Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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um cantor ao estilo Gardel e, por isso, sujeito a comparações com o

mestre. Daí terem valor extra os aplausos às suas interpretações de "A

voz do violão" e, segundo Mário Reis, de "Confesión", um sucesso de

Gardel que Chico se atreveu a cantar em espanhol. Já o próprio Mário

Reis não tinha nenhum similar argentino - sua enunciação natural, cheia

de síncopes e fraturas, sem os gorjeios do bel canto, pareceu-lhes coisa

de marciano. Quanto a Carmen, podiam não entender o que ela estava

fazendo com as letras, mas sabiam que, ao contrário do que estavam

habituados, ali havia uma mulher que combinava doses maciças de

sensualidade e alegria. Eles nunca tinham visto nada igual.
Cada um cantava cerca de cinco números por show. Chico era o diretor

musical do grupo - ou assim se julgava, ao se referir ao fato de que era

ele quem "ensaiava Mário e Carmen". Chico só não podia ser o diretor dos

figurinos. Cada espetáculo obrigava a uma troca de indumentária, o que

não era problema para Mário Reis e Carmen - cada qual tinha levado um

vasto guarda- roupa e passava as horas de folga reforçando-o nas lojas

chiques de Buenos Aires. Chico Alves, às vezes, também trocava de terno

- mas, segundo Mário Reis, todos de ombros tortos e calças malfeitas, de

autoria do mesmo alfaiate da rua Maxwell, na Aldeia Campista, que lhe

fazia as roupas nos tempos em que ele era pobre.

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A excursão aproximou Carmen de Mário Reis. Os dois se entenderam como



irmãos - e nisso está dito tudo. Muitos anos depois, em seus devaneios

entre amigos à beira da piscina do Country, em Ipanema, Mário Reis

deixaria no ar a suspeita de que algo se passara entre eles.
Mas os amigos sabiam: Carmen e Mário Reis juntos? Só se fosse dentro da

cabeça do cantor.


Como acontecera nas suas idas a São Paulo, Carmen fora a Buenos Aires

acompanhada do pai. Isso não impediria que, se fosse o caso - num surto

inadiável de desejo -, Carmen e Mário Reis achassem um jeito de burlar a

vigilância (nem tão severa) de seu Pinto. Mas não era absolutamente o

caso. Carmen admirava Mário Reis como cantor e o adorava como amigo.

Mas, para fins imorais - pouco mais alto que ela, com um histórico

amoroso zero, cavalheiro demais, nada viril, quase efeminado -, ele era

exatamente o contrário do seu tipo.


Mesmo porque, enquanto cumpria a temporada em Buenos Aires, Carmen

pensava em seu namorado, Mário Cunha, perigosamente à solta no harém. Ao

viajar, ela lhe deixara mais uma foto com dedicatória: "Bituquinha, meu,

só meu. Fica muito direitinho no Rio, sim? Senão eu choro, ouviu? E não

faço mais nada pensando em ti, sabe? Um beijinho bem chupadinho, da sua

Bituca".
Mas, dessa vez, Carmen não tinha tantos motivos para se preocupar.

Exceto por uma eventual escapada a algum colchão ilícito, Mário Cunha,

assim como outros remadores do Flamengo, do Botafogo, do Boqueirão do

Passeio e do Icaraí, estava mais ocupado naquela época com outro

esporte: arranjar briga com os gaúchos que, um ano depois da Revolução

de 1930, não paravam de chegar ao Rio e desfilavam pela cidade como se

fossem os donos da situação. E, na verdade, eram mesmo, porque o

presidente provisório, o gaúcho Getúlio Vargas, ocupara o governo com os

conterrâneos, os quais tinham trazido seus amigos, e agora era a vez de

estes trazerem os seus.
No começo, a cidade se divertia ao ver aqueles homens de chapelão,

poncho, bombacha e botas, suando ao sol de 35 graus do Rio. Mas, quando

eles começaram a ocupar todos os cargos federais e a namorar as

cariocas, deixaram de ter graça - e já ninguém dizia "deixa disso"

quando um grupo de remadores, fortíssimos e cruéis, criava qualquer

pretexto para justiçá-los.


Ou, como aconteceu pelo menos uma vez, amarrá-los no Obelisco - como

eles tinham feito com seus cavalos na vitória da Revolução.

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O coro que acompanhava o cantor Castro Barbosa na gravação original de

"Teu cabelo não nega", feita na Victor no dia 21 de dezembro de 1931,

continha cinco vozes masculinas e uma feminina. A voz feminina,

inconfundível, era a de Carmen Miranda. Seu nome não apareceu no disco.


Nem era para aparecer. Carmen estava no estúdio, cuidando da sua vida,

quando ouviu a marchinha sendo repassada pelos músicos de Pixinguinha, e

a adorou. Era amiga de Castro Barbosa e resolveu juntar-se ao coro na

gravação. Naquele dia, ninguém poderia adivinhar que "Teu cabelo não

nega" se tornaria o hino do Carnaval carioca. Seis meses antes, outro

amigo, Sylvio Caldas, também fizera um contracanto para um disco seu -

apenas dez minutos depois de ter gravado "Faceira", o samba de Ary

Barroso que o projetaria como um dos maiores nomes da música popular.

Eles eram assim, acima de mesquinharias.
Era possível que, nos bastidores do Teatro Recreio, um ator desse um

calço sem querer num concorrente e o fizesse esbodegar-se escada abaixo

pouco antes de entrar em cena. Ou que, na Editora Leite Ribeiro, um

escritor derramasse acidentalmente um tinteiro sobre o manuscrito que um

rival deixara em cima da mesa. Mas, no meio musical, era o coleguismo

que imperava. No Café Nice, ponto de encontro dos sambistas na esquina

de Rio Branco com a rua Bitencourt da Silva, um compositor se oferecia

para fazer a segunda parte do samba de outro, ou um letrista escrevia

uma introdução nova para a marchinha de um amigo - sem pedir parceria e,

às vezes, até sem aceitá-la. Nas gravadoras, a mesma coisa: um cantor de

passagem pelo estúdio se metia na gravação do colega, participando do

coro ou contribuindo com uma segunda voz, sem que seu nome aparecesse no

disco. Em meio a esse clima de camaradagem, se fazia história.
Carmen tinha ido à Victor naquele dia para gravar outra marchinha, a

divertida "Isola! Isola!", em dueto com Murilo Caldas, irmão de Sylvio.

Era um dos três ou quatro discos que estava produzindo para o Carnaval

de 1932, embora apenas um deles, o samba "Bamboleô", de André Filho,

gravado dias antes, fosse fazer sucesso. Terminado o registro de "Isola!

Isola!", Carmen se deixou ficar por ali. Menos de dez minutos depois,

Castro Barbosa iria gravar uma marchinha adaptada por Lamartine Babo de

um frevo que chegara à Victor, enviado pelos irmãos João e Raul Valença,

dois compositores pernambucanos.
Lamartine só aproveitara o estribilho dos dois irmãos:
O teu cabelo não nega, mulata Porque és mulata na cor Mas como a cor não

pega, mulata Mulata, eu quero o teu amor


- tão elegante em seu absurdo que custa a crer que o resto da letra,

ruim de doer, fosse dos mesmos autores. Como a estrofe:

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Ti/ nunca morre de fome
Que os Home
Te dá sapato de sarto
Bem arto
Pra tudo abalança o gererê...,
que Lamartine transformou em:
Quem te inventou
Meu pancadão
Teve uma consagração
A lua te invejando fez careta
Porque, mulata, tu não és deste planeta.
Depois de alterar outras partes da melodia e criar uma nova introdução

instrumental, Lamartine deu a música por pronta. Hoje sabemos que "Teu

cabelo não nega" nasceu obra-prima, mas, se você pensa que os cantores

se atiraram mutuamente às aortas para disputá-la, engana-se. O primeiro

cantor a quem Lamartine a ofereceu foi Francisco Alves, que a recusou.

Chico preferiu outra, a também excepcional "Marchinha do amor", que

Lamartine lhe mostrara pouco antes. A segunda opção do compositor foi a

dupla Castro Barbosa e Jonjoca. Eles gostaram e se dispuseram a

gravá-la. Mas Jonjoca tinha um samba, "Bandonô", que achava pouco

adequado para a dupla e que ele pretendia gravar sozinho. Mesmo assim,

propôs a Castro que disputassem as duas músicas no cara ou coroa. Castro

topou. Deu cara, e Jonjoca ficou com "Bandonô", que teve o seu momento e

sumiu. Castro Barbosa, derrotado na moedinha, gravou "Teu cabelo não

nega". Com o dinheiro que o disco lhe rendeu, Castro comprou um

apartamento em Copacabana e entrou para a história do Carnaval.
A dupla tinha se conhecido no ano anterior, no Lloyd Brasileiro, do qual

Castro, 25 anos, era funcionário. Jonjoca, dezenove, era filho do

comandante. Castro cantava parecido com Chico Alves; Jonjoca, com Mário

Reis. A Victor fez deles uma dupla para tentar concorrer com Chico e

Mário, que gravavam em duo na Odeon. Mas era impossível superar o charme

da dupla original. Na Victor, Castro e Jonjoca ficaram amigos de Carmen.

Era apenas normal que ela, incógnita, tomasse parte no coro de "Teu

cabelo não nega" (do qual Jonjoca também participou). Com o tempo,

Carmen se aproximou mais de Jonjoca, de quem chegou a gravar dois

sambas.


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Jonjoca ainda pegou os últimos tempos da família na travessa do Comércio

e acompanhou a ida para Santa Teresa. De tanto conviver com Carmen, em

casa, na rua e no estúdio, desenvolveu por ela uma fatal paixonite -

que, por saber sem futuro, tentou manter em segredo. A já experiente

Carmen entrou no jogo: se percebeu o que ele sentia por ela, fez de

conta que não. Mas, para Jonjoca, era claro que ela sabia. Tanto que, um

dia, Carmen lhe deu um longo beijo na boca - um beijo de verdade. Só que

de farra, entre risos, como quem dissesse que, entre amigos, tais

carinhos não eram para valer. Mas o jovem e sonhador Jonjoca quase

desmaiou.


Era bem o jeito de Carmen: a sedutora que se misturava com os rapazes,

como se fosse um deles, e com isso neutralizava os possíveis avanços. O

mesmo quanto aos palavrões, que disparava como se fossem vírgulas e, se

houvesse uma senhora presente, que pusesse algodão nas oiças. Ou às

piadas de papagaio, de que sabia dezenas - quando Carmen as contava,

elas eram só engraçadas, nada licenciosas, e tão infantis quanto suas

dedicatórias para Mário Cunha ou seus palavrões.
Ninguém podia fazer qualquer restrição a Carmen do ponto de vista moral.

Mas os que não a conheciam direito tinham razão de se assustar. Quando

ela se encontrava com o humorista Jorge Murad, na Mayrink Veiga, ou com

o compositor e pianista Gadé, na Victor (seus principais interlocutores

no item papagaio), a rádio saía do ar e a gravadora perdia horas de

trabalho - porque os microfones tinham de ser desligados.


Em fins de 1931, uma fabulosa geração de compositores e letristas

brasileiros, que vinha se formando havia dois anos, já estava pronta.

Seus instrumentos para compor eram o violão, o piano, um ou outro

instrumento de sopro ou percussão e, em último caso, a caixa de fósforos

(os sambistas preferiam os da marca Olho - mais fáceis de afinar -,

fabricados pela Companhia Fiat Lux, do Rio). Poucos liam ou escreviam

música, mas não faltava quem fizesse isso por eles nos estúdios. Como

letristas, alguns tinham diploma de médico ou de advogado, embora seus

amigos não fossem malucos de se tratar ou se deixar defender por eles.

Outros desses letristas mal haviam sido apresentados à cartilha, mas

eram capazes de citações até em francês. A maioria tinha um insuperável

jeito para as palavras, uma veia poética intuitiva e um olho afiado para

a observação romântica ou humorística. Todos (uma ou duas exceções) eram

homens da rua e da esquina, bons de café e de botequim. Sua língua comum

era o samba, enfim estabelecido como o ritmo nacional, com suas novas e

ricas variações: o samba-canção, o samba-choro, o samba de breque. Mas

eles dominavam também outros idiomas, como a marchinha, a valsa, o fox,

o tango, a toada, o cateretê, a embolada, a batucada e até a macumba. E,

claro, todos, mesmo os nascidos em outros estados, tinham a verve

carioca - a alma da Avenida, a malandragem dos morros, a sabedoria dos

subúrbios. Em 1932, o país inteiro iria cantar o que sairia de sua

inspiração.


Alguns desses rapazes (e uma moça) eram Ary Barroso, Noel Rosa,

Lamartine Babo, João de Barro (Braguinha), Almirante, Antônio Nássara,

André Filho, Benedito Lacerda, Ismael Silva, Newton Bastos, Alcebíades

Barcellos, Armando Marcai, Cartola, Custódio Mesquita, Orestes Barbosa,

Luiz Peixoto, a dupla Gadé e Walfrido Silva, Hervê Cordovil, Ataulpho

Alves, Frazão, Synval Silva, Assis Valente, Alcyr Pires Vermelho,

Oswaldo Santiago, Vicente Paiva, Cristóvão de Alencar, José Maria de

Abreu, Mário Travassos de Araújo, Alberto Ribeiro, Wilson Batista,

Herivelto Martins, os irmãos Henrique e Marilia Batista. Exceto Orestes

Barbosa, nenhum tinha mais de trinta anos. Com aquele presente, a música

brasileira podia ter a certeza de um glorioso futuro.

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Com todo esse sangue novo em cena, a música do passado não estava



absolutamente morta em 1932. Quem morrera fora Sinhô, em agosto de 1930,

a bordo da barca Sétima, entre Rio e Niterói, e, com ele, o maxixe. Mas

vários de seus contemporâneos, sobreviventes da casa da Tia Ciata, das

salas de espera do cinema mudo e dos antigos orquidários líricos,

continuavam ativos, como Caninha, Pixinguinha, Donga, João da Baiana,

Heitor dos Prazeres, Augusto Vasseur, Eduardo Souto, Freire Júnior,

Cândido das Neves, Hekel Tavares, Joubert de Carvalho, Olegario Mariano

e, naturalmente, Josué de Barros. Incrível, Chiquinha Gonzaga e Ernesto

Nazareth ainda estavam vivos - e também produzindo! Bolas, em 1932, a

própria Tia Ciata continuava viva, embora aposentada das mandingas no

terreiro e da venda de acarajés no largo da Carioca.
Para cantar a música daquele escrete de criadores, também surgira uma

nova geração de intérpretes: Carmen, Mário Reis, Sylvio Caldas,

Almirante, Luiz Barbosa, Moreira da Silva, Gastão Formenti, Breno

Ferreira, Jorge Fernandes, Patrício Teixeira, Carlos Galhardo, João

Petra de Barros, Albenzio Perrone, Castro Barbosa e Jonjoca, Joel e

Gaúcho, os irmãos Tapajós, o Bando da Lua e, dali a pouco, Dircinha

Batista, Marilia Batista, Aracy de Almeida e Aurora Miranda. Todos

tinham também menos de trinta anos; algumas das moças, menos de vinte -

e Dircinha Batista, acredite ou não, menos de dez.
Havia também os mais velhos, que vinham do tempo do microfone de chifre,

e que nem eram tão velhos assim: Vicente Celestino estava com 38 anos em

1932; Francisco Alves, com 34. Aracy Cortes era vista como uma veterana,

uma cantora da outra geração, mas tinha apenas 28 anos. E, por diversos

motivos, todas as cantoras que haviam surgido com Carmen naqueles idos

de 1929 perderiam espaço no decorrer dos anos 30: Elisinha Coelho, Jesy

Barbosa, Olga Praguer Coelho, Stefana de Macedo, a mirandiana Yolanda

Ozorio, a linda Laura Suarez. Algumas iriam se casar e mudar, outras

sairiam de cena, e ainda outras apenas se apagariam - e um motivo para

isso seria a existência de Carmen.


Em 1932, haveria novidades radicais no Carnaval, no rádio, no disco, no

teatro, no cinema e nos direitos autorais. Era o começo de uma era que

se chamaria a época de ouro da música popular brasileira. Ouro

artístico, bem entendido, porque, para o bolso dos que o produziram, não

foi quase nenhum.
Mas, como sempre, haveria exceções. E pelo menos um desses artistas

enriqueceria: Carmen.


Capítulo 5


1932 - 1933


Aurora

O Carnaval de 1932, no Rio, não esperou fevereiro. Começou cedo, em

janeiro mesmo, com batalhas de flores e de confete em Vila Isabel e na

avenida Rio Branco, banhos de mar a fantasia no Flamengo e em Copacabana

(as fantasias eram de papel crepom), e bailes em teatros, clubes e

praças pela cidade inteira. Sem falar nos bondes, que eram a folia sobre

trilhos. A cidade cantava, de Lamartine Babo e Noel Rosa:
A-e-i-o-u Dabliú, dabliú Na cartilha da Juju Juju...,
ou, de Ismael Silva e Noel,
Olha, escuta, meu bem É com você que eu estou falando, neném Esse

negócio de amor não convém Gosto de você, mas não é mui... to Mui... to,


e, claro, "Teu cabelo não nega", de Lamartine e irmãos Valença. Eram as

marchinhas que vinham para se tornar a voz da cidade nessa época. Para

se fazer ouvir no resto do Brasil, bastava a uma delas ser cantada da

praça Tiradentes à Cinelândia. O problema era sobreviver a esse curto

percurso - a concorrência era colossal.
A partir do sábado de Carnaval, 6 de fevereiro, houve corso todas as

tardes nas avenidas; desfiles de blocos, ranchos e cordões nos bairros;

e música, éter e beijos a todo tempo e hora. Aquele seria um Carnaval de

estréias. No domingo, aconteceu o primeiro campeonato das escolas de

samba, promovido pelo jornal Mundo Sportivo, de Mário Filho, na praça

Onze, e vencido pela Mangueira. Na segunda-feira, o primeiro baile do

Theatro Municipal, de gala, para os gringos e granfas, com três

orquestras, concurso de fantasias e a présença de 4 mil foliões, entre

os quais Getúlio Vargas. E, na terça, o ponto alto do Carnaval: o

tradicional desfile das grandes sociedades - Fenianos, Democratas,

Tenentes do Diabo, Pierrôs da Caverna -, com seus dragões de boca

aberta, mulheres jogando beijos para as sacadas da Avenida e, quem sabe,

o próprio Diabo disfarçado entre os fantasiados de diabo. Na madrugada

de quarta-feira, foliões e folionas voltaram para casa com as roupas

rasgadas, o batom borrado, as ilusões perdidas, e já antecipando a frase

do escritor Dante Milano: "Brasileiros, vocês hão de ter saudades do

Carnaval".

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Mal os confetes foram varridos, os cariocas puderam se ver no filme O



Carnaval cantado de 1932, produzido pelo exibidor Vital Ramos de Castro

com o apoio do pessoal da Cinédia. Era um documentário sonoro, de cerca

de quarenta minutos, mostrando, talvez, boa parte do que se descreveu

acima. Infelizmente só se pode presumir porque, cumprida sua temporada

nas telas do Rio, o filme saiu para percorrer o país e as poucas cópias

foram se destruindo pelo caminho, deixando um pedaço em cada poeira, até

que todas desapareceram. Como o negativo também sumiu, o filme se perdeu

para sempre. Foi pena - pela primeira vez, tinham sido filmadas externas

noturnas do Carnaval, com a equipe de Adhemar Gonzaga usando refletores

emprestados pelo Exército para iluminar a Avenida e compensar a baixa

sensibilidade da película.
É pena ainda maior porque o filme continha a primeira aparição de Carmen

no cinema, cantando "Bamboleô". Ou parecendo cantar - porque o que se

ouvia era a sua gravação da Victor, aplicada aos discos Vitaphone de

dezesseis polegadas que rodavam sincronizados com o projetor. (Aliás,

todo o áudio do filme era pré-gravado - naquele ano, nenhuma equipe

brasileira de filmagem tinha condições de gravar o som na rua, muito

menos na barafunda do Carnaval.) O irônico é que, quando Carmen

finalmente realizou o sonho de se ver na tela, isso foi apenas uma

conseqüência inevitável de seu sucesso nos discos - como se,

subitamente, o cinema não pudesse prescindir mais dela, e ela lhe

fizesse um favor em se deixar filmar.
Nas pequenas questões práticas, Carmen não tinha tanto poder assim. Uma

famosa foto de lambe- lambe mostra Carmen naquele Carnaval, ao volante

da barata de Mário Cunha, com ele a seu lado, de pernas cruzadas para

fora do carro, e este abarrotado de foliões, todos de camisa listrada e

boné, prontos para sair no corso. Entre eles, é possível identificar

Aurora, Mocotó, Tatá e as amigas de Carmen, as irmãs Lulu e Sylvia

Henriques. E Carmen estava mesmo ao volante - mas só para a fotografia.

Poucos minutos depois, teria de ceder o lugar a Mário Cunha e voltar

para o banco do carona. Por mais que ela insistisse, ele não a ensinava

a dirigir e não permitia que outro o fizesse. A maior estrela da música

popular poderia comprar um carro, se quisesse, mas não tinha autonomia

para dirigi-lo.


A desculpa de Mário Cunha era a de que ele tinha o maior orgulho em

transportá-la - o que era verdade. Carmen se submetia. Em janeiro, ele a

escoltara mais uma vez pela sede do Fluminense, para suas apresentações

nos bailes pré- carnavalescos do tricolor, acompanhada pela orquestra de

Pixinguinha. No mesmo mês, estava à sua espera na porta do Cine

Eldorado, na avenida Rio Branco, ao fim de cada um dos shows que ela

fizera para a Victor com seus novos colegas de gravadora, Lamartine Babo

e Almirante. E Mário Cunha não era apenas um homem galante. Era também

solidário e compreensivo: enquanto o mundo se divertia, sua namorada

tinha de trabalhar no Carnaval, mas ele não reclamava.


79

Em termos estritos de folia (ou seja, sem que Carmen precisasse cantar),



o ponto alto do tríduo de 1932, para eles, foi o baile promovido por

Jonjoca em casa de seus pais, na rua Sorocaba, em Botafogo, animado pelo

incansável Pixinguinha. Eram dezenas de amigos eufóricos, ruidosos e com

fantasias iguais. Mocotó, Mário Travassos (pianista, niteroiense, autor

de "Palavra doce"), Laércio, Zuza, Inácio, Maurício e o próprio Jonjoca,

entre outros, estavam de havaianos; Carmen, Aurora e mais seis amigas

estavam à marinheira. "Teu cabelo não nega" - a marchinha que o dono da

casa perdera na moeda - foi tocada incontáveis vezes pela orquestra

aquela noite. Carmen e Mário Cunha pularam, suaram e se esbaldaram,

indiferentes às horas. E, enquanto seus amigos adernavam pelos cantos ou

já estavam indo embora, os dois continuaram brincando até o sol raiar.

Era o sétimo Carnaval que passavam juntos e, para todos os efeitos,

ainda tinham muitos pela frente.
Mas sete é um número traiçoeiro, e um relacionamento não vive só de

confetes e serpentinas - ou do que as duas pessoas fazem quando ninguém

está olhando. Coincidência ou não, aquele seria o último Carnaval em que

Carmen e Mário Cunha fariam suas fantasias na mesma costureira.


Na tarde de 19 de junho, domingo, o presidente Getúlio Vargas foi ao

estádio do Fluminense para assistir às apresentações dos atletas que

iriam representar o Brasil nas Olimpíadas de Los Angeles, em julho. A

caçula e única mulher da delegação, a nadadora Maria Lenk, de dezessete

anos, deu um show na piscina e entusiasmou Getúlio. Mas, aos rapazes de

remo, ele só desejou boa sorte, porque, naturalmente, nas Laranjeiras

não se podia vê-los em ação. Dois desses rapazes eram o remador

rubro-negro Mário Cunha, trinta anos, e o sota-proa do oito vascaíno,

Mocotó, vinte anos. Não há indício de que Carmen tenha comparecido ao

evento. O fato de que seu irmão estava a ponto de se tornar um atleta

olímpico era um motivo de orgulho para ela, mas a idéia de ver seu

namorado saracoteando no estrangeiro a deixava uma arara. Por conhecer

Mário Cunha tão bem, ela já o via aproveitando cada minuto de folga em


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