Cartas a uma jovem



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Extraído da Biografia "Krishnamurti" , de P. Jayakar

Tradução de A. Duarte 2002

No período compreendido entre 1948 e o início dos anos sessenta Krishnamurti achava-se facilmente acessível para acolher as muitas pessoas que a ele recorriam. E nesse período floresceram algumas amizades novas, em resultado de passeios, encontros particulares e troca de correspondência mantidos com ele.


As cartas que se seguem foram escritas a uma jovem que o abordou magoada de corpo e alma. Escritas entre Junho de 48 e Março de 60, revelam um delicado sentido de compaixão e clareza e desdobram-se sob a forma de um conjunto de instruções que se pauta sobretudo pela ausência de qualquer sensação de distância e separação, e por uma fluidez tanto da palavra escrita como do sentimento terapeutico.

P. Jayakar

As Cartas

Procura desenvolver flexibilidade mental. A firmeza não reside na força nem em sermos persistentes mas na flexibilidade. Flexíveis como são, as árvores são capazes de suportar um temporal. Procura obter vigor de uma mente viva e ágil.

A vida pode parecer muito estranha, quando tanta coisa sucede de forma inesperada, porém, a mera resistência não resolverá problema nenhum. Necessitamos de infinita flexibilidade e sinceridade do coração.

A vida assemelha-se a andar sobre o fio da navalha; devemos percorrer os seus caminhos providos de extraordinária precaução e sensatez. A vida é de uma riqueza tão abundante e cheia de preciosidades, e no entanto nós abeirámo-nos dela cheios de insensibilidade, sem saber como encher os corações com essa abundância. Permanecemos interiormente pobres, mas mesmo que essa abundância nos seja oferecida, recusamo-la.


O amor é uma coisa perigosa porque pode pôr em marcha a única revolução que nos possibilite a felicidade suprema. Mas muito poucos têm a capacidade de amar ou sequer de desejar amor... Preferimos amar nos nossos próprios termos e assim fazemos do amor uma moeda de troca. Possuímos uma mentalidade de feirantes, contudo o amor não é negociável, nem sequer moeda de troca. Trata-se, ao contrário, de uma qualidade de existência capaz de resolver todos os problemas do homem.

Mas nós abeirámo-nos da fonte com um dedal e por isso a vida torna-se esta coisa aparatosa, insignificante e trivial.

Que lugar adorável a Terra podia ser, com tanta beleza, tanta glória, e todo este encanto imperecível. Nós deixámo-nos apanhar nas malhas da dor e não cuidamos de sair disso ainda que alguém venha e nos aponte uma saída. Eu não sei como nem porque razão, mas o amor é capaz de nos deixar numa ardência interior, com a acção da sua chama inextinguível. Podemos chegar de tal forma a senti-lo que só apetece partilhá-lo com todos, o que, nesse caso, fazemos de bom grado. Assemelha-se a um rio portentoso, cujas águas, poluídas pelas imundícies do homem que nele desaguam, rega e alimentam aldeias e vilas, para logo se purificarem e prosseguirem velozes.

Nada poderá espoliar esse amor porque tudo nele se dissolve - o bom e o mau, a fealdade e a beleza. Ele é a única coisa eterna em si mesma.

Aquelas árvores tão majestosas pareciam estranhamente insensíveis ao tráfego que circulava por aquelas ruas alcatroadas. As suas raízes penetravam fundo na terra e as copas expandiam-se na direcção do céu.

Nós temos, como aliás devemos, as nossas raízes na terra, porém, achámo-nos sujeitos a rastejar nela, e somente uns quantos são capazes de se elevar aos céus. Esses são os únicos indivíduos criativos e felizes; os restantes exploram-se e destroem-se mutuamente, tanto por meio do pesar como da bisbilhotice.


Abre-te à vida. Convive com o passado se tiver que ser, porém, não te debatas com ele. Quando as recordações do passado surgirem dá-lhes atenção, sem as afastares nem te prenderes demasiado a elas. A experiência de todos esses anos passados, com as suas dores e alegrias, os seus golpes estarrecedores, os vislumbres da separação e o sentido de distanciamento que isso imprime, tudo isso te trará enriquecimento e beleza. O importante é o que sentes no teu coração, mas se este se achar a transbordar de sentimento, isso será tudo o que precisas, pois serás tudo isso.
Vigia todos os teus pensamentos e sensações e procura não deixar que nenhuma sensação ou pensamento se esvaia sem que te dês conta disso, e sem absorveres todo o seu conteúdo. Absorver não é o termo indicado, mas antes, perceber todo o seu conteúdo. É como apreender, de uma só vez, todo o conteúdo da dependência da casa onde se entra pela primeira vez, a sua atmosfera, o seu espaço. Aperceber-nos, termos consciência dos próprios pensamentos é algo que nos torna intensamente sensíveis, flexíveis, vigilantes.

Não condenes nem formules juízos de valor, mas torna-te bem vigilante. Uma vez livre dessa separatividade e escória sucederá uma pureza áurea.


Perceber o "que é" é algo bastante difícil. De que forma haveremos de observar com clareza? Quando a corrente do rio se defronta com um obstáculo não se detém; ao invés, derruba-o, devido ao seu peso, ou então avança sobre ele, ou ao seu redor; jamais se detém nem pode evitar dar prosseguimento ao seu curso. Revolta-se inteligentemente, por assim dizer.

E nós devemos também revoltar-nos assim, com inteligência, e aceitar as coisas como elas são. Aliás, para podermos perceber "o que é" teremos de possuir esse espirito de revolta inteligente. Necessitamos de certa inteligência a fim de não confundirmos um simples pedaço de pau com outra coisa qualquer, porém, geralmente ficamos tão ávidos para conseguir aquilo que queremos que nos precipitamos de encontro ao obstáculo, despedaçando-nos com o choque, ou então exaurimos as energias a debater-nos com ele.


Não precisamos de coragem para perceber uma simples corda como uma corda, na obscuridade da noite; isso é um processo que não exige coragem. Contudo confundir a corda com uma cobra e de seguida observá-lo com atenção, isso já é outra coisa! Devemos constantemente duvidar e pesquisar, e perceber o falso como falso. Através da atenção intensa podemos obter o poder de ver com clareza; vais ver que sim.
Precisamos agir.

O rio jamais permanece inactivo; acha-se em constante movimento. Mas para sermos capazes de agir precisamos permanecer em estado de negação, pois essa negação produz a sua própria acção positiva. Onde existir flexibilidade não haverá questão de certo ou errado. E nós devemos estar muito seguros das coisas, intimamente. Asseguro-te de que nessas condições tudo correrá pelo melhor; obtém essa clareza e verás como as coisas se haverão de compor sem que faças nada a respeito. Simplesmente esse resultado não passa pelo que desejamos...

Tem de se dar uma revolução total não só naquilo que se reveste de significado para nós mas sobretudo nas pequenas coisas do dia a dia. Tu passaste por essa revolução porém não deves pôr isso para trás das costas; aplica-lhe a tua atenção. Mantém a coisa em suspenso.

Espero que tenhas contemplado as estrelas na tranquilidade do entardecer antes de te deitares, tenhas passado uma boa noite, e contemplado o agradável amanhecer.

Quão pouco conhecemos sobre o amor, sobre a sua ternura e poder extraordinários, fazendo uso tão fácil e gratuito da palavra; A maioria utiliza-a - o talhante, o homem rico e o jovem com a sua namorada; mas quão pouco sabem eles sobre o amor e a sua imensidão, a sua imortalidade a sua insondável natureza! Amar é obter consciência do eterno.
Que coisa fizemos do relacionamento, cedendo facilmente a esse hábito de tornar toda a relação numa questão pessoal, sempre a tomar as coisas como certas e a aceitar as situações sem tolerar qualquer variação - sem um único movimento no domínio da incerteza, ainda que por um só segundo, tão distraídos que nos achamos nesse hábito. É tudo tão ajustado, tão garantido, tão atado que não sobra a menor chance de nos revigorarmos nem de respirarmos um alento fresco e revigorante. E chamamos nós a isso relacionamento. Mas se observarmos de perto, o estado de relacionamento é muito mais subtil, muito mais veloz do que o relâmpago, mais vasto do que a Terra, pois o estado de relação é vida.

A vida é conflito! Nós queremos que as relações sejam essa coisa ordinária e assim tornámo-las sólidas e manipuláveis mas desse jeito elas perdem a sua fragrância e sentido de beleza. E tudo isso se dá por não amarmos. Mas é claro, isso é a coisa mais difícil, porquanto para isso poder ocorrer tem que haver um abandono total de si mesmo.

As qualidades de novidade e renovação são essenciais; de outro modo a nossa vida acaba por se tornar uma rotina, um hábito, uma coisa aborrecida.

A maior parte das pessoas perdeu toda e qualquer capacidade de assombro. Tomam tudo como certo e assim esse sentido de segurança destrói o sentido de liberdade e o assombro da dúvida. Nós sempre projectamos um futuro longínquo, distante do presente, todavia, a atenção necessária à compreensão situa-se sempre no presente.

Essa atenção comporta um certo sentido de iminência. Possuir clareza com relação às nossas próprias intenções é uma tarefa e tanto. A intenção assemelha-se a uma chama, tal a forma como nos impele incessantemente para a compreensão. Procura ter uma noção exacta das tuas intenções e verás como tudo se resolverá. Tudo o que precisamos é possuir essa clareza no presente, porém não é tão fácil como parece.

Temos de limpar a terra para a semente nova, mas uma vez que esta seja lançada á terra, a sua força e vitalidade produzirão fruto, e uma outra semente.

A beleza externa não pode durar para sempre mas se perdermos o encanto e a alegria interior então toda a beleza acabará obscurecida. Ainda assim, cultivamos a beleza exterior e prestamos muito pouca atenção ao que ocorre no íntimo; todavia o que reside no interior sempre acabará por superar o exterior; é a lagarta no interior da maçã que destrói a sua frescura.

Requer-se imensa inteligência para que um homem ou uma mulher se esqueçam de si próprios e vivam juntos sem se submeterem nem serem dominados pelo outro. O relacionamento correcto é a coisa mais difícil de conseguir na vida.


De que forma estranha podemos tornar-nos susceptíveis a um dado ambiente! Todos nós necessitamos de uma certa tensão amigável, uma sensação cálida de atenção para podermos desabrochar com naturalidade e liberdade. Porém muito poucos podem dispor de uma atmosfera assim e por isso a maior parte acaba física ou psicologicamente atrofiada.
Muito me surpreende que tenhas sobrevivido sem te teres corrompido nesse ambiente particular. Pode-se perceber a razão por que escapaste á completa aniquilação que te poderia deixar marcada e alterada. É que, conquanto exteriormente te tenhas ajustado tão rápido quanto possível, interiormente, contudo, deixaste-te permanecer num estado de torpor. Mas foi essa insensibilidade interior que te poupou. Se te tivesses permitido permanecer intimamente sensível e desperta não terias tido a chance de suportar tudo aquilo por que passaste e o conflito acabaria por ocorrer; isso ter-te-ia marcado e derrubado. Mas agora que a tua consciência começa a despertar e possuis clareza mental, encontras-te livre de todo o conflito inerente a esse ambiente. E é esse conflito que cria a corrupção. Enquanto interiormente permaneceres vigilante e desperta, e com relação às coisas exteriores te ajustares com afabilidade, permanecerás isenta de marcas.

As coisas que, em sua substituição elegemos, cedo murcham. Podemos ser perfeitamente mundanos ainda que detenhamos apenas umas quantas coisas, pois o desejo de poder - seja qual for a forma que assuma, o poder do asceta, o poder do ilustre financeiro, do político ou do papa – esse poder ainda é mundano. A ânsia de poder gera a crueldade e enfatiza a auto-importância; e a agressividade crescente é, por essência, coisa mundana. A humildade consiste em sermos simples, porém toda a humildade que é cultivada é ainda uma forma de mundanidade.


Muito poucos têm consciência das alterações interiores por que passamos: revezes, conflitos, deformidades... E quando temos, procuramos pô-la de parte pelo uso da força, ou então esquivamo-nos. Não faças isso. Não é que pense que possas fazê-lo mas é que incorres no perigo de vir a conviver de forma demasiado intensa com os teus pensamentos e sentimentos. Todavia devemos procurar ter consciência dos nossos pensamentos e sentimentos sem qualquer ansiedade ou pressão. Passaste por uma verdadeira revolução e por isso mesmo devias procurar ser consciente deles e deixar que sobrevenham sem impedimento nenhum e sem os afastares. Deixa fluir os pensamentos suaves junto com os violentos, mas procura obter uma maior consciência deles.


Tens ocupado algum tempo a avaliar os teus desejos, se ainda possuis alguns?

O mundo é um lugar adorável, mas ainda assim tudo fazemos para nos desviarmos dele, quer através da oração quer da veneração, anelos e anseios pessoais. E desse modo como haveremos de descobrir se somos ricos ou pobres, se jamais chegamos a penetrar com intensidade na nossa vida para descobrir isso "que é"? Vivemos pela rama. Satisfazemo-nos com muito pouco e desse modo tanto nos tornamos felizes com coisas sem significado nenhum, como completamente infelizes. A nossa mente é estreitada por problemas e respostas mesquinhos, e assim vamos vivendo os nossos dias. Não sabemos o que é amar mas se chegamos a sentir algum é sempre um amor acompanhado de temor e frustração, tristeza e ansiedade.
Ocorreu-me reflectir em como é importante preservarmos a inocência, possuir uma mente inocente. Ao longo da vida as experiências tornam-se inevitáveis, quando não mesmo necessárias. A vida é mesmo formada por uma série de experiências, porém a mente não necessita deixar-se sobrecarregar com o acúmulo das exigências da experiência quando pode removê-las e permanecer desse modo inocente e liberta do seu fardo. Isso é importante porque de outro modo a mente não poderá manter-se fresca, vigilante e flexível. Mas não se trata aqui da questão de "como" conduzi-la a esse estado; o "como" representa a busca de um método, mas nenhum método alguma vez tornará a mente inocente. Pode torná-la mais metódica porém jamais inocente nem criativa.

Ontem ao entardecer começou a chover e durante a noite a chuva intensificou-se. Nunca tinha visto uma coisa assim. Era como se os céus se estivessem a despejar. Mas ao mesmo tempo aquela intensidade fazia-se acompanhar de um profundo silêncio, um silêncio que se espalhava por toda a terra.

È sempre difícil preservarmos a simplicidade e a lucidez quando o mundo adora o sucesso: "quanto mais, melhor" - quanto maior a audiência mais importante o orador, Coisa que acontece com relação aos colossais edifícios, aos automóveis, aos aviões e mesmo às pessoas. Perdemos a simplicidade. As pessoas bem sucedidas não são as que estão a criar um mundo novo. Para podermos ser verdadeiros revolucionários requer-se uma completa mudança na mente e no coração, mas muito poucos quererão tornar-se livres. Cortamos apenas as raízes superficiais, mas para podermos eliminar as raízes profundas que se nutrem da mediocridade e do sucesso, requer-se algo mais do que meras palavras, métodos e compulsão. Esses parecem ser poucos, porém são eles os verdadeiros criadores - o resto labuta em vão.
Estamos permanentemente a comparar-nos com os outros - aquilo que somos com o que deveríamos ser, ou com quem é mais afortunado. Mas na verdade o acto de comparar fere mortalmente. A comparação é degradante a ponto de nos chegar a corromper as perspectivas. No entanto somos criados nela; toda a nossa educação baseia-se na comparação, do mesmo modo que a cultura. Daí decorre a incessante luta para nos tornarmos alguma coisa além daquilo que somos. Mas a compreensão daquilo que somos é o que revelará a criatividade, ao passo que a comparação produz somente espirito de competição, crueldade e ambição, ainda que pensemos que isso contribui para o progresso. O progresso conduziu-nos a muito mais guerras cruéis e infelicidade do que as que o mundo alguma vez conhecera. A verdadeira educação consiste em criar as crianças sem utilizar a comparação.
Parece estranho e completamente desnecessário estar a escrever-te. Aquilo que mais conta está aqui e tu encontras-te desse lado. As coisas verdadeiras permanecem inalteráveis sem que seja necessário que escrevamos ou sequer precisemos falar sobre elas. Pelo próprio acto de as verbalizar ou colocar no papel parece que as corrompemos e espoliamos. E no entanto dizemos tanta coisa que não tem nada a ver com elas... Este impulso no sentido da realização incita muita gente, tanto através de pequenas como de grandes formas de expressão.
Podemos sempre satisfazer esse impulso, de um modo ou de outro, mas, com a satisfação, as coisas verdadeiras desvanecem-se. Pelo menos é o que acontece na maioria dos casos, não será mesmo? A satisfação que o desejo proporciona, apesar de ser do nosso inteiro agrado, constitui um processo mesquinho; porém, na justa medida em que nos preocupamos continuamente por criar a própria satisfação também damos lugar a que a rotina e o aborrecimento se instalem, e a que a coisa autentica se dissipe.

Todavia é a coisa verdadeira que tem de prevalecer, mas a maravilha disso está em que ela prevalece - se não subsistir nenhum pensamento de realização e se chegarmos a ver as coisas como elas são.

É tão raro ficarmos a sós. Sempre nos achamos rodeados de gente ou com a cabeça a pulular de ideias e esperanças não realizadas ou em vias de o ser, recordações e tudo o mais. Contudo é essencial que o ser humano se torne livre de influências para que possa ocorrer algo livre de contaminação. Mas parece não sobrar tempo nenhum para ficarmos sós, sempre com tanta coisa para fazer, responsabilidades e tudo mais... Todavia é necessário que aprendamos a permanecer em silêncio, e nos refugiemos no nosso quarto para podermos dar algum descanso á mente.


O amor faz parte desse ficar só. Possuir a chama desse amor, dessa clareza de espírito e do silêncio interior equivale a tornar-nos simples.

No entanto as coisas podem não ser fáceis; quanto mais exigimos da vida mais temível e dolorosa ela tende a tornar-se. Vivermos com simplicidade, livres de influências - conquanto tudo e todos tendam a influenciar - vermo-nos livre dos humores alternantes e das exigências, pode não ser fácil mas se não vivermos uma vida de profunda tranquilidade tudo o mais se revelará fútil.

O céu profundamente azul possui tanta claridade e transmite uma tal sensação de vastidão intemporal que exclui toda e qualquer noção de espaço. O espaço e a distância são coisa da mente; o "aqui" e "acolá" são um facto mas, devido à acção ou impulso do desejo tornam-se factores psicológicos.

A mente é deveras um fenómeno estranho de tão complexa, no entanto é essencialmente simples. Mas os vários tipos de compulsão psicológica tornam-na complexa. E isso torna-se causa de conflito e dor, resistência e necessidade de obtenção de "mais". E é muito difícil possuir consciência disso e permitir que isso passe sem nos enredarmos no processo.
A vida assemelha-se a um vasto rio a correr para o mar. A mente sustenta, na sua moldura, as coisas desse rio, tanto por aquilo de que se desfaz como pelo que retém; mas essa moldura não devia existir pois pertence ao tempo e ao espaço e é essa moldura que cria o "aqui" e "acolá"; a felicidade e a tristeza.
O orgulho é uma coisa bizarra, tanto com relação às grandes causas como às coisas insignificantes. Seja pelo que possuímos, pelas nossas realizações ou virtudes - o orgulho da raça, do nome ou da família, o orgulho das próprias capacidades, do aspecto ou do conhecimento; tanto somos impelidos a fazer com que tudo isso alimente o nosso orgulho como nos votamos a correr em busca da humildade. Mas o contrário do orgulho não é humildade; trata-se ainda de uma forma desse mesmo orgulho, a que nós chamamos humildade. A consciência de sermos humildes é, ainda, orgulho. A mente sempre procura ser alguma coisa e esforça-se para se tornar isto e mais aquilo, sem jamais chegar a sustentar um estado de ser coisa nenhuma. Mas se esse estado se apresentar sob os auspícios de um novo tipo de experiência, então ela procurará obtê-lo. Todavia a própria tentativa para se aquietar representará mais uma forma de aquisição. A mente só deve poder passar além de todo o esforço quando...


Os nossos dias são tão vazios, não obstante preencher-mo-los com actividades de todo o género - negócios, especulação, meditação, tristeza, alegria... A despeito de tudo isso as nossas vidas permanecem vazias. Retire-se ao homem a sua posição, poder ou dinheiro e a que ficará ele reduzido? Externamente ele possuía toda aquela pomposidade mas interiormente permanece superficial e vazio. Não podemos possuir ambas as formas de riqueza a um só tempo: a interior e a outra. Mas o estado de integridade interior ultrapassa de longe a riqueza exterior. Desta podemos nós ser despojados; eventos externos sempre poderão destroçar o que foi cuidadosamente erguido ou reunido; todavia, os tesouros interiores são incorruptíveis e nada lhes pode tocar porque não são uma criação da mente.

O desejo de satisfação é extremamente forte e as pessoas perseguem-no a qualquer custo. Essa sede de satisfação, seja em que direcção ou sentido for, parece dar-lhes sustento; e se numa determinada direcção falhar elas tentarão numa outra. Mas existirá coisa tal como satisfação?

A realização pode trazer-nos um certo tipo de satisfação porém desvanece-se em pouco tempo, para que, de novo nos vermos no seu encalço.

Mas toda a noção de realização deixará de existir se compreendermos o desejo. O desejo é esse esforço por nos tornarmos, por sermos alguém; o término desse movimento faz desvanecer todo o esforço pela realização.

Os montes são únicos. É encantador contemplar a chuva a cair sobre os montes, as gotas de chuva a cair sobre a placidez do lago. Sempre que chove sobrevem aquele aroma a terra e logo surge o coaxar de rãs aos magotes. Quando chove nos trópicos, sobrevem um estranho encanto. Tudo fica lavado pela chuva, o pó das folhas é arrastado e os rios readquirem vida e o fulgor das águas soltas a correr.

As árvores fazem brotar rebentos novos e onde antes só havia terra barrenta reaparece a relva verde. Surgem insectos aos milhares como que do nada e a terra ressequida é uma vez mais nutrida e parece satisfazer-se e ficar em paz. O sol parece perder a sua incidência penetrante e a terra torna-se reverdejante; um local cheio de beleza e abundância.

O homem continua a criar a sua própria infelicidade; só a terra é renovada na sua riqueza, de tal forma que podemos perceber encanto em todo o ambiente.

È uma coisa estranha que a maior parte das pessoas procure o reconhecimento e o louvor - seja o reconhecimento do grande poeta, do filósofo ou algum outro que nos faça dilatar o ego. Conquanto isso nos traga enorme satisfação, por outro lado, possui muito pouco significado. O reconhecimento alimenta-nos a vaidade e talvez também a bolsa, mas, e depois? Torna-nos exclusivistas; só que a separatividade inerente a tal condição gera os seus próprios problemas, que depois não param de crescer. Conquanto possa trazer-nos satisfação, o reconhecimento jamais poderá constituir um fim em si mesmo. Mas a maior parte das pessoas deixa-se apanhar por essa ânsia de reconhecimento e satisfação, realização pessoal, e aí o fracasso e a sensação de infelicidade instalam-se inevitavelmente.

Todavia, o que conta é a liberdade; liberdade tanto com relação ao sucesso como ao fracasso. Desde logo, cumpre não procurarmos um resultado, mas uma acção empreendida com gosto, pois tal afeição não acarreta recompensa nem castigo. Isso tornar-se-á verdadeiramente simples se empregarmos essa afeição.


Como prestamos tão pouca atenção ao nosso redor e ás coisas que devíamos observar e considerar! Achamo-nos tão centrados em nós próprios e tão cheios de preocupações em benefício próprio que nem chegamos a ter tempo para a observação ou para a procura da compreensão. Essa ocupação torna-nos a mente embotada e sobrecarregada de problemas, repleta de frustração e tristeza; e depois procuramos escapar disso. Todavia, enquanto o "eu" se achar em actividade terá de resultar sempre frustração e embotamento. E, nesta corrida de loucos, as pessoas deixam-se apanhar pela aflição desta dor auto-centrada; mas essa dor constitui tão só uma forma total falta de atenção. Só aqueles que forem vigilantes e reflectidos se verão livres dessa dor.


Quanto encanto pode um rio adquirir. Uma terra sem um rio abundante e vasto jamais poderá ver-se completa. Poder sentar-nos nas suas margens a ver as águas a correr e contemplar as leves ondulações da corrente, escutar o marulhar das ondas nas margens, observar as ondulações que o vento cria nas águas ou o voo raso das andorinhas em busca de insectos; escutar as vozes à distância ou o menino a tocar flauta na outra margem, na calma do entardecer, tudo isso nos pacifica a mente. De algum modo, parece que as águas nos purificam e limpam a poeira das memórias de ontem e transmitindo-nos a qualidade da sua pureza, tal como a água em si mesma é pura.

O rio recebe tudo; os esgotos, os cadáveres, a sujidade das cidades por onde passa, não obstante purifica-se no espaço de uns quantos quilómetros. E tudo isso ele recebe sem deixar de permanecer sempre semelhante a si mesmo, sem se preocupar a fazer a distinção entre puro e impuro. Somente as poças ou os lagos acabam contaminados por não possuírem o movimento e a vida dos grandes rios fluentes e aromáticos. E a nossa mente assemelha-se assim a um lago estreito e impuro; é essa pequena poça- a que chamamos a nossa mente, que ajuíza, pondera e analisa, e que, não obstante permanece o mesquinho foco de responsabilidade que é.

O pensamento pode ter uma ou várias causas mas em si mesmo é a raiz disso mesmo. Ou reagimos de modo natural, ou acabamos por ficar num estado de semi-vida. Mas o problema está em não deixar que essa acção ganhe raízes no presente nem as estenda ao futuro.


É natural que o pensamento desponte, porém, é essencial que tenhamos consciência dele e o eliminemos imediatamente; pensar ou actuar sobre esse pensamento, examinar-lhe a natureza, é dar-lhe extensão e possibilitar que se enraíze. Muito importa compreender isso. Perceber a forma como a mente se entrega ao pensamento representa uma reacção ao facto. Essa reacção torna-se, por sua vez, tristeza, e nós começamos a sentir essa tristeza e a pensar no retorno, a contar os dias, etc.; isso fortalece de tal forma o pensamento concernente ao facto que a mente cria raízes. Depois, arrancá-las torna-se outro problema, outra ideia. Pensar sobre o futuro é criar raízes no terreno da incerteza.
Ficar verdadeiramente sós sem as lembranças e os problemas de ontem; ficar sós e felizes, sem nenhum tipo de compulsão externa nem interna, significa não deixar que a mente sofra qualquer interferência enquanto permanece só; significa que ela seja capaz de sentir ternura e protecção por aquela árvore, e ainda assim permanece só. Estamos a perder os sentimentos pelas árvores e assim estamos igualmente a perder o afecto pelo homem. Quando já não sentimos amor pela natureza também deixamos de o sentir pelo semelhante e os nossos deuses tornam-se tão mesquinhos e insignificantes quanto o nosso sentimento de amor. Levamos uma existência de mediocridade; mas para além disso tudo existem as árvores, o vasto céu e as inesgotáveis riquezas da terra.
É essencial que detenhas uma mente clara, livre e solta; mas não podes ter uma mente penetrante enquanto subsistir algum tipo de temor, pois o medo obstrui a mente. Se a mente não se defrontar com os próprios problemas que cria, não poderá preservar essa qualidade de clareza e profundidade. Possuir uma mente assim com sentido de profundidade e clareza implica fazer face às próprias peculiaridades e obter consciência íntima com relação aos próprios desejos, de modo profundo, e fazê-lo sem nenhuma resistência. Só assim ela poderá possuir essa subtileza sem se tornar meramente perspicaz. A mente subtil é lenta e hesitante, porém, não a mente que conclui, ajuíza ou formula. E essa subtileza é essencial. Uma mente assim deve saber escutar e esperar; capaz de lidar com o que é profundo.
Isso não é para ser conseguido no fim, mas tem de prevalecer no próprio começo. Deves possuir uma mente assim e dar-lhe chance de desabrochar profunda e completamente, chance de sondar o desconhecido sem tomar nada como certo nem assumir coisa nenhuma, permanecendo desse modo livre para descobrir, porque só então poderá ser dotada de profundidade e compreensão. De outra forma permanece-se pela rama.

O que importa não é provar ou refutar uma dada questão mas sim descobrir-lhe a verdade. E toda a ideia de mudança ou de verdade pode ser percebida somente quando restar "o que é". Aquilo "que é" não é diferente do pensador; o pensador é aquilo que é, e não existe em separado.

Se subsistir qualquer forma de querer, ou qualquer forma de esperança por um estado futuro, não conseguiremos ter paz, porquanto se existir algum querer isso far-se-á seguir de sofrimento. A vida é feita de vontades. Mesmo que se possua uma única forma de querer isso pode conduzir-nos a um estado de infelicidade interminável. E para a mente poder ser livre desse querer, e assim conhecermos esse desejo, necessitamos fazer uso da atenção; todavia, receio que isso não seja exigência que se faça.

Uma vez que o conheças não deixes que se torne um problema porque prolongar um problema é permitir que ganhe raízes. Não permitas que tal ocorra.

Esse querer único é toda a dor; ela enegrece a vida, e causa frustração e sofrimento. Tem simplesmente consciência disso e trata-o com simplicidade.


Aqui a propriedade é atravessada por um riacho. Não se trata de uma corrente de água serena que se dirige para o rio mais caudaloso mas dum riacho barulhento e animado. Toda esta terra ao redor está repleta de colinas e o riacho dá lugar a várias quedas. Num só local há várias cataratas de diferentes tipos de altura; a maior é a mais ruidosa e as restantes duas, mais baixas, são de menores dimensões. Todas essas diferentes cascatas se encontram diferentemente espaçadas de modo que isso gera um ruído contínuo. Temos de prestar atenção para podermos perceber a melodia que faz! Assemelha-se a uma orquestra a tocar por entre os pomares, a céu aberto; a melodia está nisso. Tem de se ficar atento para a perceber; ficar a sós com as águas correntes para poder ouvir essa melodia. Temos de ser tudo o que nos rodeia para a podermos escutar: o céu a terra, as árvores repletas de folhas a esvoaçar ao vento, os campos verdejantes e a corrente de água; só então a escutaremos.

Mas tudo isso envolve demasiado incómodo pelo que preferimos comprar um bilhete e sentar-nos numa plateia, fazer-nos rodear de pessoas, e assistir a uma orquestra a tocar ou a alguém a cantar. Eles fazem todo o trabalho por nós; alguém compõe uma musica ou uma canção, enquanto alguma outra pessoa a interpreta ou canta, e nós pagamos para escutar. Tudo na vida, á excepção de umas quantas coisas, é de segunda - quando não mesmo de terceira, ou quarta: os deuses, a poesia, a política, a musica. E por isso a nossa vida torna-se vazia.

Mas, uma vez vazia, logo tratamos de a preencher - com musica, com os deuses ou através do amor e todas as demais formas de escape. Todavia, esse acto de preenchimento constitui a própria acção de a esvaziar de toda a riqueza de sentido.

A beleza não existe para ser comprada. E assim poucos são aqueles que a procuram, ou a bondade, porque o homem se satisfaz com as coisas de segunda mão. A verdadeira revolução consiste em atirar tudo isso para o lixo porque só desse modo poderá chegar a existir criatividade autentica.

É estranho como o homem insiste na continuidade de todas as coisas que empreende; seja na tradição, na religião ou na arte, sem jamais se deter ou começar de novo. Se os homens não possuíssem um único livro ou líder, se não tivessem quem imitar ou seguir como exemplo mas permanecessem completamente sós, despidos de todo o seu saber, nesse caso teriam de começar do princípio. Claro que esse acto de se despirem de si mesmos deve ser completamente espontâneo e voluntário, porquanto de outro modo eles enlouqueceriam ou sujeitar-se-iam a uma forma qualquer de neurose. E como somente uns poucos são capazes de ficar completamente sós, o mundo prolonga a tradição através das artes, da musica, da política e de "Deus"- o que sempre acaba por gerar infelicidade.

Isso foi o que aconteceu com o mundo actual. Nada é novo e tanto na religião - que continua com a velha fórmula do medo e do dogma - como também na arte - que se esforça infrutiferamente por encontrar algo que seja novo - só existe oposição e contraposição. Mas a mente também não se renova, permanecendo a mesma mente velha enredada na tradição, no medo, no conhecimento, na experiência, sempre a esforçar-se por descobrir o novo. Todavia a própria mente é que necessita de se despir completamente para que o novo passe a existir. Isso é a verdadeira revolução.

Sopra um vento do sul e aproximam-se nuvens negras de tempestade e chuva; mas tudo isso avança num acto de auto renovação.


A mulher do fazendeiro cá do sítio levou-lhe um belo exemplar de coelho, cheio de vivacidade a espernear, e passado pouco tempo, enquanto uma outra comentava ser incapaz de presenciar, o homem matou-o. E aquilo que se achava cheio de vida e brilho no olhar logo era esfolado pela mulher. Aqui é costume matar os animais, como de resto, em qualquer outra parte do mundo pois a religião não o proíbe. Na Índia onde durante séculos as crianças foram ensinadas a não matar - pelo menos entre os brâmanes do sul - tal coisa constituiria um acto de crueldade, porém há muitas outras crianças que, quando crescem se vêem forçadas pelas circunstâncias a mudar de um dia para o outro a sua cultura, e passam a comer carne ou então tornam-se oficiais do exército, ao serviço da morte. Em muito pouco tempo vêem os seus valores mudados e séculos de um padrão ancestral de cultura são derrubados pela aceitação de um novo padrão.

O desejo de segurança, sob qualquer forma que seja, torna-se de tal modo dominante que leva a que a mente se ajuste a todo e qualquer padrão que lhe prometa segurança e garantia. Todavia não existe segurança nenhuma e se chegarmos a compreender isso então passará a existir algo completamente diferente, que criará a sua própria expressão na vida. Mas essa forma de viver não pode ser entendida nem copiada; tudo aquilo que podemos fazer é compreender e ter consciência dos aspectos que a segurança assume - facto esse que trará a sua própria liberdade.

Como a terra é maravilhosa! Quanto mais tomamos consciência disso mais maravilhosa parece tornar-se. A sua cor, as variedades de verdes e amarelos... É espantoso aquilo que podemos descobrir quando ficamos a sós com a natureza; não se trata somente dos insectos e dos pássaros, da relva, das variedades de flores, mas as rochas, as cores, as árvores e os pensamentos também, se chegarmos a amar. Mas jamais ficamos a sós com coisa alguma; nem connosco nem com a terra. É fácil permanecer a sós com o desejo sem lhe resistir por efeito de qualquer acto da vontade, e não deixar que isso resulte numa acção qualquer; sem lhe permitir a satisfação nem lhe criar o oposto tanto por meio da justificação como da condenação; apenas ficar a sós com ele. Isso gera todo um estranho estado de espirito, livre da concorrência de todo o tipo de acção da vontade. Mas a vontade é que cria resistência e conflito. Ficar a sós com o desejo acaba por produzir uma transformação no próprio desejo. Experimenta-o e descobre o que acontece, porém não forces coisa nenhuma. Considera isso como algo fácil.


Que coisa entendemos por educação? Aprendemos a ler e a escrever e obtemos uma técnica necessária para ganharmos a vida e depois damos-lhe livre curso. Desde a infância advertem-nos sobre o que devemos fazer e pensar, mas interiormente tornamo-nos profundamente condicionados pela influência social e ambiental.

Estava aqui a pensar se não seremos capazes de educar o homem externamente, deixando-o interiormente livre - não seremos capazes disso? Não poderemos auxiliar o homem a tornar-se interiormente livre diante de qualquer situação? Porque somente em liberdade poderemos ser criativos e, consequentemente, felizes. De outro modo a vida torna-se um campo de batalha, tanto interior como exteriormente.

Porém necessitamos dum zelo e duma sabedoria admiráveis para sermos livres interiormente. Mas poucos serão capazes de perceber a importância disso. Preocupamo-nos com o lado externo da actividade ao invés da criatividade, e para alterarmos isso terão que existir pelo menos uns poucos que compreendam essa necessidade e produzam interiormente essa liberdade, em si mesmos. É um mundo verdadeiramente estranho, este nosso!


Importa que produzamos uma mudança radical no inconsciente. Nenhuma acção consciente proveniente da vontade volitiva poderá alcançar o inconsciente. E como não podemos chegar às actividades inconscientes, com as suas demandas e desejos, a mente consciente deve acalmar, aquietar-se, e deixar de tentar forçar o inconsciente segundo um padrão de acção predeterminado. O inconsciente possui o seu próprio padrão de acção: que é a moldura dentro da qual funciona. Mas essa moldura não pode ser rompida por acção externa nenhuma, e a vontade é uma acção externa. Se realmente percebermos e compreendermos isso então a mente externa poderá permanecer naturalmente imóvel, e por deixar de existir qualquer resistência oposta pela vontade poderemos descobrir que o chamado inconsciente começa por si só a libertar-se das próprias limitações. Só então a totalidade do ser humano sofrerá uma transformação radical.
A dignidade é coisa bastante rara. Um cargo ou uma posição de respeito podem conferir dignidade. È como envergar um casaco; o casaco, a peça de roupa, a nomeação, conferem dignidade. Mas dispamos o homem dessas coisas e muito poucos revelarão essa qualidade de dignidade que sobrevem com a liberdade interior de não ser coisa nenhuma.

O homem anseia por ser alguma coisa, qualquer coisa que ele respeite, e isso confere-lhe posição na sociedade. Conferimos toda a sorte de categorias a um indivíduo - inteligente, rico, santo, médico etc. Todavia, se não for capaz de se encaixar numa categoria qualquer, que possa ser reconhecida pela sociedade, ele tornar-se-á uma pessoa estranha. Não podemos presumir ser dignos nem cultivar a dignidade. Ter consciência da dignidade própria é ter consciência de nós, e isso é insignificante e mesquinho.




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