de que é “fora da caridade que não há salvação”, conforme prescreveu Kardec, e não através da forma da crença ou do culto a que se aferra o indivíduo. Outrossim, a necessidade de melhor identificar a fronteira divisória entre os fenômenos psicopatológicos e os obsessivos levou-o a freqüentar também Manicômios e Hospitais Psiquiátricos vários, constatando que sempre é o Espírito encarnado o agente responsável pelos distúrbios que padece, seja numa ou noutra área de saúde mental. Nessa tarefa, Miranda contou com a ajuda do Dr. Bezerra de Menezes, sempre que os muitos compromissos deste o permitiam, fato que lhe proporcionou a oportunidade de estar ao seu lado, para observar as técnicas postas em prática para a liberação dos enfermos, e visitar os Núcleos de fé onde são praticados os diferentes cultos animistas, com o respeito e a consideração que toda crença nos merece. Graças a esse intercâmbio é que Miranda pôde participar, por algum tempo, de atividade socorrista junto a um jovem portador de esquizofrenia, cuja mãe (Catarina Viana) era possuidora de expressivos títulos de merecimento. (Loucura e Obsessão, cap. 1, pp. 18 e 19.)
5. Um caso de catatonia - De formação católica, a senhora Catarina Viana, após a desencarnação do esposo Empédocles, vira o filho Carlos mergulhar lentamente em aparente processo de psicose-maníaco-depressiva, que se foi agravando com o tempo, até cair numa terrível situação diagnosticada como catatonia, após vividas diversas fases de desequilíbrio mental, sem que os cuidadosos tratamentos psiquiátricos, com constantes internações hospitalares, houvessem conseguido solucionar, ou, pelo menos, amenizar-lhe a situação. Mãe abnegada, era ela uma religiosa convicta, que buscava consolo e apoio na fé abraçada, sem que, não obstante isso, pudesse entender a áspera provação que a aturdia, devastando a saúde e a vida do filho. A terapia acadêmica utilizada fora até então inócua. O rapaz, que contava vinte anos de idade, oito dos quais padecendo a enfermidade, aparentemente não tinha possibilidade de retornar ao equilíbrio. Era esse o diagnóstico; contudo, a genitora jamais aceitou o fato como coisa consumada e insistia sempre em novas tentativas, com a confiança que possuem os heróis verdadeiros. Foi então que, quando os recursos médicos nada mais podiam propiciar, amigos insistiram com D. Catarina que buscasse socorro espiritual. Ela relutou a princípio, mas, diante dos inúmeros exemplos que lhe trouxeram, resolveu consultar o medianeiro indicado, acompanhada de dedicada amiga, que também se dizia praticante do mesmo culto. (Loucura e Obsessão, cap. 1, pp. 19 a 21.)
6. No recinto mediúnico - A casa modesta, situada em bairro afastado, transpirava agitação em ambos os planos da vida. A sala estava enfeitada com bandeirolas presas a fios esticados. Espíritos vadios se aglomeravam nas imediações, bulhentos e ociosos, enquanto outros, em grupos pequenos, demonstravam seus propósitos malfazejos, em conciliábulos a meia voz, exteriorizando a animosidade de que eram portadores. Odores de incenso e vela misturavam-se aos de ervas aromáticas que ardiam em vários recipientes com brasa, espalhados pelos diversos cômodos. Dr. Bezerra de Menezes advertira Miranda quanto à conduta mental que ali devia ser mantida, prevenindo as surpresas que, no entanto, se sucediam continuamente, em face do inusitado dos acontecimentos. Quando o relógio da casa assinalou vinte horas, houve breve rebuliço, logo acompanhado de um silêncio ansioso, e surgiu no recinto um cavalheiro de pouco mais de quarenta anos, visivelmente mediunizado, que convidou alguns circunstantes a que passassem à sala contígua, onde já se encontravam outros convidados e membros do grupo. Estes últimos e o senhor em transe trajavam bata e calças brancas, tanto quanto as senhoras se vestiam de trajes alvinitentes, sobre os quais se notavam colares de várias cores. Foi feito um círculo diante de um altar fartamente decorado, no qual se misturavam figuras da hagiolatria católica com outras deidades desconhecidas e ardiam velas impassíveis. Música dolente foi entoada ao ritmo de instrumentos de percussão, um tanto ensurdecedores, e logo depois, a uma só voz, todos do círculo cantavam no mesmo tom hipnótico que os sons cadenciados impunham. Em seguida, o dirigente da reunião, após alguns contorções e estertores, deu início a outra música, saudado por palmas que passaram a acompanhar os pontos que se sucediam. (Loucura e Obsessão, cap.2, pp. 22 a 24.)
7. Para cada faixa de evolução há crenças e cultos próprios - Diversos médiuns começaram, então, a entrar em transe, em face do ambiente saturado pelas vibrações rítmicas e pelos movimentos que, automaticamente, se imprimiam aos corpos, dando início a uma dança característica, pelos meneios e evoluções típicos. Expressivo número de participantes, em razão dos fatores ali propelentes e condicionadores, experimentaram, então, o fenômeno anímico da sugestão, descontrolando-se alguns, em crises de natureza vária, no que foram atendidos pelo chefe do grupo e por outros auxiliares que se mantinham lúcidos e a postos para isso. Alguns fenômenos catalogados no quadro da histeria também se apresentaram, propiciando descargas emocionais que faziam o paciente afrouxar os nervos e diminuir as tensões sob riscos compreensíveis. Noutros, destacaram-se as explosões do inconsciente, em catarse libertadora dos conflitos nele soterrados, e emergentes nos sintomas de várias enfermidades que os afligiam. Em muitos sensitivos, porém, era patente a incorporação mediúnica, algo violenta, controlada, no entanto, pelos participantes mais adestrados. O mentor explicou que se tratava, conforme os dispositivos da crença, de um labor de descarrego das forças negativas, de limpeza psíquica e espiritual, seguindo a tradição africanista já bastante depurada ante o processo de evolução do culto entre pessoas mais esclarecidas. Outros grupos -- explicou o mentor -- existem, mais primitivos e concordes com o estado espiritual das criaturas. Para cada faixa de evolução remanescem crenças e cultos próprios para as suas necessidades, o que é natural. Como o progresso é conquista de cada um, e a imposição rude não vige nos códigos divinos, é necessário que em toda parte se expresse o auxílio superior e que os mais esclarecidos estendam apoio e estímulo aos que permanecem na retaguarda do conhecimento. Em dado momento, enquanto prosseguia o culto, o medianeiro citado, acompanhado por dois auxiliares, dirigiu-se a um pequeno compartimento atrás do altar e sentou-se. A Entidade que o incorporava fora mulher na última existência e, apesar da aparência, que poderosa auto-ideoplastia lhe modelava, era possível perceber que se tratava de uma pessoa procedente da raça branca, assumindo postura e enunciando-se conforme as características ambientais. Iniciava-se então a parte dedicada às consultas. (Loucura e Obsessão, cap. 2, pp. 24 a 26.)
8. O caso Antenor - O médium, em estado sonambúlico, encontrava-se semidesligado do corpo físico, que se fazia comandado pela comunicante. Dr. Bezerra explicou: “Antenor, o instrumento que nos chama a atenção, vem de um passado lastimável. Arbitrário, foi cruel senhor de escravos, aqui mesmo, no Brasil, proprietário de largos tratos de terra que cultivou com mãos de ferro, espoliando vidas compradas pelas infelizes moedas que possuía. Fez-se temido e detestado, granjeando inimigos a mancheias... A desencarnação fê-lo defrontar inúmeras das vítimas, que se lhe tornaram algozes tão inclementes quanto ele o fora, que o não pouparam a martírios demorados por mais de meio século, nas regiões inferiores, onde expungiu pela dor grande parte dos males antes perpetrados. Recambiado à reencarnação nos braços de uma antiga vítima, foi atirado fora com a maior indiferença. Mãos caridosas o recolheram, embora sem mais amplos recursos para o educar, movidas pelo sentimento da compaixão, que o tempo transformou em acendrado amor. Ao atingir a maioridade, perseguido pelos adversários, tombou em rude e penosa obsessão, da qual se recobrou a peso de muita aflição de sua parte e dedicação da genitora adotiva, que o levou a um Núcleo de atendimento espiritual, onde eram mais comuns as comunicações de ex-escravos, graças aos vínculos existentes entre os antigos senhores e estes, ora em intercâmbio de reabilitação”. Dr. Bezerra informou que não foi fácil a pugna para o obsesso, tomado por crises de loucura que o levavam a convulsões de aparência epiléptica, seguidas de apatia quase total, quando subjugado pelos cobradores. Após esclarecer que a obsessão “é virose de vasta gênese”, desconhecida entre os estudiosos da saúde física e mental, com sutilezas e variedades de manifestação muito difíceis de ser detectadas pelos homens, Dr. Bezerra prosseguiu: “Quando em lucidez, a mãezinha exortava Antenor ao bem, elucidada a respeito do mal que o afligia e da necessidade de ele dedicar-se à mediunidade benfazeja, resgatando, assim, os erros do passado, pelo amor e ajuda aos que deixara em aflição. A pouco e pouco, o moço se permitiu conscientizar da grave responsabilidade, e, orientado com carinho, entregou-se à prática do mediunismo”. Antenor, marceneiro de profissão, vivia do serviço honesto com o qual sustentava esposa e dois filhos, dedicando quatro noites por semana aos trabalhos que a fé o impelia a realizar, no que era auxiliado pela mãezinha desencarnada, que tanto o ajudou e ainda agora o ajudava. (Loucura e Obsessão, cap. 2, pp. 26 e 27.)
9. Antigo sacerdote era o protetor daquele Grupo - Informada a respeito da visita de Miranda e Bezerra, a Entidade generosa determinara a um trabalhador espiritual que os recebesse, “fazendo as honras da Casa”. Aquela era uma noite reservada a consultas de pessoas estranhas ao trabalho. Portadores de obsessões graves eram trazidos ali para receber auxílio, ao lado de outros enfermos que eram tratados mediante recursos da flora medicinal, receitados por antigos indígenas que se dedicavam a esse mister. Diversos indivíduos vinham em busca de conselhos e orientações para problemas de comezinha importância, que, no entanto, os atormentavam. Via-se, assim, que a generosidade e a solidariedade fraternal ali estavam presentes, servindo ao amor com doação total. Numa época de escassa abnegação entre os homens, cujo egoísmo enlouquece, serviços dessa natureza constituem providência superior que diminui os sofrimentos humanos, canalizando a esperança no rumo do bem. Miranda foi informado de que aquele grupo recebia o amparo superior de veneranda Entidade que envergara, na Terra, o hábito sacerdotal, notabilizando-se pela ação da caridade junto aos enfermos da alma e do corpo, de quem cuidara com exemplar devotamento, prosseguindo, no além-túmulo, a dar assistência, especialmente junto a Casas daquele gênero, que se multiplicavam na razão direta das crescentes necessidades humanas. Periodicamente, em data adrede estabelecida, ele vinha em pessoa visitar o trabalho, quando eram feitas avaliação e nova programação para as futuras atividades. Fazia mais de quinze anos que o Grupo se dedicava a esse labor, e as atividades de benemerência haviam promovido a equipe, que se libertava a pouco e pouco das práticas iniciais mais primitivas. “Agora -- esclareceu o informante -- já se estudavam as lições d’ O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, num esforço bem dirigido para moralizar e esclarecer os freqüentadores.” (Loucura e Obsessão, cap. 2, pp. 27 a 29.)
10. O amor é poderoso reagente para a equação dos problemas - A introdução do estudo d’ O Evangelho não se fez, porém, de forma pacífica. “Aos primeiros tentames -- aditou o companheiro -- houvera surgido um movimento de reação por alguns membros mais embrutecidos, inspirados pelos seus mentores que se aferravam às práticas mais grotescas, fiéis ao atavismo ancestral. Marcados por antigos rancores, dos quais não se haviam libertado, intentaram impedir a implantação da idéia nova, afirmando a desnecessidade da cultura, que não passava de capricho de brancos demagogos. É que se não olvidaram das perseguições que sofreram por parte de pessoas que se afirmavam cristãs e que no Evangelho se diziam apoiar. A inspiração do Benfeitor e a firme resolução de Antenor encerraram as discussões em contrário, abrindo espaço para a evangelização de uns como de outros, encarnados ou despojados da matéria. A partir de então o clima psíquico daquela agremiação modificara-se para melhor, atraindo novos cooperadores desencarnados, que se afeiçoavam à tarefa de moralização dos homens”. No momento em que era trazido para o pequeno compartimento o primeiro consulente, deu entrada no recinto uma senhora desencarnada de aspecto agradável, que saudou Dr. Bezerra com efusão. Era a senhora Anita, que acolheu a ambos os visitantes com visível expressão de afeto espontâneo e asseverou: “É-nos muito grato receber novos amigos. Nossa Casa é um laboratório vivo de experiências humanas, onde o amor é o poderoso reagente para a equação dos problemas que nos chegam”. Anita fora mãe adotiva de Antenor e, agora, dedicava-se à tarefa de sindicar, numa primeira análise, quais os problemas que afligiam os visitantes, ouvindo os seus acompanhantes e informando-se dos seus infortúnios. Em seguida, de acordo com a problemática de cada um, tomava as providências iniciais, destacando cooperadores para auxiliá-los. (Loucura e Obsessão, cap. 2, pp. 29 a 31.)
11. O merecimento e o esforço pessoal são essenciais a quem busca socorro - Após ouvir Dr. Bezerra dizer que são as próprias criaturas encarnadas que se afastam da proteção que lhes é ministrada, gerando campo vibratório que dificulta a captação dessa ajuda, visto que os bons Espíritos jamais abandonam os seus pupilos, a senhora Anita adiu: “Utilizamo-nos de Espíritos ainda vinculados às vibrações materiais, que, apesar de pouco conhecimento, anelam por servir e crescer na direção do bem. A sua presença ao lado dos encarnados evita ou dificulta que os comensais psíquicos habituais -- exceto nos casos de obsessão -- retornem à ação deletéria ou prossigam no intercurso da perturbação. Como é compreensível, diversos obsessores e Espíritos perversos respeitam algumas práticas e rituais, como conseqüência da ignorância das leis universais, cedendo espaço à ação renovadora das suas vítimas. É claro que, em todos os empreendimentos de beneficência e socorro ter-se-ão sempre em vista os fatores do merecimento quanto do esforço pessoal, porquanto, não havendo privilégios que distingam as criaturas, funciona, acima de tudo, a justiça, atenuada pela misericórdia do amor”. Dito isto, seguiu-se o atendimento da primeira consulente, que adentrou o recinto bastante nervosa e envolta em uma nuvem escura, resultado das idéias cultivadas e do intercâmbio psíquico mantido com os comensais desencarnados que a acompanhavam. Alguns deles entraram com ela na saleta, onde a aguardava a mentora. Utilizando-se de linguagem típica, na qual se faziam presentes muitos chavões africanistas, esta saudou a visitante, deixando-a à vontade para a entrevista. Sem delonga, a consulente foi direto ao assunto, dizendo-se disposta a pagar o que fosse necessário. “Estou informada -- prosseguiu a mulher, com empáfia -- das necessidades desta Casa e posso oferecer ajuda monetária, desde que tenha atendida a minha pretensão.” (Loucura e Obsessão, cap. 2, pp. 31 e 32; e cap. 3, pág. 33.)
12. Um caso de obsessão vampirizadora - Como a mentora permanecesse calada, a consulente expôs o seu pedido: “Desejo solução num caso de amor, que ora responde pela minha vida. Será vitória ou desgraça, a minha ou outra vida, porquanto não tenho forças para prosseguir conforme está ocorrendo. Tive a desdita de apaixonar-me por um homem casado. Pior do que isso: que diz amar a esposa e filhos, e que é feliz no lar... A dificuldade de tomá-lo para mim me enlouquece. Tentei o impossível e o infame me despreza, atirando-me na face o amor que devota à minha rival. Desejo um trabalho que o afaste da outra e conceda-me a vitória; para tanto, darei a alma ao demônio, se necessário, pois que, sem esta vitória, a loucura ou o crime serão as minhas únicas alternativas, matando-me ou levando-me a ma-

tá-la...” Mal acabou de falar, a mulher prorrompeu em violento pranto. Miranda viu, então, que dois seres perversos lhe dominavam o comportamento quase por inteiro. Um deles, de aspecto repelente pela vulgaridade em que se apresentava, excitava-lhe o desejo, comprimindo-lhe, habilmente, certa região do aparelho genésico, enquanto o outro lhe transmitia clichês mentais, muito bem elaborados, em que ela se via nos braços do eleito, sendo expulsa pela esposa que lhe surgia bruscamente... A pobre mulher debatia-se em sofreguidão entre as duas sensações, de lubricidade e de frustração, entregando-se ao tresvario... Dr. Bezerra esclareceu: “A nossa irmã está enferma da alma. Além disso, padece de estranha e grave obsessão vampirizadora, que lhe exaure as energias, despedaçando-lhe os nervos. Envolvamo-la em vibrações de afeto e de piedade, aguardando as providências iniciais que serão tomadas aqui”. A dirigente espiritual do trabalho ergueu, então, o médium e pôs a destra sobre a cabeça da infeliz mulher. Após descarregar-lhe energias refazedoras e interromper a compressão perturbadora que lhe impunha o vulgar perseguidor, conseguiu, também, através da aplicação correta de bionergia nos centros coronário e cerebral, diluir as ideoplastias que o outro fomentava, transmitindo um pouco de renovação à enferma que, momentaneamente livre das influências terríveis, por pouco não foi acometida por um vágado. (Loucura e Obsessão, cap. 3, pp. 34 e 35.)


13. Somente lobos caem em armadilhas para lobos - Concluída esta primeira operação, a hábil orientadora falou, no linguajar próprio: “O seu problema tem solução fácil, que está em você mesma... Não é a esposa do seu namorado uma rival de sua pessoa, antes, você é a serpente que lhe ronda o ninho, preparando-se para destruí-lo. O homem honesto, que não a ama, age bem e merece respeito, não sujeição psíquica ou constrição perturbadora, a fim de atender-lhe a um capricho de mulher alucinada, que perdeu o rumo...” “O dinheiro não compra tudo” -- prosseguiu no mesmo tom. “Embora auxilie na aquisição de alguns bens e responda pela solução de várias dificuldades, quase sempre, mal utilizado, é causa de desditas e misérias que se arrastam por séculos, naquele que o malversa como nas suas vítimas. Aquilo que você denomina amor, é paixão selvagem, capricho, que decorre do não conseguido, que logo perde o valor depois da posse breve. Além disso, ninguém pertence a outrem; todos são instrumentos da Vida, em viagem longa de crescimento para Deus... As ações geram reações semelhantes e sempre produzem choque de retorno. O mal que pretende contra essa família não a atingirá, porquanto as suas vítimas em potencial estão ligadas ao bem, possuem o hábito salutar da prece, que as resguarda das perturbações nefastas. São cumpridoras dos deveres que abraçam, vibrando, emocionalmente, em faixa superior, que as protege das agressões selvagens que você lhes desfere através dos petardos venenosos do ódio. Nenhum trabalho maléfico afetará a estrutura doméstica dessas criaturas, porque a sombra não afugenta a luz, nem o crime se apresenta com cidadania legal diante da honradez. Somente lobos caem em armadilhas para lobos, afirma o refrão popular.” Depois de breve silêncio, cujo objetivo era permitir à ouvinte apreender todo o conteúdo do ensinamento, a mentora completou: “O seu problema, real e grave, é a falta de discernimento a respeito de como comportar-se diante das lutas, para conseguir a paz. A primeira regra que deve ter em mente é: Nunca fazer aos outros o que não desejar para si mesma, conforme ensinou Jesus, e procurar, como efeito, realizar todo o bem possível em favor do seu próximo, de modo que o bem, por sua vez, passe a fazer parte da sua existência, como um fenômeno natural e transformador. Isto a ajudará a não ambicionar o que não tem direito e a saber receber o que lhe é de melhor para o seu progresso espiritual e eterno. Posteriormente, você necessitará de um tratamento desobsessivo, a fim de libertar-se da parceria degradante a que tem feito jus e que a vem explorando nos seus mais caros sentimentos de criatura humana e especialmente de mulher que anela por um esposo e um lar, que Deus lhe concederá, oportunamente, porém em outras bases de amor e de equilíbrio. Comecemos, agora, a fazer o trabalho solicitado, não conforme você veio buscar, mas de acordo com a sua necessidade de urgência”. (Loucura e Obsessão, cap. 3, pp. 35 a 37.)
14. Entre nós, discute-se muito e realiza-se pouco - Dito isto, a Entidade doutrinou o Espírito vampirizador da área sexual da paciente, incorporado em outro médium que lhe assessorava o labor. A ação fora totalmente inusitada para Miranda. Certo, as elucidações apresentadas à consulente, apesar da linguagem forte, estavam perfeitamente concordes com os códigos da Doutrina Espírita e seguiam a linha do pensamento evangélico, estabelecendo uma psicoterapia de alto valor para a enferma. A técnica do atendimento ao desencarnado, as beberagens e banhos, receitados como complementação, fugiram, porém, às diretrizes adotadas no Espiritismo. Dr. Bezerra, vendo a surpresa de Miranda, esclareceu: “Consideremos a Terra de hoje um campo de batalha, no qual a dor campeia desenfreada e as emergências se multiplicam, no que tange às áreas de socorro. Como há escassez de médicos e hospitais especializados, os pacientes são atendidos conforme as possibilidades ambientais. Enquanto os poucos médicos realizam cirurgias impostergáveis, enfermeiros e auxiliares, em ambulatórios improvisados, dão atendimento aos casos de menor gravidade ou mesmo aos que não podem ser removidos, até posterior solução mais adequada...” Transferindo a questão para a área espiritual, lembrou Dr. Bezerra que nas várias escolas do Espiritualismo e mesmo do Espiritismo são escassos os homens dispostos ao serviço da verdadeira fraternidade e da caridade em ação libertadora. “Discute-se muito e realiza-se pouco. Perde-se largo tempo em verbalismo inoperante, em detrimento da iluminação e do esclarecimento de consciências”, acentuou o Mentor, aditando: “Nenhuma censura, porém, de nossa parte. A citação é para ilustrar que, enquanto muitos discutem como distribuir víveres, em banquetes faustosos, numa época de fome, milhares morrem por total escassez de alimentos. É o que sucede neste setor espiritual”. Dr. Bezerra lembrou, ainda, que Kardec e a experiência demonstraram a ineficácia de certas práticas fetichistas. (O autor transcreveu, neste ponto, os itens 551 e 553 d’O Livro dos Espíritos.) “Como a morte não muda a ninguém -- asseverou Dr. Bezerra --, sabemos que aqueles que conviviam com determinados cultos a que se afervoravam ou cujas práticas temiam mais do que respeitavam, ante a desencarnação não alteraram a forma íntima do ser, permanecendo vinculados aos atavismos que lhes dizem respeito. Católicos, protestantes e outros religiosos, após a morte, não se tornam espiritistas ou conhecedores da realidade ultratumular; ao revés, dão curso aos seus credos, reunindo-se em grupos e igrejas afins.”(Loucura e Obsessão, cap. 3, pp. 38 a 40.)
15. A flora medicinal foi a grande protetora dos nossos avoengos - Com as explicações dadas por Dr. Bezerra de Menezes, entende-se perfeitamente que os indivíduos originados das crenças derivadas do sincretismo afro-brasileiro continuem ligados às suas ideações religiosas. Miranda inquiriu-o, contudo, quanto aos banhos e beberagens receitados, e o nobre Mentor respondeu: “A água, em face da sua constituição molecular, é elemento que absorve e conduz a bionergia que lhe é ministrada. Quando magnetizada e ingerida, produz efeitos orgânicos compatíveis com o fluido de que se faz portadora. Assim, é crença ancestral que os banhos teriam o efeito de retirar energias deletérias que os poros eliminam, e quando a água recebesse a infusão de ervas aromáticas e medicinais propiciaria bem-estar, revitalizaria o campo vibratório do indivíduo. Sabemos, no entanto, que mais importante do que quaisquer práticas e ritualismos externos, a ação interior, mental, comportamental responde pela realidade psíquica do homem e opera a sua legítima recuperação”. “No que tange às beberagens, algumas destituídas dos cuidados que requer qualquer produto para ser ingerido, não podemos ignorar o valor da fitoterapia, de resultados excelentes em inúmeros problemas de saúde”, acrescentou o mentor. “As medicinas alternativas que estão encontrando consideração, mesmo entre os estudiosos mais ortodoxos, resultam de larga experiência humana e de diversas delas nasceram o que ora consideramos científico, acadêmico. A flora medicinal foi a grande protetora dos nossos avoengos que nela encontraram recursos saudáveis para muitos dos males que os afligiam e, posteriormente, submetida à ação dos laboratórios, dela extraíram incontáveis substâncias de ação rápida e eficaz.” Nesse momento, Miranda percebeu que o atendimento chegara ao fim e a consulente, embora entristecida, sem a revolta inicial, conduzia a salutar indução do conselho, sem a companhia dos seus exploradores espirituais, que haviam sido convidados a permanecer no recinto. (Loucura e Obsessão, cap. 3, pp. 40 e 41.)
16. Distúrbios do sexo com raízes no passado - O próximo consulente trazia o semblante sulcado por funda marca de dor. Vinha rogar auxílio para conseguir um emprego, que lhe desse segurança e apoio para o lar. Estava em aflição e sentia-se fracassado, sem saber o que fazer. A mensageira, após ouvi-lo, exortou-o à renovação e ao entusiasmo, aconselhando-o à perseverança e confiança em Deus. Falou-lhe da genitora desencarnada, que o conduzira até ali, na condição de perene anjo da guarda, buscando assim dissuadi-lo das idéias deprimentes que o assaltavam. O homem, surpreendido com a feliz informação, comoveu-se, recordando-se daquela que lhe fora uma luz acesa na existência, que a morte lhe havia arrebatado e a vida agora lhe devolvia. Aplicados recursos restauradores, ele saiu com novas disposições e de alma renovada, agradecendo a Deus. A seguir, uma jovem senhora queixou-se de distúrbio sexual, defluente da frigidez que a atormentava e estava a destruir-lhe o lar. Amava o esposo, que estava a perder, em razão do desconforto que experimentava por ocasião do conúbio sexual. A caridosa mensageira confortou-a, a princípio, auxiliando-a a fazer um relax, e infundiu-lhe confiança na misericórdia de Deus, que de ninguém se esquece. Discorreu sobre suas longas vigílias noturnas, demonstrando conhecer-lhe o drama, seus temores, suas lágrimas e as discussões que se vinham agravando nos últimos tempos, através das quais ambos os cônjuges se magoavam, por falta de um diálogo sincero, amigo, honesto... Explicou, depois, que seu distúrbio se originava de comportamento infeliz que mantivera em existência anterior, quando se deixara seduzir pelo noivo e fora levada a um aborto criminoso. Após outros deslizes morais, recolhera-se à vida religiosa, na qual, por mágoa do mundo, passara a ter uma conduta de castidade, detestando o sexo e submetendo-se a rudes cilícios entre pensamentos de ódio e revolta que lhe perturbaram a função genésica. Moça atraente, terminou por perturbar o leve equilíbrio de seu confessor, culminando por enredarem-se ambos num escândalo, então abafado. Ele foi transferido de cidade, enquanto ela se deixou consumir pelo horror, numa atitude contemplativa, na qual a mente, fixada à desdita, gerou a disfunção ora apresentada. Reencarnando-se, reencontrou o antigo religioso para, no matrimônio, se reajustarem, ao lado dos filhos, um dos quais ela expulsara antes... Cabia-lhe, pois, reeducar a mente, receber assistência fluidoterápica, orar e renovar-se, a fim de, com o auxílio do tempo, recompor a situação. A jovem senhora, devidamente informada e com perspectivas de paz, retirou-se, então, comovida. Chegara a vez de d. Catarina Viana, mãe de Carlos, a senhora a quem Dr. Bezerra e Miranda acompanhavam. (Loucura e Obsessão, cap. 3, pp. 41 a 43.)




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