Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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ex-noivo Feliciano. Ele lhe aparecera sozinho, sem aliança no dedo e

alegando ter se separado da mulher com quem, segundo jurou, tivera de se

casar à força. Agora propunha que, quando Olinda recebesse alta e

voltasse para o Rio, ela lhe desse uma nova oportunidade. Olinda

acreditou em Feliciano e, por alguns dias, viveu com ele um idílio no

Caramulo. Quando Feliciano se despediu para o retorno ao Brasil, era

como se estivessem mais uma vez noivos. Nos meses seguintes, escrevendo

para a família, Olinda falou de sua alegria e de como aquilo contribuía

para sua recuperação. Até chegar a notícia fatal: numa carta, Feliciano

contou que se casara de novo no Rio, não se sabe se com a mesma ou se

com outra mulher. Olinda voltou a se abater e, dessa vez, para sempre.
Enquanto Olinda vivia seu drama no sanatório, outra irmã de Carmen,

Cecília, protagonizava momentos mais felizes no Rio. Aos dezesseis anos,

ela gostou de Abílio, jovem comerciante português da rua do Acre, amigo

de Mocotó e que tomava pensão com dona Maria. Abílio também gostou de

Cecília

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e a pediu em casamento, embora se sentisse muito olhado por Carmen e até



por Aurora, que só tinha quinze anos. O interesse de Carmen por Abílio

era apenas esportivo, sabendo-se de sua paixão por Mário Cunha. Mas isso

não a impediu de, ao passar por ele, dizer, com ar gaiato:
"Aí, hein? Escolheu a zarolha, né?" - numa referência ao estrabismo de

Cecília, que se seguira à sua queda da janela na rua da Candelária.


Seu Pinto e dona Maria consentiram no casamento, que foi marcado para

julho de 1931. A única nota destoante na festa de noivado foi dada por

Joubert de Carvalho, em sua função de médico. Já amigo da família e

conhecendo Abílio (pode tê-lo examinado em seu consultório), ele se

sentiu na obrigação de advertir seu Pinto:
"Abílio sofre de reumatismo muscular cardíaco. Pode escrever o que estou

dizendo: Cecília só terá marido para sete ou oito anos."


Mário Cunha assistia ao sucesso de Carmen com indisfarçável orgulho. Nos

primeiros anos do namoro, por ser a vedete do remo do Flamengo, era ele

a celebridade do casal. Agora, a situação se invertera: Carmen é que era

a estrela, com nome nos jornais e foto nas revistas. Mário Cunha, a seu

lado em público, limitava-se a fazer número, mas nem por isso sentia seu

status diminuído. Nas ruas, de carro ou a pé, era apontado como "o

namorado de Carmen Miranda" - o que o tornava ainda mais desejável para

as mulheres. E com Carmen tão ocupada, sobrava tempo para Mário Cunha

dedicar-se às matinês e vesperais amorosas. Mas a notoriedade extra que

adquirira o deixara também mais exposto, e não faltava quem informasse a

Carmen ou a uma de suas irmãs que ele tinha sido visto a bordo de alguma

mulher. Por fazer Carmen sofrer, a cotação de Mário Cunha perdeu pontos

junto a dona Maria. Suas visitas à travessa do Comércio escassearam.
Carmen calculou que era hora de dar-lhe uma lição. E a melhor maneira de

fazer isso seria simular interesse por um dos muitos que, ultimamente,

caíam feito moscas sobre ela.
Um deles era um importante comerciante, baixinho e obeso, que lhe

mandava, todos os dias, um vidro de perfume francês. Quando o motorista

estacionava o Lancia do patrão na porta da travessa da Comércio, Carmen

dizia,
com tédio:


"Xiii! Lá vem mais um frasco de perfume. Acho que vou abrir uma botica!"

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Mário Cunha e toda a rua sabiam dele, e sabiam também que ela o achava

ridículo. Donde este estava fora de questão. Mas havia um colega de

Carmen na Victor, o cantor Breno Ferreira, boa- pinta, descendente de

alemães e futuro autor de "Andorinha preta". Breno arrastou a asa para

Carmen e ela lhe deu corda, especialmente quando sabia que Mário Cunha

estava nas proximidades. Nunca houve nada entre eles, no máximo um

jantar em São Paulo, onde os dois foram gravar em agosto. Mas isso foi

suficiente para Breno sair da história convencido de que namorara

Carmen. E o efeito sobre Mário Cunha também foi nenhum, porque ele sabia

que era uma encenação. Assim, Mário continuou nas lides, como sempre.
Uma rica madame, moradora da praia do Russell, pediu a seu amigo, o

violonista Bororó, que convidasse para cear com ela, a sós e à luz de

velas, "aquele rapaz bonito que se veste de branco e que vive grudado na

Carmen Miranda". Bororó ainda estava longe de ser o autor de "Curare" e

"Da cor do pecado", e embolsou alegremente os 200 mil réis que ela lhe

deu pelo serviço de alcoviteiro. Mário Cunha aceitou o convite e bateu à

porta do palacete na hora marcada. Talvez por a mulher não preencher

certos requisitos - devia ser muito, muito velha -, ele se limitou a

exibir seus bíceps e arcada dentária e a falar de seus feitos náuticos.

Mais tarde, a excelente comida e os vinhos, a que ele não estava

habituado, fizeram efeito - e Mário Cunha teve de ser conduzido a um

sofá, onde dormiu e roncou direto. No meio da noite, a mulher telefonou

para Bororó:
"Quer ganhar mais duzentos, Bororó? Então venha tirar esse "atleta"

daqui."
No dia seguinte, Bororó, morrendo de rir, contou a história a Carmen,

que fingiu também achar uma pândega. Mas, à noite, cobrou-a, dente por

dente, de Mário Cunha. E, como sempre, o perdoou.


Mário Cunha tinha razões até por escrito para se sentir tão seguro em

relação a Carmen. Era só ler as dedicatórias das fotos que ela lhe

oferecia - "Bituca, todo o meu sucesso será para você, se eu o tiver,

sim? Bituquinha", ou: "Para você, para que te lembres sempre desta feia,

sim?", ou: "Marinho, meu idolatrado. Como eu tenho ciúmes de ti". Pois

todas essas dedicatórias são posteriores a "Taí", quando Carmen já não

conseguia dar conta de seus compromissos de estúdio, apresentações em

clubes e teatros, solicitações para fotos e entrevistas.


E quando, no papel de Carmen Miranda, estava se tornando a mulher mais

admirada e desejada do Brasil.


Capítulo 4


1930 - 1931


Rainha do disco

No dia 13 de setembro de 1930, Carmen estava na coxia do Teatro João

Caetano, na praça Tiradentes, pronta para entrar e cantar "Taí" em Vai

dar o que falar, a nova revista musical da cidade. A produção era

caprichada, com cenários que tomavam o enorme palco do João Caetano. No

fosso, uma orquestra de vinte figuras. Do teto, efeitos de luz "dignos

de Paris". O espetáculo tinha 35 quadros, entre esquetes humorísticos de

Luiz Peixoto e Marques Porto e números musicais a cargo do veterano

Augusto Vasseur e do compositor revelação do ano, Ary Barroso.
Era a estréia de Carmen no gênero que tradicionalmente consagrava os

cantores brasileiros. Mas Carmen, invertendo essa longa tradição, já

chegava a ele consagrada. Até ali, os cantores tinham de se tornar

estrelas do teatro de revista para serem convidados a gravar um disco.

Carmen começara por cima, pelos discos, e só agora, pelo assédio de Luiz

Peixoto, se dava ao luxo de aparecer numa revista. Houve até quem se

espantasse por ela ter aceitado - o que só fez sob a garantia de não ter

de participar de esquetes cômicos, limitando-se a cantar alguns de seus

sucessos. Mas, pelo que aconteceu no João Caetano pouco antes de sua

entrada em cena, a carreira de Carmen no teatro de revista não passaria

daquela noite.
O número que a antecedia mostrava o Mangue, a zona do baixo meretrício

carioca, num cenário altamente estilizado, com malandros, marinheiros e

cafetões desfilando diante de janelas em que se viam silhuetas de

mulheres seminuas. Em dado momento, PMS montando cavalos de verdade

desfilariam pelo palco, certificando-se de que a zona estava em paz e

sossego. Não se sabe quais seriam as demais atrações do quadro, porque

ele acabou logo depois de começar.
Assim que o pano subiu e o elenco se movimentou, parte da platéia

reconheceu o cenário e começou a vaiar. Os que tentavam fazer "Psiu!"

foram silenciados pelos assobios e pela pateada. Ouviram-se gritos de

"Canalhas! Imorais! Depravados!". Um homem nas frisas berrou,

apoplético: "Isto é uma afronta à família brasileira!". Objetos eram

atirados ao palco. O elenco fugiu correndo, com as coristas chorando e

os figurantes se chocando no atropelo. Em meio ao pandemônio, ouviu-se

um estampido, talvez de tiro. Os cavalos se assustaram nas coxias e

invadiram o cenário a galope. Zoeira geral - caos no palco, na platéia e

nos bastidores. As cortinas desceram e continuaram a ser bombardeadas

por objetos, enquanto metade dos espectadores se retirava. Lá dentro, o

telão do Mangue foi levantado às pressas, deixando o palco nu. O

espetáculo tinha sido literalmente posto abaixo.
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O contra-regra ordenou:


"Vai, Carmen! Vai!"
Era sob esse clima que a aturdida Carmen, também chorando, deveria

entrar para cantar "Taí".


O experiente comediante Palitos, tio de um jovem chamado Oscarito,

mandou Carmen esperar e entrou na frente. Pediu calma à platéia e chamou

de volta os espectadores que estavam indo embora. Depois se desculpou em

nome da companhia. Mas fez isso só formalmente, porque não havia do que

se desculpar - o quadro do Mangue não era muito diferente do que se

praticava no teatro de revista que, desde 1859, fazia a delícia da

"família brasileira". E desde quando a prostituição era novidade? Pois,

se era a especialidade do bairro mais famoso do Rio, a Lapa -

freqüentada pelas mesmas pessoas que estavam ali vaiando!
Na verdade, a aversão a Vai dar o que falar começara na véspera, como se

tivesse sido encomendada. Os jornais de oposição ao prefeito estavam

revoltados pela cessão do Teatro João Caetano, controlado pela

prefeitura, a um tipo de espetáculo que para eles só cabia em palcos

fuleiros, como o do Teatro Recreio. Mas o Recreio estava em obras, e o

produtor, o português Antônio Neves, misto de importador de banha e

empresário teatral, conseguira justamente o João Caetano. E aí estava o

problema: a cidade ainda não se recuperara da demolição do lindo Teatro

São Pedro de Alcântara, que existia naquele lugar desde 1813, e sua

substituição pelo João Caetano, inaugurado em junho, menos de três meses

antes. O velho São Pedro tinha toda uma história. Fora de seu camarote

real, quando ainda se chamava Teatro São João, que, na noite de 10 de

janeiro de 1822, o príncipe dom Pedro foi aclamado pela sociedade ao

repetir o "Fico!" que dissera à tarde de uma janela do Paço. Depois, o

teatro se tornara o favorito do imperador Pedro I, e seu palco recebera

um naipe de divas européias, de Bernhardt a Galli-Curci. Mesmo assim,

fora derrubado pelo prefeito do Rio, o paulista Prado Júnior, nomeado

pelo presidente Washington Luiz. E, quando se pensava que o novo prédio,

apesar da fachada futurista e art déco, fosse respeitar aquele passado,

vinha a prefeitura e o cedia à "troupe da maxixada". O quadro do Mangue

fora só o pretexto para o tumulto.
Outra versão, muito menos nobre, afirmava que o distúrbio fora incitado

por Mathias da Silva, o notório proprietário da Casa Mathias, uma loja

de artigos gerais na avenida Passos. Teria sido dele o grito contra a

"afronta à família brasileira" - mas por motivos estritamente pessoais

contra seu patrício Antônio Neves. Só podia ser, dizia-se - porque

Mathias estava longe de poder dar lições de moral a quem quer que fosse.

Os anúncios de seu estabelecimento nos jornais, escritos por ele, também

eram uma "afronta à família", pela formidável grossura. Tinham como mote

as aventuras entre o próprio Mathias e a cabrocha Virgulina (que o

chamava de "meu xodó cheiroso"), porta-bandeira do Bloco dos

Lanfranhudos, o qual saía da Casa Mathias no Carnaval. (Lánfranhudo

queria dizer valentão.) Não admira que Mathias visse Antônio Neves como

seu concorrente direto na colônia. Os dois deviam estar às turras

naquela época. Mathias tentou melar o sucesso do rival e, com isso, quem

quase levou a breca foi o elenco da revista.

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Palitos conseguiu acalmar a turba e convocou Carmen. Isso é que era



prova de fogo - principalmente porque, de certa forma, era a primeira

vez que ela enfrentava uma platéia de verdade, não a dos shows

beneficentes. Carmen recompôs-se. Entrou, cantou "Taí", relampejou o

brilho dos dentes, despejou chispas com os olhos e saiu sob aplausos.

Depois disso, a revista pôde chegar ao final. No dia seguinte, os

jornais arrasaram todo mundo - os autores, o espetáculo e a platéia -, e

pouparam Carmen, em quem viram um talento para o teatro musicado. Mas

Carmen não precisava daquilo. Pediu dispensa a Luiz Peixoto. Não voltou

mais e Vai dar o que falar, mesmo com o expurgo do quadro maldito, só se

agüentou por uma semana em cartaz.


Nada atingia Carmen. Seu começo de carreira fora tão explosivo que, em

apenas nove meses daquele ano, de janeiro a setembro, ela fizera de si

uma estrela. Apenas nesse período, enquanto as vendas de "Taí" exigiam

prensagens sucessivas, a Victor lhe dera outras 28 músicas - quatorze

discos - para gravar. Era um investimento inédito de uma gravadora

brasileira numa só artista. Significava que, a cada dezoito dias de

1930, saía um disco novo de Carmen Miranda.
Um ano antes, em novembro de 1929, quando Carmen ainda não tinha nenhum

disco na praça e só uns poucos a conheciam, Beira-Mar publicara uma foto

sua (de maio, na praia) com a legenda, "Mademoiselle" Carmen Miranda, silhueta

iluminada e galante de nossa sociedade, que será uma séria competidora

ao concurso de beleza de 1930". O jornal se referia ao concurso que

escolheria a Miss Rio de Janeiro, a qual disputaria o concurso de Miss

Brasil, e a vencedora deste, o de Miss Universo - tudo isso no Rio, no

primeiro semestre de 1930. A iniciativa de lançar Carmen parece ter

partido do jornal, embora não se possa desprezar um possível dedo de

Mário Cunha na história. Mas, entre a publicação da foto, em novembro, e

a disputa do título de Miss Rio de Janeiro, no dia 20 de março, Carmen

já não poderia ser candidata a miss, mesmo que quisesse - ficara famosa

demais como cantora.

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E, assim, em vez de desfilar pelo Praia Club, na avenida Atlântica, como

uma humilde representante da praça Quinze ou de qualquer bairro na festa

em homenagem às misses cariocas, Carmen foi a convidada de honra do

evento. "Taí" a tornara mais importante que a vencedora, que acabou

sendo a senhorita Marina Torre, ou que a beldade gaúcha Yolanda Pereira,

que, meses depois, venceria o Miss Brasil e o Miss Universo. (Não que

Carmen não pudesse ter concorrido. Como se não bastassem seus atributos

óbvios, o humorista Barbosa Júnior a definiria como tendo "um

quequequé-catrai" - um quê qualquer que atrai.)


No começo de 1930, Carmen já não chegava para os convites. Os colegas da

música exigiam sua presença nas "noites de arte" ou "de samba e violões"

que realizavam nos teatros e cinemas. Eram espetáculos em que vários

artistas se apresentavam (de graça) em torno de um deles. Em março,

cantou com Vicente Celestino numa cerimônia religiosa na Igreja do

Salete, no Catumbi; em abril, Francisco Alves a chamou para sua "noite

brasileira" no Teatro República; em maio, Pixinguinha a arrastou para a

sua "tarde do folclore" no Lyrico. Em junho, Carmen promoveu seu próprio

festival no Lyrico, para o qual convidou grandes nomes da cidade, como

os cronistas Eugenia e Álvaro Moreyra, os atores Procopio Ferreira, Alda

Garrido e Raul Roulien, os cantores Gastão Formenti e Patrício Teixeira

e a Orquestra Victor. Todos os veteranos com quem ela dividia o palco já

a viam como um deles. Os acenos para se apresentar no rádio eram agora

semanais e vinham com promessa de cachê, como os convites de Valdo

Abreu, que fazia o Esplêndido Programa, na Mayrink Veiga. O rádio

começava a sair da fase romântica e, a exemplo do futebol, vivia a época

do amadorismo marrom, em que o artista recebia por apresentação - 50

mil-réis era o maior cachê da praça, e só dois cantores valiam esse

dinheiro: Carmen Miranda e Francisco Alves.
Ali também Carmen começou sua associação com o Leite de Rosas. O

desodorante tinha sido criado no Rio havia apenas dois anos e ainda era

fabricado no quintal da casa de seu inventor, na estrada das Paineiras.

Com toda essa simplicidade, ele surpreendeu os potentados concorrentes e

foi o primeiro produto a explorar a imagem de Carmen num anúncio. Se

Carmen era sinônimo de "it", o Leite de Rosas prometia dar "it" a quem o

usasse. A campanha agradou, porque Carmen seria a garota-propaganda do

produto pelos anos seguintes. Na mesma época, Francisco Alves anunciava

o cigarro Monroe, "o único que nunca fez mal à garganta" (embora o

fizesse cuspir em seco de dois em dois minutos). Mas Carmen e Chico eram

exceções. A cidade regurgitava de celebridades do teatro, da literatura

e da música popular, mas a utilização de famosos para endossar produtos

ainda era quase inexistente na propaganda brasileira. E talvez fosse

melhor assim, porque o grosso dos anúncios em jornais e revistas

referia-se a purgantes, xaropes e remédios para brotoejas.
Mesmo nos lugares a que ia para se divertir, Carmen era obrigada a

cantar. O teatrólogo (e autor do hino do Flamengo) Paulo Magalhães

levou-a ao Praia Club, e ela teve de dar um recital. Em outra ocasião,

Arnaldo Guinle, presidente do Fluminense, convidou-a pessoalmente a se

apresentar na festa de inauguração de uma piscina de seu clube. Quando

Carmen terminou o show, o dirigente tricolor Mário Polo entregou- lhe um

cheque. Carmen nem abriu o envelope para saber o valor. Rasgou-o ali

mesmo, dizendo:

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"O Fluminense é uma sociedade amadorista. Eu não vim cantar por



dinheiro. Vim porque vim."
A partir dali, Arnaldo Guinle passou a reservar-lhe uma mesa nos bailes

a rigor do Fluminense, todos os sábados, animados pela orquestra de

Pixinguinha - que, também por causa de Guinle, era uma atração fixa do

clube. Sempre que Carmen comparecia, Pixinguinha lhe pedia um ou dois

números. Ao se ver cercada pelos amigos da orquestra - Donga, ao violão,

e sua mulher, a soprano Zaira de Oliveira; João da Baiana, ao pandeiro;

Eleazar de Carvalho, à tuba; Radamés Gnatalli, ao piano; Luiz Americano,

ao saxofone; Bonfiglio de Oliveira, ao trompete; e tantos outros músicos

de primeira -, Carmen não tinha como recusar. E como sempre acontecia

quando esses músicos a acompanhavam, nenhum deles olhava para a batuta

de Pixinguinha a fim de seguir o andamento. Olhavam para as cadeiras de

Carmen dentro dos vestidos justos e para o seu requebrado, que marcava o

ritmo tão bem quanto o maestro. Mário Cunha, que escoltava Carmen por

toda parte, perguntou a ela: "Por quanto tempo você quer ser Carmen

Miranda?" "Por muito tempo, ué! Por quê?" "Porque, se continuar assim,

vai durar pouco. Comece a recusar alguns convites."


Carmen deve ter escutado o conselho. Em agosto, ao comparecer como

espectadora à festa da eleição de "O melhor escoteiro do Brasil",

promovida pelo Diário Carioca (o que ela estava fazendo ali?), a

platéia, de caqui e calças curtas, a reconheceu e começou a gritar seu

nome, chamando-a ao palco. Dessa vez, para desgosto dos escoteiros,

Carmen se recusou.


Com tantos compromissos, gratuitos ou remunerados, a vida de Carmen

mudou. A voz tornou-se uma de suas preocupações - para proteger a

garganta, trocou os milk-shakes da Americana pelos chás da Brasileira. A

falta de tempo impediu também que continuasse a costurar suas roupas -

não abria mão de desenhar os modelos, mas contratou uma costureira, dona

Helena, para executá-los. E, nos fins de semana, continuou indo à praia

no Lido com Mário Cunha e os irmãos, mas os fãs já não lhe davam sossego

para se dedicar à sua prática favorita na areia enquanto tomava sol:

fazer croché.
Na praia ou na rua, a aproximação dos admiradores era respeitosa, mas

acontecia de um ou outro fã se exceder. Um desses afoitos foi o que se

meteu pela janela do carro de Mário Cunha para falar com Carmen, mas

cometeu o erro de fazer isso pelo lado do motorista. Mário Cunha enfiou

dois dedos no colarinho do sujeito e acelerou, arrastando-o por vários

metros pela avenida Rio Branco e quase lhe quebrando o pescoço.


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Uma coisa não mudara em Carmen. Em meados de 1930, quando os jornais já

a chamavam de "rainha do disco" e "a maior expressão da nossa música

popular", ela não via nada de mais em pegar as marmitas preparadas por

sua mãe e, vestida como estivesse, atravessar a rua e levá-las para

Pixinguinha, Donga e João da Baiana no estúdio da Victor,

impossibilitados de ir à pensão por estarem gravando. A luz vermelha da

porta se apagava, indicando o fim de uma gravação, e Carmen entrava

anunciando:


"Olha o grude, pessoal!"
Ninguém mais pensava em Carmen como "a cantora de Josué de Barros".

Agora era a Victor que lhe fornecia material escrito especialmente para

ela, com Rogério Guimarães instruindo os compositores a produzir sambas

e marchas que explorassem seu lado "ingênuo", malandro ou humorístico.

Rogério fez isso com André Filho, do que saiu "Eu quero casar com você",

e com Ary Barroso, do que resultou "Sou da pontinha" - que começava com

o verso, "Meu bem, eu dei...", e só depois se explicava: "Não sei em

quem/ Um beijinho que me fez mal". A Victor cooptou até Joubert de

Carvalho, que, sem guardar rancor pelo tratamento que a gravadora dera a

"Taí", abriu seu leque rítmico e passou a produzir ótimos sambas para

Carmen, como "Gostinho diferente" e "Esta vida é muito engraçada", e

marchinhas, como "Eu sou do barulho" e "Quero ver você chorar", estas

para o Carnaval de 1931. Foi também a Victor que tornou Carmen

"parceira" de Pixinguinha, no samba "Os home implica comigo" - a idéia

da letra pode ter sido dela, mas os versos tortos tinham todos os

cacoetes de Josué. E foi ainda a Victor que encomendou a Randoval

Montenegro o samba "Eu gosto da minha terra", dias depois de Carmen ter

traído a estratégia da gravadora de esconder sua origem portuguesa.


Carmen fizera isso em uma entrevista a R. Magalhães Júnior para a revista

Vida Doméstica, de julho de 1930, ao responder candidamente sobre se

nascera "aqui mesmo, no Rio". Antes de Magalhães Júnior, a ninguém ocorrera

fazer essa pergunta.


"Aí uma coisa interessante", disse Carmen ao repórter. "Todos que me

conhecem pensam que sou brasileira, nascida no Rio. Como se vê, sou


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2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
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